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Dando continuidade falando sobre os acontecimentos durante o papado de Santo Higino, Santo Irineu (130-202), bispo de Lyon, relata um fato interessante ocorrido nesse período: hereges buscavam a cabeça da Igreja para ataca-la universalmente, e sempre buscavam Roma. Os historiadores franceses Jules Lebreton e Jacques Zeiller comentam o ocorrido em que o teologo gnóstico Valetino, procurou disseminar seus ideais por toda a Igreja Universal, e por isso foi a Igreja de Roma, pois esta era a principal: “Todas as especulações de Basilides (teólogo gnóstico de Alexandria) foram continuadas e desenvolvidas por um dos mais influentes teólogos entre os gnósticos do segundo século, Valentino. “Pois Valentino veio a Roma no tempo de Higino, floresceu sob Pio, e permaneceu até Aniceto” (Santo Irineu, Contra as Heresias, volume 3, capítulo 4, 3), ele então gastou cerca de trinta anos (136-165). Vemos já por este fato, a influência decisiva da Igreja Romana. Era a Igreja que os dirigentes das seitas se empenhavam ante todos para conquistar, ou pelo menos atacar, na convicção de que a partir de então sua ação se espalharia por todas as igrejas.”.[1] Porém Santo Aniceto defendeu a Fé com muito zelo e habilidade contra Valentino, Marciano e outros hereges gnósticos daquela época. Também durante o pontificado de Santo Anicento, no ano 154, São Policarpo (69-155), Bispo de Esmirna, reconheceu a obrigação de ir pessoalmente a Santo Aniceto (110-166), o 11° Bispo de Roma, pois os cristãos asiáticos, representandos por Policarpo, diferiam do resto da Igreja em sua maneira de observar a Páscoa. Enquanto as outras igrejas celebravam a festa em um domingo, os asiáticos a celebravam a data no calendário judaico, no dia 14 de nisã, qualquer que fosse o dia da semana em que este pudesse cair. O ocorrido do século II é narrado numa carta Santo Ireneu ao Papa Vitor, preservada pelo historiador Eusébio de Cesareia: “Entre estes (predecessores de Vitor) estavam os presbíteros antes de Sotero, que presidiam a Igreja que você agora governa. Queremos dizer Aniceto, Pio, Hyginus, Telésforo e Sisto. Eles próprios nem observaram, nem permitiram que seus seguidores o fizessem. E, no entanto, embora não o observassem, eles não estavam menos em paz com aqueles que vinham até eles das paróquias em que era observado; embora essa observância fosse mais oposta àqueles que não a observavam. Mas ninguém jamais foi expulso por causa dessa forma; mas os presbíteros antes de você que não a observaram, enviaram a eucaristia aos de outras paróquias que a observaram. E quando o bendito Policarpo estava em Roma no tempo de Aniceto, e eles discordaram um pouco sobre certas outras coisas, eles imediatamente fizeram as pazes um com o outro, não se importando em discutir sobre este assunto. Pois nem Aniceto poderia persuadir Policarpo a não observar o que ele sempre observara com João, o discípulo de nosso Senhor, e os outros apóstolos com quem ele havia se associado; tampouco Policarpo conseguiu persuadir Aniceto a observá-lo, ao dizer que deveria seguir os costumes dos presbíteros que o precederam. Mas, embora as coisas estivessem dessa forma, eles comungaram juntos, e Aniceto concedeu a administração da eucaristia na igreja a Policarpo, manifestamente como um sinal de respeito. E eles se separaram em paz, tanto os que observaram como os que não o fizeram, mantendo a paz de toda a igreja.” – História Eclesiástica, Livro V, capítulo 24.[2] Santo Irineu tornou-se o pacificador da ocasião, exortando e negociando desta forma em nome da paz das Igrejas, e fazendo com que Aniceto permitisse a Policarpo exercer seu ministério. Se cada Igreja na época não dependesse de Roma, Policarpo poderia muito bem celebrar a Páscoa em 14 de Nisan sem consultar o Bispo de Roma Mas ele recorreu a uma autoridade, e ele não foi ao Bispo da Igreja de Antioquia, de Alexandria ou Jerusalém, mas ao Bispo que mandava em todas essas Igrejas: ao Bispo da Igreja de Roma, aquele que podia permitir às Igrejas da Ásia a continuarem com esse costume. Por isso Santo Abercio (?-167), bispo de Hierópolis na Frígia, escreve que quando visitou Roma nos tempos do imperador Marco Aurélio, dita no seu famoso epitáfio que testemunha uma crescente consciência da fraternidade universal sendo criada pela Igreja, algo que ele pôde vivenciar suas viagens, também elogia a majestade da igreja romana, rainha do mundo cristão: “Cidadão de uma cidade escolhida, este monumento fiz enquanto vivia, para que ali pudesse, com o tempo, um local de descanso do meu corpo, [eu] sendo pelo nome de Abercius, o discípulo de um santo pastor que alimenta rebanhos de ovelhas ambos nas montanhas e nas planícies, que tem grandes olhos que vêem em toda parte. Pois este pastor me ensinou que o livro [da vida] é digno de fé. E a Roma ele me enviou para contemplar a majestade e para ver uma rainha vestida de ouro e sandália dourada; ali também vi um povo com uma marca brilhante. “.[3] Santo Aniceto morreu em 168 e fora sucedido por São Sotero, que morreu em 174 e fora sucedido por Santo Eleutério. E Santo Irineu mais a frente, em uma missiva ao Papa Eleutério procurou solicitar sua intervenção na heresia Montanista, a qual estava perturbando a paz das igrejas da Gália (atual França), e em seu livro Contra Heresias, escrito no ano 180, também sob o pontificado do Papa Eleutério, ele escreve: “Visto que, no entanto, seria muito enfadonho, em um volume como este, contar as sucessões de todas as Igrejas , confundimos todos aqueles que, de qualquer maneira, seja por uma má auto-satisfação, por vanglória, ou por cegueira e opinião perversa, reúnam-se em reuniões não autorizadas; [fazemos isso, eu digo,] indicando que a Tradição derivada dos apóstolos, da muito grande, muito antiga e universalmente conhecida Igreja fundada e organizada em Roma pelos dois apóstolos mais gloriosos, Pedro e Paulo; como também apontando a fé pregada aos homens, que chega ao nosso tempo por meio das sucessões dos bispos. Pois é uma questão de necessidade que cada Igreja concorde com esta Igreja, por conta