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A “Salve Rainha” é uma das orações mais populares entre os católicos. Ela é atribuída ao monge Hermannus Contractus que a teria escrito por volta de 1050, no mosteiro de Reichenan, na Alemanha. Eram tempos terríveis aqueles na Europa central, com muitas calamidades naturais, destruindo as colheitas, epidemias, miséria, fome e a ameaça contínua dos povos bárbaros normandos, magiares e muçulmnaos que invadiam os povoados, saqueando e matando.

Certamente o monge Hermannus experimentava as piores  misérias da vida humana neste “vale de lágrimas”, como disse. Nesta prece “bradamos” como “degredados”, “suspiramos gemendo e chorando”, vemos o mundo como “um vale de lágrimas”, como um “desterro”. Entretanto, essa visão da vida acaba num sentimento de esperança que a ultrapassa e domina com a confiança em Nossa Senhora.

Ao considerar a condição humana, o monge Hermannus via  muitos motivos de tristeza, mas, ao fixar sua atenção na Virgem Maria, Rainha do céu de da terra, a quem se dirige, mostra-se animado por um horizonte de expectativas reconfortantes e consoladoras, pois ela, a Virgem Maria, é “Mãe de misericórdia”, “Vida, doçura, esperança nossa salve”, “Advogada nossa”,  de “olhos misericordiosos”.

Frei Contractus tinha  consciência da triste época em que vivia, mas tinha outras razões, além disso tudo. Conta a sua históira que ele nasceu raquítico e disforme; adulto, mal conseguia andar e escrevia com dificuldade, de mirrados que eram os dedos das suas mãos. Nasceu em 18 de fevereiro de 1013 em Altshausen, na Swabia hoje Alemanha.

Nasceu com uma fenda no palato, e um problema de espinha bífida (dividida em lóbulos iguais). Seus pais não tinham condição de cuidarem da criança e em 1020 (com sete anos) o entregaram para a Abadia de Reichenau, onde ele ficou o resto de sua vida. Contam que, no dia do seu nascimento, ao constatarem o raquitismo e má formação do bebê, seus pais caíram em prantos. Sua mãe Miltreed, mulher muito piedosa, ergueu-se então do leito e, lá mesmo, consagrou o menino à Mãe de Deus. Consagrado a Ela, foi educado no amor e na confiança em relação a Ela. E, anos mais tarde, foi levado de maca, por ser deficiente físico, até o mosteiro de Reichenan, onde com o tempo chegou a ser mestre dos noviços, pois o que tinha de inapto seu corpo, tinha de perspicaz seu espírito.

Muito inteligente se tornou monge beneditino com a idade de 20 anos. Era um gênio, estudou e escreveu vários livros sobre astronomia, teologia, matemática, história e poesias em latim, grego e árabe. Professor aos 20 anos ficou conhecido pelos seus colegas na Europa.  Construiu alguns instrumentos musicais e equipamentos de astronomia. Ficou cego e com isso parou de escrever. É o mais notável poeta de seu tempo e ainda ficou  famoso ao escrever a oração da “Salve Rainha”e ainda o “Alma Redemporis Mater”. Faleceu em 21 de setembro de 1054 em Reichenau de causas naturais. Beatificado e culto confirmado em 1863. Sua festa é celebrada no dia 25 de setembro.

Foi no fundo de todas essas misérias, que a alma de Frei Contractus elevou à “Rainha dos Céus” esta prece, mescla de sofrimento e esperança, que é a “Salve Rainha”.

Quando veio a ser conhecida pelos fiéis, a “Salve Rainha” teve um sucesso enorme, e logo era rezada e cantada por toda parte. Um século mais tarde, ela foi cantada também na catedral de Espira, por ocasião de um encontro de personalidades importantes, entre elas, a do imperador Conrado e a do famoso São Bernardo, conhecido como o “cantor da Virgem Maria”, pelos incendidos louvores que lhe dedicava nos seus sermões e escritos, ele que foi um dos primeiros a chamá-la de “Nossa Senhora”.

Dizem que foi nesse dia e lugar que, ao concluir o canto da “Salve Rainha”, cujas últimas palavras eram “mostrai-nos Jesus, o bendito fruto do vosso ventre”, no silêncio que se seguiu, ouviu-se a voz potente de São Bernardo que, num arrebato de entusiasmo pela mãe do Senhor, gritou, sozinho, no meio da catedral: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce e sempre Virgem Maria”… E a partir dessa data estas palavras foram incorporadas à “Salve Rainha” original.

Nos quase mil anos que se passaram desde que Herman Contractus compôs a “Salve Rainha” uma multidão incontável de fiéis tem se identificado como os sentimentos que ela expressa, vivendo desde sua aflição à doce esperança que inspira sempre a amável Mãe do Nosso Salvador.

