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A FACE QUE MAIS SE ASSEMELHA À DE CRISTO

Na linguagem do novo testamento, o substantivo Face tornou-se quase um termo técnico para designar uma pessoa. Esse termo já aparece na história da criação, em que, de acordo com a tradução grega. “Formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou-lhe na Face [prosopon] o fôlego da vida, e o homem tornou-se alma vivente” (Genesis 2,7). Em toda linguagem bíblica, e até mesmo nas linguagens modernas, “face a face” é um modo de dizer de pessoa para pessoa (santo Atanásio, orações contra os Arianos). a benção que Arão foi instruído a pronunciar para o povo de Israel empregava esse termo vocábulo na acepção de Deus: “o Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti. O senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz”. Mas o Deus de Israel, ao contrário de todos os Ídolos pagãos, não possui a forma nem rosto para resplandecer sobre ninguém, ir a atribuição antropomórfica de uma Face (ou rosto) a Deus poderia apenas se referir à relação especial consolidada pelo pacto entre ele e o povo de Israel. Quando o Novo Testamento procura afirmar a continuidade desse pacto, ao mesmo tempo que o estende para Além do povo de Israel, ele relata como “Deus, que disse das Trevas resplandecesse a luz, I can’t resplandeceu em nossos corações para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo”. Portanto, a face de Jesus Cristo era encarada como a divina resposta à oração do Salmo “Quando disseste: “meu coração diz a teu respeito: procura sua face”(Salmo 27/28, 8). Assim, considerar Maria como mediadora parecia uma extensão válida desse conceito. São Bernardo de Claraval e Dante Alighieri afirmar o que através da face da Virgem Maria se poderia ver a de Jesus Cristo, através de quem é o rosto de Deus se tornaria visível.

VISÕES DA VIRGEM MARIA

O suporte bíblico para as aparições da Virgem Maria nos tempos antigos e modernos foi derivado da proeminência das visões nas experiências religiosas e revelações pessoais descritas no velho testamento. foi por meio de Visões e revelações do Altíssimo que Abraão recebeu a promessa, aterrorizante ordem para sacrificar seu filho Isaque e, finalmente, o comando: “não estendas a mão contra o menino!”. A visão da sarça ardente que não se consumia fornecer o cenário para o arrebatado texto da Auto revelação de Deus eu sou aquele que é” (Êxodo 3, 2-14). De modo semelhante relatou o profeta Isaías: “No ano em que faleceu o Rei Uzias, vi o Senhor assentado sobre um Trono alto e elevado” (Isaías 6,1), uma visão sinistra foi-me revelada (Isaías 21, 2). outros profetas de Israel também experimentaram visões no início de suas carreiras proféticas(Amós 1,1; Obadias 1; Neemias 1,1). Com Ezequiel e Daniel, as aparições, assim como suas interpretações, comunicados ao povo ou seus governantes, se tornaram os temas centrais e decisivos de suas profecias apocalípticas (Ezequiel 11, 24; 12, 27; 37 2, 47, 1; Daniel 8,1). Poder-se-ia esperar que isso tudo terminasse com o Novo Testamento, pois este enfatizava a finalidade e a singularidade da revelação de Jesus Cristo, da qual resultou o prefeito repetido pelos profetas: “e veio a palavra do senhor”, frase utilizada por João Batista em que na verdade não mais seria necessária porque a palavra do senhor se fizer a carne, e “todos os profetas e a Lei profetizaram até João” (Lucas 3,2; João 1, 14; Mateus 11,13). Contudo, talvez de modo até surpreendente, as visões que haviam se iniciado no velho testamento não cessarão no novo. De fato, o apóstolo Pedro aparece no Livro dos Atos citando a profecia de Joel com Se ela estivesse sendo cumprida naqueles dias, em sua geração: “sucederá nos últimos dias, diz Deus, que derramarei do meu espírito sobre toda carne, vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões e vossos velhos sonharão. Confira Joel 2,8. No mesmo livro do Novo Testamento, relata-se como Pedro necessitou de uma visão de alimentos impuros e proibidos para Se Curar de sua subserviência e as leis kosher (Atos 10, 9-16). Na estrada que levava a Damasco, Paulo, colega apostólico e algumas vezes adversário de Pedro, teve uma visão de Jesus Cristo que o lançou ao chão, o chegou e o converteu Ao caminho dos cristãos a quem ele perseguia, uma visão que foi seguida de outras por ele acatadas; segundo suas próprias palavras, não fui desobediente à visão celestial (atos 16, 9; 18, 9-10; 26,19).

