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Por Papa bento XVI Tradução: Vaticano Fonte: Vaticano

Queridos irmãos e irmãs!

Nas catequeses sobre as grandes figuras da Igreja dos primeiros séculos chegamos hoje à personalidade eminente de Santo Ireneu de Lião. As notícias biográficas sobre ele provêm do seu próprio testemunho, que nos foi transmitido por Eusébio no quinto livro da História Eclesiástica.

Ireneu nasceu com toda a probabilidade em Esmirna (hoje Izmir, na Turquia) por volta do ano 135-140, onde ainda jovem frequentou a escola do Bispo Policarpo, por sua vez discípulo do apóstolo João. Não sabemos quando se transferiu da Ásia Menor para a Gália, mas a transferência certamente coincidiu com os primeiros desenvolvimentos da comunidade cristã de Lião: aqui, no ano 117, encontramos Ireneu incluído no colégio dos presbíteros. Precisamente naquele ano ele foi enviado para Roma, portador de uma carta da comunidade de Lião ao Papa Eleutério. A missão romana subtraiu Ireneu à perseguição de Marco Aurélio, que causou pelo menos quarenta e oito mártires, entre os quais o próprio Bispo de Lião, Potino que, com noventa anos, faleceu por maus-tratos no cárcere. Assim, com o seu regresso, Ireneu foi eleito Bispo da cidade. O novo Pastor dedicou-se totalmente ao ministério episcopal, que se concluiu por volta de 202-203, talvez com o martírio.

Ireneu é antes de tudo um homem de fé e Pastor. Do bom Pastor tem o sentido da medida, a riqueza da doutrina, o fervor missionário. Como escritor, busca uma dupla finalidade: defender a verdadeira doutrina contra os ataques heréticos, e expor com clareza a verdade da fé.

Correspondem exactamente a estas finalidades as duas obras que dele permanecem: os cinco livros Contra as Heresias, e a Exposição da pregação apostólica (que se pode também chamar o mais antigo “catecismo da doutrina cristã”). Em suma, Ireneu é o campeão da luta contra as heresias. A Igreja do século II estava ameaçada pela chamada gnose, uma doutrina que afirmava que a fé ensinada na Igreja seria apenas um simbolismo para os simples, que não são capazes de compreender coisas difíceis; ao contrário, os idosos, os intelectuais chamavam-se gnósticos teriam compreendido o que está por detrás destes símbolos, e assim teriam formado um cristianismo elitista, intelectualista. Obviamente este cristianismo intelectualista fragmentava-se cada vez mais em diversas correntes com pensamentos muitas vezes estranhos e extravagantes, mas para muitos era atraente. Um elemento comum destas diversas correntes era o dualismo, isto é, negava-se a fé no único Deus Pai de todos, Criador e Salvador do homem e do mundo. Para explicar o mal no mundo, eles afirmavam a existência, em paralelo com o Deus bom, de um princípio negativo. Este princípio negativo teria produzido as coisas materiais, a matéria.

Radicando-se firmemente na doutrina bíblica da criação, Ireneu contesta o dualismo e o pessimismo gnóstico que diminuíam as realidades corpóreas. Ele reivindicava decididamente a santidade originária da matéria, do corpo, da carne, não menos que a do espírito. Mas a sua obra vai muito mais além da confutação da heresia: pode-se dizer de facto que ele se apresenta como o primeiro grande teólogo da Igreja, que criou a teologia sistemática; ele mesmo fala do sistema da teologia, isto é, da coerência interna de toda a fé. No centro da sua doutrina situa-se a questão da “regra da fé” e da sua transmissão. Para Ireneu a “regra da fé” coincide na prática com o Credo dos Apóstolos, e dá-nos a chave para interpretar o Evangelho, para interpretar o Credo à luz do Evangelho. O símbolo apostólico, que é uma espécie de síntese do Evangelho, ajuda-nos a compreender o que significa, como devemos ler o próprio Evangelho.

