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Autor: Pe. Juan Carlos Sack Fonte: http://www.apologetica.org Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “Cristo apresentou ao Pai, de uma única vez para sempre, o sacrifício de Si mesmo (Hebreus 9:24-28) e não em cada Missa, como faz novamente o sacerdote ao apresentar ao Pai um novo sacrifício de Cristo” (Guillermo Hernández Agüero, evangélico). – “Cristo não foi imolado uma única vez em Si mesmo? No entanto, quanto ao Sacramento [da Eucaristia] – que se imola pelos povos não só em todas as solenidades da Páscoa, mas também todos os dias – não mente aquele que responde, caso lhe seja perguntado, que ‘há imolação'” (Santo Agostinho, Bispo, século IV). [Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje os testemunhos da obra anônima “Tradição Apostólica”, Orígenes e Dionísio de Alexandria].

TRADIÇÃO APOSTÓLICA

Este é um documento de enorme importância para o conhecimento da liturgia celebrada na Igreja dos primeiros séculos. A obra é datada do início do século III (215, aproximadamente). Junto com a Didaqué, são os documentos mais importantes sobre a organização da Igreja primitiva.

Tratando da celebração da Ceia do Senhor, o documento distingue entre “pão bento” (em grego, “eulogia”) e “pão eucarístico” (em grego, “eukaristia”), e insiste no cuidado que se deve ter para com este último[18].

– “Cada um tome cuidado para que nenhum infiel prove a Eucaristia, nem algum rato ou outro animal; porque é o corpo de Cristo, que deve ser comido pelos fiéis e não deve ser menosprezado”[19].

Há uma expressão na Tradição que pode, a primeira vista, parecer [nas traduções] apoiar a opinião simbolista:

– “[O Bispo] dará graças sobre o pão para [que seja] o símbolo do corpo de Cristo; e sobre o cálice de vinho misturado para [que seja] a imagem do sangue que foi derramado por todos os que creram Nele”.

A palavra grega original que se encontra sob as palavras “símbolo” e “imagem” no texto acima – trata-se de uma mesma palavra para ambos os casos – é “antítipo”[20]. A questão é saber o que este termo significa propriamente.

“Tipo” designava, na língua helênica, o mesmo que o molde que modela uma imagem (sentido principal) ou a própria imagem já modelada (sentido secundário). Uma diferenciação posterior passou a ser usada para estes casos, apontando “tipo” para o molde e “antítipo” para a imagem; deste modo, o “antítipo” é algo que em sua própria razão de ser possui um caráter de referência essencial ao molde de onde procede. Para São Paulo, todos os acontecimentos do Antigo Testamento são “tipo” dos acontecimentos do Novo (Romanos 5,14; 1Coríntios 10,6); daí que, obviamente, o Novo Testamento é “antítipo” do Antigo. Com efeito, resta natural enxergar na Eucaristia um “antítipo” da morte de Cristo, que Ele mesmo ordenou comemorar nela. No texto acima citado, o pão e o vinho são chamados “antítipos” (imagem, semelhança) do corpo e do sangue de Cristo, porque esses elementos visíveis adquiriram, após a consagração, uma relação essencial com o corpo e o sangue de Cristo, que neles Ele Se nos dá realmente. Em outras palavras: os elementos eucarísticos são “antítipos” do corpo e do sangue de Cristo não em si mesmos – pois não o são de maneira nenhuma – mas enquanto foram feitos, sacramentalmente, o corpo e o sangue de Cristo. Longe de negar o realismo da presença real, essa expressão a supõe como fundamento da própria relação que afirma. Dava-se deste modo uma primeira resposta ao problema da persistência sensível do pão e do vinho apesar da transformação invisível que pela consagração se operou neles. Com a nova e real presença do corpo e do sangue de Cristo, os elementos do pão e do vinho adquiriram um novo sentido do sinal visível de uma nova realidade invisível, que é o corpo e o sangue do Senhor[21].

Existem outros monumentos litúrgicos em que a mesma expressão aparece. Cito alguns:

– “Te damos graças também, Pai nosso, pelo sangue precioso de Jesus Cristo derramado por nós, e pelo precioso corpo, cujos ‘antítipos’ realizamos por Ele nos ter ordenado proclamar a Sua morte” (Constituições Apostólicas 7,25,4).

– “Em lugar do sacrifício de animais, temos o [sacrifício] espiritual, incruento e místico, que é celebrado pelos ‘antítipos’ do corpo e do sangue do Senhor em memória da sua morte” (Constituições Apostólicas 6,23,5).

– “A imagem e semelhança do corpo e sangue de Cristo se realizam na celebração dos mistérios” (Gelásio, Tractatus de Duabus Naturis Adv. Eutychen et Nestorium 14).

– “Aceita, Pai, estes dons (=o pão e o vinho consagrados na Eucaristia) para a glória do teu Cristo e envia sobre este sacrifício o teu Santo Espírito, testemunha dos sofrimentos do Senhor Jesus, para que Ele mostre que este pão é o corpo de Cristo e este cálice é o sangue de Cristo, de tal modo que os que dele participam se fortaleçam para a santidade, alcancem a remissão dos seus pecados, sejam afastados do maligno e dos seus enganos, possam se encher do Santo Espírito, possam ser dignos do teu Cristo e possam obter a vida eterna, vida que cresce na reconciliaçao dos que fizeste partícipes” (Constituições Apostólicas 8,12,22).

O sentido destes textos supõe a mudança que sofrem o pão e o vinho na consagração. Por ela, o que era pão e vinho são agora o corpo e o sangue do Senhor; contudo, ao permanecer igual em seu aspecto visível de pão e vinho, recebem uma nova relação com o corpo e o sangue de Cristo ali realmente presentes e é isso o que expressam os textos com palavras como “figura”, “imagem”, “semelhança”, “antítipo”: para os olhos naturais, continuam sendo vistos pão e vinho; estes são uma “imagem” do corpo e sangue de Cristo, porque sobre eles foi pronunciada a “eucaristia” e já não são apenas pão e vinho[23].