de sua autoridade preeminente [potiorem principalitatem].” – Contra as Heresias, livro 3, capítulo 3, verso 2 Se havia disputas em uma igreja local, essa igreja devia recorrer à Igreja Romana, pois nela estava contida a Tradição que é preservada por todas as igrejas. A vocação de Roma consistia em desempenhar o papel de árbitro, resolvendo questões contenciosas, testemunhando a verdade ou a falsidade de qualquer doutrina apresentada a eles. Roma era realmente o centro para onde todos convergiam, se desejavam que sua doutrina fosse aceita pela consciência da Igreja. Não se podia contar com o sucesso, exceto com uma condição: que a Igreja de Roma tivesse recebido sua doutrina. Segundo Irineu, uma Igreja não pode ser plenamente Ortodoxa fora da comunhão com a Igreja de Roma. A recusa de Roma predeterminou a atitude que as outras igrejas adotariam, e são numerosos os casos deste recurso a Roma. Cada igreja significaria cada igreja local no mundo. Irineu reconhece a Igreja Romana como o padrão de ensino apostólico e autenticidade com o qual todas as outras igrejas no mundo devem concordar. Irineu define a própria palavra quando diz “isto é, os fiéis em todos os lugares” Isso causa tanto desconforto entre os protestantes, que o Bispo anglicano Arthur Coxe em suas notas de rodapé aos “pais ante-nicenos”, mostra sua fobia anticatólica quando critica os editores originais, Alexander Roberts e James Donaldson. Eles haviam traduzido a frase latina “propter potiorem principalitatem” como “autoridade preeminente”, que é como a maioria dos estudiosos traduz as palavras. A razão pela qual essa tradução é tão nefasta aos olhos de Coxe é que ela apóia a interpretação católica romana. Ele inclusive admite: “Os autores da tradução latina podem ter desenhado a ambigüidade que dá ao ultramontano uma aparente vantagem, mas é uma vantagem que desaparece assim que é examinada, o latim responde, cada propósito do argumento do autor, e é fatal para as reivindicações do papado”. Thomas Dolan, depois de responder às afirmações de Coxe, conclui: “Tudo isso, eu acho, torna evidente para o leitor perspicaz, que as idéias do Dr. Coxe estão sob as águas turvas de sua imaginação” (“see peter voice antiquity critical” 24) A palavra “necessidade” usada por Irineu é um termo forte, mas o acordo dentro da igreja universal era essencial para Irineu (a Igreja não podia se contradizer), então uma fonte de unidade era necessária. “É impossível exagerar a importância deste texto, que vem de um bispo venerável entre todos os outros, de um homem originário da Ásia, discípulo de Policarpo e, através dele, de São João, líder de uma Igreja sem laços estreitos com Roma, movida apenas pela solicitude pela Verdade e pela Unidade dos Cristãos. Santo Irineu especifica que é necessário recorrer à Igreja romana e estar de acordo com ela. Esta, segundo ele, é uma moral, religiosa e, portanto, mesmo uma necessidade sagrada. Não é apenas uma questão de conveniência ou utilidade, é uma obrigação “(Wladmir d’Ormesson,”Le Papaute”) Em 189, quando Santo Eleutério morreu, São Vítor I ocupou seu cargo. Em sua carta ao Papa São Vitor (189-199) Santo Irineu escreve a respeito do antigo problema de a Páscoa ser comemorada no dia 14 de Nisã conforme a páscoa hebraica No cerne da disputa estava o seguinte: na Ásia Menor, nas igrejas que datam do apóstolo João, a Páscoa era celebrada no dia 14 de Nissan, data da Páscoa judaica. O Papa São Vitor obviamente sabia sobre a variação entre a Ásia e o consenso das igrejas, e então solicitou que sínodos fossem realizados em todos os lugares sobre a questão. Houve um sínodo realizado na Palestina sob Teófilo de Cesaréia, Narciso de Jerusalém, um sínodo em Ponto sob Palmas, outro na Gália sob Santo Irineu. Outros bispos envolvidos foram o pastor da igreja em Osrhoene, Baco de Corinto, Cássio de Tiro, Claro de Ptolemaida, e nossa testemunha histórica Eusébio de Cesaréia também observa que houveram “cartas de muitos outros que expressaram a mesma opinião e julgamento e lançaram o mesmo voto. E a visão [Tradição romana] que foi descrita acima foi aceita por todos eles ”(Historia Ecclesiastica, V, 23-25). Além disso, Clemente, chefe da escola catequetica de Alexandria, publicou um resumo das tradições que ele coletou e todos concordaram com a posição de Roma. A maior parte da Igreja rejeitou essa prática da Páscoa, pois significava que a Páscoa acontecia frequentemente em um dia de semana. Eles sempre celebravam a Páscoa no Dia do Senhor (domingo) mesmo que isso significasse que não estava de acordo com o calendário judaico. Vários papas toleraram essas práticas litúrgicas contrárias, uma vez que cada prática remontava a pelo menos um apóstolo. O Papa Vitor seguiu um curso diferente, decidindo unificar todo o calendário pascal da Igreja. Ele ordenou que as igrejas asiáticas abandonassem sua antiga prática em favor do uso do domingo de Páscoa. Eles recusaram. O historiador da Igreja Eusébio registra a resposta deles, escrita por um bispo chamado Polícrates. Sua base para a recusa é que essa era a prática ininterrupta do Apóstolo João, São Policarpo e outros. A carta tem algumas características interessantes. Em primeiro lugar, a carta responde às exigências do Papa Vitor citando Atos 5,29: “Devemos obedecer a Deus e não ao homem”. Mas essa é a resposta de São Pedro ao sumo sacerdote. Não é o tipo de coisa que você diz a alguém abaixo de você. Mesmo argumentando que Vitor excedeu sua autoridade sobre eles, os bispos asiáticos não estão realmente refutando que ele tem autoridade ali. O Papa Vitor não é tratado como uma potência estrangeira ou um intrometido externo”, sua Igreja possui jurisdição sobre todas as demais. E como consta em História Eclesiástica V, 24, 8: “Poderia citar os bispos que estiveram presentes, que convoquei a seu desejo, cujos nomes, devo escrevê-los, constituiriam uma grande multidão”, mostrando que os sínodos que foram realizados em outros lugares também tinham sido convocados pelo próprio Vitor. Este pedido de convocação de sínodos revela uma pista de como Roma entendia sua responsabilidade em garantir a unidade