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Autor: Pe. Juan Carlos Sack Fonte: http://www.apologetica.org Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “Cristo apresentou ao Pai, de uma única vez para sempre, o sacrifício de Si mesmo (Hebreus 9:24-28) e não em cada Missa, como faz novamente o sacerdote ao apresentar ao Pai um novo sacrifício de Cristo” (Guillermo Hernández Agüero, evangélico). – “Cristo não foi imolado uma única vez em Si mesmo? No entanto, quanto ao Sacramento [da Eucaristia] – que se imola pelos povos não só em todas as solenidades da Páscoa, mas também todos os dias – não mente aquele que responde, caso lhe seja perguntado, que ‘há imolação'” (Santo Agostinho, Bispo, século IV). [Dando continuidade a esta Série, abordaremos hoje os testemunhos da obra anônima “Tradição Apostólica”, Orígenes e Dionísio de Alexandria].

TRADIÇÃO APOSTÓLICA

Este é um documento de enorme importância para o conhecimento da liturgia celebrada na Igreja dos primeiros séculos. A obra é datada do início do século III (215, aproximadamente). Junto com a Didaqué, são os documentos mais importantes sobre a organização da Igreja primitiva.

Tratando da celebração da Ceia do Senhor, o documento distingue entre “pão bento” (em grego, “eulogia”) e “pão eucarístico” (em grego, “eukaristia”), e insiste no cuidado que se deve ter para com este último[18].

– “Cada um tome cuidado para que nenhum infiel prove a Eucaristia, nem algum rato ou outro animal; porque é o corpo de Cristo, que deve ser comido pelos fiéis e não deve ser menosprezado”[19].

Há uma expressão na Tradição que pode, a primeira vista, parecer [nas traduções] apoiar a opinião simbolista:

– “[O Bispo] dará graças sobre o pão para [que seja] o símbolo do corpo de Cristo; e sobre o cálice de vinho misturado para [que seja] a imagem do sangue que foi derramado por todos os que creram Nele”.

A palavra grega original que se encontra sob as palavras “símbolo” e “imagem” no texto acima – trata-se de uma mesma palavra para ambos os casos – é “antítipo”[20]. A questão é saber o que este termo significa propriamente.

“Tipo” designava, na língua helênica, o mesmo que o molde que modela uma imagem (sentido principal) ou a própria imagem já modelada (sentido secundário). Uma diferenciação posterior passou a ser usada para estes casos, apontando “tipo” para o molde e “antítipo” para a imagem; deste modo, o “antítipo” é algo que em sua própria razão de ser possui um caráter de referência essencial ao molde de onde procede. Para São Paulo, todos os acontecimentos do Antigo Testamento são “tipo” dos acontecimentos do Novo (Romanos 5,14; 1Coríntios 10,6); daí que, obviamente, o Novo Testamento é “antítipo” do Antigo. Com efeito, resta natural enxergar na Eucaristia um “antítipo” da morte de Cristo, que Ele mesmo ordenou comemorar nela. No texto acima citado, o pão e o vinho são chamados “antítipos” (imagem, semelhança) do corpo e do sangue de Cristo, porque esses elementos visíveis adquiriram, após a consagração, uma relação essencial com o corpo e o sangue de Cristo, que neles Ele Se nos dá realmente. Em outras palavras: os elementos eucarísticos são “antítipos” do corpo e do sangue de Cristo não em si mesmos – pois não o são de maneira nenhuma – mas enquanto foram feitos, sacramentalmente, o corpo e o sangue de Cristo. Longe de negar o realismo da presença real, essa expressão a supõe como fundamento da própria relação que afirma. Dava-se deste modo uma primeira resposta ao problema da persistência sensível do pão e do vinho apesar da transformação invisível que pela consagração se operou neles. Com a nova e real presença do corpo e do sangue de Cristo, os elementos do pão e do vinho adquiriram um novo sentido do sinal visível de uma nova realidade invisível, que é o corpo e o sangue do Senhor[21].

Existem outros monumentos litúrgicos em que a mesma expressão aparece. Cito alguns:

– “Te damos graças também, Pai nosso, pelo sangue precioso de Jesus Cristo derramado por nós, e pelo precioso corpo, cujos ‘antítipos’ realizamos por Ele nos ter ordenado proclamar a Sua morte” (Constituições Apostólicas 7,25,4).

– “Em lugar do sacrifício de animais, temos o [sacrifício] espiritual, incruento e místico, que é celebrado pelos ‘antítipos’ do corpo e do sangue do Senhor em memória da sua morte” (Constituições Apostólicas 6,23,5).

– “A imagem e semelhança do corpo e sangue de Cristo se realizam na celebração dos mistérios” (Gelásio, Tractatus de Duabus Naturis Adv. Eutychen et Nestorium 14).

– “Aceita, Pai, estes dons (=o pão e o vinho consagrados na Eucaristia) para a glória do teu Cristo e envia sobre este sacrifício o teu Santo Espírito, testemunha dos sofrimentos do Senhor Jesus, para que Ele mostre que este pão é o corpo de Cristo e este cálice é o sangue de Cristo, de tal modo que os que dele participam se fortaleçam para a santidade, alcancem a remissão dos seus pecados, sejam afastados do maligno e dos seus enganos, possam se encher do Santo Espírito, possam ser dignos do teu Cristo e possam obter a vida eterna, vida que cresce na reconciliaçao dos que fizeste partícipes” (Constituições Apostólicas 8,12,22).

O sentido destes textos supõe a mudança que sofrem o pão e o vinho na consagração. Por ela, o que era pão e vinho são agora o corpo e o sangue do Senhor; contudo, ao permanecer igual em seu aspecto visível de pão e vinho, recebem uma nova relação com o corpo e o sangue de Cristo ali realmente presentes e é isso o que expressam os textos com palavras como “figura”, “imagem”, “semelhança”, “antítipo”: para os olhos naturais, continuam sendo vistos pão e vinho; estes são uma “imagem” do corpo e sangue de Cristo, porque sobre eles foi pronunciada a “eucaristia” e já não são apenas pão e vinho[23].

São João Damasceno (séc. VIII) entendeu o problema de modo diverso e oferecia esta solução:

– “Se alguns chamaram o pão e o vinho de figuras [=”antítipos”] do corpo e do sangue do Senhor – como disse Basílio, o Portador de Deus (=Teóforo) – os chamaram assim não após a consagração, mas antes da consagração, dando este nome à oblação em si” (Da Fé Ortodoxa 4,13).

