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AS REALIDADES ESCATOLÓGICAS (PARTE I) De I Constantinopla a II Lyon II. A RETRIBUIÇÃO Ressurreição não significa retribuição. Os documentos do Magistério, segundo o ensinamento da Bíblia (cf. Jo 5, 28-29), falam de ressurreição universal; todos os homens, todos os mortos, todos incluindo, portanto, os bem aventurados e os condenados. Quanto ao momento da ressurreição, refere-se o Magistério ao dia da vinda do Senhor, ao último dia, ao dia do Juízo, à consumação do mundo. Independentemente, porém, das questões particulares, os documentos oficiais ensinam que a retribuição é imediata, logo após a morte: que é a fronteira definitiva que separa os que se salvam dos que se condenam, encerrando a situação terrena de peregrinação. A primeira consequência, conceitualmente separável, mas relacionada com a anterior, é que esta justiça, seja a recompensa do prêmio da visão beatífica, seja o castigo no inferno, é eterna, e tanto os santos, quanto os réprobos, no mesmo instante da morte, vão para o lugar que merecem. Os que, porém, morrendo na graça de Deus, não estiverem de todo puros, deverão passar por uma estado de purificação, antes de chegarem à bem-aventurança eterna (o purgatório). A questão do limbo das crianças não batizadas não é diretamente tratada pelo Magistério da Igreja¹. 1. Sínodo de Constantinopla (543) Entre as ideias origenistas condenadas no sínodo, sobressai-se aquela sobre a escatologia, que passou à história como “apocatástase” ou restauração. Esta teoria foi formulada por Orígenes com relação ao seu princípio de preexistência das almas, condenado nesta mesma assembleia. Segundo a teoria origenista, o inferno é uma pena medicinal² cuja duração é proporcional à culpa: arrependido e purificado, o condenado participará da restauração total de todas as coisas em Deus. Orígenes interpreta, neste sentido, algumas passagens da Sagrada Escritura que parecem se referir a uma restauração final (cf. Mt 19, 28; At 3, 21; Rm 8, 19-22; 1 Cor 15, 25-28. 54 55; 2 Pd 3, 13; Ap 21, 1.5); e quanto às passagens evangélicas que falam da eternidade do inferno, ele as considera medidas pedagógicas para afastar o homem do mal, razão porque não convém pregar esta natureza medicinal às pessoas simples, porque não serviria para afastá-las do pecado³. Este modo de pensar foi visto com simpatia por Dídimo de Alexandria, por São Gregório de Nissa e durante certo tempo também por São Jerônimo. Mas Orígenes vai mais longe: depois da apocatástase, as almas continuariam a ser livres e também no céu poderiam esfriar no fervor e ser punidas com uma nova encarnação⁴. Esta concepção do inferno teve e tem ainda hoje seus adeptos entre os protestantes⁵. Se alguém disser ou pensar que o castigo dos demônios ou dos homens ímpios é temporário e que um dia terá fim, ou que chegará a dar-se a “apocatástase” dos demônios e dos homens ímpios seja anátema nos dirá, por fim, a ata conciliar. 2) Carta Sub catholicae professione de Inocêncio IV (06/03/1254) Já no símbolo de Santo Epifânio fala-se da “vida eterna”; no chamado Fides Damasi, diz-se que a vida eterna será prêmio pelas boas obras e suplício eterno pelos pecados. O símbolo Quicumque afirma como verdade de Fé católica que “os que agiram bem irão para a vida eterna; os que agiram mal, para o fogo eterno”. O XI Concílio de Toledo reafirma a eternidade da glória e o IV Concílio de Latrão define solenemente que tanto a bem aventurança, quanto a pena, jamais terão fim. Todavia no século XIII surgiu uma disputa entre os bispos gregos de Chipre e o bispo latino de Nicósia sobre a escatologia intermediária⁶, o que deu motivo à Santa Sé para uma explicitação. Os gregos sempre celebraram os sufrágios pelos defuntos, mas o modo de se exprimir dos latinos lhes parecia contaminado de origenismo, como se o purgatório fosse um inferno temporário; por isso, negavam o fogo e o próprio nome de purgatório, porque evocaria uma ideia de espaço. Não contestavam, porém, a existência de um estado provisório para as almas que morressem com pecados leves, do qual Deus as liberta pela intercessão da Igreja: mas não se convenciam de uma purificação como efeito da pena. Inocêncio IV, nesta carta ao seu legado junto aos gregos, Cardeal Eudes de Châteauroux, bispo de Frascati, dá maior precisão ao dogma católico. Trata-se, portanto, de uma intervenção particular para os cipriotas, mas aí há pontos que penetram a Fé católica, tanto assim que anos depois foram solenemente definidos no II Concílio de Lyon: a existência do purgatório, o castigo dos pecadores depois da morte, a recompensa imediata dos justos⁷. Em suma, porque a Verdade afirma no Evangelho que se alguém blasfemou contra o Espírito Santo não lhe será perdoado nem neste mundo, nem no outro (cf. Mt 12, 32), isto nos dá a entender que certos pecados são perdoados neste mundo presente, outros, no mundo futuro; e o Apóstolo diz que “o fogo provará a qualidade da obra de cada um” (I Cor 3,13); e “aquele, cuja obra arder, sofrerá dano, mas será salvo, embora como quem passa pelo fogo” (I Cor 3, 15); e os próprios gregos, segundo se diz, creem e sustentam, com toda a verdade e certeza, que as almas dos que morrem depois de terem recebido a Penitência embora sem a terem cumprido -, ou a daqueles que morrem sem pecado mortal, mas com pecados veniais e imperfeições, são purificadas depois da morte e podem ser ajudadas pelos sufrágios da Igreja; e já que eles [os gregos] dizem que o lugar desta purificação [locum purgationis] não lhes fora indicado por seus mestres [doctoribus] com nome certo e próprio: Nós, que, em conformidade com as tradições e a autoridade dos Padres da Igreja [sanctorum patrum], o chamamos purgatório, queremos que daqui por diante seja chamado por eles com este nome. De fato, com aquele fogo passageiro são purgados os pecados, não os mortais ou capitais, que antes não tenham sido perdoados pela Penitência, mas os pequenos e veniais, que, ainda depois da morte, pesam sobre eles [gravant], se não foram perdoados durante a vida. Se alguém, porém, morrer em pecado mortal, sem a Penitência, será sem nenhuma dúvida eternamente atormentado pelo fogo do inferno eterno [aeternae gehennae ardoribus perpetuo cruciatur]. Entretanto, as almas das criancinhas que morrem depois do Batismo e as dos adultos que morrem em estado de graça [in caritate] e não estão retidas, nem pelo pecado, nem por satisfação alguma que tenham de cumprir por ele, vão imediatamente para a Pátria eterna [ad patriam protinus transvolant sempiternam]. 3) II Concílio de Lyon (XIV ecumênico) – Profissão de Fé de Miguel Paleólogo (sess. IV 6.7.1274) As controvérsias entre os gregos e os latinos sobre a escatologia intermediária ocuparam todo o séc. XIII. O II Concílio de Lyon que, dentre outras preocupações, se empenhou na união com os gregos, não podia ignorar este pomo de discórdia, e na profissão de Fé que o Imperador Miguel Paleólogo enviou ao Concílio, e que foi lida na quarta sessão, todos reconheceram a verdade da Igreja Universal, que mais tarde seria sancionada no Concílio de Florença. Tanto em Lyon como em Florença evita-se mencionar a palavra “fogo” e muito menos é usado o termo “purgatório”: fala-se só genericamente de penas purificatórias. Do purgatório “Se aqueles que estão verdadeiramente arrependidos morrerem em estado de graça [in caritate] antes de terem feito atos de reparação [satisfecerint] com frutos dignos de Penitência (cf. Mt 3,8; Lc 3,8) pelo que fizeram ou deixaram de fazer, suas almas, depois da morte, são purificadas com penas do purgatório ou purificantes [poenis purgatoriis seu catharteriis], como no-lo explicou nosso irmão João⁸; e para alívio destas penas lhes aproveitam os sufrágios dos fiéis vivos, isto é, o Sacrificio da Missa, as orações, as esmolas e as outras práticas de piedade que os fiéis costumam fazer por seus irmãos na Fé, segundo as instituições da Igreja”. Da bem-aventurança “Mas as almas daqueles que, depois de terem recebido o santo Batismo, não incorreram em nenhuma mancha de pecado, como também aqueles que, depois de terem contraído a mancha do pecado, se purificaram, seja enquanto viviam no corpo, seja depois de tê-lo deixado, como se disse antes, [estas almas] são recebidas imediatamente no céu.” Da condenação “As almas, porém, dos que morrem em pecado mortal ou só com o original descem imediatamente ao inferno para serem punidas, embora com penas desiguais.” Do juízo final “A mesma Santa Igreja Romana crê firmemente e firmemente assegura que, no entanto, no dia do Juízo, todos os homens comparecerão perante o tribunal de Cristo com seus corpos, para prestar contas de seus próprios atos (cf. Rm 14,10.12).” 1. É de Fé católica que só o pecado original já basta para criar uma separação escatológica de Deus e, neste sentido, trazer um estado de condenação. A questão de fato, ou seja, a existência de um estado após a morte em que se achem almas só com o pecado original, tradicionalmente denominado “limbo”, continua como uma doutrina teológica [cf. SANTO TOMÁS DE AQUINO, Summa theologiae. Suppl., q.69, a. 4-6; idem, De malo, q. L. BILLOT, diversos artigos em Etudes, 1920-1922; INOCÊNCIO III, Carta Maiores Ecclesiae. 2. ORÍGENES, De principiis 2,10,6: PG 11, 238. 3. Contra Celsum 5, 15: PG 11, 1204. 4. Schleiermacher muito contribuiu para a difusão desta idéia. Segundo A. HARNACK, Dogmengeschichte, Tubingen, 4ª ed., 1909,3,661, todos os reformadores aderiram de coração à apocatástase, e também em nossos dias muitos teólogos modernos bizantinos e greco-russos a veem com simpatia. Cf. M. JUGIE, Theologia dogmatica orientalium dissidentium IV, Paris, 1931, 137-151. Outra forma de negação da eternidade das penas do inferno, tanto na Antiguidade, como na Idade Média, era a de sustentar o aniquilamento dos condenados, teoria já defendida pelos gnósticos no séc. II: cf. SANTO IRINEU, Adversus haereses 1,7,1: PG 7, 514. Foram depois imitados pelos socinianos medievais. Paralelamente, houve quem evoluísse com a teoria, chegando a afirmar que a alma humana não é imortal por natureza, mas Deus a torna imortal só para os eleitos (ARNÓBIO, O VELHO, Adversus nationes 2.14. 5. Bibliografia: B. ALTANER, Patrologia, Edições Paulinas, São Paulo, 1972, 213; J. DANIELOU, Origène, Paris, 1948, 207-217. 6. M. RONCAGLIA, Georges Bardanes métropolite de Corfou et Barthélemy de l’Ordre Franciscain, Roma, 1953, com documentação dos colóquios entre gregos e latinos. 7. Trata-se de Frei João Parastron ou Barastron, O.F.M., nascido em Constantinopla e apóstolo da união, que acompanhou até Lyon os legados gregos e assistiu à sessão IV do concílio. O Papa reconhece que ele se empenhou diu et utiliter pela união. Morreu em Constantinopla em 1275. 8. SÃO BERNARDO DE CLARAVAL, Sermo in festo Omnium Sanctorum: PL 185, 472. Cf. SANTO AGOSTINHO, Enarratio in psalmum 43: PL 36, 485; Id., De Trinitate 1, 13: PL. 42, 843-844. Não seria difícil encontrar em outros textos patrísticos passagens no mesmo sentido.

