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Por Papa Bento XVI Tradução: Vaticano Fonte: Vaticano

Amados Irmãos e Irmãs,

Na nova série de catequeses começamos antes de tudo a compreender melhor o que é a Igreja, qual é a ideia do Senhor sobre esta sua nova família. Depois dissemos que a Igreja existe nas pessoas. E vimos que o Senhor confiou esta nova realidade, a Igreja, aos doze Apóstolos. Agora queremos vê-los um por um, para compreender nas pessoas o que significa viver a Igreja, o que significa seguir Jesus. Começamos com São Pedro.

Depois de Jesus, Pedro é a personagem mais conhecida e citada nos escritos neotestamentários: é mencionado 154 vezes com o cognome de Pétros, “pedra”, “rocha”, que é a tradução grega do nome aramaico que lhe foi dado directamente por Jesus Kefa, afirmado nove vezes sobretudo nas cartas de Paulo; depois, deve-se acrescentar o nome frequente Simòn(75 vezes), que é a forma helenizada do seu original nome hebraico Simeon (2 vezes: Act 15, 14; 2 Pd 1, 1). Filho de João (cf. Jo 1, 42) ou, na forma aramaica, bar-Jona, filho de Jonas (cf. Mt 16, 17), Simão era de Betsaida (cf. Jo 1, 44), uma cidadezinha a oriente do mar da Galileia, da qual provinha também Filipe e naturalmente André, irmão de Simão. O seu modo de falar traía o sotaque galileu. Também ele, como o irmão, era pescador: com a família de Zebedeu, pai de Tiago e de João, dirigia uma pequena empresa de pesca no lago de Genesaré (cf. Lc 5, 10). Por isso devia gozar de um certo bem-estar económico e era animado por um sincero interesse religioso, por um desejo de Deus ele queria que Deus interviesse no mundo um desejo que o estimulou a ir com o irmão até à Judeia para seguir a pregação de João Baptista (cf. Jo 1, 35-42).

Era um judeu crente e praticante, confiante na presença activa de Deus na história do seu povo, e sofria por não ver a sua acção poderosa nas vicissitudes das quais ele era, naquele momento, testemunha. Era casado e a sogra, curada um dia por Jesus, vivia na cidade de Cafarnaum, na casa na qual também Simão vivia quando estava naquela cidade (cf. Mt 8, 14 s; Mc 1, 29 s; Lc 4, 38 s).

Recentes escavações arqueológicas permitiram trazer à luz, sob a pavimentação em mosaicos octagonais de uma pequena igreja bizantina, os vestígios de uma igreja mais antiga existente naquela casa, como afirmam os grafites com invocações a Pedro. Os Evangelhos informam-nos que Pedro é um dos primeiros quatro discípulos do Nazareno (cf. Lc 5, 1-11), aos quais se junta um quinto, segundo o costume de cada Rabino de ter cinco discípulos (cf. Lc 5, 27: chamada de Levi).

Quando Jesus passa de cinco para doze discípulos (cf. Lc 9, 1-6), será clara a novidade da sua missão: Ele já não é um entre tantos rabinos, mas veio para reunir o Israel escatológico, simbolizado pelo número doze, como doze eram as tribos de Israel.

Simão aparece nos Evangelhos com um carácter decidido e impulsivo; ele está disposto a fazer valer as próprias razões também com a força (pense-se no uso da espada no Horto das Oliveiras: cf. Jo 18, 10 s). Ao mesmo tempo, por vezes é também ingénuo e medroso, e contudo honesto, até ao arrependimento mais sincero (cf. Mt 26, 75). Os Evangelhos permitem seguir passo a passo o seu itinerário espiritual. O ponto de partida é a chamada da parte de Jesus. Acontece num dia qualquer, enquanto Pedro está empenhado no seu trabalho de pescador. Jesus encontra-se junto do lago de Genesaré e a multidão reúne-se à sua volta para o ouvir. O número dos ouvintes gera uma certa confusão. O Mestre vê duas barcas ancoradas à margem; os pescadores desceram e lavam as redes. Então Ele pede para entrar na barca, na de Simão, e pede-lhe que se faça ao largo. Sentado naquela cátedra improvisada, da barca, começa a ensinar à multidão (cf. Lc 5, 1-3). E assim a barca de Pedro torna-se a cátedra de Jesus. Quando terminou de falar, diz a Simão: “Faz-te ao largo e lança as redes para a pesca”. Simão responde: “Mestre, trabalhámos durante toda a noite e nada apanhámos; mas, porque tu o dizes, lançarei as redes” (Lc 5, 4-5). Jesus, que era um carpinteiro, não era perito em pesca: mas Simão, o pescador, confia neste Rabino, que não lhe dá respostas mas o chama a ter confiança. A sua reacção diante da pesca milagrosa é de admiração e de trepidação: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5, 8). Jesus responde convidando-o a ter confiança e a abrir-se a um projecto que ultrapassa qualquer sua perspectiva: “Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens” (Lc 5, 10). Pedro ainda não podia imaginar que um dia teria chegado a Roma e seria nessa cidade “pescador de homens” para o Senhor. Ele aceita esta chamada surpreendente, de se deixar envolver nesta grande aventura: é generoso, reconhece os seus limites, mas crê n’Aquele que o chama e segue o sonho do seu coração. Diz sim um sim corajoso e generoso e torna-se discípulo de Jesus.

