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São João Damasceno Exalta Maria Santíssima

16 de fev. de 2018
19 min de leitura

SÃO JOÃO DAMASCENO EXALTA A NATIVIDADE DE MARIA SANTÍSSIMA

“Que Nestório se enrubesça e tape a sua boca. Essa Criança é Deus; portanto, como poderia Maria não ser a Mãe de Deus, sendo que foi Ela quem O colocou no mundo?”

“Se alguém não reconhece por Mãe de Deus a Santa Virgem, está separado da divindade”

“Aqueles que confessam a tua maternidade divina são benditos, e malditos aqueles que a negam”.

Do humilde monge e presbítero João Damasceno, discurso para o nascimento de Nossa Senhora Santíssima, a Mãe de Deus e sempre Virgem Maria.

1. Vinde, ó nações, vinde, homens de todas as raças, línguas e idades, de todas as condições: com alegria celebremos a natividade da alegria do mundo inteiro! Se os gregos destacavam com todo o tipo de honras —agraciando com os dons que cada um podia oferecer — o aniversário das divindades, impostos aos espíritos por mitos mentirosos que obscureciam a verdade, e também o faziam com o aniversário dos reis, mesmo quando muitos dentre estes eram o flagelo de toda a existência, quão maior é a razão para honrarmos o aniversário da Mãe de Deus, por quem toda a raça mortal foi transformada, por quem o castigo de Eva, nossa primeira mãe, foi transmudado em alegria! Com efeito, se a primeira pessoa a ouvir o decreto divino foi uma mulher, Eva: “Darás à luz no meio das dores”, a segunda, Maria — nova Eva —, por sua voz, ouviu esta outra, da parte de São Gabriel: “Alegra-te, ó Cheia de Graça”. À primeira foi dito por Deus: “Serás submissa a teu marido”, ao passo que à segunda foi dito por São Gabriel: “O Senhor está contigo”. Que homenagem, então, poderemos oferecer à Mãe do Verbo, senão outra forma de saudação, uma nova palavra de louvor? Que a criação inteira se alegre e festeje, e cante a natividade dessa santa mulher, porque foi Ela quem gerou para o mundo um tesouro imperecível de bondade; também porque foi por meio d’Ela, ou seja, pela mediação da humanidade, que o Criador mudou toda a natureza para um estado melhor. Isso porque, se o homem, que está a meio caminho entre o espírito e a matéria, é o vínculo que toda a criação, visível e invisível, o Verbo criador de Deus, unindo-se à natureza humana, também se uniu, por meio de Maria Santíssima, a tudo que é criado. Festejemos, pois, a cessação da esterilidade do que é humano, já que, por Maria, fomos curados da enfermidade que nos privava da posse dos bens eternos.

2. Mas porque nasceu a Virgem Maria de uma mulher estéril, como era Ana? Àquele que é o único verdadeiramente novo debaixo do sol, isto é, ao Redentor Divino, como coroamento das Suas maravilhas, deviam ser preparados os caminhos por outras maravilhas, a fim de que, gradativamente, as realidades mais baixas se elevassem em direção às mais altas. Eis aí a razão, mais alta e mais condizente com o próprio Deus: a natureza cedeu o lugar à graça, pois, em face desta, teve um sobressalto, e compreendeu que já não lhe era devida a primazia. Como a Virgem Mãe de Deus devia nascer de Ana, a natureza não ousou adiantar-se ao que seria fruto da graça, permanecendo, pois,sem fruto, até que a graça aportasse o seu, que seria efeito de um milagre. Sim, convinha que fosse primogênita aquela que deveria gerar “o Primogênito de toda a criação, no Qual tudo subsiste”. Quão venturoso casal, Joaquim e Ana! Toda a criação está em dívida para com ambos, porque foi por esse intermédio que pôde oferecer ao Criador o dom — entre todos excelso — de uma Mãe venerável, a única digna d’Aquele que A criou. Ditosa a natureza de Joaquim, de onde saiu uma semente totalmente imaculada, e admirável o seio de Ana, em cujo interior se desenvolveu lentamente, formou-se e nasceu uma tão santa criança!… Ó entranhas que levastes um céu vivo, mais vasto que a imensidade dos céus! Ó santo moinho onde foi amassado o Pão vivificante, segundo as próprias palavras de Cristo: “Se o grão de trigo não cair na terra e morrer, ficará só”. Ó bem-aventurado seio, que amamentastes Aquela que foi o alimento d’Aquele que sustenta o mundo! Maravilha das maravilhas, paradoxo dos paradoxos! Sim, a inexprimível Encarnação de Deus, cheia de complacência para com a nossa natureza, devia ser precedida por estas maravilhas. Mas, o que ainda haveria a dizer? O meu espírito está aturdido, oscilando entre o temor e o amor. O meu coração palpita e a minha língua se move: não posso conter em mim a alegria, as maravilhas arrojam-me por terra, o transbordamento de ardor me impele a um arrebatamento divino. Que o amor vença; que o temor desapareça e que cante a cítara do Espírito: “Alegrem-se os céus, exulte a terra!”.