 
 
 

A SEPTUAGINTA OU VERSÃO DOS SETENTA (LXX)

Durante o reinado de Nabucodonosor (Foi Rei da Babilônia no séc. VI a.C.), as Escrituras Sagradas hebraicas foram perdidas, por ocasião do cativeiro imposto ao povo judeu, que em aproximadamente 587 a.C. foi deportado de Jerusalém para a Babilônia. As Escrituras foram novamente constituídas no tempo do Profeta Esdras, durante o reinado de Artaxerxes (cf. Esd 9,38-41).O conjunto de manuscritos hebraicos mais antigos que chegaram até nosso tempo, é conhecido como Texto Massorético. Nesta compilação das Escrituras, o texto foi transcrito com a omissão das vogais. Com origem no séc. VI, o Texto Massorético possui este nome por ter sido desenvolvido por um grupo de judeus conhecidos como Massoretas; que deste então se tornaram os responsáveis em conservar e transmitir o texto bíblico hebraico.Bem anterior ao Texto Massorético, se conservou até nosso tempo, a versão Grega das Escrituras Hebraicas conhecida como Septuaginta ou Versão dos Setenta (LXX). Vertida, aproximadamente no séc. III a.C. para grego a partir dos mais antigos manuscritos hebraicos (hoje não mais disponíveis), o valor histórico da Septuaginta é inestimável e de profunda importância para a identificação do Cânon Bíblico Cristão.Origem da Septuaginta Ptolomeu II Filadelfo (287-247 a.C.), rei do Egito, encomendou especialmente para sua Biblioteca em Alexandria (Fundada por Alexandre, o Grande tornou-se o grande centro cultural e comercial do império helênico), uma tradução grega das escrituras sagradas dos judeus. Esta foi a primeira tradução feita dos livros hebraicos para uma outra língua. A tradução do hebraico para o grego, segundo a tradição, foi feita por 72 escribas durante 72 dias, por isso possui o nome Septuaginta que significa “Tradução dos Setenta”. A primeira menção à versão da Septuaginta encontra-se em um escrito chamado “Carta de Aristéias”. Segundo esta carta, Ptolomeu II Filadelfo tinha estabelecido recentemente uma valiosa biblioteca em Alexandria. Ele foi persuadido por Demétrio de Fálaro (responsável pela biblioteca) a enriquecê-la com uma cópia dos livros sagrados dos judeus. Para conquistar as boas graças deste povo, Ptolomeu, por conselho de Aristéias (oficial da guarda real, egípcio de nascimento e pagão por religião) emancipou 100 mil escravos, de diversas regiões de seu reino. Então, enviou representantes (entre os quais Aristéias) a Jerusalém e pediu a Eliazar (o Sumo Sacerdote dos judeus) para que fornecesse uma cópia da Lei e judeus capazes de traduzi-la para o grego. A embaixada obteve sucesso: uma cópia da Lei ricamente ornamentada foi enviada para o Egito, acompanhada por 72 peritos no hebraico e no grego (seis de cada Tribo) para atender o desejo do rei. Estes foram recebidos com grande honra e durante sete dias surpreenderam a todos pela sabedoria que possuíam, demonstrada em respostas que deram a 72 questões: então, eles foram levados para a isolada ilha de Faros e ali iniciaram os seus trabalhos, traduzindo a Lei, ajudando uns aos outros e comparando as traduções conforme iam terminando. Ao final de 72 dias, a tarefa estava concluída. A tradução foi lida na presença de sacerdotes judeus, príncipes e povo, reunidos em Alexandria; a tradução foi reconhecida por todos e declarada em perfeita conformidade com o original hebraico. O rei ficou profundamente satisfeito com a obra e a depositou na sua biblioteca.Comumente se acredita, que a Carta de Aristéias foi escrita por volta de 200 a.C., 50 anos após a morte do Rei Filadelfo.Não há ainda entre os estudiosos um consenso sobre a origem e autenticidade desta carta. Embora a grande maioria considere seu conteúdo fantasioso e lendário, questiona-se se não há algum fundamento histórico disfarçado sob os detalhes lendários. Por exemplo, hoje se sabe com certeza que o Pentateuco foi mesmo traduzido em Alexandria.

