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Foi lançado hoje o 2º volume da série “Citações Patrísticas” compilado e organizado por Carlos Martins Nabeto.

Este volume, com 108 páginas, é dedicado ao tema “Deus Pai, Filho e Espírito Santo” e conta, como o anterior, com aprovação eclesiástica (Nihil Obstat e Imprimatur).

Em suma, eis a matéria abrangida por este novo e-book:

– Prefácio (prof. Alessandro Ricardo Lima)

– Introdução Geral (Carlos Martins Nabeto)

– Deus:

1) A Santíssima Trindade: existência – unidade das Pessoas divinas – distinção das Pessoas divinas.

2) Deus Pai: Deus – monoteísmo – o nome de Deus – Deus é todo-poderoso – Deus é justo, sábio e onisciente – Deus se relaciona com o homem – a graça divina – Deus deve ser amado.

3) Jesus Cristo: seu nome – a encarnação do Verbo – verdadeiramente Deus e homem – filho único de Deus – sua primeira vinda – homem sem pecado – novo Adão – Verbo do Pai – amava perfeitamente sua Mãe – não teve irmãos consaguíneos – morreu verdadeiramente – desceu aos infernos – ressuscitou dos mortos – é redentor do gênero humano – seu sangue é valiosíssimo – sua vontade e conhecimento – todo homem deve confessá-lo – ultrajado por judeus e pagãos.

4) O Espírito Santo: terceira Pessoa da Trindade – ação vivificante – procede do Pai e do Filho.

Como o volume anterior, a obra está sendo lançada em formato de e-book (PDF) e estará disponível GRATUITAMENTE a todos os interessados que manifestarem o desejo de recebê-la por e-mail. Os leitores que ficarem satisfeitos com o conteúdo da obra são estimulados a procederem uma doação, de QUALQUER QUANTIA, visando a atualização e ampliação dos volumes que compõem a série, bem como para colaborar com os projetos do Autor, como a expansão e manutenção do site COCP-Central de Obras do Cristianismo Primitivo (http://cocp.nabeto.ihshost.com), que disponibiliza escritos da Igreja primitiva em sua íntegra.

A série completa, em 6 (seis) volumes, entregará ao leitor mais de 1600 citações patrísticas e estará assim organizada:

– Volume 1: A Palavra de Deus e a Profissão de Fé – Volume 2: Deus Pai, Filho e Espírito Santo – Volume 3: Maria, os Santos e os Anjos – Volume 4: A Igreja de Cristo – Volume 5: Os Sete Sacramentos e a Criação – Volume 6: Escatologia e Questões Diversas

A obra é recomendada a todos os que amam a única Igreja de Cristo e/ou se interessam pela Patrística, especialmente sacerdotes, religiosos, seminaristas, catequistas e ministros extraordinários, além de estudantes de Teologia e leigos em geral que queiram conhecer a doutrina cristã tal como foi professada pela Igreja primitiva (e continua sendo pelo Catolicismo!).

 
 
 

(Visão Católica e Ortodoxa) Autor: rev. William G. Most Trad.: Carlos Martins Nabeto

Mt 13, 55 e Mc 6,3 nomeiam as seguintes pessoas como irmãos de Jesus: Tiago, José (ou Josés – os manuscritos variam na forma) Simão e Judas. Mas, Mt 27, 56 diz que, junto à cruz estava Maria, a mãe de Tiago e José. Mc 15, 40 diz que ali estava Maria, a mãe de Tiago, o menor, e José. Logo, embora a prova não seja conclusiva, parece que os dois primeiros, Tiago e José, (ou Joses), – exceto se supormos que estes eram outras pessoas com os mesmíssimos nomes – eram filhos de outra mãe, e não da Mãe de Jesus.

Vemos aqui que o termo “irmão” foi usado para indicar aqueles que não eram filhos de Maria, a Mãe de Jesus. Do mesmo modo, facilmente poderia ter ocorrido o mesmo com os outros dois “irmãos“, Simão e Judas. Além disso, se Maria tivesse outros filhos e filhas naturais no tempo da crucifixão, seria estranho Jesus ter pedido a João para que cuidasse dela. Especialmente porque Tiago, o “irmão do Senhor” ainda estava vivo em 49 d.C. (cf. Gl 1, 19); certamente ele poderia ter cuidado dela… Lot, que era sobrinho de Abraão (cf. Gn 11, 27-31), é chamado de “seu irmão” em Gn 13, 8 e 14, 14-16. O termo hebraico e aramaico ah era usado para expressar vários tipos de graus de parentesco (v. Michael Sokoloff, A Dictionary of Jewish Palestinian Aramaic”, Bar Ilan University Press, Ramat-Gan, Israel, 1990, p.45). O hebraico não tem palavra para parentes. Eles poderiam dizer ben-dod para expressar filho de um tio por parte de pai, mas para outros graus de parentesco eles precisavam construir uma frase complexa, tal como “filho do irmão de sua mãe” ou “filho da irmã de sua mãe” (para consultar expressões complexas do aramaico, v. Sokoloff, pp. 111 e 139).

Objeção 1: não deveríamos usar o hebraico, já que o grego possui um termo para designar primo e outros tipos de parentes, também os Evangelhos não se utilizam de outras palavras específicas para designar os parentes de Jesus. Eles usam somente o termo grego adelphos, o que significa irmão real.

Resposta: A Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento hebraico, (cuja abreviatura padrão é LXX), usa o grego adelphos para Lot que, como vimos acima, era, na verdade, sobrinho. Além disso, os escritores dos Evangelhos e Epístolas sempre tinham em mente as palavras hebraicas, mesmo quando escreviam em grego. Isto vale principalmente para São Paulo. E, como podemos ver atualmente, há uma forte evidência de que São Lucas, em certos pontos, estava traduzindo documentos hebraicos – dois tipos de hebraico [hebraico e aramaico] – com grande cuidado. A LXX, para Mal 1, 2-3, traduz: “Eu amei Jacó e odiei Esaú”. São Paulo, em Rm 9, 13, cita exatamente da mesma forma que a tradução grega. Ainda que os tradutores da LXX conhecessem o hebraico e o grego – e assim também Paulo – utilizaram um modo muito estranho de expressão, modificando potencialmente a expressão hebraica.