De facto o Evangelho pregado por Ireneu é o mesmo que recebeu de Policarpo, Bispo de Esmirna, e o Evangelho de Policarpo remonta ao apóstolo João, do qual Policarpo era discípulo. E assim o verdadeiro ensinamento não é o que foi inventado pelos intelectuais além da fé simples da Igreja. O verdadeiro Evangelho é o que foi transmitido pelos Bispos que o receberam numa sucessão ininterrupta dos Apóstolos. Eles outra coisa não ensinaram senão precisamente esta fé simples, que é também a verdadeira profundidade da revelação de Deus. Assim diz-nos Ireneu não há uma doutrina secreta por detrás do Credo comum da Igreja. Não existe um cristianismo superior para intelectuais. A fé publicamente confessada pela Igreja é a fé comum de todos. Só esta fé é apostólica, vem dos Apóstolos, isto é, de Jesus e de Deus. Aderindo a esta fé transmitida publicamente pelos Apóstolos aos seus sucessores, os cristãos devem observar o que os Bispos dizem, devem considerar especialmente o ensinamento da Igreja de Roma, preeminente e antiquíssima. Esta Igreja, devido à sua antiguidade, tem a maior apostolicidade, de facto haure origem das colunas do Colégio apostólico, Pedro e Paulo. Com a Igreja de Roma devem harmonizar-se todas as Igrejas, reconhecendo nela a medida da verdadeira tradição apostólica, da única fé comum da Igreja. Com estas argumentações, aqui resumidas muito brevemente, Ireneu contesta desde os fundamentos as pretensões destes gnósticos, destes intelectuais: antes de tudo eles não possuem uma verdade que seria superior à da fé comum, porque o que dizem não é de origem apostólica, é por eles inventado; em segundo lugar, a verdade e a salvação não são privilégio nem monopólio de poucos, mas todos as podem alcançar através da pregação dos sucessores dos Apóstolos, e sobretudo do Bispo de Roma. Em particular sempre polemizando com o carácter “secreto” da tradição gnóstica, e observando os seus numerosos êxitos entre si contraditórios Ireneu preocupa-se por ilustrar o conceito genuíno de Tradição apostólica, que podemos resumir em três pontos.

a) A Tradição apostólica é “pública”, não privada ou secreta. Ireneu não duvida minimamente de que o conteúdo da fé transmitida pela Igreja é o que recebeu dos Apóstolos e de Jesus, do Filho de Deus. Não existe outro ensinamento além deste. Portanto quem quiser conhecer a verdadeira doutrina é suficiente que conheça “a Tradição que vem dos Apóstolos e a fé anunciada aos homens”: tradição e fé que “chegaram até nós através da sucessão dos Bispos” (Adv. Haer.3, 3, 3-4). Assim, sucessão dos Bispos, princípio pessoal; e Tradição apostólica, princípio doutrinal coincidem.

b) A Tradição apostólica é “única”. De facto, enquanto o gnosticismo se subdivide em numerosas seitas, a Tradição da Igreja é única nos seus conteúdos fundamentais, a que como vimos Ireneu chama precisamente regula fidei ou veritatis: e isto porque é única, gera unidade através dos povos, através das culturas diversas, através dos povos diversos; é um conteúdo comum como a verdade, apesar da diversidade das línguas e das culturas. Há uma frase muito preciosa de Santo Ireneu no livro Contra as heresias: “A Igreja, apesar de estar espalhada por todo o mundo, conserva com solicitude [a fé dos Apóstolos], como se habitasse numa só casa; ao mesmo tempo crê nestas verdades, como se tivesse uma só alma e um só coração; em plena sintonia com estas verdades proclama, ensina e transmite, como se tivesse uma só boca. As línguas do mundo são diversas, mas o poder da tradição é único e é o mesmo: as Igrejas fundadas nas Alemanhas não receberam nem transmitiram uma fé diversa, nem as que foram fundadas nas Espanhas ou entre os Celtas ou nas regiões orientais ou no Egipto ou na Líbia ou no centro do mundo” (1, 10, 1-2). Já se vê neste momento, estamos no ano 200, a universalidade da Igreja, a sua catolicidade e a força unificadora da verdade, que une estas realidades tão diversas, da Alemanha à Espanha, à Itália, ao Egipto, à Líbia, na comum verdade que nos foi revelada por Cristo.

