Simba, niilismo e a crise de sentido
Esses dias fui ao cinema assistir o filme Rei Leão, foi muito interessante após tantos anos rever aqueles personagens que marcaram tanto a minha infância. Quando criança, era apenas uma diversão inocente, uma historinha de um leãozinho e seus amigos pela floresta e nada mais. Mas hoje, analisando com uma mentalidade mais madura, é possível traçar algumas referências interessantes que o filme traz e que passaram despercebidas por toda a minha vida.
[ ATENÇÃO: CONTÉM SPOILER DO FILME ]
Simba é o filho de um rei, que assim como nas monarquias medievais fora criado para cumprir seu propósito perante o reino. Seus pais o criaram para ter responsabilidades, coragem e senso de dever. Sua vida era repleta de significado e tradição familiar. Mas uma inesperada tragédia acontece: após a morte de seu pai, Simba fugiu com medo e com uma culpa imputada pelo seu tio maldoso Scar, o grande vilão da história. Longe de sua família e de seu reino, ele vive uma adolescência como a de um jovem moderno. Ao conhecer a dupla de amigos Timão e Pumba, aprende a viver despretensiosamente todos os seus dias, sem se importar com o amanhã. Muda completamente seus valores, crenças e chega a se esquecer do seu grande propósito, que era ser rei, cuidar de sua família e proteger o reino. Foi impactante perceber que os amigos Timão e Pumba eram dois grandes niilistas. Com seu lema “Hakuna Matata”, que significa algo como ‘viva sem preocupações’, eles incentivavam um modo de vida displicente, sem se importar com seus deveres ou responsabilidades, apenas em busca de diversão e prazer indulgente. A vida para eles se resumia ao agora e não havia sentido pensar no futuro. Simba simplesmente abandonou sua família, amigos e tudo que ele conhecia, para viver como um animal totalmente oposto à sua própria natureza. A virada acontece quando Nala, sua grande amiga de infância, o encontra e lhe conta tudo de ruim que acontecia no seu antigo reino e à toda sua família, inclusive à sua mãe. Simba reluta grandemente em voltar, ele havia rejeitado a sua vida passada para viver segundo o lema ‘Hakuna Matata’, e não precisava mais ter nenhuma preocupação. Sua vida era boa, sem deveres ou responsabilidades. Como Peter Pan, Simba não queria crescer e enfrentar as responsabilidade da vida adulta. Mas a vida é assim, um dia você tem que crescer. Enfrentas as dificuldades faz faz parte do desenvolvimento humano, do crescimento e do amadurecimento . Aqueles que se negam a isso viram adultos infantis, velhos mimados que não assumem responsabilidades e não amadurecem.
Assim era Simba, um adulto com espírito de adolescente, com medo das responsabilidades e das dificuldades que sua verdadeira vida traria. Tendo sido influenciado de maneira negativa pelas amizades, mesmo com todo o verniz da diversão e risadas, o interior apodrecia devido a falta de propósito e significado, não muito diferente do que acontece conosco. Mas Rafiki, o macaco, com grande sabedoria e experiência, ajuda Simba a redescobrir seus caminhos, a encontrar o antigo sentido da vida, retornar a tradição familiar e voltar-se ao ensinamentos dos seus pais. Como um sacerdote que nos guia por períodos turbulentos de volta ao nosso verdadeiro lar. Simba encontra-se com seu verdadeiro eu, a sua natureza real, tudo aquilo pelo qual ele havia sido criado. Ele retorna para casa, ajuda sua família a lutar contra toda a tirania do seu tio Scar, que havia usurpado seu lugar no trono e transformado o reino de seu pai em um lugar devastado. O estranho é que, apesar do niilismo evidente de Timão e Pumba, eles ajudam a Simba a lutar contra os inimigos do seu reino, arriscando suas vidas. Isso mostra como o niilismo é raso. Apesar de não ter sentido transcendente, eles acabam cumprindo o dever que a verdadeira amizade exige, sendo fiéis ao senso moral de combater a injustiça e demonstrando amor por uma causa. A história de Simba pode ter muito em comum com a história de muitos jovens e adultos por aí. Diante de catástrofe, do choque da perda de um familiar ou outros eventos tendemos a fugir e não enfrentar nossos medos, angústias e responsabilidades. Buscamos um alívio, um lugar secreto, uma escapatória do mundo real. As vezes nos refugiamos em ideias que justificam nossa fuga de nós mesmos, que pode ser uma ideologia, como no caso do ‘Hakuna Matata’, ou outras ideias torpes que aparecem para explorar nosso lado fraco e nos levam a covardia e mediocridade. Somente quando damos valor ao que realmente importa (nossas raízes, família, valores e tradição) é que nos conectamos com nós mesmos. Todos os vícios tem raíz no amor desregrado por si mesmo. A crise de identidade do mundo moderno passa através da crise de masculinidade, com homens que se recusam a crescer e enfrentar sua responsabilidade, que vivem no sentimentalismo tóxico da juventude tardia, que pensam apenas na sua própria imagem narcisista refletida. Assim como no mito de Narciso, que se apaixona por si mesmo e pensa apenas em se satisfazer, essa visão deturpada do mundo causa sua própria derrota. Narciso morre afogado em busca da própria imagem refletida no lago, e o homem moderno morre afogado na própria vida vazia de sentido e significado. Simba retornou ao seu reino, aquilo pelo qual ele anseava e trazia sentido a sua existência. Nós aguardamos pelo nosso reino celestial, que o grande Deus preparou aos seus eleitos, que não somente traz sentido à nossa existência, mas é a própria razão dela.
Ramon Serrano
CURTA O Caminho
















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