São João Damasceno (séc. VIII) entendeu o problema de modo diverso e oferecia esta solução:

– “Se alguns chamaram o pão e o vinho de figuras [=”antítipos”] do corpo e do sangue do Senhor – como disse Basílio, o Portador de Deus (=Teóforo) – os chamaram assim não após a consagração, mas antes da consagração, dando este nome à oblação em si” (Da Fé Ortodoxa 4,13).

Isto indica que a fé da Igreja universal era unânime em dar para a presença do corpo e do sangue do Senhor na Eucaristia um valor real e não meramente simbólico.

Finalmente, note-se que os adversários da presença real nem sequer poderiam usar em suas homilias as expressões aqui citadas – que poderiam parecer indicar uma interpretação “simbólica” para o nosso tema – já que as mesmas incluem o conceito de “sacrifício” eucarístico, ou o de “celebração dos mistérios”, que jamais são aplicáveis aos cultos que giram em torno da pregação [como os cultos protestantes], sem a existência de um altar e do sacrifício eucarístico.

ORÍGENES

Nascido em 185, em Alexandria, de família cristã. Seu pai foi martirizado durante a perseguição de Septimio Severo. Conheceu Hipólito de Roma. Excelente pregador e catequista. Morreu em Cesareia, por volta do ano 253, em virtude dos maus tratos provocados pelos perseguidores da Fé. Suas obras foram abundantes. Algumas de suas doutrinas ultrapassaram as da Igreja, mas tratam-se de especulações pessoais sobre os mistérios, coisa que o próprio Orígenes se encarregou de assinalar. Seu desejo de interpretar os textos bíblicos com excesso de alegoria e simbolismo costuma provocar confusão em mais de um de seus ensinamentos. Apesar de tudo, é considerado como um dos melhores teólogos da Antiguidade.

No caso de Orígenes, deve-se levar em conta o seu sistema interpretativo, para não retirar as expressões eucarísticas do seu contexto natural. Para compreender o pensamento sacramental de Orígenes, é necessário considerar três fatos:

a) Sua concepção tipológica (as instituições do Antigo Testamento são figuras das realidades invisíveis do Novo). b) Sua preferência em insistir mais na pregação do que na liturgia. c) O interesse que, por influxo platônico, tem para ele os sinais visíveis do culto como sinais das realidades sobrenaturais.

Tendo isto em vista, Orígenes jamais nega a realidade da Eucaristia e se é verdade que por essa concepção e preferência está ele inclinado a minimizá-la, seu testemunho – por isso mesmo – tem um valor muito maior[24]. Não se trata de uma antinomia entre realismo e simbolismo; afirma-se um simbolismo ulterior ao que previamente se admite como uma realidade. Há em Orígenes um perfeito paralelismo entre a realidade da Eucaristia e seu ulterior simbolismo em ordem a outras realidades, por um lado, e o sentido literal da Escritura e seu sentido tipológico, por outro. Ele não nega o sentido literal e nem o realismo eucarístico; estes dois são a base necessária para o simbolismo e a tipologia[25].

Há em Orígenes muitos textos em que alude a celebração eucarística; insiste especialmente nas disposições para se receber o corpo do Senhor. Indubitavelmente, ele entende esse corpo do Senhor no sentido literal:

– “Se sobes com Ele para celebrar a Páscoa, te dará o cálice do Novo Testamento e também o pão da bênção; conceder-te-á Seu próprio corpo e Seu próprio sangue” (Sobre Jeremias, Homilia 19,13).

– “Antes, como um enigma, o maná era um alimento; agora, realmente, a carne do Verbo de Deus é o verdadeiro alimento, como Ele diz: ‘Minha carne é verdadeira comida e Meu sangue é verdadeira bebida” (Sobre Números, Homilia 7,2).

Porém, esse corpo e sangue do Senhor, que são algo real na Eucaristia, são ao mesmo tempo símbolo de algo diferente, que pode também ser chamado, em sentido espiritual, de corpo e sangue do Senhor. Por isso, Orígenes chama o corpo de Cristo na Eucaristia de “corpo típico e simbólico”; não porque não seja real, mas porque também é um sinal, um símbolo.

Em outro lugar, Orígenes exorta:

– “Vós que assistís habitualmente os divinos mistérios sabeis como, quando recebeis o corpo do Senhor, o guardais com cuidado e veneração, para que não caia nenhuma só partícula e não desapareça algo do dom consagrado. Porque se por negligência cai alguma coisa, credes ser réus – e com razão[26]. Porém, se dedicais tanto cuidado para conservar o corpo – e tens razão em fazê-lo – como podereis pensar que é algo menos ímpio descuidar da Palavra de Deus?” (Sobre Êxodo, Homilia 13,3).

Em outro ponto, comenta Números 23,24, onde se lê: “Não dormirá até que coma a sua presa e beba do sangue dos feridos”. O próprio tom da frase – diz Orígenes – faz abandonar a letra [do texto] e buscar a alegoria:

– “Que nos digam: que povo é esse que tem o costume de beber sangue? Isso foi o que, também no Evangelho, os judeus que seguiam o Senhor, ao ouvi-Lo, se escandalizaram (…) Porém, o povo cristão escuta e segue Aquele que diz: ‘Se não comerdes a Minha carne e não beberdes o Meu sangue, não tereis vida em vós, porque a Minha carne é verdadeiramente comida e Meu sangue é verdadeiramente bebida'”.

E continua e conclui o alexandrino:

– “Verdadeiramente Quem dizia isto foi ferido por nossos pecados, como disse Isaías (…) Porém, é dito que bebemos o sangue de Cristo não apenas no rito dos Sacramentos, como também quando recebemos as palavras de Cristo, em que se encontram a Vida” (Sobre Números, Homilia 16,9).

Com efeito, Orígenes passa do real – que claramente afirma – para um sentido mais místico nas passagens que comenta[27].

DIONÍSIO DE ALEXANDRIA

Discípulo de Orígenes. Chefe da escola catequética de Alexandria em 231; Bispo de Alexandria em 248. Morreu em 265. Dele restaram duas cartas inteiras e vários fragmentos citados por outros autores.

