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UNIDADE E DIVERSIDADE, O DESENVOLVIMENTO DA DOUTRINA NA ERA APOSTÓLICA

24 de mar de 2018
8 min de leitura




A admissão de pagãos no povo de Deus sem exigência de circuncisão foi o grande ponto de controvérsia não só entre grupos cristãos e sinagogas judaicas, mas também entre os próprios grupos cristãos. O Concílio apostólico em Jerusalém, por volta de 48 d.C., foi uma primeira tentativa no sentido de estabelecer um Fórum de diálogo supra-regional para discutir as opções divergentes, que haviam levado a práticas rituais de diversas. Quanto ao conteúdo, tratava-se do significado da marca de identidade, concretamente, da circuncisão para a autocompreensão Cristã. Aqui a situação das Fontes, excepcionalmente, é muito boa. Além do relato da testemunha ocular Paulo (Gálatas 2,11 – 10), dispomos ainda da narrativa de Lucas em Atos 15. Mesmo assim, há divergências objetivas que não podem ser harmonizadas. Elas devem ser creditadas a divergentes intenções redacionais.

Segundo Paulo, a ocasião do Concílio Apostólico foi uma revelação Divina elas (Gálatas 2,2). No contexto da epístola aos Gálatas, Paulo pretende demonstrar sua autonomia, patrocinada por Deus, diante das autoridades de Jerusalém e apresentar com o segundo ato da história de sua vocação o Concílio, com o qual o próprio Deus dá impulso a missão junto aos pagãos. Mas ele se traia ao dizer que em Jerusalém ele expõe o seu evangelho para não correr inutilmente (Gálatas 2,2). tratava-se, portanto, realmente de um exame de sua prática missionária, com a finalidade de conseguir sua ratificação. Pelo visto, havia também uma forte oposição. Paulo os denomina falsos irmãos e os compara a espiões (Gálatas 2,4). Assim sendo, a apresentação de Lucas, historicamente, poderá ter preservado algo mais confiável, a visita de uma comissão de Jerusalém a Antioquia colocou em questão a prática missionária que lá se Executava. A própria comunidade de Antioquia que desejava uma esclarecimento em Jerusalém (atos 15,1).

Quanto à composição do Concílio, Lucas oferece a grande Variante: a comunidade inteira, com os apóstolos e presbíteros, assim como Paulo e Barnabé, com uma comissão de Antioquia (Atos 15,4-22). Ele sonha, pelo visto, como um modelo de Solução de Conflitos que tem por princípio a base democrática, Como já havia narrado a respeito da arbitragem da questão das viúvas em Atos 6. Paulo, em contrapartida, descreve a variante menor: três representantes de Antioquia (Paulo, Barnabé e Tito) negociam com as três colunas Tiago, Pedro e João, em Jerusalém. No contexto da epístola aos Gálatas, Paulo pretende com isso demonstrar sua equiparação com as autoridades de Jerusalém. Mas se em (Gálatas 2, 4) ele acentua não ter cedido nem por um segundo aos falsos irmãos, então também a oposição deve ter estado na mesa de negociação. Como cenário histórico, deve-se supor uma discussão nos dois partidos conflitantes (os falsos irmãos, que também exigiam a circuncisão para os pagãos, que conhecemos como judaizantes, e a comissão de Antioquia que defendia sua prática) diante das autoridades de Jerusalém. O peculiar dessa composição do Conselho diz respeito a um outro ponto: a questão da circuncisão foi negociada na presença de alguém que pessoalmente seria atingido pela decisão a ser tomada: Tito, um incircunciso, mas Pagão batizado de Antioquia (Gálatas 2,1-3).