Segundo os Evangelhos, o próprio Jesus Cristo teve visões Celestiais e viu Satanás, como um raio, cair do céu (Lucas 10, 18). Durante sua agonia no Jardim do Getsêmani, apareceu um anjo que o confortável por causa da Paixão e da Morte que suportaria (Lucas 22 43). as visões da Virgem Maria sobre o nascimento de Jesus Cristo são as que possuem significado mais relevante para nós. A mais importante foi a anunciação, porém as outras também apresentam grande interesse. Foi por uma visão em um sonho que José foi dissuadido de deixá-la secretamente quando descobriu que Maria estava grávida do Menino Jesus; por outra visão ele foi avisado do plano de Herodes contra a criança que havia Nascido Para ser Rei dos Judeus e decidiu levá-lo com sua mãe para o Egito; foi ainda por outra visão que ele recebeu o aviso de que já era seguro voltar do Egito com Jesus e Maria, e dirigiu-se para Nazaré Mateus 1, 20; 2, 12- 19).

Porém, o mais abrangente conjunto de visões do novo testamento é, de longe, o que aparece no último livro canônico, com frequência considerado o último a ser escrito, o livro do apocalipse. O apocalipse de João, atribuído ao Evangelista João. Depois te completado todo o Panorama de suas visões, O Profeta do Apocalipse vira não apenas alguém semelhante ao filho do homem (Apocalipse 1, 13), mas anjos, bestas e cidades celestiais, todos marchando numa dramática procissão diante da tela de seu estático e arrebatado olhar. Lê-se o seguinte, aproximadamente a meio caminho de suas visões) “ensinar o grandioso apareceu no céu: uma mulher vestida com o sol, Tendo a Lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”(Apocalipse 12, 1). Concordando ou não em se referir à Virgem Maria, Essa visão concordava também com o modo de pensar e falar sobre Maria no início da igreja e da idade média — não apenas no Oriente como também no ocidente — que ficou claro como aquela visão poderia perfeitamente servir aos propósitos da interpretação sobre Maria, pois simbolizava a mulher que fora mãe do Messias, uma vez que o interesse pelo culto à Maria se desenvolveu Apenas Mais tarde na comunidade cristã. Finalmente, quando o livro do Apocalipse foi considerado o quarto evangelho, juntamente com o Evangelho de Lucas, as imagens da Virgem como a mulher ao pé da cruz e a que deu à luz o Messias se reforçaram mutuamente . É interessante lembrar que alguns séculos mais tarde, por um processo semelhante, alguns descendentes da reforma protestante também não tiveram escrúpulos identificar o Anjo tendo um Evangelho Eterno para proclamar do livro do apocalipse com a pessoa e o ministério de Martinho Lutero (Apocalipse 14, 6-7.

 
 
 