Como isso aconteceu? O hebraico e o aramaico carecia dos graus de comparação (tais como: bom, melhor, o melhor; claro, mais claro, claríssimo) e, então, precisava-se encontrar outra forma de expressar as idéias. Enquanto nós poderíamos dizer: “Amo mais a um que a outro”, o hebreu diria: “Amo a um e detesto o outro”. Em Lc 14, 26, Nosso Senhor nos diz que devemos “odiar nossos pais” é óbvio, porém, que quer dizer que devemos amar mais a Cristo do que a nossos pais. De forma semelhante, em 1Cr1, 17, Paulo afirma: “Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar”; só que o próprio Paulo já havia declarado ter batizado algumas pessoas; logo, o que realmente queria dizer é: “Minha missão mais importante é pregar; batizar é menos importante”. São Paulo, em 1Tes 4, 5 diz que os gentios “não conhecem a Deus”. Ele usa o termo “conhecer” no sentido do hebraico yada, um termo amplo que significa conhecer e amar. De fato, não são raras as vezes em que podemos afirmar que certa palavra hebraica encontrava-se na mente de São Paulo, que se expressava em grego.

Todos os estudiosos admitem que o Evangelho de São Lucas possui mais semitismos que os livros escritos por outros semitas (Lucas não era semita, mas médico de origem grega). Por quê? A princípio, parece que Lucas escrevia assim para imitar o estilo da LXX, mas, em um estudo que fiz (v. meu artigo “São Lucas imitava a Septuaginta?”, publicado no Jornal [Internacional] de Estudos do Novo Testamento, jul./1982, pp.30-41, editado pela Universidade de Sheffied, Inglaterra), mostrei, estatisticamente, que Lucas não tentava imitar a Septuaginta. Eu fiz um estudo de um semitismo bem estranho em Lucas: o aditivo kai, que reflete o aditivo hebraico wau. Eis um exemplo tirado de Lc 5, 1: “E isto aconteceu quando as multidões se apertavam para ouvir dele a palavra de Deus e ele se encontrava de pé junto ao Lago [de Genesaré]”. A palavra “e”, grifada em itálico, poderia existir no hebraico, mas não no grego, nem mesmo no aramaico. Pela contagem real, São Lucas usa este “e” somente de 20 a 25% das vezes que poderia usá-lo, se estivesse imitando a Septuaginta. Certamente, não foi esta a razão de seu uso.

Então por que ele a empregou assim? Em linhas gerais, São Lucas nos diz que tomou grande cuidado, conversou com testemunhas oculares e checou relatos escritos sobre Jesus. Estes relatos escritos poderiam estar em grego (alguns judeus sabiam se comunicar em grego), hebraico ou aramaico. Logo, seria possível que São Lucas tivesse usado relatos escritos nessas linguagens. O problema não seria perceptível no grego se fossem usadas fontes gregas, é lógico; mas se ele usou, em certos momentos, documentos hebraicos, e se ele os traduziu com extremo cuidado – tão extremo a ponto de manter a estrutura hebraica no texto grego, onde não existiria – então poderíamos afirmar que foi dessa forma que ele resolveu fazer. As estranhas estruturas que encontramos – também anormais no aramaico – usadas por São Lucas em alguns pontos, mas não em outros, parecem demonstrar a existência de documentos hebraicos, traduzidos com extremo cuidado. Lucas sabia como escrever em grego culto, como demonstra certas passagens. Mas por que escreveu assim? Certamente por causa de seu extremo cuidado, para ser fiel aos textos originais que usava. Portanto, precisamos conhecer o hebraico fundamental para compreendermos a questão corretamente (o “e” é omitido nas traduções das linguagens modernas, como o inglês; o problema só é verificável quando lemos São Lucas na língua grega original).

Há uma palavra importante em Rm 5,19, que diz que “muitos” se tornaram pecadores (= pecado original). É óbvio, porém, que São Paulo se referia a “todos”. De fato, o grego usa polloi; no grego comum, sempre significa muitos, mas não todos. Entretanto, se conhecermos o hebraico que estava na mente de Paulo, tudo torna-se claro. Havia uma estranha palavra, rabbim, que aparece pela primeira vez em Is 53, na profecia da Paixão. Pelo contexto, percebemos claramente que significa todos, ainda que também signifique muitos, para ser mais exato ela significa todos dos que são muitos. Por exemplo, se eu estiver em uma sala com outras três pessoas, eu poderia dizer todos, mas não poderia dizer muitos; agora, se usarmos uma concordância grega para encontrarmos todas as citações em que São Paulo usa a palavra polloi como substantivo, veremos, pelo contexto, que sempre – sem exceção – significará todos; é o caso de Rm 5, 19. Assim, precisamos retornar ao hebraico para compreender o termo grego usado aqui por Paulo.

Em outras partes, São Paulo freqüentemente faz uso do termo grego dikaiosyne não na forma estrita utilizada pelo sentido grego, mas na forma ampla do sentido hebraico de sedaqah. Há muitos outros lugares no Novo Testamento onde devemos considerar o fundamento hebraico para obter o sentido correto do grego. Demos apenas alguns exemplos que são suficientes para mostrar como os escritores do Novo Testamento trabalharam e a necessidade de se evitar que entendamos somente o que diz o grego (que insiste que devemos ignorar o fundamento hebraico, afirmando que o grego possui palavras próprias para designar primos e outros parentes, ao contrário do hebraico).

Objeção 2: J. P. Meier, em “A Marginal Jew” (Doubleday, 1991, pp.325-326) afirma que “o novo Testamento não é uma tradução grega”; assim, o termo hebraico usado para referir-se a irmão não pode ter gerado uma “desastrosa” tradução.