O resultado do Concílio é, segundo Lucas, uma decisão conjunta, sobre quando da Torá deve ser imposto aos pagãos convertidos, O que foi consignado no assim chamado decreto apostólico (cláusulas de Tiago). Concretamente, trata-se de regras alimentares e de matrimônio (renúncia a carnes sacrificadas aos Ídolos, sangue e carnes sufocadas, a proibição de casamentos entre parentes). Na tradição de Levítico 17 trata-se das exigências mínimas (mandamentos/leis de Noé) que não judeus deverão Observar se quiserem conviver com judeus. Paulo conhecia esses mandamentos mas era contra (atos 16,4) nunca os aceitou. Caso contrário, poderia ter poupado a longa discussão em 1Coríntios 8 e 10. Também em Lucas atos 21,25 pressupõe que Tiago fala a Paulo, em sua última visita a Jerusalém, sobre o Decreto apostólico como uma nova resolução. Segundo Paulo, o único tema em discussão era a circuncisão para os pagãos, e segundo ele o resultado do Concílio se referia somente a isso: o anúncio do único Evangelho doravante leva em consideração os antecedentes culturais diversos do grupo visado. Pagãos incircuncisos não precisam ser circuncidados (Evangelho do prepúcio). Isso é da competência de Paulo e Barnabé judeus circuncidados continuarão a deixar circuncidar seus filhos. Para esse grupo é dirigido o apóstolo Pedro em Gálatas 2,7 – 9. Paulo Cita uma só imposição feita aos pagãos: a coleta a favor da comunidade de Jerusalém (Gálatas 2,10: Deviamos somente lembrar-nos dos pobres…). Essa imposição podia ser avaliada e interpretada de maneiras diversas. Na visão de Jerusalém, sob o aspecto ético: esmolas para os pobres de Israel podem ser vistas como expressão de sério desejo de conversão dos pagãos. Mas com isso eles permanecem no status de tementes a Deus, portanto em segundo plano. Paulo ao contrário, em 2Coríntios 8 (carta da coleta), assim como em romanos 15,25 – 27, acentua, com o conceito fundamental de koinonia o aspecto comunicativo da comunhão (Gálatas 2,9), dentro da qual ocorre o intercâmbio de bens de natureza diversa. Pelo visto, Paulo tinha clareza sobre essa ambivalência, pois quando nos fim da vida pretende trazer a Jerusalém à coleta pela qual se empenhou incansavelmente em suas comunidades (57 d. C). Ele teme os infiéis na Judeia, ou seja, os judeus nativos, e não tem certeza quanto à boa acolhida de sua oferta Por parte dos Santos, Isto é por parte da comunidade de Jerusalém (Romanos 15,30 – 32). Isso é compreensível nas crescentes tensões políticas imediatamente anteriores à guerra Judaica, pois o sinal para a exploração disso foi a rejeição de ofertas e sacrifícios dos não judeus no templo Flavio Josefo, Belkin Judaica II 409). Paulo vê suas comunidades inscritas nessa categoria – e não somente aos olhos dos infiéis mediante a acolhida da coleta, a comunidade de Jerusalém reconheceria os membros das Comunidades Paulinas como judeus, colocando-se assim contra a rota de marcha daqueles grupos que sempre adquiriam mais influência junto ao templo, ou seja, junto a política oficial.

Separados nas refeições (separati epulis), essa era a marcante regra social de comportamento dos judeus. Por causa de suas diversas prescrições alimentares (Levítico 11), das quais a mais conhecida era a proibição da carne suína, eles evitavam sentar-se à mesa juntamente com não judeus. Esse comportamento podia chamar a atenção somente na diáspora, não na terra natal, pois lá os judeus estavam entre si, participavam da infraestrutura Judaica; estrangeiros no país tinham de se ater aos mandamentos/leis de Noé. Por essa razão ninguém julgou necessário citar que Tito, o Pagão, em Jerusalém, durante o Concílio, participava naturalmente das refeições com os judeus, mas por outro lado, causou grande agitação o fato de Pedro, o judeu, costumar tomar a refeição juntamente com (convertidos) pagãos (Gálatas 2,20). Isso constituía uma transgressão da Lei. Maus exatamente: a atitude foi reconhecida como transgressão apenas Quando apareceram as pessoas de Tiago, que com isso desencadearam o assim chamado incidente de Antioquia, que Paulo apresenta fragmentariamente em Gálatas 2,11 – 4. Segundo Paulo, Pedro, que costumava – assim como os outros judeus-cristãos – celebrar a ceia do senhor em casa de Pagãos, se retraiu daquele ambiente, como se os etno-cristãos fossem culturalmente impuros. Os demais judeus-cristãos inclusive Barnabé, seguiram seu exemplo. Causa admiração que somente a presença do pessoal de Tiago pudesse desencadear tal mudança de sentimento, embora não tenha ocorrido em disputa, nem acusação, e que Paulo tenha enfrentado Pedro e não o pessoal de Tiago (Gálatas 2,14).