3. Hoje as comportas da esterilidade tornaram-se férteis, e um pórtico virginal e divino avança: a partir de Maria, por meio d’Ela, o Deus que está acima de todos os seres deve “vir ao mundo”, e “sob forma corpórea”, segundo a expressão de Paulo, confidente dos segredos inefáveis. Hoje, da raiz de Jessé saiu um ramo, de onde surgirá para o mundo uma flor substancialmente unida à divindade.

Hoje, a partir da natureza terrena, um céu se consolidou sobre a terra por obra d’Aquele que outrora fizera a separação entre a água e a terra, elevando o firmamento nas alturas. Agora, trata-se de um céu verdadeiramente mais divino e mais elevado que o primeiro, porque Aquele que, no primeiro céu, criara o sol, elevou-Se, por intermédio de Maria, a Si próprio neste novo céu, como um Sol de Justiça. Sim, há n’Ele duas Naturezas, apesar de todas as loucuras que proferem os acéfalos [NOTA: estúpidos], e uma só Pessoa, pouco importa que os nestorianos se enfureçam!…

A Luz eterna, proveniente da Luz eterna antes de todos os séculos, o Ser, imaterial e incorpóreo, tomou um corpo desta mulher (Maria), e como um esposo que se projeta de seu tálamo, assim fez Deus, tornando-Se como tal filho da raça terrena. Como um gigante, Ele Se alegra de percorrer os caminhos da nossa natureza, encaminhando-Se, pelos Seus sofrimentos, para a morte, para agrilhoar o homem “de espírito forte”, expurgando-o, por assim dizer, de sua natureza decaída, reunindo na terra celestial as ovelhas errantes.

Hoje, o “Filho do Carpinteiro”, O Verbo, Aquele por Quem todas as coisas foram feitas, que jamais cessa de agir no universo inteiro, o Braço Poderoso do Deus Altíssimo, querendo aguçar, pelo Espírito — que é como se fosse o Seu dedo — a lâmina embotada da natureza, construiu para Si uma escada viva, cuja base está cravada na terra, sendo que, ao mesmo tempo o cimo toca os céus: é Deus Quem repousa sobre a escada!Foi essa a escada que Jacó contemplou; por esse meio, Deus condescendeu em mover-Se de Sua eterna imobilidade, ou melhor, inclinou-Se com condescendência, tornando-Se assim “visível sobre a terra, e conversando com os homens”. Esses símbolos representam a Sua vinda ao meio de nós, a Sua complacente sujeição, ou seja, a sua existência terrena, o verdadeiro conhecimento d’Ele próprio, dado a todos aqueles que estão sobre a terra. A escada espiritual, a Virgem, está plantada na terra, pois na terra Ela tem a sua origem, mas a sua parte mais alta eleva-se até ao céu. A cabeça de toda a mulher é o homem, mas para a Virgem, que não conheceu homem, o Padre Eterno ocupa o lugar de Sua cabeça: pelo Espírito Santo, Ele concluiu uma aliança e, como semente divina e espiritual, enviou o Seu Filho e Verbo, força onipotente. Em virtude do beneplácito do Pai — não por uma união natural, mas superando as leis da natureza —, pelo Espírito Santo e pela Virgem Maria, foi que o Verbo Se fez carne e habitou entre nós. É por onde vemos que a união de Deus com os homens se cumpre pelo Espírito Santo.