DIFUSÃO E REVISÕES Pelo fato de serem pouquíssimos os Judeus que ainda possuíam conhecimento da língua hebraica, principalmente após o domínio helenista (entre os séculos IV e I a.C.) onde o koiné (grego popular) era o idioma falado, a Septuaginta foi bem acolhida, principalmente pelos judeus alexandrinos que foram os seus principais difusores, pelas nações onde o grego era falado. A Septuaginta foi usada por diferentes escritores e suplantou os manuscritos hebraicos na vida religiosa (JAEGER, 1991).Em razão de sua grande difusão no mundo helênico (tanto entre judeus, filósofos gregos e cristãos), as cópias da Septuaginta passaram a se multiplicar, dando origem a variações contextuais.Orígenes “Orígenes de CesaréiaOrígenes nasceu em Alexandria por volta de 190. Em Cesaréia é ordenado sacerdote em 231 pelo Bispo Alexandre. É considerado o criador da Ciência Bíblica. Deixou-nos muitíssimas obras, das quais algumas se perderam e outras foram conservadas por escritores posteriores. Ele relacionou os livros canônicos da seguinte forma:“ ‘Observe-se que os livros do Antigo Testamento, segundo a tradição hebraica, são vinte e dois, número das letras de seu alfabeto’. (…) Os vinte e dois livros, conforme os hebreus, são os seguintes: O livro que damos o título de Gênesis, entre os hebreus traz inscrito, de acordo com as palavras iniciais: Bresith, que significam “No começo”; Êxodo, Ouellesmoth, isto é, “Eis os nomes”, Levítico, Ouicra, isto ê, “Ele me chamou”; Números, Ammesphecodeim; Deuteronômio, Elleaddebareirrv “Estas são as palavras”; Jesus, filho de Navé [Josué], Iosouebennoun; Juizes, Rute, entre elesformamumsó livro, Sophteim; Reis primeiro e segundo livros, entre eles um só, Samuel: “O eleito de Deus”; Reis, terceiro e quarto livros, em um só, Ouammelch David, isto é: “Reino de Davi”; Paralipômenos [Crônicas], primeiro e segundo livros, em um só, Dabreiamein, isto é, “Palavra dos dias”; Esdras, primeiro e segundo livros34, em um só, Ezra, isto é, “Auxiliar”; Livro dos Salmos, Spharthelleim; Provérbios de Salomão, Meloth; Eclesiastes, Koeleth; Cântico dos Cânticos – e não como alguns julgam, Cântico dos Cânticos -, Sirassereim ; Isaías, Iessia; Jeremias, com as Lamentações e a Carta em um só livro35, Iéremia; Daniel, Daniel; Ezequiel, Ezechiel; Jó, Job; Ester, Esther. Além destes, os Macabeus, intitulados Sarbethsabanaiel'” .Curiosamente Orígenes não cita os 12 profetas. Os judeus normalmente organizavam seus livros sagrados em 22 volumes, conforme o número de letras do alfabeto hebraico36. Como os livros sagrados são mais que 22 alguns livros eram agrupados como um único volume. A omissão dos 12 Profetas se deve provavelmente por estarem agrupados a outros livros, provavelmente Isaías, conforme veremos em outras coleções mais adiante37. A omissão de Baruc ê o mesmo caso, pois normalmente figurava como apêndice do livro de Jeremias. Isto se atesta ainda mais pelo fato de que a Epístola de Jeremias foi mencionada, e os dois livros sempre estiveram juntos (Nas Biblias Católica e Ortodoxa, a Epístola de Jeremias é apêndice de Baruc, mantendo assim a organização original conforme consta na Septuaginta) “Dos deuterocanônicos do AT faz referência apenas aos livros dos Macabeus.Outros escritos de Orígenes mostram que a Igreja considerava outros livros canônicos além dos livros supracitados:“5. […]Nós [cristãos] procuramos não ignorar quais são as Escrituras dos judeus afim de que, ao disputarmos com eles, não citemos as que não se encontram nos exemplares deles, mas sim aquelas de que eles se servem f../’39 (ORIGINES, 2004).Este trecho é de sua Carta a Júlio Africano40, onde Orígenes defende a canonicidade dos acréscimos ao Livro de Daniel, que mais (arde serão defendidos também por São Jerônimo. Os judeus de Jâmnia recusaram estes acréscimos em seu Cânon.Quanto ao NT escreve:“Conforme aprendi da tradição sobre os quatro Evangelhos, os únicos também indiscutíveis na Igreja de Deus que há sob os céus, foi escrito em primeiro lugar o evangelho segundo Mateus; este anteriormente fora publicano e depois Apóstolo de Jesus Cristo. Ele o editou para os fiéis vindos do judaísmo, redigindo-o em hebraico. O Segundo é o Evangelho segundo Marcos, que escreveu conforme as narrações de Pedro, o qual o nomeia seu filho [segundo o espírito] na carta católica, nesses termos: ‘A que está em Babilônia [Roma], eleita como vós, vos saúda, como também Marcos, o meu filho’ [cf lPd !>, 13]. E o terceiro é o Evangelho segundo Lucas, elogiado por Paulo [cf. 2Cor 8,18-19; 2Tm 2,8; Cl 4,14] e composto para os fiéis provenientes da gentilídade. Enfim, o Evangelho segundo João” (Ibid., p.313).Pelo testemunho de Orígenes os 4 Evangelhos são reconhecidos como canônicos em toda Igreja (“os únicos também indiscutíveis na Igreja de Deus que há sob os céus”). Estas palavras testemunham haver ainda outros evangelhos, no entanto não consensualmente aceitos.Ainda sob a estreita de Eusébio:“No quinto livro dos Comentários ao Evangelho segundo João, o mesmo Orígenes declara o seguinte acerca das Epístolas dos apóstolos: ‘Paulo, digno ministro do Novo Testamento, não segundo a letra, mas segundo o espírito, depois de ter anunciado o evangelho desde Jerusalém e suas cercanias até o Ilírico [cf. Rm 15,19], não escreveu a todas as Igrejas que ele havia instruído; mesmo àquelas que escreveu, enviou apenas poucas linhas” (Ibid. p. 313).Aqui Orígenes reconhece como canônicas as cartas paulinas, embora não cite quais são. Quanto à controversa carta aos Hebreus, registrou Eusébio:“Finalmente, extema-se da seguinte maneira sobre a Carta aos Hebreus, nas Homilias proferidas a respeito desta última; ‘O estilo da epístola intitulada Aos Hebreus carece da marca de simplicidade de composição do Apóstolo, que confessa ele próprio ser imperito no falar, isto é, no fraseado [cf. 2Cor 11,6]; no entanto, a carta é grego do melhor estilo, e qualquer perito em diferenças de redação o reconheceria. Efetivamente, os conceitos da Epístola são admiráveis e em nada inferiores aos das genuínas cartas apostólicas. Há de concordar quem ouvir atentamente a leitura das cartas do Apóstolo’. Mas adiante [diz Eusébio], [Orígenes] adita essas afirmações: ‘Mas, para exprimir meu próprio ponto de vista, diria que os pensamentos são do Apóstolo, enquanto o estilo e a composição originam-se de alguém que tem presente a doutrina do Apóstolo, e por assim dizer, de um redator que escreve as preleções de um mestre. Se, portanto, uma Igreja tem por certo que a carta provém do Apóstolo [Paulo], felicito-a, pois não será sem fundamento que os antigos a transmitiram como sendo da autoria de Paulo. Entretanto, quem escreveu a carta? Deus o sabe. A tradição nos transmitiu o parecer de alguns de ter sido redigida por Clemente, bispo de Roma [e discípulo de Pedro e Paulo], outros opinam ter sido Lucas, o autor do Evangelho e dos Atos”’ (Ibid., p. 314).Como podemos ver, embora seja controversa a autoria da Carta aos Hebreus, Orígenes não só a. considerava canônica, como afirma que este é o mesmo parecer dos presbíteros que o antecederam. Observem que quanto ao livro dos Atos dos Apóstolos, Orígenes apenas mostra que o conhece, mas não emitiu seu parecer quanto ã canonicidade do livro.Ainda sob a pena de Eusébio, sobre os outros livros afirma Orígenes:“Pedro, sobre quem está edijicada a Igreja de Cristo, contra a qual não prevalecerão as portas do inferno [cf. Mt 16,18], deixou apenas uma carta incontestada, e talvez ainda outra, porém controvertida” (Ibid., p. 313).Orígenes não só reconhece a canonicidade da primeira epístola de São Pedro, como declara que o mesmo é o parecer comum da Igreja em seu tempo. E quanto à segunda Epístola que hoje se encontra em nosso cânon, ele afirma que não é aceita por todos. Identificamos então o terceiro livro deuterocanônico do NT.Orígenes continua:“Que dizer de João, que reclinou sobre o peito de Jesus [cf Jo 13,25; 21,20], deixou um evangelho, assegurou ser-lhe possível compor mais livros do que poderia o mundo conter [cf. 21,25], e escreveu o Apocalipse, mas recebeu a ordem de se calar e não escrever as mensagens das vozes das sete trombetas [cf. Ap 10,4]?’ (Ibid., p. 313-314).Aparece aqui afirmar a canonicidade do Apocalipse de João. Ainda:“Legou-nos também uma Carta de muito poucas linhas e talvez outra e ainda terceira, pois nem todos admitem que estas sejam autênticas; aliás, as duas juntas não abrangem cem linhas” (Ibid., p.314).Quanto às cartas de São João Apóstolo e Evangelista, Orígenes diz que comumente era reconhecida como canônica somente a primeira carta. Ainda não havia na Igreja antiga um parecer comum quanto à canonicidade das outras duas. Identificamos aqui mais dois livros deuterocanônicos do NT: a segunda e terceira epístola de São João.”, motivado pela necessidade de restaurar o texto à sua condição original, dá origem à sua revisão que ficou registrada em sua famosa obra, conhecida como Hexápla (Recebe este nome por dispor do texto do AT em 6 colunas distintas, cada uma conforme uma tradução hebraico, a LXX, versão de Áquila, versão de Símaco, versão deTeodocião, e outra de menor importância. Foi perdida restando em nossos dias somente alguns fragmentos.) Luciano, sacerdote de Antioquia e mártir, no início do séc. IV publicou uma edição corrigida de acordo com o hebraico; tal edição reteve o nome de koiné, edição vulgar, e, às vezes, é chamada de Loukianos, após o nome de seu autor Finalmente, Hesíquio, um bispo egípcio, publicou, quase que ao mesmo tempo, uma nova revisão, difundida principalmente no Egito.Os Manuscritos Os três manuscritos mais conhecidos da Septuaginta são: o Vaticano (Codex Vaticanus), do séc. IV; o Alexandrino (Codex Alexandrínus), do séc. V, atualmente no Museu Britânico de Londres; e o do Monte Sinai (Codex Sinaiticus), do séc. IV, descoberto por Tischendorf no convento de Santa Catarina, no Monte Sinai, em 1844 e 1849, sendo que parte se encontra em Leipzig e parte em São Petersburgo.Todos foram escritos em unciais ( Letras maiúsculas). O Codex Vatícanus é considerado o mais fiel dos três; é geralmente tido como o texto mais antigo, embora o Codex Alexandrinus carregue consigo o texto da Hexapla e tenha sido alterado segundo o Texto Massorético. O Codex Vatícanus é referido pela letra B; o Codex Alexandrinus, pela letra A; e o Codex Sinaiticus, pela primeira letra do alfabeto hebraico [Aleph] ou S.

