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Por Papa Bento XVI Tradução: Zenit Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Na série de nossas catequeses sobre as grandes personalidades da Igreja antiga, chegamos hoje a um excelente bispo africano do século III, São Cipriano, «o primeiro bispo que na África alcançou a coroa do martírio». Sua fama, como testemunha o diácono Pôncio, o primeiro em escrever sua vida, está também ligada à criação literária e à atividade pastoral dos treze anos que se passaram entre sua conversão e o martírio (cf. «Vida» 19, 1; 1,1). Nascido em Cartago no seio de uma rica família pagã, depois de uma juventude dissipada, Cipriano se converte ao cristianismo aos 35 anos. Ele mesmo narra seu itinerário espiritual: «Quando ainda jazia como em uma noite escura, escreve meses depois de seu batismo, me parecia sumamente difícil e fatigoso realizar o que me propunha a misericórdia de Deus… Estava ligado a muitíssimos erros de minha vida passada, e não cria que pudesse libertar-me, até o ponto de que seguia os vícios e favorecia meus maus desejos… Mas depois, com a ajuda da água regeneradora, ficou lavada a miséria de minha vida precedente; uma luz soberana se difundiu em meu coração, um segundo nascimento me regenerou em um ser totalmente novo. De maneira maravilhosa começou a dissipar-se toda dúvida… Compreendia claramente que era terreno o que antes vivia em mim, na escravidão dos vícios da carne, e pelo contrário, era divino e celestial o que o Espírito Santo já havia gerado em mim» («A Donato», 3-4).

Imediatamente depois da conversão, Cipriano, apesar de invejas e resistências, foi eleito ao ofício sacerdotal e à dignidade de bispo. No breve período de seu episcopado, enfrentou as duas primeiras perseguições sancionadas por um edito imperial, a de Décio (250) e a de Valeriano (257-258). Depois da perseguição particularmente cruel de Décio, o bispo teve de empenhar-se com muito esforço por voltar a pôr disciplina na comunidade cristã. Muitos fiéis, de fato, haviam abjurado, ou não haviam tido um comportamento correto ante a prova. Eram os assim chamados «lapsi», ou seja, os «caídos», que desejavam ardentemente voltar a entrar na comunidade. O debate sobre sua readmissão chegou a dividir os cristãos de Cartago em laxistas e rigoristas. A estas dificuldades é preciso acrescentar uma grave epidemia que atingiu a África e que propôs interrogantes teológicos angustiantes, tanto dentro da comunidade como em relação aos pagãos. Deve-se recordar, por último, a controvérsia entre Cipriano e o bispo de Roma, Estevão, sobre a validez do batismo administrado aos pagãos por parte de cristãos hereges.

Nestas circunstâncias realmente difíceis, Cipriano demonstrou elevados dotes de governo: foi severo, mas não inflexível com os «caídos», dando-lhes a possibilidade do perdão depois de uma penitência exemplar; ante Roma, foi firme na defesa das sãs tradições da Igreja africana; foi sumamente compreensivo e cheio do mais autêntico espírito evangélico na hora de exortar os cristãos à ajuda fraterna aos pagãos durante a epidemia; soube manter a justa medida na hora de recordar aos fiéis, muito temerosos de perder a vida e os bens terrenos, que para eles a verdadeira vida e os autênticos bens não são os deste mundo; foi inquebrantável na hora de combater os costumes corruptos e os pecados que devastam a vida moral, sobretudo a avareza.

«Passava dessa forma os dias», conta o diácono Pôncio, «quando por ordem do procônsul, chegou inesperadamente à sua casa o chefe da polícia» («Vidas», 15,1). Nesse dia, o santo bispo foi preso e depois de um breve interrogatório enfrentou valorosamente o martírio no meio de seu povo.

Cipriano compôs numerosos tratados e cartas, sempre ligados a seu ministério pastoral. Pouco proclive à especulação teológica, escrevia sobretudo para a edificação da comunidade e para o bom comportamento dos fiéis. De fato, a Igreja é seu tema preferido. Distingue entre «Igreja visível», hierárquica, e «Igreja invisível», mística, mas afirma com força que a Igreja é uma só, fundada sobre Pedro.

Não se cansa de repetir que «quem abandona a cátedra de Pedro, sobre a qual está fundada a Igreja, fica na ilusão de permanecer na Igreja» («A unidade da Igreja Católica», 4). Cipriano sabe bem, e o disse com palavras fortes, que «fora da Igreja não há salvação» (Epístola 4, 4 e 73,21), e que «não pode ter Deus como Pai que não tem a Igreja como mãe» («A unidade da Igreja Católica», 4). Característica irrenunciável da Igreja é a unidade, simbolizada pela túnica de Cristo sem costura (ibidem, 7): unidade que, segundo diz, encontra seu fundamento em Pedro (ibidem, 4) e sua perfeita realização na Eucaristia (Epístola 63, 13). «Só há um Deus, um só Cristo», exorta Cipriano, «uma só é sua Igreja, uma só fé, um só povo cristão, firmemente unido pelo fundamento da concórdia: e não pode separar-se o que por natureza é um» («A unidade da Igreja Católica», 23).

Falamos de seu pensamento sobre a Igreja, mas não podemos esquecer, por último, o ensinamento de Cipriano sobre a oração. Gosto particularmente de seu livro sobre o «Pai Nosso», que me ajudou muito a compreender melhor e a rezar melhor a oração do Senhor: Cipriano ensina que precisamente no «Pai Nosso» se oferece ao cristão a maneira reta de rezar; e sublinha que esta oração se conjuga no plural «para que quem reza não reze só por si mesmo. Nossa oração — escreve — é pública e comunitária e, quando rezamos, não rezamos só por nós, mas por todo o povo, pois somos uma só coisa com todo o povo» («A oração do Senhor» 8). Deste modo, oração pessoal e litúrgica se apresentam firmemente unidas entre si. Sua unidade se baseia no fato de que respondem à mesma Palavra de Deus. O cristão não diz «Pai meu», mas «Pai nosso», inclusive no segredo de seu quarto fechado, pois sabe que em todo lugar, em toda circunstância, é membro de um mesmo Corpo.