“Quem puder entender; que entenda”; “aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça”. Descartemos as representações corporais: a divindade jamais sofreu mudança. Ó homens! Aquele que sem alteração gerou Seu Filho da primeira vez, segundo a natureza, sem alteração, gera-o de novo, segundo a economia da graça. Disso dá testemunho a palavra de David, antepassado de Deus: “O Senhor disse-me: ‘Tu és Meu Filho, Eu hoje te gerei’”. Ora este “hoje” não teria o menor sentido na geração antes de todos os séculos, pois esta se deu fora do tempo.

4. Hoje é edificada a Porta do Oriente, que dará a Cristo “entrada e saída”, e “essa porta estará fechada”. [NOTA: Refere-se a uma Basílica que se converteria mais tarde na Igreja de Santana (século XII); São João Damasceno dirigiu-se à Virgem Menina nestes belíssimos termos: “Eu te saúdo, santuário divino na Mãe de Deus; Deus te Salve, Maria, dulcíssima filha de Ana”. Ainda que o Novo Testamento não relate dados diretos sobre a vida da Virgem Maria, uma tradição oriental venerou seu nascimento desde meados do século V, fixando-se esse culto no local da atual Basílica de Sant’Ana, em Jerusalém. A festa passou para Roma no século VII, e foi aprovada pelo Papa Sérgio I. Sua festa de celebração não tem uma origem clara, mas motivou que a festa da Imaculada Conceição fosse celebrada dia 8 de dezembro (9 meses antes)]. Nela está Cristo, “a Porta das Ovelhas”, e “o Seu nome é Oriente”: por Seu meio tivemos acesso ao Pai das Luzes. Hoje sopraram as brisas anunciadoras duma alegria universal. Alegre-se o céu nas alturas, que debaixo dele “exulte a terra”, que os mares do mundo saibam bramir, porque no mundo acaba de ser concebida uma concha, a qual, pelo clarão celeste da divindade, conceberá em seu alvéolo, gerando a pérola inestimável, que é Cristo. Dela sairá o “Rei da Glória”, revestido da púrpura de sua carne, para “visitar os cativos” e “proclamar a libertação”. Que a natureza transborde de alegria: a cordeirinha vem ao mundo, graças à qual o Pastor revestirá a ovelha, tirando-lhe as túnicas da antiga mortalidade. Que a virgindade exulte de alegria e cante hinos de júbilo., pois nasceu a Virgem que, segundo Isaías, “conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emmanuel, o que quer dizer ‘Deus conosco’”. Aprendei, ó Nestorianos, e reconhecei a vossa clamorosa derrota: “Deus conosco”! Não é só um homem, nem apenas um mensageiro, mas o Senhor em Pessoa que virá e nos salvará.

“Bendito o que vem em nome do Senhor”, “o Senhor é Deus, e nos apareceu”; “celebremos uma festa”, pois, para o dia do nascimento da Mãe de Deus. Rejubilai-vos, Ana, “estéril que não davas à luz; rides de alegria e de júbilo, vós que não tiveste as dores de parto”! Rejubilai-vos, Joaquim: de vossa filha,“um menino nos nasceu, um filho nos foi dado (…) e ser-lhe-á dado este nome: Anjo do grande Conselho (quer dizer, Salvação do Universo), Deus Forte”. Que Nestório se enrubesça e tape a sua boca. Essa Criança é Deus; portanto, como poderia Maria não ser a Mãe de Deus, sendo que foi Ela quem O colocou no mundo?“Se alguém não reconhece por Mãe de Deus a Santa Virgem, está separado da divindade”. A frase não é minha, mas eu a fiz minha: recebi-a, como precioso tesouro e herança teológica do meu pai Gregório, o Teólogo.