• FILHA DE SIÃO E CUMPRIMENTO DA PROFECIA

• Vamos fazer um pequeno estudo sobre a Virgem Maria e, utilizando a técnica dos antigos erutidos, que consideravam que o Novo Testamento se ocultava no antigo testamento e o Antigo Testamento no Novo. Podemos verificar que o leitor dos Evangelhos, antes de tudo, se surpreende por encontrar tão pouca informação acerca de Maria. Mas um pesquisador da Bíblia não poderia ler apenas os quatro Evangelhos ou o Novo Testamento, na íntegra, em busca de conhecimentos referentes a Maria. De fato, antes de haver os quatro Evangelhos, ou mesmo todo o Novo Testamento, já existiam as Escrituras, que os cristãos terminaram por denominar antigo testamento e que, pela importância tipológica e alegórica, pelas profecias e seu comprimento, somos obrigados a chamar “Escrituras cristãs”. A história do estudo sobre Maria dentro da igreja católica Romana diz respeito de como o papel de Maria foi anunciado em certas passagens do velho Testamento, fundamentado no princípio de que, enquanto Deus criava condições para seu filho assumir o papel que lhe fora destinado na história de Israel, também preparava o caminho para sua mãe. Assim, a história do desenvolvimento da interpretação bíblica nas primeiras igrejas igualmente evidencia que foram analisadas as predições sobre Maria no velho testamento, não só com relação ao culto de Maria na igreja católica, mas também na tradição patrística do oriente e do ocidente. Grande parte do que foi escrito sobre o testemunho do novo testamento e que já foi analisado no primeiro texto sobre o desenvolvimento da doutrina da virgindade Perpétua poderia facilmente ser considerado neste e, como naquele texto, a atenção requerida pelo material bíblico é bastante diversificada.

• A importância das provas bíblicas são importantes não possui o contraste contradição subsequente, mas exatamente por sua anterioridade a essa tradição. Ou colocando de modo diferente e mais preciso, as evidências bíblicas tornam-se mais interessantes quando estudamos a luz de sua posterior utilização pela tradição. Análise racional das características das provas bíblicas pode ser iniciada com a frase do evangelho que descreve a Natividade: ” Da casa e família de Davi” (Lucas 2,4). Como está escrito no Evangelho, essa frase se refere a José, e não a Maria, cuja linhagem não foi traçada na genealogia dos Evangelhos de Mateus e de Lucas ( Mateus 1, 1-17; Lucas 3, 23-38). Mas foram esses dois Evangelhos que fizeram questão de enfatizar a concepção virginal de Jesus e, portanto, nos levaram à conclusão de que José era apenas o suposto pai de Jesus, “aquele que cuidava” ( Lucas 3,23), embora o posicionamento dos Evangelistas não esteja bem claro. Se, na linguagem dos Evangelhos, a expressão “da casa e da família de Davi” era uma forma de afirmar a continuidade da linhagem de Jesus Cristo quanto a Israel e a sequência de parentesco com seu celebrado ancestral, então sua descendência de Davi só poderia ser compreendida por meio de seu único progenitor humano, Maria, que nesse caso também deveria ser “da casa e família de Davi”. Esse raciocínio justificou o hábito de pesquisar as épocas posteriores e anteriores à do novo testamento, investigando as escrituras de Israel à procura de profecias, paralelos, tópicos de conexões que enriquecem o minúsculo Face de dados fornecidos pelos Evangelhos. Essas pesquisas abrangerão Míriam, irmã de Moisés, por causa de seu nome, a mãe Eva e também todas as personalidades femininas, Principalmente as encontradas nos escritos do Rei Salomão, sobretudo a figura da sabedoria do capítulo 8 do Livro dos Provérbios, além dos Livros deuterocanônicos. Além da figura da sabedoria descritq por Salomão (o substantivo sabedoria é feminino, como Chokmah em hebraico, Sophia em grego, Sapientia em latim e Premudrost em russo), foi analisada a noiva do Cântico dos Cânticos, o mais longo e generoso retrato de uma mulher em toda a Bíblia. O processo de apropriação desse material para justificar o culto a Maria e a doutrina Marista, que pode ser descrito como uma metodologia de amplificação, de certo modo foi parte de um processo muito mais amplo de interpretação alegórica e figurativa da Bíblia, ao qual devemos alguns dos mais belos e criativos comentários de toda a cultura medieval e bizantina, não apenas em palavras mas também imagens. Houve, por outro lado, quase contrariando a intenção dos estudiosos, uma poderosa firmação de que Maria, de acordo com o raciocínio resumido anteriormente, era da casa e da família de Davi e, portanto, representava um elo inquebrantável entre a história Judaica e o cristianismo, entre o primeiro pacto, dentro do qual ela nasceu, e o segundo pacto, pelo qual ela deu à luz, de modo que até os mais virulentos cristãos anti-semitas não poderiam negar que ela, a mais abençoada entre as mulheres, era uma judia. Sem nenhuma ligação explícita com a Virgem Maria, O Retrato de uma mulher grávida elevada aos céus, pintado por Marc Chagall, não consegue esconder essa lembrança.

