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A assombrosa história do metropolita russo que conseguiu a união com Roma e que o Tzar encarcerou

O encontro em Cuba entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill da Igreja Ortodoxa Russa é histórico e emocionante, e dá lugar a rever os esforços para unir as Igrejas do Oriente e do Ocidente, e conhecer a uns de seus grandes promotores: Isidoro de Kiev, que foi metropolita ortodoxo da Rússia no séc.XV, chegou a ser cardeal e foi testemunha da Queda de Constantinopla ( onde os turcos lhe fizeram prisioneiro e quase o matam ).

O primeiro encontro Moscou-Roma foi em 1438

Não é correto, como dizem alguns meios, que o encontro de Kirill com Francisco seja o primeiro encontro entre um Papa de Roma e um metropolita (arcebispo) de Moscou. Em 15 de agosto de 1438 chegou à Ferrara (Itália) procedente da Rússia, Isidoro, metropolita de Kiev e Moscou, enviado pelo Tzar Basílio II. Depois de uma viagem de 11 meses, pôde assim participar do concilio de Florença-Ferrara, presidido pelo Papa Eugênio IV e o Patriarca de Constantinopla. Neste concílio estavam plenamente representadas as Igrejas ortodoxas e orientais, e inclusive estava presente em pessoa o Imperador bizantino João VIII , o Paleólogo.

Isidoro não era russo, mas grego. Nascido em Salônica, e levava apenas um ano no cargo de Metropolita de Kiev e Moscou. Era um humanista, intelectual e entusiasta da missão de unir as Igrejas do Oriente e do Ocidente, divididas desde o cisma do séc .XI (que a Rússia chegou mais tarde, como explicamos aqui ¹ ) O imperador bizantino João VIII já havia empregado antes Isidoro como embaixador no Concilio de Basiléia em 1434.

Bizâncio muito fraca: umas poucas cidades rodeadas por turcos

Nesta época, tanto a corte imperial bizantina como o Patriarcado ortodoxo de Constantinopla tinham claro que o Império Bizantino estava rodeado e encurralado pelos turcos otomanos, que controlavam tanto os Balcãs como a Anatólia. Sérvia e Bulgária eram vassalos turcos e os otomanos haviam conquistado Salônica, a cidade natal de Isidoro.

O Império nessa época se reduzia a cidade de Constantinopla, algumas ilhas do Egeu, algum território no sul da Grécia e algumas cidades mais costeira. Havia clérigos ortodoxos fanáticos que preferiam aos turcos antes que a Roma, mas o imperador, o Patriarca e muitos mais, como Isidoro, queriam alcançar a reunificação das Igrejas e forçar o envio de ajudas da Europa para Bizâncio.

O Concilio que reuniu a latinos e ortodoxos

O Concílio cumpria todas as condições de um Concílio Ecumênico. O patriarca de Constantinopla esteve em pessoa, e o de Antioquia, o de Alexandria e o de Jerusalém, bloqueados pelos turcos, enviaram seus representantes com poder de decisão. O Patriarca de Constantinopla caiu enfermo mas fez ler um texto decretando o valor universal do Concílio e indicando que quem se negasse a submeter-se as suas decisões seria excomungado.

Desde um ponto de vista teológico ficou claro que as discrepâncias entre latinos e ortodoxos eram absolutamente menores, basicamente de linguagem e de detalhes rituais. Todos os choques teológicos se resolveram com boa vontade por ambas as partes.

Assim, os delegados latinos e os orientais aprovaram a bula Laetentur caeli, de 6 de julho de 1439, promulgando a união das igrejas grega e latina. ( Os textos em espanhol desta bula com os gregos e as seguintes com outras igrejas orientais se podem ler aquí ². )

O Filioque, o purgatório, o pão da missa… temas resolvidos

Gregos e latinos, como iguais, discutiram livremente. “Os latinos admitiram a correção do modo dos gregos de expressar a procedência do Espírito Santo e, consequentemente, já não exigiam que aceitassem a fórmula latina do dogma, senão sua essência. Os gregos aceitaram a legalidade da inclusão do Filioque no Credo mas a condição -concedida de bom grado- de que aquele acréscimo não se consideraria obrigatório para eles. A questão do pão com ou sem levedura, sem grandes dificuldades foi apagada da pauta graças a boa vontade de ambas as partes. Cada parte aceitou o uso de ambas tradições como possível. Sobre a questão do purgatório também foi alcançado o consenso ao aceitar que bastava a unidade fáctica no principal e que não era necessário insistir na forma da expressão” (Wilhelm de Fris. Ortodoxia y Catolicismo. Bruselas, 1992, p. 103-104).