eclesial. Quando o sínodo asiático disse “Devemos obedecer a Deus e não ao homem” em protesto contra a mudança de sua regra, elas não estavam respondendo apenas a Vitor, mas a Vitor e a todos os sínodos de as igrejas cristãs, uma vez que não foi até receber esta carta notificando da recusa dos bispos asiáticos em aceitar o Domingo de Páscoa, que São Vitor drasticamente quis declarar completamente excomungados a todos os irmãos ali E em ambos os lados na disputa estão apelando para a Tradição, para cadeias de prática ininterrupta desde os Apóstolos até o presente (e uma vez que João parece ter instituído uma prática diferente da dos outros Apóstolos, ambos os lados da disputa parecem estar certos). Temos o que poderia ser uma bela história sobre a coexistência de tradições litúrgicas, a adoção de diferentes costumes e a diversidade do Corpo de Cristo. Só que não é assim que esta história acaba. Em vez disso, ocorrera um choque feio de obediência e autoridade de um lado, com tradição litúrgica do outro. O poder de Roma é vidente: Roma ordena que todas as igrejas da Ásia fossem excomungadas. Contudo, alguns bispos opuseram-se à Vítor, e rogaram-lhe que voltasse atrás. Eles repreenderam muito o Papa pela sua atitude, uma vez que queriam manter a paz e a unidade com toda a Igreja, e acharam que a ação papal fora demasiada O historiador da Igreja, Eusébio de Cesaréia ao falar sobre o ocorrido, escreveu: “Diante disso, o chefe da Igreja de Roma, Vítor, resolveu afastar da unidade comum globalmente as comunidades de toda a Ásia, e simultaneamente as Igrejas vizinhas, como sendo heterodoxas; publicou tal decisão por carta e proclamou que todos os irmãos destas regiões, sem exceção, achavam-se fora da unidade da Igreja. Mas isso não agradou a todos os bispos. E rogavam-lhe a considerar as coisas da paz e de unidade e de amor ao próximo. Conservaram-se ainda suas palavras. Opuseram-se a Victor de modo muito incisivo.” – História Eclesiástica, Livro V, 24, 9-10 Esta é talvez, a mais explícita evidência da autoridade do bispo romano de impor um novo costume, e até mesmo de cortar da comunhão da Igreja toda uma comunidade dissidente (algo que não poderia fazer sem devida autoridade para isso). Aí, é vidente a autoridade papal sendo exercida. O Papa São Vitor respondeu à desobediência dos bispos asiáticos com uma excomunhão em massa daqueles que se recusaram a mudar para o Domingo de Páscoa. Outros bispos (mesmo aqueles que concordaram com Victor) ficaram, razoavelmente, chocados com a dureza dessa punição. Obviamente, foi exagerada a pena que o Papa deu às Igrejas da Ásia, tanto é que gerou uma oposição a sua atitude. Porém os bispos asiáticos opuseram-se ao Papa de modo muito incisivo pelo fato, de ter abusado de sua autoridade universal, mas não negam seu poder e autoridade. Apenas se opuseram a medida papal pois sabiam que ele não poderia excomungar Igrejas se ele não pudesse, e ele poderia. Santo Irineu (que defendia a data do domingo de Páscoa e crente no papado romano) foi um dos bispos que interveio, e rogou a Vitor para que revogasse sua decisão, ressaltando que o Papa Aniceto tinha comungado com São Policarpo, apesar de suas diferenças sobre este assunto. É digno de nota que, embora Santo Irineu rogasse para que São Vitor não excomungasse as Igrejas da Ásia, como o Historiador e Teologo Pierre Batiffol adequadamente observa concernente à excomunhão que o bispo Vitor pronunciou contra Polícrates: “O bispo de Roma condena sua observância da Páscoa como costume que é contra o Canon da fé Apostólica, e os corta, não da comunhão romana, mas da católica. Está ciente então, de que tal sentença de sua parte é legítima. Irineu protesta contra a excomunhão dos asiáticos, é verdade, mas não sonha em questionar o poder de Vitor para pronunciar esta excomunhão”.[4] Santo Irineu concorda que é necessário celebrar unicamente no domingo o mistério da ressurreição do Senhor; no entanto, com muito bom senso, exorta Vitor a não amputar igrejas de Deus inteiras que haviam observado a tradição de um antigo costume. Eusébio escreve sobre isso: “Em primeiro lugar, (Irineu) declara que somente no domingo se deve celebrar o mistério da ressurreição do Senhor; depois exorta delicadamente Vítor a não apartar da comunhão Igrejas de Deus inteiras, que conservam a tradição de antigo uso; e a muitas outras razões, adita as seguintes expressões: […]” -História Eclesiástica, Livro V, 24, 11 Esse pedido, de Irineu, que em suas cartas, exorta que o mundo inteiro seja subordinado à Roma, será crucial para que Vítor retire a pena imposta. O bispo de Roma demonstrou sua autoridade não sobrepujada ao impor a páscoa romana. Bispos asiáticos, tais como Policarpo e Polícrates, embora recusassem aceitar o costume romano, reconheceram, todavia, o pedido dos bispos romanos: o primeiro sentiu a obrigação de ir, em 154 d.C., pessoalmente a Aniceto para acertar a questão da Páscoa e outros assuntos, o segundo aquiesceu com a ordem de Vitor de convocar um concílio. Pierre Batiffol apropriadamente comenta quanto a esta questão que “É somente a Roma que Éfeso responde e resiste. Vemos a autoridade que Roma exerce nesse conflito. Renan apropriadamente disse, em referência a este caso: ‘O papado nasceu, e muito bem nascido’”.