• A MADONA NEGRA

• Um dos mais impressionantes resultados da interpretação sobre da mariologia do velho testamento que estamos expondo, foi a identificação DA exuberante imagem da noiva door Grant County Schools Chrome Maria [sou morena mas formosa, cânticos dos cânticos 1,5] foram praticamente suas primeiras palavras no Cântico dos Cânticos, e Delas nasceu a justificativa bíblica para muitos retratos de Maria que, afastando-se de sua representação convencional como italiana ou do norte da Europa, favoreciam a Madona Negra. Do modo como está escrito, esta afirmação parece evidenciar um difundido senso de impossibilidade de a negritude conviver com a beleza. Mas, podemos fazer um comentário conclusivo acerca do Cântico dos Cânticos, do ponto de vista linguístico podemos entender que a palavra morena também pode ser vista como Negra, e a frase “mas bela” podemos entender “e bela” — são conclusões de algumas linguistas, seria essa a tradução correta desse verso escrito em hebraico e também preservado em grego na Septuaginta: Melanina eimi Kai Kali. A conjunção gramatical, naturalmente, era menos importante que a conexão substantiva. Se, como estou expondo neste texto, a história da Interpretação da Bíblia não está restrita a tratamentos de sermões, mas também costuma ser assunto das Artes e da vida diária de milhares de pessoas, como a Madona Negra Czestochowa e Guadalupe (“Lá Moreira — A moreninha”)” demonstraram mais eloquente que quaisquer livros, a intuição exegética provou que, independentemente da tradução, a Virgem realmente era Negra e Bela. Isso também a tornou uma embaixatriz especial para vasta maioria da raça humana que não era branca.

 
 
 

O DESENVOLVIMENTO DA DOUTRINA DA VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA • (Parte III) • Para finalizar essa sequência de três textos sobre o papel da virgindade perpétua da Virgem Maria, vamos começar pelo evangelho segundo Lucas, que narra logo nos primeiros capítulos: a anunciação do nascimento de Jesus (pintada por Jan Van Eyck em “A Anunciação” 1434-1436, da qual a figura de Gabriel está reproduzida em diversos outros artistas); a visitação de Maria a sua prima Isabel (mãe de João Batista), incluindo o magnificat; a chegada dos pastores (Mateus é o único a relatar a presença dos magos); e a apresentação do Menino Jesus ao templo, com o Nunc Dimittis de Simeão: “Agora, Senhor, despede em paz o teu servo”. •Tão dominante era a personagem de Maria na narrativa do nascimento de Jesus Cristo escrita por Lucas, que alguns leitores da antiguidade chegaram a se perguntar de onde vinham todos aqueles detalhes, pois não apareciam em outros relatos, o Evangelho de Lucas se inicia com palavras que alguns padres da igreja consideraram uma explicação: “Visto que muitos já tentaram compor uma narração dos fatos que se cumpriram entre nós, conforme no-los transmitiram os que desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, a mim pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado, ilustre Teófilo, para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebestes”(Lc 1, 1- 4). Como era habitual os historiadores estudarem a estrutura e o conteúdo dos Evangelhos, essas palavras introdutórias marcaram Lucas como o historiador dentre os Evangelistas. Ao falar de si mesmo, ele usou a palavra grega parekolouthekoti, significando que fizera pesquisas históricas, mais ou menos como seus colegas historiadores dos dias de hoje. As fontes usadas nessa pesquisa em parte eram escritas e incluíram “os muitos que empreenderam a narração dos fatos que entre nós se cumpriram”, aparentemente envolvendo outros escritores além dos autores nas páginas do novo testamento. Mas as fontes explicitamente abrangiam “testemunhas oculares e ministros da palavra”, pois Lucas não pertencera aos doze discípulos e testemunhas originais e nem mesmo fora discípulo de um deles. Porém, de acordo com a tradição, ele fora aluno e “médico amado” do apóstolo Paulo, que “nascera fora do tempo” e chegara por último ao grupo dos apóstolos. Quando Lucas empreendeu sua pesquisa para narrar a história desde o princípio, como afirma os dois primeiros Capítulos de seu evangelho, quem teriam sido suas “testemunhas oculares de ministros da palavra”? A quem ele teria se dirigido para conhecer o que hoje denominamos “a história oral” desses antigos acontecimentos? Nesses capítulos, a exposição da história, escrita da perspectiva da Virgem Maria, parece deixar implícito que ela se constituíra na principal fonte de informações entre as testemunhas originais e os seguidores do Evangelho. Além disso, pelo fato de Lucas ser gentio e tanto em seu evangelho como o Livro dos Atos, empregar um grego mais próximo dos padrões de Atenas que o escrito em qualquer outra passagem do novo testamento — seus textos, Na verdade, não soam como traduções —, essa qualidade não se faz presente nesses capítulos, que sob alguns aspectos, realmente parecem ter sido traduzidos de um original escrito em hebraico (ou aramaico). Esse raciocínio levou os primeiros escritores cristãos a considerarem os capítulos iniciais do Evangelho de Lucas Memórias da Virgem Maria. ponto de vista não recomendável para um estudo crítico-histórico dos Evangelhos. Surgiu até uma tradição de que Lucas teria sido o primeiro pintor de ícones cristãos, e o tema de Lucas pintando o ícone da Virgem Maria, tornou-se clássico.