Como explica a “Historia de la Iglesia Católica en Rusia” (de Stanislav Kozlov-Strutinski y Pavel Parfentiev, edição de 2014 em russo, um livro de 730 páginas), devido às circunstâncias políticas e materiais (falta de meios para seguir residindo, necessidade de regressar o quanto antes, para proteger-se dos turcos) a discussão sobre a questão principal da primazia do papa foi abreviada. No entanto , nesta questão também se chegou a um consenso: os gregos admitiram o direito supremo do Papa ao governo de toda a Igreja, conservando os direitos tradicionais e privilégios dos patriarcas do oriente.

Uma unificação aceitada e equilibrada

Os gregos que firmaram a ata da união, não a tomavam como uma aceitação do “catolicismo” e abdicação da “ortodoxia”; desde seu ponto de vista a ata constatava que a fé grega “dos Santos Padres” e a confissão latina eram a mesma doutrina, embora expressada em termos distintos.

O novo Patriarca de Constantinopla, Gregório III Mamma, favorável à união, explicava assim em uma carta ao príncipe de Kíev Alexandr Vladimirovich: “A todos os que nós excomungamos, eles também os excomungam , e aos que nós nos aferramos, eles também se aferram ”. (Popov A. Estudio histórico literario de los escritos rusos antiguos contra los latinos (ss. XI-XV), Moscú, 1875).

A ata da união foi firmada por quase todos os participantes gregos do Concílio com o beneplácito do anterior Patriarca constantinopolitano que havia iniciado as sessões (que para aquele momento havia morrido mas deixando um testamento que aprovava a união). Só o metropolita de Éfeso e o de Stavropol (que se havia ido) ficaram sem assinar.

Isidoro assinou com alegria e foi à Rússia para anunciar a unidade.

Isidoro, metropolita de Kiev e Moscou, assinou entusiasta. Enquanto os demais escreviam simplesmente a palavra “assino”, ele escreveu “ assino com amor e aprovação” (Kartashev A.V. Ensayos sobre la historia de la Iglesia Rusa, Tomo 1, Moscú, 1991).

Isidoro, um dos grandes artífices do acordo, se pôs então em direção para Moscou para anunciar a recém decretada unidade e consolidá-la nos principados russos.

Um primeiro gesto da reunificação se vê na crônica presencial “Viagem à Florença”, de autor russo. Quando descreve a viagem para Florença, aos templos ortodoxos lhes chama “igreja” e aos latinos “bozhnitsa” (casa de Deus); de igual modo, chama “bispos” aos exarcas ortodoxos e “biskups” aos latinos. Depois de firmar-se a ata, o autor passa a chamar a todos –italianos, alemães, poloneses- com a terminologia russa, assinalando-os já como algo próprio. (Biblioteca de la literatura de la Rusia antigua, T.6, San Petersburgo, 1999).

Nesta viagem de volta Isidoro se inteirou de que o Papa lhe havia nomeado cardeal (apenas há casos nessa época de cardeais de rito não latino) e lhe havia designado como seu legado para Lituânia, Galitzia (na Polônia), Letônia ( os países bálticos) e toda a Rus. Era um território quase inabarcavel.

Hoje, o nacionalismo ortodoxo russo trata de desautorizar Isidoro (que era seu legítimo metropolita e acudiu à Itália com beneplácito e gastos pagos do zar) e retirar o valor do Concílio de Ferrara-Florença (onde russos, gregos e ortodoxos em geral estavam legítimamente representados).

Nós vamos responder aos argumentos contrários à união remetendo-nos a “Historia de la Iglesia Católica en Rusia” de Stanislav Kozlov-Strutinski y Pavel Parfentiev.

As cartas de Isidoro a suas cidades

Isidoro, regressando à Rússia depois do Concílio, enviou uma mensagem a cada cidade de sua extensa zona metropolitana. Não tocava nas questões teológicas. Se autodenomina “Arcebispo de Kiev” (usando assim uma expressão latina) e proclama: “Alegrai-vos agora todos, já que a Igreja oriental e a Igreja ocidental que estiveram certo tempo divididas e contrárias uma a outra, agora se uniram com uma união verdadeira em sua unidade original e em paz, em uma unidade antiga e sem nenhuma fissura. Aceitai essa santa e mui santa unidade e união com grande alegria e honra espiritual. Rogo a todos vós em Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo que nos deu sua bondade que não tenhamos nenhuma divisão com os latinos; já que somos todos servos do Senhor Deus e Salvador nosso Jesus Cristo e em nome de Seu batismo.

