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ASCENSÃO: “olhar o divino para descobrir o humano”

“contemplar o céu para comprometer-se com o mundo”

“A maior consolação que descobrira era contemplar o céu e as estrelas. Fazia-o muitas vezes e por muito tempo, porque com isto sentia em si um grande desejo para servir a Nosso Senhor” (S. Inácio)

“Ressurreição”, “Ascensão”, “sentar-se à direita de Deus”, “envio do Espírito”, são todas realidades pascais. Em todas elas queremos expressar a mesma verdade: o final “deste Homem” Jesus, não foi a morte, mas a Vida. O mistério pascal é tão rico que não podemos abarcá-lo com uma única imagem; por isso temos que desdobrá-lo para ir aprofundando calmamente e expressá-lo no nosso modo de viver o seguimento de Jesus.

Os três dias para a Ressurreição, os quarenta dias para a Ascensão, os cinquenta dias para a vinda do Espírito, não são tempos cronológicos, mas teológicos. Eles nos revelam a maneira de ser de Deus, não o tempo em que Ele atua.

A Ascensão nos faz refletir sobre um aspecto do mistério pascal. Trata-se de descobrir que a posse da Vida por parte de Jesus é total. Participa da mesma Vida de Deus e, portanto, está no mais alto do “céu”. Nem Mateus, nem Marcos, nem João, nem Paulo, mas somente Lucas, no final de seu Evangelho e, mais detalhadamente, no começo dos “Atos dos Apóstolos”, narra a Ascensão como um fenômeno constatável pelos sentidos.

Lucas, em seu Evangelho, põe todas as aparições e a Ascensão no mesmo dia. No entanto, nos Atos dos Apóstolos, ele fala de quarenta dias de permanência de Jesus com seus discípulos, provavelmente como um modo de indicar que eles haviam recebido a formação necessária para levar adiante a missão (“quarenta dias” com o mestre era o tempo que o discípulo precisava para alcançar uma preparação adequada).

Ao mistério da Ascensão corresponde o mistério da Kénosis (esvaziamento) do Verbo; o Deus que se despojou de sua glória e majestade e se fez homem, agora é elevado aos céus e com Ele toda a humanidade redimida e divinizada. Em Cristo, a humanidade inteira já se encontra envolvida por Deus; em Cristo, céu e terra se encontram. Celebrando a glorificação de Cristo, tomamos consciência de nossa própria vocação à glória. Ao celebrarmos a entrada de Jesus na glória, não celebramos uma despedida, mas um novo modo de presença; celebramos que Ele é, realmente, o Emanuel, o Deus-conosco para sempre.

No Evangelho de hoje, a despedida de Jesus é descrita com singeleza; não produz tristeza, mas alegre confiança, enquanto os discípulos se preparam na oração para assumir a missão. Ao partir para o Pai, Jesus não nos abandona, pois realizou uma comunhão definitiva com a humanidade, garantindo a ela um destino de plenitude. Ele subiu ao céu para abrir-nos o caminho, mas agora é o Espírito aquele  que nos move e nos conduz ao Pai. Cabe a nós, agora, esforçar-nos em fazer o nosso êxodo, sob a ação do mesmo Espírito e confiantes na fidelidade de Deus.

A Ascensão de Cristo ao céu nos torna encarregados da missão à qual Ele, em sua glória, preside. Nós é que devemos reinventá-la a cada momento.

Portanto, a Ascensão de Jesus marca o início de nossa missão, ou seja, um novo modo de presença no mundo. Viver com os olhos voltados para o Senhor glorioso não nos dispensa de estar com os dois pés no chão, afundados na terra da história. Na dinâmica do Tempo Litúrgico, após uma longa e criativa caminhada com Jesus, a liturgia nos faz “desaparecer em Deus” , como o Cristo da Ascensão “desapareceu em Deus”. Não há mais nada a não ser Deus. A Ascensão é abertura para o cotidiano, para a realidade do serviço. É preciso partir e viver o chamado do Mestre ao longo da experiência.