Os livros que estão presentes na Septuaginta, conforme a ordem original: Gênesis, Êxodo, Levitico, Números, Deuteronômio, Josué, Juizes, Rute, 1 Samuel (1 Reis), 2 Samuel (2 Reis), 1 Reis (3 Reis), 2 Reis (4 Reis), 1 Crônicas (1 Paralipômenos), 2 Crônicas (2 Paralipômenos), 1 Esdras, 2 Esdras (Esdras e Neemias), Ester, Judite, Tobias, 1 Macabeus, 2 Macabeus, 3 Macabeus, 4 Macabeus, Salmos, Odes, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Job, Sabedoria, Eclesiástico (Sirac), Salmos de Salomão, Oséias, Amós, Miquéias, Joel, Obadias, Jonas, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias, Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruque, Epístola de Jeremias, Ezequiel, Suzana12, Daniel, Bel e o Dragão (SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL, 2003, XII-XIII).É importante notar que o conjunto de livros da Septuaginta é bem maior do que qualquer versão do AT disponível nas Bíblias Protestantes. O que isto necessariamente significa? Será que o catálogo da LXX corresponderia a um cânon bíblico conhecido e utilizado pelos antigos Judeus? Sim! Jesus e os Apóstolos utilizaram este catálogo mais amplo de Escrituras Sagradas? Sim. LIMA, Alessandro Ricardo. 1975O Cânon Bíblico: A Origem da Lista dos Livros Sagrados. Brasília, DF: 2007.