Em uma carta ao Papa, em que explica o porquê de não reiterar o batismo dos hereges, diz:

– “É precisamente isto o que não me atrevi a fazer, dizendo [a um ancião que me insistia para que lhe renovasse o batismo], que lhe bastava a comunhão [eucarística] em que era admitido há tanto tempo. Quem participou da Eucaristia e pronunciou o ‘Amém’ com os demais, tendo se aproximado do altar e estendido as suas mãos para receber o alimento sagrado, e o tendo recebido e participado do corpo e sangue de Nosso Senhor, a esse eu não me atreveria a refazê-lo desde o início [administrando-lhe novamente o batismo]” (Carta ao Papa Sisto II; cf. Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica 7,9,4).

NOTAS: [18] O “pão bento” é conservado nas celebrações do Rito Bizantino, mas não nas do Rito Romano. [19] Espero que esta afirmação da Igreja dos primeiros séculos aplaque o medo de Hernández Agüero, que propõe: “Pensemos agora: se por acaso um rato, por descuido, vier a comer uma hóstia consagrada, falando no bom sentido, poderíamos dizer então que ‘comeu Deus’?” Fiquemos apenas com a parte em que o rato não come o pão eucarístico, porque é o Corpo de Cristo e deve ser tratado como tal. Porém, o argumento do “rato comendo Deus” não parece ter debilitado a fé da Igreja primitiva na presença real. [20] Neste antigo documento ocorre em outras passagens o uso da palavra “antítipo”: o pão do ágape, segundo a Tradição, “é uma ‘eulogia’, não uma Eucaristia, ‘antítipo’ do corpo do Senhor” (distinção mais do que importante para não confundir o ágape fraterno com a Eucaristia propriamente dita); e também: “Recebeste o cálice em nome de Deus como o ‘antítipo’ do sangue de Cristo”. [21] O tema foi estudado detalhadamente por A. Wilmart, em seu artigo “Transfigurare”, Bulletin d’Ancienne Littérature et d’Archeologie Chrétiennes 1 (1911), pp. 285-288. [22] Avalie-se o peso desta afirmação: o pão e o vinho eucarísticos produzem nos que os recebem: fortaleza para a santidade, remissão dos pecados, afastamento do maligno, recepção do Espírito Santo em plenitude, o sermos dignos de Cristo e a obtenção da vida eterna. Poderia tudo isto ter por causa um símbolo? É claro que não. Portanto, a fé que representa este importante documento da Antiguidade cristã é uma fé na presença real do Corpo e Sangue de Cristo nos elementos eucarísticos. Quem são os que representam esta fé hoje? E quem são aqueles que a combatem? [23] Não se deve esquecer que a Teologia, isto é, a reflexão sobre os mistérios da fé, vai se desenvolvendo de maneira gradual: a Igreja recebe o mistério e reflete sobre ele, guiada pelo Espírito, sem eliminar os elementos que transcendem sua capacidade intelectiva – os mistérios propriamente ditos – ainda que busque obter deles um conhecimento e uma compreensão cada vez maiores. Neste processo secular, a Teologia avança também na expressão das verdades que recebeu e que transmite de geração a geração, atormentada precisamente por expressões que davam margem à dúvida ou confusão, ou somente imperfeitas em demasia. Assim ocorreu com todos os dogmas da Igreja, não apenas com a Eucaristia; pense-se, por exemplo, na evolução das expressões acerca da humanidade e divindade do Senhor: só com o passar dos séculos e após disputas que muitas vezes se tornaram violentas, a Igreja foi capaz de expressar o mistério de uma maneira mais perfeita, coisa que não exclui uma melhor expressão no futuro. Quando o Concílio Niceno-Constantinopolitano abordou a pessoa divina de Jesus e suas naturezas divina e humana, estava expressando com autoridade o que por séculos foi motivo de debates e lutas de não pequena monta, visto que as Escrituras pareciam dar razão para as duas partes em questão manter posições contrárias; e na pregação do mistério da Encarnação, aqui e acolá soavam expressões que a Igreja, iluminada pelo Espírito da Verdade, foi discernindo, esclarecendo e definindo. [24] Estes pensamentos não são ideias minhas. Podem consultar-se os melhores estudiosos de Orígenes e os Padres do seu tempo; p.ex.: H. U. von Balthasar, “Le Mysterion de Origène”, in: Recherches de Science Religieuse 26 (1936), pp. 513-562; 27 (1937), pp. 38-68; H. de Lubac, “Histoire et Esprit. L’intelligence de l’Écriture d’après Origène” (Paris 1950), pp. 355-358; H. Crouzel, “Origène et la structure du sacrement”, in: Bulletin de Littérature Ecclésiastique 63 (1962), pp. 81-104 ; L. Lies, “Wort und Eucharistie bei Origenes” [Innsbrucker theologishe Studien, 1] (Innsbruck-Wien-München 1978), pp. 97-148 ; J. Daniélou, “Origène” (Paris 1948), p. 74. Todos estes autores são as autoridades mais importantes no estudo de Orígenes em nosso tempo. [25] Sobre a antiga concepção de “símbolo” que não nega a realidade mas a afirma, projetando-a para uma outra realidade superior, veja-se A. von Harnack, “Lehrbuch der Dogmengeschichte”, t. 1 (Tübingen 1909), p. 476. [26] Neste espírito, a Igreja sempre protegeu os sagrados elementos eucarísticos contra toda espécie de profanação, maltrato ou roubo. Daniel Sapia, webmaster do Site batista “Conoceréis la Verdad”, quer desacreditar este interesse da Igreja, quando cita ironicamente a preocupação de Mons. Estanislao Karlic, então presidente da Conferência Episcopal Argentina, quando tomou conhecimento do roubo cometido contra uma senhora que levava consigo a eucaristia para um doente. Comentou o webmaster batista: “O Redentor da humanidade era carregado ‘na carteira da mulher…'”. [27] Esta última citação de Orígenes confirma o que sugerimos anteriormente: a fé na presença real de Jesus na Eucaristia não exclui um discurso mais amplo, simbólico, que podemos encontrar nos Padres (e também em pregadores católicos atuais); o texto citado, p.ex., nunca poderia ser pronunciado por um “evangélico”, pois ele não poderia dizer: “bebemos o sangue de Cristo no rito dos Sacramentos”, enquanto que um católico poderia, sem nenhum problema, pronunciar a frase inteira: “bebemos o sangue de Cristo não apenas no rito dos Sacramentos, como também quando recebemos as palavras de Cristo”.

