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SANTO AGOSTINHO E A PEDRA

4 de abr. de 2018
5 min de leitura

Por Fábio Morais,

É comum encontramos por aí, nos sites e blogs protestantes, a tese de que S. Agostinho repudiava a exegese católica da ‘pedra’, em Mt 16,18 e aceitava, no lugar dela, a interpretação de muitos hereges, a qual vê, naquele texto, uma referência à Cristo.

Das citações agostinianas alegadas pelos protestantes, basta que consideremos um passo das ‘Retractationes’, visto nos remeter este às outras ocasiões em que expôs o bispo de Hipona a mesma compreensão.

As ‘Retratações’, como dizem Altaner e Stuiber:

——- “Informam sobre a atividade literária de Agostinho até 427. Dão-nos a conhecer o ambiente onde foram redigidos os diversos escritos; particularmente, os que pareciam errôneos, ou sujeitos a equívocos, são corrigidos e explicados” (Patrologia’, Paulinas, São Paulo, 1972, p.418). ——-

Eis o trecho das ‘Retratações’ invocado pelos protestantes:

———– “Em certo passo disse eu do apóstolo S. Pedro que a Igreja fora fundada sobre ele como sobre uma pedra, sentido esse que também se canta pelas multidões nos versos do bem-aventurado Ambrósio, onde diz no canto do galo: Hoc ipsa petra eclesiae canente culpam diluit. Lembro-me, porém, que depois, muitas vezes, expus assim as palavras do Senhor: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, de modo que “sobre esta pedra” se entendesse daquele a quem Pedro confessara, dizendo: “Tu és o Cristo, Filho de Deus Vivo”. Assim foi que Pedro derivando o seu nome desta pedra figurava a pessoa da Igreja que sobre ela foi edificada e que recebeu as chaves do reino dos céus. Com efeito, não se lhe diz: “Tu és pedra, mas tu és Pedro”. A pedra, porém, era Cristo; Simão, tendo-o confessado, como o confessa toda a Igreja, foi chamado Pedro. Das duas interpretações escolha o leitor a que lhe parecer mais provável” (Retract.’ 1,21). ————

Por atraente que seja, tal exegese de S. Agostinho é insustentável. Pouco conhecedor do grego e totalmente desconhecedor do aramaico, ele julgou que a forma latina ‘petrus’ derivava de ‘petra’ como ‘cristão’ deriva de ‘cristo’. Mas nisto estava, como é de ver, equivocado. Soubesse S. Agostinho as línguas orientais e veria de imediato que a forma ‘petrus’, em latim, reproduz sem mais o grego ‘petros’, que significa pedra, rocha, e que a palavra grega, por sua vez, heleniza o aramaico ‘kepha’, que também significa rocha, servindo a designação, como nome próprio, ao irmão de André.

Mas será que podemos, com base na passagem do grande doutor, acima transcrita, assegurar que o filho de Mônica repudiava o primado de Pedro e dos seus sucessores?

Nunca! (1)

Ora, uma coisa é o primado em si, e que outra é a interpretação de Mt 16,18. Mesmo que concedêssemos tenha S. Agostinho repudiado terminantemente a exegese tradicional do verso mateano – o que, veremos, não é exato – tal rejeição seria apenas de uma exegese e não de uma doutrina, que tem a seu favor ainda outros textos bíblicos, textos cuja clareza não permite nenhuma contestação.

O primado de Pedro e dos bispos romanos S. Agostinho o afirma até o fim da vida.

Para ele, na Igreja Romana:

—- “…o primado da cátedra apostólica sempre existiu” (“In qua semper apostolicae cathedrae viguit principatus”) (Epist. 43,7’.). —-

Comparando o martírio de S. Cipriano com o de Pedro, diz da cátedra petrina:

—- “Quem não sabe que este primado de apostolado deve ser anteposto a todo episcopado”? (De bapt. contra donat., 2,1,2’). —-

Em outro lugar, como observa B. Bartmann, escreve que a igreja romana possui a máxima autoridade (“Culmen auctoritatis obtinuit”) e que recusar-lhe o primeiro lugar (“Nolle primas dare”) seria a maior impiedade ou uma arrogância que se destrói por si mesma (Cf. Teologia Dogmática , Vol. II, p.484.).

Do bispo S. Anastácio, que governou a Igreja de 399 a 401, disse S. agostinho que ocupava a mesma cátedra de Pedro.