 
 
 

MARIA, MÃE DE DEUS

Parte II

Voltemos a comentar sobre um assunto que está sendo colocado em dúvida pelos novos hereges da atualidade, novos apenas por viverem na atualidade, pois, as heresias são as mesmas, ao falar do Logos” que se transformou em carne através de uma virgem, Maria, a Theotokos” (orações contra os Arianos, I,42), Atanásio ecoava a linguagem da devoção popular. Porém ele já começara a revestir esse título da racionalidade que ajudaria a defendê-lo dos ataques que sofreu meio século após a sua morte. Como Newman sugeriu em seu livro Os arianos do século IV, o povo era ortodoxo mesmo quando os bispos não o eram (John Henry Newman, “The orthodoxy of the body of the faithful during The supremacy oficial arianism”, in The Arians of the forth century, 3° edição, Londres,1871, pp. 457-472. Em seu uso do vocabulo “Theotokos”, assim como em seu emprego de outros títulos e metáforas, Atanásio se associou à ortodoxia da devoção popular e a desafrontou. A ideia de lex orandi lex credenti, que na devoção cristã tinha um conteúdo normativo doutrinário que precisava ser esclarecido, parecia ter sido formulada pouco depois da época de Atanásio. Mas evidentemente seu trabalho teve como base algumas dessas ideias.

O conteúdo normativo da devoção também se tornou evidente em outro contexto, quando Atanásio se utilizou da “comemoração de Maria” para resgatar a ortodoxia de sua doutrina. Ele o fez pelo menos em dois de seus escritos. A mais importante de suas composições literárias foi a carta a Epicteto, que teve grande divulgação em grego, latim, sírio e armênio nos séculos posteriores, sendo citada nos decretos do Concílio de Éfeso de 431 e no Concilio da Calcedônia de 451. Depois da derrota do arianismo, ela parece ter voltado à tona pela recrudescência da antiga heresia docética que negava a total humanidade de Jesus ou afirmava que ele não possuía um corpo genuinamente humano. Algumas pessoas chegavam ao extremo de asseverar que o corpo de Cristo fora feito da mesma essência [homoousion] do Logos (Atanásio, carta a Epicteto, 9. Essa nova forma de docetismo, sobre cujos ensinamentos os estudiosos de hoje ainda não concordam, é frequentemente vista como precursora da teologia apolinarista. Em sua resposta, Atanásio fundamentava sua argumentação nas“divinas Escrituras” e nos decretos dos “padres reunidos em Nicéia”, acusando os neodocetistas de sobrepujarem até mesmo os arianos: “Os senhores foram mais longe na impiedade que qualquer heresia. Pois, se o Logos possui a mesma essência do corpo, a comemoração e o ofício de Maria são supérfluos [peritte tes Maria he mneme kazi he chreia] ” ( Atanásio, carta a Máximo, o filósofo,3). E em sua carta a Máximo, combatendo a doutrina que afirmava que o Logos se tornara homem como consequência necessária de sua própria natureza, Atanásio novamente declarou: “Se assim fosse, a comemoração de Maria seria supérflua”. Seu ponto de Vista nos parece bem claro: Maria era considerada novamente, como fora por padres antignósticos, a garantia da verdadeira humanidade de Jesus Cristo.

