UMA HIPÉRBOLE IDEOLÓGICA

Fala-se muito hoje, no Brasil, a propósito das mortes pela covid-19, em genocídio. Mas a triste palavra, pelas mãos de jornalistas ou ativistas ineptos ou de má-fé, sofreu uma deplorável deturpação semântica. É necessário devolver à palavra o seu extraviado sentido original.
O filósofo Roger Scruton assim define o termo “genocídio”, em seu Dicionário do pensamento político (New York, Palgrave Macmillan, 2007, p. 272): “Termo cunhado pelo jurista americano Raphael Lemkin em 1944, para denotar a destruição deliberada de uma raça, geralmente motivada por alguma teoria sobre a natureza das raças, nelas distinguindo variedades “superiores” das “inferiores” (estas elimináveis). Classificado pela Assembleia Geral da ONU de 1948 como crime no âmbito do direito internacional, foi definido de tal modo que também envolvesse formas de perseguição destinadas a eliminar uma raça ou grupo étnico, mesmo quando não caracterizasse assassinato em massa (por exemplo, a esterilização compulsória ou a remoção forçada de crianças).”
O holocausto judaico na Alemanha nazista, com seus seis milhões de vidas deliberadamente sacrificadas, é logo lembrado quando se pensa no assunto, pela ampla difusão do abominável acontecimento pelo cinema e a literatura. O conceito, definido pela ONU como delito contra a humanidade, se estenderia também à eliminação, ou esforço de eliminação (sempre deliberada) de grupos religiosos, políticos ou nacionais, como, por exemplo, o extermínio deliberado de armênios que viviam em território turco, entre 1915 e 1923, com mais de um milhão de mortos; ou o que ocorreu há quase 90 anos, em 18 de novembro de 1932, na Ucrânia.
Este último é conhecido como Holodomor (grande fome), nome pelo qual se conhece o morticínio praticado pelo comunismo soviético naquele país, então ocupado pela Rússia bolchevique. Durou de 1932 a 1933. Por deliberação de Stalin, utilizou-se o desabastecimento de alimentos como forma de punição aos camponeses nacionalistas resistentes às medidas de Moscou. Foram exterminados, durante dois anos, pelo menos 6 milhões de pessoas, às quais, impedidas pela polícia de migrar, não restava outra saída senão a morte lenta por desnutrição coercitiva.
O genocídio do comunismo, deliberadamente planejado por seus líderes, foi o que mais vítimas fez, no século passado. Segundo o historiador francês Stéphane Courtois, na obra coletiva por ele organizada O Livro Negro do Comunismo. Crimes, Terror e Repressão, o total de mortos pelo comunismo, no mundo, se aproxima da ordem dos cem milhões de mortos. A lista é macabra: na URSS, foram 20 milhões de mortos; na China, 65 milhões de mortos; no Vietnã, 1 milhão de mortos; na Coreia do Norte, 2 milhões de mortos; no Camboja, 2 milhões de mortos; no Leste Europeu, 1 milhão de mortos; na América Latina, 150.000 mortos; na África, 1,7 milhão de mortos; no Afeganistão, 1,5 milhão de mortos. E isto sem contar a dezena de milhões de mortos pelo movimento comunista internacional e partidos comunistas ainda fora do poder.
A propósito do número maior ou menor das mortes pela covid-19, no Brasil e no mundo, pode-se falar de incompetência política e administrativa, entre outros fatores, porém jamais de genocídio. Primeiro, por faltar a intencionalidade da parte dos agentes políticos, segundo, pelas mortes não demonstrarem preferência por grupos étnicos, políticos, religiosos ou nacionais em particular. A peste atinge a todos. O coronavírus, como se tem visto, é implacavelmente democrático: não privilegia classes, cores de pele, credos religiosos, quociente de inteligência.
É forçoso concluir, portanto, que se trata de um uso maldosamente astucioso e hiperbólico da palavra genocídio, próprio de certas vertentes políticas que não se envergonham da fraude e da corrupção, seja na ordem semântica ou moral. Uma hipérbole tipicamente ideológica.
















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