Fonte: http://www.newadvent.org/cathen/07266a.htm;  http://www.cademeusanto.com.br/beato_hermancontractus.htm

 
 
 

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

SÃO PAULO, quinta-feira, 12 de maio de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à liturgia do IV Domingo da Páscoa – At 2, 14. 36-41; 1 Pd 2, 20b-25; Jo 10, 1-10 – redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes – São Paulo). Doutor em liturgia pelo ‘Pontificio Ateneo Santo Anselmo’ (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os comentários à liturgia dominical, às quintas-feiras, na edição em língua portuguesa da Agência ZENIT.

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IV DOMINGO DA PÁSCOA

Leituras: At 2, 14. 36-41; 1 Pd 2, 20b-25; Jo 10, 1 – 10

O Senhor é o pastor que me conduz; para águas repousantes me encaminha” (Sl 22 – Salmo Responsorial).

Com a voz do salmista, a Igreja inteira – que continua celebrando a surpreendente vitória sobre as tribulações e a morte do seu Senhor, crucificado pelos homens mas ressuscitado pelo Pai, segundo o testemunho de Pedro (primeira leitura: At 2, 36) – proclama com alegria e gratidão, neste canto, o âmago da sua nova existência no Senhor. Descobre a si mesma como forte e vencedora dos desafios do mal e dos perseguidores, não por força própria, mas pela força do seu Senhor, que está presente junto dela, guiando-a, como o pastor que guarda e guia o seu rebanho.

Quem poderia imaginar que aquele que iria realizar o papel deste pastor, capaz de infundir tamanha segurança e beatitude nas ovelhas do Senhor, seria um cordeiro, ou melhor, “O Cordeiro”?

O bom pastor se fez cordeiro, dando a própria vida para que as ovelhas tenham a vida. Este é o paradoxo da Páscoa! Esta é a real perspectiva da história, que à luz da páscoa permite aos discípulos de Jesus vislumbrá-la presente até dentro da própria existência, dando-lhes a força de perseverar na esperança e de enfrentar com alegria as tribulações, suportadas por causa da fidelidade ao Senhor (segunda leitura: 1 Pd 2, 20-21).

A visão profética do autor do Apocalipse contempla na sua plenitude a condição de fecundidade e de paz que a Igreja, e cada discípulo e discípula, pode antecipar na esperança. Seguir o caminho de Jesus, partilhar na fé a sorte dele, que por amor se deixou imolar como cordeiro inocente, a fim de resgatar o povo de Deus, disperso pelo pecado como ovelhas desgarradas, significa voltar ao redil do Senhor e encontrar nele segurança, pastagens abundantes e paz. Pedro descreve a mudança de condição da alienação ao encontro, com um novo centro da própria vida em Cristo: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda da vossa fé” (1 Pd 2, 25).

Foi o início de uma radical transformação, que João contempla na sua plena florescência: “Esses são os que saíram de uma grande tribulação, lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro… Não passarão fome nem sede, o sol não os prejudicará nem o mormaço, porque o Cordeiro que está no trono os apascentará e os guiará a fontes de água viva. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos” (Ap 7, 13-17).

Seria uma fuga nos sonhos de um futuro improvável, diante das insuportáveis falhas do presente tão opaco?

Os mártires de ontem e de hoje atestam o contrário.

Há alguns dias, entrevistado na TV sobre a escassez de missionários na Amazônia e sobre como enfrentar o desafio de um território tão imenso e de condições de vida bastante difíceis, um bispo daquela região, com uma grande serenidade no rosto e a luminosidade nos olhos de quem já viu muitas vezes as maravilhas operadas pelo Senhor, dentro da fragilidade humana e das estruturas, respondeu: “Vinde conosco, a partilhar este maravilhoso desafio da evangelização na Amazônia! Não tenhais medo! Experimentamos todos os dias como o Senhor tem cuidado de nós, nos sustenta, nos guia e nos dá sua paz e alegria!”.

“O Senhor é o pastor que me conduz; para águas repousantes me encaminha… Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei”. Este bispo humilde e este povo simples e corajoso compuseram seu próprio canto novo ao Senhor bom pastor. Eles nos convidam a nos unirmos a eles e a compormos, nós também, o nosso canto, que proclama a novidade que o Senhor está criando dentro de nós e para nós, acompanhando-nos com alegria e paz, do momento que nos colocamos no seguimento do caminho do Cordeiro que nos precede.

Na Amazônia, assim como na paróquia ou na família, ou em qualquer outro lugar e condição de vida onde o Senhor nos coloca, Ele nos chama a segui-lo. Não podemos esquecer que o nome do Cordeiro e o do Pai estão gravados na nossa fronte, desde o dia do nosso batismo, e que por isso pertencemos a ele e a seu rebanho, de quem ele tem fiel cuidado (cf. Ap 14, 1).

“Cantam um cântico novo diante do trono, diante dos quatro seres vivos e dos anjos. Ninguém podia aprender o cântico, exceto os cento e quarenta e quatro mil resgatados da terra… Eles acompanham o Cordeiro aonde for. Foram resgatados da humanidade como primícias para Deus e para o Cordeiro” (Ap 14, 3-4).