«Rezemos, portanto, irmãos queridos, escreve o bispo de Cartago, como Deus, o Mestre, nos ensinou. É uma oração confidencial e íntima rezar a Deus com o que é seu, elevar a seus ouvidos a oração de Cristo. Que o Pai reconheça as palavras de seu Filho quando elevamos uma oração: que quem habita interiormente no espírito esteja também presente na voz… Quando se reza, também é preciso ter uma maneira de falar e de rezar que, com disciplina, mantenha calma e reserva. Pensemos que estamos ante o olhar de Deus. É necessário ser gratos ante os olhos divinos, tanto com a atitude do corpo como com o tom da voz… E quando nos reunimos junto aos irmãos e celebramos os sacrifícios divinos com o sacerdote de Deus, temos de fazê-lo com temor reverencial e disciplina, sem jogar ao vento por todos os lados nossas orações com vozes desmesuradas, nem lançar com tumultuosa verborréia uma petição que deve ser apresentada a Deus com moderação, pois Deus não escuta a voz, mas o coração (‘non vocis sed cordis auditor est’)» (3-4). Trata-se de palavras que continuam sendo válidas também hoje e que nos ajudam a celebrar bem a santa Liturgia.

Em definitivo, Cipriano se encontra nas origens dessa fecunda tradição teológico-espiritual que vê no «coração» o lugar privilegiado da oração. Segundo a Bíblia e os Padres, de fato, o coração é o íntimo do ser humano, o lugar onde mora Deus. Nele se realiza esse encontro no qual Deus fala ao homem, e o homem escuta Deus; no qual o homem fala a Deus e Deus escuta o homem: tudo isso acontece através da única Palavra divina. Precisamente neste sentido, seguindo São Cipriano, Emaragdo, abade de São Miguel, nos primeiros anos do século IX, testifica que a oração «é obra do coração, não dos lábios, pois Deus não vê as palavras, mas o coração orante» («A diadema dos monges», 1).

Tenhamos este «coração que escuta», do qual nos falam a Bíblia (cf. 1 Reis 3, 9) e os Padres: isso nos faz muita falta! Só assim poderemos experimentar em plenitude que Deus é nosso Pai e que a Igreja, a santa Esposa de Cristo, é verdadeiramente nossa Mãe.

 
 
 

Por Papa Bento XVI Tradução: Zenit Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Com a catequese de hoje retomamos o filho abandonado por ocasião da viagem no Brasil e seguimos falando das grandes personalidades da Igreja antiga: são mestres de fé também para nós hoje e testemunhas da perene atualidade da fé cristã.

Hoje falaremos de um africano, Tertuliano, que entre o final do século II e inícios do século III inaugura a literatura cristã em latim. Com ele começa uma teologia nesse idioma. Sua obra deu frutos decisivos, que seria imperdoável infravalorizar. Sua influência se desenvolve em diversos níveis: desde a linguagem e a recuperação da cultura clássica, até a individualização de uma «alma cristã», comum no mundo e na formulação de novas propostas de convivência humana.

Não conhecemos exatamente as datas de seu nascimento e de sua morte. Contudo, sabemos que em Cartago, ao final do século II, recebeu de pais e mestres pagãos uma sólida formação retórica, filosófica, jurídica e histórica. Converteu-se ao cristianismo atraído, segundo parece, pelo exemplo dos mártires cristãos.

Começou a publicar seus escritos mais famosos no ano 197. Mas uma busca muito individual da verdade junto com a intransigência de seu caráter, o levaram pouco a pouco a abandonar a comunhão com a Igreja e a unir-se à seita do montanismo. Contudo, a originalidade de seu pensamento e a incisiva eficácia de sua linguagem lhe dão um lugar de particular importância na literatura cristã antiga.

São famosos sobretudo seus escritos de caráter apologético. Manifestam dois objetivos principais: em primeiro lugar, o de refutar as gravíssimas acusações que os pagãos dirigiam contra a nova religião; e em segundo lugar, de maneira mais positiva e missionária, o de comunicar a mensagem do Evangelho em diálogo com a cultura de sua época.

Sua obra mais conhecida, «Apologético», denuncia o comportamento injusto das autoridades políticas com a Igreja; explica e defende os ensinamentos e os costumes dos cristãos, apresenta as diferenças entre a nova religião e as principais correntes filosóficas da época; manifesta o triunfo do Espírito, que opõe à violência dos perseguidores o sangue, o sofrimento e a paciência dos mártires: «Por mais que seja refinada — escreve o autor africano –, vossa crueldade não serve de nada: ainda mais, para nossa comunidade constitui um convite. Depois de cada um de vossos golpes de machado, nós nos tornamos mais numerosos: o sangue dos cristãos é semente eficaz! (semen est sanguis christianorum!)» (Apologético 50, 13). No final, o martírio e o sofrimento vencem, e são mais eficazes que a crueldade e a violência dos regimes totalitários.