Na Ascensão, enquanto Jesus “sobe” ao Pai, nós “descemos”  à realidade para transformá-la, tornando presente o Reino. Quando amamos, cuidamos, servimos… nos elevamos. O que nos eleva está em nosso interior. E nos elevamos à medida que descemos em direção à humanidade. Essa Ascensão não pode ser feita às custas dos outros, senão servindo e cuidando de todos. Como Jesus, a única maneira de alcançar a meta é descendo até o mais fundo. Aquele que mais desceu, é o que mais alto subiu.

A Ascensão é o lugar onde vai acontecer uma mudança profunda na vida de cada seguidor de Jesus: partimos para a missão; deixamos a Terra Santa, como os Apóstolos, e até o fim da vida seremos os peregrinos de Cristo. Somos arrancados de tal experiência para adentrar-se em um caminho de seguimento de horizontes desconhecidos, mas centrados no compromisso apostólico da missão na e da Igreja.

“Passamos” da particularidade de um lugar para a universalidade da missão. O desejo de seguir e servir a Cristo abarca o mundo todo. Nossa meta, como a de Jesus, é ascender até o mais alto, o Pai. Mas tendo em conta que nosso ponto de partida é também, como no caso de Jesus, o mesmo Deus. Muitas vezes preferimos seguir um Jesus no “céu”. Descobri-lo dentro de si mesmo, nos outros e no mundo é demasiado exigente e comprometedor. Muito mais cômodo é continuar olhando para o céu… e não sentir-se implicado naquilo que está acontecendo ao nosso redor.

A festa da Ascensão nos revela que vivemos o “tempo do Espírito”, tempo de criatividade, de ousadia, de novidade… O Espírito não proporciona aos seguidores de Jesus “receitas eternas”. Por isso, não podemos ficar olhando para cima. O Espírito nos dá luz e inspiração para voltar a cabeça para a realidade, buscando caminhos sempre novos para prosseguir hoje a missão de Jesus. Torna-se necessário descruzar os braços, deixar de olhar passivamente para o céu e, com os pés plantados no chão, prosseguir a obra iniciada por Jesus.

O mistério da Ascensão nos sensibiliza e nos capacita para aproximar-nos do nosso mundo com uma visão mais contemplativa. O “subir” até Deus passa pelo “descer” até às profundezas da humanidade. A pessoa contemplativa, movida por um olhar novo, entra em comunhão com a realidade tal como ela é. Ascensão nos convida a olhar o mundo como “sacramento de Deus”. Um olhar capaz de descobrir os sinais de esperança que existem no mundo; um olhar afetivo, marcado pela ternura, pela compaixão e por isso gerado de misericórdia; um olhar que compromete solidariamente.

Enfim, a celebração do mistério da Ascensão nos impulsiona, ao mesmo tempo, para Deus e para o mundo. Paixão por Deus e paixão pelo mundo. Podemos assim estar sempre enraizados firmemente em Deus e, ao mesmo tempo, imersos no coração do mundo. O cristão é tão familiar com Deus que admira e se encanta com a variedade e a multiplicidade do mundo, e não teme o mundo com toda sua complexidade. Ao mesmo tempo, é tão familiar com o mundo que sente o Espírito de Deus que trabalha em todos os lugares e da maneira mais inesperada. “Fora do mundo não há salvação” (E. Eschillebeeckx).