Pedro vive outro momento significativo no seu caminho espiritual nas proximidades de Cesareia de Filipe, quando Jesus faz aos discípulos uma pergunta concreta: “Quem dizem os homens que Eu sou?” (Mc 8, 27). Mas para Jesus não era suficiente a resposta do ter ouvido dizer. Daqueles que aceitaram comprometer-se pessoalmente com Ele pretende uma tomada de posição pessoal. Por isso insiste: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” (Mc 8, 29). Responde Pedro também em nome dos outros: “Tu és o Messias” (ibid.), isto é, Cristo. Esta resposta de Pedro, que não veio “da carne e do sangue” dele, mas foi-lhe concedida pelo Pai que está no céu (cf. Mt 16, 17), tem em si como que em gérmen a futura confissão de fé da Igreja. Contudo, Pedro ainda não tinha compreendido o conteúdo profundo da missão messiânica de Jesus, o novo sentido desta palavra: Messias.

Demonstra-o pouco depois, deixando compreender que o Messias que persegue nos seus sonhos é muito diferente do verdadeiro projecto de Deus. Perante o anúncio da paixão escandaliza-se e protesta, suscitando uma reacção enérgica de Jesus (cf. Mc 8, 32-33). Pedro quer um Messias “homem divino”, que cumpra as expectativas do povo impondo a todos o seu poder: é também nosso desejo que o Senhor imponha o seu poder e transforme imediatamente o mundo; Jesus apresenta-se como o “Deus humano”, o servo de Deus, que altera as expectativas da multidão encaminhando-se por uma via de humildade e de sofrimento. É a grande alternativa, que também nós devemos aprender sempre de novo: privilegiar as próprias expectativas recusando Jesus ou acolher Jesus na verdade da sua missão e abandonando as expectativas demasiado humanas.

Pedro impulsivo como é não hesita em repreender Jesus separadamente. A resposta de Jesus abala todas as suas falsas expectativas, quando o chama à conversão e ao seguimento: “Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mc 8, 33). Não me indiques tu o caminho, eu sigo o meu percurso e tu põe-te atrás de mim.

Pedro aprende desta forma o que significa verdadeiramente seguir Jesus. É a sua segunda chamada, análoga à de Abraão em Gn 22, depois de Gn 12: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la” (Mc 8, 34-35). É a lei exigente do seguimento: é preciso saber renunciar, se for necessário, ao mundo inteiro para salvar os verdadeiros valores, para salvar a alma, para salvar a presença de Deus no mundo (cf. Mc 8, 36-37). Mesmo com dificuldade, Pedro aceita o convite e prossegue o seu caminho seguindo os passos do Mestre.

Parece-me que estas diversas conversões de São Pedro e toda a sua figura são de grande conforto e um forte ensinamento para nós. Também nós sentimos o desejo de Deus, também nós queremos ser generosos, mas também nós esperamos que Deus seja forte no mundo e transforme imediatamente o mundo segundo as nossas ideias, segundo as necessidades que vemos. Deus escolhe outro caminho. Deus escolhe o caminho da transformação dos corações no sofrimento e na humildade. E nós, como Pedro, devemos converter-nos sempre de novo. Devemos seguir Jesus em vez de o preceder: é Ele quem nos indica o caminho. Assim Pedro diz-nos: Tu pensas que tens a receita e que deves transformar o cristianismo, mas é o Senhor quem conhece o caminho. É o Senhor que diz a mim, diz a ti: segue-me! E devemos ter coragem e humildade para seguir Jesus, porque Ele é o caminho, a Verdade e a Vida.

