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AFONSO (Rio de Janeiro): «Como será possível a ressurreição geral dos corpos humanos professada pelos católicos, visto que os cadáveres se esfacelam em partículas múltiplas, as quais entram na composição de outros seres?»

Por muito árdua que pareça, esta questão se resolve com clareza desde que o estudioso se disponha a raciocinar lealmente. É o que vamos fazer, explanando em primeiro lugar alguns dos fundamentos revelados do dogma da ressurreição; feito isto, abordaremos as duas explicações que hoje se propõem para as dificuldades daí resultantes.

1. Alguns dados da Revelação

É dogma de fé cristã que todos os homens ressuscitarão um dia em corpo não só especificamente, mas também numericamente igual ao corpo em que vivem na terra.

Identidade específica significaria, no caso, união da alma com um corpo humano qualquer, exigindo-se apenas que fosse verdadeiro corpo humano. Identidade numérica, porém, diz união com um corpo portador das mesmas notas individuantes ou dos mesmos traços pessoais que hoje o caracterizam.

O dogma cristão, por conseguinte, professa que a carne da qual hoje se serve a alma como de instrumento de méritos e deméritos, compartilhará a sorte eterna dessa alma, unindo-se-lhe de novo.

Esta verdade se deduz de repetidas afirmações do Senhor Jesus, tais como:

«Não vos admireis, pois vem a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a voz do Filho do Homem, e sairão; os que tiverem praticado o bem, ressuscitarão para a vida; os que tiverem cometido o mal, ressuscitarão para a condenação» (Jo 5,28).

«Os filhos deste século esposam e são esposados; aqueles, porém, que tiverem sido julgados dignos de tomar parte no mundo futuro e na ressurreição dos mortos, não esposarão nem serão esposados; também não poderão morrer, pois serão semelhantes aos anjos e serão filhos de Deus, uma vez ressuscitados» (Lc 20, 34-36).

São Paulo chega a dizer categoricamente:

«Se se apregoa que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. Mas, se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã é a vossa fé» (1 Cor 15, 12-14; cf. 20-22; 42-49).

Quanto à identidade de corpo mortal e corpo ressuscitado, ela se verificou em Cristo; era condição absolutamente necessária para que houvesse Redenção. Justamente a finalidade da vinda do Senhor à carne humana era colocar a imortalidade na mesma matéria que era portadora da morte, depositar glória nos mesmos corpos marcados pela ignomínia. Realizando tal inversão de sortes em sua carne, Cristo a anunciou a todos os homens.

A Igreja, no decorrer dos tempos, explicitou a mensagem de Jesus:

«Creio também na verdadeira ressurreição da mesma carne de que agora sou portador» (Símbolo de fé redigido pelo Papa São Leão IX em 1053; Denzinger, Enchiridion 347).

«Com o coração cremos e com os lábios professamos a ressurreição desta carne que agora trazemos, e não de outra» (Inocêncio III, em 1208, profissão de fé para os Valdenses; Denzinger 427).

Sto. Agostinho (+430), por sua vez, escrevia:

«Esta carne há de ressuscitar, esta mesma que é sepultada, que morre; esta que se vê, que é apalpada, que precisa de comer e beber, para poder subsistir; esta que conhece a doença, sofre dores, esta mesma há de ressuscitar» (serm. 264,6).

É de toda conveniência a identidade assim apregoada: a alma aqui na terra não decide a sós a sua eterna sorte, mas para isto usa do corpo, o qual de certo modo lhe marca e caracteriza a fisionomia espiritual; é lógico, portanto, que essa alma não participe a sós da sua recompensa eterna, resposta aos atos da vida presente, mas também nisto esteja associada ao corpo.

Eis, porém, que tal doutrina suscita dificuldades desde os inícios do Cristianismo. Pergunta-se, com efeito: como se há de entender a identidade numérica de corpo mortal e corpo ressuscitado, já que o cadáver se dissolve em poeira, a qual se espalha pelos quatro ventos, entrando facilmente na composição de outros organismos?

A esta questão os teólogos propõem duas respostas, que passamos a analisar.

