top of page

SALVAR O PAPADO – Padre Santiago Martín

10 de mar. de 2022
4 min de leitura

“Ao rei, devem ser dadas a riqueza e a vida, mas a honra é património da alma, e a alma pertence apenas a Deus”. Quando Calderón de la Barca pôs esta frase na boca de Pedro Crespo na sua grande peça O Prefeito de Zalamea, não estava apenas dizendo ao rei espanhol Filipe IV que o seu poder deve ter limites, mas estava na realidade tentando salvar a Monarquia, através da própria existência desses limites. Luís XIV, o Rei Sol da França, não compreendeu isto e o seu absolutismo deu motivos para o seu bisneto e segundo sucessor, Luís XVI, tivesse a sua cabeça cortada apenas 78 anos após a sua morte.

Os excessos têm seu preço, como Newton tão apropriadamente colocou na sua terceira lei: “Cada ação produz uma reação igual (em intensidade) e oposta (em direção)”. O absolutismo e o abuso de autoridade foram os piores inimigos da Monarquia, que acabaram por dar lugar às Repúblicas ou Monarquias constitucionais, que são mais representativas do que eficazes.

Esta longa introdução vem à luz do que aconteceu esta semana com a demissão de um bispo católico, Monsenhor Daniel Fernandez, da Diocese de Arecibo, em Porto Rico. Gostaria de pensar, como São Paulo nos ensina no capítulo 13 da sua Prineira Carta aos Coríntios, que o Papa ou não tinha conhecimento ou foi mal informado. Não seria a primeira vez. Já aconteceu com o bispo de Osorno, no Chile, ou com um grupo de padres espanhóis em Granada, falsamente acusados de pederastia; em ambos os casos teve de retificar e pedir perdão.

O pior, no caso do bispo de Arecibo, foi que a sua demissão foi levada a cabo sem julgamento. Se um padre ou um bispo é acusado de um crime tão grave como o abuso de crianças, é levado a julgamento e lhe é dada a oportunidade de se defender. A Monsenhor Daniel Fernandez, por outro lado, não lhe foi dada essa oportunidade. Acusado de não estar em comunhão com os seus irmãos no Episcopado, foi demitido de imediato.

O bispo católico, em sua diocese, é o sucessor dos apóstolos e não um funcionário de alto nível de uma multinacional. Claro que ele pode ser demitido, mas primeiro deve ser julgado e as acusações contra ele ser suficientemente graves. Ele não querer forçar a vacinação contra Covid estava de acordo com a declaração do Vaticano, publicada pouco depois do início da epidemia, que aconselhava a vacinação, mas não a tornava obrigatória. Quanto a levar os seus seminaristas de um centro de formação conservadora, como o Opus Dei em Pamplona, para o liberal inter-diocesano, que tinha sido organizado em Porto Rico, o bispo tinha pedido apenas um ano para fazer a mudança, pois de fato já tinha sido anunciado, em setembro passado, que este seria o último curso em Navarra.

Em todo caso, o julgamento era irreversível, e a demissão introduz um precedente perigoso na Igreja, que leva ao desaparecimento da lei. Precisamente porque acredito no Papado como tem sido exercido, e como Bento XVI ensinou magistralmente — um Papado com autoridade, mas com limites —, lamento que tudo isto esteja acontecendo. Os abusos dos monarcas absolutos, contra os quais um monarquista como Calderón de la Barca alertou, levaram ao desaparecimento da Monarquia ou à sua transformação numa figura honorária.

A violação da lei na Igreja não só prejudica as vítimas, mas também coloca o Papado numa situação frágil, que, pela lei de Newton, pode levá-lo a tornar-se um mero “primus inter pares”, um monarca constitucional com poder efetivo apenas sobre Roma, restrito ao Grande Raccordo Anulare [anel viário que circunda o centro da capital italiana]. Para salvar o Papado, o primado do direito, na Igreja, deve ser salvo. As demissões sumárias, sem julgamento e sem possibilidade de defesa, causam mais danos à instituição do que à vítima. Aqueles de nós, que querem que o Papado sobreviva, não podem deixar de notar isto, como Calderon fez, e de lamentar o fato.

Além disso, já há sinais de que isto está ocorrendo. De que outra forma se pode interpretar a exigência do presidente dos bispos alemães de que o Papa demita o Cardeal Arcebispo de Colónia o mais rapidamente possível? Batzing está dando ordens ao pontífice, como se ele fosse o chefe e o outro o seu empregado. Para ele, o Santo Padre já nem sequer é um “primus inter pares”, mas um servo incômodo (por não estar sendo suficientemente dócil). Como interpretar as palavras do Cardeal Marx, dizendo que a moralidade sexual católica é repressiva, senão como o gesto ousado de alguém que sabe que nada lhe vai acontecer, uma vez que quem o poderia chamar à responsabilidade (por dizer que Jesus Cristo foi um opressor, ao proibir o divórcio, por exemplo) não o vai fazer?

Aqueles de nós que amamos a Igreja Católica, construída sobre a fundação dos apóstolos, e não queremos que o Papa se torne uma figura decorativa, devemos salvar o Papado. E para o fazer, é essencial salvar o primado do direito na Igreja. Os abusos acabam sempre cobrando o seu preço. “Ao rei devem ser dados bens materiais e a vida, mas a honra é património da alma, e a alma pertence apenas a Deus”. E isso foi dito por um realista.

 
 
 

Posts Relacionados

Ver tudo

Comentários


CONTATO
Avalie-nosRuimNão muito bomBomMuito bomÓtimoAvalie-nos

Agradecemos pelo envio !

© 2019 - 2023. INTERVENÇÃO DIVINA - Criado por Divino Design.

Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

bottom of page
ConveyThis