Resposta: Muitos estudiosos crêem que parte ou até mesmo todos os Evangelhos são traduções gregas. A evidência citada acima, no “Jornal de Estudo do Novo Testamento” contribui para demonstrar isso. Em adição, temos evidências extensivas mostrando que, apesar dos autores não terem feito uma tradução, eles muitas vezes usavam palavras gregas com o significado do pensamento hebraico fundamental. Isto é especialmente notável em Paulo, ainda que Meier afirme que Paulo não estava fazendo uma tradução, bem como conhecia “Tiago, o irmão do Senhor”, em pessoa.

Meier também assegura (pp.327-328) que Josefo, um judeu que escreveu em grego, várias vezes utiliza a palavra correta para designar primo, mas usa a palavra irmão para indicar os “irmãos de Jesus”. Concordamos que Josefo assim se expressa. No entanto, será que Josefo possuía informação direta acerca da real natureza dos “irmãos” de Jesus? É óbvio que não. Meier também não analisa a questão sob este ponto de vista…

Objeção 3: Meier afirma (p. 323) que se quisermos que ah signifique primo, então deveríamos ler Mt 12, 50 assim: “Todo aquele que faz o desejo de meu Pai que está nos céus é meu primo, prima e mãe”. De maneira similar (p.357), ele diz que Mc 3, 35 deveria então ser lido: “Nem seus primos acreditavam nele”.

Resposta: Meier parece ser deliberadamente cego nestes pontos. Ora, se ah possui um significado amplo, poderíamos então mantê-lo na tradução, não apenas limitando-o a primo; poderia ser primo, mas também qualquer outra espécie de parente.

Objeção 4: Em Mt 1, 25, os protestantes apontam para duas palavras: até que e primogênito.

Resposta: “Até que”: muitas palavras antigas têm diversos significados possíveis. Às vezes a palavra “até que” abrange o tempo posterior ao indicado mas nem sempre isso acontece. Em Dt 34, 6, Moisés foi enterrado “e até hoje ninguém sabe onde se encontra sua sepultura”. Isto era verdade no dia em que o autor do Deuteronômio relatou o fato; e continua sendo verdade ainda hoje. No Sl. 110, 1, conforme interpretado pelo próprio Jesus, “o Senhor disse ao meu Senhor (= de Davi): ‘Senta à minha mão direita até que eu coloque os teus inimigos sob os teus pés'”. Obviamente, Jesus sempre estará à direita do Pai; logo, a palavra até que jamais significará uma mudança de estado. O Sl 72, 7, um salmo messiânico, diz que em seus dias “a paz abundará até a lua não mais existir”. Aqui novamente, o poder do Messias jamais deixará de existir ainda que a lua deixe de brilhar (Mt 24, 29). Em 2Sm 6, 23, diz-se que “Mical, esposa de Davi, não terá mais filhos até o dia de sua morte”. Logicamente, ela não os terá mesmo após sua morte! Em Mt 11,3, Nosso Senhor diz que se os milagres feitos em Cafarnaúm tivessem sido feitos em Sodoma, “ela teria durado até o presente dia”. Isso não significa que Jesus a destruiria logo a seguir. Em Mt 28, 20, Jesus promete que permanecerá com sua Igreja e seus seguidores “até o fim do mundo”. Será que deserdará depois, na eternidade? Em Rm 8, 22, São Paulo diz que toda a Criação suspira, esperando pela revelação dos filhos de Deus até os seus dias (de Paulo). Nem por isso ele irá para sua missão, mas continuará até a restauração final. Em 1Tm 4, 13, o apóstolo pede para que Timóteo se devote à leitura, exortação e ensinamento “até eu (Paulo) chegar”. Isso não quer dizer que Timóteo deveria parar de fazer tais coisas após a chegada de Paulo. E existe muitos outros exemplos, embora estas poucas citações sejam suficientes para demonstrar que a expressão “até que”, no Antigo e no Novo Testamento, significa uma mudança de coisas que está para acontecer segundo o ponto a que se refere.

Até mesmo J.P. Meier, que trabalha estressantemente para tentar provar que Jesus tinha irmãos naturais, admite que o argumento baseado na expressão “até que” nada prova (em CBQ – jan./1992, pp.9-11).

Primogênito: Jesus é assim chamado em Lc 2, 7 (e também em Mt 1, 25, se considerarmos a adição ao texto grego encontrada na Vulgata latina). Este termo se refere ao hebraico bekor, que expressa principalmente a posição privilegiada do primeiro filho com relação aos demais filhos. Não implica, porém, na existência real de outros irmãos. Podemos ler numa inscrição grega encontrada numa sepultura em Tel el Yaoudieh (cf. Biblical 11, 1930, pp.369-390) que uma mãe faleceu ao dar à luz ao seu filho: “Nas dores do parto de meu filho primogênito, o destino me trouxe o fim da vida”. No mesmo sentido, existe outro epitáfio em Leontópolis (v. “Biblical Archaeology Review,” Set.-Out./1992, p.56).

Objeção 5: Alguns escritores cristãos primitivos dizem que os irmãos do Senhor eram irmãos reais.

Resposta: Meier, que tão diligentemente coleta todos os dados que possam servir para contestar a virgindade de Maria após o nascimento de Jesus, menciona apenas quatro:

  1. Hegésipo, no séc. II – Mas Meier admite (p. 329): “…tal testemunho não está livre de problemas e possíveis auto-contradições”;

  2. Tertuliano – Contudo, Meier reconhece que isto ocorria porque queria “reforçar sua posição ao ponto de vista docético sobre a humanidade de Cristo”; tal desejo fez com que fizesse tal afirmação.De fato, Tertuliano, com a mesma predisposição, afirmou que a aparência do corpo de Cristo era horrível! (Sobre o Corpo de Cristo, cap.9) Realmente ele era um extremista, como se comprova pelo fato de que não sendo os montanistas tão severos quanto à moralidade, acabou por fundar sua própria sub-seita;

  3. Meier também sugere que duas passagens de Santo Ireneu (séc.II) podem implicar na negação da virgindade pós-parto: na primeira Ireneu faz um paralelo entre Adão e Cristo, para segurança de sua “teologia da recapitulação”; na segunda, Ireneu desenvolve o tema da nova Eva. É difícil, porém, encontrar nessas passagens qualquer dica que negue a virgindade pós-parto. O próprio Meier admite que a interpretação desses textos são improváveis;

  4. Helvídio, no séc.IV [totalmente refutado por São Jerônimo]. Estes textos, contudo, são desprezíveis se comparados com o extenso suporte patrístico que favorecem a tese da virgindade perpétua (cf. “Marian Studies,” VIII, 1956, pp. 47-93).