• MATER DOLOROSA

• O credo dos Apóstolos e o credo Niceno, em suas resumidas confissões sobre Jesus como o filho de Deus, passamos diretamente do nascimento de Cristo, da Virgem Maria, ao seu sofrimento sob Pôncio Pilatos, sem ao menos mencionar seus ensinamentos, seus milagres e seus apóstolos. Ambos, a exemplo dos Evangelhos, enfatizam seu sofrimento e Crucificação (e até ampliavam esta ênfase). Os Evangelhos, cada qual a sua maneira, passam de incidentes individuais e rápidos lampejos da narrativa até a descrição extremamente bem detalhada da história da paixão e morte de Cristo e seu desenvolvimento diário, muitas vezes acompanhando os acontecimentos como se desenrolam de hora em hora. Sob a perspectiva da história posterior da interpretação desses textos, as diferenças dos relatos da paixão são bem ilustradas pelas “sete palavras proferidas na cruz”.

• Com respeito a essas sete palavras, foi João quem forneceu a narrativa de maior relevância direta para nós “mulher, eis teu filho, eis tua mãe!”. Do ponto de vista da pregação, ou mesmo teologicamente, a frase “Eis teu o filho” poderia facilmente ser interpretada como a entrega aos cuidados maternais de Maria não apenas do “discípulo que Jesus amava” — “identificado pela tradição e pelos atuais estudiosos como João, o evangelista”, mas de todos os discípulos que Jesus Amou em todas as fases da história e por extensão, de toda a igreja do passado e do presente. como Orígenes de Alexandria já afirmava no primeiro terço do século III, “ninguém poderia aprender o significado do Evangelho de João, exceto se tivesse reclinado sua cabeça no Peito de Jesus e também dele recebido Maria como mãe, mas esse não é o caso de todos, pois aquele que é perfeito e não mais vive em si mesmo permite que Cristo viva em si; e se Cristo nele habita, então foi dito dele a Maria: Eis o teu filho Cristo”. Essa cena também inflamou a imaginação Cristã do modo mais pungente, pois como na cena da Anunciação no início da vida de Cristo, ela parecia abrir uma janela para a vida interior da Virgem. Do início da vida de Cristo também é a profecia que seria considerada como a causa de tanta exploração sobre o assunto da subjetividade da Virgem, revelação cumprida quando ela se encontrou aos Pés da Cruz, como Mater Dei: “E a ti, uma espada traspassará tua alma! (Lucas 235)”.