2. As duas sentenças…

2.1. A tese aparentemente mais natural afirma que a mesma matéria da qual constava o corpo antes da morte, deverá concorrer para a reconstituição da carne no fim dos tempos. Não será necessário, porém, que todas as cinzas do cadáver sejam recolhidas donde quer que se achem no dia da ressurreição; bastará que uma parte das mesmas, até uma parte muito exígua, entre no novo organismo; o que, por um motivo qualquer, vier a faltar, Deus o suprirá em sua Onipotência. São Tomás (+1274) acrescentava que, nos casos de antropofagia, a carne humana consumida por outro homem ressuscitará no corpo a que tiver pertencido primeiramente; dado que o indivíduo antropófago só se tenha alimentado de carne humana por todo o decurso da sua vida, ressuscitará com a carne que seus pais lhe tiverem comunicado ao nascer (Suma e Gentios 4,81). — São Tomás, São Boaventura (+1274), Scoto (+1308), Suarez (+1617) eram da opinião de que, conforme Mt 24, 12, os anjos colaborarão para a ressurreição dos mortos, reunindo as cinzas dispersas e preparando-as para a reintegração dos corpos.

A titulo de ilustração, citamos ainda as seguintes considerações de São Tomás sobre a matéria dos corpos ressuscitados.

Estes terão a estatura ou as dimensões que lhes conviriam na idade madura (que seria a idade de Cristo ressuscitado). Ninguém, pois, ressuscitará na estatura de criança ou de ancião. Caso a natureza, num ou noutro indivíduo, haja produzido algum defeito ou algum excesso de crescimento desarmonioso, Deus reduzirá essa anormalidade ao tamanho normal. É, pois, de crer que ninguém ressurgirá num corpo ridiculamente alto ou ridiculamente baixo (cf. Suma c. Gentios 4,81).

Dada a sobriedade da Revelação Divina no que se refere aos pormenores, não se atribuirá demasiado peso a tais conjeturas referentes ao tamanho dos corpos ressuscitados. Contudo não se porá em dúvida que estes carecerão de qualquer vestígio de mutilação ou defeituosidade.

A sentença acima, tendente a explicar a identidade dos corpos ressuscitados, era muito comum entre os teólogos medievais; ainda hoje goza de favor. Parece, aliás, ser a única forma de elucidar o fato de que ressuscitaremos na mesma carne que agora trazemos. Além disto, alguns autores se comprazem em sublinhar que ela muito põe em realce a índole misteriosa da ressurreição: assinala largas partes à Onipotência Divina na reconstituição dos corpos.

2.2. Contudo é preciso frisar que tal sentença não constitui a única elucidação do problema. Hoje em dia bom número de teólogos dá preferência a outra tese, que parece muito mais condizente tanto com os dados da Teologia como com os da reta Filosofia. Consideremos tal outra sentença, procurando tornar tão claras quanto possível algumas noções especulativas que ela necessariamente pressupõe.

Leve-se em conta a distinção entre forma e matéria, distinção não forjada por teólogos católicos para dar base ao dogma, mas proposta já pelo filósofo Aristóteles (+322 a.C.). Matéria e forma são as duas substâncias incompletas que entram na composição de todo e qualquer corpo. A forma é o elemento ativo, que traz todas as notas positivas e características do sujeito ; a matéria é pura potência, pura capacidade de receber. Esta pura capacidade, porém, não é mero nada.

O fato de que não é mero nada, se pode ilustrar por uma. analogia, que, embora não seja de todo adequada, como não o são em geral as analogias, concorre para elucidar a noção. Tenha-se em vista um pedaço de mármore; nele dizemos que há potência para receber as cinzeladas artísticas ou a atuação que um escultor lhe queira dar, a fim de o tornar bela estátua (de César, por exemplo). Esta mesma potência, porém, não pode ser atribuída a uma quantia de água; esta é de todo incapaz de receber a atuação ou a determinação que um artista, mediante o cinzel, lhe deseje imprimir. Assim, embora o mármore bruto e a água não representem os traços de César, contudo não podem ser equiparados entre si: no mármore há, sim, uma potência real a se tornar estátua de César, coisa que não há na água.

Tal analogia serve ao menos para ilustrar como a potência (na distinção aristotélica entre «potência» e «ato» ou «matéria» e «forma») não é mero nada, mas é parte constitutiva de um ser completo: a estátua de César nunca se concretizaria se só houvesse a arte do artista e não existisse a potência que o mármore oferece (e que a água não oferece).

Pois bem; a alma, em relação ao corpo, se comporta como forma (ou ato) em relação à matéria. A matéria unida à alma traz as notas características de matéria humana, de corpo, e de corpo bem determinado pelos traços individuais de Pedro, Tiago, Maria, etc. É matéria penetrada pela sua forma respectiva, matéria «atuada» ou matéria segunda, como dizia Aristóteles.