Leia também as outras partes da série especial sobre a Eucaristia

  1. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 1

  2. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 2

  3. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 3

  4. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 4

  5. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 5

  6. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 6

  7. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 7

  8. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 8

  9. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 9

  10. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 10

  11. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 11

  12. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 12

  13. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 13

  14. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 14

  15. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 15

  16. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 16

  17. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 17

  18. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 18

  19. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 19

 
 
 

Autor: Pe. Juan Carlos Sack Fonte: http://www.apologetica.org Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “Deveríamos considerar isto: se Nosso Senhor é Santo, como Ele Se deixaria ser manejado, em um processo de transformação, por pessoas (=os sacerdotes) que são pecadoras por natureza?” (Guillermo Hernández Agüero, evangélico). – “Por esta palavra (=’Fazei isto’), Cristo faz com que a mão do sacerdote seja a Sua [própria mão]; a boca não é minha; a língua não é minha, mas de Cristo, ainda que eu seja um patife ou um malandro (…) Por pior que seja um sacerdote, o sacramento se concretiza” (Martinho Lutero). [Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje os testemunhos de uma antiquíssima Homilia, Clemente de Alexandria e Tertuliano de Cartago].

HOMILIA ANÔNIMA DO SÉCULO II OU III

Trata-se de uma homilia sobre a Páscoa. Reflete a doutrina da Igreja de seu tempo. Pode ser lida em PG 59,735-746, sendo conhecida como “In Sanctum Pascha 6”.

A segunda parte da homilia diz:

– “Esta foi a Páscoa que Jesus desejou padecer por nós. Por sua Paixão nos libertou da paixão; e por sua morte venceu a morte; e através do alimento visível, sua vida imortal nos procurou [cf. João 6,54]. Este era o desejo salvífico de Jesus; este era o Seu amor espiritualíssimo, mostrando por um lado as figuras como figuras e, de outro lado, dando aos discípulos a correspondência com Seu sagrado corpo: ‘Tomai e comei; isto é Meu corpo’; ‘Tomai e bebei; isto é Meu sangue, a Nova Aliança, derramada por muitos, para a remissão dos pecados”.

CLEMENTE DE ALEXANDRIA

Contemporâneo de Ireneu, nasceu em torno de 150 e morreu por volta de 215. Oriundo da Grécia, de família pagã. Uma vez convertido, viajou buscando instrução cristã, o que acabou encontrando junto ao cristão Panteno de Alexandria, a quem sucedeu, após sua morte, no cargo de catequista dos novos cristãos. Perseguido pelo Imperador Septímio Severo, fugiu para o Egito e, finalmente, morreu na Capadócia.

Uma homilia sua sobre Marcos 10,17-31 nos apresenta Jesus dizendo-nos:

– “Eu te regenerei (…) Eu te mostrarei a face de Deus, o Bom Pai (…) Eu sou Aquele que te alimenta, que dou a Mim mesmo no pão [do qual quem provar não experimentará a morte] e dou diariamente a Mim mesmo na bebida da imortalidade” (Quis Dives Salvetur 23).

É bastante claro o sentido realista da presença do Senhor: não é o símbolo que nos pode salvar da morte eterna, mas o próprio Senhor. E isto apesar de Clemente ser um claro representante da Escola Alegórica de interpretação. Este dado deve ser levado em conta sempre que estejamos considerando este ou outros autores alegoristas, como Tertuliano[14].

Creio que seja útil advertir, por ocasião deste texto, que as expressões simbólicas que eventualmente podem ocorrer em autores antigos ou modernos não implicam necessariamente no fato de autor negar a presença real do Senhor na Eucaristia. Por exemplo: Clemente, em sua homilia, faz o Senhor dizer: “Dou a Mim mesmo no pão”; e em nossos dias é comum ouvirmos dos lábios de pregadores católicos: “Jesus se fez pão na Eucaristia” ou expressões semelhantes. Tais expressões não significam que se está negando a presença real do Senhor, mas são na verdade expressões literárias perfeitamente compreensíveis no contexto em que são expressas: o que vemos na Eucaristia é precisamente pão e se os ouvintes ou leitores são fiéis, não é contrário à Fé Católica falar deste modo. Retornando à expressão de Clemente, não esqueçamos que Jesus diz “Dou a Mim mesmo” no pão; se quisermos ser mais exatos, diríamos: “Dou a Mim mesmo (=presença real) sob as aparências de um simples pão (=o que vemos, os acidentes, aquilo que nosso corpo consome empiricamente)”.

TERTULIANO

É a testemunha da Igreja de Cartago. Nascido de pais pagãos por volta de 155, chegou a ser advogado de excelente reputação. Converteu-se ao Senhor em 193. Autor prolífico, de enorme influência no pensamento cristão, excelente conhecedor das Escrituras, seus escritos apresentam um período católico; a seguir, um período de transição (semi-montanista, com tendências rigoristas); e, finalmente, rompe com a Igreja para professar o cisma montanista, que basicamente consistia em um Cristianismo extremamente rigorista. Morreu entre 240 e 250.

O realismo eucarístico de Tertuliano é bastante conhecido. Para ele:

– “A Eucaristia são as delícias do corpo do Senhor” (De Pudicitia 9,16).

Por não atentar-se devidamente às peculiariedades da sua linguagem, tem sido possível o paradoxo de interpretar como simbolista um escritor que com esses mesmos textos está decididamente refutando o Docetismo de Marcião[15]. Vejamos alguns textos para termos uma melhor ideia sobre a mente de Tertuliano:

– “Pelo qual já provamos com o Evangelho pelo mistério do pão e do vinho a verdade do corpo e do sangue do Senhor, ao contrário do fantasma de Marcião” (Contra Marcião 5,8,3).