Menos claro é o caráter preciso da “comemoração” a qual Atanásio se refere. Se a palavra grega mneme significasse simplesmente “memória”, como no Novo Testamento e em outros textos (2pedro 1,15″tenhais lembranças dessas coisas”), ele estaria argumentando que a lembrança de Maria, santificada no Credo ou em preces comemorativas, necessariamente traria consigo a implicação de que a humanidade de Cristo teria se originado nela e não preexistiria desde a eternidade. Porém mneme algumas vezes tinha um significado técnico na formação do calendário cristão, referindo-se ao aniversário de um santo ou mártir (São Basílio, cartas, 93).” Martin Jugie, em seus estudos sobre os primeiros festivais devotados a Maria no Ocidente, discordou que a mneme de Maria mencionada nos primeiros documentos do século V se referisse ao aniversário de sua morte ou “sono” [koimesis] afirmando que se relacionava com o aniversário de sua“natividade”, que pode ter significado seu ingresso no Céu. Em seu grande estudo posterior sobre a morte e ascensão da Virgem, ele repetiu, corrigiu e ampliou essa argumentação. Entretanto para nós esse problema é secundário. Seria a expressão Tes Marias he mneme uma referência a alguma festividade marista? Há algumas evidências da existência de um festival denominado a mneme de Maria, celebrado no primeiro domingo depois do Natal, porém elas não se estendem até a época de Atanásio. Todavia, tanto essas evidências como sua linguagem parecem corroborar a possibilidade de que uma celebração de Maria já existia durante sua época e que sua argumentação foi feita com base nela.

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Assim, ele afirmara que não haveria justificativa para um festival comemorativo da Virgem Maria, a Theotokos, se ela não tivesse desempenhado um papel importante na história da salvação. Ela pertencia ao Novo Testamento, não ao Velho, e não fora lembrada, a exemplo dos antigos santos de Israel, como uma profetisa da vinda de Cristo. Em vez disso, ela tivera uma função ou cargo, (chreia): fora escolhida e incumbida da missio por meio da qual o Logos incriado recebera sua criada humanidade. E de fato esse ministério, chreia, era celebrado com gratidão na observância de sua mneme, ou celebração de Maria. O ministério (chreia) era um fato na história da salvação, a comemoração (mneme) , um fato consumado na prática cristã. Tanto o credo como o calendário da Igreja testemunhavam a doutrina de que a natureza humana de Cristo era a de uma criatura e que a natureza divina de Cristo não era a de um homem. A prova da ligação entre o homem Cristo e a humanidade era “a comemoração e o oficio de Maria”, que seria supérflua se a humanidade de Cristo fosse uma espécie de componente de sua preexistência como o Logos de Deus. Apesar de as evidências deixarem claro que é inegável o fato de que Atanásio jamais elaborou uma justificativa satisfatória para as implicações da total e verdadeira humanidade do Senhor como ele o fez com relação a sua divindade, também Fica evidente que ambos os aspectos de sua “dupla explicação” estavam voltados para a autoridade da fé ortodoxa.

Na composição e identificação dessa autoridade, o culto e a devoção da Igreja eram vistos como elementos importantes na definição do que Atanásio, na conclusão de sua Carta a Epicteto, denominou “a profissão da fé devocional e ortodoxa” [he homologia tes eusebous kai orthodoxous pisteos] (Atanásio, carta a Epicteto,2). Se Maria era Theotokos, como a linguagem da devoção declarara, a relação entre a divindade e a humanidade de Jesus Cristo deveria ser de tal sorte que justificasse esse termo aparentemente incongruente, e por isso foi necessária a elaboração da doutrina da “comunicação das propriedades”. Se Maria teve a função de “revestir” o Logos de uma autêntica e, portanto, criada humanidade, como a “comemoração de Maria” e a prática da devoção cristã declararam, nenhuma aversão a carne e ao sangue seria permitida para macular a doutrina da encarnação. Para ser considerada dogma da Igreja, a doutrina precisaria não apenas se sujeitar é tradição apostólica — como registrada nas Escrituras e em testemunhos, como os decretos do Concilio de Nicéia — mas também ao culto e à devoção da Igreja católica e apostólica.

A condição humana de Maria em relação a Cristo ainda apontava para outra linha de desenvolvimento, isto é, para a tarefa de especificar de modo mais acurado a maneira de lidar com mais propriedade com os atributos mal empregados pela heresia. No Século IV, a maioria das controvérsias girava em torno de predicados como homoousios ou Theotokos. Porém a literatura sobre as controvérsias também sugere que a definição de heresia era a má interpretação de um atributo, para a qual a resposta Ortodoxa foi um esclarecimento mais preciso. A resposta satisfatória foi encontrada apenas pelo Concílio de Éfeso e em épocas posteriores a ele, porém atualmente, com a visão proporcionada pelo distanciamento, ela é considerada como o primeiro estágio do desenvolvimento da controvérsia ariana.