Isto indica que a fé da Igreja universal era unânime em dar para a presença do corpo e do sangue do Senhor na Eucaristia um valor real e não meramente simbólico.

Finalmente, note-se que os adversários da presença real nem sequer poderiam usar em suas homilias as expressões aqui citadas – que poderiam parecer indicar uma interpretação “simbólica” para o nosso tema – já que as mesmas incluem o conceito de “sacrifício” eucarístico, ou o de “celebração dos mistérios”, que jamais são aplicáveis aos cultos que giram em torno da pregação [como os cultos protestantes], sem a existência de um altar e do sacrifício eucarístico.

ORÍGENES

Nascido em 185, em Alexandria, de família cristã. Seu pai foi martirizado durante a perseguição de Septimio Severo. Conheceu Hipólito de Roma. Excelente pregador e catequista. Morreu em Cesareia, por volta do ano 253, em virtude dos maus tratos provocados pelos perseguidores da Fé. Suas obras foram abundantes. Algumas de suas doutrinas ultrapassaram as da Igreja, mas tratam-se de especulações pessoais sobre os mistérios, coisa que o próprio Orígenes se encarregou de assinalar. Seu desejo de interpretar os textos bíblicos com excesso de alegoria e simbolismo costuma provocar confusão em mais de um de seus ensinamentos. Apesar de tudo, é considerado como um dos melhores teólogos da Antiguidade.

No caso de Orígenes, deve-se levar em conta o seu sistema interpretativo, para não retirar as expressões eucarísticas do seu contexto natural. Para compreender o pensamento sacramental de Orígenes, é necessário considerar três fatos:

a) Sua concepção tipológica (as instituições do Antigo Testamento são figuras das realidades invisíveis do Novo). b) Sua preferência em insistir mais na pregação do que na liturgia. c) O interesse que, por influxo platônico, tem para ele os sinais visíveis do culto como sinais das realidades sobrenaturais.

Tendo isto em vista, Orígenes jamais nega a realidade da Eucaristia e se é verdade que por essa concepção e preferência está ele inclinado a minimizá-la, seu testemunho – por isso mesmo – tem um valor muito maior[24]. Não se trata de uma antinomia entre realismo e simbolismo; afirma-se um simbolismo ulterior ao que previamente se admite como uma realidade. Há em Orígenes um perfeito paralelismo entre a realidade da Eucaristia e seu ulterior simbolismo em ordem a outras realidades, por um lado, e o sentido literal da Escritura e seu sentido tipológico, por outro. Ele não nega o sentido literal e nem o realismo eucarístico; estes dois são a base necessária para o simbolismo e a tipologia[25].

Há em Orígenes muitos textos em que alude a celebração eucarística; insiste especialmente nas disposições para se receber o corpo do Senhor. Indubitavelmente, ele entende esse corpo do Senhor no sentido literal:

– “Se sobes com Ele para celebrar a Páscoa, te dará o cálice do Novo Testamento e também o pão da bênção; conceder-te-á Seu próprio corpo e Seu próprio sangue” (Sobre Jeremias, Homilia 19,13).

– “Antes, como um enigma, o maná era um alimento; agora, realmente, a carne do Verbo de Deus é o verdadeiro alimento, como Ele diz: ‘Minha carne é verdadeira comida e Meu sangue é verdadeira bebida” (Sobre Números, Homilia 7,2).

Porém, esse corpo e sangue do Senhor, que são algo real na Eucaristia, são ao mesmo tempo símbolo de algo diferente, que pode também ser chamado, em sentido espiritual, de corpo e sangue do Senhor. Por isso, Orígenes chama o corpo de Cristo na Eucaristia de “corpo típico e simbólico”; não porque não seja real, mas porque também é um sinal, um símbolo.

Em outro lugar, Orígenes exorta:

– “Vós que assistís habitualmente os divinos mistérios sabeis como, quando recebeis o corpo do Senhor, o guardais com cuidado e veneração, para que não caia nenhuma só partícula e não desapareça algo do dom consagrado. Porque se por negligência cai alguma coisa, credes ser réus – e com razão[26]. Porém, se dedicais tanto cuidado para conservar o corpo – e tens razão em fazê-lo – como podereis pensar que é algo menos ímpio descuidar da Palavra de Deus?” (Sobre Êxodo, Homilia 13,3).

Em outro ponto, comenta Números 23,24, onde se lê: “Não dormirá até que coma a sua presa e beba do sangue dos feridos”. O próprio tom da frase – diz Orígenes – faz abandonar a letra [do texto] e buscar a alegoria:

– “Que nos digam: que povo é esse que tem o costume de beber sangue? Isso foi o que, também no Evangelho, os judeus que seguiam o Senhor, ao ouvi-Lo, se escandalizaram (…) Porém, o povo cristão escuta e segue Aquele que diz: ‘Se não comerdes a Minha carne e não beberdes o Meu sangue, não tereis vida em vós, porque a Minha carne é verdadeiramente comida e Meu sangue é verdadeiramente bebida'”.

E continua e conclui o alexandrino:

– “Verdadeiramente Quem dizia isto foi ferido por nossos pecados, como disse Isaías (…) Porém, é dito que bebemos o sangue de Cristo não apenas no rito dos Sacramentos, como também quando recebemos as palavras de Cristo, em que se encontram a Vida” (Sobre Números, Homilia 16,9).

Com efeito, Orígenes passa do real – que claramente afirma – para um sentido mais místico nas passagens que comenta[27].

DIONÍSIO DE ALEXANDRIA

Discípulo de Orígenes. Chefe da escola catequética de Alexandria em 231; Bispo de Alexandria em 248. Morreu em 265. Dele restaram duas cartas inteiras e vários fragmentos citados por outros autores.

Em uma carta ao Papa, em que explica o porquê de não reiterar o batismo dos hereges, diz:

– “É precisamente isto o que não me atrevi a fazer, dizendo [a um ancião que me insistia para que lhe renovasse o batismo], que lhe bastava a comunhão [eucarística] em que era admitido há tanto tempo. Quem participou da Eucaristia e pronunciou o ‘Amém’ com os demais, tendo se aproximado do altar e estendido as suas mãos para receber o alimento sagrado, e o tendo recebido e participado do corpo e sangue de Nosso Senhor, a esse eu não me atreveria a refazê-lo desde o início [administrando-lhe novamente o batismo]” (Carta ao Papa Sisto II; cf. Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica 7,9,4).