Mas Tertuliano, como todo bom apologeta, experimenta ao mesmo tempo a necessidade de comunicar positivamente a essência do cristianismo. Por este motivo, adota o método especulativo para ilustrar os fundamentos racionais do dogma cristão. Ele os aprofunda de maneira sistemática, começando com a descrição do «Deus dos cristãos». «Aquele a quem adoramos é um Deus único», testifica o apologeta. E prossegue, utilizando os paradoxos característicos de sua linguagem: «Ele é invisível, ainda que possa ser visto; inalcançável, ainda que esteja presente através da graça; inconcebível, ainda que os sentidos possam concebe-lo; por este motivo é verdadeiro e grande» (ibidem 17, 1-2).

Tertuliano também dá um passo enorme no desenvolvimento do dogma trinitário; ele nos deixou a linguagem adequada em latim para expressar este grande mistério, introduzindo os termos de «uma substância» e «três Pessoas». Também desenvolveu muito a linguagem correta para expressar o mistério de Cristo, Filho de Deus e verdadeiro Homem.

O autor africano fala também do Espírito Santo, demonstrando seu caráter pessoal e divino: «Cremos que, segundo sua promessa, Jesus Cristo enviou por meio do Pai o Espírito Santo, o Paráclito, o santificador da fé de quem crê no Pai, no Filho e no Espírito» (ibidem 2,1).

Em suas obras se lêem também numerosos textos sobre a Igreja, que Tertuliano reconhece como «mãe». Inclusive após sua adesão ao montanismo, ele não esqueceu que a Igreja é a Mãe de nossa fé e de nossa vida cristã. Analisa também a conduta moral dos cristãos e a vida futura.

Seus escritos são importantes também para compreender tendências vivas nas comunidades cristãs sobre Maria Santíssima, sobre os sacramentos da Eucaristia, do Matrimônio e da Confissão, sobre o primado de Pedro, sobre a oração…

Em especial, naqueles anos de perseguição nos quais os cristãos pareciam uma minoria perdida, o apologeta os exorta à esperança, que — segundo seus escritos — não é simplesmente uma virtude, mas um estilo de vida que envolve cada um dos aspectos da existência cristã.

Temos a esperança de que o futuro seja nosso porque o futuro é de Deus. Deste modo, a ressurreição do Senhor se apresenta como o fundamento de nossa ressurreição futura, e representa o objeto principal da confiança dos cristãos: «A carne ressuscitará — afirma categoricamente o africano: toda a carne, precisamente a carne. Ali onde se encontre, ela se encontra em consigna ante Deus, em virtude do fidelíssimo mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, que restituirá Deus ao homem e o homem a Deus» («A ressurreição do corpo», 63, 1).

Desde o ponto de vista humano, pode-se falar sem dúvida do drama de Tertuliano. Com o passar do tempo, ele se tornou cada vez mais exigente com os cristãos. Pretendia deles em toda circunstância, e sobretudo nas perseguições, um comportamento heróico. Rígido em suas posições, não poupava duras críticas e acabou inevitavelmente isolando-se. De fato, hoje em dia ainda ficam abertas muitas questões, não só sobre o pensamento teológico e filosófico de Tertuliano, mas também sobre sua atitude ante as instituições políticas da sociedade pagã.

Esta grande personalidade moral e intelectual, este homem que ofereceu uma contribuição tão grande ao pensamento cristão, me faz refletir muito. Vê-se no final que lhe falta a simplicidade, a humildade para integrar-se na Igreja, para aceitar suas fraquezas, para ser tolerante com os outros e consigo mesmo.

Quando só se vê o próprio pensamento em sua grandeza, no final se perde esta grandeza. A característica essencial de um grande teólogo é a humildade para estar com a Igreja, para aceitar suas próprias fraquezas, pois só Deus é totalmente santo. Nós, contudo, sempre temos necessidade de perdão.

Em definitivo, o autor africano permanece como uma testemunha interessante dos primeiros tempos da Igreja, quando os cristãos se converteram em sujeitos de «nova cultura» no encontro entre herança clássica e mensagem evangélica. É sua a famosa afirmação, segundo a qual, nossa alma é «naturaliter cristã» («Apologético», 17, 6), com a qual Tertuliano evoca a perene continuidade entre os autênticos valores humanos e os cristãos; e também é sua a reflexão, inspirada diretamente no Evangelho, segundo a qual «o cristão não pode odiar nem sequer seus próprios inimigos» (cf. «Apologético», 37). Implica uma conseqüência moral ineludível, a opção de fé que propõe a «não-violência» como regra de vida: e não é possível deixar de ver a dramática atualidade do ensinamento, à luz do acendido debate das religiões.

Nos escritos do africano, em definitivo, são tratados numerosos temas que ainda hoje temos de enfrentar. Eles nos envolvem em uma fecunda busca interior, à qual convido todos os fiéis, para que saibam expressar de maneira cada vez mais convincente a «Regra da fé», segundo a qual, como diz Tertuliano, «nós cremos que há um só Deus, e não há outro fora do Criador do mundo: ele fez tudo do nada por meio de seu Verbo, gerado antes de tudo» («A prescrição dos hereges» 13, 1).

 
 
 

Por Robert A. Sungenis Tradução: Carlos Martins Nabeto Fonte: http://www.catholicintl.com/

Os pesquisadores críticos costumam a afirmar que Jesus provavelmente nasceu no ano 6 a.C. ou talvez até antes. Tal afirmação se baseia na informação fornecida por Flávio Josefo, de que Herodes morreu no ano 4 a.C. Considerando que Herodes teria ordenado matar as criancinhas de até dois anos de idade, isto levaria alguém a conjecturar que o nascimento de Cristo se deu entre os anos 5 e 6 a.C.