• MODELO DE FÉ NO MUNDO DE DEUS • Quando a Epístola aos Hebreus, ao citar os santos de toda a história de Israel, enumera as transformações sofridas por todos eles, “dos quais o mundo não era Digno”, cada nome vem precedido das palavras: “pela fé”. Mas antes dessas citações o apóstolo nos dá a seguinte definição: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem” e quando na epístola aos Romanos ele afirma que “a fé vem pela pregação [akoe], e o ouvir e a pregação é pela palavra de Cristo” (Romanos 10,17), iniciando e encerrando a sua mensagem com a identificação da “Fé” com a obediência [hypakoe], sintetizando a conexão entre obediência e fé e entre a Fé e a palavra de Deus, ela é especialmente eloquente ao se referir aos profetas hebreus e aos ensinamentos de Jesus. As divergências entre as várias declarações, tão importantes para a reforma protestante — Como, por exemplo: “O homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei” e, na Epístola de Tiago: “Porquanto nós sustentamos que o homem é justificado pela fé, sem a prática da Lei <> não foi pelas obras que nosso Pai Abraão foi justificado ao oferecer seu filho Isaac sobre o altar? Já vês que a fé concorreu para as suas obras e que pelas obras é que a fé se realizou plenamente” (Romanos 3 28,4:1; Tiago 2,21-23) — foram fatores que frustraram as tentativas posteriores de conciliação, especialmente durante a reforma. Porém, essas diferenças não prejudicam a importância fundamental da fé na mensagem global do novo testamento nem a centralidade da palavra de Deus na doutrina.

• Uma figura histórica que desempenhou um papel importante nos livros do novo testamento — Hebreus, romanos e Thiago — Foi Abraão. De acordo com os três livros, ele é o pai de todos os que creem, como afirma a Epístola aos Romanos. Mas, se o leitor pensar em uma mãe de todos os que creem, a primeira pessoa que nos vêm à memória é Maria, assim como Eva, no livro do Gênesis, foi considerada a mãe de todos os viventes. O principal ponto que qualificaria Maria para esse título está em sua resposta o Anjo Gabriel e, por meio do anjo, a Deus, de quem Gabriel era mensageiro: “faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lucas 1,38). Sem mencionar explicitamente a palavra “fé”, suas palavras identificaram a fé com a obediência, e a descrição de sua obediência à palavra de Deus fez dela um modelo de fé. De fato, começando com Maria e recuando na história de Israel, podemos distinguir uma lista de mulheres santas — Sara, Ester, Rute e muitas outras —, das quais ela é um exemplar, do mesmo modo, seria possível começar com Maria e reproduzir uma relação semelhante das mulheres santas da era do novo testamento. Pela ênfase dada à fé, essa lista podemos traçar com as nossas primeiras Mártires, entre elas podemos citar algumas dessas mulheres começando com um dos mais célebres martírios, o de Santa Cecília no ano 178, mulher que pertencia a uma das mais nobres e ricas famílias de Roma, Cecília fora prometida em casamento a Valeriano, mas Cecília tinha-se prometida a Deus somente. E a atitude e as palavras de Cecília invadem a alma de Valeriano que se converte imediatamente e logo depois seu irmão Tibúrcio. Ela é martirizada após o martírio de seu marido Valeriano e de seu cunhado Tibúrcio, teve sua cabeça decepada, em 1599 foi descoberto debaixo de uma placa assinalada com o seu nome, de um corpo de mulher decapitada (em 1905, foi descoberto debaixo da igreja de Santa Cecília no Trastevere, de um caldarium e de alguns mármores antigos, um dos quais tem o nome da Santa, parecem confirmar o essencial do relato maravilhoso). E poderíamos falar de centenas de mulheres que doaram suas vidas para fazer germinar o evangelho, algumas já tive a oportunidade de fornecer os detalhes de suas histórias e Martírios, como Águeda de Catânia, perpétua, felicidade, Santa Filomena, mas ainda há ao longo da história uma multidão de mulheres que amaram o Senhor Jesus Cristo mais do que suas próprias vidas.