5. Ó Joaquim e Ana, casal bem-aventurado e verdadeiramente sem mancha! Pelo fruto colhido de vossa união fostes reconhecidos, segundo a palavra do Senhor: “Pelos seus frutos os reconhecereis”. A vossa conduta foi agradável a Deus e digna d’Aquela que de vós nasceu. Tendo levado uma vida casta e santa, engendraste a joia da virgindade, Aquela que deveria permanecer Virgem antes, durante o parto e depois do parto, a única sempre Virgem de espírito, de alma e de corpo. Convinha, de facto, que a virgindade saída da castidade e produzisse a Luz única e homogênea, corporalmente, pelo beneplácito d’Aquele que A gerou sem corpo — o Ser que não gera, mas que é eternamente gerado, para Quem ser gerado é a única qualidade própria da Sua Pessoa. Ó quantas maravilhas, quantas alianças estão associadas nesse Menino! Ó Filha da esterilidade, virgindade que engendra; em Ti, divindade e humanidade se união, sofrimento e impassibilidade, vida e morte, para que, em todas as coisas, o menos perfeito seja subjugado pelo que há de mais perfeito e melhor! E tudo isso para minha salvação, ó Mestre! Amas-me tanto, que não realizaste essa salvação por meio dos anjos, nem por qualquer outra criatura, mas tal como já havia sido a minha criação, também a minha regeneração foi Tua obra pessoal. Assim, exulto, estremeço de alegria e de júbilo, volto à fonte das maravilhas e, inebriado de uma torrente de alegria, toco mais uma vez a cítara do espírito e canto o hino divino da natividade.

6. Ó Joaquim e Ana, casal castíssimo, “par de rolinhas”, no sentido místico! Observando a lei da natureza, que é a castidade, merecestes os dons que ultrapassam a natureza: no mundo gerastes uma Mãe de Deus sem esposo. Depois de uma existência santa e piedosa numa natureza humana, gerastes uma filha superior aos anjos e que agora reina sobre eles. Ó Filha graciosíssima e dulcíssima, ó lírio nascido entre os espinhos, da descendência nobilíssima e real de David! Por ti a realeza encheu-se com o sacerdócio; por ti foi cumprida “a mudança da Lei”, e revelado o espírito escondido sob a letra, pois que a dignidade sacerdotal passou da tribo de Levi à de David. Ó Rosa, nascida dos espinhos do judaísmo, que enche o universo de um perfume divino! Ó filha de Adão e Mãe de Deus! Ditosa a natureza e os seios de onde surgiste! Ditosos os braços que te sustentaram, os lábios que experimentaram os teus castos beijos, os lábios de teus pais, para que em tudo fosses eternamente virgem. Hoje é para o mundo o início da salvação. “Aclamai o Senhor, terra inteira, cantai, exultai; tocai instrumentos”. Elevai a vossa voz, “fazei-a escutar sem temor”, porque na Santa Probática[NOTA: Diz respeito à igreja de santa Ana da Probática. A tradição da natividade da virgem Maria em Jerusalém está ligada ao local onde Jesus curou o paralítico], nos nasceu uma Mãe de Deus, e de quem quis nascer o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

