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UM ESQUECIDO TESTEMUNHO DA INIQUIDADE COMUNISTA

10 de mai. de 2021
2 min de leitura

Nesta semana, em que se comemoram as aparições marianas de Fátima — centradas no dogma da existência do inferno e no papel da Rússia para a disseminação do pensamento anticristão —, é bom relembrar um escritor húngaro pouco conhecido, Áron Gábor, que publicou no final dos anos sessenta um livro importante para a compreensão do mistério da iniquidade, em sua versão contemporânea.

Áron Gábor, um jornalista de trinta e quatro anos, descendente de ilustre família húngara, tinha lutado na Segunda Guerra como correspondente e era, então, secretário-geral da Cruz Vermelha em seu país. Vivia em Budapeste, que tinha sido libertada dos nazistas pelo Exército Vermelho e já padecia sob o jugo soviético. Naquele ano de 1945, Gábor havia publicado um pequeno depoimento, Além da Linha Stalin, no qual denunciava deportações de húngaros realizadas pelos russos durante o conflito.

A publicação desagradou os soviéticos: Gábor foi preso, nalgum dia de agosto daquele mesmo ano, e condenado à morte. Houve, no entanto, comutação de pena e Gábor foi mandado a uma prisão, onde permaneceu sozinho, numa cela, por dezesseis meses. No início de 1947, foi transferido para um hospital-prisão, na Ucrânia e, em seguida, enviado à Sibéria num vagão que transportava gado, para cumprir cinco anos de trabalhos forçados num gulag. Lá, dirigiu tratores e abateu árvores da floresta.

Em 1950, foi libertado. Tinha, porém, deixado de ser húngaro: passava a ser, então, um cidadão soviético, obrigado a residir perto do gulag. Como, na Hungria, foi dado como oficialmente morto, sua esposa casou-se de novo.

Dez anos mais tarde, em 1960, foi repatriado. Voltava à Hungria, que então era parte integrante da Cortina de Ferro, e ali trabalhou por cinco anos numa agência jornalística do Estado. Em 1965, conseguiu fugir para a Alemanha ocidental, estabelecendo-se em Munique.

Foi no exílio alemão que terminou de escrever e publicar, por conta própria, em três volumes, em sua língua natal, as suas longas memórias de prisioneiro de um gulag soviético. Os livros saem justo no momento — aos redores de 1968 — em que a Europa e os Estados Unidos eram palco de mais uma ofensiva da revolução marxista, então sob novo formato: a rebelião estudantil inspirada capitaneada pela Escola de Frankfurt. A obra passou desapercebida, e só vários depois da morte do autor (ocorrida no exílio alemão, em 1982, aos 71 anos) seria traduzida para as principais línguas ocidentais.

No Brasil, o primeiro volume da obra, Ao leste do homem, saiu pela Companhia Editora Americana, uma velha editora carioca que, por mais de três décadas, se especializou na publicação de revistas populares e, a partir dos anos setenta, com novos proprietários, se dedicaria ao mercado livreiro. Em 1975, a velha editora desaparece definitivamente: a recém-surgida Pallas Athenas incorporou seu acervo e publicou, em 1976, o segundo volume das memórias de Gábor, Liberdade quadrada.

Fato curioso é o pioneirismo da editora brasileira, primeira a traduzir Áron Gábor para uma língua ocidental, diretamente do original, por Livio Dantas. O livro nunca foi reeditado no Brasil, mas ainda é possível adquiri-lo pelo site da Estante Virtual.

 
 
 

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