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SOBRE A BREVIDADE DA VIDA

2 de jun. de 2020
8 min de leitura

SOBRE A BREVIDADE DA VIDA

Mostra-me, Senhor, o fim da minha vida e o número dos meus dias, para que eu saiba quão frágil sou. Deste aos meus dias o comprimento de um palmo; a duração da minha vida é nada diante de ti. De fato, o homem não passa de um sopro. Sim, cada um vai e volta como a sombra. Em vão se agita, amontoando riqueza sem saber quem ficará com ela.

(Salmos 39:4-6)

O QUE É O TEMPO?

Existem diversas maneiras de responder essa pergunta, uns podem ir por vias mais filosóficas, outros, por científicas e outros, talvez por um caminho mais prático. Mas essa é uma pergunta abrangente que não é simples de ser respondida, se é que existe uma única resposta correta. Santo Agostinho, nas suas confissões, também se questiona acerca do tempo, ele diz:

“O que é realmente o tempo? Quem poderia explicá-lo de modo fácil e breve? Quem poderia captar o seu conceito, para exprimi-lo em palavras? No entanto, que assunto mais familiar e mais conhecido em nossas conversações? Sem dúvida, nós o compreendemos quando dele falamos, e compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. Por conseguinte, o que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; porém, se quero explicá-lo a quem me pergunta, então não sei. ” [1]

Podemos não saber muito sobre o que é o tempo, mas de uma coisa com certeza sabemos, o tempo foi criado por Deus para sua glória. Somente aquele que é eterno e fora do tempo teria o poder de cria-lo.

Deus nos presenteou com essa dádiva do tempo. É muito comum associarmos tempo a vida, geralmente dizemos que a vida é curta, pois nosso tempo é de fato limitado, e quando nosso tempo acabar, significa nosso fim.

Isso é uma coisa sobre a qual nem sempre refletimos. Sabemos que nosso tempo é curto e a vida breve, mas nem sempre de fato encaramos a vida com isso em mente. A Bíblia nos diz que somos “como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. ”[2] Mostrando o quão breve nosso tempo de vida pode ser. O versículo seguinte nos diz como deveríamos fazer, temos que entregar nossos caminhos a Deus, pois ele é o Senhor do tempo, pois somente se “o Senhor quiser, faremos isso ou aquilo.”

E o que temos feito com esse tempo? Deus nos abençoou com um recurso maravilhoso e escasso, algo precioso, que precisa ser muito bem cuidado. Por mais rica que uma pessoa possa ser, se existe uma coisa que ela não pode comprar é o tempo. Esse bem tão valioso que não pode nem mesmo ser comprado, foi concedido gratuitamente a cada pessoa, de modo único, para ser usufruído com bastante sabedoria.

O TEMPO E O REINO

Como temos preenchido nosso tempo? Muitas vezes temos a sensação de que aproveitar o tempo é ter muitos compromissos, é estar com a agenda cheia e só ter um descanso quando for dormir. Temos uma falsa sensação de produtividade! Ou, como também acontece com frequência, procrastinamos nossas atividades, desperdiçamos tempo com coisas banais, jogamos horas e mais horas no lixo de forma displicente.

Nos sentimos sufocados, ou pela quantidade de compromissos, ou pela ansiedade ao procrastina-los, pois sabemos que estamos agindo errado. Gastamos tanto tempo com nossas agendas, ou o desperdiçamos em nossas trivialidades, mas o quanto temos usado desse tempo em nossa vida espiritual? O quanto do nosso tempo temos entregado de volta ao doador do tempo? O quanto demos usado do nosso tempo para glorificar o nome de Deus?

Não se trata de passar 24h lendo a Bíblia ou cantando os Salmos, mas apenas de mensurar o quanto o reino de Deus ocupa em nossa vida. O Reino de Deus tem feito parte dos nossos compromissos?

Sabemos da limitação do nosso tempo, mas mesmo assim o desperdiçamos, e um bom exemplo disso são as redes sociais. Nos perdemos em vãs discussões, olhando a vida de outras pessoas, ou querendo construir uma imagem daquilo que não somos, para impressionar quem não conhecemos. Quanta vaidade! E ainda nos queixamos de falta de tempo.