Tremei de alegria, ó montanhas, naturezas racionais, voltadas para o cume da contemplação espiritual: a montanha do Senhor, refulgente, vem ao mundo, ultrapassando todas as montanhas e todas as colinas, isto é, os anjos e os homens; d’Ela, sem intervenção da mão do homem, Cristo quis desprender-Se, Ele que é a Pedra Angular, Pessoa Una, que aproxima em Si aquilo que está distante: a divindade e a humanidade, os anjos e os homens, os gentios e o Israel carnal num só Israel espiritual. “Montanha de Deus, montanha de abundância, montanha que Deus escolheu para Seu repouso. As carruagens de Deus vêm aos milhares, com seres refulgentes” da graça divina, querubins e serafins. Ó cume mais santo que o Sinai, não coberto por fumo, nem por trevas, nem por tempestades, nem mesmo por fogo perecível, mas pelo esplendor que nos traz a luz do Santíssimo Espírito. No Sinai, o Verbo de Deus havia gravado a Lei sobre tábuas de pedra, pela ação do Espírito, dedo divino; aqui, pela ação do Espírito Santo e pelo sangue de Maria, o próprio Verbo encarnou-Se, dando-se à nossa natureza como um remédio de salvação mais eficaz. Antes, era o maná; agora, está Aquele que deu ao maná toda a doçura.

Que a morada célebre que Moisés construiu no deserto com matérias preciosas de todo o tipo, e ainda antes dela a morada do nosso pai Abraão, se apaguem diante da morada de Deus, viva e espiritual!Maria foi o repouso, não só da força divina, mas da Pessoa do Filho, que é Deus, presente substancialmente. Que a arca recoberta de ouro reconheça que não tem nada de comparável a Maria, assim como a urna de ouro com o maná, o candelabro, a mesa e todos os objetos do culto antigo: esses objetos foram objetos de veneração porque A prefiguravam, como meras sombras do verdadeiro protótipo.

7. Hoje, o Criador de todas as coisas, Deus Verbo, fez um livro novo, saído do coração do Pai para ser escrito, como que por uma pena, pelo Espírito, que é a língua de Deus. Esse livro foi dado a um homem que conhecia as letras, mas que não o lia. José, com efeito, não conheceu Maria, nem a significação do mistério em si. Ó filha toda santa de Joaquim e de Ana, que escapaste aos olhares dos Principados e das Potestades e aos “assédios inflamados do maligno”, e que viveste no tálamo do Espírito, para seres, assim, guardada intacta e te tornares esposa de Deus e Mãe de Deus por natureza! Ó filha toda santa, que apareceste nos braços de tua mãe;Tu és o terror das potências de rebelião! Ó filha toda santa, alimentada do leite maternal, e rodeada das legiões angélicas! Ó filha amada de Deus, honra de Teus pais, gerações de gerações Te proclamam bem-aventurada, como Tu mesma,em verdade, o disseste! Ó filha digna de Deus, beleza da natureza humana, Eva reabilitada, nossa primeira mãe! Por teu nascimento, aquela que tombara foi redimida. Ó filha toda santa, esplendor do sexo feminino! Se a primeira Eva, com efeito, foi culpada de transgressão, e se por essa causa “a morte fez a sua entrada no mundo” (porque ela se colocou ao serviço da serpente contra o nosso primeiro pai), Maria, que Se fez a serva da vontade divina, ludibriou a serpente enganadora e introduziu no mundo a imortalidade.

Ó filha sempre Virgem, que pôde conceber sem intervenção humana, porque Aquele que concebeste tem um Pai Eterno! Ó filha da raça terrena, que levas em Teus braços, divinamente maternais, o Criador! Os séculos rivalizavam entre si para saber qual deles se honraria de Te ver nascer, mas o desígnio fixado antecipadamente por Deus, “que fez os séculos”, colocou fim a essa rivalidade, e os últimos tornaram-se os primeiros — a estes é que foi atribuída a felicidade da Tua Natividade. Na verdade, és mais preciosa que toda a criação, pois só de ti o Criador recebeu em partilha as primícias da nossa matéria humana. ACarne divina foi feita da tua, o Sangue divino, do teu! Deus alimentou-Se do teu leite, e os teus lábios tocaram os lábios de Deus. Ó maravilhas incompreensíveis e inefáveis! Na presciência da Tua dignidade, amou-Te o Deus do universo; porque Te amou, a Ti predestinou, e nos “últimos tempos”, chamou-Te à existência, e constituiu-te Mãe para gerar um Deus e alimentar o Seu próprio Filho e Verbo.