NOTAS: [18] O “pão bento” é conservado nas celebrações do Rito Bizantino, mas não nas do Rito Romano. [19] Espero que esta afirmação da Igreja dos primeiros séculos aplaque o medo de Hernández Agüero, que propõe: “Pensemos agora: se por acaso um rato, por descuido, vier a comer uma hóstia consagrada, falando no bom sentido, poderíamos dizer então que ‘comeu Deus’?” Fiquemos apenas com a parte em que o rato não come o pão eucarístico, porque é o Corpo de Cristo e deve ser tratado como tal. Porém, o argumento do “rato comendo Deus” não parece ter debilitado a fé da Igreja primitiva na presença real. [20] Neste antigo documento ocorre em outras passagens o uso da palavra “antítipo”: o pão do ágape, segundo a Tradição, “é uma ‘eulogia’, não uma Eucaristia, ‘antítipo’ do corpo do Senhor” (distinção mais do que importante para não confundir o ágape fraterno com a Eucaristia propriamente dita); e também: “Recebeste o cálice em nome de Deus como o ‘antítipo’ do sangue de Cristo”. [21] O tema foi estudado detalhadamente por A. Wilmart, em seu artigo “Transfigurare”, Bulletin d’Ancienne Littérature et d’Archeologie Chrétiennes 1 (1911), pp. 285-288. [22] Avalie-se o peso desta afirmação: o pão e o vinho eucarísticos produzem nos que os recebem: fortaleza para a santidade, remissão dos pecados, afastamento do maligno, recepção do Espírito Santo em plenitude, o sermos dignos de Cristo e a obtenção da vida eterna. Poderia tudo isto ter por causa um símbolo? É claro que não. Portanto, a fé que representa este importante documento da Antiguidade cristã é uma fé na presença real do Corpo e Sangue de Cristo nos elementos eucarísticos. Quem são os que representam esta fé hoje? E quem são aqueles que a combatem? [23] Não se deve esquecer que a Teologia, isto é, a reflexão sobre os mistérios da fé, vai se desenvolvendo de maneira gradual: a Igreja recebe o mistério e reflete sobre ele, guiada pelo Espírito, sem eliminar os elementos que transcendem sua capacidade intelectiva – os mistérios propriamente ditos – ainda que busque obter deles um conhecimento e uma compreensão cada vez maiores. Neste processo secular, a Teologia avança também na expressão das verdades que recebeu e que transmite de geração a geração, atormentada precisamente por expressões que davam margem à dúvida ou confusão, ou somente imperfeitas em demasia. Assim ocorreu com todos os dogmas da Igreja, não apenas com a Eucaristia; pense-se, por exemplo, na evolução das expressões acerca da humanidade e divindade do Senhor: só com o passar dos séculos e após disputas que muitas vezes se tornaram violentas, a Igreja foi capaz de expressar o mistério de uma maneira mais perfeita, coisa que não exclui uma melhor expressão no futuro. Quando o Concílio Niceno-Constantinopolitano abordou a pessoa divina de Jesus e suas naturezas divina e humana, estava expressando com autoridade o que por séculos foi motivo de debates e lutas de não pequena monta, visto que as Escrituras pareciam dar razão para as duas partes em questão manter posições contrárias; e na pregação do mistério da Encarnação, aqui e acolá soavam expressões que a Igreja, iluminada pelo Espírito da Verdade, foi discernindo, esclarecendo e definindo. [24] Estes pensamentos não são ideias minhas. Podem consultar-se os melhores estudiosos de Orígenes e os Padres do seu tempo; p.ex.: H. U. von Balthasar, “Le Mysterion de Origène”, in: Recherches de Science Religieuse 26 (1936), pp. 513-562; 27 (1937), pp. 38-68; H. de Lubac, “Histoire et Esprit. L’intelligence de l’Écriture d’après Origène” (Paris 1950), pp. 355-358; H. Crouzel, “Origène et la structure du sacrement”, in: Bulletin de Littérature Ecclésiastique 63 (1962), pp. 81-104 ; L. Lies, “Wort und Eucharistie bei Origenes” [Innsbrucker theologishe Studien, 1] (Innsbruck-Wien-München 1978), pp. 97-148 ; J. Daniélou, “Origène” (Paris 1948), p. 74. Todos estes autores são as autoridades mais importantes no estudo de Orígenes em nosso tempo. [25] Sobre a antiga concepção de “símbolo” que não nega a realidade mas a afirma, projetando-a para uma outra realidade superior, veja-se A. von Harnack, “Lehrbuch der Dogmengeschichte”, t. 1 (Tübingen 1909), p. 476. [26] Neste espírito, a Igreja sempre protegeu os sagrados elementos eucarísticos contra toda espécie de profanação, maltrato ou roubo. Daniel Sapia, webmaster do Site batista “Conoceréis la Verdad”, quer desacreditar este interesse da Igreja, quando cita ironicamente a preocupação de Mons. Estanislao Karlic, então presidente da Conferência Episcopal Argentina, quando tomou conhecimento do roubo cometido contra uma senhora que levava consigo a eucaristia para um doente. Comentou o webmaster batista: “O Redentor da humanidade era carregado ‘na carteira da mulher…'”. [27] Esta última citação de Orígenes confirma o que sugerimos anteriormente: a fé na presença real de Jesus na Eucaristia não exclui um discurso mais amplo, simbólico, que podemos encontrar nos Padres (e também em pregadores católicos atuais); o texto citado, p.ex., nunca poderia ser pronunciado por um “evangélico”, pois ele não poderia dizer: “bebemos o sangue de Cristo no rito dos Sacramentos”, enquanto que um católico poderia, sem nenhum problema, pronunciar a frase inteira: “bebemos o sangue de Cristo não apenas no rito dos Sacramentos, como também quando recebemos as palavras de Cristo”.

Leia também as outras partes da série especial sobre a Eucaristia

  1. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 1

  2. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 2

  3. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 3

  4. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 4

  5. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 5

  6. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 6

  7. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 7

  8. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 8

  9. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 9

  10. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 10

  11. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 11

  12. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 12

  13. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 13

  14. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 14

  15. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 15

  16. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 16

  17. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 17

  18. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 18

  19. A Presença Real de Cristo na Eucaristia – Parte 19

 
 
 

Este artigo é fragmento da obra “Manual de Defesa dos Livros Deuterocanônicos.” de autoria de Rafael Rodrigues, que será lançado nos próximos Meses.


São Jerônimo viveu entre os séculos IV e V, e foi secretário do Papa Damaso,  apedido deste começou a traduzir a Vulgata Latina (Tradução das escrituras do original para o Latim). Em 11 de dezembro de 384 o Papa Damaso morreu, então se mudou para Jerusalém onde fundou dois mosteiros e lá pôde continuar seu trabalho de tradução. (LIMA, 2007).