Por isso, em seu sumário de conclusões (pp. 331-332), Meier não faz qualquer menção a estes escritores da Igreja primitiva.

Objeção 6: Meier (p.331) diz que devemos seguir o critério do múltiplo atestado: Paulo, Marcos, João, Josefo e talvez Lucas atestam a existência dos irmãos de Jesus.

Resposta: Isto nada mais é que o retorno ao início da questão. Méier não provou que qualquer um destes “irmãos” seja, de fato, um irmão real de Jesus. Meier acrescenta que o sentido natural de irmão é o que indica irmão real, mas já vimos na segunda resposta (acima), que tal sentido não é absolutamente obrigatório. Ele também afirma que não existe outro caso claro no Novo Testamento que possa admitir outro significado, a não ser irmão real ou meio-irmão. Novamente ele acaba retornando ao início do problema pois não consegue provar que algum desses textos possa significar irmão real.

O próprio Meier reconhece (p. 331) que “todos estes argumentos em conjunto não podem produzir uma certeza absoluta”. Nós acrescentamos: em Mc 3, 20-21, os parentes de Jesus vão até ele para prendê-lo – os irmãos mais novos não poderiam tomar tal atitude na cultura semita, pois Jesus era o primogênito. E, quando Jesus contava com 12 anos ao visitar o Templo de Jerusalém, seus irmãos mais novos deveriam acompanhá-lo (exceto as irmãs), se de fato existissem, de outra forma Maria teria ficado em casa cuidando dos filhos mais novos. Vemos, assim, que não há evidências sólidas na Escritura que nos permitam supor que Nossa Senhora tenha tido outros filhos. Há, por outro lado, respostas lógicas para todas as objeções formuladas. Porém, a razão decisiva é o ensino da Igreja; os credos mais antigos chamam Maria de aei–parthenos, ou seja, “sempre Virgem“.

Meier parece querer usar um machado para cavar… Em seu longo artigo publicado na CQP (1992, pp. 1-28), ele diz, na última página, que deveríamos perguntar se a hierarquia das verdades não nos deixaria aceitar protestantes dentro da Igreja Católica sem que pedíssemos a eles para que acreditassem na virgindade perpétua de Nossa Senhora. De fato, existe uma hierarquia de verdades, algumas mais básicas que outras. Mas isso não significa, em absoluto, que possamos incentivar a negação de uma doutrina que vem sendo repetidamente ensinada pelo Magistério Ordinário, bem como pelos mais antigos credos (portanto, infalíveis). Realmente, se alguns protestantes querem aderir à Igreja sem aceitar a autoridade do Magistério, então jamais serão católicos de fato, ainda que aceitem todos os demais ensinamentos. Aceitar realmente a autoridade significa aceitar tudo, e não quase tudo.

Até mesmo Meier, tão inclinado à negação da virgindade perpétua, admite (pp.340-341) que existe uma estranha tradição rabínica que diz que Moisés, após seu primeiro contato com Deus, deixou de se relacionar sexualmente com sua esposa. Isto aparece primeiro em Filo de Alexandria e foi suportado, depois, pelos rabinos. Ora, se Moisés, em virtude de um contato externo com Deus, agiu dessa maneira, porque então não poderia ocorrer o mesmo com Nossa Senhora, que foi preenchida pela divina presença para a concepção de Jesus e carregou a própria Divindade em seu ventre durante nove meses? De fato, Lutero e Calvino, como Méier reconhece (p.319), aceitaram a doutrina da virgindade perpétua de Maria.

Por que, então, Meier luta tanto contra ela? Realmente, os protestantes, se forem lógicos, não podem apelar para provas bíblicas, a partir do momento em que nem mesmo têm como determinar quais livros são inspirados. Lutero achava que, se um livro pregasse a justificação somente pela fé, então ele era inspirado, caso contrário, não. Mas, lamentavelmente, ele nunca conseguiu provar que isso era verdade (tanto ele quanto eu poderíamos escrever livros sobre o assunto e nem por isso seriam inspirados) eis que vários livros da Bíblia não mencionam a justificação pela fé… É que, infelizmente, Lutero não sabia o que São Paulo queria dizer com a palavra fé. (sobre este assunto, consultar a obra fundamental do Protestantismo: “Interpreter’s Dictionary of the Bible”, Supplemento, p.333).

 
 
 

I Pregação de Advento do Pe. Raniero Cantalamessa OFMCap.

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 15 de dezembro de 2006 (ZENIT.org).- «“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). As bem-aventuranças evangélicas». Este é o tema das meditações que o padre Raniero Cantalamessa OFMCap., pregador da Casa Pontifícia, dirige ao Papa e a seus colaboradores da Cúria Romana.

Na presença de Bento XVI –na Capela «Redentoris Mater» do Palácio Apostólico vaticano–, esta sexta-feira aconteceu a primeira meditação de Advento; a segunda está programada para o próximo 22 de dezembro.

Como explica um comunicado da Casa Pontifícia, as bem-aventuranças são o auto-retrato de Jesus de Nazaré, pobre, manso, puro de coração e perseguido pela injustiça. Por isso, representam o caminho privilegiado a seguir para ter em si «os mesmos sentimentos de Cristo» (Fl 2, 5).

Já se aprofundou na bem-aventurança sobre os pobres de espírito tempos atrás. Assim que nas presentes meditações se busca refletir sobre as duas bem-aventuranças seguintes, a dos que choram e dos mansos, em especial consonância com o espírito litúrgico de Advento e necessárias para a Igreja na situação histórica atual.