Textos bíblicos: Mc. 16,15-20   Atos 1,1-11   Ef. 1,17-23

Na oração: Que nossa ascensão seja: romper as cadeias de injustiça e morte; derrubar toda parede e muro; ir pela vida como samaritano; mostrar os caminhos ascendentes; oferecer razões de esperança; despertar o instinto criativo; interpretar os sinais dos tempos; pôr o coração nas estrelas…

Pe. Adroaldo Palaoro sj

Coordenador do Centro de Espiritualidade Inaciana

15.05.2012

FONTE: https://www.centroloyola.org.br

 
 
 

• O MILENARISMO, DE SANTO IRENEU A LACTÂNCIO

• Este estudo tem por objetivo levar informações sobre o assunto milenarismo durante todos séculos da Igreja, veremos no decorrer do estudo que, até Marx se valeu do milenarismo, e vemos cada vez mais as seitas pentecostais e neo pentecostais ensinando um tipo de milenarismo errado, que poderá levar muitos ao erro e até na descrença do Evangelho.

• Depois de Justino, o milenarismo Cristão dois primeiros séculos encontra em Irineu (208) um defensor eloquente, que se apresenta como o depositário da tradição vinda de São João e de Papias. foi ele que deu a exposição mais acabada da tipologia milenarismo da semana sabática. Como a história do mundo recapitula a da criação, e como um dia do Senhor equivale a mil anos, é manifesto para Irineu que, ao cabo de seis mil anos e após um período de provações, Deus trará um tempo de repouso e depois que será o sétimo milênio:

• “Ora, depois que o anticristo estiver reduzido o mundo inteiro é um deserto, depois que tiver reinado por 3 anos e 6 meses e ocupado o templo de Jerusalém, o senhor virá do alto do céu, sobre as nuvens, na glória de seu pai, e lançará no poço de fogo o anticristo e seus fiéis; ao mesmo tempo inaugurar a para os justos o tempo do reino, isto é, o repouso, o sétimo dia santificado.”

• A propósito desse tempo de paz e de felicidade, Irineu cita longamente Isaías (11,6-9;65,25): “o lobo pastará com o cordeiro, o leopardo repousará com o cabrito. […] A criança pequena colocará sua mão na toca da víbora. […] O leão e o boi comeram forragem etc”. A seguir ele ataca os que entendem esses trechos de maneira metafórica. A concepção segundo a qual o sétimo milênio recuperará e reconstruirá o tempo anterior ao pecado, e portanto a situação paradisíaca, manda, ao contrário, que esses textos proféticos sejam tomados ao pé da letra:

• “Isso não deixará de acontecer para esses animais por ocasião da ressurreição dos justos […], E quando o mundo tiver sido estabelecido em seu estado primeiro, todos os animais selvagens deverão obedecer ao homem e ser-lhe submissos, e retornar ao primeiro alimento dado por Deus, tal como eram submissos a Adão antes de sua desobediência e como comiam os frutos da terra.”

• Mais adiante em sua profissão milenarismo, Irineu recorda outros versículos de Isaías (13,9;65,21): “virá o dia do Senhor, portador de morte, cheio de furor e de cólera, para reduzir a terra a um deserto de exterminar os pecadores. […] os que tiverem sido deixados se multiplicaram na terra; construíram casas e eles mesmos as habitaram”, e declara:

• “Todas as profecias desse gênero se referem incontestavelmente à ressurreição dos justos, que ocorrerá após a vinda do anticristo e o aniquilamento das nações submetidas à sua autoridade. Então os justos reinarão a terra, crescendo após o aparecimento do Senhor; graças a ele, passarão a perceber a glória do Pai e, nesse reino, terão acesso ao intercâmbio com os santos anjos, bem como a comunhão e a união com as realidades espirituais.”

• Portanto Irineu não vê o reino messiânico como um lugar e um tempo de gozos sensuais. Todavia, não o concebe sem procriação. Assim, a Jerusalém renovada preparará e anunciará a Jerusalém Celeste definitiva, mas não se confundirá com ela. Será estabelecida neste mundo:

• Tais acontecimentos [afirma o Bispo de Lyon] não poderiam situar-se em lugares supracelestes […] Mas se produzirão nos tempos do reino, tendo a terra sido renovada pelo Senhor e Jerusalém reconstruída a imagem de Jerusalém Celeste.