Aqui, a tradicional relação entre a Encarnação e a Eucaristia é empregada não para provar a realidade – já reconhecida e aceita – da Eucaristia, mas para comprovar a verdade da Encarnação! Isto é: assim como na Eucaristia temos realmente o corpo e o sangue do Senhor – coisa que não se discute – ‘a fortiori’ se deverá aceitar que o corpo do Senhor, pela Encarnação, foi real e não um fantasma: em ambos os casos, trata-se do mesmo corpo e do mesmo sangue do Senhor.

Um texto que normalmente é citado como simbolista é o seguinte[16]:

– “Após ter declarado que desejava muitíssimo comer a Sua Páscoa (=seria indigno que Deus desejasse algo desnecessário), tomando o pão e dando-o aos discípulos, o fez Seu corpo, dizendo: ‘Isto é Meu corpo’, isto é, a figura do Meu corpo. Porém, não seria figura se não fosse um corpo verdadeiro; afinal, algo que é vazio [como um fantasma] não poderia constituir uma figura” (Contra Marcião 4,40,3).

Antes de mais nada, não devemos esquecer que o texto diz que Jesus, ao pão, “o fez Seu corpo”. Por outro lado, é certo que Tertuliano esclarece que trata-se da “figura do Meu corpo”. No entanto, este modo de falar não desvirtua em nada o realismo; ao contrário, o confirma, pois para que algo possa ser figura ou imagem de outra coisa, precisa ter em si mesmo uma realidade, não pode ser um fantasma. E o mais importante: qual é o contexto em que se encontra esta expressão de Tertuliano? Do que ele está falando?

Arguindo a partir da hipótese doceta, diz-se:

– “Se o pão se fez corpo precisamente porque Ele carecia de um corpo real (=coisa ensinada pelos docetas), então o que deveria ter sido entregue por nós era o pão [porém, na realidade o que foi entregue foi o corpo]” (Contra Marcião 4,40,3).

Uma palavra sobre os “dois elementos, o terrestre e o celeste” de que é composto o pão sobre o qual foi invocado o Espírito santo: nos grosseiros e infames ataques que a Eucaristia recebeu da parte dos gnósticos de todos os tempos, encontra-se também algum tipo de acusação de canibalismo. Porém, isso é desconhecer que a Eucaristia, uma vez pronunciadas as palavras de consagração, continua com todos e cada um dos elementos sensíveis (ou “acidentes” ou “espécies”, na linguagem filosófica posterior) que tinha quando era “pão comum”, coisa que Ireneu define como “elemento terrestre” ou que Tertuliano chama “figura” do corpo do Senhor. Com efeito, não há nenhum canibalismo, pois a presença verdadeira, real e substancial do corpo e sangue do Senhor não se dá nas suas espécies próprias de corpo e sangue de Cristo, mas em espécies alheias, isto é, as do pão e vinho. Em outras palavras: a partir do ponto de vista empírico nada mudou, ainda que a Fé indique ao fiel que, pelo poder de Deus, a substância “já não é pão comum”. Assim, toda tentativa de apontar “canibalismo” às celebrações eucarísticas demonstra uma mentalidade totalmente truncada e fechada. Convido a qualquer gnóstico moderno a apresentar uma acusação de “canibalismo” contra a Igreja Católica diante dos tribunais de seu país e ver que tipo de aceitação terá.

Ou seja: suposta a identidade do corpo físico de Jesus com Seu corpo eucarístico (identidade que para Tertuliano não é discutível porque ele não conhece senão um só e verdadeiro corpo do Senhor), esse corpo real e único cumpre precisamente na Eucaristia uma antiga “figura”: aquela que foi assinalada por Jeremias (11,19), que profetizou: “Coloquemos o lenho em seu pão”. Esta é exatamente a passagem que está sendo comentada por Tertuliano. Para ele, o Profeta Jeremias designa com “o lenho” a cruz e com “o pão” o corpo do Senhor. Como pode o pão designar o corpo do Senhor? Essa figura, cunhada pelo Profeta, é revelada por Jesus quando, com o pão nas mãos, disse: “Isto é Meu corpo”. Foi então que foi explicado o significado do pão naquela profecia. Esta doutrina de Tertuliano encontra-se em Contra Marcião 4,40,3-4 e em 3,19,3-4.

Neste sentido, é compreensível também a expressão relativa ao sangue:

– “Agora consagrou Seu sangue no vinho Aquele mesmo que então fez do vinho figura do sangue [Isaías 63,1; Gênesis 49,19]” (Contra Marcião 4,40,4-6).

Notemos a força da seguinte expressão, onde Tertuliano defende a bondade do corpo humano contra o preconceito gnóstico, de que a carne é coisa má, e proclama, através das coisas sensíveis como instrumentos – os Sacramentos que tocam o corpo – de que Deus santifica a alma:

– “Lava-se a carne [com o Batismo], para que a alma seja limpa. Unge-se a carne [pelo Batismo e Confirmação], para que a alma seja consagrada. Assinala-se a carne [pela Confirmação e Unção dos Enfermos], para que a alma seja protegida. Encobre-se a carne com a imposição das mãos [pela Confirmação e Ordem], para que a alma seja iluminada. Alimenta-se a carne com o corpo e o sangue de Cristo [pela Eucaristia] para que também a alma se sacie de Deus” (Da Ressurreição dos Mortos 8,3).

À luz destas expressões é possível enxergar também estas outras coisas:

– “Porém, é certo que Cristo até agora não reprovou a água do Criador [com a qual lava os seus fiéis], nem o óleo [com o que os unge], nem a mistura de mel e leite [com que os amamenta], nem o pão [que o tornou Seu corpo]. Até para os próprios Sacramentos é necessário mendigar ao Criador!” (Contra Marcião 1,14,3)[17].