c) Por fim, a Tradição apostólica é como ele diz na língua grega na qual escreveu o seu livro, “pneumática”, isto é, espiritual, guiada pelo Espírito Santo: em grego espírito diz-se pneuma. De facto, não se trata de uma transmissão confiada à habilidade de homens mais ou menos doutos, mas ao Espírito de Deus, que garante a fidelidade da transmissão da fé. Esta é a “vida” da Igreja, o que torna a Igreja sempre vigorosa e jovem, isto é, fecunda de numerosos carismas. Igreja e Espírito para Ireneu são inseparáveis: “Esta fé”, lemos ainda no terceiro livro Contra as heresias, “recebemo-la da Igreja e conservámo-la: a fé, por obra do Espírito de Deus, como um depósito precioso guardado num vaso de valor rejuvenesce sempre e faz rejuvenescer também o vaso que a contém. Onde estiver a Igreja, ali está o Espírito de Deus; e onde estiver o Espírito de Deus, ali está a Igreja com todas as graças” (3, 24, 1).

Como se vê, Ireneu não se limita a definir o conceito de Tradição. A sua tradição, a Tradição ininterrupta, não é tradicionalismo, porque esta Tradição é sempre internamente vivificada pelo Espírito Santo, que a faz de novo viver, a faz ser interpretada e compreendida na vitalidade da Igreja. Segundo o seu ensinamento, a fé da Igreja deve ser transmitida de modo que apareça como deve ser, isto é, “pública”, “única”, “pneumática”, “espiritual”. A partir de cada uma destas características podemos realizar um frutuoso discernimento sobre a autêntica transmissão da fé no hoje da Igreja. Mais em geral, na doutrina de Ireneu a dignidade do homem, corpo e alma, está firmemente ancorada na criação divina, na imagem de Cristo e na obra permanente de santificação do Espírito. Esta doutrina é como uma “via-mestra” para esclarecer juntamente com todas as pessoas de boa vontade o objecto e os confins do diálogo sobre os valores, e para dar impulso sempre renovado à acção missionária da Igreja, à força da verdade que é a fonte de todos os valores verdadeiros do mundo.

 
 
 

Por Steve Brandt Tradução: Carlos Martins Nabeto Fonte: Steve’s Theology Page

O CONCÍLIO

Quando Constantino derrotou o imperador Licínio em 323 d.C., ele pôs fim às perseguições promovidas contra a Igreja cristã. Pouco tempo depois, os cristãos passaram a enfrentar um problema vindo de dentro da Igreja: a controvérsia ariana começara e ameaçava dividir a Igreja. O problema iniciara em Alexandria, na forma de um debate entre o bispo Alexandre e o presbítero (padre ou sacerdote) Ário.

Ário afirmava que se o Pai gerara o Filho, este necessariamente teve um começo, que houve um tempo em que Ele não existira e que sua substância não se diferenciava do resto da criação. O Concílio de Nicéia, uma assembléia semelhante àquela descrita em Atos 15,4-22, condenou as doutrinas de Ário e redigiu a primeira versão do famoso Credo, proclamando que o Filho era “um em substância com o Pai” mediante o uso do termo grego “homoousius”.

QUÃO CONTROVERSA FOI A CONTROVÉRSIA ARIANA?

