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UMA IGREJA TOTALMENTE CORROMPIDA?

30 de jan. de 2018
5 min de leitura

UMA IGREJA TOTALMENTE CORROMPIDA?


A mentira: a Reforma Protestante foi necessária, pois o Igreja Católica estava inteiramente corrompida por imoralidade e falsa doutrina.

A mentira apresentada neste texto, assim como outras mentiras históricas, já foi refutada por pesquisas de estudiosos católicos e não católicos. O problema é que a pesquisa erudita, cuidadosamente conduzida e amparada por numerosas notas de rodapé não é muito atrativa ao leitor comum. Há, no entanto, algumas obras sobre o assunto de protestantes e católicos que são de leitura mais fácil e expõem o tema de modo imparcial. Algumas serão mencionadas neste texto, outras estão incluídas na bibliografia indicada nos comentários.

Para resumir, a versão popular desta mentira é a seguinte: a Reforma era inevitável. (Até mesmo o historiador de arte Sir Kenneth Clark, em sua série de filmes Civilisation, diz, “ela tinha que vir.”) No século XVI, a situa ção na Igreja Católica era intolerável e alguém tinha de fazer alguma coisa. Felizmente, apareceram benfeitores da humanidade como Martinho Lutero, João Calvino e Henrique VIII, dispostos a cumprir a tarefa de purificar o cristianismo que, há séculos, vinha sendo corrompido pela ganância e superstição dos católicos.

O clero católico era ignorante e moralmente corrupto; vivia em concubinato ou até mesmo em libertinagem e vendia indulgências pelos pecados (ver as características dessas indulgências em Contos de Cantuária [Lisboa, Publicações Europa América, 1992], de Geoffrey Chaucer). Os mosteiros eram fossas de iniquidade. Nos níveis mais altos, os clérigos compravam e vendiam seus cargos e influências política e eclesiástica. Os papas levavam vidas imorais, em grande luxo, preocupados principalmen te com questões politicas. Viviam como príncipes mundanos. Os leigos eram miseráveis ignorantes, prejudicados pelos dízimos e tributos infligidos pelo clero e devotos de superstições que lhes eram ensinadas sob o pretexto de doutrina. Dificilmente podetiam viver como seres humanos racionais, em razão da sua preocupaçãocom reliquias e com o pós-morte e de práticas arcaicas como a Missa.

Entretanto, a corrupção da Igreja era mais evidente na sua doutrina. A vida dos sacerdotes não apenas não se assemelhava em nada à vida dos apóstolos, mas o que eles ensinavam não se baseava nas Escrituras. Indulgências, por exemplo, certamente não estão na Bíblia; todavia, foram uma grande fonte de lucro para o clero corrupto. A Igreja Católica como um todo, com sua misteriosa liturgia, sacramentos mágicos e doutrinas incompreensíveis, não tinha semelhança alguma com aquelas simples comunidades cristãs sobre as quais lemos na Bíblia. Já que, então, a Igreja Católica era incapaz de reformar a si mesma o concilio chamado de reformista, realizado no século XVI (Quinto Concilio de Latrão) não realizou absolutamente nada, era o momento de os cristãos devotos, que sabiam o que significava o verdadeiro cristianismo, iniciarem uma mudança radical e uma limpeza completa.

Essa é a história da grande Reforma contada pelos protestantes. Como escreveu um historiador protestante francês, E.G. Leonard, em The Reformation: Revival or Revolution, editado por W. Standford Reid: ( … ) os protestantes afirmaram por muito tempo, e ainda o fazem ocasionalmente, que a Reforma foi uma reação contra a falta de moral dos padres e os abusos do papado; essa visão baseia-se em um escrito tardio de Lutero, no qual ele afirma que sua revolta começara a partir do momento em que, durante sua visita a Itália, descobriu o horror das prá ticas vergonhosas de Roma.

