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Comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap., sobre a liturgia do próximo domingo

ROMA, quinta-feira, 15 de março de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap. — pregador da Casa Pontifícia — sobre a liturgia do próximo domingo, IV da Quaresma.

* * *

Jesus e os pecadores

II Domingo de Quaresma Josué 5, 9a. 10-12; 2 Coríntios 5, 17-21; Lucas 15, 1-3. 11-32

O Evangelho do II domingo da Quaresma constitui uma das páginas mais célebres do Evangelho de Lucas e dos quatro Evangelhos: a parábola do filho pródigo. Tudo, nesta parábola, é surpreendente; Deus nunca havia sido descrito aos homens com estas características. Essa parábola sozinha tocou mais corações que todos os discursos dos pregadores juntos. Tem um poder incrível para atuar na mente, no coração, na fantasia, na memória. Sabe tocar os pontos mais diversos: o arrependimento, a vergonha, a saudade.

A parábola é introduzida com estas palavras: «Costumavam aproximar-se de Jesus os publicanos e os pecadores para escutá-lo. E os fariseus e os escribas murmuravam entre si: ‘Esse acolhe os pecadores e come com eles’. Então Jesus lhes disse esta parábola…» (Lc 15, 1-2). Seguindo esta indicação, queremos refletir sobre a atitude de Jesus para com os pecadores, contemplando o Evangelho em seu conjunto, movidos pelo objetivo que nos fixamos neste comentário aos Evangelhos da Quaresma, de conhecer melhor quem era Jesus, o que sabemos historicamente d’Ele.

É conhecida a acolhida que Jesus reserva aos pecadores no Evangelho e a oposição que isso causou por parte dos defensores da lei, que o acusavam de ser «um comilão e um beberrão, amigo de publicanos e pecadores» (Lc 7, 34). Um dos considerados historicamente como dos melhores discursos de Jesus enuncia: «Não vim para chamar os justos, mas os pecadores» (Mc 2, 17). Sentindo-se por Ele acolhidos e não julgados, os pecadores o escutavam com alegria.

Mas quem eram os pecadores, que categoria de pessoas era designada com este termo? Alguém, na tentativa de exonerar os adversários de Jesus, os fariseus, sustentou que com este termo compreende «os transgressores deliberados e impenitentes da lei», em outras palavras, os criminosos, os fora-da-lei. Se assim fosse, os adversários de Jesus tinham toda a razão de escandalizar-se e de considerá-lo como uma pessoa irresponsável e socialmente perigosa. Seria como se hoje um sacerdote freqüentasse habitualmente mafiosos e criminosos e aceitasse seus convites para comer, sob o pretexto de falar-lhes de Deus.

Na verdade, as coisas não são assim. Os fariseus tinham uma visão própria da lei e do que é conforme ou contrário a ela, e consideravam réprobos todos os que não se conformavam com sua rígida interpretação da lei. Pecadores, em resumo, eram para eles todos os que não seguiam suas tradições e imposições. Seguindo a mesma lógica, os Essênios de Qumran consideravam os próprios fariseus como injustos e transgressores da lei! Também ocorre hoje. Certos grupos ultra-ortodoxos consideram automaticamente como hereges todos que não pensam exatamente como eles.

Um eminente estudioso escreve ao respeito: «Não é verdade que Jesus abria as portas do reino a criminosos empedernidos e impenitentes, ou negava a existência de ‘pecadores’. Jesus se opôs às acusações que se levantavam no corpo de Israel, pelas quais alguns israelitas eram tratados como se estivessem fora da aliança e excluídos da graça de Deus» (James Dunn).

Jesus não nega que exista o pecado e que existam os pecadores. O fato de chamá-los de «doentes» o demonstra. Sobre este ponto é mais rigoroso que seus adversários. Se estes condenam o adultério de fato, Ele condena também o adultério de desejo; se a lei dizia não matar, Ele diz que não se deve sequer odiar ou insultar o irmão. Aos pecadores que se aproximam d’Ele, lhes diz: «Vai e não peques mais»; não diz: «Vai e segue como antes».

O que Jesus condena é estabelecer por conta própria qual é a verdadeira justiça e desprezar os demais, negando-lhes até a possibilidade de mudar. É significativo o modo em que Lucas introduz a parábola do fariseu e do publicano. «Disse também a alguns que se tinham por justos e desprezavam os demais, esta parábola» (Lc 18, 9). Jesus era mais severo com aqueles que, com tom depreciativo, condenavam os pecadores, que com os próprios pecadores.