São Jerônimo é o Padre da Igreja mais freqüentemente usado pelos protestantes para dizer que, os pais negavam a inspiração do deuterocanônicos. Sua atitude em relação ao Deuterocanônicos é realmente, a primeira vista, a mais dura entre os Padres. Vamos aos seus relatos:

Este prefácio das para as escrituras [Samuel e Reis] podem servir como um ‘elmo’ introdutório para todos os livros os nos possamos ter certeza de que aqueles que não são encontrados em nossa lista devem ser colocados entre os escritos apócrifos. Sabedoria, o Livro de Sirac, e Judite, e Tobias e o Pastor não são canônicos. O primeiro livro de Macabeus eu encontrei em hebraico, o segundo em grego, como pode ser demonstrado de alto estilo” (JERÔNIMO, 430)

 Outro:

Nós temos o autêntico livro de Jesus, Filho de Sirac [Eclesiástico], e outro trabalho pseudo-epígrafo, intitulado Sabedoria de Salomão. Eu encontrei o primeiro no hebraico, com o título, ‘parábolas’, não eclesiástico como nas versões latinas […] O segundo de forma alguma se encontra nos textos hebraicos, e seu estilo aproxima-se de eloqüência grega: um número de escritores antigos afirma que é um trabalho do Judeu Fílon. Conseqüentemente, apenas como a Igreja lê Tobias, e os livros dos Macabeus, mas não são admitidos no cânon das Escrituras; a Igreja permite que estes 2 volumes sejam lidos, para a edificação das pessoas, não para darem suporte à autoridade das doutrinas eclesiásticas

Constata-se aqui, mais uma vez, que a Igreja da palestina não rejeitava estes livros, ou os tinha como heréticos, assim como os protestantes acusam, mas os tinha como de serventia para a “edificação das pessoas”, logo vemos que desde sempre estes livros estavam em posse da Igreja e amplamente usados.

Olhando de cara, São Jerônimo diz especificamente que os deuterocanônicos não são contidos no cânon das Escrituras e até diz que eles não devem ser usados para a doutrina. O mesmo caso de Orígenes e de Atanásio não se aplica a ele, pois aqui ele menciona claramente que não são usados para a doutrina, logo não estava fazendo nenhuma recomendação ou falando liturgicamente. De todos os Padres, ele tem a visão mais “negativa” dos deuterocanônicos, como é visto suas em declarações. No entanto, se formos ver na prática tempo depois de ter feitos essas declarações, São Jerônimo cita todos esses livros, que ele negou a canonicidade, como Escritura, e os mantém no mesmo nível de inspiração dos outros. Procuramos em suas obras, a que tivemos acesso, e encontramos diversas vezes ele se referindo aos deuterocanônicos como inspirados e faz menção a eles cerca de 55 vezes.

Perceba o leitor que ele não coloca o livro de Baruc entre os não canônicos, logo significa que ele aceitava a inspiração de Baruc.  Disse que Judite não era canônico, porém mais tarde ele mesmo vem reconhecer como canônico como podemos ler em seu relato:

Entre os hebreus do livro de Judite é encontrada entre os Hagiógrafos, a autoridade do qual para confirmar aqueles que entram em disputa é julgado menos apropriado. No entanto, tendo sido escrito em Língua caldéia, ele é contado entre as histórias. Mas porque este livro é encontrado, pelo Concílio de Nicéia, sendo contados entre o número das Sagradas Escrituras, tenho concordado com o seu pedido, de fato uma ordem, e trabalhando  tendo sido posto de lado a partir do qual eu estava com força reduzida, dei a este (livro) uma curta noite de trabalho, traduzindo mais sentido do sentido do que a palavra da palavra. […] Receba a viúva Judite, um exemplo de castidade, e declare honra triunfal com louvores perpétuos a ela.[…]” (Prólogo do livro de Judite).

Ou seja, ele reconhece o canonicidade de Judite devido uma promulgação do Concílio de Nicéia, tal citação não foi preservada nos cânones, cartas ou atas do concílio, só tomamos conhecimento disto através de Jerônimo. Portanto podemos ver, até agora, que ele aceitava Judite e Baruc como canônicos. Vejamos agora os que ele fala sobre os acréscimos de Daniel:

Livro II, 33. Em Referencia a Daniel minha resposta será que eu não disse que ele não era profeta; ao contrário eu confesso, no próprio início do prefácio, que ele era um profeta. Mas eu desejei mostrar qual era a opinião sustentadas pelos Judeus; e quais eram os argumentos que eles usavam para provar. Eu também disse ao leitor que a versão lidas nas Igrejas Cristãs não era a da septuaginta mas a se Teodocião. É verdade, Eu disse que a versão da septuaginta era neste livro muito diferente do original, e que foi condenada pelo justo julgamento das Igrejas de Cristo; Mas o erro não foi meu que relatei o fato, mas daqueles que lêem a versão. Nós temos 4 versões para escolher: aquelas de Áquila, Simáco, Septuaginta, e Teodocião. As Igrejas escolheram ler Daniel na versão de Teodocião. Que pecado eu cometi se segue o julgamento das igrejas? Mas quando eu repeti o que os judeus dizem contra história de Susana, o hino dos 3 Jovens, e a estória de Bel e o Dragão, que não estão contidos na bíblia hebraica, o homem que fez esta acusação contra mim prova que ele mesmo é um tolo e um caluniador. Pois eu expliquei não o que eu pensava, mas o que eles comumente diziam contra nós. Eu não refutei a opinião deles no prefácio por que eu sendo breve, e cuidadoso para não parecer que eu não estava escrevendo um prefácio e sim um livro. Eu disse, portanto, ‘aqui não agora não é o momento para entrar em discussão sobre isto.’” (JERONIMO, 420)

Veja que ele aqui aceita a canonicidade dos acréscimos de Daniel, diz que as acusações não são suas, mas dos judeus:

 “Pois eu não relatei o que eu pensava, mas o que eles comumente diziam contra nós.”.

Ele também mostra que não quis refutar os judeus para seu prefácio não ficar grande:

Eu não refutei a opinião deles no prefácio por que eu sendo breve, e cuidadoso […] Eu disse portanto, ‘aqui não agora não é o momento de entrar em discussão sobre isto.’”.

Até Aqui constatamos, portanto, que São Jerônimo aceitava como canônicos  Judite, Baruc, e os acréscimos de Daniel e Ester.