Logo roga a seus fiéis não ter divisões com os latinos, aceitar mutuamente o sacramento do batismo, e o poder receber os sacramentos e celebrar nos templos de cada confissão, assim como considerar igualmente real e santa a Eucaristia, seja com o pão com levedura ou sem ele “porque assim o decidiu em sua solene reunião o concílio Universal na cidade de Florença” (Floria B. N. Investigaciones de la historia de la Iglesia. Medioevo ruso antiguo y eslavo. Moscú, 2007).

O povo da Rússia contra Roma?

Um argumento dos ortodoxos russos mais anticatólicos (hoje e no século XVI) é que o povo da Rus ( Os senhorios eslavos orientais que logo seriam Rússia, Bielorrússia e Ucrânia) não queriam essa união. Mas isso é confundir a Rus com Moscou e seus arredores.

As fontes históricas, especialmente as mais primárias, não tocadas pela influência moscovita, mostram que a união foi recebida com alegria ao menos no grão Principado de Tver (vizinho e rival do de Moscou, e por isso sempre com um braço estendido para a Polônia). Também foi bem recebida, com alegria, na Rus de Lituânia.

Sabemos ademais que atravessando Hungria, Polônia e Lituânia, Isidoro percorreu distintas dioceses de seu enorme território metropolitano. De cidade em cidade ia celebrando a Eucaristia mencionando nela ao Papa Eugênio IV e nenhum prelado de rito oriental nem nenhum príncipe local se indignou por isso nem lhe negou autoridade metropolitana a Isidoro.

Quando chega em 1441 a Kiev, o príncipe Alexandr Vladimirovich –registram as crônicas- entregou a “seu Pai Isidoro, metropolita de Kiev e de toda a Rus” um escrito especial confirmando seus direitos fiscais e jurídicos como metropolita.

O Tzar de Moscou impediu a união eficaz

Assim, na Polônia, na Lituânia, en Kiev, em Tver… por todas as partes as comunidades ortodoxas aceitavam a seu metropolita e a união com os cristãos latinos… até que Isidoro chegou a Moscou.

Chegou na Páscoa de 1441 e proclamou a união das duas Igrejas na Catedral da Dormição do Kremlin de Moscou ( A mesma que podem visitar hoje os turistas). Em sua primeira Divina Liturgia ali levava um crucifixo de rito latino à frente da procissão e nomeou o papa Eugenio IV durante as rezas da liturgia. Também leu em voz alta o decreto de unificação. Era o mesmo que havia feito em muitas outras cidades, mas na solenidade de Páscoa. Lhe entregou ao Tzar moscovita, Basilio II, uma mensagem do Papa, pedindo que ajudasse o metropolita a trabalhar pela união dos cristãos na Rússia.

Três dias depois, o Tzar Basílio II se assegurou de que 6 bispos se reunissem em um apressado sínodo local e depuseram Isidoro, o metropolita oficial, designado com apoio de Constantinopla para toda a Rus. Foi um caso direto de ingerência do poder político na organização eclesial. Se pode dizer também que o príncipe moscovita impunha assim sua vontade contrária à união sobre muitos outros povos da Rus que não a combatiam.

Encarceraram Isidoro no Monastério Chúdov, exigindo-lhe que renunciasse a união com Roma, coisa que se negou a fazer. Esteve preso até setembro de 1443, dois anos, quando pôde escapar ao vizinho principado de Tver, e mais tarde a Lituânia e Roma. Alguém deveu favorecer sua fuga porque levou sua extensa biblioteca de humanista erudito, que cruzou a Europa e se guarda hoje no Vaticano.

Pretextos rituais para uma intervenção política

Se revisamos textos russos ortodoxos de 20 ou 30 anos posteriores a esses fatos, vemos que acusam a Isidoro de graves erros doutrinais e teológicos e heterodoxia.

Mas quando revisamos fontes mais próximas do tempo dos fatos (por exemplo, a chamada Primeira Crônica de Novgorod), vemos que a Isidoro lhe acusam em um primeiro momento de coisas absolutamente menores: orar pelo Papa, usar uma cruz latina… não lhe acusam de violar os cânones ortodoxos universais, na Grécia ou na Terra Santa, porém “os usos da terra russa”. Essas foram as desculpas minúsculas com as quais o Tzar e seus bispos dóceis encarceraram a seu metropolita, obviamente por razões políticas, e não por diferenças doutrinais sérias.