8. Diz-se que os semelhantes são gerados por semelhantes e que os de natureza contrária não nascem uns dos outros. Mesmo que todo ser, em sua natureza, seja um amálgama, enquanto tessitura de contrários, cada qualadvém da predominância de uma causa única que o fez nascer. De fato, da mesma forma que o pecado (ao operar para cada um de nós a morte por meio da escolha dos bens deste mundo), mostra em extremo a sua natureza detestável, assim também o Autor dos bens, valendo-se das coisas que são os contrários desses bens, opera para nós o bem que Lhe é natural, porque “onde abundou o pecado, superabundou a graça”. Se tivéssemos conservado a nossa primeira comunhão com Deus, não teríamos merecido a Segunda, maior e mais extraordinária. De facto, pelo pecado, fomos julgados indignos da primeira união, porque não conservamos o dom recebido. Mas, pela compaixão de Deus fomos perdoados e tomados sob a Sua guarda, para que a comunhão ficasse assegurada, porque nos quer conservar unidos a Ele, sem nenhuma falha, Aquele mesmo que nos recebeu sob a Sua proteção.

Sim, toda a terra pejava de fornicações, e o povo do Senhor, possuído “pelo espírito de fornicação”, era como uma gente errante, longe do Senhor seu Deus, longe d’Aquele que o tinha adquirido “com mão forte e braço poderoso”, e que, mediante sinais e prodígios,havia-o feito sair da “terra da escravidão” do Faraó, conduzindo-o pelo Mar Vermelho, guiando-o“por uma nuvem de dia, e a noite inteira por uma coluna de fogo”. Ocoração do povo voltava-se para o Egito, e o povo do Senhor tornou-se “aquele que não é o povo do Senhor”; aquele que obtinha misericórdia, afinal, tornou-se aquele que já não a merecia, e aquele que era amado, tornou-se aquele que não era amado.

Eis então a razão pela qual uma Virgem vem agora ao mundo, como adversária da ancestral fornicação; Ela foi dada como esposa ao próprio Deus, e gerou a misericórdia de Deus. Assim foi estabelecido como povo de Deus [NOTA: Refere-se à Igreja]que até aí não era o Seu povo; excluído até então da Sua misericórdia, obteve misericórdia; o não amado, agora é o amado. Dela nasce o Filho Bem-Amado de Deus, no Qual Ele colocou as Suas complacências.

9. “Uma vinha de belos sarmentos” foi gerada no seio de Ana, e ela produziu um fruto cheio de doçura, fonte de um néctar abundante de vida eterna para os habitantes da terra. Joaquim e Ana fizeram-se semeadores de justiça, e recolheram um fruto de vida. Eles foram iluminados pela luz do conhecimento, procuraram o Senhor, e lhes veio daí um fruto de justiça. Que a terra tenha confiança! “Filhos de Sião, alegrai-vos no Senhor vosso Deus, porque o deserto reverdejou”: aquela que era estéril deu o seu fruto; Joaquim e Ana, como montanhas místicas, fizeram jorrar vinho doce. Conservai-vos na alegria, ó Ana venturosa, por terdes dado à luz uma mulher, porque essa mulher será a Mãe de Deus, porta da luz, fonte de vida, e reduzirá a nada a acusação que pesava sobre a mulher.

Os homens nobres do povo desejarão vê-La, e diante dessa mulher os reis das nações se prostrarão, oferecendo-Lhe presentes. Entregá-los-á a Deus, rei universal, adornada da beleza das suas virtudes como de “brocados de ouro”, ornada da graça do Espírito, de cuja glória Ela se reveste. A glória da mulher é o homem, sendo-lhe dada a partir de fora; mas a glória da Mãe de Deus é interior, pois é fruto do Seu seio.

