VAIDADE, A DOENÇA DOS SAUDÁVEIS

Vi, não faz muito, trechos de uma entrevista com um ex-jogador de futebol, não tão jovem, mas ainda com uns resquícios de aparência atlética. Nem faltavam as indefectíveis tatuagens que hoje caracteriza a categoria. Era uma metáfora viva da sociedade atual, em que o cuidado do corpo se sobrepõe a todas as modalidades de cultivo espiritual.
Se, na aparência, era a encarnação da fortaleza física, tinha lá suas debilidades de comportamento. O repórter perguntava se, com a fama que tinha, havia “pego” muitas mulheres. Diante do constrangimento e do silêncio do jogador, que apenas sorria malicioso, o jornalista não lhe deu tréguas e pressionou. O rapaz não teve outra saída:
— Peguei, cara. Peguei muitas. — Todas? — insistiu o outro. — Todas…
Hipérbole à parte, admitia-o com uma jactância marota e bem disfarçada, como se tivesse sido objeto de coerção psicológica, e só assim tornado público, contra a vontade, o que gostaria de deixar discretamente guardado em sua memória e na daquelas que “pegou”.
A verdade era bem outra. O sorriso, a postura, a entonação com que o atleta respondia — tudo isto falava mais claro do que uma e outra palavra de falso pudor e embaraço. Era a viva encarnação da vaidade, para o deleite dos ex-torcedores e das futuras mulheres que ainda “pegaria” (e, por que não?, para a inveja de muitos que por ele não torciam, nem tinham a sua fama, o seu dinheiro, a sua juventude que parecia eterna).
Aparentemente, não passava de despretensiosa conversa de uma celebridade com um frívolo jornalista. Vista, porém, com o distanciamento da consciência — a consciência da condição e da miséria humana —, era difícil não perceber um véu de tristeza envolvendo a dupla. Nada é mais melancólico do que a sobreposição do natural à demais dimensões humanas, do corpo sobre o espírito, das coisas passageiras sobre as que permanecem.
Aquele rapaz — que será filho ou, no máximo, neto de camponeses que um dia deram duro na roça — era o resultado do que podem fazer o talento, a fama e o dinheiro no mundo corrompido das metrópoles. O que pudesse haver de virtude propriamente atlética, no ex-jogador, parecia destinada a dissipar-se noutro tipo de atletismo: o sexual. A musculatura da vontade continuava flácida. A pronta ereção convivia com a mais patética frouxidão de caráter.
Quando ele cairia “na real” e passaria a ver a vida como ela de fato é — fumaça, sombra, nada —, por trás da efêmera saúde do corpo? Quando “desceria do céu uma luz que iluminaria o outro lado de suas vaidades”, para lembrar a frase dura com que o escritor ateu Marques Rebelo termina o seu romance A estrela sobe?
Uma das curas naturais para essa triste doença da vitalidade mal gerenciada é, certamente, a velhice, que a sociedade hedonista vê como uma grande desgraça, o fim de todos os planos, a queda de todas as torres, mas que, no fundo, pensando bem, é o verdadeiro espelho de Narciso, que jamais engana quem o encara.
Há quem veja na velhice a pior de todas as doenças. Mas isto é só uma meia verdade: não é menos certo que ela também traz, no bojo, o mais eficaz dos remédios. Amargo, mas eficaz. É a lanterna que traz a luz a que se referia o mencionado escritor: um último e transcendente esforço para acordar os que vivem na pétrea sonolência do prazer ou da fama. Talvez jamais despertássemos, não fossem as pequenas humilhações do envelhecimento.
O que há de mais triste que uma grande tatuagem, na pele seca e encarquilhada de um velho?
















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