Há uma corrente de fundo que destacam Kozlov-Strutinski y Parfentiev em seu livro: na Rússia se dava uma importância exagerada a temas rituais absolutamente menores que para os ortodoxos cultos na Grécia ou em outros países não eram problemáticos. Inclusive no século XVII, a ruptura entre ortodoxos e velhos-crentes (ou vétero-ortodoxos) se baseou em temas rituais menores.

Estes dois historiadores recordam que pouco depois de romper com Isidoro “os ortodoxos russos se voltaram com reprovação contra os gregos e contra todos os cristãos não-moscovitas em geral, acusando-lhes de que sua fé está deformada por tais e quais diferenças rituais e culpando-lhes de persignar-se com os dedos equivocados e de cantar aleluia às vezes incorretas.

A versão anti-romana da história

A partir de 1458 (dezessete anos depois de encarcerar Isidoro) os textos ortodoxos começam a recolher outra versão da história. O metropolita Jonas de Moscou (dócil ao Tzar, contrário a unidade) se enfrentava com o metropolita Gregório de Lituânia (discípulo de Isidoro) e ele se encarregou de que os textos começassem a acusar Isidoro de erros teológicos. Mas no principado de Tver, segundo os documentos, se mantiveram “florentinos” (favoráveis a unidade) basicamente até essa data de 1458.

Outro dos autores de textos contra Isidoro foi Simeão de Suzdal, que de fato era seu inimigo pessoal. Este autor quer absolver os príncipes políticos da acusação de ingerência em assuntos eclesiásticos e justificar que a metrópole de Moscou fique livre (ignorando a Constantinopla), investindo as tintas contra quem devia ser seu legítimo pastor, Isidoro. E coisas que Simeão não diz, lhe são atribuídas ou “aumentadas” por quem o citam em anos posteriores.

Isidoro em Roma e Constantinopla

Isidoro, talvez o arcebispo católico com um território canônico mais extenso, já não podia governá-lo. Voltou a Roma em 1443: não havia conseguido promover a unidade. O Papa Nicolás V o enviou em 1452 a Constantinopla, com 200 soldados latinos para ajudar a defender a cidade dos turcos, que começavam seu assédio. Também tinha a missão de tentar assentar a união com o clero ortodoxo, e de fato, com os turcos às portas conseguiu reunir a 300 clérigos bizantinos para trabalhar este tema.

Enquanto isso , o colossal exército turco conquistou Constantinopla em 29 de maio de 1453, pondo fim a mil anos de Império Romano do Oriente. Das cinco grandes sedes Patriarcais do cristianismo (Jerusalém, Alexandria, Antioquia, Constantinopla e Roma) todas, menos Roma, estavam agora sob o poder muçulmanos.

Os turcos entraram na cidade causando um grande massacre. Isidoro tinha 68 anos, e é evidente que não era um homem covarde, mas tampouco tinha vontade de morrer antes de tempo. Pôs seu traje de cardeal em um cadáver: os turcos o encontraram, cortaram a cabeça do corpo e a passearam com ela pelas ruas. A Isidoro confundiram com um Zé -Ninguém e o escravizaram como a outros milhares de cativos anônimos.

Se preparou para escapar e comprar sua liberdade e poder voltar a Roma. Escreveu uma detalhada carta ao Papa explicando os horrores da queda de Bizâncio. O Papa lhe nomeou bispo de Sabina. Depois Pío II lhe honraria com títulos pomposos impossíveis de exercer em territórios turcos: Patriarca Latino de Constantinopla e arcebispo de Chipre.

Morreu em Roma em 1463, aos 78 anos, depois de sobreviver a dois cercos, viajar milhares e milhares de kilômetros, dominar vários idiomas para tentar mediar entre nações e mentalidades mui distintas e buscar a união dos cristãos incansavelmente.

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Autor: P.J.Ginés / T.Fedótova. Tradução: David Nesta. Fonte:https://www.religionenlibertad.com/movil/articulo_rel.asp?idarticulo=47712&accion=

 
 
 

O Papa e o Patriarca ortodoxo se excomungaram em 1054… e os russos não deram importância

Em 1054 o Patriarca de Constantinopla e o Papa de Roma, através de seu legado, se excomungaram mutuamente e decretaram a divisão de suas Igrejas. A excomunhão não se levantou de forma firme e solene até há exatamente 50 anos, em 7 de dezembro de 1965, quando na vigília da conclusão do Concílio Vaticano II, com uma declaração comum do Papa Paulo VI e do patriarca ecumênico Atenágoras.