Cerca de trezentos bispos se reuniram então no Concílio de Nicéia, provindos de todas as partes do mundo. Em seus escritos, Eusébio lista vários deles e aponta seus países de origem. Devemos recordar que vários dos presentes, em razão das recentes perseguições, tinham sofrido e visto a morte de perto por causa de sua fé. Não eram, pois, homens oportunistas. Também devemos observar que eles eram extremamente sensíveis aos detalhes da doutrina. Como prova disso, o segundo maior objetivo do Concílio de Nicéia foi discutir calorosamente qual deveria ser o dia apropriado para se celebrar a ressurreição do Senhor.Os bispos do Concílio pararam de ouvir as palavras de Ário e imediatamente rejeitaram suas doutrinas, entendendo que eram distantes e estranhas à fé da Igreja. Eles rasgaram uma carta de Eusébio de Nicomédia contendo o ensinamento de Ário, bem como uma confissão da fé ariana (ver apêndice sobre o Concílio de Nicéia em “História Eclesiástica de Eusébio”, editado pela Baker Book House).

Inicialmente, dezessete desses bispos reunidos no Concílio não queriam assinar o Credo proposto pelo Concílio, mas, ao final, todos – com exceção de apenas três – foram convencidos a assinar. Isto torna aparente que os arianos eram uma distinta minoria entre os bispos. No princípio houve alguma resistência em adotar o Credo niceno, não em razão do que ele dizia, mas sim como ele se expressava. Muitos objetavam o uso do termo “homoousias” em um documento oficial, pois ele não era empregado nas Escrituras, embora concordassem com o significado que ele possuía.

O Concílio interrogou Ário usando as Escrituras apenas para descobrir o novo modo que ele interpretava todas as passagens que lhe eram apresentadas. Finalmente, eles usaram o argumento de que o ponto de vista de Ário era errado porque se tratava de uma novidade. Atanásio declarou: “Mas quanto às matérias de fé, eles (=os bispos reunidos em Nicéia) não escreveram: ‘Assim foi decidido’, mas: ‘Nisto crê a Igreja Católica’; e imediatamente confessaram como acreditavam. Agiram assim para demonstrar que seu julgamento não tinha uma origem recente, mas que de fato provinha do período Apostólico…” (“A Fé dos Padres Primitivos”, volume 1, p. 338). A este respeito, Atanásio também pergunta retoricamente [a Ário]: “…em quantos Padres (=isto é, nas obras dos primeiros cristãos) você pode encontrar suas frases?” (ibid, p. 325).

Devemos concluir, portanto, que a controvérsia ocorria entre uma grande maioria que expressava a crença que a doutrina refletida pelo Credo de Nicéia era antiga e apostólica e uma minoria que acreditava que a nova interpretação da fé promovida por Ário era correta.

A PALAVRA “HOMOOUSIOUS”

O Credo niceno introduziu a palavra “hommousious” ou “consubstancial”, significando “da mesma substância”. Esta palavra não foi, porém, inventada pelo Concílio. Eusébio escreve que alguns dos mais “letrados e distintos dos antigos bispos fizeram uso do termo consubstancial ao tratar da divindade do Pai e do Filho” (v. documento “E” no apêndice, Baker). Hoje não temos mais as fontes de onde Eusébio registrou o uso desse termo; a única fonte que nos resta é Orígenes, que empregou o termo de modo ortodoxo ao que parece (Johannes Quastren, “Patrologia”, volume 2, p. 78). Contudo, essa frase de Eusébio testemunha a existência de um uso mais extenso.

Os bispos reunidos em Nicéia foram cuidadosos ao explicar como usavam o termo e o que ele significava. Isto em razão desse mesmo termo ter sido mal empregado por Paulo de Samósata. A respeito desse emprego não-ortodoxo, Santo Hilário e São Basílio apontaram que um Concílio reunido em Antioquia declarou que o termo era “impróprio para descrever a relação entre o Pai e o Filho” (ibid, p. 14). Aparentemente, Paulo de Samósata aplicava o termo de uma forma que importava na divisão da natureza, assim como várias moedas podem ser feitas a partir de um mesmo metal (Baker, p. 21).