Mas o fato mais novo e inaudito na relação entre Jesus e os pecadores não é sua bondade e misericórdia para com eles. Isso se pode explicar humanamente. Existe, em sua atitude, algo que não se pode explicar humanamente, isto é, sustentando que Jesus fosse um homem como os demais, e é o fato de perdoar os pecados.

Jesus disse ao paralítico: «Filho, teus pecados te são perdoados». «Quem pode perdoar os pecados senão Deus?», gritam espantados seus adversários. E Jesus: «Para que saibais que o Filho do homem tem poder para perdoar os pecados, ‘Levanta-te’ — disse ao paralítico –, toma tua maca e vai para casa». Ninguém podia verificar se os pecados daquele homem tinham sido ou não perdoados, mas todos podiam constatar que se levantava e caminhava. O milagre visível testificava o invisível.

Também o exame das relações de Jesus com os pecadores contribui para dar uma resposta à pergunta: Quem era Jesus? Um homem como os demais, um profeta, ou algo mais e diferente? Durante sua vida terrena, Jesus não afirmou jamais explicitamente que fosse Deus (e explicamos anteriormente também por que), mas atuou atribuindo-se poderes que são exclusivos de Deus.

Voltamos agora ao Evangelho do domingo e à parábola do filho pródigo. Há um elemento comum que une entre si as três parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do filho pródigo, narradas uma após a outra no capítulo 15 de Lucas. O que diz o pastor que encontrou a ovelha perdida e a mulher que encontrou sua moeda? «Alegrai-vos comigo!». E o que diz Jesus como conclusão de cada uma das três parábolas? «Haverá mais alegria no céu por um pecador que se converta que por noventa e nove justos que não tenham necessidade de conversão».

O leitmotiv das três parábolas é, portanto, a alegria de Deus. (Há alegria «ante os anjos de Deus» é uma forma hebraica de dizer que há alegria «em Deus»). Em nossa parábola, a alegria se transborda e se converte em festa. Aquele pai não cabe em si e não sabe o que inventar: ordena dar as vestes de luxo, o anel com o selo da família, matar o carneiro cevado, e diz a todos: «Comamos e celebremos uma festa, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado».

Em uma obra sua, Dostoievski descreve uma cena que tem todo o ambiente de uma imagem real. Uma mulher do povo tem nos braços sua criança de poucas semanas, quando esta — pela primeira vez, diz ela — lhe sorri. Compungida, faz o sinal da cruz e a quem lhe pergunta o porquê daquele gesto, responde: «Assim como uma mãe é feliz quando nota o primeiro sorriso de seu filho, assim se alegra Deus cada vez que um pecador se ajoelha e lhe dirige uma oração com todo o coração» (L’Idiota, Milano 1983, p. 272). Talvez alguém, ao ouvir, decida dar finalmente a Deus um pouco dessa alegria, dar-lhe um sorriso antes de morrer…

[Tradução realizada por Zenit]

Ouça também a Homilia sobre a parabola do Filho pródigo:

 
 
 

Uma enorme responsabilidade para os cristãos, esclarece na audiência geral

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 22 novembro de 2006 (ZENIT.org).- Quem encontra a Igreja, encontra Cristo, constatou Bento XVI na audiência geral desta quarta-feira.

Por isso, o Papa afirmou: «Uma pessoa não cristã que entra em uma assembléia nossa, no final deveria poder dizer: “Verdadeiramente, Deus está convosco”».

Nesta frase concentrou uma das grandes lições que deixou o apóstolo Paulo com sua vida e suas obras.

O bispo de Roma dedicou sua quarta e última meditação sobre Saulo de Tarso a ilustrar sua visão sobre «a vida na Igreja».

Cerca de 50.000 peregrinos escutaram suas palavras — o dobro do previsto, segundo «Rádio Vaticano» –, que na praça de São Pedro desafiaram a violenta chuva.

Ao rememorar a história do «décimo terceiro» apóstolo, o pontífice explicou que «a história nos demonstra que se chega normalmente a Jesus passando pela Igreja».

Paulo, de fato, «encontrou a Igreja antes de encontrar Jesus». Agora, explicou, «em seu caso, este contato foi contraproducente: não provocou a adesão, mas sim uma repulsão violenta».

O apóstolo descobriu a Igreja «graças a uma intervenção direta a Cristo, que ao revelar-se no caminho de Damasco, se identificou com a Igreja e lhe deu a entender que perseguir a Igreja era perseguir a Ele, o Senhor»: «Saulo, Saulo, por que me persegues?» (cf. Atos 9, 4).