• Citando a seguir o apocalipse, Santo Irineu precisw ainda, para evitar toda confusão entre a Jerusalém messiânica e a da eternidade:

• E depois que essas coisas tiveram corrida na terra que João, o apóstolo do Senhor, diz que descerá à Jerusalém nova, a do alto, a imagem dessa Jerusalém é a que se achava na terra de antes, na qual os justos se exercitavam na incorruptibilidade.

• Enfim, como Justino, Irineu julga heréticos os que não admitem uma série de etapas no caminho dos justos para a vida celeste. O itinerário completo compreende, na realidade, o envio das almas justas ao lugar de espera, paraíso terrestre reencontrado, além da morte, depois a ressurreição corporal desses eleitos para o reino de mil anos, e finalmente, após a ressurreição dos outros mortos e o juízo final, a entrada na Jerusalém Celeste.

• Nada disto deve ser entendido como “alegoria”. Tal é, para o Bispo de Lyon, o ensinamento tradicional. Ora, ele escreveu sua obra contra as heresias no fim da vida, quando já estava na Gália. O milenarismo não era, portanto, apenas uma doutrina correntemente admitida nas comunidades cristãs do oriente. Era também partilhado por cristãos do ocidente, mesmo sendo verdade que ele contava com uma importante comunidade de cristãos vindos da Ásia menor.

• Irineu influenciou o africano Tertuliano (222), o primeiro dos escritores cristãos de língua latina, que horas isso tomou, Por sua conta, espera exasperada dos montanistas. estes travam uma grande importância aos profetas que anunciaram a iminência do retorno de Cristo. Em contra marcião, Tertuliano afirma:”um reino nos está prometido na terra e antes do céu, mas num outro estado, a saber: após a ressurreição, durante mil anos, na cidade feita por Deus, a Jerusalém Celeste”. A expressão “Jerusalém Celeste” pode parecer ambígua. pois Tertuliano escreve mais adiante que “essa cidade foi prevista por Deus para receber os santos ressuscitados e para restaurá-los com a abundância de todas as bençãos realmente espirituais”. Trata-se da pátria definitiva dos eleitos? Não. O padre de Cartago ensina, ao contrário, que a ressurreição para o milênio será seguida da segunda ressurreição e da destruição do mundo. É somente então que, “modificados em nossa substância e tornando-se semelhante aos anjos, seremos transferidos ao reino Celeste”. Numa outra de suas obras, De anima [sobre a alma], Tertuliano volta ao tema do milênio. seguramente ele descarta toda evocação materialista desse reino feliz. No entanto anuncia: “doravante as ilhas não causarão mais horror, os escolhos não serão mais temíveis: em toda parte se achará uma morada, em toda parte um polvo, em toda parte uma república, em toda parte a vida”. Na obra contra marcião, Ele conta que a Jerusalém do milênio foi vista na Judeia durante 40 dias sob a forma de uma cidade suspensa, na aurora, entre o céu e a terra, até o nascer do sol.

• Embora combatido por origines (254) e cada vez mais suspeito aos olhos das autoridades eclesiásticas, o milenarismo recolhe ainda no século três o assentimentos de cristãos notáveis. Entre estes figura são Hipólito (235), que chegou a ser Bispo de uma comunidade Romana cismática mas morreu como mártir, o que o reabilitou aos olhos da Igreja. Por volta do ano 200 da era Cristã, as profecias montanistas e a espera angustiada de uma perseguição próxima — ela acontece em 202 — aumentam a febre escatológica nas comunidades cristãs. é para apaziguar estas que Hipólito redigir seu tratado (do Cristo e do anticristo) e seu (comentário de Daniel). A parousia [segunda vinda de Cristo. Em grego, originalmente, significa presença], diz ele em síntese, não é iminente. baseando-se na teoria dos seis mil anos correspondentes aos seis dias da criação, calcula que Jesus nasceu nas proximidades do ano cinco mil e quinhentos após o nascimento do mundo. Desde então, duzentos anos se passaram. Restam, portanto, aproximadamente três séculos. Assim, os fiéis devem se afastar dos falsos profetas, conservar o sangue frio e continuar a se casar. Hipólito, que seja seu discípulo de Irineu, foi talvez o primeiro achei que sai uma data para o retorno de Cristo à Terra. A arca da aliança tinha cinco côvados e meio. essa dimensão anunciava para Hipólito pois 5.500 anos ao cabo dos quais o senhor viera.