[5] Eusébio conclui seu relato dizendo simplesmente: “Assim, Irineu, que realmente tinha um nome bom [o nome de Irineu vem da palavra grega para paz], tornou-se um pacificador neste assunto, exortando e negociando desta forma em nome da paz das igrejas. E ele conferiu por carta sobre esta questão debatida, não apenas com Vitor, mas também com a maioria dos outros governantes das igrejas” O resultado final do conflito é impressionante: Vitor venceu. A Ásia Menor mudou da Páscoa da Páscoa (uma tradição estabelecida pelo Apóstolo João!) Para o Domingo de Páscoa, a pedido do papa. Agora, de certa forma, esta história pode afirmar os temores protestantes sobre o papado, dada a dureza da resposta de Vitor e as origens apostólicas do calendário litúrgico asiático. Mas vale lembrar que essa história não é de algum papa da Renascença imperioso. É de um dos primeiros papas mártires cristãos, e tudo aconteceu antes do final do segundo século. Literalmente, levará mais de um século antes mesmo de chegarmos à legalização do Cristianismo pelo Edito de Milão, muito menos a algo como o Concílio de Nicéia. Certos cristãos adeptos a teoria do resgate anseiam pelos primeiros dias do cristianismo, e imaginam estruturas altamente centralizadas como o papado como um desenvolvimento (ou invenção) posterior. Mas isso é Cristianismo primitivo. O papado tem estado no coração da Igreja Católica desde o início, como a história nos mostra. Alguns historiadores têm o seguinte a comentar sobre este Papa e suas ações: “Em nenhum momento de sua história esta preeminência é tão evidente como sob o Papa Vitor: quando ‘da Gália a Osrhoene [no Eufrates]” seu convite para a convocação de concílios para efetuar um acordo de a controvérsia pascal foi aceita em toda parte. ‘Esta iniciativa do Papa Victor por si só, uma iniciativa provou ser eficaz, é suficiente para mostrar quão evidente naqueles tempos antigos era a situação excepcional e a autoridade ecumênica da igreja romana’ ” (Dr. Beresford Kidd, “The Roman Primacy to AD 461”, página 18-19) “O Papa Vitor iniciou um movimento em favor da unidade de observância. Concílios são realizados simultaneamente a seu pedido em toda a cristandade, e todos publicam as decisões de que a Páscoa deve ser celebrada apenas no domingo. Somente as igrejas asiáticas resistem a essa decisão. São Vitor ‘tenta separá-los da unidade comum’. Alguns outros bispos acham isso muito severo, pois o bispo de Éfeso pleiteou uma tradição recebida do apóstolo São João, e eles ‘criticaram Victor de forma um tanto severa’. Entre esses, Santo Irineu exortou Victor a considerar que a diferença no costume do jejum só trouxe mais clareza à unidade da fé […] Seja como for, encontramos nesta história incompleta de um Papa consciente de que é ele quem deve ver a uniformidade nas igrejas cristãs. Vemos conselhos reunidos em todos os lugares a seu pedido.(Dom John Chapman, Bishop Gore and Catholic Claims, páginas 66-67) “Não há nenhum vestígio de protesto contra a ação de Victor com base em princípios. Ninguém sugeriu que ele não tinha o direito de agir como havia agido. ” (Trevor Jalland, “The Church and the Papacy”, página 121) A autoridade incontestada exercida pela igreja de Roma por intermédio de seu bispo chefe, poderia ainda ser evidenciada por exemplos posteriores, tais como a excomunhão pelo papa Vitor de Teodoto, um herege de Bizâncio, por ensinar que Cristo só teria se tornado Deus após sua ressurreição, como registrado por Eusébio de Cesareia.[6] Os seguidores de Teodoto formaram uma comunidade herética separada em Roma governada por outro Teódoto, o Cambista e Asclepiodoto. Quando São Vítor I morreu em 199 d.C., São Zeferino fora nomeado seu sucessor Apostólico. No ano 202, o imperador Septimio Severo levantou a quinta perseguição mais sangrenta contra a Igreja, que continuou não por apenas dois anos, mas até a morte daquele imperador em 211. esta furiosa tempestade, este santo pastor foi o apoio e conforto do angustiado rebanho de Cristo, e ele sofreu por caridade e compaixão o que todo confessor passou. O seu pontificado se caracterizou por duras lutas teológicas que levaram, por exemplo ao confronto com Tertuliano. Tertuliano, bispo de Cartago, tem uma história trágica. Ele já havia escrito uma bela obra chamada “De praescriptione haereticorum” (“Prescrições Contra Todas as Heresias”), escrita por volta de 198 d.C., onde ele ainda via a Sé de Roma como autoridade universal: “Venha agora, você que teria uma curiosidade melhor, se você a aplicasse ao negócio de sua salvação, passe pelas igrejas apostólicas, nas quais os próprios tronos dos apóstolos ainda são proeminentes em seus lugares, nos quais os seus próprios escritos autênticos são lidos, pronunciando a voz e representando o rosto de cada um individualmente. Acaia está muito perto de você, (na qual) você encontra Corinto. Visto que você não está longe da Macedônia, você tem Filipos; (e lá também) você tem os tessalonicenses. Já que você pode atravessar para a Ásia, você obtém Éfeso. Além disso, você está perto da Itália, você tem Roma, da qual vem mesmo em nossas mãos a autoridade (dos próprios Apóstolos). Quão feliz é esta Igreja que os Apóstolos deram, com seu sangue, toda a doutrina, onde Pedro é igualado a paixão do Senhor, onde Paulo foi coroado com a morte de João [Batista], onde o apóstolo João, depois que, jogado em óleo fervente, não sofrendo dano algum, foi exilado em uma ilha.” – Prescrições contra todas as heresias, 36.[7] Em outras traduções está: “Mas se te encontras perto da Itália, tens Roma, de onde para nós vem a autoridade”. Essa frase de Tertuliano, mostra como um católico da época, acreditava na autoridade da Sé Romana. Contudo, ao sair da Igreja Católica e abraçar o montanismo, a opnião de Tertuliano sobre este assunto muda completamente. No terceiro e último período da vida de Tertuliano, vemos o escritor africano já militando contra a Igreja Primitiva, no partido montanista. Sua conversão ao montanismo ocorreu por volta de 207 d.C. A partir de 212-213 d.C. enumeram-se as obras: “De fuga in persecutione” (Sobre a inadmissibilidade de fuga durante a perseguição), o “Adversus Praxeam” (contra o patripassiano Práxeas expõe-se a doutrina sobre a Trindade), o “De monogamia” (ainda contra as segundas núpcias, com textos mais radicais e tons mais duros), o “De ieiunio adversus Psychicos” (defesa da prática montanista sobre o jejum e ataque aos ‘psychici’, isto é, aos católicos, acusados de serem laxistas) e o “De pudicitia” (“Sobre a Modéstia”). Nessas suas últimas obras, Tertuliano já está abraçado com suas heresias: ou com o montanismo ou com o tertulianismo (heresia que ele irá fundar alguns anos após abraçar o montanismo). Em seu período Pré-Montanista, onde vale lembrar, já não devia ser considerado um católico, ao escrever sua carta contra Práxeas, no capítulo 1 acusava o bispo de Roma de se simpatizar as heresias de Montano e Priscila (o montanismo), que ironicamente em poucos anos, seria sua nova religião. Nessa nova fase herética, Tertuliano nega à Igreja o direito de perdoar os pecados, reservando-o aos “homens espirituais” (apóstolos e aos profetas), afirma-se que alguns pecados gravíssimos (idolatria, fornicação, homicídio) não se têm perdão. Nesse período, Tertuliano assume grande oposição à Igreja de Roma, não vendo mais autoridade nela. Por tudo isso, São Jerônimo (347-420) diz, no século IV, em sua obra “Contra Helvídio” que “De Tertuliano não direi (nada) senão que não pertenceu à Igreja.”