Nas palavras de Henry Gwatkin, a heresia ariana “degradou o Senhor dos Santos, colocando-o no mesmo nível de suas criaturas”. Ela atribuía a Cristo mais do que imputava a qualquer outro santo, porém menos do que era atribuído a suprema Divindade. A doutrina ariana concernente aos santos não é fácil de ser reconstituída a partir de seus fragmentos, apesar de sabermos que a Thalia de Arius falava dos “eleitos de Deus e dos homens sábios de Deus, seus sagrados filhos” (citação de Atanásio, Orações contra os arianos, 1,5). Há alguma evidência de que certas lendas sobre os santos foram transmitidas por fontes arianas,” mas estamos mais bem informados a respeito da Visão ariana sobre as relações entre Cristo e os santos. Segundo a carta dos arianos endereçada a Alexandre de Alexandria, O Logos era “uma criatura perfeita de Deus, que não se comparava a uma de suas criaturas” (Citação em Atanásio, sobre os Concílios de Arímino e Seleucia,16; pois ele fora uma criatura através da qual Deus fizera todas as outras. Portanto, a “superioridade” dessa criatura sobre todas as outras consistia no fato de ter sido criada diretamente por Deus, enquanto as outras haviam sido criadas através do Logos. Consequentemente, o Logos era perfeito em sua preexistência, mas em sua carreira terrena ele se tomara perfeito. Ao retratar o homem Jesus Cristo, o arianismo parecia ter combinado a negação da presença de uma alma humana em sua pessoa com a doutrina de Paulo de Samosata, que afirmava que ele se tornara merecedor da condição de “Filho de Deus” por seu “progresso moral” [prokope] ((Citação em Atanásio, sobre os Concílios de Arímino e Seleucia 26). Supunha-se que os arianos acreditavam que Deus o elegera “pela presciência” de que Cristo não se rebelaria contra ele e iria, “por cuidado e autodisciplina” [dia epimeleian kai askesin], triunfar sobre sua “natureza mutável” e permanecer “fiel“ (citação de Teodoro, História eclesiástica, 1, 12-13). Como a condição de filho do Logos era um atributo de sua perfeição como criatura, e a qualidade de filho de Deus do homem Jesus era consequência de sua perfeita obediência, a diferença entre a sua condição de filho e a natureza dos santos era quantitativa e não qualitativa. Pela obediência perfeita os santos poderiam, no final, atingir o mesmo estado de merecimento.

A doutrina ariana, afirmando que os santos eram participes da condição de Cristo como filho de Deus, tinha sua contraparte no preceito de Atanásio que declarava essa participação através da “divinização”. “Por nossa ligação com seu corpo também nos tornamos o templo de Deus e, como consequência, nos transformamos em filhos de Deus, de tal modo que, até mesmo em nós, o Senhor está sendo reverenciado” (Atanásio, oração contra os arianos, 1,43). Os santos não atingiriam a condição de filho pela imitação de Cristo, mas, essencialmente, pela sua transformação por Cristo, que, segundo o famoso preceito atanasiano, se tornou humano para que os santos pudessem se tornar divinos. São Atanásio não acreditava que essa transformação e divinização fossem possíveis apenas porque o Logos era Criador e não criatura. O Salvador era o mediador entre Deus e a humanidade apenas porque ele próprio era Deus. Ele não atingira um novo status por ser o maior de todos os santos, mas fora restaurado a seu status eterno depois de cumprir na Terra a missão para a qual fora enviado como homem. Porém, os santos se tornaram filhos de Deus, criaturas nas quais o Criador habitava de modo tão completo que Ele podia ser cultuado neles. Esse foi o atributo que o arianismo tentou imputar a Cristo, uma criatura na qual o Criador, habitava tão plenamente que Deus podia ser adorado em sua pessoa, o maior de todos os santos e, portanto, mediador entre Deus e a humanidade.

Traçando uma linha divisória entre o Criador e a criatura e confessando que o Filho de Deus se encontrava ao lado de Deus, a ortodoxia nicena tornava possível e necessária a distinção qualitativa entre ele e até mesmo o maior dos santos, entre sua mediação incriada e sua intercessão criada. Agora que as afirmações arianas estavam mudadas, o que aconteceria com todos esses atributos? O que analisamos até o momento no marismo de Atanásio parece indicar que, em um sentido bastante diverso do que foi inferido por Harnack,“tudo o que os arianos ensinaram sobre Cristo, a ortodoxia passou a ensinar sobre Maria”, de modo que esses atributos da criatura não mais se aplicavam a Jesus Cristo, Filho de Deus, mas à Virgem Maria, Mãe de Deus. O retrato de Maria na Carta as virgens, de Atanásio, concorda com a descrição ariana do Filho de Deus, afirmando que ela “fora escolhida porque, apesar de mutável por natureza, seu esmerado caráter não sofrera nenhuma deterioração”. Atanásio falou de seu “progresso” e talvez até tenha usado a palavra prokope [progresso moral] , que os arianos empregaram para Cristo (Atanásio, carta às virgens.Segundo Atanásio, a evolução de Maria envolveu conflitos, dúvidas e pensamentos maus, mas ela triunfou sobre eles e assim conseguiu se tornar “a imagem e o modelo” de virgindade para todos os que buscam a perfeição, isto é, a maior de todos os santos. Como mencionamos anteriormente na análise de toda a sua doutrina, a linguagem devocional (Theotokos, “Mãe de Deus”) e a prática piedosa (mneme, “comemoração”) que estavam por trás do marismo de Atanásio eram o principal exemplo de que uma criatura pode se tornar merecedora de culto por ter se tornado a morada do Criador. O hino no qual Atanásio talvez tenha encontrado o titulo Theotokos era o original grego da conhecida versão latina Sub tuum praesidium, que possivelmente deu origem a esse culto.

Para outras controvérsias, é necessário procurar maiores esclarecimentos sobre a doutrina, mas ao esclarecermos esta polêmica podemos ver que, já em Atanásio, ela se constituiu em uma evolução, pela especificação do assunto. Quando esse desenvolvimento realmente aconteceu, apareceu em primeiro lugar, e mais plenamente, nos países de língua grega do Oriente, onde a pressuposição ascética e devocional da doutrina de Maria já estava presente muito antes de surgir no Ocidente.

 
 
 
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