Estes tempos de meditação estão abertos aos senhores cardeais, arcebispos e bispos, secretários das Congregações vaticanas, prelados da Cúria Romana e do Vicariato de Roma, e superiores gerais e procuradores das ordens religiosas que formam parte da Capela Pontifícia.

Publicamos a seguir o texto integral da primeira pregação deste Advento.

* * *

Pe. Raniero Cantalamessa Primeira Pregação de Advento 2006

«Bem-aventurados os que choram!» A bem-aventurança dos aflitos

Começamos com esta meditação um ciclo de reflexão sobre as bem-aventuranças que, se Deus quiser, prosseguiremos na próxima Quaresma. As bem-aventuranças têm conhecido, dentro do próprio Novo Testamento, um desenvolvimento e aplicações diferentes, segundo a teologia de cada evangelista ou as necessidades novas das comunidades. A elas se aplica o que São Gregório Magno diz de toda a Escritura, que ela «cum legentibus crescit» [1], cresce com aqueles que a lêem, revela sempre novas implicações e conteúdos mais ricos, de acordo com as instâncias e os questionamentos novos com os que se lê.

Manter a fé neste princípio significa que também hoje nós devemos ler as bem-aventuranças à luz das situações novas nas que nos encontramos vivendo, com a diferença, entende-se, de que as interpretações dos evangelistas estão inspiradas, e por isso normativas para todos e para sempre, enquanto que as de hoje não compartilham tal prerrogativa.


1. Uma nova relação entre prazer e dor

Omitindo a bem-aventurança dos pobres que meditamos no Advento precedente, concentremo-nos na segunda bem-aventurança: «Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados» (Mt 5, 4). No evangelho de Lucas, onde as bem-aventuranças, que são quatro, estão em forma de discurso direto e reforçadas por uma advertência, a mesma bem-aventurança soa assim: «Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir». «Ai de vós, que agora rides, porque conhecereis o luto e as lágrimas!» (Lc 6, 21.25).

A mensagem mais formidável está contida precisamente na estrutura desta bem-aventurança. Esta se permite recolher a revolução que o evangelho imprimiu a respeito do problema do prazer e da dor. O ponto de partida –comum tanto ao pensamento religioso como profano– é a constatação de que nesta vida prazer e dor são inseparáveis; se sucedem um ao outro com a mesma regularidade com a que à elevação de uma onda no mar, sucede um afundamento e um vazio que puxa o náufrago mar adentro.

O homem busca desesperadamente separar estes dois irmãos siameses, ilhar o prazer da dor. Mas é inútil. É o mesmo prazer desordenado o que se volta contra ele e se transforma em sofrimento, ou de improviso e tragicamente, ou um pouco por vez, enquanto é por sua natureza transitório e gera cansaço e náusea. É uma lição que nos chega da crônica diária e que o homem tem expressado de mil maneiras em sua arte e sua literatura. «Um não sei quê de amargo –escreve o poeta Lucrécio– brota do íntimo de cada prazer e nos angustia já em meio de nossas delícias» [2].

A Bíblia tem uma resposta a dar a isto, que é o verdadeiro drama da existência humana. Houve desde o início uma eleição do homem, feita possível desde sua liberdade, que o levou a orientar exclusivamente para as coisas visíveis a capacidade de gozo da que estava dotado para que aspirasse a gozar o Bem infinito que é Deus.

Ao prazer, eleito contra a lei de Deus e simbolizado por Adão e Eva, que saboreiam o fruto proibido, Deus permitiu que seguisse a dor e a morte, mais como remédio que como castigo. A fim de que não ocorresse que, seguindo apenas seu egoísmo e seu instinto, o homem se destruísse completamente e destruísse cada um de seus próximos. Assim, ao prazer vemos como se adere a ele, como sua sombra, o sofrimento.

Cristo rompeu por fim esta corrente. Ele, «em vez da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz» (Hb 12, 2). Fez, em resumo, o contrário do que fez Adão e do que faz cada homem. «A morte do Senhor –escreveu São Máximo Confessor–, diferentemente da dos demais homens, não era uma dívida paga pelo prazer, mas algo que era lançado contra o próprio prazer. E assim, através desta morte, transformou o destino merecido pelo homem» [3]. Ressuscitando da morte, Ele inaugurou um novo gênero de prazer: o que não precede à dor, como sua causa, mas que lhe segue, com seu fruto.

Tudo isto é maravilhosamente proclamado por nossa bem-aventurança, que à seqüência riso-pranto lhe opõe a seqüência pranto-riso. Não se trata de uma simples inversão dos tempos. A diferença, infinita, está no fato de que na ordem proposta por Jesus é o prazer, não o sofrimento, o que tem a última palavra e, o que importa mais, uma última palavra que dura eternamente.

2. «Onde está teu Deus?»

Procuremos agora entender quem são exatamente os aflitos e os que choram, proclamados bem-aventurados por Cristo. Os exegetas excluem hoje, quase unanimemente, que se tratem os aflitos somente em sentido objetivo e sociológico, gente à qual Jesus proclamaria bem-aventurada apenas pelo fato de sofrer e de chorar. O elemento subjetivo, isto é, o motivo do pranto, é determinante.

E qual é este motivo? A via mais segura para descobrir que pranto e que aflição são proclamados bem-aventurados por Cristo é ver por que se chora na Bíblia e por que chorou Jesus. Descobrimos assim que existe um pranto de arrependimento, como o de Pedro após a traição, um «chorar com os que choram» (Rm 12, 15), de compaixão pela dor alheia, como chorou Jesus com a viúva de Naim e com as irmãs de Lázaro; o choro de exilados que deixam a pátria, como o dos judeus nos rios da Babilônia… E muitos outros.

Gostaria de sacar à luz dois motivos pelos que se chora na Bíblia e pelos que Jesus chorou que me parecem merecer particular meditação no momento histórico que estamos vivendo.

No Salmo 41 lemos:

«As lágrimas são meu pão noite e dia, e todo dia me perguntam: “Onde está o teu Deus?” (…) Esmigalhando-me os ossos meus opressores me insultam, repetindo todo o dia: “Onde está o teu Deus?”».

