Sorte, Fortuna ou Destino: a paganização da Providência divina
Aquilo que cremos tem influência em como vemos e interpretamos o mundo, impactando nossa maneira de viver e agir em sociedade. A isso é atribuído o nome de Cosmovisão. Segundo o professor Ronald Nash: “cosmovisão é um conjunto de crenças sobre as questões mais importantes na vida. (…). É um esquema conceitual pelo qual, consciente ou inconscientemente, aplicamos ou adequamos todas as coisas em que cremos, e interpretamos e julgamos a realidade.” [1]
Esse esquema de crenças é um compromisso arraigado no coração do homem. Não me refiro ao coração como comumente se crê nos dias de hoje, como algo sentimental e avesso a razão, mas como o filósofo holandês Herman Dooyweerd define, como ” raiz e centro religioso de nossa existência e experiência humanas em sua inteireza.”[2]
Esse compromisso do coração permeia culturas e filosofias através dos séculos, e através dele podemos ver como o homem vive e se relaciona com a divindade. Essa relação do homem com o futuro, o destino das coisas e seu desenrolar na história, tem íntima relação com sua cosmovisão.
O mundo foi pensado, criado e ordenado por Deus. Todo ato de Deus que vemos narrado nas Escrituras são intencionais. Deus escolhe criar, Deus escolhe nos amar, Deus escolheu seu povo, Deus levantou seus profetas e Deus enviou seu filho. Não há nada que Deus faça que seja feito a esmo, ao acaso ou por forças cegas. Ele é o autor, direcionador e o Senhor da história. Isso contrasta com a forma que alguns povos enxergavam a divindade, impactando na sua própria maneira de ver o mundo, como por exemplo a crença greco-romana.
A mitologia greco-romana não possui um Deus que cria algo a partir do nada, então o mundo na concepção deles foi moldado da matéria pré-existente. Para muitos deles, forças misteriosas atuavam no fluxo vital, não seguiam uma ordem racional, mas agiam segundo o Anangké, o destino cego e imprevisível. Por isso, o filósofo grego Cleanto escrevia: “Guia-me, Júpiter, e tu, Destino, ao fim, seja qual for, que vos praza assinalar-me. Seguirei imediatamente, pois se me atraso, por ser vil, mesmo assim deverei alcançar-vos”. Sêneca dirá, traduzindo o verso de Cleanto com sentença lapidar: “O destino guia quem o aceita, e arrasta quem o rejeita”. [3] Em outro livro, o filósofo Sêneca diz: “Com efeito, nosso término se situa onde a inexorável força do destino o fixou.” [4]
Para esses filósofos estoicos, o Destino era uma força cega, algo impessoal que acontecia aos homens não impostasse o quê. Nessa visão, cabe ao homem saber lidar com seu destino da melhor maneira, sendo impassível e tendo autocontrole da situação. Já que tudo era força de um grande acaso cósmico, não tinha para quem apelar por socorro ou misericórdia, era necessário encarrar todas as circunstâncias sem perder o controle de si, pois afinal, nada iria mudar. Com isso, o estoicismo acabou adquirindo uma aura fatalista e impessoal.
