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QUEM MANDA É VÍTOR, E IRENEU SABE.

3 de abr. de 2018
5 min de leitura

Por Fábio Morais.

Duas maneiras há que nos obrigam admitir a autoridade indiscutível de alguém. Se este alguém arroga para si autoridade sobre determinadas pessoas e tais pessoas reconhecem o direito arrogado, então não há dúvidas: Temos um superior legítimo. A questão quartodecimana, sob o bispado romano de Vítor, é um desses fatos que deixam, muito claramente, consignada a autoridade do bispo de Roma sobre todas as igrejas, constituindo testemunho irreprochável do Papado em seus primórdios.

Foi no século II, por volta do ano 190.

Vejamos, rapidamente, o que se passou:

Não querendo as igrejas da Ásia Menor uniformizar-se às outras na celebração da Páscoa, determinou Vítor, bispo de Roma, excluí-las da comunhão da Igreja. A sanção pareceu demasiado severa a Irineu e a outros bispos, e a fim de impedir este lanço de rigor e estabelecer a paz, escreveu o bispo de Lião uma carta a Vítor.

A atitude de Vítor, a reação dos bispos asiáticos e a carta de Irineu, constituem os autos desse processo, onde, para os católicos, fica estabelecida a supremacia do bispo de Roma e, para os protestantes, o não reconhecimento dessa prerrogativa, impugnada, segundo eles dizem, por Irineu e por outros bispos da Igreja.

Assim Helysson Freyre, que escreve em seu blog:

” Ameaçou [Vítor ] de excomunhão às Igrejas orientais por celebrarem a Páscoa em 14 de Nisã. Polícrates, bispo de Éfeso, respondeu que não temia as ameaças de Vitor, e afirmou a independência de sua autoridade. Irineu de Lião, embora bispo ocidental e simpatizante do ponto de vista do ocidente sobre a celebração da Páscoa (isto é, que fosse em dia fixo de semana, e não em dia fixo de mês), repreendeu Vitor por pretender impor-se às igrejas orientais” (O desenvolvimento do Papado – parte I – De Lino a Leão I).

Da mesma maneira Thiago Dutra, no artigo “O relato equivocado de Irineu de Lyon”:

“Tão verdade é que fundação e papado ou primado Universal NÃO SÃO A MESMA COISA, que o mesmo Irineu que afirmou que Pedro e Paulo fundaram a comunidade cristã em Roma se levantou contra o bispo de Roma de sua época, Vítor, o qual foi severamente repreendido”

Os dois protestantes saem, pois, à liça e afirmam, muito desenxabidamente, que Vítor foi “repreendido” por Irineu. Thiago Dutra vai ainda mais longe. Para ele, Vítor foi “severamente repreendido”…

Nada disso! Helysson e Thiago, seu discípulo, não estão certos.

Bem diferente a exposição feita pela Paulus e contida na obra “Demonstração da pregação apostólica” (“Demonstratio praedicationis apostolicae”), por ela publicada e inserida na “Coleção Patrística”, dessa editora:

“A Questão Pascal, que versa sobre a data de celebração da Páscoa, gerou muitas tensões entre as comunidades do Oriente e as do Ocidente, que se tornaram mais sentidas no final do século II, época em que o papa Vítor tomou uma notável atitude. Neste momento, temos um grande posicionamento de Santo Irineu, que é também o último acontecimento de que se tem notícia a seu respeito. No começo do século II, entre 110 e 117, a questão da data da celebração da Páscoa havia sido discutida entre o papa Santo Aniceto (+166) e São Policarpo, bispo de Esmirna, Ásia Menor, que foi a Roma tratar dessa e de outras questões disciplinares. Nessa ocasião, ficou decidido que as comunidades permaneceriam segundo as suas tradições. As comunidades da Ásia Menor, a metrópole de Éfeso, liderada por Polícrates, e suas sufragâneas, costumavam celebrar a Páscoa comendo um cordeiro na tarde do décimo quarto dia de março, como fazem os judeus, e a dar-lhe, como esses, o nome de banquete pascal, e três dias depois celebravam a ressurreição, fosse ou não domingo. Conserva-se, assim, a data hebraica da festa da Páscoa, costume que vinha dos apóstolos. Nas demais comunidades, esse banquete era realizado no sábado santo, unido à solenidade da ressurreição, sempre no primeiro domingo após o décimo quarto dia de março. Os que conservavam a data hebraica são chamados de quartodecimanos. Esse costume apresentava alguns inconvenientes: interrompia o jejum e o recolhimento da semana santa; fazia a alegria dos cristãos coincidir com a dos judeus; a celebração pascal não era num domingo; escandalizava os pagãos pela divisão da Igreja e fazia-lhes confundir os cristãos com os judeus. Em Roma, havia uma comunidade de orientais, que mantinham esse costume e, assim, ressaltava-se a divergência de costumes. São Vítor I (+198), décimo primeiro bispo de Roma, por volta de 190 determinou que a Páscoa deveria ser celebrada na mesma data, tanto no Oriente como no Ocidente. Polícrates, bispo de Éfeso, escreveu ao papa Vítor afirmando que esse costume da celebração da Páscoa era tradição recebida de São João e São Filipe, apóstolos, e de São Policarpo e Melitão; este último, inclusive, compôs um tratado sobre a Páscoa. São Vítor convocou vários sínodos regionais para tratar a questão. Vários bispos reagiram contra a atitude de São Vítor. A história registrou o pujante e feliz posicionamento de Santo Irineu, que interveio em favor das comunidades orientais, pedindo que o papa Vítor guardasse a linha de seus predecessores, pois sabia que estava em jogo a vida de toda a Igreja. O papa, por fim, acolheu a argumentação de Irineu. Posteriormente, no Concílio de Niceia, em 325, foi decidida definitivamente a questão, e os orientais passaram a celebrar a Páscoa como os demais cristãos”. (ler a obra aqui http://catolicaconect.com.br/…/Patrística-vol.-33-Irineu-de…)

Vejam que não houve “repreensão” alguma a Vítor.

Irineu, definitivamente, não “repreendeu severamente” o bispo de Roma, como quer Thiago Dutra, apadrinhado por Helysson Freyre.

Eusébio de Cesareia, relatando a intervenção de Irineu, diz que este:

“EXORTA DELICADAMENTE a Vítor a não apartar da comunhão Igrejas de Deus inteiras, que conservava uma tradição de antigo uso” (História Eclesiástica, livro 5, 24,11 – maiúsculas minhas).

Que diferença! Eusébio fala de uma exortação “DELICADA”!

Mas Helysson e Thiago veem nisso uma “repreensão”, uma “severa repreensão”…

Quanto preconceito!

O que dizer da atitude desses dois protestantes ? Ignorância ou má fé ?

Como quer que seja, Irineu quis apaziguar, quis evitar uma excomunhão em massa.

E conseguiu!

Para tanto, intefereriu, respeitosamente, junto ao bispo romano.

É o que diz ainda Eusébio, comentando a postura de Irineu:

“E Irineu bem merecia tal nome, pois era pacificador pelo nome e a conduta, visto que exortava e servia de intermediário, em prol da paz entre as Igrejas” (Obra citada, livro 5, 24,18).

Irineu queria a paz!

E se fez ouvir junto a Vítor.

Ora, por quê o fez, senão porque via, no mesmo Vítor, a autoridade para excomungar as comunidades asiáticas ?

E tanto via, que, conforme o mesmo Eusébio, em citação feita há pouco:

“Exorta [Irineu] delicadamente a Vítor a não apartar da comunhão Igrejas de Deus inteiras…”

Ora, se Irineu exorta a Vítor a não apartar” é porque Vítor poderia, efetivamente, apartar!

É porque Vítor estava investido de autoridade para apartar!

É porque Vítor era Papa reconhecido!

Irineu, por conseguinte, testemunha, pela sua iniciativa, a autoridade do bispo romano sobre as demais igrejas.

Do contrário, aí sim, o repreenderia.

Mas não o fez!

Ao invés de pedir (e delicadamente!) que Vítor não excomungasse, poderia Irineu ter dito que ele não tinha o direito de fazê-lo.

Irineu fez isso ?

Não!

Não fez.

Nem Irineu, nem ninguém…

Desafio aqui os protestantes a apresentarem qualquer testemunho primitivo que negue, a Vítor, naquela ocasião, o direito de excomungar.

Não existe!

E nem se venha alegar Polícrates. Porque Polícrates não negou a atribuição de Vítor. Quis desobedecê-lo!

São coisas distintas.

E Roma, mais uma vez, desponta, à partir dos desdobramentos da História Eclesiástica, com a suprema autoridade a regular os assuntos da Igreja.

Graças a Deus que é assim…

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