Nunca esta tristeza do fiel pelo rechaço presunçoso de Deus aa seu redor teve tanta razão como hoje. Depois do período de relativo silêncio posterior ao ateísmo marxista, estamos assistindo a um ressurgimento de um ateísmo militante e agressivo, com marca de origem científica ou cientista. Os títulos de alguns livros recentes são eloqüentes: «Tratado de ateologia», «A ilusão de Deus», «O fim da fé», «Criação sem Deus», «Uma ética sem Deus» … [4].

Em um destes tratados, lê-se a seguinte declaração: «As sociedades humanas elaboraram vários meios ordinários de conhecimento, geralmente compartilhados, através dos quais se pode comprovar algo. Quem afirma a existência de um ser não cognoscível com esses instrumentos deve assumir a carga da prova. Por isso, me parece legítimo que, enquanto não se prove o contrário, Deus não existe» [5].

Com os mesmos argumentos se poderia demonstrar que tampouco existe o amor, dado que não é comprovável com os instrumentos da ciência. O fato é que a prova da existência de Deus não se encontra nos livros nem em laboratórios de biologia, mas na vida. Na vida de Cristo antes de tudo, na dos santos e na dos inumeráveis testemunhos da fé. Encontra-se também na tão desvalorizada prova dos sinais e milagres que Jesus mesmo dava como prova de sua verdade e que Deus segue dando, mas que os ateus rechaçam a priori, sem tomar sequer o incômodo de examinar.

Motivo de tristeza do fiel, como para o salmista, é a impotência que experimenta frente ao desafio: «Onde está o teu Deus?». Com seu misterioso silêncio, Deus chama o fiel a compartilhar sua debilidade e derrota, prometendo apenas nestas condições a vitória: «o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens» (1 Cor 1, 25).

3. «Levaram o meu Senhor!»

Não menos doloroso é hoje, para o fiel cristão, o rechaço sistemático de Cristo em nome de uma investigação histórica objetiva que, em certas formas, reduz-se a algo mais subjetivo que se pode imaginar: «fotografias dos autores e de seus ideais», como aponta o Santo Padre nas páginas introdutórias de seu próximo livro sobre Jesus. Assistimos a uma corrida para ver quem consegue apresentar um Cristo mais à medida do homem de hoje, despojando-o de toda prerrogativa transcendente. À pergunta dos anjos: «Mulher, por que choras?», Maria Madalena, na manhã de Páscoa, respondeu: «Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram» (Jo 20, 13). Um motivo de pranto que poderíamos fazer nosso.

Sempre existiu a tendência a revestir Cristo das roupagens da própria época ou da própria ideologia. No passado, por outro lado, se bem que discutíveis, se tratava de causas sérias e de grande impacto: o Cristo idealista, romântico, liberal, socialista, revolucionário… Nossa época, obcecada pelo sexo, não consegue pensar nele mais que com problemas sentimentais: «Uma vez mais Jesus foi modernizado, ou melhor dito, pós-modernizado» [6].

É bom saber de onde vem esta corrente recente que faz de Jesus de Nazaré o campo de provas dos ideais pós-modernos de relativismo ético e individualismo absoluto (o chamado desconstrucionismo) e que, direta ou indiretamente, está inspirando romances, filmes e espetáculos e influi também nas pesquisas históricas sobre Ele. Trata-se de um movimento nascido nos Estados Unidos nas últimas décadas do século passado, que tem em “The Jesus Seminar” seu ponto de agregação mais ativo.

Foi definido com «neoliberalismo», por seu retorno ao Jesus da teologia liberal do século XIX, sem vínculos nem com o judaísmo, por um lado, nem com o cristianismo e a Igreja, por outro; um Jesus propagador de idéias morais, mas já não de grande alcance, como no liberalismo clássico (paternidade de Deus, valor infinito da alma humana), mas de sabedoria simples, de alcance sociológico mais que teológico. O objetivo destes estudiosos já não é simplesmente corrigir, mas destruir, como dizem eles, «esse erro chamado cristianismo».

É muito significativo o discurso programático realizado pelo fundador do movimento em 1985: «Estamos a ponto de embarcar em uma empresa de grande alcance. Queremos simples e vigorosamente nos colocarmos em busca da voz de Jesus, do que Ele disse verdadeiramente. Neste processo, lançaremos questionamentos no limite do sagrado e até da blasfêmia para os ouvidos de muitos de nossa sociedade. Como conseqüência, o caminho que seguiremos poderia revelar-se arriscado. Poderia nascer hostilidade, mas avençaremos a despeito dos perigos porque o problema de Jesus é o que nos desafia, como o Everest desafia os alpinistas» [7].

Jesus é liberado já não só dos dogmas da Igreja, mas também das Escrituras e dos Evangelhos. Que fontes permanecem, neste ponto, para falar dele, que não seja a simples e pura fantasia? Naturalmente, os apócrifos, e em primeiro lugar o Evangelho de Tomé, fechado inclusive, segundo eles, nos anos 30-60 depois de Cristo, antes que os Evangelhos canônicos e que o próprio Paulo; depois, a análise sociológica das condições de vida na Galiléia nos tempos de Cristo.

Que imagem de Jesus se tira daí? Cito algumas das definições que se deram, não todas, naturalmente, compartilhadas por todos: «um excêntrico galileu», «o famoso festeiro», «um sábio vagabundo ou subversivo», o «mestre de uma sabedoria aforística», «um camponês judeu empapado de filosofia cínica» [8].

Fica por explicar o mistério de como é que um ser tão inócuo tenha acabado na cruz e tenha podido converter-se no «homem que mudou o mundo». O que é verdadeiramente para chorar não é que se escrevam estas coisas (também há que inventar algo novo se se quer seguir escrevendo livros); mas que, uma vez publicados, estes livros vendam centenas de milhares, até milhões, de cópias.