As obras de Josefo que nos interessam aqui são “A Guerra Judaica” e “Antiguidades Judaicas”, as quais compreendem o período que vai de 170 a.C a 70 d.C. Embora muitos pesquisadores confiem totalmente em Josefo, suas obras contêm muitos erros e discrepâncias, que podem ser atribuídas ao próprio Josefo, ou ainda pelo fato de que na Idade Média existiaram dúzias de manuscritos das suas obras, cada uma diferenciando significativamente das demais. De fato, um artigo sobre Josefo na “Grande Encyclopédie” de Ladmirault (publicada em Paris, em 1893) afirmava que ele era “orgulhoso, arrogante e pretencioso; alguém que falsificava a história em vantagem própria e que tratava os eventos muitas vezes de forma inadequada”. Várias edições críticas das obras de Josefo foram publicadas a partir de então (p.ex.: Niese, 1881; Reinach 1902-1932). Reinach chega a acrescentar comentários nos relatos de Josefo tais como “isto é um erro” ou “em outro livro…as coisas são diferentes…”[1]

Graças ao trabalho de Hughes de Nateuil, descobrimos que os críticos modernos estão equivocados. Pouco conhecido (ou divulgado) pelos pesquisadores modernos é que Josefo usou duas formas diferentes para datar a morte de Herodes e a interpretação da fonte que aponta o ano 4 a.C. é extremamente discutível. Em outra obra, ele chega a afirmar que Herodes morreu em 7 ou 8 a.C.

Por outro lado, no ano 532 o monge Dionísio, o Exíguo, declarou que Cristo havia nascido em 25 de dezembro do ano 1 a.C. Ele também estabeleceu que o ano 1 d.C. correspondia ao ano 754 da fundação de Roma.

Para compreendermos este sistema de datação, precisaremos retornar para a era pré-cristã. Nessa época existiam dois sistemas de datação:

1) O sistema de datação baseado nas datas do monarca reinante. Aqui a data inicial é 753 a.C., que corresponde à data de fundação de Roma sob o patrocínio de Rômulo. Os romanos denominaram esta data inicial como “urbe condita” (=”a partir da fundação da cidade”). O ano começava em 21 de abril e continha 355 dias no calendário. A adoção deste calendário impreciso forçou o [imperador] Júlio César, no ano 46 a.C., após consultar o astrônomo grego Sisógenes, a aumentar o número de dias desse ano para 445 e, a partir de então (ou seja, do ano 45 a.C. em diante) passou a haver 365,25 dias no ano, devendo ele agora começar em 1º de janeiro.

2) O sistema de datação baseado nas datas de eventos importantes. Aqui a data inicial é 776 a.C., que corresponde à data da primeira celebração dos Jogos Olímpicos. A cada quatro anos, os gregos recordariam a data dos jogos ou “Olimpíadas”, abreviando o evento como “OL”. Conforme declarava Santo Agostinho: “Qualquer coisa, então, que aprendemos em História sobre a cronologia dos tempos passados ajuda-nos muito na compreensão das Escrituras, mesmo que seja sem o auxílio da Igreja como matéria de instrução filial. Por isso frequentemente procuramos informação sobre uma variedade de matérias usando as Olimpíadas e os nomes dos cônsules. A ignorância sobre aquele consulado em que nosso Senhor nasceu e também daquele em que Ele sofreu [a crucificação] tem levado alguns ao erro de supor que ele tinha 46 anos de idade quando sofreu [a crucificação], por ser o número de anos que os judeus disseram a Ele que teria o templo demorado para ser edificado (e que Ele usou como um símbolo de Seu corpo). Mas nós sabemos, pela autoridade do Evangelista, que Ele tinha cerca de 30 anos de idade quando foi batizado; mas o número de anos que Ele viveu depois disto, só poderemos saber reunindo os Seus atos, e não há dúvidas de que poderão ser deduzidas de maneira mais clara e mais precisa comparando a história profana com o Evangelho” (Da Doutrina Cristã 2,28,42). Cada espaço de 4 anos tinha início na primeira lua-cheia de verão.

Podemos encontrar outros Padres da Igreja usando o calendário olímpico [2]. Cirilo de Jerusalém, por exemplo, em suas “Leituras Catequéticas 12,19, data a profecia de Daniel 9,24-27 segundo o calendário olímpico. (…)

Quanto ao sistema romano, embora esteja ligado mais intimamente ao nosso calendário atual, Júlio César não empregava os numerais de 1 a 31 para apontar os dias do mês. Ao contrário, ele usava os antigos nomes romanos “calendas, nonas e idos”. Neste sistema, as calendas eram o primeiro dia do mês; as nonas, o décimo-quinto; e os idos, o trigésimo (exceto em março, maio, julho e outubro, quando as nonas caíam no sétimo dia e os idos, no décimo-quinto). Os dias existentes entre esses nomes eram apontados conforme se aproximavam mais para as calendas, as nonas ou os idos. O número colocado antes do nome do calendário deveria ser subtraído da data do calendário; por exemplo, o “oitavo dia das calendas” deveria subtrair 8 dias a partir de 1º da janeiro, ou seja, equivaleria ao nosso 25 de dezembro. É daí que provém a célebra expressão irlandesa: “Nos idos de março”…

No entanto, tudo isso é ainda um pouco mais complicado. Na verdade, havia duas formas de se datar no calendário baseado no monarca reinante.

Os anos podiam ser expressos em números ordinais (p.ex.: primeiro, segundo, terceiro, quarto…). Quando os números ordinais eram usados, refletiam o ano em que certo monarca tinha sido nomeado ou ascendido ao trono. Seu ano de ascensão seria o primeiro ano e o ano seguinte seria o segundo ano.

Mas os anos também podiam ser expressos em números cardinais (p.ex.: um, dois, três, quatro…). Neste caso, o ano 1 seria um ano após o monarca ter ascendido ao trono.