Will Durant, no volume sobre a Reforma da sua obra História da civilização, aproveita a oportunidade para pintar uma imagem sensacionalista de corrupção generalizada dentro do clero e ainda acrescenta, de maneira maliciosa e astuta, precisamos ser justos com aqueles padres luxuriosos e levar em conta que o concubinato sacerdotal não era devassidão, mas sim uma rebelião quase geral contra a regra do celibato, imposta pelo papa Gregório VII a um clero que não a queria. Ele chama o celibato de “uma regra arbitrária desconhecida dos apóstolos e do cristianismo oriental”. Jack L Arnold, do Third Millenium Ministers, resume de forma sucinta em seu website’ a descrição convencional do protestantismo evangélico sobre a Era da Reforma: A Igreja Católica Romana estava teologicamente doente e sua teologia havia gerado uma corrupção atroz. Estava es- piritualmente exausta. debilitada e quase sem vida. Roma se afastara dos ensinamentos da Biblia e estava mergulhada em heresia. Em outro site, http://www.justforcatholics.org, lemos sobre aquela época: “a Igreja Católica desceu ao fundo dos infernos em matéria de corrupção, ganância, superstição, arrogância e imoralidade.

Essa visão parece estar consolidada de tal modo na psique moderna que se torna imune a qualquer relato diferente. E não são apenas os interessados em perpetuar as 33 mil ou mais seitas que foram criadas desde a Reforma, todas trazendo o selo “cristão”, que continuam a papaguear a coleção de mentiras listadas anteriormente. Até mesmo trabalhos acadêmicos são frequentemente contaminados. Isso levou um crítico literário, ao analisar um dos melhores estudos recentes sobre a Reforma (The European Reformation, do professor Euan Cameron), a observar que: “é revigorante encontrar uma obra que não comece com a premissa de que o protestantismo era inevitável ou até mesmo desejado pelos leigos.”

Quanto aos pastores e fiéis das seitas protestantes, eles estão naturalmente predispostos a aceitar à versão da História que lhes é ensinada por seus livros e seminários e, depois, transmitem-nas ao seu rebanho. Muitos simplesmente aprendem que a Igreja Católica estava completamente corrompida antes de Lutero e companhia, e as provas em contrário simplesmente entram por um ouvido e saiam pelo outro. Suponho que muitos protestantes se prendem a essa idéia porque ela justifica a sua existência. Se a Igreja Católica não fosse (e continua sendo, é claro) tão corrupta e maléfica, qual seria a razão para se criar novas igrejas? Os secularistas, naturalmente, alegram-se em comprar qualquer versão da História que denigra a Igreja. Em razão do estreitamento mental dessas pessoas, o estudo imparcial da Igreja Católica pré-Reforma é muito raro. E quanto aos católicos? a situação é também muito ruim. Os mitos reformistas são parte da cultura americana, e apenas uma minoria de católicos não foi afetada por eles. A má formação também tem culpa: muitos aprendem mais sobre religião comigo que nas escolas católicas ou em aulas de educação religiosa. E eu acredito; a qualidade da catequese e educação histórica nas escolas católicas e outras instituições passou por um declínio abissal nos anos 1960 e ainda apresenta um nível muito irregular. Os católicos de hoje estão dispostos a acreditar em qualquer bobagem sobre a Igreja que encontrem em livros didáticos, na midia ou no ar que respiram. Se, portanto, protestantes e católicos compram as mentiras sobre a Reforma, o que podemos fazer? Primeiramente, devemos ter certeza de que conhecemos os fatos. Em seguida, precisamos entender a razão pela qual poucos avanços são feitos na luta contra as mentiras da História não somente nessa questão e tentar lidar de maneira caridosa com os obstáculos que encontramos. O fenômeno complexo conhecido por Reforma não veio do nada. Foi precedido por mil e quinhentos anos de civilização cristã, desde as primeiras comunidades de fiéis dentro do Império Romano, passando pela lenta conversão da Europa bárbara, até chegar à desenvolvida civilização da Idade Média. Como vimos anteriormente, o período medieval viu o esplêndido desenvolvimento da cultura, da educação, dos serviços sociais, das instituições pollticas e econõmicas, e contou com grande número de santos que atuaram em diversos âmbitos da vida.

 
 
 

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