– “Ainda que a expressão diga: ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’, devemos entendê-la melhor espiritualmente, porque Cristo é o nosso pão, já que Cristo é a vida e a vida é o pão [Ele disse: ‘Eu sou o Pão da Vida’; e, um pouco antes: ‘O pão é a Palavra do Deus vivo que desceu do céu’]. Além disso, porque Seu corpo também é autoritativamente designado como ‘pão’: ‘Isto é Meu corpo'” (Da Oração 6,2).

Isto é, o corpo do Senhor é dado na forma de pão, sob as aparências de pão. Porém, o que é consumido não é pão, mas o corpo de Cristo: “Isto é Meu corpo”. Esta é a substância que o fiel consome quando participa da Eucaristia.

NOTAS: [14] Seria o caso deste outro texto de Clemente: “O Verbo é tudo para a criança: pai e mãe; e, por sua vez, pedagogo e alimentante. Ele disse: ‘Comei o Meu corpo e bebei o Meu sangue’. Estes são os alimentos, bem apropriados para nós, que o Senhor dá: oferece Sua carne e dá Seu sangue; nada falta às crianças para que cresçam” (Pedagogo 1,6,42,3). [15] A heresia docetista ensinava, substancialmente, que a Encarnação não fôra real, mas aparente, uma espécie de ilusão: nem o Verbo se fez carne realmente, nem morreu realmente na cruz, etc. [16] Citado em parte por Hernández Agüero no Site “Conoceréis la Verdad”. [17] É óbvio que Tertuliano acreditava que Jesus tinha Se convertido em pão… O contrário é que deve ser entendido, como já mencionamos em uma nota anterior, acerca do modo poético de se falar da Eucaristia. Certamente, nenhum “pão” pode nos dar nada no plano da salvação, salvo se esse “pão” agora for “o corpo do Senhor”. Nesta chave, todos os textos patrísticos podem ser compreendidos.

Leia também as outras partes da série especial sobre a Eucaristia

  1. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 1

  2. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 2

  3. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 3

  4. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 4

  5. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 5

  6. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 6

  7. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 7

  8. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 8

  9. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 9

  10. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 10

  11. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 11

  12. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 12

  13. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 13

  14. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 14

  15. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 15

  16. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 16

  17. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 17

  18. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 18

  19. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 19

 
 
 

Autor: Pe. Juan Carlos Sack Fonte: http://www.apologetica.org Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “Confesso que o corpo está no céu e confesso também que está no Sacramento. Se isto é ou não contrário à natureza, não me importa, contanto que não seja contrário à Fé” (Martinho Lutero). – “Um corpo físico ocupa espaço e, portanto, só pode estar em um só lugar em um determinado tempo” (Daniel Sapia, evangélico). [Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje os testemunhos de Inácio de Antioquia, Justino de Roma e Ireneu de Lião].

INÁCIO DE ANTIOQUIA

Uma das testemunhas mais importantes da Igreja Pós-Apostólica. Nascido na Síria, por volta do ano 50, mártir em Roma entre os anos 98 e 117 (mais possivelmente por volta do ano 110, devorado pelas feras). Foi o terceiro Bispo de Antioquia, logo após o Apóstolo Pedro e Evódio. Recebeu a doutrina evangélica da boca dos sucessores imediatos dos Apóstolos, sendo que alguns afirmam que foi discípulo direto de São João Evangelista. Conservam-se várias cartas que escreveu às jovens igrejas enquanto era conduzido a Roma para ser martirizado. A ele se deve a mais antiga aplicação da palavra “Eucaristia” (em grego, “ação de graças”) à celebração da Ceia do Senhor.

Nos textos aqui citados deve-se saber que Inácio precisou enfrentar, entre outras, a heresia chamada “Docetismo”, uma forma de Gnosticismo, segundo a qual Jesus Cristo não veio realmente em carne, mas apenas em aparência. Segundo esta heresia, Seu corpo não era real como o nosso, mas seria uma espécie de ilusão. Diziam, por exemplo, que a expressão “E o Verbo se fez carne” (João 1,14) devia ser entendida de modo simbólico, pois é “o espírito” que “vivifica; a carne para nada serve” (João 6,63)[10]. Santo Inácio fala acerca deles ao escrever para os cristãos de Esmirna, dizendo-lhes:

– “Eles se mantêm distantes da Eucaristia e da oração porque não querem confessar que a Eucaristia é a carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, carne que sofreu pelos nossos pecados e foi ressuscitada pela bondade do Pai” (Cartas aos Esminenses 7,1).

Interessado em guardar a unidade da Igreja, escreveu também aos cristãos de Filadélfia:

– “Tomai cuidado para não celebrar mais do que uma só Eucaristia, porque não há mais do que uma só carne de Nosso Senhor Jesus Cristo e não há mais do que um cálice para a reunião de Seu sangue. Há um só altar, assim como há um só Bispo com os seus Presbíteros e meus irmãos, os Diáconos” (Carta aos Filadelfos 4).

Inácio reconhece na Eucaristia a única Carne e o único Sangue do Senhor, razão pela qual não pode ser aceita nenhuma celebração “paralela”, à margem da Igreja visível[11] Seguindo a prática da Igreja Apostólica, a Igreja Católica não admite como válidas as celebrações da Ceia do Senhor que não sejam presididas pelo Bispo ou por alguém por este designado, isto é, um Presbítero validamente ordenado[12].

JUSTINO MÁRTIR

Nasceu em Nablos, Palestina, entre os anos 100 e 110, de família pagã. Na sua juventude dedicou-se à filosofia, passando por diversas escolas, até que conheceu o Cristianismo e abraçou a fé. Juntamente com outros companheiros, foi decapitado por professar a religião cristã por volta de 165. As obras que nos chegaram são de caráter apologético, em defesa do Cristianismo contra os que o impugnavam.

Justino escreveu sua 1ª Apologia por volta do ano 155, onde explica ao Imperador Antonino Pio quais eram as verdadeiras práticas dos cristãos, já que sabia que o Imperador era frequentemente informado acerca desta nova religião através de testemunhos falsos ou grosseiras tergiversações, devidas à má vontade do informante ou sua ignorância sobre o culto cristão.