Ó mulher amabilíssima, três vezes bem-aventurada! “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre!”Ó mulher, filha do Rei David e Mãe de Deus, Rei do Universo! Ó divina e vivente obra-prima, na qual Deus Criador Se alegrou, e cujo espírito é governado por Deus e somente a Ele se volta, pois todo o desejo de Maria se eleva apenas Àquele que é o único amável e desejável, e a quem só encoleriza o pecado contra Aquele que a fez nascer! Terás uma vida superior à natureza, porque não é para Ti que a terás, já que também não é para Ti que nasceste. Terás antes a Tua vida para Deus, e é por causa d’Ele que vieste à vida; por essa causa servirás à salvação universal, para que o antigo desígnio de Deus, a Encarnação do Verbo e a nossa participação na natureza divina, tudo se cumpra por intermédio de Ti. A Tua vontade está em ser alimentada das palavras divinas e fortificada com a sua seiva, como “oliveira fecunda na casa de Deus”, como “árvore plantada à beira das águas” do Espírito, como árvore da vida, que deu o seu fruto no tempo que lhe foi destinado: o fruto que é o Deus Encarnado, Vida eterna de todos os seres. Guardas todos os pensamentossalutares e frutíferos para a alma, mas tudo o que é supérfluo e que seria um perigo para a alma,Tu o rejeitas antes mesmo de provar. Os teus olhos “estão sempre voltados para o Senhor”, olhando a luz eterna e inacessível. Teus ouvidos escutam a palavra de Deus e deleitam-se com a cítara do Espírito; foi por eles que o Verbo entrou para Se fazer Carne. Teu olfato, deliciado, respira o aroma dos perfumes do Esposo, que é Ele próprio um perfume, voluntariamente derramado para perfumar a humanidade divina: “O teu nome é um perfume que se espalha”, diz a Escritura. Os Teus lábios louvam o Senhor, e estão ligados aos lábios divinos. A Tua língua e o Teu paladar discernem as palavras de Deus e saciam-se com a suavidade divina. Ó coração puro e sem mácula, que vê e deseja a Deus imaculado!

É neste seio que o Ser ilimitado veio habitar; do Seu leite é que Se alimentou Deus, o Menino Jesus. Ó porta de Deus, sempre virginal! Eis as mãos que sustentam a Deus, eis os joelhos que são um trono mais elevado que os querubins: por eles “as mãos fracas e os joelhos trêmulos” foram fortalecidos. Os seus pés são guiados pela lei de Deus como por uma lâmpada que brilha, e correm empós dElesem nunca ir para trás, até que tenham feito chegar aquele que ama para junto do Bem-Amado. Em todo o seu ser,Ela é o tálamo do Espírito, a Cidade de Deus Vivo, que “torna radiantes os canais do rio”, isto é, as correntes dos carismas do Espírito: “Toda bela, toda próxima de Deus”. Dominando os querubins, mais alta que os serafins, próxima de Deus: aEla é que se aplicam estas palavras!

10. Ó maravilha, que ultrapassa todas as maravilhas: uma mulher é colocada mais alto que os serafins, porque Deus Se fez“um pouco inferior aos anjos”! Que o sapientíssimo Salomão se cale, e não volte a dizer: “Nada há de novo sob o sol”. Ó Virgem, cheia da graça divina, templo santo de Deus, que o Salomão espiritual, o Príncipe da Paz, construiu e onde habita; o ouro e as pedrarias não te dão mais beleza, pois, mais que o ouro, é o Espírito que Te dá todo o esplendor. Por pedrarias, tens a pérola preciosíssima, Cristo, o Fulgor da divindade. Suplica-Lhe que toque os nossos lábios, para que, purificados, Lhe cantemos, com o Pai e o Espírito, a natureza única da Divindade em três Pessoas: “Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos”.

Santo é o Pai, O qual quis que, em Ti e por Ti, se cumprisse o mistério que predeterminara antes de todos os séculos. Santo é o Forte, o Filho de Deus, e Deus Unigênito, que hoje Te faz nascer, primogênita de uma mãe estéril, para que, sendo Ele próprio Filho Único do Pai e “Primogênito de toda a criatura”, pudesse nascer de Ti, como Filho único de uma Virgem-Mãe, “Primogênito de uma multidão de irmãos”, semelhante a nós e por Ti, participante da nossa carne e do nosso sangue. Apesar disso, não Te fez nascer de um só pai ou de uma só mãe, para que ao Unigênito fosse reservado em perfeição o privilégio de Filho Único: Ele é, com efeito, Filho Único, somente Ele de um Pai só, somente Ele de uma Mãe só.