• Uma referência à história judaica do Antigo Testamento também deve metódio de Olímpia, Bispo martirizado em 311, sob Diocleciano, na Eubéia, a comparar o milênio à festa dos tabernáculos. “do mesmo modo que os israelitas saídos das fronteiras do Egito puseram-se primeiro a caminho e chegaram aos tabernáculos, e, tornando a partir daí, chegaram à terra prometida, o mesmo acontecerá para nós”. combatendo o simbolismo de Orígenes e opondo-lhe o milenarismo tradicional, metódio assegura que o milênio será a verdadeira festa dos tabernáculos, que precederam a última transformação de nosso corpo no momento da ressurreição definitiva. O “tabernáculo”, isto é, o retorno do reino do Messias, será por certo um lugar admirável. Contudo, ao final de mil anos, subiremos “à própria casa de Deus, em meio a cantos de júbilo e aclamações de ações de graça de uma multidão em festa”. Então os eleitos, chegados ao “estatuto eterno”, não mas morrerão, não mais pensarão em bodas e em procriação, mas viverão muito felizes à maneira dos anjos. essas fórmulas remetem a um itinerário e a etapas que seguimos desde Papias e Justino: primeiro uma temporada de mil anos numa Terra renovada onde os bem aventurados continuarão a engendrar, depois a passagem a uma vida angélica definitiva. DELUMEAU, Jean, mil anos de felicidade, São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

• Continua

 
 
 

AFONSO (Rio de Janeiro): «Como será possível a ressurreição geral dos corpos humanos professada pelos católicos, visto que os cadáveres se esfacelam em partículas múltiplas, as quais entram na composição de outros seres?»

Por muito árdua que pareça, esta questão se resolve com clareza desde que o estudioso se disponha a raciocinar lealmente. É o que vamos fazer, explanando em primeiro lugar alguns dos fundamentos revelados do dogma da ressurreição; feito isto, abordaremos as duas explicações que hoje se propõem para as dificuldades daí resultantes.

1. Alguns dados da Revelação

É dogma de fé cristã que todos os homens ressuscitarão um dia em corpo não só especificamente, mas também numericamente igual ao corpo em que vivem na terra.

Identidade específica significaria, no caso, união da alma com um corpo humano qualquer, exigindo-se apenas que fosse verdadeiro corpo humano. Identidade numérica, porém, diz união com um corpo portador das mesmas notas individuantes ou dos mesmos traços pessoais que hoje o caracterizam.

O dogma cristão, por conseguinte, professa que a carne da qual hoje se serve a alma como de instrumento de méritos e deméritos, compartilhará a sorte eterna dessa alma, unindo-se-lhe de novo.

Esta verdade se deduz de repetidas afirmações do Senhor Jesus, tais como:

«Não vos admireis, pois vem a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a voz do Filho do Homem, e sairão; os que tiverem praticado o bem, ressuscitarão para a vida; os que tiverem cometido o mal, ressuscitarão para a condenação» (Jo 5,28).

«Os filhos deste século esposam e são esposados; aqueles, porém, que tiverem sido julgados dignos de tomar parte no mundo futuro e na ressurreição dos mortos, não esposarão nem serão esposados; também não poderão morrer, pois serão semelhantes aos anjos e serão filhos de Deus, uma vez ressuscitados» (Lc 20, 34-36).