O APÓSTOLO

Nestas catequeses estamos a meditar sobre a Igreja. Dissemos que a Igreja vive nas pessoas e, por isso, na última catequese, começámos a meditar sobre as figuras de cada um dos Apóstolos, começando por São Pedro. Vimos duas etapas decisivas da sua vida: a chamada junto do Lago da Galileia e, depois, a profissão de fé: “Tu és Cristo, o Messias”. Uma confissão, dissemos, ainda insuficiente, inicial e contudo aberta. São Pedro coloca-se num caminho de seguimento. E assim, esta confissão inicial tem em si, como em gérmen, já a futura fé da Igreja. Hoje queremos considerar outros dois acontecimentos importantes na vida de Pedro: a multiplicação dos pães ouvimos no trecho agora lido a pergunta do Senhor e a resposta de Pedro e depois o Senhor que chama Pedro para ser pastor da Igreja universal.

Comecemos com a vicissitude da multiplicação dos pães. Vós sabeis que o povo tinha ouvido o Senhor durante horas. No fim, Jesus diz: estão cansados, têm fome, devemos dar de comer a este povo. Os Apóstolos perguntam: Mas como? E André, irmão de Pedro, chama a atenção de Jesus para um jovem que levava consigo cinco pães e dois peixes. Mas o que são para tantas pessoas, interrogam-se os Apóstolos. Mas o Senhor faz sentar as pessoas e distribuir estes cinco pães e os dois peixes e todos se saciam. Aliás, o Senhor encarrega os Apóstolos, e entre eles Pedro, que recolham o que sobrou em abundância: doze cestas de pão (cf. Jo 6, 12-13). Sucessivamente o povo, vendo este milagre que parece ser a renovação, tão esperada de um novo “maná”, do dom do pão do céu deseja fazer dele o seu rei. Mas Jesus não aceita e retira-se para o monte para rezar sozinho. No dia seguinte, Jesus na outra margem do lago, na Sinagoga de Cafarnaum, interpretou o milagre não no sentido de uma realeza sobre Israel com um poder deste mundo no modo esperado pela multidão, mas no sentido da doação de si: “o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo” (Jo 6, 51). Jesus anuncia a cruz, e com a cruz a verdadeira multiplicação dos pães, o pão eucarístico o seu modo absolutamente novo de ser rei, um modo totalmente contrário às expectativas do povo.

Nós podemos compreender como estas palavras do Mestre que não deseja cumprir todos os dias uma multiplicação dos pães, que não quer oferecer a Israel um poder deste mundo pareciam verdadeiramente difíceis, aliás, inaceitáveis para a multidão. “Da sua carne”: O que significa? E também para os discípulos é inaceitável o que Jesus diz neste momento. Era e é para o nosso coração, para a nossa mentalidade, um sermão “duro”, que provava a fé (cf. Jo 6, 60). Muitos dos discípulos se afastaram. Queriam alguém que renovasse realmente o Estado de Israel, do seu povo, e não um que dizia: “Eu dou a minha carne”. Podemos imaginar como as palavras de Jesus eram difíceis também para Pedro, que em Cesareia de Filipe se tinha oposto à profecia da cruz. E contudo quando Jesus perguntou aos doze: “Quereis retirar-vos vós também?”, Pedro reagiu com o impulso do seu coração generoso, guiado pelo Espírito Santo. Em nome de todos respondeu com palavras imortais, que são também nossas: “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna; nós cremos e conhecemos que tu és o Santo de Deus” (cf. Jo 6, 66-69).

Aqui, como em Cesareia, com as suas palavras Pedro começa a profissão da fé cristológica da Igreja e torna-se também o intérprete dos outros Apóstolos e também de nós, crentes de todos os tempos. Isto não significa que já tivesse compreendido o mistério de Cristo em toda a sua profundidade. A sua fé ainda estava no início, uma fé a caminho; teria chegado à verdadeira plenitude apenas mediante a experiência dos acontecimentos pascais. Mas contudo já era fé, aberta à realidade maior aberta sobretudo porque não era fé em algo, era fé em Alguém: n’Ele, Cristo. Assim, também a nossa fé é sempre uma fé inicial, e devemos percorrer ainda um longo caminho. Mas é fundamental que seja uma fé aberta e que nos deixemos guiar por Jesus, porque Ele não só conhece o Caminho, mas é o Caminho.