.[8] Santo Hipólito de Roma acusou de heresia o papa são Zeferino e o diácono Calisto. Seu ímpeto culminou quando, após a morte de São Zeferino, São Calisto I foi eleito papa em 217. São Calisto ficou famoso por ter excomungado Sabélio, pai do sabelianismo (heresia unicista que afirmava que Deus em sua unicidade se manifestou em carne e não em três pessoas distintas) e por ter exercido Primazia sobre a Igreja Universal, a Ortodoxia de Calisto foi desafiada por Hipólito e Tertuliano com base em que em um famoso édito ele concedeu a Comunhão após a devida penitência para aqueles que haviam cometido adultério e fornicação. O edito era uma ordem para toda a Igreja, como narra Tertuliano: “Ouvi dizer que foi publicado um edital, e peremptório; o bispo dos bispos, que significa o Pontifex Maximus, proclama: Eu perdoo os crimes de adultério e fornicação para aqueles que fizeram penitência” (“Sobre a Modéstia” 1,3).[9] É claro que Calisto baseou seu decreto no poder de ligar e desligar concedido a Pedro, aos seus sucessores e a todos em comunhão com eles: “Quanto à tua decisão”, exclama Tertuliano, já adepto do montanismo, “Eu pergunto, de onde tu usurpar este direito da Igreja ? Se for porque o Senhor disse a Pedro: Sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, dar-te-ei as chaves do reino dos céus’, ou o que quer que seja mais ligeiro ou solto na terra será ligado ou desligado no céu’, que tu presumes que este poder de ligar e desligar foi transmitido a ti também, isto é, a cada Igreja em comunhão com a de Pedro (ad omnem ecclesiam Petri propinquam, ou seja, Petri ecclesiae propinquam), quem és tu que destróis e alteraste a intenção manifesta do Senhor, que a conferiu a Pedro pessoalmente e sozinho?”(“Sobre a Modéstia” 21) Como Tertuliano registrou, este fora um ato claro de Primaza. Já mencionamos inclusive na parte 2, o fato do ministro presbiteriano William Dool Killen vergonhosamente afirmar que as cartas de Santo Inácio de Antioquia serem uma falsificação de São Calisto para afirmar a Primazia que ele admite que este Bispo de Roma professava.[10] Hipólito e Tertuliano estavam defendendo um suposto costume de tempos anteriores, e o papa ao decretar um relaxamento foi considerado como promulgando uma nova lei. Hipólito rebelou-se e acabou sendo indevidamente eleito “papa” pelos seus bispos partidários, tornando-se um “anti-papa”. Esse cisma manteve-se na Igreja até mesmo após a morte de São Calisto em 222, e nos pontificados de Santo Urbano I (222-230) e São Ponciano, que foi eleito em 230. Então, morrera em combate o imperador Alexandre Severo, sendo sucedido por Maximino, tirano que retomou a perseguição aos cristãos. E começou de forma singular: deparando-se com a existência de dois papas, deportou ambos, condenando-os a trabalhos forçados numa mina de pedras da Sardenha. São Ponciano foi o primeiro papa a ser deportado. Era um fato novo para a Igreja, que ele administrou com sabedoria, sagacidade e muita humildade. Para que seu rebanho não ficasse sem pastor, renunciou ao trono de Pedro em 235, tornando-se, também, o primeiro papa da Igreja a usar este recurso extremo. Todavia o gesto de Ponciano comoveu Hipólito, que percebeu seu sincero zelo apostólico. Por isso também renunciou ao seu posto, interrompendo o prolongado cisma e reconciliando-se com a Igreja de Roma, antes de morrer, em 235, mesmo ano da morte de Ponciano. O cristianismo só se beneficiou porque Santo Hipólito tornou-se o mais importante filósofo cristão do final do século III. As suas obras mais conhecidas são seu comentario no Livro de Daniel (onde faz intercessão dos Santos), “Philosophumena” e “A tradição apostólica”, que aborda temas importantes, como rito, disciplina e costumes cristãos da época. Papa Ponciano, por sua vez, instituiu o canto dos salmos, a reza do “confiteor Deo” antes de morrer e o uso do “Dominus vobiscum”. E, o fundamental: pôs fim à heresia de Santo Hipólito. Com sua renúncia, Ponciano foi sucedido então pelo papa Santo Antero, de origem grega, que exerceu a função por apenas quarenta dias, entre de 21 de novembro de 235 a 3 de janeiro de 236, e morreu. Após a morte de Santo Antero, São Fabiano sucedeu-lhe o cargo. Eusébio de Cesareia relata que a eleição de São Fabiano ocorrera de forma maravilhosa: “Eles dizem que Fabiano tendo vindo, após a morte de Anteros, com outros do país, estava hospedado em Roma, e que enquanto lá ele foi escolhido para o cargo por meio de uma manifestação maravilhosa da graça divina e celestial . Pois quando todos os irmãos se reuniram para selecionar pelo voto aquele que deveria suceder ao episcopado da igreja, vários homens renomados e honrados estavam na mente de muitos, mas Fabianus, embora presente, não estava na mente de nenhum. Mas eles relatam que de repente uma pomba voando baixo pousou sobre sua cabeça, parecendo a descida do Espírito Santo sobre o Salvador na forma de uma pomba. Em seguida, todo o povo, como que movido por um Espírito Divino, com toda avidez e unanimidade clamou que ele era digno, e sem demora eles o pegaram e o colocaram na cadeira episcopal.” – “História Eclesiástica” VI,29.[11] O famoso professor e erudito cristão Orígenes escreveu a Fabiano defendendo a ortodoxia de seu ensino (conforme relata Eusébio em “História Eclesiástica” VI,36), que havia sido condenado tanto em Alexandria quanto mais tarde em Roma, em um sínodo sobre o qual provavelmente Anterus havia presidido. Quando São Fabiano morreu em 250, São Cornélio sucedeu-lhe o cargo, e dele falaremos mais na próxima parte. FONTES NOS COMENTÁRIOS