O PAPEL DE CONSTANTINO

A controvérsia preocupou enormemente o imperador Constantino, que enviou uma carta a Ário e Alexandre na tentativa de persuadi-los a deixarem de lado suas diferenças. Ele escreveu: “Essa divergência não surgiu em decorrência de qualquer mandamento importante da Lei, nem de qualquer opinião introduzida acerca da adoração de Deus. Vocês dois possuem os mesmos sentimentos e, assim, devem estar juntos em uma só comunhão. Isto não é apenas indecoroso, mas também ilegal: que uma grande parcela do povo de Deus deveria estar sendo governada e dirigida por vocês, enquanto que na verdade vocês se encontram contendendo um contra o outro, disputando sobre questões menores e sem importância”.

Diz-se que como Constantino se referiu à matéria disputada como algo “sem importância” então ele não a compreendia realmente. Estranhamente, é recordado em uma carta de Eusébio de Cesaréia que o imperador sugeriu a adoção do termo “homoousious” que aparece no Credo de Nicéia. Eusébio afirma que o imperador explicou o termo tão bem que demonstrou a sua diferença quanto ao uso herético feito por Paulo de Samósata. Especulou-se que o imperador fez esta sugestão a pedido de Ósio de Córdova, conselheiro imperial e homem que sofrera a perseguição sob Maximiano.

Constantino exerceu um importante papel no Concílio. Eusébio de Cesaréia relata que ele teve uma participação chave em acalmar, convencer e conduzir todos à concórdia nos pontos controversos. O relato de Eusébio joga luz sobre o imperador e o retrata como figura chave. Contudo, em nenhum lugar Eusébio sugere que ele votou juntamente com os bispos, nem que usou qualquer espécie de força para obter certo resultado.

Pode ser que a eloqüência e glória do imperador tenham influenciado alguns, porém devemos recordar que Constantino, anos após o Concílio, eventualmente favoreceu os arianos. Alguns anos depois do Concílio de Nicéia, Ário descobriu uma nova forma de interpretar o termo “homoousius” que concordava com as suas doutrinas particulares. Ele, então, pediu para ser readmitido à comunhão, mas a Igreja recusou. Ário então apelou para o imperador. A irmã favorita do imperador, Constância, em seu leito de morte, implorou a Constantino para que favorecesse Ário e assim ele agiu. Uma data foi estabelecida para a Igreja readmitir Ário obrigatoriamente, mas enquanto ele aguardava a chegada de Constantino, acabou morrendo (v. “Arianos do Século IV”, capítulo III, seção II, de John Henry Newman).

É difícil de imaginar como um homem que supostamente argumentou com eloqüência em favor do Credo niceno e que supostamente formulou o termo chave e o explicou viria depois a abandoná-lo em decorrência de uma mera submissão às palavras de sua irmã e não quanto ao significado do Credo. Também é difícil de imaginar como o relato de Eusébio pode ser reconciliado com uma falha aparente do imperador como aparece na carta que redigiu. É ainda difícil de imaginar como um homem que foi tido como um servo humilde da Igreja em Nicéia tentaria depois forçar a Igreja a aceitar as suas decisões posteriores. Parece razoável supor que Eusébio de Cesaréia redigiu aqui um relato menos fiel, visando reconhecer e agradar ao imperador.

Constantino não foi o último imperador a favorecer os arianos. Atanásio fala sobre isto em “A História dos Monges da Impiedade Ariana” (358 d.C.), ao escrever: “Desde quando uma decisão da Igreja recebe sua autoridade do imperador?” e: “Nunca os Padres procuraram o consentimento do imperador para seus [decretos conciliares da Igreja], nem o imperador ocupou-se pessoalmente da Igreja”. E ele avança ainda mais para dizer que os hereges se associaram ao imperador (v. “A Fé dos Padres Primitivos”, volume 1, de William Jurgens).