Avançando na história, vemos que o conceito secularizado da providência permanece. No famoso livro de Nicolau Maquiavel, O Príncipe, o vemos ser exposto agora com o nome de Fortuna. A Fortuna era um destino cego que se apresentava, e no qual grandes homens se tornam verdadeiramente grandes demonstrando sua virtude ao aproveitar esse “momento de sorte” da melhor maneira. A Fortuna apresenta a ocasião, e pela própria virtude e força, o homem a transforma em algo benéfico para si. O príncipe, aqui podendo representar qualquer governante ou líder, pode e deve usar de quaisquer métodos que possa resultar em benefício das suas ações planejadas. É de Maquiavel que vem o conceito de que ‘os fins justificam os meios’, já que, o que de fato importa são os fins últimos e práticos das ações realizadas. Se os objetivos são atingidos, pouco importa como. Em sua argumentação, Maquiavel usa a história de Moisés: “Era, pois, necessário que Moisés tivesse encontrado o povo de Israel escravizado e oprimido pelos egípcios para que eles, a fim de escapar à servidão, se dispusessem a segui-lo.” [5] Pois caso não houvesse opressão, não haveria necessidade de libertação, e não seria necessário a virtude de Moisés, “pois, sem essa ocasião, a virtude de seus espíritos se extinguiria”. [6]
Vemos que para exercer a virtude – não confunda o conceito de virtude de Maquiavel com o conceito cristão – é necessário que a Fortuna se apresente, e através do livre-arbítrio, nos colocamos adiante na situação e agimos de modo a tornar aquele momento em algo grandioso e heroico. Para Maquiavel, Moisés só foi grande, pois soube agir de maneira correta diante da ocasião que a Fortuna lhe apresentou. Ele diz: “a fortuna decide sobre metade de nossas ações, mas deixa a nosso governo a outra metade, ou quase.” [7].
Para a visão Maquiavélica, a Fortuna rege o mundo, ao homem cabe usa-la apropriadamente. Não há espaço para Deus, não há sequer possibilidade de interferência divina, mesmo apesar de Maquiavel não saber de onde vem e nem para onde vai a Fortuna, ou o que ela realmente é, mas ele parte de pressupostos de que Deus não está por trás de nada disso.
A visão cristã é o total oposto das apresentadas. O Deus cristão é o autor e sustentador da criação. Ele é um criador pessoal que ama e cuida das suas criaturas. Como diz a Escritura: “Eu fiz a terra e criei nela o homem; as minhas mãos estenderam os céus, e a todos os seus exércitos dei as minhas ordens.” [8] A questão da Providência divina é amplamente arraigada nas Escrituras. As histórias de homens como Abraão, Moisés e Davi, mostram que Deus transforma o improvável em fato. Abraão ouviu a voz do Senhor o dizendo para ir rumo a uma terra desconhecida, teve filhos em sua velhice e foi pai de uma grande nação. Moisés libertou o povo, José de escravo virou governador, Davi de pastor, se tornou um grande rei. Nada disso teria ocorrido se não fosse a mão de Deus conduzindo a história de acordo com seus propósitos. Como afirmou Santo Agostinho “é a divina Providência que dirige o universo.” [9]
Não podemos crer que domamos nosso destino, que somos nossos próprios senhores ou que temos controle sobre o futuro. Isso de maneira alguma significa ficar de braços cruzados, mas reconhecer a soberania de Deus na história.
Outro grande filósofo, Tomás de Aquino, classifica a Providência como “à razão da ordem dos seres para um fim.” [10] E este fim seria Deus, que ordena a história para seu fim último de acordo com sua vontade. Para o reformador João Calvino, “qualquer evento é governado pelo conselho secreto de Deus.” [11] Pois vem dos lábios do próprio Deus que se até as ervas do campo são vestidas pelo Criador, então Ele “não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé?”. [12]
Não reconhecer a mão de Deus na criação, é limitar o seu poder e querer carregar em seus próprios ombros o seu destino. Isso pode nos causar muitas angústias e ansiedades. Essa é conclusão que alguns filósofos existencialistas chegaram ao negar a própria existência de Deus.