Vejamos o que diz sobre Eclesiástico:

A Escritura não diz: ‘não te sobrecarregue acima do teu poder’? (Eclesiástico 13, 2)” (A Eustóquio, Epístola CVIII)

São Jerônimo chama o livro do Eclesiástico, que ele  mesmo havia dito como não canônico, de Escritura. Assim, na prática, para apoiar a doutrina, ele o chama de Escritura. Esta citação, mesmo se não houvesse outras citações dele dos deuterocanônicos, já mostra que a sua visão sobre o que é e o que não é Escritura não pode ser vista somente a partir de citações mais antigas.

 “Não, meu querido irmão, estime meu valor pelo número de meus anos. Cabelos brancos não são sabedoria, é sabedoria, que é tão boa quanto os cabelos brancos Pelo menos é isso que Salomão diz: ‘a sabedoria que faz as vezes dos cabelos brancos’ (Sabedoria 4, 9). Moisés também na escolha dos setenta anciãos disse para tirar aqueles a quem ele sabia  que eram anciãos de fato, que não para selecionar-los por seus anos, mas por sua discrição (Números 11, 16) E, como um menino, Daniel, julgou os homens de idade  e na flor da juventude condenou a incontinência da idade (Daniel 13, 55-59)” (A Paulino, Epístola 58).

Aqui São Jerônimo mescla o uso do Livro da Sabedoria com o escrito de Moisés. Depois de se referir a Moisés, ele também se refere à história de Susanna para estabelecer um ponto. Ele não faz distinção, na prática, dos escritos de Moisés dos dois livros deuterocanônicos.

Gostaria de citar as palavras do salmista: ‘os sacrifícios de Deus são um espírito quebrado’, (Salmos 51, 17) e o de Ezequiel ‘Eu prefiro o arrependimento de um pecador ao invés de sua morte’, (Ezequiel 18, 23) e as de Baruc, ‘Levanta-te, levanta-te, ó Jerusalém’ (Baruc 5, 5) e muitos outras proclamações feitas pelas trombetas dos profetas.” (A Oceanus, Epístola 77, 4).

Observe como Jerônimo não faz distinção alguma entre o salmista, Ezequiel e Baruc. Eles são todos Inspirados, Palavras de Deus. Além disso  contrariamente ao que os protestantes dizem, que os deuterocanônicos não tinham profetas, Jerônimo chama Baruc de profeta. De acordo com Jerônimo, Baruc, portanto, com autoridade falou da Palavra de Deus. Ele usa Baruc em conjunto com esses profetas para provar que Davi no Salmo 51 está correto.

ainda a nossa alegria não se deve esquecer o limite definido pela Escritura, e não devemos ficar muito longe da fronteira da nossa luta. Seus presentes, de fato, lembram me dos livros sagrados, pois nele Ezequiel adorna Jerusalém com braceletes, (Ezequiel 16, 11) Baruc recebe cartas de Jeremias (Baruc 6) e o Espírito Santo desce na forma de uma pomba no batismo de Cristo (Mateus. 3, 16)” (A   Eustóquio, Epístola XXXI, 2 ).

Observe que São Jerônimo cita em referência às Escrituras, os Livros Sagrado. Em seguida, ele se menciona três passagens de Ezequiel, Baruc e Mateus. Agora, São Jerônimo aqui se refere às cartas (plural) de Jeremias  a Baruc, uma vez em Jeremias 36, e outra vez em Baruc 6. Assim, para Jerônimo,  Baruc é claramente Escritura, e ele é um dos autores do Volume Sagrado, a Bíblia.

Como nas boas obras é Deus quem lhes traz a perfeição, pois não é do que quer, nem do que corre, mas de Deus que se compadece e dá-nos ajuda para que possamos ser capazes de alcançar a meta: então em coisas ímpias e pecadoras, as sementes dentro de nós dão o impulso, e estes são trazidos à maturidade pelo demônio. Quando ele vê que estamos construindo sobre o fundamento de Cristo com feno, madeira, palha, então ele se aplica no jogo. Vamos, então, construir com ouro, prata, pedras preciosas, e ele não vai se aventurar a tentar-nos: apesar de mesmo assim não há certeza e posse segura. Pois o leão espreita a emboscada para matar os inocentes. ‘ Os vasos do oleiro são provados pela fornalha, e os homens justos, pelo julgamento da tribulação’ (Eclesiástico 27, 5). E em outro lugar está escrito: ‘Meu filho, quando tu vires a servir ao Senhor, prepara-te para a tentação.’ (Eclesiástico 2, 1) Novamente, o mesmo Tiago diz: ‘Sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes. Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante a um homem que contempla seu rosto natural no espelho, pois ele contempla a si mesmo, e vai embora, e logo se esquece que tipo de homem ele era’ .(Tiago 3, 22).  Seria inútil avisá-los para adicionar obras a fé, se não pudessem pecar depois do batismo.” (Contra Joviniano, Livro 2, 3)

Como vimos, “Está escrito” é uma frase que ambos os autores das Escrituras, e os Padres da Igreja usam apenas em referência às Escrituras. Jerônimo usa a frase identificando a citação como Escritura, e a mesma vem do  livro do Eclesiástico. Assim, Eclesiástico é Escritura. Ele então cita Tiago alternadamente e o põe ao mesmo nível de autoridade do Eclesiástico.

 “No entanto, o Espírito Santo no trigésimo nono Salmo, enquanto lamentando que todo homem anda numa vã aparência, e que eles estão sujeitos aos pecados, fala assim: ‘Porque todo homem anda à imagem’ (Salmo 39, 6). Também após o tempo de Davi, no reinado de seu filho Salomão, lemos uma referência um tanto similar à semelhança divina. Pois no livro da Sabedoria, que está escrito com o nome dele, Salomão diz:. ‘Deus criou o homem para ser imortal, e o fez ser uma imagem de sua própria eternidade.’ (Sabedoria 2, 23) e mais uma vez, cerca de mil cento e onze anos depois, lemos no Novo Testamento que os homens não perderam a imagem de Deus. Pois Tiago, um apóstolo e irmão do Senhor, que eu mencionei acima – que não podemos ser enredado nas armadilhas de Orígenes – nos ensina que o homem possui a imagem e semelhança de Deus. Pois, depois de um breve discurso sobre  a língua humana, ele passou a dizer dela: ‘É um mal incontrolável … Com ela bendizemos a Deus, o Pai e com ela amaldiçoamos os homens, que são feitos à semelhança de Deus.’ (Tiago 3, 8-9) Paulo, também, o ‘vaso escolhido’ (Atos 9, 15), que em sua pregação foi totalmente mantida a doutrina do evangelho, nos instrui que o homem é feito à imagem e à semelhança de Deus. ‘Um homem’, diz ele, ‘não devem usar cabelos longos, porquanto ele é a imagem e glória de Deus.’ (I Cor. 11, 7). Ele fala da ‘imagem simplesmente’, mas explica a natureza da semelhança com a palavra ‘glória’. Em vez de três provas da Sagrada Escritura que você disse que iria satisfazê-lo se eu pudesse dá-las, eis que eu te dei sete”  (Carta LI, 6-7).