A ruptura oficial de 1054 teve graves e duradouras consequências de falta de unidade que ainda prejudicam os cristãos, mas vale a pena ressaltar alguns fatos que demostram que durante vários séculos houve territórios inteiros nos quais esta “excomunhão ” apenas se aplicava: os fiéis, simplesmente, pareciam não dar-se por convencidos na Rússia, Ucrânia e os territórios de sua zona de influência.

A bula de excomunhão sobre o altar

A excomunhão mútua, encenada e protagonizada pelo Patriarca de Constantinopla Miguel Cerulário e o legado papal, o cardeal Humberto, em 1054, demorou em aplicar-se em territórios inteiros.

O cardeal Humberto deixou sobre o altar de Santa Sofia a bula de excomunhão. Depois voltou a Roma, mas vários códices sugerem que voltou passando por Kiev, onde foi recebido com respeito e cerimônias eclesiásticas. O metropolita da Rus de Kiev, ao menos nesse momento, parecia estar em total comunhão com Roma e não se dava por excomungado.

Uma ruptura que não se aplicava

Em muitas cátedras orientais não tinham nada clara a ruptura, segundo lemos na “Historia de la Iglesia Católica en Rusia” (de Stanislav Kozlov-Strutinski y Pavel Parfentiev, edição de 2014 em russo, um livro de 730 páginas).

Um exemplo é o fato de que durante o século XI e XII numerosas dinastias casavam e se davam em casamento sem impedimento algum de credo ou de ritual, as de rito latino com as de rito oriental. Os príncipes russos casavam seus filhos com príncipes e princesas de famílias polacas, húngaras e nórdicas de rito latino (suecas, norueguesas, saxãs e, em geral, varegas, ou seja , vikings das rotas fluviais russas).

O príncipe de Kiev peregrino em Roma

A ruptura demorou muito em chegar à consciência dos clérigos e príncipes da Rus. Um exemplo vemos quando Iziaslav Yaroslavich ( filho de Yaroslav , o Sábio, que casou suas dúzias de filhos e filhas com príncipes de toda Europa), herdeiro de Kiev, brigou com seus irmãos e fugiu para Polônia e depois para Alemanha buscando aliados. Dali contactou com o Imperador Henrique IV e o Papa Gregório VII.

Como qualquer outro líder católico, enviou seu filho Yaropolk ( que usava o nome cristão de Pedro) sob forma de “peregrinação à tumba dos Apóstolos “, e queria estabelecer seu principado sob a autoridade do Papa, apresentando Kiev como um presente para Pedro.

Yaropolk chegou a Roma em 1075, vinte anos depois da excomunhão, e se mostrou em tudo um devoto papista sem que ninguém lhe tratasse como um excomungado. O Papa Gregório pediu ao rei polaco Boleslav para ajudar-lhe a recuperar Kiev. Iziaslav conseguiu recuperar Kiev acompanhado de tropas varegas (vikings de terras eslavas); sua esposa era polaca e cunhou moedas dedicadas a São Pedro e construiu uma Igreja dedicada a São Pedro. Um código escrito a pedido de sua esposa (a princesa polaca Gertruda) desenha a princesa ajoelhada aos pés do apóstolo São Pedro e mostra também a Yaropolk e sua esposa orando perante o apóstolo.

Hoje em dia Yaropolk , devoto petrino e peregrino em Roma, é considerado oficialmente santo da Igreja Ortodoxa Russa. Seu pai Iziaslav era além disso grande amigo de São Teodósio das Covas de Kiev ao que visitava com freqüência. Isso é um exemplo de uma dinastia a cavalo entre Oriente e Ocidente, que não parecia dar-se por aludida pelas excomunhões mútuas.

As listas de “erros” latinos… Não falam do papado

Un detalhe interessante se dá no fato de que o mesmo Patriarca Cerulário estabeleceu e difundiu uma lista de erros dos cristãos de rito latino que se supõe que deviam indignar aos cristãos de rito grego.

Por exemplo: os latinos usavam pão sem levedura na eucaristia, comiam carne de presa estrangulada, raspavam a barba, jejuavam nos sábados e deixavam os monges comer carne!