Portanto, uma vez negado Deus e sua Providência, cabe agora ao homem a responsabilidade de sua existência, não somente sua, mas também as dos outros a sua volta. Essa liberdade absoluta é angustiante. O Especialmente no existencialismo ateu de Sartre, que diz que “o homem é liberdade”.[13]
Pois sem a existência de Deus, “não encontramos valores que possam legitimar nossa conduta.” [14] Então estaria o homem condenado a ser livre, carregando sobre si o peso da sua existência, o que para o próprio Sartre era motivo de angústia, como o mesmo admite: “E minha liberdade se angustia por ser o fundamento sem fundamento dos valores.” [15] A visão cristã de Calvino contrapõe ao desespero ateu de Sartre, vemos que na cosmovisão cristã, Deus fornece as estruturas que mantém o homem em seu próprio eixo: “Quando, porém, essa luz da Divina Providência uma vez dealbou ao homem piedoso, já não só está aliviado e libertado da extrema ansiedade e do temor de que era antes oprimido, mas ainda de toda preocupação. Pois assim como, com razão, se arrepia de pavor da Sorte, também assim ousa entregar-se a Deus com plena segurança.” [16]
Confiar na Providência divina alivia nossa alma dos anseios da vida, é confiar tudo nas mãos de quem governa o mundo, que seja na dor ou alegria, miséria ou bonança, é somente a Deus que pertence o governo da história. Para um cristão, acaso, destino, sorte ou fortuna não existem, como o próprio Calvino diz “sorte e acaso são termos dos pagãos”. [17] São termos dos pagãos pois eles não possuem um criador onipotente e pessoal, não conhecem ao Deus soberano do universo.
A providência de Deus não exclui o uso da prudência, dos meios de proteção e socorro, mas nos faz confiar unicamente naquele que tem o poder e a sabedoria para guiar o curso da história. Ou, como melhor explicado: “Deus é quem estabelece limites à nossa vida em sua providência, mas isto não quer dizer que não devamos fazer uso dos meios e remédios que ele tem nos dado para a preservação de nossa vida, sendo a prudência um instrumento do cuidado divino. A providência não nos desculpa por nossos pecados.” [18]
Nada acontece sem a vontade de Deus. Podemos não compreender os motivos das coisas acontecerem devido a nossa limitação, “Pois, quem conheceu a mente do Senhor? Quem se tornou seu conselheiro?”[19] Mas não podemos a partir da nossa ignorância, tirar conclusões erradas a respeito da realidade.
Vimos que diferentes modos de ver o mundo podem nos levar a ter concepções das mais variadas sobre nós mesmos, inclusive sobre os acontecimentos da nossa vida e como lidamos com eles. A doutrina da Providência divina é algo que livra o cristão de querer mover o mundo com as mãos, nos faz descansar em Deus e confiar em seus planos. As ansiedades muitas vezes brotam de preocupações sobre circunstâncias que nunca irão se realizar, e mesmo que se realizem, não temos domínio sobre elas.
As diferentes formas de se lidar com a realidade, produz diferentes resultados práticos em nossa vida. Nossa cosmovisão é uma poderosa lente através da qual enxergamos e interpretamos a realidade. A paganização do conceito de divindade, pode nos conduzir por tortuosos caminhos, nos afastando as verdades eternas das Escrituras e nos alienando do Deus criador. Nada melhor do que se voltar ao Deus eterno e deleitar-se na sua soberania, confiando plenamente nossos caminhos a Ele.
Ramon Serrano
Referências:
[1] NASH, Ronald Cosmovisões em Conflito p.25
[2] DOOYWEERD, Herman. No crepúsculo do pensamento ocidental p. 183
[3] REALE, Giovanni. História da Filosofia vol 1 p.304
[4] SÊNECA, Edificar-se para morte p.103
[5] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe p.46-47
[6] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe p.46
[7] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe p.107
[8] Livro de Isaías 45:12
[9] AGOSTINHO, O Livre-Arbítrio p.17
[10] AQUINO, Tomás. Suma Teológica Q.22 art.1
[11] CALVINO, João As Institutas da religião cristã Livro I. Cap.16
[12] Evangelho segundo Mateus 6:30
[13] SARTRE, Jean-Paul O existencialismo é humanismo p.7
[14] Ibid p.7
[15] SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica p.82
[16] CALVINO, João As Institutas da Religião Cristã, Livro I.Cap 17
[17] CALVINO, João As Institutas da religião cristã Livro I. Cap.16
[18] FERREIRA, Franklin, MYATT, Alan, Teologia Sistemática p.322
[19] Epístola aos Romanos 11:34
















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