Uma vez separada da alma pela morte, não se julgue que essa matéria continuará a guardar as notas características de tal indivíduo (Pedro, Tiago, Maria…). Não; ela as perde, porque lhe são comunicadas pela alma. Donde se segue que a matéria do corpo, pela morte, volta a ser pura potência, pura capacidade, matéria primeira (diria Aristóteles), aberta para receber outra forma ou outras formas que não a alma humana. Em geral, o cadáver passa a ser cálcio, ferro, hidrogênio, oxigênio, carbono…; o que quer dizer: a respectiva matéria é reduzida à pura potência e neste estado recebe novas formas (as formas do cálcio, do ferro, do hidrogênio…) que lhe dão a capacidade de reagir tipicamente como cálcio, ferro, hidrogênio, e não mais como carne ou ossos humanos.

Em vista de maior clareza, poder-se-ia repetir a mesma doutrina do seguinte modo: é a forma que faz que tal matéria seja a matéria correspondente a tal forma. Donde se segue que, por si, a matéria é capaz de receber qualquer forma e assumir, em união com esta, as mais diversas notas especificas e individuais; assim a matéria de per si é indiferente a se tornar a matéria de uma planta (isto é, a ser informada por uma forma vegetativa), a de um animal irracional (isto é, a ser informada por uma forma sensitiva), a de um animal intelectual (isto é, a ser informada por uma alma humana).

De quanto foi dito se depreende que não há motivo para que o Senhor Deus no fim dos tempos recolha as pretensas parcelas do corpo humano esparsas pelo universo, a fim de ressuscitar tal corpo. As parcelas materiais que pertencem a um organismo, pela morte deixam de possuir suas notas individuantes, características de tal organismo; consequentemente qualquer potência, qualquer matéria primeira poderá desempenhar com igual resultado o papel de receptáculo da alma, dando o mesmo corpo, portador das mesmas notas individuais, características do corpo anterior à morte e à ressurreição. Basta, para a identidade do conjunto, que a alma (de Pedro, de Maria…) se conserve a mesma no intervalo que medeia entre a morte do ser humano e a ressurreição; ora, na verdade, a alma não perde sua identidade ou suas notas determinantes, quando se separa do corpo, de sorte que ela pode perfeitamente reconstituir o mesmo corpo, caso o Senhor Deus no dia da ressurreição a queira de novo associar à matéria ou à pura potência receptiva.

Em consequência destas noções, verifica-se que o dogma da identidade numérica de corpo mortal e corpo ressuscitado de modo nenhum implica que, por ocasião do juízo universal, a Onipotência Divina se ponha a congregar a matéria deste ou daquele ser, de preferência à matéria de outros seres, a fim de reconstituir o corpo de João, Pedro, Maria, etc.. Não; a reconstituição dar-se-á simplesmente desde que o Senhor una de novo a alma de João, Pedro, Maria a uma pura potência (qualquer que tenha sido a história anterior dessa potência), a fim de que tal alma reproduza a individualidade característica do corpo de João, Pedro, Maria…

Ainda se pode ilustrar esta doutrina pela observação seguinte: o corpo humano vivo está em continuo processo de evolução, de sorte que de sete em sete anos toda a sua matéria se acha renovada, nada ficando da anterior. Ora, não obstante as mudanças, o corpo conserva suas notas típicas por todo o decurso da vida; fala-se do mesmo corpo de Pedro desde o nascimento até a morte. Esta identidade numérica lhe provém não da identidade da matéria, mas da identidade da forma (alma), que anima um corpo sempre em evolução e renovação.

Em conclusão : nada há que obrigue a exigir mais do que identidade de alma, para que haja identidade do indivíduo humano ressuscitado no último dia.

Esta solução pode ser tida como a consequência bem lógica da doutrina de que a alma é a forma substancial do corpo, tal como a entendem unanimemente os teólogos tomistas. Notáveis autores modernos (Billot, Feuling, Michel, Hugueny…) a professam sem detrimento para a reta fé. Uma vez admitida tal sentença, torna-se vã a pergunta: como reunirá Deus no último dia as partes dos diversos cadáveres dispersas pelos quatro cantos do mundo ou agregadas a outros corpos? Tal questão poria um problema que absolutamente não existe neste novo quadro de idéias.