O próprio Jerônimo que havia escrito que o deuterocanônicos não eram utilizados para estabelecer doutrina, aqui em um contexto mais amplo falando de como somos feitos à imagem de Deus, prova uma doutrina e usa especificamente o Livro da Sabedoria para estabelece-la. São Jerônimo não faz distinções entre os outros livros bíblicos, que ele usa para falar sobre a doutrina, e o Livro da Sabedoria. Pra ele o livro foi uma das sete provas das Escrituras para estabelecer o significado da imagem de Deus.

 “Seu argumento é engenhoso, mas você não vê que é contra a Sagrada Escritura, que declara que, mesmo a ignorância não é sem pecado. Por isso, foi que Jó ofereceu sacrifícios por seus filhos, teste, por acaso, eles tinham involuntariamente pecado em pensamento. E se, quando se está cortando madeira, a cabeça de machado salta do punho e mata um homem, o proprietário é ordenado a ir para uma das cidades de refúgio e ficar lá até o sumo sacerdote morrer (Num. 35, 8); isto é, até que ele ser redimido pelo sangue do Salvador, seja no batistério, ou em penitência que é uma cópia da graça do batismo, através da inefável misericórdia do Salvador, que não quer ninguém pereça (Ezequiel 18, 23), nem se deleita na morte dos pecadores, mas sim que eles se convertam e vivam. […] Você espera que eu explique os objetivos e planos de Deus? O Livro da Sabedoria dá uma resposta à sua pergunta tola: “Não olhe para as coisas acima de ti, e não procure coisas fortes demais para ti’ (Eclesiástico 3, 21). E em outro lugar ‘Não te faça exageradamente sábio, e não argumente mais do que é necessário.’(Eclesiastes 7, 16) E no mesmo lugar ‘em sabedoria e simplicidade de coração busca a Deus.’ Você talvez negará a autoridade deste livro […]” (Contra os Pelagianos, Livro I, 33)

Note, no início do seu depoimento, ele fala como ele vai provar o erro do pelagiano usando as Escrituras, então ele dá uma série de versículos para provar a loucura de seu oponente. Parte desses versículos dos quais ele faz uso para provar o seu ponto de vista é do livro do Eclesiástico. O livro do Eclesiástico, de acordo com Jerônimo, explica o plano e propósito de Deus, que refuta doutrina de seus adversários. Na verdade, embora ele diga que é a citação é da Sabedoria, na verdade é de Eclesiástico 3, 21, ou seja  ele está se referindo ao livro como Sabedoria de Sirac, como também é conhecido o livro de Eclesiástico. Assim, o livro faz parte das Escrituras aos olhos de Jerônimo, são citados por  ele para provar doutrina, e refutar uma pergunta tola. Ele diz que talvez o seu adversário vá negar a autoridade do livro, mas não ele mesmo. Assim, ele afirma sua autoridade.

E os provérbios de Salomão nos dizem que como ‘O vento norte traz chuva, e a língua fingida, o rosto irado.’ (Provérbios. 25, 23) Às vezes acontece que uma flecha quando é dirigida a um objeto duro ricocheteia sobre o arqueiro, ferindo o atirado, e assim, as palavras são cumpridas ‘viraram-se como um arco enganador’ (Salmo 78, 57) e em outra passagem: ‘aquele que lança uma pedra ao alto,  lança-a sobre sua própria cabeça’(Eclesiástico 27, 25)” (A Rusticus, Epístola 125, 19)

Aqui Jerônimo diz que as “palavras são cumpridas”, quais são as palavras que são cumpridas? Ele cita dois versículos, primeiro, o Salmo, em seguida, Eclesiástico. Se Eclesiástico fosse de um status inferior não faria sentido a frase Jerônimo dessa forma. Ele usa o termo, “outra passagem” em referência a Eclesiástico que confirma o mesmo ponto de vista, tornando assim o livro de nível equivalente de autoridade aos Salmos.

As passagens acima são claróssimas e referências explícitas aos livros deuterocaônicos, os quais, sem dúvida, Jerônimo considera como Escritura e os mostra-claramente como inspirados.

Existem outras referências a eles, onde ele não diz explicitamente: “Está escrito”, “A Escritura diz” ou “o Profeta diz”, porém, sem dúvida, define estes livros como Escrituras como ele fez nos exemplos anteriores. Na maioria dos tratamentos das passagens, se é Êxodo, Números, ou Eclesiástico, ele apenas dá a citação sem dizer explicitamente que é Escritura, assim como mencionado com outros padres. Ele assume  que essas passagens são Inspiradas, sem necessariamente dizer os indicadores de autoridade, como as passagens já vistas nos mostram.  Na verdade na maioria das citações dos Padres a respeito das escrituras, eles apenas as citam para apoiar o seu ponto de vista, sem fazer essa marca identificável. Assim, as passagens abaixo mostram que ele trata esses livros na prática  da mesma forma que trata os livros protocanônicos, dando-lhes status equivalente e identificando-os como Escritura, embora de forma menos explícita:

Deixe-me chamar em meu auxílio o exemplo dos três Jovens que, em meio ao fogo, fresco de cerco, cantava hinos, (Daniel 3, 14-94 ) em vez de chorar, e em torno daqueles turbantes e cabelos santos as chamas jogado sem causar danos. Deixe-me lembrar, também, a história do abençoado Daniel, em cuja presença, embora fosse sua presa natural, os leões agachados, com caudas abanando e bocas assustadas. (Daniel 6).  Deixe Susanna também subir na nobreza de sua fé ante os pensamentos de todos, que, depois de ter sido condenada por uma sentença injusta, foi salva por um jovem inspirado pelo Espírito Santo (Daniel 13, 45). Em ambos os casos a misericórdia do Senhor foi também mostrada, por enquanto Susanna foi libertada pelo juiz, de modo a não morrer pela espada, essa mulher, embora condenada pelo juiz, foi absolvida pela espada.” (Carta I, 9)

Essas coisas, querida filha em Cristo, eu te impressiono e freqüentemente repito, que você pode esquecer as coisas que estão para trás e chegar-vos as coisas que estão diante (Filipenses 3, 12). Você tem viúvas, como você dignas de serem modelos, Judite de renome na história hebraica (Judite 13) e Ana, filha de Fanuel (Lucas 2), famosa no evangelho. Ambas Tanto de dia como de noite viviam no templo e preservado o tesouro de sua castidade pela oração e pelo jejum. Uma delas era tipo a Igreja, que corta a cabeça do diabo (Judite 13, 8) e a outro primeiro recebeu nos braços o Salvador do mundo e lhe foi revelado os santos mistérios que estavam por vir (Lucas 2 , 36-38).” (A Salvina, Carta 79, 10).