 
 
 

A REBELDIA DE LUTERO

Bula Exsurge Domine de Leão X (15/06/1520)

É sabido que Martinho Lutero (1483-1546) conhecia os escritos de Hus já antes de sua ruptura com a Igreja. Religioso agostiniano em 1505, sacerdote em 1507, foi pro fessor na Universidade de Wittenberg de 1511 até à morte. Seu pensamento teológico esteve em continua evolução, mas podemos dizer que o núcleo fundamental que o levou ao repúdio do catolicismo já estava delineado em 1513, depois da chamada “experiência da torre”. Embora aparentemente ainda ligado à sua Ordem e à Igreja, no intimo já tinha deixado de pertencer a uma e a outra: os comentários que fez dos Salmos, que são exatamente dessa época (1513-1516), estão em total oposição à doutrina católica.

Experiência fundamental de Lutero e nervo de toda a sua concepção teológica é a negação da sacramentalidade da Igreja no sentido católico do termo. Não desconhece ele a existência de informações empíricas a que se dá o nome de Igrejas; mas para ele verdadeira Igreja é a congregação invisível dos verdadeiros crentes, que têm acesso diretamente à palavra de Deus contida na Escritura. A contrapartida é a recusa de toda instituição visível que se diga depositária e intérprete da verdade revelada e dispensadora de graças. Neste mundo, intrinsecamente corrompido pelo pecado (recorde-se que Lutero identificao pecado original com a concupiscência), só pode o homem confiar que Deus não lhe impute a iniquidade, mas nem a Fé o justifica interiormente, nem muito menos instrumentos humanos como a Igreja e os sacramentos — conclui Lutero. O mercado das indulgências, que se fazia em Magdeburg, Halverstadt e Mainz (Disputatio I. Eccii et M. Lutheri Lipsiae habita 1519. ed. Weimar 2254385 passim), foi a ocasião próxima do estopim. Em 31/10/1517, no próprio ano do encerramento do V Concílio de Latrão, o frade agostiniano afixou, na porta da Igreja da Universidade de Wittenberg, suas 95 teses contra as indulgências.

Foi grande a repercussão, porque não era só a venda das indulgências que era combatida por Lutero, mas o próprio princípio de que a Igreja fosse a dispenseira dos méritos da Paixão de Cristo, como Clemente VI havia exposto na Bula Unigenitus de 27/01/1343 Em vão expediu Leão X, em 09/11/1518 o Decreto Cum postquam (A bula é endereçada ao Cardeal Caietanus (Tomás de Vio), Legado papal na Dieta de Augsburgo. O Papa tenta primeiro conter Lutero por meio de seus superiores da Ordem (03/02/1518); em 7 do mês 8 foi ele intimado a comparecer a Roma; em 23 do 8 e 11 do 9 foram expedidos ao Cardeal Caietanus dois breves com a missão de julgar Lutero. Tudo em vão: o rebelde fugiu para Augsburg na noite de 20 para 21/10, quando começadas as conversações. A Bula Cum postquami é, sem dúvida, doutrinária em matéria de indulgências), em que reconhecia os abusos, sem deixar de manter a doutrina tradicional. Nessa altura, Lutero já tinha declarado a ineficácia da excomunhão 109 e, em 10/12/1520 mostrou a pouca importância que dava ao Direito Canônico, queimando o seu código junto com a nova Bula Exsurge Domine, na qual, depois de uma consulta papal aos professores das Universidades de Colônia e Louvain, eram condenadas 41 proposições extraídas da obra do heresiarca (A Universidade de Colônia tinha condenado as obras e uma série de proposições extraídas de seus escritos (30/08/1519); o mesmo fez a Universidade de Louvain (07/11/1519). O Papa teve assim que analisar mais de perto o caso: em 09/01/1520 realizou-se o primeiro consistório, presidido pelos Cardeais Caietanus e Accolti. Prolongaram-se os trabalhos até abril e a maioria dos membros da Comissão se inclinou pela condenação de Lutero, mas Leão X resolveu tomar uma decisão tão grave assim só em 20/5. A missão de redigir a bula foi confiada ao Cardeal Accolti), essas Referem-se umas à concupiscência e à natureza humana depois do pecado; outras, à graça, aos sacramentos, especialmente à Penitência”, ao purgatório, às indulgências e à Igreja.

Lutero não só não se submeteu, mas respondeu com a máxima arrogância com um libelo: Contra a execrável bula do anticristo. Foi excomungado em 03/01/1521: consumava-se assim sua ruptura com a Igreja Católica.

 
 
 

A IGREJA E A LUTA CONTRA O LIBERALISMO E A MAÇONARIA

O “Ultramontanismo”

É difícil estabelecer exatamente a data em que entrou no Brasil o tipo de pensamento que, no século XIX, se chamou de “ultramontanismo”. Ultramontanismo foi um termo usado desde o século XI para descrever cristãos que buscavam a liderança de Roma (“do outro lado da montanha”), ou que defendiam o ponto de vista dos papas, ou davam apoio à política dos mesmos. Pelos idos do século XV, o mesmo veio a ser utilizado como descrição daqueles que se opunham às pretensões da Igreja Galciana”(para uma relação das bulas, outorgando o direito de padroado aos reis de Portugal, consulte Padre Miguel de Oliveira, História eclesiástica de Portugal, 3° edição, Lisboa: união gráfica,1958,p. 195-204). No entanto, no século XIX o dito termo reapareceu, dessa vez descrevendo uma série de conceitos e atitudes do lado conservador da Igreja Católica e sua reação aos excessos da Revolução Francesa.

Essa reação católica tinha se caracterizado pela reafirmação do escolasticismo, pelo restabelecimento da Sociedade de Jesus (1814) e por uma série de encíclicas, bulas, alocuções e constituições que foram fulminantemente lançadas contra o que a Igreja considerava serem elementos errôneos e tendências perigosas dentro da religião e da sociedade civil. Esses escritos culminaram em 1864 com a Enciclica Quanta cura e o “Sílabo dos Erros”, anexo à mesma, Portanto, a grosso modo, pode se dizer que o ultramontanismo do século XIX colocou-se, não apenas numa posição a favor de uma concentração do poder eclesiástico nas mãos do papado, mas também contra uma série de coisas que eram consideradas erradas e perigosas para a Igreja. Entre esses “perigos” estavam o galicanismo, o jansenismo(que já foram abordados), todos os tipos de liberalismo, o protestantismo, a maçonaria, o deísmo, o racionalismo, o socialismo e certas medidas liberais propostas pelo estado civil, tais como a liberdade de religião, o casamento civil, a liberdade de imprensa e outras mais.

O choque entre o ultramontanismo e os outros “ismos” do século XIX era inevitável e ocorreu por toda a cristandade. Esse choque não foi característico de uma só nação e se passou tanto na Europa como nas Américas. A luta, às vezes, tomou a forma de guerra, especialmente na Itália, onde o liberalismo se misturou com as aspirações italianas de unificação política. Pelo menos, em um país latino-americano (a Guatemala) as primeiras lutas entre o liberalismo e o ultramontanismo resultaram em guerra religiosa (Mary P. Holleram, Church and State in Guatemala Apud David Gueiros Vieira).

O ultramontanismo, entretanto, não encontrou no começo do século XIX um clima muito favorável no Brasil. Desde os dias de Pombal e da expulsão dos jesuítas de Portugal e de suas colônias (1759), como já foi mencionado, os seminários portugueses e brasileiros haviam caido em mãos de jansenistas. Além disso, apesar de todas as precauções por parte das autoridades portuguesas, grandes quantidades de literatura revolucionária da França e dos Estados Unidos da América haviam entrado na colônia( Carlos Rizzi, Hipólito da Costa e o Correio brasiliense. São Paulo: Companhia editora Nacional, 1957, p. 98-110). O escolasticismo quase que desaparecera do currículo das escolas brasileiras. O cartesianismo e o ecletismo tinham tomado seu lugar (Costa Apud David Gueiros Vieira p.33).