Apenas com relação às relíquias dos santos (fragmentos dos corpos ou dos ossos) se poderia notar que, conforme julgam os teólogos, o Senhor Deus aproveitará as que subsistirem no dia da ressurreição final, a fim de reconstituir diretamente com elas os corpos dos respectivos justos. Daí especial motivo de veneração às relíquias sagradas!

(Dom Estêvão Bettencourt – OSB)

 
 
 

Se Cristo reconciliou o mundo com Deus, então não necessitava ele de reconciliação. Por qual pecado seu expiaria, se não conheceu pecado algum? E ainda, ao pedirem os judeus a didracma que, pela lei, se dava pelo pecado, disse a Pedro: “Simão, de quem os reis da terra recebem tributos ou impostos, de seus filhos ou dos estranhos? Respondeu Pedro: Dos estranhos, e o Senhor: Logo, os filhos estão livres. Mas para não lhes causarem embaraço, lança o anzol e tira o primeiro peixe que apanhar, abre-lhe a boca e encontrarás um estáter; toma-o e paga-o por mim e por ti” (Mateus 17,25-27).


Demonstrou, assim, não ser obrigado à expiação de pecados; não era servo do pecado,mas livre de todo ero o Filho de Deus. O filho liberta, o servo é réu. Logo, livre de tudo, não tem ele de dar o preço de redenção de sua alma; o preço de seu sangue pode derramar-se pelo universo para redimir o pecado de todos. Com justiça liberta a outros, quem nada deve por si.

Digo mais. Não apenas Cristo não tem preço a pagar por sua redenção ou expiação pelo pecado, mas, a respeito de qualquer homem, pode-se entender não deva cada um pagar o próprio resgate. Porque a expiação de todos é Cristo, é a redenção do universo.

De que homem será o sangue capaz de alcançar sua redenção, se pela redenção de todos Cristo já derramou seu sangue? Haverá sangue comparável ao sangue de Cristo? ou que homem tão poderoso que possa dar algo pela própria expiação, de maior valor do que a expiação que Cristo ofereceu em si mesmo, ele, o único a reconciliar por seu sangue o mundo com Deus? Que maior hóstia, que sacrifício mais excelente, que melhor advogado do que aquele que pelo pecado de todos se fez súplica e entregou a vida como redenção por nós?

Não se cogita da expiação ou redenção de cada um, porque o preço de todos é o sangue de Cristo, com o qual o Senhor Jesus nos redimiu e só ele nos reconciliou com o Pai, e trabalhou até o fim, pois assumiu nossas tarefas ao dizer: “Vinde a mim, todos vós que lutais, e eu vos aliviarei” (Mateus 11,28).

(Dos Comentários sobre os salmos, de Santo Ambrósio, bispo – Ps 48,14-15: CSEL 64,368-370 – Séc. IV).

 
 
 

Não conhecemos o tempo em que se consumirão a terra e a humanidade nem o modo por que se transformará o mundo. Na verdade, passa a figura deste mundo deformada pelo pecado, porém, Deus nos revelou preparar nova habitação e nova terra onde mora a justiça; e sua felicidade cumulará e superará todo desejo de paz que sobe ao coração dos homens. Então, vencida a morte, ressuscitarão os filhos de Deus em Cristo, e aquilo que foi semeado na fraqueza e na corrupção, se revestirá de incorrupção; sempre vivas a caridade e suas obras, toda a criação, que para o homem Deus criou, será liberta da escravidão da vaidade.


Recebemos a advertência de que nada adiantará ao homem lucrar o mundo inteiro se vier a perder-se a si mesmo. Todavia a expectativa da nova terra não deve enfraquecer, mas, ao contrário, estimular o interesse pelo desenvolvimento desta terra, onde cresce o corpo daquela nova família humana, que já pode mostrar algo como sombra do novo mundo. Por conseguinte, embora distinguindo com cuidado o progresso terreno e o aumento do reino de Cristo, na medida em que a sociedade humana for mais bem ordenada, influirá sobremaneira no reino de Deus.

Pois os bens da dignidade da pessoa, da comunhão fraterna e da liberdade, todos bens, frutos da natureza e do esforço humano, depois que pelo Espírito do Senhor e a seu mandado os propagarmos pela terra, de novo os reencontraremos, mais limpos de toda mancha. Luminosos e transfigurados, quando Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal: “reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz”. Este reino já está aqui na terra, em mistério; com a vinda do Senhor, será perfeito.

(Da Constituição Pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo de hoje, do Concílio Vaticano I – N. 39 – Séc. XX).

 
 
 
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