A Igreja esteve disposta a aceitar o auxílio de um imperador, para ouvir o que ele tinha a dizer, mas não para aceitar as sua regras como matérias de fé. Contudo, se alguém aponta que o aludido termo foi indicado por Constantino no Concílio de Nicéia, deve também esse alguém lembrar que o Credo de Nicéia expressou o que a grande maioria dos bispos reunidos naquele Concílio encontraram como tradicional, bíblico e ortodoxo na fé cristã, uma fé, aliás, que eles acreditavam tão firmemente que, pouco tempo antes, durante as perseguições, estiveram dispostos a morrer por ela.

Para citar este artigo: BRANDT, Steve. Apostolado Veritatis Splendor: O Concílio de Nicéia. Disponível em: http://www.veritatis.com.br/article/4328. Desde 5/9/2007.

 
 
 

RATISBONA, quarta-feira, 13 de setembro de 2006 (ZENIT.org).- Publicamos a homilia que Bento XVI pronunciou nesta terça-feira, durante a santa missa que presidiu ante mais de 250.000 pessoas na explanada do Islinger Feld de Ratisbona.

* * *

Queridos irmãos e irmãs!

«Quem crê nunca está só» é o lema destes dias. Nós o vemos aqui realizado. A fé nos reúne e nos doa uma festa. Nos doa o gozo em Deus, o gozo pela criação e por estar juntos. Sei que esta festa exigiu muita fadiga e muito trabalho prévio. Através das notícias dos jornais, pude perceber um pouco de quantas pessoas comprometeram seu tempo e suas forças para preparar esta explanada de forma tão digna; graças a eles, a Cruz está sobre a colina como sinal de Deus para a paz do mundo; os caminhos de acesso e de saída estão livres; a segurança e a ordem estão garantidas; prepararam-se alojamentos etc. Não podia imaginar — de fato, agora sei só sucintamente — quanto trabalho, até os mínimos detalhes, foi necessário para que possamos reunir-nos. Por tudo isso, só posso dizer: «Obrigado de coração!». Que o Senhor vos recompense e que o gozo que agora podemos experimentar graças à vossa preparação, seja devolvido multiplicado por cem a cada um de vós. Eu me comovi quando escutei todas as pessoas, em particular das escolas profissionais de Leiden e Amberg, assim como companhias e pessoas, homens e mulheres, colaboraram para embelezar minha casa e meu jardim. Estou um tanto desconcertado ante tanta bondade, e posso neste caso também dizer somente um humilde «obrigado!» por este esforço. Não fizestes tudo isto somente por um homem, por minha pobre pessoa; vós o fizestes na solidariedade da fé, deixando-vos guiar pelo amor ao Senhor e à Igreja. Tudo isto é um sinal de verdadeira humanidade, que nasce de ter sido tocados por Jesus Cristo.


Nós nos reunimos em uma celebração da fé. Agora, contudo, surge a pergunta: Mas em que cremos realmente? O que significa crer? Pode ainda existir algo assim no mundo moderno? Vendo as grandes «Sumas» de teologia redigidas no Medieval ou pensando na quantidade de livros escritos cada dia a favor ou contra a fé, podemos desalentar-nos e pensar que tudo isto é complicado demais. Afinal, se se querem ver as árvores individualmente, não se vê mais o bosque. É verdade: a visão da fé compreende céu e terra; o passado, o presente, o futuro, a eternidade, e por isso não é esgotável jamais. Agora, em seu núcleo é muito mais simples. O Senhor fala sobre isso com o Pai dizendo: «Ocultaste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequenos» (cf. Mateus 11, 25). A Igreja, por sua parte, nos oferece uma pequena «Suma», na qual se expressa todo o essencial: é o assim chamado «Credo dos Apóstolos». Divide-se normalmente em doze artigos, segundo o número dos Apóstolos, e fala de Deus, criador e princípio de todas as coisas; de Cristo e da obra da salvação, até a ressurreição dos mortos e a vida eterna. Mas em sua concepção de fundo, o Credo está composto só por três partes principais, e segundo sua história, não mais que uma ampliação da fórmula batismal, que o Senhor ressuscitado entregou aos discípulos para todos os tempos quando lhes disse: «Ide, pois, e fazei discípulos a todas as pessoas, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Mateus 28, 19).