Os antigos judeus usaram um sistema similar, de dupla marcação, para apontar os reinados dos reis de Israel e Judá, distinguindo entre o ano da ascensão do rei em oposição ao seu ano seguinte de reinado (v. “The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings”, de Edwin Thiele).

E nós fazemos o mesmo ao computar várias datas. Atualmente, vivemos no 21º século, mas a data atual não começa, p.ex., em 2104, mas em 2004. De maneira análoga, podemos dizer que “João está em seu 31º ano” ou que “João possui 30 anos de idade”.

Essas diferenças são importantes, já que é sabido que todos os historiadores gregos e latinos apontaram datas baseando-se em algum dos sistemas mencionados acima. Com efeito, eles encontravam disponíveis para eles próprios datas que usavam como referência:

1) A Olimpíada (ou OL) 2) A “urbe condita” (ou UC) 3) Os anos do monarca 4) Os anos do calendário juliano

Como resultado, um mesmo evento poderia ser citado conforme diferentes datações, dependendo do sistema empregado. Por exemplo, quando Lucas 3,1 menciona: “No 15º ano do reinado de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era o governador da Judéia e Herodes o tetrarca da Galiléia”, o “15º ano” poderia significar 15 anos a partir da data em que ascendeu ao trono (que nós sabemos ser agosto de 14 d.C.) ou 16 anos a partir da data de sua ascensão. E mais: o mês de início de seu reinado poderia tanto ser janeiro quanto agosto.

Para complicar ainda mais as coisas, já quase no fim do Império Romano, sob o reinado de Constantino, um outro sistema de datação foi estabelecido, baseando-se na taxação territorial que se fazia a cada 15 anos, conhecido como “indicções”. Este ciclo de 15 anos teve origem no reinado de Diocleciano, mas foi implementado especificamente como calendário por Constantino.

Um outro complicador é que os gregos, além de usar o calendário olímpico, celebravam o nascimento de Jesus em 6 de janeiro enquanto que os latinos celebravam em 25 de dezembro. Aqui não há apenas uma diferença de 12 dias, mas sim uma diferença de quase 1 ano no calendário, já que janeiro corresponde ao início de um novo ano no calendário.

E é aqui que entra Dionísio, o Exíguo (apelidado “Exíguo” em razão da sua humildade). Embora armênio de nascimento, estabeleceu-se eventualmente em Roma. Ele começou seu trabalho traduzindo textos do grego para o latim, observando que os gregos e os latinos não celebravam o Natal e a Páscoa nas mesmas datas. Baseando-se nos testemunhos de Justino Mártir, Tertuliano, Eusébio de Cesaréia, Jerônimo e também em historiadores como Júlio Africano e Orósio, calculou que Cristo havia nascido precisamente 532 anos antes da data em que ele, Dionísio, teria iniciado o seu trabalho.

Por exemplo, Júlio Africano fez um extensivo estudo dos calendários grego e hebraico e tentou fazer uma correspondência cuidadosa entre os dois. Ele escreve:

“Até o tempo das Olimpíadas, não havia história precisa entre os gregos. Todas as coisas anteriores a essa data são confusas e não são consistentes umas com as outras. Mas como essas Olimpíadas foram perfeitamente investigadas por muitos, então os gregos passaram a registrar sua história não de acordo com longos espaços, mas em períodos de quatro anos. Por essa razão eu irei selecionar as narrativas míticas mais memoráveis, anteriores ao tempo da primeira Olimpíada, e percorrê-las rapidamente. Mas aquelas [narrativas] que são posteriores a esse período, pelo menos aquelas que são notáveis, eu as reunirei citando eventos hebraicos em conexão com [os eventos] gregos, conforme a datação destes, examinando cuidadosamente as ocupações dos hebreus e mencionando superficialmente as [ocupações] dos gregos. O meu plano é este: citar alguns eventos singulares da história hebraica e colocá-los em sintonia com outros da história grega. E considerando isto como matéria principal, subtrairei ou adicionarei [os eventos] conforme pareçam necessários para a narrativa; farei constar o que os gregos ou os persas registraram, ou qualquer personagem memorável de qualquer outra nacionalidade surgido na data do evento na história hebraica. Talvez assim eu possa me ater ao objetivo que proponho para mim mesmo” (Fragmento restante 3,1).

Um exemplo do seu elaborado cálculo pode ser visto abaixo:

“Além disso, a partir de Artaxerxes 70 semanas são computadas até o tempo de Cristo, conforme a numeraçao dos judeus. Portanto, de Neemias, que foi enviado por Artaxerxes ao povo de Jerusalém, por volta do 120º ano do Império Persa e do 20º ano do próprio Artaxerxes; e no 4º ano da 83ª Olimpíada até esse tempo, que é o 2º ano da 202ª Olimpíada e o 16º ano do reinado de Tibério César, passaram-se 475 anos, correspondentes a 490 anos hebraicos, já que eles medem o ano pelo mês lunar de 29,5 dias, como pode ser facilmente explicado, sendo que o período anual segundo o sol consiste de 365,25 dias, de forma que o período lunar de 12 meses possui 11,25 dias a menos. Por essa razão, os gregos e os judeus inserem três meses intercalados a cada oito anos. Assim obtêm 3 meses por 8 vezes 11,25 dias. Logo, os 475 anos contêm 59 períodos de 8 anos e 3 meses, pois sendo acrescentados os 3 meses intercalados a cada 8 anos, obtemos 15 anos e estes, juntamente com os 475 anos, perfazem 70 semanas. Agora, que ninguém pense que estamos só considerando os cálculos da astronomia quando fixamos o número de dias em 365,25. Não se trata de ignorar a Verdade, mas isto é fruto de um estudo preciso e, assim, declaramos essa nossa opinião tão brevemente. Permitam que o que se segue também seja apresentado sumariamente para aqueles que se esforçam por investigar cuidadosamente todas as coisas” (Fragmentos restantes 18,2) [2]

Obs.: 202ª Olimpíada menos 83ª Olimpíada = 119 Olimpíadas. 119 x 4 anos = 476 anos. Deduzindo-se 1 ano – já que não existiu o ano 0 (zero) -, restam 475 anos.