«Então, Paulo converteu-se, ao mesmo tempo, a Cristo e à Igreja», indicou, explicando que deste modo se entende a importância que o apóstolo dá em seus escritos à Igreja, a qual chamava de «corpo de Cristo», definição «que não encontramos em outros autores cristãos do século I».

«A raiz mais profunda desta surpreendente definição da Igreja é encontrada no Sacramento do Corpo de Cristo», assinalou, declarando que «na própria Eucaristia Cristo nos dá seu Corpo e nos torna seu Corpo».

«Não só se dá uma pertença da Igreja a Cristo, mas também uma certa forma de equiparação e identificação da Igreja com o próprio Cristo», sublinhou.

Disso, afirmou, «se deriva a grandeza e a nobreza da Igreja, ou seja, de todos nós que fazemos parte dela: do fato de ser membros de Cristo, uma espécie de extensão de sua presença pessoal no mundo».

«E daí se deriva, naturalmente — acrescentou –, nosso dever de viver realmente em conformidade com Cristo.»

Por este motivo, seguiu explicando, Paulo «chega a apresentar a Igreja como esposa de Cristo», retomando «uma antiga metáfora profética, que fazia do povo de Israel a esposa do Deus da aliança».

«Expressa assim até que ponto são íntimas as relações entre Cristo e sua Igreja, seja porque é objetivo do mais terno amor por parte de seu Senhor, seja porque o amor tem que ser mútuo e que nós, enquanto membros da Igreja, temos de demonstrar-lhe uma fidelidade apaixonada.»

«Esta é nossa definição: fazemos parte dos que invocam o nome do Senhor Jesus Cristo», disse, indicando que isso constitui, ao mesmo tempo, a grande responsabilidade do cristão.

 
 
 

«Uma profecia», reconhece Bento XVI

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 4 de setembro de 2006 (ZENIT.org).- Publicamos a mensagem que Bento XVI enviou ao arcebispo de Assis-Nocera Umbra-Gualdo Tadino, Dom Domenico Sorrentino, por ocasião da celebração do vigésimo aniversário do Encontro Inter-religioso de Oração pela Paz, que acontece em Assis de 4 a 5 de setembro.

Ao venerado irmão Dom Domenico Sorrentino Bispo de Assis-Nocera Umbra-Gualdo Tadino

Celebra-se este ano o vigésimo aniversário do Encontro Inter-religioso de Oração pela Paz, convocado por meu venerado predecessor João Paulo II, em 27 de outubro de 1986, na cidade de Assis. Ele não só convidou para aquele encontro os cristãos das diferentes confissões, mas também os expoentes das diferentes religiões. A iniciativa teve um amplo eco na opinião pública: foi uma mensagem vibrante a favor da paz e se converteu em um acontecimento que deixou uma marca na história de nosso tempo. Compreende-se, portanto, que a lembrança do que então sucedeu continue suscitando iniciativas de reflexão e de compromisso. Algumas foram organizadas precisamente em Assis, por ocasião do vigésimo aniversário daquele acontecimento. Penso na celebração, organizada em colaboração com essa diocese, pela Comunidade de Santo Egídio, seguindo os passos de análogos encontros realizados anualmente pela mesma. Nos dias do aniversário se celebrará também um Congresso organizado pelo Instituto Teológico de Assis, no qual se encontrarão as Igrejas particulares dessa região em torno da Eucaristia celebrada pelos bispos da Úmbria na Basílica de São Francisco. Por último, o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso organizará um encontro de diálogo, de oração e de formação na paz para jovens católicos e de outras religiões.

Estas iniciativas, cada uma com seu caráter específico, sublinham o valor da intuição que João Paulo II teve e mostram sua atualidade à luz dos acontecimentos ocorridos nestes vinte anos e da situação que a humanidade atravessa nestes momentos. O acontecimento mais significativo neste espaço de tempo foi, sem dúvida, a queda, no Leste da Europa, dos regimes de inspiração comunista. Com esta, terminou a «guerra fria», que havia gerado aterradores arsenais de armas e de exércitos preparados para uma guerra total. Foi um momento de geral esperança de paz, que levou muitos a sonhar com um mundo diferente, no qual as relações entre os povos se desenvolveriam distantes do pesadelo da guerra, e o processo de «globalização» aconteceria em um ambiente de pacífica confrontação entre povos e culturas, no marco do direito internacional compartilhado, inspirado no respeito das exigências da verdade, da justiça, da solidariedade. Infelizmente, este sonho de paz não se tornou realidade. O terceiro milênio começou com cenários de terrorismo e de violência que não parecem desvanecer-se. Também o fato de que os conflitos armados se desenvolvem sobretudo com o pano de fundo de tensões geopolíticas existentes em muitas regiões pode dar a impressão de que não só as diferenças culturais, mas também as diferenças religiosas são motivo de instabilidade ou de ameaça para as perspectivas de paz.