Nesta visão se demonstram duas coisas: a fé é simples. Cremos em Deus, em Deus, princípio e fim da vida humana. Nesse Deus que se põe em relação conosco, seres humanos, que é para nós origem e futuro. Assim, a fé, contemporaneamente, é ao mesmo tempo esperança, é a certeza de que temos um futuro e de que não cairemos no vazio. E a fé é amor, porque o amor de Deus quer «contagiar-nos». Isto é o primeiro: nós simplesmente cremos em Deus, e isto leva consigo também a esperança e o amor.

Como segundo ponto, podemos constatar: o Credo não é um conjunto de sentenças, não é uma teoria. Está justamente ancorado no acontecimento do Batismo, um acontecimento de encontro entre Deus e o homem. Deus, no mistério do Batismo, se inclina sobre o homem; sai ao nosso encontro e assim também nos aproxima mutuamente. Porque o Batismo significa que Jesus Cristo, por assim dizer, nos adota como seus irmãos e irmãs, acolhendo-nos como filhos na família de Deus. Deste modo, faz de todos nós uma grande família na comunidade universal da Igreja. Sim, quem crê nunca está só. Deus nos sai ao encontro. Encaminhemo-nos, também nós, rumo a Deus e saiamos assim uns ao encontro dos outros! Não deixemos sozinhos, enquanto o consintam nossas forças, nenhum dos filhos de Deus!

Nós cremos em Deus. Esta é uma opção fundamental. Mas é hoje ainda possível? É algo racional? Desde o Iluminismo, ao menos uma parte da ciência se dedicou a buscar uma explicação sobre o mundo na qual Deus seria desnecessário. E se isso fosse assim, Deus seria desnecessário em nossas vidas. Mas cada vez que parecia que este intento havia conseguido êxito, inevitavelmente surgia o evidente: as contas não batiam. As contas sobre o homem, sem Deus, não batem, e as contas sobre o mundo, sobretudo o universo, sem Ele, não batem. No final de contas, apresentam-se duas alternativas: O que existiu primeiro? A Razão criadora, o Espírito que faz tudo e suscita o desenvolvimento, ou a Irracionalidade que, carente de toda razão, produz estranhamente um cosmos ordenado matematicamente, como o homem e sua razão. Esta última, contudo, não seria mais que um resultado casual da evolução e, portanto, definitivamente, também racional. Como cristãos, dizemos: «Creio em Deus Pai, Criador do céu e da terra», creio no Espírito Criador. Nós cremos que na origem está o Verbo eterno, a Razão e não a Irracionalidade. Com esta fé, não temos necessidade de esconder-nos, não temos que ter medo de encontrar-nos com ela em uma rua sem saída. Estamos contentes de poder conhecer a Deus! E buscamos fazer os outros verem a racionalidade da fé, como São Pedro nos exorta em sua primeira Carta!