• MULHER PARA TODAS AS ÉPOCAS • Santo Inácio de Antioquia nos orienta à partir do final do primeiro século e início do segundo Século: “Fechado os ouvidos a quem vos fale sem confessar que Jesus Cristo, descendente de Davi, nasceu da Virgem Maria”; e na sua Epístola aos Efésios, tem estas palavras profundas: “O Príncipe deste mundo ignora a virgindade de Maria, o seu parto e a morte do Senhor, três mistérios retumbantes, realizados no silêncio de Deus”.

• Alguns podem se perguntar se a Igreja Primitiva tinha uma concepção do casamento como um mal, mas temos que verificar à questão do casamento e da vida sexual no contexto histórico da época. O divórcio e o celibato minam os alicerces da família, e a escravidão, pela facilidade com que põe à disposição dos senhores as mulheres, era por toda a parte um agente de desmoralização. A condição normal do cristão é ser casado, São Paulo estabelecera com justeza os princípios do casamento dos fiéis. A Igreja nunca rejeitou o casamento, como sempre condenou os hereges que condenam o casamento: “Mostremos, exclama Tertuliano, mostremos a felicidade do casamento, que a Igreja recebe, que a oblação confirma, que a benção sela, que os anjos reconhecem e que o pai ratifica”. Não foi o próprio Cristo que ordenou aos esposos que fossem “uma só carne” e que nunca se separassem? O divórcio é, pois, inadmissível segundo a visão cristã, e o celibato só é compreensível se tiver em vista uma realização mais alta, uma união mística com a pureza absoluta. A concepção cristã da virgindade liga-se a esse mesmo ideal. Muito antes da aparição do monarquismo, há na Igreja homens e mulheres que renunciam ao casamento para se entregarem a Deus. Era um costume que já fora posto em prática em Israel pelos nazarenos e pelos essênios. No cristianismo Primitivo, as mulheres virgens são mais numerosas que os homens, porque aqueles que queriam consagrar a sua existência ao Senhor, faziam-nos Sacerdotes. Desde os primeiros tempos, como por exemplo em Antioquia na época de Santo Inácio, as virgens formam um grupo à parte, muito venerado na Igreja. São Cipriano denominá-las “a coroa da Igreja”, e Orígenes exclamara: “um corpo imaculado, eis a hóstia viva agradável ao Senhor!”. Fala-se da virgindade como um verdadeiro substituto do martírio, abundante em graças, e quando o concílio hispânico de Elvira, por volta do ano 300, declara excomungadas as virgens cristãs que tenham violado os seus votos, não faz senão homologar um uso corrente. É nessa concepção da virgindade, virtude superior e união com Cristo, que devemos ver a origem do celibato dos sacerdotes, que os Apóstolos e os primeiros discípulos não tinham posto em prática e que só veio a se estabelecer lentamente, a Igreja vê nessas virtudes a perfeição da imitação de Cristo. E Maria como um ser totalmente humano é um grande modelo de virtude que será seguida por milhões de mulheres através dos séculos.

• Vimos uma pequena lista que evidentemente, deve constar todas as mulheres que ao longo dos séculos fizeram da Virgem Maria um objeto de devoção e um modelo de vida dedicada a Deus. A seguinte predição foi feita por Maria: “Sim, doravante as gerações todas me chamarão Bem-Aventurada” (Lucas 1, 48). Esta é uma das poucas passagens do novo testamento que parecem prever um longo período de muitas gerações, a exemplo da profecia de Cristo: “Em verdade vos digo que, onde quer que venha a ser proclamado o Evangelho, em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória” (Mateus 26 13).

• A alegria com a qual as sucessivas gerações lhe atribuíram o título de “Santa” não variou muito através dos séculos, em todas as épocas, fica evidente o êxito e a importância alcançada pela bem-aventurança de Maria, tanto entre os homens quanto entre as mulheres, nas mais variadas situações. E na verdade, isso realmente fez dela uma mulher para todas as Épocas.

Bibliografia: PELIKAN, Jaroslav, Maria através dos séculos/ seu papel na História da cultura: São Paulo, companhia das Letras, 200

 
 
 
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Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

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