Mas a generosidade impetuosa de Pedro não o salvaguarda dos riscos relacionados com a debilidade humana. De resto, é o que também nós podemos reconhecer com base na nossa vida. Pedro seguiu Jesus com ímpeto, superou a prova da fé, abandonando-se a Ele. Contudo chega o momento no qual também ele cede aos receios e cai: trai o Mestre (cf. Mc 14, 66-72). A escola da fé não é uma marcha triunfal, mas um caminho repleto de sofrimentos e de amor, de provas e de fidelidade a ser renovada todos os dias. Pedro, que já tinha prometido fidelidade absoluta, conhece a amargura e a humilhação da renegação: o atrevido aprende à sua custa a humildade. Também Pedro deve aprender a ser frágil e carente de perdão. Quando finalmente perde a máscara e compreende a verdade do seu coração frágil de pecador crente, cai num libertador choro de arrependimento. Depois deste choro ele já está pronto para a sua missão.

Numa manhã de Primavera esta missão ser-lhe-á confiada por Jesus ressuscitado. O encontro será na margem do lago de Tiberíades. O evangelista João narra-nos o diálogo que naquela circunstância se realiza entre Jesus e Pedro. Nele revela-se um jogo de verbos muito significativo. Em grego o verbo “filéo” expressa o amor de amizade, terno mas não totalizante enquanto o verbo “agapáo” significa o amor sem reservas, total e incondicionado. Jesus pergunta a Pedro pela primeira vez: “Simão… tu amas-Me (agapâs-me)” com este amor total e incondicionado ( cf. Jo 21, 15)? Antes da experiência da traição o Apóstolo teria certamente respondido: “Amo-Te (agapô-se) incondicionalmente”. Agora, que conheceu a amarga tristeza da infidelidade, o drama da própria debilidade, diz apenas: “Senhor… tu sabes que sou deveras teu amigo (filô-se), isto é, “amo-te com o meu pobre amor humano”. Cristo insiste: “Simão, tu amas-Me com este amor total que Eu quero?”. E Pedro repete a resposta do seu humilde amor humano: “Kyrie, filô-se”, “Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo”. Pela terceira vez Jesus pergunta a Simão: “Fileîs-me?”, “tu amas-Me?”. Simão compreende que para Jesus é suficiente o seu pobre amor, o ùnico de que é capaz, e contudo sente-se entristecido porque o Senhor teve que lhe falar daquele modo. Por isso, responde: “Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo! (filô-se)”. Seria para dizer que Jesus se adaptou a Pedro, e não Pedro a Jesus! É precisamente esta adaptação divina que dá esperança ao discípulo, que conheceu o sofrimento da infidelidade. Surge daqui a confiança que o torna capaz do seguimento até ao fim: “E disse isto para indicar o género de morte com que ele havia de dar glória a Deus. Depois destas palavras acrescentou: “Segue-Me”!” (Jo 21, 19).

A partir daquele dia Pedro “seguiu” o Mestre com a clara consciência da própria fragilidade; mas esta consciência não o desencorajou. De facto, ele sabia que podia contar com a presença do Ressuscitado. Dos ingénuos entusiasmos da adesão inicial, passando pela experiência dolorosa da negação e pelo choro da conversão, Pedro alcançou a confiança naquele Jesus que se adaptou à sua pobre capacidade de amor. E mostra assim também a nós o caminho, apesar da nossa debilidade. Sabemos que Jesus se adapta a esta nossa debilidade.

Nós seguimo-lo com a nossa capacidade de amor e sabemos que Jesus é bom e nos aceita. Para Pedro foi um longo caminho que fez dele uma testemunha de confiança, “pedra” da Igreja, porque constantemente aberto à acção do Espírito de Jesus. O próprio Pedro qualificar-se-á como “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há-de manifestar” (1 Pd 5, 1). Quando escreveu estas palavras já era idoso, encaminhado para a conclusão da sua vida que selou com o martírio.

Então, foi capaz de descrever a alegria verdadeira e de indicar de onde ela pode ser obtida: a fonte é Cristo acreditado e amado com a nossa fé frágil mas sincera, apesar da nossa fragilidade. Por isso escreveu aos cristãos da sua comunidade, e di-lo também a nós: “Sem o terdes visto, vós o amais; sem o ver ainda, credes nele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante, alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas” (1 Pd 1, 8-9).