Precisamente desde este ponto de vista, a iniciativa promovida há vinte anos por João Paulo II se converte em uma profecia. Seu convite aos líderes das religiões mundiais a dar um testemunho conjunto de paz serviu para declarar sem possibilidade de equívocos que a religião só pode ser promotora da paz. Como ensinou o Concílio Vaticano II, na declaração «Nostra Aetate» sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs, «não podemos invocar a Deus, Pai de todos, se nos negamos a conduzir-nos fraternalmente com alguns homens, criados à imagem de Deus» (número 5). Apesar das diferenças que caracterizam os diferentes caminhos religiosos, o reconhecimento da existência de Deus, ao que os homens podem chegar inclusive baseando-se unicamente na experiência da criação (Cf. Romanos 1, 20), disporá necessariamente os crentes a considerar os demais seres humanos como irmãos. A ninguém é lícito, portanto, servir-se da diferença religiosa como pressuposto para uma atitude beligerante para com os demais seres humanos.

Poder-se-á objetar que a história conhece o triste fenômeno das guerras de religião. Sabemos, contudo, que semelhantes manifestações de violência não podem atribuir-se à religião enquanto tal, mas aos limites culturais com que se vive e se desenvolve no tempo. E agora, quando o sentido religioso alcançar sua maturidade, gera no crente a percepção de que a fé em Deus, Criador do universo e Pai de todos, tem de promover necessariamente relações de fraternidade universal entre os homens. De fato, registram-se testemunhos do íntimo laço que existe entre a relação com Deus e a ética do amor em todas as grandes tradições religiosas. Nós, os cristãos, sentimo-nos confirmados neste sentido e ulteriormente iluminados pela Palavra de Deus. Já o Antigo Testamento manifesta o amor de Deus por todos os povos que Ele, na aliança feita com Noé, reúne em um grande abraço, simbolizado pelo «arco nas nuvens» (Gêneses 9, 13.14.16) que, segundo as palavras dos profetas, pretende congregar em uma só família universal (cf. Isaías 2,2ss; 42, 6; 66, 18-21; Jeremias 4, 2; Salmo 47). Depois, no Novo Testamento, a revelação deste desígnio universal de amor culmina no mistério pascal, no qual o Filho de Deus encarnado, com um surpreendente ato de solidariedade salvífica, se oferece em sacrifício na cruz por toda a humanidade. Deus mostra deste modo que sua natureza é o Amor. É o que eu quis sublinhar em minha primeira encíclica, que começa precisamente com as palavras «Deus caritas est» (1 João 4, 7). Esta afirmação da Escritura não só ilumina o mistério de Deus, mas ilumina também as relações entre os homens, todos eles chamados a viver segundo o mandamento do amor.

O encontro promovido em Assis pelo servo de Deus João Paulo II sublinhou o valor da oração na construção da paz. Somos conscientes de quão difícil é o caminho para este bem fundamental e às vezes parece humanamente impossível. A paz é um valor no qual confluem tantos componentes. Para construí-la, são importantes caminhos de caráter cultural, político, econômico. Agora, em primeiro lugar, a paz tem de ser construída nos corações. Lá é onde se desenvolvem os sentimentos que podem alentá-la ou, pelo contrário, ameaçá-la, debilitá-la, sufocá-la. O coração do homem, de fato, é o lugar no qual Deus atua. Portanto, junto à dimensão «horizontal» das relações com os demais homens, é de importância fundamental a dimensão «vertical» da relação de cada um com Deus, em quem tudo encontra seu fundamento. Isto é precisamente o que quis recordar com força ao mundo o Papa João Paulo II, com a iniciativa de 1986. Pediu uma oração autêntica, que envolvesse toda a existência. Quis, por este motivo, que estivesse acompanhada pelo jejum e que fosse expressada com a peregrinação, símbolo do caminho para o encontro com Deus. E explicou: «A oração comporta da nossa parte a conversão do coração» («Insegnamenti di Giovanni Paolo II», 1986, vol. II, p. 1253). Entre os aspectos caracterizadores do encontro de 1986, deve-se sublinhar que este valor da oração na construção da paz foi testemunhado por expoentes de diferentes tradições religiosas, e isso não sucedeu na distância, mas no contexto de um encontro. Deste modo, os orantes das diferentes religiões puderam mostrar, com a linguagem do testemunho, que a oração não divide, mas une, e que constitui um elemento determinante para uma eficaz pedagogia da paz, baseada na amizade, na acolhida recíproca, no diálogo entre os homens de diferentes culturas e religiões. Temos mais necessidade que nunca, especialmente se prestamos atenção às novas gerações. Muitos jovens, nas zonas do mundo caracterizadas por conflitos, são educados em sentimentos de ódio e de vingança, em contextos ideológicos nos quais se cultivam as sementes de antigos rancores e se preparam os espíritos para futuras violências. É necessário abater estas paliçadas e favorecer o encontro. Alegro-me pelo fato de que as iniciativas programadas neste ano em Assis vão nesta direção e por que o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso tenha pensado em sua aplicação particularmente aos jovens.