São Paulo chega a dizer categoricamente:

«Se se apregoa que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. Mas, se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, vã é a vossa fé» (1 Cor 15, 12-14; cf. 20-22; 42-49).

Quanto à identidade de corpo mortal e corpo ressuscitado, ela se verificou em Cristo; era condição absolutamente necessária para que houvesse Redenção. Justamente a finalidade da vinda do Senhor à carne humana era colocar a imortalidade na mesma matéria que era portadora da morte, depositar glória nos mesmos corpos marcados pela ignomínia. Realizando tal inversão de sortes em sua carne, Cristo a anunciou a todos os homens.

A Igreja, no decorrer dos tempos, explicitou a mensagem de Jesus:

«Creio também na verdadeira ressurreição da mesma carne de que agora sou portador» (Símbolo de fé redigido pelo Papa São Leão IX em 1053; Denzinger, Enchiridion 347).

«Com o coração cremos e com os lábios professamos a ressurreição desta carne que agora trazemos, e não de outra» (Inocêncio III, em 1208, profissão de fé para os Valdenses; Denzinger 427).

Sto. Agostinho (+430), por sua vez, escrevia:

«Esta carne há de ressuscitar, esta mesma que é sepultada, que morre; esta que se vê, que é apalpada, que precisa de comer e beber, para poder subsistir; esta que conhece a doença, sofre dores, esta mesma há de ressuscitar» (serm. 264,6).

É de toda conveniência a identidade assim apregoada: a alma aqui na terra não decide a sós a sua eterna sorte, mas para isto usa do corpo, o qual de certo modo lhe marca e caracteriza a fisionomia espiritual; é lógico, portanto, que essa alma não participe a sós da sua recompensa eterna, resposta aos atos da vida presente, mas também nisto esteja associada ao corpo.

Eis, porém, que tal doutrina suscita dificuldades desde os inícios do Cristianismo. Pergunta-se, com efeito: como se há de entender a identidade numérica de corpo mortal e corpo ressuscitado, já que o cadáver se dissolve em poeira, a qual se espalha pelos quatro ventos, entrando facilmente na composição de outros organismos?

A esta questão os teólogos propõem duas respostas, que passamos a analisar.

2. As duas sentenças…

2.1. A tese aparentemente mais natural afirma que a mesma matéria da qual constava o corpo antes da morte, deverá concorrer para a reconstituição da carne no fim dos tempos. Não será necessário, porém, que todas as cinzas do cadáver sejam recolhidas donde quer que se achem no dia da ressurreição; bastará que uma parte das mesmas, até uma parte muito exígua, entre no novo organismo; o que, por um motivo qualquer, vier a faltar, Deus o suprirá em sua Onipotência. São Tomás (+1274) acrescentava que, nos casos de antropofagia, a carne humana consumida por outro homem ressuscitará no corpo a que tiver pertencido primeiramente; dado que o indivíduo antropófago só se tenha alimentado de carne humana por todo o decurso da sua vida, ressuscitará com a carne que seus pais lhe tiverem comunicado ao nascer (Suma e Gentios 4,81). — São Tomás, São Boaventura (+1274), Scoto (+1308), Suarez (+1617) eram da opinião de que, conforme Mt 24, 12, os anjos colaborarão para a ressurreição dos mortos, reunindo as cinzas dispersas e preparando-as para a reintegração dos corpos.

A titulo de ilustração, citamos ainda as seguintes considerações de São Tomás sobre a matéria dos corpos ressuscitados.

Estes terão a estatura ou as dimensões que lhes conviriam na idade madura (que seria a idade de Cristo ressuscitado). Ninguém, pois, ressuscitará na estatura de criança ou de ancião. Caso a natureza, num ou noutro indivíduo, haja produzido algum defeito ou algum excesso de crescimento desarmonioso, Deus reduzirá essa anormalidade ao tamanho normal. É, pois, de crer que ninguém ressurgirá num corpo ridiculamente alto ou ridiculamente baixo (cf. Suma c. Gentios 4,81).