A PEDRA

Retomamos as catequeses semanais que iniciámos nesta primavera. Na última, de há quinze dias, falei de Pedro como o primeiro dos Apóstolos; hoje, queremos voltar mais uma vez sobre esta grande e importante figura da Igreja. O evangelista João, narrando o primeiro encontro de Jesus com Simão, irmão de André, registra um acontecimento singular: Jesus, “fixando nele o olhar… disse: “Tu és Simão, o filho de João. Hás-de chamar-te Cefas que significa Pedra”” (Jo 1, 42). Jesus não costumava mudar o nome aos seus discípulos. Se excluirmos o apelativo de “filhos do trovão”, dirigido numa circunstância precisa aos filhos de Zebedeu (cf. Mc 3, 17) que não voltou a usar sucessivamente, Ele nunca atribuiu um novo nome a um discípulo seu. Mas fê-lo com Simão, chamado-o Cefas, nome que depois foi traduzido em grego Petros, em latim Petrus. E foi traduzido precisamente porque não era só um nome; era um “mandato” que Pedro recebia daquele modo do Senhor. O novo nome Petrus voltará várias vezes nos Evangelhos e terminará por substituir o nome originário, Simão.

O facto adquire relevo particular se se considera que, no Antigo Testamento, a mudança do nome anunciava em geral a designação de uma missão (cf. Gn 17, 5; 32, 28ss, etc.). De facto, a vontade de Cristo de atribuir a Pedro um papel especial no âmbito do Colégio apostólico resulta de numerosos indícios: em Cafarnaum o Mestre é hospedado em casa de Pedro (Mc 1, 29); quando a multidão se comprime nas margens do lago de Genesaré, entre as duas barcas ali ancoradas, Jesus escolhe a de Simão (Lc 5, 3); quando em circunstâncias particulares Jesus se faz acompanhar só por três discípulos, Pedro é sempre recordado como primeiro do grupo: assim na ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 9, 2; Mt 17, 1; Lc 9, 28), e por fim durante a agonia no Horto do Getsémani (cf. Mc 14, 33; Mt 16, 37). E ainda: dirigem-se a Pedro os cobradores do imposto para o Templo e o Mestre paga para si e somente para ele (cf. Mt 17, 24-27); a quem lava primeiro os pés é a Pedro (cf. Jo 13, 6) e reza unicamente por ele para que não lhe venha a faltar a fé e possa depois confirmar nela os outros discípulos (cf. Lc 22, 30-31).

De resto, o próprio Pedro tem consciência desta sua posição particular: com frequência é ele que, em nome também dos outros, toma a palavra para pedir a explicação de uma parábola difícil (Mt 15, 15), ou o sentido exacto de um preceito (Mt 18, 21) ou a promessa formal de uma recompensa (Mt 19, 27). Em particular, é ele quem resolve o embaraço de determinadas situações intervindo em nome de todos. E também quando Jesus, desanimado pela incompreensão da multidão depois do discurso sobre o “pão de vida”, pergunta: “Também vós quereis ir embora?”, a resposta de Pedro é peremptória: “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna” (cf. Jo 6, 67-69). Igualmente decidida é a profissão de fé que, ainda em nome dos Doze, ele faz perto de Cesareia de Filipe. A Jesus que pergunta: “Vós quem dizeis que Eu sou?”, Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 15-16). Em resposta Jesus pronuncia então a declaração solene que define, de uma vez para sempre, o papel de Pedro na Igreja: “Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja… Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu” (Mt 16. 18-19). As três metáforas às quais Jesus recorre são em si muito claras: Pedro será o fundamento rochoso sobre o qual apoiará o edifício da Igreja; ele terá as chaves do Reino dos céus para abrir ou fechar a quem melhor julgar; por fim, ele poderá ligar ou desligar no sentido que poderá estabelecer ou proibir o que considerar necessário para a vida da Igreja, que é e permanece Cristo. É sempre Igreja de Cristo e não de Pedro. Deste modo, é descrito com imagens de plástica evidência o que a reflexão sucessiva qualificará com a palavra de “primazia de jurisdição”.