Maravilhoso!

Um célebre exemplo da crença do grande bispo na supremacia do Papa vemo-lo durante o que ficou conhecido na História Eclesiástica como “Questão Pelagiana”.

Em 416, na África do Norte, reuniram-se, por influência de S. Agostinho e de seus companheiros, dois concílios (Um em Cartago e o outro em Mileve.) para tratar das doutrinas de Pelágio, monge inglês que, entre outras heresias, negava o pecado original como herança adâmica transmitida ao gênero humano. Esses sínodos regionais (não foram concílios ecumênicos) condenaram os erros de Pelágio. Foram então enviadas a S. Inocêncio, bispo de Roma, duas cartas pedindo a ratificação da sentença. Sabiam os responsáveis pelos sínodos que a decisão de Roma implicava no assentimento de toda a Igreja. Sobre a resposta de S. Inocêncio, condenando também ele o herege, disse S. Agostinho:

—- “Sobre esta causa foram enviados dois concílios à Sé Apostólica. Chegou-nos a resposta. Está terminada a causa. Oxalá acabe também o erro”( ‘Serm. 131,10’). —-

Que maravilha de atitude!

Que beleza de convicção!

Para S. Agostinho, Roma é a “Sé Apostólica”, a voz decisiva nas controvérsias, a palavra final nas questões relativas à fé cristã.

Não foi sem motivo que o famoso historiador anglicano W. Walker observou no procedimento de S. Agostinho o

—- “…reconhecimento da autoridade papal” (História da Igreja Cristã’, Aste, São Paulo, 1967, Vol. I, p. 244). —-

Claríssimo!

Quanto ao primado, pois, S. Agostinho está conosco.

O que dizer, porém, dos termos agostinianos aduzidos pelos protestantes? Teria o bispo de Hipona abraçado e depois rechaçado a exegese tradicional?

De maneira nenhuma!

Lembremos que as ‘Retratações’, como se depreende das considerações de Altaner e Stuiber, citados anteriormente, S. Agostinho não as escreveu com o intuito de “corrigir” os próprios erros, como imaginam muitos protestantes. Elas são, antes, um guia preparado por ele para as suas numerosas obras, guia no qual orienta os leitores acerca do título, finalidade, ocasião e ideia dominante de cada uma. É certo que ele ratifica ou precisa o seu pensamento onde julga necessário, mas isto não reduz a sua obra à uma mera “correção de erros”. À luz dessas ponderações, convém assinalar que, na referida passagem, S. Agostinho não afirma ter corrigido ou estar corrigindo um erro. Em parte alguma ele situa a exegese tradicional de Mt 16,18 entre as opiniões erradas que abraçou em seu itinerário de escritor cristão. Ele não diz que errou ao identificar a pedra do texto mateano com o apóstolo Pedro.

O que ele faz, então ?

Nada além de recordar que em ocasiões diferentes propôs interpretações diferentes para o mesmo verso de Mateus.

Mas S. Agostinho não se decidiu! Não descartou a interpretação clássica com nenhum argumento apodítico. Para ele, ambas as interpretações eram possíveis, tanto que exortou os próprios leitores a escolherem a que lhes parecesse melhor:

—- “… escolha o leitor a que lhe parecer mais provável”. —-

Não se pode, portanto, a rigor, sustentar que S. Agostinho se opunha à interpretação tradicional de Mt 16,18.

E o primado de Pedro, ele sempre o afirmou.

Graças a Deus que é assim…

————–

(1) Muito a propósito a observação do Pe. Franca: “Por que razão propôs S. Agostinho a segunda exegese? Acaso por não admitir o primado de S. Pedro? Talvez por julgar que eram iguais todos os apóstolos? Porventura convencido de que a supremacia de jurisdição do apóstolo privilegiado era uma usurpação humana e uma ofensa às prerrogativas de Cristo? Nada disto. O primado de Pedro, o grande doutor afirma-o do princípio ao termo de sua vida, da primeira à última de suas obras, sem sombra de hesitação… A propor como provável a nova interpretação não induziu ao santo doutor nenhuma razão de ordem teológica, tirada de objeções contra o primado de Pedro, sugeriu-lhe tão somente uma etimologia evidentemente errônea” (‘O Protestantismo no Brasil’, pp. 245-246).

(2) História da Igreja Cristã’, Aste, São Paulo, 1967, Vol. I, p. 244.

 
 
 

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