Dada a sobriedade da Revelação Divina no que se refere aos pormenores, não se atribuirá demasiado peso a tais conjeturas referentes ao tamanho dos corpos ressuscitados. Contudo não se porá em dúvida que estes carecerão de qualquer vestígio de mutilação ou defeituosidade.

A sentença acima, tendente a explicar a identidade dos corpos ressuscitados, era muito comum entre os teólogos medievais; ainda hoje goza de favor. Parece, aliás, ser a única forma de elucidar o fato de que ressuscitaremos na mesma carne que agora trazemos. Além disto, alguns autores se comprazem em sublinhar que ela muito põe em realce a índole misteriosa da ressurreição: assinala largas partes à Onipotência Divina na reconstituição dos corpos.

2.2. Contudo é preciso frisar que tal sentença não constitui a única elucidação do problema. Hoje em dia bom número de teólogos dá preferência a outra tese, que parece muito mais condizente tanto com os dados da Teologia como com os da reta Filosofia. Consideremos tal outra sentença, procurando tornar tão claras quanto possível algumas noções especulativas que ela necessariamente pressupõe.

Leve-se em conta a distinção entre forma e matéria, distinção não forjada por teólogos católicos para dar base ao dogma, mas proposta já pelo filósofo Aristóteles (+322 a.C.). Matéria e forma são as duas substâncias incompletas que entram na composição de todo e qualquer corpo. A forma é o elemento ativo, que traz todas as notas positivas e características do sujeito ; a matéria é pura potência, pura capacidade de receber. Esta pura capacidade, porém, não é mero nada.

O fato de que não é mero nada, se pode ilustrar por uma. analogia, que, embora não seja de todo adequada, como não o são em geral as analogias, concorre para elucidar a noção. Tenha-se em vista um pedaço de mármore; nele dizemos que há potência para receber as cinzeladas artísticas ou a atuação que um escultor lhe queira dar, a fim de o tornar bela estátua (de César, por exemplo). Esta mesma potência, porém, não pode ser atribuída a uma quantia de água; esta é de todo incapaz de receber a atuação ou a determinação que um artista, mediante o cinzel, lhe deseje imprimir. Assim, embora o mármore bruto e a água não representem os traços de César, contudo não podem ser equiparados entre si: no mármore há, sim, uma potência real a se tornar estátua de César, coisa que não há na água.

Tal analogia serve ao menos para ilustrar como a potência (na distinção aristotélica entre «potência» e «ato» ou «matéria» e «forma») não é mero nada, mas é parte constitutiva de um ser completo: a estátua de César nunca se concretizaria se só houvesse a arte do artista e não existisse a potência que o mármore oferece (e que a água não oferece).

Pois bem; a alma, em relação ao corpo, se comporta como forma (ou ato) em relação à matéria. A matéria unida à alma traz as notas características de matéria humana, de corpo, e de corpo bem determinado pelos traços individuais de Pedro, Tiago, Maria, etc. É matéria penetrada pela sua forma respectiva, matéria «atuada» ou matéria segunda, como dizia Aristóteles.

Uma vez separada da alma pela morte, não se julgue que essa matéria continuará a guardar as notas características de tal indivíduo (Pedro, Tiago, Maria…). Não; ela as perde, porque lhe são comunicadas pela alma. Donde se segue que a matéria do corpo, pela morte, volta a ser pura potência, pura capacidade, matéria primeira (diria Aristóteles), aberta para receber outra forma ou outras formas que não a alma humana. Em geral, o cadáver passa a ser cálcio, ferro, hidrogênio, oxigênio, carbono…; o que quer dizer: a respectiva matéria é reduzida à pura potência e neste estado recebe novas formas (as formas do cálcio, do ferro, do hidrogênio…) que lhe dão a capacidade de reagir tipicamente como cálcio, ferro, hidrogênio, e não mais como carne ou ossos humanos.

