VISITA A UMA CIDADE PARALELA

Fui hoje rezar diante do túmulo de minha mãe. Os túmulos são como as imagens dos santos: Vestígio suntuoso ou humilde De algo muito mais grave e misterioso. Penso em meu futuro túmulo, Que um dia, inevitavelmente, estará abandonado, Quando meus netos e filhos Também estiverem longe de seus filhos e netos. Sua laje será castigada pelo sol operário do meio-dia, Pelas chuvas torrenciais do verão, Quando não suavemente envolvido Pelos luares espirituais do pobre Alphonsus. Minha alma estará longe, Dolente ou exultante com outros fatos. As almas dos vivos é que vagueiam pelos cemitérios, Por essa cansada geometria de pedras, nomes e datas Que só o manto frio do orvalho vem à noite acarinhar; Por esse depósito de cubos estatelados no chão E ironicamente organizados à maneira de uma cidade, Com suas ruas, endereços e habitantes, Uma espécie de espelho sarcástico da cidade lá fora. — E daí? E daí? — pergunta a velha canção do rádio. Eu não tomarei o menor conhecimento Do sol, da lua ou das últimas goteiras desanimadas Pingando monotonamente das várias cruzes de Cristo, — Cruzes que são os únicos seres vivos do cemitério.
















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