– “Este alimento chama-se entre nós ‘Eucaristia’, do qual ninguém mais é lícito participar senão aquele que crê que a nossa doutrina é verdadeira e que foi purificado com o batismo para o perdão dos pecados e regeneração, além de viver como Cristo ensinou. Porque estas coisas (=o pão e o vinho durante a celebração da Eucaristia) não as recebemos como se fossem pão comum e bebida comum, mas do mesmo modo que Jesus Cristo nosso Salvador se fez carne pela Palavra de Deus e tomou carne e sangue para nos salvar, assim também nos foi ensinado que o alimento convertido em Eucaristia pelas palavras de uma oração procedente Dele (=de Jesus) – alimento com que são alimentados nosso sangue e nossa carne através de uma transmutação – é a carne e o sangue daquele Jesus que Se encarnou por nós. Pois os Apóstolos, nos Comentários por eles redigidos, chamados ‘Evangelhos’, nos transmitiram que assim lhes foi ordenado: que Jesus, tendo tomado o pão e dado graças, disse: ‘Fazei isto em memória de Mim; isto é Meu corpo’ [Lucas 22,19; 1Coríntios 11,24]; e tendo tomado do mesmo modo o cálice, e dado graças, disse: ‘Isto é Meu sangue’ [Mateus 26,28]. E somente eles (=os Apóstolos) foram feitos participantes [dessa Eucaristia]. No que diz respeito aos mistérios (=a refeição) de Mitra, quem ensinou tais coisas foram os malvados demônios, pois sabeis, ou podereis saber, que quando alguém é iniciado neles, oferece-se-lhe pão e um cálice de água, acrescentando certos versos” (1ª Apologia 66).

Justino estabelece um paralelo entre a consagração da Eucaristia e o mistério da Encarnação. Como resultado, o que se tem na Eucaristia é o que se tem na Encarnação: é o corpo e o sangue de Jesus Cristo. E transmite isto com toda simplicidade, como algo aceito por toda a Igreja.

Há uma circunstância em que o texto citado recebe uma força particular: Justino está explicando ao imperador pagão em que consiste uma celebração dominical cristã; entre outras coisas, explica a doutrina que certamente ninguém poderia compreender sem possuir fé, pois pareceria loucura. Apesar disto, Justino, homem prudente e inteligente, diz ao imperador que o alimento eucarístico é a carne e o sangue de Jesus, aquela mesma que foi assumida pelo Verbo de Deus para a nossa salvação. Se a Igreja Pós-Apostólica tivesse acreditado na interpretação simbólica das palavras de Jesus – ao modo “evangélico” moderno – sem dúvida alguma este seria o momento para explicar ao imperador pagão que não era necessário se preocupar com qualquer forma de “canibalismo”, pois o pão e o vinho consumidos nas celebrações cristãs [apenas] simbolizariam o corpo e o sangue de Jesus. No entanto, Justino afirma, sem recuar um passo da doutrina, que o pão e o vinho eucarísticos “é a carne e o sangue daquele Jesus que se encarnou por nós”.

IRENEU DE LIÃO

Segundo Bispo de Lião, na França, sucedeu a São Fotino. Nascido na Ásia Menor por volta de 140, morreu em torno de 202 em Lião, possivelmente martirizado. Em sua juventude foi discípulo do Bispo de Esmirna, Policarpo, que, por sua vez, fora discípulo de São João Evangelista. Sua principal – e importantíssima – obra é “Exposição e Refutação da Falsa Gnose”, melhor conhecida como “Adversus Haereses” (“Contra as Heresias”), que escreveu em grego e a completou por volta do ano 200. É o teólogo mais importante do século II, testemunha universalmente reconhecida da Fé Apostólica.

Ireneu teve que enfrentar a primeira e mais importante heresia do início da Igreja, o Gnosticismo, que encerrava uma grande variedade de formas e erros, mas que segundo a qual havia um grupo de pessoas que, por iniciação secreta, pôde obter o autêntico conhecimento da Divindade e da Salvação. Entre outras coisas, os gnósticos desprezavam a Criação. Ireneu adverte que, agindo assim, desprezavam também o Senhor que tomou para Si mesmo carne e sangue e que, além disso, não seria possível crer na realidade de Eucaristia já que:

– “…o pão sobre o qual é feita a ação de graças é o corpo do Senhor; e o cálice é o Seu sangue” (Contra as Heresias 4,18,4).

E, na mesma obra, escreve de diversas maneiras sobre o mesmo fato:

– “São completamente loucos aqueles que rejeitam toda a economia de Deus ao negar a salvação da carne e desprezar seu novo nascimento, pois dizem que ela não é capaz de ser incorruptível. Pois se esta [carne, nosso corpo] não se salva, então nem o Senhor nos redimiu com Seu sangue, nem o cálice da Eucaristia é comunhão com Seu sangue, e nem o pão que partimos é comunhão com Seu corpo [1Coríntios 10,16]; pois o sangue não pode provir senão das veias e da carne, e de tudo que compõe a substância do homem, pela qual, tendo sido verdadeiramente assumida pelo Verbo de Deus, nos redimiu com Seu sangue (…) Pois Ele mesmo confessou que o cálice, que é uma criatura, é Seu sangue [Lucas 22,20; 1Coríntios 11,25], com o qual faz crescer o nosso sangue; e o pão, que também é uma criatura, declarou que é Seu próprio corpo [Lucas 22,19; 1Coríntios 11,24], com o qual faz crescer os nossos corpos” (Contra as Heresias 5,2,2).