Quando comparamos os anos lunares com os anos solares, temos:

– 475 anos x 365,25 dias = 173,493 dias – 490 anos x 354 dias (isto é, 12 meses de 29,5 dias) = 173.460 dias (havendo, assim, uma diferença de apenas 33 dias!)

Dionísio então afirmou que o ano 1 da vida de Cristo correspondia ao ano romano de 754 UC (da fundação de Roma), com ambos começando no dia 1º de janeiro. Observe-se aqui que Dionísio situou o nascimento de Cristo no 8º dia anterior às calendas de Janeiro (ou seja: 1º de janeiro do ano 1 d.C menos 8 dias = 25 de dezembro do ano 1 a.C.). Incidentalmente, o dia 1º de janeiro do ano 1 d.C coincide com o quarto ano da 194ª Olimpíada, no mínimo até a primeira lua cheia de julho, quando então muda para o primeiro ano da 195ª Olimpíada.

Após o cuidadoso trabalho de Dionísio, todos os historiadores aceitaram seu sistema de datação. Então, aqueles que desejassem retornar na história para apontar datas anteriores ao nascimento de Cristo passariam a empregar anos negativos. Por outro lado, aqueles que desejassem datar um evento ocorrido após Cristo, o expressariam como “Anno Domini” (isto é, “o ano de Nosso Senhor”) [abreviado como AD ou, popularmente, d.C.]. Com efeito, é seguro afirmar que o Calendário de Dionísio foi aceito por todo o mundo ocidental e continua a ser usado até os nossos dias.

Podemos agora usar os vários calendários e coordenar várias datas para eventos específicos da vida de Cristo:

– 8 dias após o nascimento de Cristo = 195ª OL ou 754 UC ou 1 AD [d.C.]. – Jesus no Templo de Jerusalém aos 12 anos de idade (cf. Luc. 2,42) = 198ª OL ou 766 UC ou 13 AD [d.C.]. – Batismo de Jesus = 202ª OL ou 782 UC ou 29 AD [d.C.]. – Crucificação de Jesus = 203ª OL ou 786 UC ou 33 [d.C.].

O livro apócrifo “Evangelho de Nicodemos”, em sua parte I (=Atos de Pilatos), declara:

“No 15º ano do governo de Tibério César, imperador dos romanos, sendo Herodes o rei da Galiléia, no 19º ano de seu governo, no oitavo dia antes das calendas de abril, que é o 25º de março, no consulado de Rufo e Rubélio, no 4º ano da 202ª Olimpíada, sendo José Caifás o sumo-sacerdote dos judeus” [3].

Tudo isso coincide precisamente com as informações que temos, pois:

O 15º ano de Tibério César = 19º ano de Herodes = 4º ano da 202ª Olimpíada = 8º dia das calendas de abril = 25 de março de 33 AD [d.C.]! [Com isto em mente, sabemos que] os [primitivos] Padres [da Igreja] testemunharam a data precisa do nascimento de Cristo:

a) Eusébio de Cesaréia (+345 d.C.), em suas “Crônicas” (PG 19, col. 530ss) registra que:

– Cristo nasceu no 4º ano da 194ª Olimpíada. – no 3º ano de Cristo (quando ele tinha 2 anos de idade, antes de completar o seu 3º aniversário), Herodes ordenou a matança dos inocentes. – Herodes morreu no ano 5 AD [d.C.], corroído por vermes. – a Paixão de Cristo (33 AD) ocorreu no 1º ano da 203ª olimpíada, no 18º ano de Tibério.

b) O mesmo autor, em sua “História Eclesiástica” (PG 19, col. 287), registra que:

– César Augusto reinou por 56 anos e 4 meses. Tendo ascendido ao trono em 43 a.C., o 42º ano de seu reinado pode ter se encerrado entre 1º de abril de 1 a.C e 1º de abril de 1 d.C. Lucas 2,1 declara: “Naqueles dias um decreto de César Augusto ordenou um censo em toda a terra habitada” (a significância do 42º ano será vista mais abaixo).

c) São Jerônimo (+420), em sua “Interpretação das Crônicas de Eusébio Panfílio” (PL 27, col. 559ss), registra que:

– Herodes foi reconhecido como rei dos judeus no ano 2 de César Augusto e que reinou 37 anos, apontado a morte de Herodes no ano 6 de Cristo ou 6 d.C. Ele escreve: “Jesus Cristo, o Filho de Deus, nasceu em Belém de Judá e a partir desse ano começou a salvação dos cristãos. No ano 3 d.C., Herodes matou todas as crianças de sexo masculino em Belém e, no ano 6 d.C., ele teve uma morte terrível, mas merecida: seu corpo foi perfurado por vermes” (cf. tradução inglesa de J. S. Daly e F. Egregyi). – Cristo nasceu no ano 32 de Herodes ou também no ano 42 de Augusto. – o batismo de Cristo ocorreu em 30 d.C. – a Paixão de Cristo ocorreu em 33 d.C. – o martírio de Estêvão e a conversão de Paulo se deram em 34 d.C. – Mateus escreveu seu evangelho em 41 d.C.

d) São Justino Mártir (+163), em sua “Apologia” (PL 6, col. 383ss), registra que:

– a Paixão de Cristo ocorreu no 17º ano de Tibério, que teve início entre agosto de 32 e agosto de 33 d.C.