A incapacidade da investigação histórico-filológica de empalmar o Jesus da realidade com o Jesus das fontes evangélicas e da Igreja depende, ao meu ver, do fato de que aquela ignora e não se dispõe a estudar a dinâmica dos fenômenos espirituais e sobrenaturais. Seria como querer ouvir um som com os olhos ou ver uma cor com os ouvidos.

O estudo e a experiência dos fenômenos místicos (também estes são uma realidade!) mostram como todo um desenvolvimento posterior, na vida da própria pessoa ou do movimento nascido dela, pode estar contido num evento, às vezes em um instante (quando se trata de um encontro com o divino), do qual somente depois, pelos frutos, revelam-se as potencialidades escondidas. Os sociólogos se aproximam desta verdade com o conceito de statu nascenti [9].

A criança e o homem adulto se vêem de uma maneira distinta do embrião do começo; no entanto, neste tudo estava contido. De igual maneira, o reino é a princípio «a menor das sementes», mas está destinado a crescer e a converter-se em uma grande árvore (Mt 13, 32).

O nascimento do movimento franciscano se presta a uma comparação, naturalmente em um plano qualitativamente diferente. As fontes franciscanas apresentam divergências e contradições quase sobre cada ponto de vista do Pobrezinho: sobre a visão e a palavra do crucificado de São Damião, sobre o episódio dos estigmas… De nenhuma palavra do santo, exceto dos poucos escritos de seu punho, têm-se a segurança de que tenha saído de sua boca. As Florezinhas parecem toda uma idealização da história.

No entanto, tudo o que floresceu em torno e depois de Francisco – o movimento franciscano com seus reflexos na espiritualidade, na arte, na literatura – depende dele; não é senão uma manifestação – e inclusive empobrecida – das energias espirituais postas em movimento por sua pessoa e por sua vida; melhor, pelo que Deus havia feito em sua vida.

Muitos, até entre os estudiosos fiéis, dão por certo que o Jesus real foi, e pretendeu ser, muito menos do que está escrito dele nos evangelhos, que não se atribuiu tal ou qual título. A verdade é que Ele é imensamente mais, não menos, que o que está escrito dele! Quem é o Filho, somente o sabe o Pai, e o sabem, em pequena medida, também aqueles a quem o Pai quer revelar, em geral não os doutos e os acadêmicos, ao menos que eles se façam pequenos…

Paulo dizia que experimentava no coração «tristeza imensa e uma profunda e contínua dor» pelo rechaço de Cristo por parte de seus compatriotas (Rm 9, 1s.); como não experimentar a mesma dor pelo rechaço dele por parte de muitos contemporâneos nossos, nos países de antiga fé cristã? Por um motivo similar, por não haver reconhecido nele o próprio amigo e salvador, Jesus chorou em Jerusalém…

Felizmente parece precisamente que está encerrando já um ciclo e se está virando página nas investigações sobre Jesus. Em uma obra de três volumes – de mil páginas cada uma – intitulada «Christianity in the Making», destinada a criar época como outros estudos seus precedentes, um dos máximos estudiosos vivos do Novo Testamento, James Dunn, após uma meticulosa análise dos resultados dos últimos três séculos de investigações, chegou à conclusão de que não houve nenhuma interrupção entre o Jesus que prega e o Jesus pregado, e portanto, entre o Jesus da história e o Jesus da fé. Esta não nasceu depois da Páscoa, mas com os primeiros encontros dos discípulos, que se fizeram discípulos justamente porque acreditaram nele, se bem que ao início com uma fé frágil e ainda ignorante de suas implicações.

O contraste entre o Cristo da fé e o Jesus da história é o resultado de uma «fuga da história», antes que de uma «fuga da fé», devidas, uma e outra, ao fato de haver projetado sobre Jesus interesses e ideais do momento. Libertava-se, sim, Jesus das roupagens da dogmática eclesiástica, mas para colocar-lhe vestidos de moda que mudavam a cada estação. Mas o imenso esforço de investigação em torno à pessoa de Cristo não foi em vão, porque é precisamente graças a ele que agora, exploradas todas as soluções alternativas, estamos em grau de chegar criticamente a esta conclusão [10].

4. «Chorem os sacerdotes, ministros do Senhor»

Existe também um segundo pranto na Bíblia sobre o qual devemos refletir. Falam dele os profetas. Ezequiel refere a visão que teve um dia. A voz poderosa de Deus grita a um misterioso personagem «vestido de linho, que trazia na cintura o estojo de escriba»: «Percorre a cidade, a saber, Jerusalém, e assinala com uma cruz [tav] a testa dos homens que estão gemendo e chorando por causa de todas as abominações que se fazem no meio dela» (Ez 9, 4).

Esta visão teve ressonâncias profundas na continuação da revelação e da Igreja. Aquele sinal, tav, última letra do alfabeto hebreu, por sua forma de cruz se converte no Apocalipse no «selo do Deus vivo» impresso na frente dos salvos (Ap 7, 2s.).

A Igreja tem «chorado e suspirado» em tempos recentes pelas abominações cometidas em seu seio por alguns de seus próprios ministros e pastores. Tem pago um preço elevadíssimo por isso. Tem se esforçado a remediar, regras firmes foram estabelecidas para impedir que os abusos se repitam. Chegou a hora, após a emergência, de fazer o mais importante de tudo: chorar ante Deus, afligir-se como se aflige Deus; pela ofensa ao corpo de Cristo e o escândalo «aos mais pequenos de seus irmãos», mais que pelo dano e desonra ocasionados a nós.

É a condição para que de todo este mal possa verdadeiramente chegar o bem e se estabeleça uma reconciliação do povo com Deus e com os próprios sacerdotes.

«Tocai a trombeta em Sião! ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada! (…) Entre o pórtico e o altar chorem os sacerdotes, ministros de Iahweh e digam: “Iahweh, tem piedade do teu povo! Não entregues ao opróbrio a tua herança, Para que as nações zombem deles!”» (Jl 2, 15-17).