O ultramontanismo foi algo que cresceu vagarosamente no Brasil e, em geral, através de influencia estrangeira. As vezes, ideias ultramontanas eram trazidas por clérigos vindos da Europa, outras vezes eram trazidas para cá por clérigos brasileiros educados no continente europeu. Não pretendemos traçar aqui o aparecimento do ultramontanismo no Brasil. No entanto, cumpre ressaltar que vários clérigos que tomaram parte na Constituinte (1823), e depois foram eleitos para o Parlamento, de 1826 em diante, tinham a tendência de se tornarem mais conservadores, ao passo que a Igreja e o papado iam sendo atacados pelos jansenistas e galicanos de todos os matizes( p. Júlio Maria, p. 137-147).

O ultramontanismo, bem como o tomismo e o escolasticismo, eventualmente voltaram ao Brasil. Os mais ilustres mestres do escolasticismo e tomismo na primeira parte do século XIX, como nos informa João Cruz Costa, foram o padre português Patrício Muniz 1820-1871 e o italiano Mons. Gregório Lipparoni, que haviam estudado em Roma. Cumpre ressalvar, entretanto, que o ultramontanismo do Padre Muniz não era intransigente. Sabemos, por exemplo, que ele foi um bom amigo do missionário protestante Dr. Robert Reid Kalley, a quem procurou converter ao catolicismo (Rocha, Lembranças do passado, II, P. 84,136,151,166-169, 261-292).

O Padre Muniz, pode-se dizer, era um tipo diferente dos ultramontano. Tanto Silvio Romero como o Padre Leonel Franca indicaram que o padre nada sabia do escolasticismo se bem que fosse professor do mesmo. Outros ultramontanos, no entanto, não se demonstraram tão pacientes para com os hereges à maneira do Padre Muniz, ou para com os heterodoxos dentro da Igreja.

Como nos relata Vieira :”Entre os ultramontanos nos primeiros dias do Império, dois foram de grande influência como escritores políticos. Esses foram os Padres Luís Gonçalves dos Santos e William Paul Tilbury. O primeiro, cognominado “Padre Perereca”, foi talvez o mais vocífero dos primeiros ultramontanos no Brasil. Entrou em violentas disputas com o Padre Feijó sobre o projeto legislativo que daria permissão aos padres brasileiros de se casarem. O Padre Perereca atacou Feijó com termos insultantes, aos quais Feijó revidou à mesma altura”. O jansenista Feijó não foi o único a sofrer os insultos do Padre Perereca. Os missionários protestantes, seus amigos também, foram alvo da afinadíssima pena do padre jornalista. Os ataques deste contra os protestantes foram provocados pelo Padre Tilbury e seu amigo James Andrews”.(p.34)

Resultante da campanha de Tilbury e Andrews, o Padre Luís Gonçalves dos Santos, século XIX, escreveu três livros contra os metodistas. A terminologia desses era tão insultante quanto a que tinha sido usada contra o Padre Feijó .O Padre Tilbury também entrou no combate como Padre Perereca e os dois juntos escreveram um trabalho intitulado Antidoto Católico( Pe. Guilherme Paulo Tilbury, Antidoto Católico Contra o Veneno Metodista, ou, Refutação do Segundo Relatório do Entitulado Missionário do Rio de Janeiro. (Rio:1.P. da Costa, 1839). Apenso a esse volume vinha a Análise do Anúncio do Vendedor de Bíblias do Padre Luís Gonçalves dos Santos).

Tanto o Padre Tilbury como o Padre Perereca têm o crédito de terem sido quase que os primeiros a atacar a maçonaria no Brasil. Em 1826 Tilbury publicou Exposição Franca Sobre a Maçonaria(Pe.Guilherme Paulo Tilbury, Exposição Franca Sobre a Maçonaria Por Um Ex-maçon Que Abjurou e Sociedade. (Rio: Tip. Imperial e Nacional, 1826). O único exemplar dessa obra que vimos foi localizada no Archivio Segreto Vaticano Apud David Gueiros Vieira). A contribuição do Padre Perereca foi em forma de uma série de cartas publicadas nos jornais do Rio contra a maçonaria e o Despertador Constitucional, jornal maçônico da época (Luís Gonçalves dos Santos, Antidoto Salutífero Contra o Despertador Constitucional. (Rio: 1825), citado por Blake, op. cit., V. p. 413).

Padre Tilbury foi também o clérigo inglês responsável pela mudança de opinião da lesgilativa de São Paulo que pretendia aceitar a oferta de Kidder, de centenas de Biblias que seriam adotadas como material de leitura nas escolas públicas daquela província. O Bispo de São Paulo, ex-aluno da Universidade de Coimbra, Dom Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, que também era membro da legislativa provincial, votou a favor da aceitação dádiva ( Vasco Smith de Vasconcelos, História da Provincia Eclesiástica de São Paulo, São Paulo: Of. Gráficas Saraiva S/A., 1957, p.63-65). No entanto, recebendo comunicação do Padre Tilbury que essas eram Bíblias protestantes “falsas”, aparentemente assim informou a legislativa paulista e o projeto foi engavetado.

Outros nomes de ultramontanos de influência que aparecerão mais tarde neste estudo deveriam também ser mencionados. Esses são o Dr. José Soriano de Sousa (1833-1895), e o Senador Cândido Mendes de Almeida 1818-1881.

Ao mesmo tempo que o ultramontano Soriano de Sousa restabelecia no Brasil as bases filosóficas e teológicas do tomismo, o Senador Cândido Mendes de Almeida, brilhantemente, lutava contra o galicanismo através de seu estudo de quatro volumes sobre as legislações portuguesas e brasileiras. Nesse trabalho, estabeleceu toda jurídica da disputa entre ultramontanos e a Coroa pelos direitos tradicionais da Igreja (Cândido Mendes de Almeida, Direito Civil Eclesiástico Brasileiro Antigo e Moderno em suas Relações com o Direito Canónico, (4 vols. Rio: 18661873 in Blake, op. cit., II, pp. 36, Veja-se também Cândido Antônio Mendes de Almeida, O Senador do Império Cândido Mendes de Almeida (1818-1881) (Rio: C, Mendes Junior, 1943); Pereira Conflitos,p.223-226).

Os ultramontanos brasileiros não lutaram sozinhos. Tiveram grande ajuda da parte dos núncios e internúncios bem como das ordens religiosas estrangeiras que, pouco a pouco, foram voltando para o Império: os lazaristas em 1827, os capuchinhos em 186. os jesuítas em 1866.

Entre os internúncios, o mais vigoroso pregador do ultramontanismo foi Mons. Gaetano Bedini 1846-1847 que se tornou notório pelos seus sermões contra casamento mistos entre os colonos alemães em Petrópolis, e por suas críticas públicas, feitas a Dom Pedro II, por não ir este à missa tão frequentemente quanto seus antepassados Entre os ultramontanos estrangeiros que mais influenciaram a formação de várias gerações de ultramontanos brasileiros, encontramos os lazaristas que, em 1821, fundara o Colégio Caraça, em Tejuco (Diamantina hoje) em Minas Gerais. Vários lazaristas franceses foram trazidos para lecionar no mencionado colégio.