Em vista de maior clareza, poder-se-ia repetir a mesma doutrina do seguinte modo: é a forma que faz que tal matéria seja a matéria correspondente a tal forma. Donde se segue que, por si, a matéria é capaz de receber qualquer forma e assumir, em união com esta, as mais diversas notas especificas e individuais; assim a matéria de per si é indiferente a se tornar a matéria de uma planta (isto é, a ser informada por uma forma vegetativa), a de um animal irracional (isto é, a ser informada por uma forma sensitiva), a de um animal intelectual (isto é, a ser informada por uma alma humana).

De quanto foi dito se depreende que não há motivo para que o Senhor Deus no fim dos tempos recolha as pretensas parcelas do corpo humano esparsas pelo universo, a fim de ressuscitar tal corpo. As parcelas materiais que pertencem a um organismo, pela morte deixam de possuir suas notas individuantes, características de tal organismo; consequentemente qualquer potência, qualquer matéria primeira poderá desempenhar com igual resultado o papel de receptáculo da alma, dando o mesmo corpo, portador das mesmas notas individuais, características do corpo anterior à morte e à ressurreição. Basta, para a identidade do conjunto, que a alma (de Pedro, de Maria…) se conserve a mesma no intervalo que medeia entre a morte do ser humano e a ressurreição; ora, na verdade, a alma não perde sua identidade ou suas notas determinantes, quando se separa do corpo, de sorte que ela pode perfeitamente reconstituir o mesmo corpo, caso o Senhor Deus no dia da ressurreição a queira de novo associar à matéria ou à pura potência receptiva.

Em consequência destas noções, verifica-se que o dogma da identidade numérica de corpo mortal e corpo ressuscitado de modo nenhum implica que, por ocasião do juízo universal, a Onipotência Divina se ponha a congregar a matéria deste ou daquele ser, de preferência à matéria de outros seres, a fim de reconstituir o corpo de João, Pedro, Maria, etc.. Não; a reconstituição dar-se-á simplesmente desde que o Senhor una de novo a alma de João, Pedro, Maria a uma pura potência (qualquer que tenha sido a história anterior dessa potência), a fim de que tal alma reproduza a individualidade característica do corpo de João, Pedro, Maria…

Ainda se pode ilustrar esta doutrina pela observação seguinte: o corpo humano vivo está em continuo processo de evolução, de sorte que de sete em sete anos toda a sua matéria se acha renovada, nada ficando da anterior. Ora, não obstante as mudanças, o corpo conserva suas notas típicas por todo o decurso da vida; fala-se do mesmo corpo de Pedro desde o nascimento até a morte. Esta identidade numérica lhe provém não da identidade da matéria, mas da identidade da forma (alma), que anima um corpo sempre em evolução e renovação.

Em conclusão : nada há que obrigue a exigir mais do que identidade de alma, para que haja identidade do indivíduo humano ressuscitado no último dia.

Esta solução pode ser tida como a consequência bem lógica da doutrina de que a alma é a forma substancial do corpo, tal como a entendem unanimemente os teólogos tomistas. Notáveis autores modernos (Billot, Feuling, Michel, Hugueny…) a professam sem detrimento para a reta fé. Uma vez admitida tal sentença, torna-se vã a pergunta: como reunirá Deus no último dia as partes dos diversos cadáveres dispersas pelos quatro cantos do mundo ou agregadas a outros corpos? Tal questão poria um problema que absolutamente não existe neste novo quadro de idéias.

Apenas com relação às relíquias dos santos (fragmentos dos corpos ou dos ossos) se poderia notar que, conforme julgam os teólogos, o Senhor Deus aproveitará as que subsistirem no dia da ressurreição final, a fim de reconstituir diretamente com elas os corpos dos respectivos justos. Daí especial motivo de veneração às relíquias sagradas!

(Dom Estêvão Bettencourt – OSB)

 
 
 
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