Com efeito, a interpretação “simbólica” da celebração eucarística está em perfeita harmonia com a heresia gnóstica… E se essa tivesse sido a fé da Igreja do século II, todo o discurso de Ireneu não teria sentido nenhum. Pelo contrário, seu argumento está baseado na afirmação de duas realidades intimamente unidas: a realidade do corpo do Senhor na Encarnação e a realidade do corpo do Senhor na Eucaristia. Os gnósticos – concluiu Ireneu – devem forçosamente negar uma e outra se quiserem ser lógicos. Vejamos outros textos no mesmo sentido:

– “Consequentemente, se o cálice misturado (=vinho+água) e o pão fabricado [pelo homem] recebem a Palavra de Deus [em grego, ‘epiklesis’] para converterem-se na Eucaristia do sangue e do corpo de Cristo, e através destes cresce e se desenvolve a carne de nosso ser, como podem eles negar que a carne é capaz de receber o dom de Deus, que é a vida eterna, já que foi nutrida com o sangue e o corpo de Cristo, e foi convertida em membro Seu? Quando o Apóstolo escreve em sua Carta aos Efésios: ‘Somos membros de Seu corpo’ [Efésios 5,30], de Sua carne e de Seus ossos, não fala sobre algum homem espiritual e invisível – pois ‘um espírito não tem carne nem ossos’ [Lucas 24,39] – mas sim daquele ser que é verdadeiro homem, que é formado de carne, ossos e nervos, o qual se nutre do sangue do Senhor e se desenvolve com o pão de Seu corpo” (Contra as Heresias 5,2,3).

– “Como dizem que se corrompe e não pode participar da Vida a carne [de nossos corpos], alimentada com o corpo e o sangue do Senhor? Mudem, pois, de opinião ou deixem de oferecer estas coisas (=a ‘eucaristia’ celebrada pelos gnósticos). Pelo contrário, concordem com o que cremos e, quanto a Eucaristia, [concordem] com a firme Eucaristia em que cremos. Oferecemos o que Lhe pertence e proclamamos, de modo concorde, a união e a comum unidade entre a carne e o espírito, porque assim como o pão brota da terra, uma vez pronunciada sobre ele a invocação (=’epiklesin’) de Deus, já não é pão comum, mas a Eucaristia formada por dois elementos: o terrestre e o celestre; de modo semelhante, também os nossos corpos, ao participarem da Eucaristia, já não são corruptíveis, mas têm a esperança de ressuscitarem para sempre” (Contra as Heresias 4,18,5).

Não quero encerrar as citações de Ireneu sem antes recordar um belo testemunho seu sobre a Eucaristia como Sacrifício:

– “Aconselhando Seus discípulos a oferecer as primícias de Suas criaturas a Deus – não porque Este as necessitasse, mas para que não fossem infrutuosos e ingratos – tomou a criatura pão e, dando graças, disse: ‘Isto é Meu corpo’ [Mateus 26,26]. E, do mesmo modo, o cálice, também tomado entre as criaturas como nós, confessou ser Seu sangue; e ensinou que [este] era o Sacrifício do Novo Testamento. A Igreja, recebendo isto dos Apóstolos, em todo o mundo oferece a Deus, que nos dá o alimento, as primícias de Seus dons no Novo Testamento. Com estas palavras, um dos Doze Profetas, prenunciou: ‘Não me comprazo em vós – diz o Senhor onipotente – e não receberei o sacrifício de vossas mãos, porque desde o Oriente até o Ocidente Meu nome é glorificado nas nações e em todas as partes se oferece ao Meu nome incenso e um sacrifício puro: porque grande é Meu nome nas nações – diz o Senhor onipotente’ [Malaquias 1,10-11]. Com estas palavras, apontou claramente que o antigo povo deixaria de oferecer a Deus e que em todo lugar Lhe seria oferecido o Sacrifício Puro (=a Eucaristia); e Seu nome é glorificado nos povos” (Contra as Heresias 4,17,5)[13].

NOTAS: [10] Este mesmo raciocínio dos primeiros inimigos do Cristianismo nascente, visando negar a realidade da encarnação, se repete literalmente hoje em dia na exegese “evangélica” simbólica do discurso do Pão da Vida (João 6,25ss), visando agora negar a realidade da presença real de Cristo na Eucaristia. Isto merece a mais séria atenção (…). [11] Sobre isso, escreve na carta aos esmirnenses: “Que ninguém faça nada de importante para a Igreja sem o consentimento do Bispo. A Eucaristia válida é aquela celebrada pelo Bispo ou por quem ele designar (…) Nem lhe seja permitido, sem o consentimento do Bispo, batizar ou celebrar o ágape. Quem for aprovado pelo Bispo é agradável a Deus, de modo que o que fizer será seguro e válido” (8,1-2). Compare-se com o que ocorre hoje: enquanto nas igrejas católicas se continua celebrando o único Sacrifício eucarístico em torno do Bispo “ou de quem foi por ele designado” (=os sacerdotes), numerosas denominações “evangélicas” se reúnem por iniciativa própria à margem do Bispo e o que celebram não é, com certeza, a Eucaristia, ainda que muitas vezes a parodiem, repartindo – estes sim – pão e vinhos comuns. [12] Por outro lado, a Igreja reconhece a validade das ordenações episcopais das igrejas ortodoxas, razão pela qual a Eucaristia ali é validamente celebrada. [13] Neste artigo, não abordamos diretamente a Eucaristia como Sacrifício. Em todo caso, é bom lembrar que, assim como a presença real de Jesus nas celebrações eucarísticas válidas é uma verdade de Fé virtualmente testemunhada por todos os mais importantes Padres da Igreja, assim também podemos encontrar uma grande quantidade de textos patrísticos que testemunham a Fé da Igreja primitiva na realidade sacrificial da Eucaristia, sem que encontremos neles qualquer dificuldade em admitir a unicidade do sacrifício expiatório de Cristo na Cruz e sua celebração sacramental na Eucaristia até o fim dos tempos. Falam disto como sacrifício: Justino, Didaqué, Cipriano, Cirilo de Jerusalém, João Crisóstomo, Ambrósio, Agostinho, entre outros. Nenhum deles inventou nada, apenas transmitiram a Fé Apostólica. Será que estes homens não sabiam que Cristo Se ofereceu de uma vez por todos, como ensina Hebreus 7,27?

Leia também as outras partes da série especial sobre a Eucaristia

  1. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 1

  2. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 2

  3. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 3

  4. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 4

  5. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 5

  6. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 6

  7. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 7

  8. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 8

  9. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 9

  10. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 10

  11. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 11

  12. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 12

  13. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 13

  14. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 14

  15. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 15

  16. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 16

  17. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 17

  18. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 18

  19. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 19

 
 
 
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