Os jansenistas, galicanos e liberais de todos os matizes se revoltaram contra a volta dos frades estrangeiros. O Deputado Bernardo Pereira de Vasconcelos foi um dos primeros a protestar contra esse retorno e apresentou uma “indicação” propondo que se recomendasse ao governo a execução das leis que, para sempre”, tinham abolido no Império do Brasil a Sociedade de Jesus. Vasconcelos foi secundado por Raimundo José da Cunha Matos, que dizia estarem os jesuítas voltando ao país, a convite do Gabinete, e que esses jesuítas estavam regressando disfarçados em capuchinhos e lazaristas.

Na legislatura seguinte, em 1828, depois da lei foi introduzido por Antônio Francisco de Paula e Sousa proibindo a entrada de toda as ordens religiosas estrangeiras no Império. Durante os debates em torno desse projeto ficou bem claro que o mesmo pretendia a expulsão de todas as fontes de ultramontanismo da nação, pois todos os ultramontanos eram acusados de serem “jesuítas” a fim de que: lei pombalina de 1759 pudesse ser usada contra eles. Os deputados liberais estavam prontos a deportar todos os frades estrangeiros. Paula e Sousa acusou-os de estar “perturbando a ordem estabelecida, espalhando ideias absolutas e ideias transmontanas. O Deputado Cruz Ferreira atacou os frades lazaristas do Colégio Caraça, chamando-os de “inimigos de todas as luzes do século”. O Deputado Cunha Matos alcunhou-os de muito inúteis e muito prejudiciais”. Bernardo Pereira de Vasconcelos exigiu que os frades fossem punidos por andarem disfarçados, ensinando o ultramontanismo, e acrescentou textualmente: “talvez que a pena de morte seja um tanto rigorosa; mas eu ofereceria a das galés (penas de trabalhos forçados) perpétuas”. José Lino Coutinho era mais generoso: admitiria a entrada de frades no Império, conquanto esses viessem dos Estados Unidos da América ou da Inglaterra, desses paises constitucionais” como ele os chamou, e acrescentou: “não falo desses frades irlandeses de ideias ultramontanas, nem estes que têm vindo da França, estes frades de idéias de absolutismo.

Através de VIEIRA temos a informação de que:

“Dom Romualdo Antônio de Seixas (1787-1860) Arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil, juntamente com Dom Marcos Antônio de Sousa (1771-1842) Bispo do Maranhão, gladiou contra os vários projetos anti-frades. Como podia o Brasil admitir a entrada de indivíduos de todas as religiões, perguntou Dom Marcos, e, ao mesmo tempo, proibir a entrada de clérigos católicos?”(p.37)

“O Padre Diogo Antônio Feijó, como era de se esperar, colocou-se ao lado dos liberais e contra os frades estrangeiros de ideias ultramontanas. Apresentou um projeto, secundado pelo Padre José Bento Leite Ferreira de Melo e Miguel José Reinault, pelo qual todos os frades estrangeiros residindo fora dos conventos seriam presos e mandados de volta para os mesmos” (anais da câmara, 17 de maio de 1828).

Os debates no Parlamento sobre a presença de frades estrangeiros no Brasil continuaram por muito tempo. Em face do que foi debatido na Câmara durante esse período, diríamos que o consenso entre os jansenistas, galicanos de todas as espécies e liberais, no Parlamento brasileiro, era que o ultramontanismo – representado pelas ordens religiosas estrangeiras – nāo deveria ser importado e, se já estivesse no Império, deveria ser confinado aos conventos e nunca lhe ser permitido “contaminar” o povo com “idéias absolutistas”. O Deputado baiano José Lino Coutinho expressou, em poucas palavras, o que os liberais desejavam: “O Brasil, Sr. Presidente, precisa de estrangeiros que lhe venham trazer a indústria e as artes”, disse ele, o que devemos “é dar à mocidade uma educação de verdadeiros católicos mais livres de preconceitos; devemos ensinar-lhes a religião de Jesus Cristo e não a hipocrisia”(Ibid) Por essa razão, Coutinho se opunha à importação de frades e exigia outro tipo de imigração para o Brasil.

Julgando pelo restante deste estudo, a história do Brasil, a começar desse período (1828), presenciou uma luta contínua, por parte dos ultramontanos, para conquistarem o poder e estabelecerem seu controle sobre a Igreja Brasileira, luta esta que, no final, eles venceram. Essa luta, deve ser reiterado, não ocorreu apenas no Brasil. A mesma em toda a América Latina e na Europa sob a liderança do Papa Pio IX.

No Brasil, o ultramontanismo quase que totalmente conquistou o poder sob Igreja. Essa vitória foi em parte alcançada quando os bispos conseguiram o direito de suspender qualquer clérigo “ex-informata conscientia” (Decreto nº 1.911 de 28 de março de 1857), sem que o clérigo afetado pudesse apelar para a Coroa, bem como quando obtiveram o controle dos Seminários, O Imperador inadvertidamente auxiliara o ultramtanismo. Como seu desejo de obter para o país um clero mais bem educado, mandou para a Europa um grande número de seminaristas brasileiros que absorveram ideias ultramontanas nos seminários da França e da Itália. Ao voltarem ao Brasil, esses jovens em pouco tempo conquistaram posições de liderança dentro da Igreja. Muitos deles chegaram a bispo em pouco tempo. A verdade é que, pelos idos do Primeiro Concílio do Vaticano (1869-1870), todos os bispos brasileiros e seus colegas latino-americanos (48 ao todo) eram ultramontanos e se juntaram à maioria que defendeu o projeto que estabelecia infalibilidade do Papa., Já em 1870, os ultramontanos dominavam o clero brasileiro, tendo, de há muito, suplantado o jansenismo e o catolicismo liberal de todos os tipos.

De certo modo o presente estudo tenta documentar e analisar a grande porfia que houve entre os ultramontanos brasileiros e os liberais de toda a sorte de 1850 a 1875. Nessa luta, o Partido liberal, com o auxílio de conservadores galicanos, tentou manter o controle da Igreja que, cada vez mais, se tornava ultramontana. Do outro lado, enquanto lutavam contra os ultramontanos, esses mesmos políticos procuravam implementar uma legislação que protegesse os direitos dos imigrantes heterodoxos, bem como legislação desse tipo, anatematizados por Pio IX no seu “Sílabo dos Erros”. A presença do liberalismo nessa luta, não pode ser ignorada.

 
 
 
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