No entanto, nas listas de Cerulário e de outros autores da primeira época da ruptura não se menciona como agravo a primazia papal, embora é evidente que conheciam as reivindicações papais sobre esta primazia. Padres da Igreja como São Leão Magno, São Teodoro Estudita e São Máximo, o Confessor — os 3 hoje são santos comuns ao oriente e o ocidente — , haviam deixado clara sua aposta pela primazia papal e durante essa época da ruptura a facção pró-Constantinopla não se atrevia a abordar o tema.

Os textos anti-latinos que se encontram na Rússia nesta época não são escritos por russos, senão por enviados gregos chegados a Rússia, que irritados pela fluidez do tratamento com o mundo latino na Rus de Kiev se sentem obrigados a escrever contra isso. Estes textos anti-latinos durante muito tempo não influíram no tratamento russo com o mundo latino, mas sim forneceram a ideia ao cristão russo comum de que todos esses temas menores ( a barba, o jejum de carne nos monges, etc…) eram importantíssimos, ideia que até hoje perdura.

Na realidade, segundo os historiadores, a ruptura da Rússia com o Ocidente latino não alcançou os séculos XV e XVI, com a passagem do poder de Kiev para Moscou e a ruptura administrativa com Constantinopla, mas com o aparecimento de um patriarcado próprio em Moscou.

O caso de São Nicolas: da Itália à Rússia !

Em 1087 em Mira, cidade grega costeira na Lícia (Anatólia), alguns marinheiros latinos arrebataram as relíquias de São Nicolau e as levaram a Bari, na Itália, e as colocaram em uma Igreja dedicada ao santo. O papa Urbano declarou uma Festa de Transladação das Relíquias de São Nicolau Taumaturgo.

É curioso que esta festa de origem papal na Rússia se recebeu, aceitou e se estendeu nessa época: A Rússia, trinta anos depois da “ruptura” em Constantinopla, se faz, influenciada por um decreto papal, devota de S. Nicolau como santo milagroso, que movia coisas no espaço e que era cultuado notadamente pelo Papa de Roma S. Clemente.

Em Kiev escreveram uma crônica sobre essa transferência das relíquias de Nicolau: aos latinos chama “ fiéis” e ao Papa “Santíssimo Patriarca”. E é evidente que o autor da crônica conhecia a excomunhão mútua decretada 30 anos antes, mas ao que parece não lhe dava importância alguma.

Em um evangelho na Rússia de 1056-1057 falam da devoção popular russa ao santo latino Santo Apolinário (um santo que na Grécia não interessava ninguém). Há textos russos desta época com litanias a todos os santos que incluem montões de reis vikings, germânicos e santos anglos como Adabelto, Olaf, Magnus, Canuto, Wotulfo, Albano, Wenceslao…

Príncipes russos financiando monastérios latinos

Outro exemplo da fluidez de tratamento da nobreza russa com os “excomungados” do Ocidente se nota nos donativos das famílias para monastérios e conventos latinos. Os documenta Nazarenko A.V. en “La Rus Antigua en los Caminos Internacionales” (livro de 2001, editado em Moscou, em russo. página 585-606).

Por exemplo, em finais do séc .XI e princípios do séc.XII se sabe que um monge irlandês, um tal Maurício, foi enviado a Kiev para buscar donativos para construir um monastério em Ratisbona (Alemanha) dedicado a São Tiago e Santa Gertrudis. Foi recebido com honras pelo príncipe e regressou com grandes donativos com os quais se finalizou o monastério. Mais ainda, no séc.XIII havia um monastério filial destes em Kiev.

Outro monastério latino que recebeu grandes donativos dos príncipes de Kiev foi o de São Pantaleão em Colônia (Alemanha), que os recebeu de Mstislav I Vladimírovich (filho de Gytha de Wessex, que era filha do último rei saxão da Inglaterra, Harold, que morreu em 1066 na famosa batalha de Hastings contra os normandos) e de seu filho Iziaslav II, que foi batizado como Pantaleão (muitos príncipes russos tinham 3 ou 4 nomes: um eslavo, outro grego ou latino de batismo, outro germânico e algum sobrenome… sem contar o patronímico).

Diz a lenda que um urso atacou Mstislav e o deixou ferido, moribundo, mas um jovem lhe apareceu em uma visão e lhe disse : “Meu nome é Pantaleão, e minha casa amada está em Colônia, e o sarou. Ao recuperar-se Mstislav a familia se fez devota do santo e de seu convento na longínqua Colônia. Iziaslav II Pantaleão, o filho do milagroso, morreu aos 54 anos em 1154, um século depois da excomunhão mútua, sem que pareça que deixara de apoiar ao convento latino de Colônia.

