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TEMPOS MODERNOS

31 de jan. de 2018
2 min de leitura

O homem atual experimenta uma fadiga imensa e está pronto a apoiar-se sobre qualquer gênero que seja de coletivismo, em que definitivamente desaparece a individualidade humana. O homem não pode suportar seu abandono, sua solidão. Com o renascimento, as forças humanas se desbridaram e seu jogo impetuoso criou uma nova cultura, fundou uma nova história. Quer dizer que toda a cultura desta época mundial que, nas escolas, é chamada história dos tempos modernos, foi a experiência da liberdade humana. O homem novo quis ser o autor e ordenador da vida, sem o socorro do alto, indiferente às sanções divinas. O homem se arrancou ao centro religioso ao qual permaneceu submissa toda sua vida durante a meia idade; quis andar por uma estrada livre e independente. Ao se meter por essa via, ao europeu dos tempos modernos pareceu que pela primeira se havia descoberto o homem e o mundo humano, comprimidos pela idade média. E muitos ainda em nossos dias, cegos pela fé humanista, imaginam que é ao humanismo, ao começo dos tempos modernos, que se deve o descobrimento do homem.

Nossa época, todavia, porque levou até a última acuidade todas as antinomias da vida e entrou no conhecimento de suas próprias origens, começa a compreender que na segurança do humanismo havia um fatal desvio e um abuso de si mesmo, e que, a raíz da fé humanista, se escondia uma auto-negação Virtual do homem e de sua queda. Quando o homem, como acabamos de dizer, rompeu com o centro espiritual da vida, arrancou-se à profundidade e passou à superfície. Seu afastamento do centro espiritual tornou-se cada vez mais superficial. Tendo perdido o centro espiritual do ser, perdeu, ao mesmo tempo, seu próprio centro espiritual. Tal descentralização da essência humana era a mina da sua constituição orgânica. O homem deixou de ser um organismo espiritual. E, então, à periferia mesma da vida, surgiram centros falaciosos. Tendo-se libertado de sua relação orgânica com o centro verdadeiro, os órgãos subordinados da vida humana se proclamaram a si mesmos centros vitais. Em consequência disto, o homem se tornou cada vez mais superficial.

Em nosso século, atingido o pináculo da era humanista, o homem europeu se ergue num estado de vacuidade terrível. Não sabe mais onde é o centro da sua vida.sob seus pés não sente profundidade. Vota-se a uma existência mais que vulgar, vive sobre duas dimensões como se habitasse exatamente a superfície da terra —- ignorando o que está acima dele e o que está abaixo. Há, pois, formidável distância e formidável contradição entre o começo da era humanista e o seu fim.

Retirado do livro “uma nova Idade média” de Nikolai Berdiaev

 
 
 

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