Esta posição de preeminência que Jesus decidiu conferir a Pedro verifica-se também depois da ressurreição: Jesus encarrega as mulheres de ir anunciar a Pedro, distintamente dos outros Apóstolos (cf. Mc 16, 7); Madalena vai ter com ele e com João para os informar que a pedra tinha sido afastada da entrada do sepulcro (cf. Jo 20, 2) e João dá-lhe a precedência quando chegam diante do túmulo vazio (cf. Jo 20, 4-6); será depois Pedro, entre os Apóstolos, a primeira testemunha de uma aparição do Ressuscitado (cf. Lc 24, 34; 1 Cor 15, 5). Este seu papel, realçado com decisão (cf. Jo 20, 3-10), marca a continuidade entre a preeminência obtida no grupo apostólico e a preeminência que continuará a ter na comunidade que nasceu depois dos acontecimentos pascais, como afirma o Livro dos Actos (cf. 1, 15-26; 2, 14-40; 3, 12-26; 4, 8-12; 5, 1-11.29; 8, 14-17; 10; etc.). O seu comportamento é considerado tão decisivo, que está no centro de observações e também de críticas (cf. Act 11, 1-18; Gl 2, 11-14). Ao chamado Concílio de Jerusalém Pedro desempenha uma função directiva (cf. Act 15 3; Gl 2, 1-10), e precisamente por este seu ser como testemunha da fé autêntica o próprio Paulo reconhecerá nele uma certa qualidade de “primeiro” (cf. 1 Cor 15, 5; Gl 1, 18; 2, 7s.; etc.). Depois, o facto de que vários textos-chave relativos a Pedro possam ser relacionados com o contexto da Última Ceia, na qual Cristo confere a Pedro o ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22, 31s.), mostra como a Igreja que nasce do memorial pascal celebrado na Eucaristia tenha no ministério confiado a Pedro um dos seus elementos constitutivos.

Esta contextualização da Primazia de Pedro na Última Ceia, no momento institutivo da Eucaristia, Páscoa do Senhor, indica também o sentido último desta Primazia: Pedro deve ser, para todos os tempos, o guardião da comunhão com Cristo; deve guiar à comunhão com Cristo; deve preocupar-se por que a rede não se rompa e assim possa perdurar a comunhão universal. Só juntos podemos estar com Cristo, que é o Senhor de todos. A responsabilidade de Pedro é garantir assim a comunhão com Cristo com a caridade de Cristo, conduzindo à realização desta caridade na vida de todos os dias. Rezemos para que a Primazia de Pedro, confiada a pobres pessoas humanas, possa ser sempre exercida neste sentido originário querido pelo Senhor e, assim, possa ser cada vez mais reconhecida no seu verdadeiro significado pelos irmãos que ainda não estão em plena comunhão connosco.

 
 
 

Roma, 18 Abr. 08 / 07:00 pm (

ACI).- A missiva, publicada no fim de semana pelo L’Osservatore Romano, foi escrita em ocasião da Jornada Mundial pela Santificação dos sacerdotes, que se celebra em 30 de maio, Solenidade do Sagrado Coração do Jesus.

Depois de destacar a “prioridade da oração em relação à ação, enquanto que da primeira depende a incessante atividade”, o Cardeal Hummes explica que “da relação pessoal de cada um com o Senhor Jesus depende enormemente a missão da Igreja“.

“A missão, então, deve ser nutrida pela oração. ‘Chegou o momento de reafirmar a importância da oração frente ao activismo e ao secularismo‘ (Bento XVI, Deus caritas est, n° 37). Não nos estanquemos de procurar a sua misericórdia, de deixá-lo olhar e curar as feridas dolorosas de nosso pecado e assombremo-nos frente ao milagre, sempre novo, de nossa humanidade redimida”, prossegue o Cardeal.

Logo de encorajar que os sacerdotes sejam “peritos da misericórdia de Deus em nós, para que assim sejamos instrumentos no abraço, de modo sempre renovado, da humanidade ferida”, o Cardeal sublinhou que “somos, enfim, presbíteros graças ao ato mais alto da misericórdia de Deus e à contemplação de sua predileção: o sacramento da Ordem”.

Seguidamente, assinalou que “a dimensão mais autêntica de nosso sacerdócio é a mendicidade, a oração simples e contínua, que se aprende na oração silenciosa que sempre caracterizou a vida dos santos e é solicitada insistentemente”.

O Prefeito da Congregação para o Clero remarcou que “a única medida adequada, frente a nossa Santa vocação, é a radicalidade. Esta total dedicação, na consciência de nossa infidelidade, pode aparecer somente como uma renovada decisão em oração que, logo, Cristo realiza dia a dia”.

Depois de reconhecer que “o mesmo dom do celibato sacerdotal surge do acolher e viver nesta dimensão de radicalidade e plena configuração a Cristo”, o Cardeal Hummes advertiu energicamente que “qualquer outra posição, em relação à realidade da relação com Ele, corre o risco de converter-se em ideologia”.

“Sejamos fiéis, queridíssimos irmãos, à celebração cotidiana da Santíssima Eucaristia, não para cumprir um esforço pastoral ou um ensino da comunidade confiada a nós, mas sim pela absoluta necessidade pessoal que advertimos em nós, como a respiração, como a luz para nossa vida, como a única razão adequada para uma existência sacerdotal adequada”, alentou.