Precisamos ter sabedoria para administrar o nosso tempo. Se temos consciência de quão breve é a nossa vida, devemos ter também a consciência de que desperdiça-la é um grave erro.

E um fato não menos importante, também precisamos de um tempo de solidão, um tempo de silêncio, onde podemos refletir sobre a vida e pensar sobre as questões últimas. É um tempo para contemplarmos a Deus, ouvir a sua voz, e estar com os pensamentos somente Nele. Jesus sempre se retirava da multidão para orar, buscava um lugar de silêncio para ouvir a voz do Pai e estar em sua Presença.

Às vezes é preciso desacelerar, contemplar os lírios do campo, e as aves do céu. Pois de que adianta pensar que estamos ganhando a vida, quando de fato estamos perdendo-a, vivendo de maneira displicente. É preciso lembrar que a neblina logo se dissipará.

LEMBRA-TE DE QUE ÉS MORTAL

Tempos atrás li uma expressão que me chamou muito a atenção e me levou a reflexão, a frase ‘Memento Mori’. Essa era uma frase utilizada pelos monges na idade média, que significa algo como “Lembra-te de que es mortal”, ao qual era respondida com Carpe Diem, que significava “aproveite a vida”, para recordar que a efemeridade da vida não deve ser preenchida com vaidades e tolices, pois na vida tudo passa, inclusive a própria vida.

Isso se mostra em grande oposição ao espírito de nossa época. Hoje em dia transformaram o significado do Carpie Diem medieval em puro hedonismo moderno, que se tornou quase um mantra na busca pelo prazer incessante. Isso se deve ao fato de que a sociedade de hoje não sabe lidar com a morte, por isso inventa todo tipo artifício para posterga-la ou mascará-la, e isso pode ser claramente percebido em nossa cultura. Desde cosméticos e intervenções cirúrgicas tão amplamente propagadas que dizem preservar a sua juventude, até músicas e filmes. Quem nunca ouviu aquela famosa música do Queens, “ Who wants to live forever? ” (Quem quer viver para sempre?), ou outro grande sucesso do Alphaville, “ Forever Young”? (Para sempre jovem.)

O que tudo isso nos mostra? Que vivemos numa cultura que sem esperanças na redenção futura, carentes de consolo celestial, por isso buscam sua imortalidade nesse mundo, porque o aqui e agora é tudo que eles têm. E o que diz o apóstolo Paulo daqueles que não tem esperança? “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”.[3]

Perceba como a cosmovisão é importante. A sociedade moderna está mais preocupada em viver o momento, buscando os prazeres imediatos e em maneiras de manter sua mente longe de pensamentos mais profundos, como a morte, por isso todo o esforço é feito de modo a esconde-la.

Mas nós cristãos não podemos encarar a vida com essa perspectiva de adolescentes imortais, é preciso enfrentar a realidade.

A Bíblia nos diz que “certamente morreremos, e seremos como águas derramadas na terra que não se ajuntam mais. ” [4] Não há como viver uma boa vida sem ter isso em mente. Como diz o salmista: “Que homem há, que viva, e não veja a morte? ” [5] Somos mortais, precisamos lembrar disso.

O filósofo Sêneca tem reflexões interessantes sobre essa questão, ele diz: “ Quantos não terão esbanjado tua vida, sem que percebesses o que estavas perdendo; o quanto de tua vida não subtraíram sofrimentos desnecessários, tolos contentamentos, ávidas paixões, inúteis conversações, e quão pouco não te restou do que era teu! Compreendes que morres prematuramente. Qual é, pois, o motivo? Vivestes como se fósseis viver para sempre, nunca vos ocorreu que sois frágeis, não notais quanto tempo já passou; vós o perdeis, como se ele fosse farto e abundante.” [6]

Outro grande filósofo, Louis Lavelle, diz que: ” Só temos consciência de haver sido felizes quando já não mais o somos.” [7] E isso também pode ser aplicado a nossa vida. Só temos consciência de quanto desperdiçamos nosso tempo, quando estamos próximos a perde-lo por completo, e aí, pode ser tarde demais.