Estas palavras do profeta Joel contêm um chamado para nós. Não se poderia fazer o mesmo também hoje: convocar um dia de jejum e de penitência, ao menos no âmbito local e nacional, onde o problema tenha sido mais forte, para expressar publicamente arrependimento ante Deus e solidariedade com as vítimas, estabelecer, em resumo, uma reconciliação dos ânimos e retomar um caminho de Igreja, renovados no coração e na memória?

Dão-me o valor de dizer isso as palavras pronunciadas pelo Santo Padre ao episcopado de uma nação católica em uma recente visita ad limina: «As feridas causadas por estes atos são profundas, e é urgente a tarefa de restabelecer a esperança e a confiança quando estas ficaram danificadas… Deste modo a Igreja se reforçará e será cada vez mais capaz de dar testemunho da força redentora da Cruz de Cristo» [11].

Mas não devemos deixar sem uma palavra de esperança também os desventurados irmãos que foram a causa do mal. Sobre o caso de incesto ocorrido na comunidade de Corinto, o Apóstolo sentenciou: «Entreguemos tal homem a Satanás para a perda da sua carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor» (1 Cor 5, 5). (Hoje diríamos: que seja entregue à justiça humana, para que sua alma obtenha a salvação). A salvação do pecador, não seu castigo, é o que importava ao Apóstolo.

Um dia que pregava ao clero de uma diocese que havia sofrido muito por esta razão, impactou-me um pensamento. Estes irmãos nossos foram despojados de tudo, ministério, honra, liberdade, e só Deus sabe com quanta responsabilidade moral efetiva, em cada caso; passaram a ser os últimos, os rechaçados… Se nesta situação, tocados pela graça, afligem-se pelo mal causado, unem seu pranto ao da Igreja, a bem-aventurança dos aflitos e dos que choram passa a ser subitamente sua bem-aventurança. Poderiam estar próximos de Cristo, que é o amigo dos últimos, mais que muitos outros – inclusive eu –, ricos da própria respeitabilidade e talvez levados, como os fariseus, a julgar a quem erra.

Mas há uma coisa que estes irmãos deveriam absolutamente evitar fazer e que alguns, lamentavelmente, estão tentando no entanto realizar: aproveitar o clamor para tirar benefícios até da própria culpa, concedendo entrevistas, escrevendo memórias, na tentativa de fazer recair a culpa sobre os superiores e sobre a comunidade eclesial. Isso revelaria uma dureza de coração verdadeiramente perigosa.

5. As lágrimas mais belas

Concluo aludindo a um tipo de lágrima diferente. Pode chorar de dor, mas também de comoção e de alegria. As lágrimas mais belas são as que nos chegam aos olhos quando, iluminados pelo Espírito Santo, «provamos e vemos como o Senhor é bom» (Sal 34, 9).

Quando se está neste estado de graça, surpreende que o mundo e nós mesmos não caiamos de joelhos e não choremos todo o tempo de estupor e de comoção. Lágrimas deste tipo deviam correr pelo rosto de Agostinho quando escrevia as Confissões: «Quanto nos amaste, oh bom Pai, que não te reservaste teu único Filho, mas que nos deste por todos nós. Quanto nos amaste!» [12].

Lágrimas como estas verteu Pascal na noite em que teve a revelação do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, que se revela pelas vias do evangelho, e em uma folhinha de papel (encontrada tecida no interior de sua jaqueta após a sua morte) escreveu: «Alegria, alegria, lágrimas de alegria!». Penso que também as lágrimas com as que a pecadora empapou os pés de Jesus não eram lágrimas somente de arrependimento, mas também de gratidão e de alegria.

Se no céu se pode chorar, é deste pranto que está cheio o Paraíso. Em Istambul, a antiga Constantinopla, onde o Santo Padre viajou dias atrás, viveu em torno ao ano 1.000 São Simeão o Novo Teólogo, o santo das lágrimas. É o exemplo mais brilhante na história da espiritualidade cristã das lágrimas de arrependimento que se transformam em lágrimas de estupor e de silêncio. «Chorava – conta em uma obra sua – e estava em uma alegria inexpressível» [13]. Parafraseando a bem-aventurança dos aflitos, diz: «Bem-aventurados os que sempre choram amargamente seus pecados, porque brilhará a luz e transformará as lágrimas amargas em doces» [14].

Que Deus nos conceda desfrutar, ao menos uma vez na vida, destas lágrimas de comoção e de alegria.

———————————————————– [1] Gregorio Magno, Commento morale a Giobbe, 20,1 (CC 143 A, p. 1003). [2] Lucrecio, De rerum natura, IV, 1129 s. [3] Máximo el Confesor, Capitoli vari, IV cent. 39; en Filocalia, II, Torino 1983, p. 249. [4] Respectivamente de Michel Onfray, de Richard Dawkins, Sam Harris, Telmo Pievani, Eugenio Lecaldano. [5] Carlo Augusto Viano, Laici in ginocchio, Laterza, Bari. [6] J. D.G. Dunn, Gli albori del cristianesimo, I,1, Brescia, Paideia 2006, p. 81. [7] Robert Funk, Discurso inaugural de março de 1985 em Berkeley, California. [8] Cfr. J. D.G. Dunn, Gli albori del cristianesimo, I, 1, Brescia 2006, pp. 75-82. [9] Cf. F. Alberoni, Innamoramento e amore, Garzanti, Milán 1981. [10] Cfr. Dunn, Christianity in the Making, Grand Rapids, Michigan 2003. Publicaram-se em italiano os primeiros dois volumes do primeiro tomo com o título Gli albori del cristianesimo, I, La memoria di Gesú, vol. 1: Fede e Gesú storico; I, 2: La missione di Gesú, Paideia, Brescia 2006. [11] Benedicto XVI, Discurso aos bispos da Conferencia Episcopal da Irlanda, sábado, 28 de outubro de 2006. [12] Agustín, Confessioni, X, 43. [13] Simeón, el Nuevo Teólogo, Ringraziamenti, 2 (SCh 113, p. 350). [14] Simeón, el Nuevo Teólogo, Trattati etici, 10 (SCh 129, p. 318).

[Traduzido por Zenit]

 
 
 
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