Ao colocar de relevo a necessidade dos sacerdotes da adoração eucarística cotidiana, o Prefeito assegurou que “como o fato de ser missionária é intrínseco à natureza mesma da Igreja, do mesmo modo a nossa missão está inscrita na identidade sacerdotal, e assim a urgência missionária é uma questão de consciência de nós mesmos”.

“Fundamente imprescindível da inteira vida sacerdotal é a Santa Mãe de Deus. A relação com ela não pode se resolver em uma piedosa prática devocional, mas sim está nutrida pelo contínua entrega, entre os braços da sempre Virgem, de toda a nossa vida, de nosso ministério em sua totalidade”, disse.

“Confiamo-nos à intercessão da Virgem Santa Reina dos Apóstolos, Mãe muito doce, olhamos com ela a Cristo, na contínua tensão de ser totalmente, radicalmente seus. Esta é nossa identidade!”, continuou.

“O Senhor nos guie e proteja a todos e cada um, de maneira especial aos doentes e o que sofrem, na constante oferenda de nossa vida por amor”, finalizou o Cardeal.

 
 
 

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de abril de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos a homilia que Bento XVI pronunciou nesta quarta-feira, ao presidir a celebração eucarística no 3º aniversário do falecimento de João Paulo II.

* * *

Queridos irmãos e irmãs:

O dia 2 de abril ficou gravado na memória da Igreja como o dia do «adeus» a este mundo do servo de Deus o Papa João Paulo II. Revivamos com emoção as horas daquele sábado à tarde, quando a notícia do falecimento foi acolhida por uma grande multidão em oração, que enchia a Praça de São Pedro. Durante vários dias, a Basílica Vaticana e esta praça se converteram verdadeiramente no coração do mundo. Um rio ininterrupto de peregrinos prestou homenagem aos restos mortais do venerado pontífice e seus funerais supuseram um ulterior testemunho da estima e do afeto que ele havia conquistado no espírito de tantos crentes e pessoas de todos os lugares da terra.

Assim como três anos atrás, tampouco hoje passou muito tempo desde a Páscoa. O coração da Igreja se encontra ainda submerso no mistério da Ressurreição do Senhor. Realmente podemos ler toda a vida de meu querido predecessor, em particular seu ministério petrino, segundo o sinal de Cristo Ressuscitado. Ele tinha uma fé extraordinária n’Ele, e com Ele mantinha uma conversa íntima, singular, ininterrupta. Entre suas muitas qualidades humanas e sobrenaturais, tinha uma excepcional sensibilidade espiritual e mística.

Bastava observá-lo enquanto rezava: ele se submergia literalmente em Deus e parecia que todo o resto naqueles momentos era distante. Nas celebrações litúrgicas, estava atento ao mistério em ato, com uma aguda capacidade para perceber a eloqüência da Palavra de Deus no devir da história, penetrando no nível profundo do desígnio de Deus. A santa missa, como repetiu com freqüência, era para ele o centro de cada dia e de toda a existência. A realidade «viva e santa» da Eucaristia que lhe dava energia espiritual para guiar o povo de Deus no caminho da história.

João Paulo II expirou na vigília do segundo domingo da Páscoa, «o dia que o Senhor fez para nós». Toda sua agonia aconteceu nesse «dia», em um espaço-tempo novo, que é o «oitavo dia», querido pela Santíssima Trindade através da obra do Verbo encarnado, morto e ressuscitado. O Papa João Paulo II demonstrou em várias ocasiões que já antes, durante sua vida, e especialmente no cumprimento da missão de Sumo Pontífice, ele se encontrava de alguma maneira nesta dimensão espiritual.

Seu pontificado, em seu conjunto e em muitos momentos específicos, é-nos apresentado como um sinal e um testemunho da Ressurreição de Cristo. O dinamismo pascal, que fez da existência de João Paulo II uma resposta total ao chamado do Senhor, não podia expressar-se sem participar nos sofrimentos e na morte do divino Mestre e Redentor. «É certa esta afirmação do apóstolo Paulo: «Se morremos com Ele, também viveremos com ele; se nos mantemos firmes, também reinaremos com ele» (2 Timóteo 2, 11-12).

Desde criança, Karol Wojtyla havia experimentado a verdade destas palavras, ao encontrar a cruz em seu caminho, em sua família e em seu povo. Muito cedo decidiu levá-la junto a Jesus, seguindo seus passos. Quis ser um servidor fiel seu até acolher o chamado ao sacerdócio como dom e compromisso de toda a vida. Com Ele viveu e com Ele quis morrer. E tudo isso através da singular mediação de Maria Santíssima, Mãe da Igreja, mãe do Redentor íntima e realmente associada a seu mistério salvífico de morte e ressurreição.