Esse é um grande problema, achamos que iremos viver para sempre e iremos ter todo o tempo do mundo nessa terra, por isso somos tão apegados a ela a ponto de não perceber o desperdício de nossa vida. Desde que o pecado entrou no mundo, e com ele a morte, o ser humano tem limite de dias. Sim, nossos estão contados! A própria Bíblia nos diz que há um “tempo de nascer e tempo de morrer. “ [8] E que “Deus estabeleceu o número de dias do o homem, que ele não pode ultrapassar”.[9] Todos iremos morrer, ninguém irá viver para sempre, e isso não é novidade para ninguém. Uma pessoa tem somente duas certezas na vida; uma é que ela vive, a outra é que irá morrer.

E o que impede que esse “tempo de morrer” não seja amanhã? Quem é garante que serão longos os seus dias? Quem te assegura que seus planos serão cumpridos? Tudo está nas mãos de Deus.

Em seu livro Preparação para morte, Santo Afonso diz que as pessoas “receiam a morte infeliz; mas não temem levar a vida má.” [10] Não raro vemos pessoas apenas preocupadas em relação ao sofrer na hora da morte, mas não se importam em viver uma vida entregues ao pecado. O contrário é que deveria ser verdadeiro. A Bíblia nos diz para não nos atentar “nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas.” [11] Paulo coloca toda nossa vida em perspectiva com a eternidade. Para um cristão, toda dor, angústia e aflição serão temporais, portanto, não devemos ter medo da morte. Lembremos das palavras de Cristo: “ No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo! Eu venci o mundo”. [12]

Fomos comprados por um alto preço, preço de sangue derramado na cruz. Cristo pagou nossa dívida entregando a si mesmo por nós, Ele remiu o nosso tempo. A sua morte e ressurreição, nos diz que apesar de ainda nosso tempo ser breve nessa terra, Cristo abriu os portões da eternidade para nós.

Devemos olhar a vida com olhos mais urgentes, tendo sempre a realidade da morte diante de nós. Mas de maneira alguma isso deve produzir desespero, pois o desespero pertence a aqueles que não tem esperança na vida eterna. Nós temos nos céus a certeza da eternidade, uma morada celestial com nosso Salvador. Cristo nos assegurou: “Vou preparar-vos lugar… e virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo. ” [13] Nessa morada, não haverá mais choro e nem dor, nem o tempo a nos consumir, apenas a eternidade gloriosa, desfrutando da presença de Cristo.

Nunca podemos nos esquecer que somos peregrinos nessa terra, como está escrito “não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura. ” [14] O mundo tenta nos convencer que esse lugar é a nossa única e final morada, mas nosso lugar é a eternidade com Deus, e essa é a nossa única alegria e o nosso anseio. A morte, na visão cristã já foi vencida, ela não possui domínio sobre nós e seu reino já foi derrubado, portanto, não devemos teme-la, mas encará-la bravamente, pois lutamos contra um inimigo já derrotado.

O nosso coro não é de “ Quem quer viver para sempre”, mas sim “Onde está, ó Morte, a tua vitória? Onde está, ó Morte, o teu aguilhão? [15]

Essa é a nossa certeza e esperança, a morte nada é para quem pertence a Cristo.

Portanto, meus amados irmãos, permanecei firmes e que absolutamente nada vos abale.” [16]

Autor: Ramon Serrano

[1] AGOSTINHO, Santo. Confissões Livro XI Cap XIV.

[2] Tiago:4:14

[3] 1 Coríntios 15:32

[4] 2 Samuel 14:14

[5] Salmos 89:48

[6] SÊNECA. Sobre a Brevidade da Vida p.5

[7] LAVELLE, Louis. O Mal e o Sofrimento p.6

[8] Eclesiastes 3:2

[9] Jó 14:15

[10] LIGÓRIO, Afonso Maria de. Preparação para morte p.44

[11] 2 Coríntios 4:18

[12] João 16:33

[13] João 14 2:3

[14] Hebreus 13:14

[15] 1 Coríntios 15:55

[16] 1 Coríntios 15 57:58

 
 
 

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