Agora um relato de São Jerônimo sobre o Novo testamento a Dardano, o prefeito da Gália:

Isto deve ser dito a nosso respeito que aquela epístola que é intitulada ‘aos Hebreus’ é aceita como do apóstolo Paulo não somente pelas igrejas dos leste mas por todos os escritores da Igreja de língua grega dos tempos mais remotos, embora muitos a julguem para ser de Barnabé ou de Clemente. Agora não é importante quem é o autor, uma vez que é um trabalho de um homem da Igreja e recebido reconhecidamente dia a dia na leitura pública das Igrejas. Se o costume dos Latinos não o recebe entre as escrituras, de outro modo pela mesma liberdade, fazem as igrejas dos gregos ao aceitarem o apocalipse de João. Contudo nós aceitamos ambos, não seguindo o costume presente, mas dos escritores primitivos, que geralmente fizeram livre uso dos testemunhos de ambos os trabalhos. E isto eles fizeram, não querendo na ocasião citar escritos apócrifos, como fizeram usar exemplos da literatura pagã, as tratando-os como canônicos e eclesiásticos” (JERÔNIMO, 420)

Percebemos que nem o antigo testamento, nem mesmo o novo testamento, São Jerônimo cita a lista completa, pois havia ainda divergências quando a canonicidade de alguns livros como é no caso de Hebreus e Apocalipse, que a Igreja ainda não tinha dados como certos, dessa liberdade, portanto, vem a sentença de São Jerônimo a respeito de alguns deuterocanônicos, isso não significa que ele os repudiava, mas preferia ver o julgamento da Igreja a respeito. (LIMA, 2007).

Em suma, Jerônimo chama os deuterocanônicos de Escrituras. As provas que ele dá para provar doutrinas e em debates com hereges várias vezes vem dos deuterocanônicos. Ele chama Baruc de profeta, da mesma forma que  Ezequiel. Ele cita Sabedoria e Eclesiástico e dá-lhe a mesma autoridade que os outros livros e reclama que seu oponente irá negar a autoridade desses livros. Suas referências às partes deuterocanônicas de Daniel, incluindo Susanna, Bel e o Dragão, são em apoio a doutrina.  

Mostramos, portanto, que Jerônimo  refere-se a cada um dos livros deuterocanônicos como Inspirados e faz largo uso deles. Isto inclui Eclesiástico, Sabedoria, II Macabeus, Tobias, Ester, Baruc, e até mesmo as porções deuterocanônicas de Daniel, incluindo Susana, Bel e o Dragão e o Cântico dos Três Jovens, tratando cada um desses livros  com a mesma autoridade que os outros livros protocanônicos. Assim, o maior suposto “detrator” dos Deuterocanônicos, trato os como Inspirados e extrai doutrinas e ensinamentos deles, contrariando toda a crítica protestante.

Para citar:

Rodrigues, Rafael. São Jerônimo Rejeitou os deuterocaônicos?; Disponível em: <http://apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/deuterocanonicos/503-sao-jeronimo-rejeitou-os-deuterocanonicos>. Desde: 03/03/2012.

 
 
 

Por Papa Bento XVI Tradução: Zenit Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

O santo bispo Ambrósio, de quem vos falarei hoje, faleceu em Milão na noite entre os dias 3 e 4 de abril do ano 397. Era o amanhecer do sábado santo. No dia anterior, por volta das 17h, ele estava rezando, prostrado no leito, com os braços abertos em forma de cruz. Deste modo, participava do solene tríduo pascal, da morte e da ressurreição do Senhor. «Nós víamos que seus lábios se mexiam, testifica Paulino, o diácono fiel que por convite de Agostinho escreveu sua ‘Vida’, mas não escutávamos sua voz».

De repente, parecia que a situação chegava a seu fim. Honorato, bispo de Vercelli, que estava ajudando Ambrósio e que dormia no andar superior, acordou ao escutar uma voz que lhe repetia: «Levanta-te logo! Ambrósio está a ponto de morrer…». Honorato desceu imediatamente – continua contando Paulino – «e lhe ofereceu o santo Corpo do Senhor. Ao acabar de recebê-lo, Ambrósio entregou o espírito, levando consigo o viático. Deste modo, sua alma, alimentada pela virtude desse alimento, goza agora da companhia dos anjos» («Vida» 47).

Naquela sexta-feira santa do ano 297, os braços abertos de Ambrósio moribundo expressavam sua participação mística na morte e ressurreição do Senhor. Era sua última catequese: no silêncio das palavras, continuava falando com o testemunho da vida.

Ambrósio não era idoso quando faleceu. Não tinha nem sequer sessenta anos, pois nasceu por volta do ano 340 em Tréveris, onde seu pai era prefeito das Gálias. A família era cristã. Quando seu pai faleceu, sua mãe o levou a Roma, sendo ainda um menino, e lhe preparou para a carreira civil, dando-lhe uma sólida educação retórica e jurídica. Por volta do ano 370, propuseram-lhe governar as províncias de Emilia e Ligúria, com sede em Milão. Precisamente lá estava a luta entre ortodoxos e arianos, sobretudo depois da morte do bispo ariano Ausêncio. Ambrósio interveio para pacificar os espíritos das duas facções enfrentadas, e sua autoridade foi tal que, apesar de que não era mais que um simples catecúmeno, foi proclamado bispo de Milão pelo povo.

Até esse momento, Ambrósio era o mais alto magistrado do Império na Itália do norte. Sumamente preparado culturalmente, mas desprovido do conhecimento das Escrituras, o novo bispo dedicou-se a estudá-las com fervor. Aprendeu a conhecer e a comentar a Bíblia através das obras de Orígenes, o indiscutível mestre da «escola de Alexandria». Deste modo, Ambrósio levou ao ambiente latino a meditação das Escrituras começadas por Orígenes, começando no Ocidente a prática da «lectio divina».