Para não desviar o sentido do que João Paulo II quis realizar em 1986, e que se qualificou em uma expressão sua como «espírito de Assis», é importante não esquecer a atenção que então se pôs para que o encontro inter-religioso de oração não se prestasse a interpretações sincretistas, fundadas em uma concepção relativista. Precisamente por este motivo, desde um primeiro momento, João Paulo II declarou: «O fato de que tenhamos vindo aqui não implica nenhuma intenção de buscar um consenso religioso entre nós ou de negociar nossas convicções de fé. Quer dizer que as religiões podem reconciliar-se no âmbito de um compromisso comum em um projeto terreno que supera todas elas. E tampouco é uma concessão ao relativismo nas crenças religiosas…» («Insegnamenti», cit., p. 1252). Desejo confirmar este princípio, que constitui o pressuposto desse diálogo entre as religiões que auspiciou há quarenta anos o Concílio Vaticano II na Declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs (cf. «Nostra aetate», 2). Aproveito com prazer a ocasião para saudar os expoentes das demais religiões que participam das comemorações de Assis. Como nós, os cristãos, também eles sabem que na oração se pode fazer uma experiência especial de Deus e tirar estímulos eficazes para a entrega à causa da paz. Neste sentido, também é um dever evitar confusões. Por isso, quando nos encontramos juntos para rezar pela paz, é necessário que a oração se desenvolva segundo esses caminhos diferentes que são próprios das diferentes religiões. Esta foi a escolha que se fez em 1986 e esta escolha não pode deixar se continuar sendo válida também hoje. A convergência da diversidade não deve dar a impressão de ser uma concessão a esse relativismo que nega o sentido próprio da verdade e a possibilidade de alcançá-la.

João Paulo II quis escolher para sua iniciativa audaz e profética o sugestivo cenário dessa cidade de Assis, universalmente conhecida pela figura de São Francisco. O «pobrezinho» encarnou de maneira exemplar a bem-aventurança proclamada por Jesus no Evangelho: «Bem-aventurados os que trabalham pela paz, porque eles serão chamados filhos de Deus» (Mateus 5, 9). O testemunho que deu em sua época faz dele um ponto de referência natural para quem cultiva também hoje o ideal da paz, do respeito da natureza, do diálogo entre as pessoas, entre as religiões e as culturas. Agora, é importante recordar, se não se quer trair sua mensagem, que a escolha radical de Cristo lhe ofereceu a chave para compreender a fraternidade à qual todos os homens estão chamados, e na qual também participam em certo sentido as criaturas inanimadas — desde o «irmão sol» até «a irmã lua». Quero recordar, portanto, que neste vigésimo aniversário da iniciativa de oração pela paz de João Paulo II se celebra também o oitavo centenário da conversão de São Francisco. As duas comemorações se iluminam reciprocamente. Nas palavras que o Crucifixo de São Damiã lhe dirigiu — «Vai, repara minha casa» –, em sua escolha da pobreza radical, no beijo do leproso com o qual expressou sua nova capacidade de ver e de amar a Cristo nos irmãos que sofrem, começava essa aventura humana e cristã que continua fascinando tantos homens de nosso tempo e que faz que essa cidade seja meta de inumeráveis peregrinos.

Confio-lhe, venerado irmão, pastor dessa Igreja de Assis-Nocera Umbra-Gualdo Tadino, a tarefa de dar a conhecer minhas reflexões aos participantes nas diferentes celebrações previstas para comemorar o vigésimo aniversário daquele histórico acontecimento, o Encontro Inter-religioso de 27 de outubro de 1986. Transmita a todos minha afetuosa saudação, enviando-lhes minha bênção, que vai acompanhada do desejo e a oração do pobrezinho de Assis: «A paz do Senhor seja convosco!».

Castel Gandolfo, 2 de setembro de 2006

BENEDICTUS P.P. XVI

 
 
 
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