Nós cremos em Deus. Afirmam as partes principais do Credo e o destaca sobretudo sua primeira parte. Mas agora surge a segunda pergunta: Em que Deus? Pois bem, cremos nesse Deus que é Espírito Criador, Razão criadora, do qual provém tudo e do qual proviemos também nós. A segunda parte do Credo nos diz algo mais. Esta Razão criadora é Bondade. É Amor. Tem um rosto. Deus não nos deixa andar às apalpadelas na escuridão. Mostrou-se como homem. Ele é tão grande que se pode permitir tornar-se pequenino. «Quem me viu, viu o Pai» (João 14, 9), diz Jesus. Deus assumiu um rosto humano. E nos ama até de deixar-se crucificar por nós na Cruz, para levar os sofrimentos da humanidade até o coração de Deus. Hoje, que aprendemos a reconhecer as patologias e as enfermidades mortais da religião e da razão, e a maneira em que a imagem de Deus pode ser destruída por causa do ódio e do fanatismo, é importante dizer com clareza em que Deus cremos, e professar confiadamente que este Deus tem um rosto humano. Só isto nos impede ter medo de Deus, que definitivamente é a raiz do ateísmo moderno. Só este Deus nos salva do medo do mundo e da ansiedade ante o vazio da vida. Só olhando Jesus Cristo, nosso gozo em Deus alcança sua plenitude, torna-se gozo redimido. Dirijamos durante esta celebração solene da Eucaristia nosso olhar ao Senhor e peçamos-lhe o grande gozo que Ele prometeu a seus discípulos! (cf. João 16, 24).

A segunda parte do Credo termina com a perspectiva do Juízo Final, e a terceira parte com a ressurreição dos mortos. Juízo, acaso esta palavra não nos dá medo também? Mas, por outro lado, não desejamos todos que um dia se faça justiça a todos os condenados injustamente, a todos que sofreram ao longo da vida e depois de uma vida cheia de dor, foram tragados pela morte? Não queremos acaso que o excesso de injustiça e sofrimento que vemos na história, ao final se dissolva; que todos possam estar definitivamente alegres, que tudo adquira um sentido? O conceito de Juízo universal é esse triunfo da justiça, essa conjunção de tantos fragmentos de história que parecem privados de sentido e de sua integração em um todo, no qual dominem a verdade e o amor. A fé não existe para causar medo; ao contrário — com certeza — nos chama à responsabilidade. Não devemos desperdiçar nossa vida, nem abusar dela; tampouco devemos guardá-la para nós mesmos; frente à injustiça, não devemos permanecer indiferentes, tornando-nos colaboradores silenciosos ou inclusive cúmplices. Devemos perceber nossa missão na história e buscar corresponder. O que se necessita não é medo, senão responsabilidade, responsabilidade e preocupação por nossa salvação, e pela salvação do mundo inteiro. Mas quando a responsabilidade e a preocupação tendem a converter-se em medo, deveríamos recordar as palavras de São João: «Filhos meus, eu vos escrevo isto para que não pequeis. Mas se alguém pecar, temos alguém que advogue ante o Pai: Jesus Cristo, o Justo» (1 João 2, 1). «Em caso de que a nossa consciência nos condene, Deus é maior que nossa consciência e conhece tudo» (Ibidem 3, 20).

Celebramos hoje a festa do «Santíssimo Nome de Maria». A todas que têm este nome — minha mãe e irmã o tiveram — quero expressar minhas mais cordiais felicitações por seu onomástico. Maria, a Mãe do Senhor, recebeu do povo fiel o título de «Advogada», pois é nossa advogada ante Deus. Assim a conhecemos desde as bodas de Caná: como a mulher benigna, cheia de solicitude materna e de amor, a mulher que percebe as necessidades alheias e, para ajudar, as leva ante o Senhor. Hoje escutamos no Evangelho como o Senhor a entrega como Mãe ao discípulo predileto e, nele, a todos nós. Em toda época, os cristãos acolheram com gratidão este testamento de Jesus e, junto à Mãe, encontraram sempre essa segurança e confiada esperança, que nos dão gozo em Deus. Acolhamos, também nós, a Maria como a estrela de nossa vida, que nos introduz na grande família de Deus! Sim, quem crê nunca está só. Amém!

[Tradução realizada por Zenit. © Copyright 2006 – Libreria Editrice Vaticana]

 
 
 
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Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

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