O método da «lectio» chegou a guiar toda a pregação e os escritos de Ambrósio, que surgem precisamente da escuta orante da Palavra de Deus. Um célebre início de uma catequese ambrosiana mostra egregiamente a maneira em que o santo bispo aplicava o Antigo Testamento à vida cristã: «Quando lemos as histórias dos Patriarcas e as máximas dos Provérbios, enfrentamos cada dia a moral – diz o bispo de Milão a seus catecúmenos e aos neófitos – para que, formados por eles, vos acostumeis a entrar na vida dos Padres e a seguir o caminho da obediência aos preceitos divinos» («Os mistérios» 1, 1).

Em outras palavras, os neófitos e os catecúmenos, segundo o bispo, após ter aprendido a arte de viver moralmente, podiam considerar-se que já estavam preparados para os grandes mistérios de Cristo. Deste modo, a pregação de Ambrósio, que representa o coração de sua ingente obra literária, parte da leitura dos livros sagrados («os Patriarcas», ou seja, os livros históricos, e «os Provérbios», ou seja, os livros sapienciais), para viver segundo a Revelação divina.

É evidente que o testamento pessoal do pregador e a exemplaridade da comunidade cristã condiciona a eficácia da pregação. Desde este ponto de vista, é significativa uma passagem das «Confissões» de Santo Agostinho. Ele havia ido a Milão como professor de retórica; era cético, não cristão. Estava buscando, mas não era capaz de encontrar realmente a verdade cristã. Ao jovem retórico africano, cético e desesperado, não lhe moveram a converter-se definitivamente as belas homilias de Ambrósio (apesar de que as admirava muito). Foi mais o testemunho do bispo e de sua Igreja milanesa, que rezava e cantava, unida como um só corpo. Uma Igreja capaz de resistir à prepotência do imperador e de sua mãe, que nos primeiros dias do ano 386 haviam voltado a exigir a expropriação de um edifício de culto para as cerimônias dos arianos. No edifício que tinha que ser desapropriado, conta Agostinho, «o povo devoto velava, disposto a morrer com seu próprio bispo». Este testemunho das «Confissões» é belíssimo, pois mostra que algo estava acontecendo na intimidade de Agostinho, que continua dizendo: «E nós também, apesar de que ainda éramos tíbios, participávamos do movimento de todo o povo» («Confissões» 9, 7).

Da vida e do exemplo do bispo Ambrósio, Agostinho aprendeu a crer e a pregar. Podemos fazer referência a um famoso sermão do africano, que mereceu ser citado muitos séculos depois na Constituição conciliar «Dei Verbum»: «É necessário – adverte de fato a «Dei Verbum» no número 25 –, que todos os clérigos, sobretudo os sacerdotes de Cristo e os demais que, como os diáconos e catequistas, dedicam-se legitimamente ao ministério da palavra, submergem-se nas Escrituras com assídua leitura e com estudo diligente, para que nenhum deles acabe sendo – e aqui vem a citação de Agostinho – ‘pregador vazio e supérfluo da palavra de Deus, que não a escuta em seu interior’». Havia aprendido precisamente de Ambrósio essa «escuta em seu interior», essa assiduidade com a leitura da Sagrada Escritura com atitude de oração, para acolher realmente no coração e assimilar a Palavra de Deus.

Queridos irmãos e irmãs: quero apresentar-vos uma espécie de «ícone patrístico» que, interpretado à luz do que dissemos, representa eficazmente o coração da doutrina de Ambrósio. No mesmo livro das «Confissões», Agostinho narra seu encontro com Ambrósio, certamente um encontro de grande importância para a história da Igreja. Escreve que, quando visitava o bispo de Milão, sempre o via rodeado de pessoas cheias de problemas, por quem vivia para atender suas necessidades. Sempre havia uma longa fila que estava esperando pra falar com Ambrósio, para encontrar nele consolo e esperança. Quando Ambrósio não estava com eles, com as pessoas (e isso acontecia em brevíssimos espaços de tempo), ou estava alimentando o corpo com a comida necessária, ou o espírito com as leituras. Aqui Agostinho canta suas maravilhas, porque Ambrósio lia as Escrituras com a boca fechada, só com os olhos (cf. «Confissões». 6, 3). De fato, nos primeiros séculos cristãos, a leitura só se concebia para ser proclamada, e ler em voz alta facilitava também a compreensão a quem lia. O fato de que Ambrósio pudesse passar as páginas só com os olhos é para o admirado Agostinho uma capacidade singular de leitura e de familiaridade com as Escrituras. Pois bem, nessa leitura, na qual o coração se empenha por alcançar a compreensão da Palavra de Deus – este é o «ícone» do qual estamos falando –, pode-se entrever o método da catequese de Ambrósio: a própria Escritura, intimamente assimilada, sugere os conteúdos que é necessário anunciar para levar à conversão dos corações.

Deste modo, segundo o magistério de Ambrósio e de Agostinho, a catequese é inseparável do testemunho de vida. Pode servir também para o catequista o que escrevi na «Introdução ao cristianismo» sobre os teólogos. Quem educa na fé não pode correr o risco de apresentar-se como uma espécie de «clown», que recita um papel «por ofício». Mais ainda, utilizando uma imagem de Orígenes, escritor particularmente admirado por Ambrósio, tem de ser como o discípulo amado, que apoiou a cabeça no coração do Mestre, e lá aprendeu a maneira de pensar, de falar, de atuar. No final de tudo, o verdadeiro discípulo é quem anuncia o Evangelho da maneira mais confiável e eficaz.

Como o apóstolo João, o bispo Ambrósio, que nunca se cansava de repetir: «‘Omnia Christus est nobis’!; Cristo é tudo para nós!», continua sendo uma autêntica testemunha do Senhor. Com suas próprias palavras, cheias de amor por Jesus, concluímos assim nossa catequese: «‘Omnia Christus est nobis!’ Se queres curar uma ferida, ele é o médico; se estás ardendo de febre, ele é a fonte; se estás oprimido pela iniqüidade, ele é a justiça; se tens necessidade de ajuda, ele é a força, se tens medo da morte, ele é a vida; se desejas o céu, ele é o caminho; se estás nas trevas, ele é a luz… Provai e vede que bom é o Senhor, bem-aventurado o homem que espera nele!» («De virginitate» 16, 99). Nós também esperamos em Cristo. Dessa forma seremos bem-aventurados e viveremos na paz.

 
 
 
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