Santo é o Imortal, o Espírito de toda a santidade, que, pelo orvalho da Sua Divindade,conservou-Te intocada pelo fogo divino: é isso que significou antecipadamente a sarça ardente.

Eu te saúdo, ó Porta das Ovelhas, morada santíssima da Mãe de Deus. Eu te saúdo, ó Porta das Ovelhas, domicílio ancestral da tua rainha, antigamente redil das ovelhas de Joaquim, mas hoje tornada Igreja do rebanho espiritual de Cristo e imitação do céu. Enquanto, outrora, uma vez por ano recebias um anjo de Deus, que agitava as águas e devolvia a saúde a um só homem, livrando-o do mal que o paralisava, agora recebes multidões de potências celestes que conosco homenageiam a Mãe de Deus; Abismo de Maravilhas, fonte da cura universal. Aquele a quem recebeste não foi um anjo servidor, mas o “Anjo do Grande Conselho”, descido sem o menor ruído sobre o velo de lã como uma chuva de bondade, Aquele que renovou toda a natureza, que estava enferma e a ponto de se perder, comunicando-lhe uma saúde inalterável e uma vida sem termo: por Ele, o paralítico que em ti jazia, eis que saltou como um cervo. Eu Te saúdo, ó preciosa Porta das Ovelhas, e que se multiplique a Tua graça!

Eu Te saúdo, Maria, filha dulcíssima de Ana. De novo para ti o amor me impele. Como descrever o Teu caminhar cheio de seriedade, os Teus vestidos, a graça de Teu rosto, a maturidade do Teu discernimento num corpo juvenil? Tua forma de ser foi modesta, distante de todo o luxo e de toda a indolência; Teu caminhar era grave, sem precipitação, sem preguiça; Teu carácter era sério, temperado de júbilo, de uma perfeita reserva a propósito dos homens – disto é testemunho a inquietação que teve por ocasião da proposta inesperada do anjo. A Teus pais dócil e obediente, humildes eram os teus sentimentos em meio às mais altas contemplações:sempre uma palavra amável, proveniente de uma alma pacífica. Em resumo: que outra digna morada senão a Tua poderia convir para Deus? Com razão todas as gerações te proclamam bem-aventurada, ó glória insigne da humanidade! Tu és a honra do sacerdócio, a esperança dos cristãos, a planta fecunda da virgindade, porque foi por meio de Ti que o renome da virgindade se estendeu aos confins do mundo. “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o Fruto do teu ventre”. Aqueles que confessam a tua maternidade divina são benditos, e malditos aqueles que a negam.

12. Joaquim e Ana, casal abençoado, recebei de mim estas palavras de saudação pelo grande acontecimento. Ó filha de Joaquim e de Ana, ó Soberana, acolhe a palavra deste Teu servo pecador, que arde em devoção, e para quem Tu és a única esperança de alegria, a protetora da vida e, junto a teu Filho, a reconciliadora e firme garantia da salvação. Possas aliviar-me do fardo dos meus pecados, dissipar a névoa que obscurece o meu espírito e o peso que me prende à matéria. Possas sustar as tentações, governar felizmente a minha vida e conduzir-me pela mão até à felicidade do Alto. Concede ao mundo a paz, e a todos os habitantes, fieis à ortodoxia católica [romana] desta cidade, uma alegria perfeita e a salvação eterna, pelas orações de teus pais e de todo o Corpo da Igreja. Assim seja! “Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo! Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto de teu ventre”, Jesus Cristo, o Filho de Deus. A Ele a Glória, com ao Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.

Tradução feita pelo Seminário de Sintra (Portugal) [apud http://www.universocatolico.com.br/index.php?/08-de-setembro-natividade-de-maria.html

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