e) Tertuliano (+222), em seu “Contra os Judeus” (PL 2, col. 614), registra que:

– o nascimento de Jesus ocorreu no ano 41 de César Augusto. Embora isto seja 1 ano antes daquele declarado por São Jerônimo, isto se deve ao fato de que Tertuliano seguia estritamente a datação latina (a qual, como vimos anteriormente, apontava o Natal no calendário um ano antes do calendário grego, já que 25 de dezembro tem um ano a menos que 6 de janeiro) enquanto que São Jerônimo, embora latino, usava fontes gregas enquanto residia na Palestina. – na crucificação de Cristo, o sol parou de brilhar ao meio-dia (isto consta na sua obra “Apologético” 1,21): “Ele (=Deus) teria várias maravilhas apropriadas para tal morte. Com efeito, no momento em que o sol atingiu o meio da sua órbita, o dia foi repentinamente privado do seu brilho e aqueles que não sabiam que esse prodígio foi preparado para a morte de Cristo não compreenderam a razão desse fato. Posteriormente, eles passaram a negar que isso ocorrera, mas vocês podem encontrar [o registro] desse evento mundial guardado nos seus arquivos”. O texto de um historiador secular conhecido como Phlegon, ex-escravo do imperador Adriano (117-138 d.C.), corrobora: “…no 4º ano da 202ª Olimpíada ocorreu um eclipse que tornou-se notável porque nada comparável ocorrera antes. Na sexta hora do dia [meio-dia] as trevas eram tais que qualquer um conseguia ver as estrelas” (Fragmenta Historicum Graecorum, Didot. Paris 1849, vol. 3, Phlegon, livro 13, cap. 14, conforme citado em “The Controversy Concerning the Dates of the Birth and Death of Jesus Christ”, de J. S. Daly).

Obs.: este fenômeno não poderia ter sido um eclipse causado pela lua, já que as trevas de um eclipse total ocorreriam apenas em áreas específicas da terra e, em todo caso, não durariam muito tempo; mas os Evangelhos registram que o sol parou de brilhar por três horas. Orígenes (+254), em seu “Contra Celso” 2,33, confirma o testemunho de Phlegon: “O eclipse que ocorreu no tempo de Tibério, durante aquele reinado em que Cristo foi crucificado, e o grande terremoto simultâneo, foi registrado por Phlegon em seus livros 13 e 14”.

Continuemos, agora com outros historiadores da Igreja:

f) João Malalas (+578), em sua “Cronografia” (PG 97, col. 351ss), registra que:

– “No 4º mês do 42º ano de Augusto, no 8º [dia] das calendas de janeiro [isto é, em 25 de dezembro], na 7ª hora do dia, Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu em Belém”. – “Ele foi batizado no [rio] Jordão no 6º dia do mês de Audynae [=janeiro]”. – “No ano 18 do reinado de Tibério, no 7º mês, Nosso Senhor Jesus Cristo foi traído por Judas, seu discípulo. No 23º [dia] de março, o 3º dia da lua, o 5º dia da semana, na 5ª hora da noite [=23:00], Ele foi levado perante Caifás (…) No dia seguinte, foi levado a Pilatos (…) Ele foi crucificado no 14º dia da lua… Nesse momento, o sol foi privado da sua luz e as trevas cobriram toda a terra”.

g) Diácono Paulo, em sua “História Diversa” (PL 95, col. 858-864), registra que:

– “No 12º ano do reinado de Tibério, em Fidenae, um anfiteatro ruiu soterrando 20 mil pessoas. 7 anos depois, no tempo em que Nosso Senhor sofreu a Sua Paixão, ocorreu um imenso terremoto e pedras rolaram das montanhas. No mesmo dia, o sol escureceu da 6ª à 9ª hora; as trevas cobriram toda a terra e as estrelas apareceram [no céu]”.

h) Júlio Africano, nos fragmentos de suas obras que chegaram até nós (PG 10, col. 90), registra que:

– “No ano 5.533 da terra, que é o 33º de Cristo, denominado o 1º ano da 203ª Olimpíada, no momento em que Cristo sofreu Sua Paixão, trevas terríveis cobriram o mundo e rochas se quebraram em razão de um terremoto”.

i) Orósio (+418), em sua “História contra os Pagãos” (PL 31, col. 1.059, livro 7), registra que:

– Cristo nasceu em dezembro do ano 1 a.C. – no ano 3 de Cristo, Herodes assassinou os inocentes. – no ano 6 d.C., Herodes morreu, consumido por vermes. – no ano 28, Tibério enviou Pilatos como governador da Judéia. – no ano 33, a Paixão ocorreu no 8º dia das calendas de abril (=25 de março).

j) Cassiodoro (+580), em sua “Crônica” (PL 69, col. 1.228), registra que:

– a Paixão de Cristo ocorreu no ano 18 de Tibério, no 8º [dia] das calendas de abril, durante um eclipse do sol. – ele também escreve: “Jesus Cristo, o Filho de Deus, nasceu em Belém no ano 41 do reinado de Augusto”.

k) Sulpício Severo (+420), em sua “História Sagrada” (PL 20, col. 144), registra que:

– Cristo nasceu no ano 33 de Herodes, no 8º dia das calendas de janeiro (=25 de dezembro), e Herodes morreu 4 anos mais tarde. – Cristo foi crucificado no 24º ano de Herodes, o Jovem (isto é, Herodes Antipas).

l) Epifânio (+403), em suas obras “Do Ano do Natal de Cristo” e “Do Ano da Paixão de Cristo” (PG 13, cols. 902 e 978), registra que:

– Cristo nasceu no ano 45 do calendário juliano (=ano 1 a.C. de nosso atual calendário), no 4º ano da 194ª Olimpíada. – que a Sua Paixão ocorreu no 18º ano de Tibério, em 25 de março, e a ressurreição, em 27 [de março].