Igrejas latinas havia por toda a Rus de Kiev e até o século XIII foi frequente a chegada de missionários latinos à Rússia e a “Bulgária do Volga” e até as estepes do Mar Negro.

Quando as russas batizavam em igrejas varegas

Um documento do século XII em russo chamado ” As perguntas de Kirik”, escrito em Novgorod, de direito canônico, recolhe que muitas mulheres russas (eslavas) levavam seus bebês para se batizar em igrejas “varegas” ( isto é, germânicas-latinas) mas o texto, embora parece entender que é algo errôneo (se impõe una ligeira penitência à mulher) dá por suposto que o batismo em outras igrejas é válido.

A santa ortodoxa que vivia em Roma no século XIII

Uma santa russa do calendário ortodoxo, Santa Parasceva, princesa da família dos príncipes de Polotsk (um principado importante do século XI e XII, no que hoje é a Bielorrússia, com sede episcopal) foi peregrina em Roma, viveu ali 7 anos e morreu em 1239. A Igreja Ortodoxa Russa a canonizou em 1273, mais de dois séculos depois da “excomunhão mútua”, sem que parecesse irritar-lhes seus anos de vida devota em terra latina. ( Conta M.A. Taube, “Roma y Rusia en el periodo antes de los mongoles”, Almanaque Católico, 2, París, 1928, em francês).

A Rússia “românica” cheia de construtores latinos

É coisa bem sabida, além disso, que as Igrejas do século XII que hoje contemplam os turistas no chamado “Anel de Ouro” ( nos antigos principados de Suzdal e Vladimir, por exemplo) as construíam e desenhavam técnicos ocidentais , chegados a pedido dos príncipes a partir da Alemanha, Polônia e Lombardia. O príncipe Yuri “Dolgoruki”, ou seja , “Jorge Brazolargo”, que seria o fundador de Moscou) e seu filho Santo André Bogolubski ( o primeiro a dedicar uma Igreja russa à Virgem) foram os grandes promotores desta arte, um autêntico românico no Oriente europeu.

Todos esses indícios mostram que demorou muito em se consumar a ruptura decretada em 1054. Oxalá demore menos em consumar-se e levar-se a plenitude a reconciliação e plena comunhão.

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Autor: P.J. Ginés / T. Fedótova Fonte:https://www.religionenlibertad.com/movil/articulo_rel.asp?idarticulo=46398&accion= Tradução: David Nesta

 
 
 

Pergunta: Um dos problemas que originaram a divisão da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica foi o “Filioque”. Ele ainda é um ponto de grande contenda entre o Oriente e o Ocidente como fora no passado?

Resposta: Quanto ao infame conflito a respeito do Filioque, este já não parece ser obstáculo que costumava ser. Em 1995 o Papa pediu ao Pontifício Conselho para Promoção da Unidade dos Cristãos que esclarecesse e reavaliasse a questão. A pedido dele, foi emitido um documento incrível intitulado: “The Father as the Source of the Whole Trinity – the Procession of the Holy Spirit in Greek and Latin Traditions” (As tradições grega e latina a respeito da processão do Espírito Santo, na edição portuguesa).

Este documento reconhece o entedimento oriental de o Pai ser a fonte da trindade como sendo algo definitivo para a Igreja Católica. Os ortodoxos estavam preocupados que o católicos clamavam que TANTO o Pai QUANTO o filho fossem a fonte da trindade. Esse documento dá cabo a esse medo.

Na verdade, esse documento chega longe até o ponto de afirmar que o credo SEM o Filioque é a forma normativa do credo para toda a Igreja Católica. Dizendo assim:

[A Igreja Católica reconhece o valor conciliar, ecumênico, normativo e irrevogável, expressão da fé comum da Igreja e de todos cristãos, do Símbolo professado em grego em Constantinopla em 381 pelo Segundo Concílio Ecumênico. Nenhuma profissão peculiar a uma tradição litúrgica particular pode contradizer essa expressão de fé ensinada pela igreja indivisa” (2º Parágrafo).]

O Papa calorosamente aceitou esse documento e ele próprio o implementou. Sempre que concelebrando com bispos orientais, ou durante encontros ecumênicos onde se prestam orações, o Santo Papa sempre celebra o Credo sem o Filioque.