Nesta reflexão evocativa nos guiam as leituras bíblicas que acabam de ser proclamadas: «Não tenhais medo!» (Mateus 28, 5). As palavras do anjo da ressurreição, dirigidas às mulheres diante do sepulcro vazio, que acabamos de escutar, converteram-se em uma espécie de lema nos lábios do Papa João Paulo II, desde o solene início de seu ministério petrino. Ele as repetiu em várias ocasiões à Igreja e à humanidade na preparação para o ano 2000, e depois ao atravessar aquela histórica etapa, assim como depois, na aurora do terceiro milênio. Ele as pronunciou sempre com inflexível firmeza, primeiro levantando o báculo pastoral coroado pela cruz e, depois, quando as energias físicas iam-se enfraquecendo, quase agarrando-se a ele, até aquela última Sexta-Feira Santa, na qual participou na Via Sacra desde a capela privada, apresentando entre seus braços a cruz. Não podemos esquecer aquele último e silencioso testemunho de amor a Jesus. Aquela eloqüente cena de sofrimento humano e de fé, naquela última Sexta-Feira Santa, também indicava aos crentes e ao mundo o segredo de toda a vida cristã. Aquele «não tenhais medo» não se baseava nas forças humanas, nem nos êxitos conseguidos, mas unicamente na Palavra de Deus, na cruz e na Ressurreição de Cristo. Na medida que ia desnudando-se totalmente, ao final, inclusive da própria palavra, esta entrega total a Cristo se manifestou com crescente clareza. Como aconteceu com Jesus, também no caso de João Paulo II as palavras cederam lugar no final ao último sacrifício, a entrega de si. E a morte foi o selo de uma existência totalmente entregue a Cristo, conformada com ele inclusive fisicamente, com as marcas do sofrimento e do abandono confiado nos braços do Pai celestial. «Deixem que eu vá ao Pai»: estas – testemunha quem esteve a seu lado – foram suas últimas palavras, cumprimento de uma vida totalmente orientada a conhecer e contemplar o rosto do Senhor.

Venerados e queridos irmãos: eu agradeço a todos por ter-vos unidos a mim nesta missa de sufrágio pelo amado João Paulo II. Dirijo um pensamento particular aos participantes do primeiro congresso mundial sobre a Divina Misericórdia, que começa precisamente hoje, e que quer aprofundar em seu rico magistério sobre este tema. A misericórdia de Deus, disse ele mesmo, é uma chave de leitura privilegiada de seu pontificado. Ele queria que a mensagem do amor misericordioso de Deus alcançasse todos os homens e exortava os fiéis a serem suas testemunhas (cf. Homilia em Cracóvia-Lagiewniki, 17 de agosto de 2002).

Por este motivo, ele quis elevar à honra dos altares a irmã Faustina Kowalska, humilde religiosa convertida por um misterioso desígnio divino na mensageira profética da Divina Misericórdia. O servo de Deus João Paulo II havia conhecido e vivido pessoalmente as terríveis tragédias do século XX, e se perguntou durante muito tempo o que poderia deter o avanço do mal. A resposta só podia ser encontrada no amor de Deus. Só a Divina Misericórdia, de fato, é capaz de pôr limites ao mal; só o amor onipotente de Deus pode derrotar a prepotência dos malvados e o poder destruidor do egoísmo e do ódio. Por este motivo, durante sua última visita à Polônia, ao regressar à sua terra natal, ele disse: «Fora da misericórdia de Deus não existe outra fonte de esperança para o homem» (ibidem).

Agradeçamos ao Senhor porque entregou à Igreja este seu servidor fiel e valente. Louvemos e bendigamos a Virgem Maria por ter velado incessantemente por sua pessoa e seu ministério para benefício do povo cristão e de toda a humanidade. E enquanto oferecemos por sua alma escolhida o Sacrifício redentor, nós lhe pedimos que continue intercedendo do céu por cada um de nós, por mim de maneira especial, a quem a Providência chamou a recolher sua inestimável herança espiritual. Que a Igreja, seguindo seus ensinamentos e exemplos, possa continuar fielmente sua missão evangelizadora, difundindo sem cessar o amor misericordioso de Cristo, manancial de verdadeira paz para o mundo inteiro.

[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri.

© Copyright 2008 – Libreria Editrice Vaticana]

 
 
 
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