Obs.: como é fácil de perceber, eventuais discrepâncias são quase sempre explicadas pelas diferenças de emprego dos números cardinais e ordinais dos diversos sistemas de datação.

—– Notas: [1] Alguns exemplos de erros nas obras de Josefo: – Esdras 6,15 diz: “Este templo foi concluído no 3º dia do mês de Adar; era o 6º ano do reinado do rei Dario”; mas Josefo diz: “Tudo ficou completo no 9º mês do 28º ano de Xerxes” (Antiguidades, livro 11, v.179), ou seja, uma diferença de 45 anos! – 1Macabeus 6,30 diz: “O número de suas forças era de 100 mil soldados a pé; 20 mil a cavalo; e 32 elefantes acostumados à guerra”; mas em “Guerra Judaica” (livro 1, v.41), [Josefo] diz que eram 50 mil soldados, 5 mil cavaleiros e 80 elefantes, embora em “Antiguidades” (livro 12, cap. 9, v.366) cite 1Macabeus 6,30! – Em “Guerra Judaica” (livro 1, cap. 2, v.68), [Josefo] afirma que Hircano reinou por 33 anos, mas em “Antiguidades” (livro 12, v.299), diz que foram por 32 anos e, depois, no livro 22, por 30 anos. – Em “Guerra Judaica” (livro 1, cap. 3, v.70) é dito que Aristóbulo colocou a diadema sobre sua fronte 471 anos após o retorno do exílio, mas em “Antiguidades” (livro 13, v.301), afirma-se que foi 480 anos. Ambas as datas estão erradas, pois se deu após 490 anos! – Em “Guerra Judaica” (livro 1, cap. 4, v.105), ele diz que Alexandre capturou Gamala e expulsou o governador, mas em “Antiguidades” (livro 13, v.394), diz que Alexandre o matou. – Em “Antiguidades” (livro 15, cap. 11, v.1), ele diz que “Herodes assumiu a restauração do Templo [de Jerusalém] no 18º ano de seu reinado”, mas em “Guerra Judaica” (livro 1, cap. 21, v.401), afirma que “foi no 15º ano”. [2] “The Early Church Fathers and Other Works”, originalmente publicada em inglês pela Wm. B. Eerdmans Pub. Co. em Edimburgo (Escócia), no início de 1867 (Ante Nicene Fathers 6, Roberts e Donaldson). [3] Outras menções às Olimpíadas encontramos em: – Clemente de Alexandria (40ª, 50ª, 46ª e 62ª Olimpíadas): “O discípulo de Crates foi Zeno de Cítia, fundador da seita estóica. Ele foi sucedido por Cleantes e, depois, por Crísipo e outros após este. Xenófanes de Colofon foi o fundador da escola eleática que, segundo Timeu, viveu na época de Hiero, senhor da Sicília, e Epicarmo, o poeta. E Apolodoro diz que ele nasceu na 40ª Olimpíada e chegou até o tempo de Dario e Ciro”; (…) “Heródoto, em seu primeiro livro, concorda com ele. A data é próxima da 50ª Olimpíada. Pitágoras certamente viveu nos dias de Polícrates, o tirano, por volta da 62ª Olimpíada. Mnesífilo é citado como discípulo de Sólon e foi contemporâneo de Temístocles; Sólon surgiu por volta da 46ª Olimpíada” (Stromata 1,14). – Hipólito de Roma (88ª Olimpíada): “Este filósofo [Anaxágoras] floresceu no 1º ano da 88ª Olimpíada, na mesma época em que eles afirmam também que Platão nasceu”. – Sócrates Escolástico (271ª e 300ª Olimpíadas): “Na Bretanha, contudo, Constantino foi proclamado imperador, no lugar de seu pai, Constâncio, que morreu no 1º ano da 271ª Olimpíada, no 25º [dia] de julho (…) O imperador Constantino viveu 65 anos e reinou 31. Ele faleceu durante o consulado de Feliciano e Tartão, no 22º [dia] de maio, no 2º ano da 278ª Olimpíada. Este livro, portanto, abrange um período de 31 anos” (História Eclesiástica, livro 1, caps. 2 e 40). “E assim terminou essa guerra empreendida em razão dos cristãos que sofriam [perseguição] na Pérsia, sob o consulado dos dois Augustos, sendo o 13º de Honório e o 10º de Teodósio, no 4º ano da 300ª Olimpiada. E então acabou a perseguição que se levantara na Pérsia contra os cristãos” (História Eclesiástica, livro 7, cap. 20). – Teófilo de Antioquia (7ª e 62ª Olimpíadas): “Então, quando Ciro já reinava por 29 anos e foi assassinado por Tomiris na terra dos massagetas, na 62ª Olimpíada, os romanos começaram a crescer em poder, pois Deus os fortaleceu. Roma foi estabelecida por Rômulo, tido por filho de Marte e Ília, na 7ª Olimpíada, no dia 21 de abril, quando o ano era consistido de 10 meses. Ciro, então, tendo morrido, como já dissemos, na 62ª Olimpíada, faz-nos com esta data corresponda a 220 anos, quando Tarquínio, apelidado o Soberbo, reinou sobre os romanos” (A Autólico 3,27).

Para citar este artigo:SUNGENIS, Robert A. Apostolado Veritatis Splendor: BOAS NOVAS – JESUS CRISTO NASCEU MESMO EM 25 DE DEZEMBRO DO ANO 1 A.C.. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4688. Desde 24/12/2007.

 
 
 
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