Pedro – e isso lhe ficou Claro com a presença do pessoal de Tiago – rompeu com as decisões do Concílio de Jerusalém. Como expoente da missão junto aos judeus, ele tinha possibilidade de garantir que ela a transcorresse segundo As convenções do Judaísmo. Mas ele se comportou como os destinatários da missão junto aos pagãos, aos quais haviam sido feitas concessões referentes a cultura pagã. Conforme o Concílio, judeus, mesmo sendo seguidores de Jesus, permaneciam judeus, e portanto comprometidos com suas tradições e Convenções, ou seja; separati epulis. Pedro, retraindo-se, seguiu esse princípio. Não causa admiração que também “os outros judeus” tenham abandonado a ceia integrada (Gálatas 2,13). Problemática deve ter sido a decisão para Barnabé. Como Paulo, também ele era expoente da missão, junto aos pagãos. apesar disso, separou-se das Mesas dos destinatários de sua missão. Pelo visto, por causa de sua própria identidade, pretendia permanecer no “lar judaico”. Paulo, ao contrário, identificava-se com seu mandato missionário e realmente se tornou pagão com os pagãos (1Coríntios 9, 21).

Pode-se dar um passo adiante. O conflito tem também um relevante aspecto religioso-político: enquanto aos tementes a Deus não se colocava a circuncisão como condição para sua conversão ao evangelho, isso não apenas ficava restrita a linha do Concílio apostólico, mas também geralmente não causava problemas para rede de sinagogas. Somente quando, em consequência do vínculo de fé ao mesmo Evangelho, se transgrediram as delimitações judaicas, ou seja, quando se praticava comunhão de mesa entre judeus e pagãos, seguindo os usos Pagãos, então sim a auto-compreensão Judaica estava sendo publicamente colocada em questão. Talvez o pessoal de Tiago quisesse evitar semelhante repercussão, que necessariamente seria provocado pela transgressão de Barreiras culturais. Os judeus antioquenos, em todo caso, estabeleceram uma linha divisória em relação àqueles grupos que, em seu modo de ver, comprometiam a sua situação.

Paulo, Segundo Gálatas 2, 14 enfrentou Pedro não porque este repentinamente rompeu a comunhão de mesa com os pagãos, mas porque ele queria obrigar os pagãos a adotar os costumes judaicos. Pedro tentou, portanto colocar fardo sobre os pagãos. Paulo reagiu radicalmente vendo nisso desvio da linha reta, um acordo portanto, que no concílio apostólico ainda havia sido editado. Pedro provavelmente propôs subjetivamente os rudimentos daquilo que Paulo mais tarde não aceitaria, precisamente as cláusulas do Decreto apostólico, pelo qual a convivência entre judeus e não-judeus foi possibilitado a partir das condições judaicas – com exigências mínimas para os não judeus. Havia em Antioquia, portanto, três posições: Paulo insistia na comunhão de mesa entre judeus e pagãos convertidos, sem nenhuma exigência adicional para os etno-cristãos. O pessoal de Tiago exigia a separação das mesas, para que os judeus, também como cristãos, pudessem Continuar a ser judeus. Pedro provavelmente arriscou um compromisso: a defesa da comunhão de mesa, mas condicionada às exigências mínimas para os etno-cristãos.

Não sabemos Como terminou o debate. Se Paulo tivesse conseguido se impor, ele certamente teria registrado na epístola aos Gálatas essa vitória diante do apóstolo de Jerusalém. Ele se retirou de Antioquia e para lá nunca mais retornou. Pedro, ao contrário, indicou o caminho que para grande parte do cristianismo da Ásia menor se tornou o determinante. O decreto, contudo, foi decidido e promulgado em Jerusalém. Lucas parece ter aproveitado antigas tradições, pois a carta correspondente (atos 15, 22-29) não é apenas endereçada a comunidade de Antioquia, cujo conflito o Concílio apostólico tentava dirimir, mas é pensada como carta circular a todas as comunidades da Síria e da Cilícia, antigo Campo missionário de Paulo (Gálatas 1,21). Como remetente não é citada a toda a comunidade, que Lucas supõe responsável pela decisão do concílio, mas são citados “os apóstolos e os presbíteros”, Portanto o grupo que, após a saída de Pedro Jerusalém, assumiu a direção com Tiago (atos 21,28). Quanto ao conteúdo, o decreto apostólico constitui-se numa edição melhorada das conclusões do Concílio, em que se havia considerado as condições de admissão, mas não as condições de convivência entre judeus e pagãos. Do ponto de vista de políticas e eclesiásticas, Pedro conseguiu instrumentalizar as novas autoridades de Jerusalém no sentido de que um acordo negociado localmente em (Antioquia) fosse estendido a todo o campo missionário (até então) da Síria e da Ásia menor. A missão paulina deslocava-se para além dessas fronteiras.

Uma vez que no Concílio apostólico se preservou a unidade das Comunidades cristãs, mediante o reconhecimento da diversidade Ritual e cultural, as cláusulas de Tiago representavam – como fruto do incidente de Antioquia – uma unificação Ritual em que pela recusa de Paulo a unidade de fato, por um momento se desfez.

 
 
 

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