Pergunta: Por que os católicos romanos não voltam a recitar o Credo em sua forma original? Se uma igreja ocidental como a Anglicana voltou a usar o Credo sem o Filioque, isso dá a entender que muitos cristãos ocidentais (protestantes e católicos romanos) estão a professar o credo “errado”.

Resposta: Dizer que a versão do Credo com o Filioque é o credo “errado” seria incorreto. É uma variação legítima do mesmo Credo que é particular a tradição litúrgica latina.

Quando devidamente entendido, a cláusula Filioque não compromete a monarquia do Pai: a noção que o Pai é a fonte original do Filho e do Espírito. De fato, a tradição teológica latina tendeu a enfatizar o papel do Filho na expiração «spiration» do Espírito enquanto mantendo a monarquia do Pai. A cláusula Filioque expressa essa tradição teológica latina, que é parte da herança da Igreja Latina. Muitos teólogos católicos romanos acreditam que remover o Filioque do Credo da Igreja Latina seria como abandonar uma parte importante do patrimônio teológico latino.

Pergunta: Quem começou a briga a respeito do Filioque? O Carlos Magno realmente acrescentou isso ao Credo?

Resposta: No que se trata a sua pergunta, é dado consagrado que o Filioque foi inserido no Credo Niceno a pedido de Carlos Magno, mesmo com a objeção verbal do papa regente à época. Antes disso, já havia sido recitado em partes da Gália e Espanha, mas o uso difundido disso foi alcançado no Oeste pelos esforços de Carlos Magno. Numerosos papas se opuseram a essa adição e tentaram manter a versão original do credo por diversos séculos. De fato, nenhum um único papa recitou o Filioque até o Papa Bento VIII (por volta de 1014-1015 d.C)

Além disso, quando São Fócio protestou contra a recitação do Filioque no Credo, ele se acreditava seguindo os passos dos numerosos papas que também se opuseram a essa adição.

Devo também mencionar que alguns historiadores acreditam que Carlos Magno adicionou o Filioque ao Credo justamente para poder ter uma desculpa para acusar o imperador bizantino de heresia. Uma vez que o imperador bizantino se recusava a recitar o Filioque, ele poderia ser acusado de heresia e, portanto, não o poderia ser reconhecido como um imperador legítimo por Carlos Magno. Isso significaria que Carlos Magno sozinho era o único verdadeiro imperador no mundo cristão. É claro que já que o Papa daquela época também recusou recitar o Filioque, isso também significaria que ele era um herético aos olhos de Carlos Magno, não seria? Sendo assim, Carlos Magno se encurralou em um beco sem saída teológico complicado e viscoso.

De qualquer forma, esse assunto parece ter sido amplamente resolvido nos anos recentes. Eu ficarei imensamente grato quando essa briga finalmente for direto para o cesto de lixo da história.

Pergunta: Católicos orientais têm que acreditar no Filioque?

Resposta: Roma não impõe que católicos abandonem sua tradição teológica única. Na verdade, o que o Vaticano II pediu foi que nós preservássemos nossas tradições teológicas únicas, que são parte da riqueza de toda Igreja Católica. Portando, Católicos orientais devem manter sua tradição teológica oriental da Trindade, que enfatiza a monarquia do Pai.

O filioque é parte da tradição teológica latina. Uma vez que estamos todos unidos em comunhão completa com a Igreja Católica Romana, os católicos orientais acreditam que o Filioque é um entendimento legítimo da Trindade, particular a tradição latina. Em outras palavras, é um entendimento verdadeiro da Trindade, igual e complementar com o entendimento oriental. Embora não expressemos nosso entendimento da Trindade dessa forma, é perfeitamente legítimo para a Igeja Latina fazer isso. Os entendimentos orientais e ocidentais da Trindade são diferentes, mas complementares. Então, em última instância, acreditamos que o filioque é verdade, mas não é como expressamos o mistério.

Existe uma história interessante por trás disso. Em todas as suas negociações com as igrejas ortodoxas, a Igreja Católica Romana nunca pediu para a Ortodoxa adotar o Filioque como seu entendimento da fé. Pelo contrário, Roma apenas pediu para que a Ortodoxa reconheça que não é herético. Infelizmente, por muitos séculos permaneceram indispostos a conceder tal coisa. Alguns cristãos ortodoxos permanecem assim até hoje

Traduzido do site From East to West do católico bizantino Anthony Dragoni. 

Tradução por Jéssica Ramos.

 
 
 
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