No evangelho de hoje Jesus utiliza a imagem do pastor, bem conhecida na tradição do AT, sobretudo nos profetas (cf. Is 40,11; Jr 23; Ez 34) e nos salmos (cf. 23; 80), e familiar aos seus ouvintes. Com ela Jesus destaca sua tarefa de messias, enviado por Deus em favor de Israel e de todos os povos. Ao redor da imagem do pastor, está gravitando uma série de outras imagens conexas com a atuação do pastor e a vida das ovelhas: a porta do redil, o porteiro que a controla, o estranho que as ovelhas não conhecem, o ladrão que assalta para roubar e matar, o pastor que sai à frente do rebanho para guiá-lo a pastagens seguras, a relação pessoal estabelecida pelo pastor com cada uma das ovelhas.

Outras imagens, sobretudo a do mercenário que foge diante da vinda do lobo, e a do pastor autêntico que, ao invés, luta para defender o rebanho até dar a própria vida por ele, são desenvolvidas na segunda parte do capítulo (10, 11-18). Esta parte será proclamada no quarto domingo da Páscoa do Ano B.

No centro desta encruzilhada de imagens está a pessoa de Jesus – pastor legítimo e porta do redil –, a sua mediação única e a sua missão, caracterizada pela profunda relação existencial estabelecida por ele com cada uma das ovelhas.

Nestas imagens está expressa a história da relação de Deus com o povo de Israel, a experiência pascal do próprio Jesus, e a missão por ele entregue à Igreja, missão a ser desenvolvida no mesmo estilo pascal, de doação de si mesmo e de serviço, doação esta vivenciada pelo próprio Jesus. Ele, o pastor autêntico, teve cuidado do povo que o Pai lhe entregou, até o ponto de doar a própria vida para defender as ovelhas e comunicar-lhes a sua própria vida e a comunhão com o Pai.

A vida inteira de Jesus se apresenta como cumprimento da profecia que pré-anuncia o cuidado do povo por parte de Deus e, ao mesmo tempo, seu severo julgamento sobre os falsos pastores. Por isso os gestos e as palavras de Jesus provocam reações contrastantes: alegria nos simples de coração, que reconhecem a presença de Deus em Jesus, violência nos que se sentem questionados: “Estas palavras provocaram nova divisão entre os judeus. Muitos diziam: Está endemoninhado e louco. Porque o escutais? Outros diziam: Essas palavras não são de um endemoninhado; pode um endemoninhado abrir os olhos dos cegos?” (Jo 10, 19-21).

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Estas palavras abrem as mais profundas perspectivas do serviço de Jesus pastor. O pastor guia as ovelhas para pastagens que se encontram diante delas, Jesus dá a si mesmo como pão da vida: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6, 35).

O pastor guia o rebanho para as águas da torrente, Jesus desperta naqueles que acreditam nele a fonte inesgotável de água viva, que é o próprio Espírito Santo: “‘Se alguém tem sede, venha a mim e beberá, aquele que crêem em mim!’; conforme a palavra da escritura, ‘De seu seio jorrarão rios de água viva’. Ele falava do Espírito que deviam receber aqueles que haviam crido nele” (Jo 7, 37-39).

O caminho a seguir para entrar no redil – que é o Reino de Deus – não está fora, mas dentro de nós: a conversão ao Senhor e a conformação a ele. Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6 ). A relação com ele se torna dinâmica e criadora, um caminho sem fim. A Igreja exprime esta consciência nas três orações que acompanharam a celebração eucarística ao longo da semana, mas sobretudo na celebração deste domingo.

Com a Oração do dia, a Igreja pede que o próprio Senhor conduza o rebanho até a experiência da comunhão divina, para que “possa atingir, apesar de sua fraqueza, a fortaleza do pastor”. No mesmo espírito, a Oração sobre as oferendas invoca a graça de saber apreciar o dinamismo dos mistérios pascais, “para que nos renovem continuamente e sejam fonte de eterna alegria”.

Enquanto a Oração depois da comunhão solicita ao mesmo bom pastor que vele sobre o rebanho a caminho, para que possa chegar a gozar a vida plena, “nos prados eternos, as ovelhas remidas pelo seu sangue”.

Nesta base, a relação entre pastor e ovelhas, entre o mestre e o discípulo, não é somente a do ensino iluminador, nem do exemplo divino a seguir, mas relação de recíproco conhecimento, relação íntima, pessoal, única, e transformadora. “Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora… e caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10, 3-4).

Esta relação de intimidade com o Senhor, fruto do seu amor gratuito, é o cume da nova aliança prometida pelo profeta Jeremias (31,31-34), selada pela presença do mesmo Espírito que nos faz nos relacionarmos com Deus como Pai: “Porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu filho, que clama: Abba, Pai!” (Gl 4,6).

“Procura saber como o homem pode amar a Deus; não encontrarás resposta, a não ser este: Deus o amou primeiro. Deu-se a si mesmo aquele que amamos, deu-nos a capacidade de amar…. pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Santo Agostinho, Sermão 34,1-3; LH, 3ª Semana da páscoa, terça-feira).

Jesus, bom pastor, e “pastor supremo” do rebanho de Deus, com sua atitude de dedicação sem reserva e de serviço à vida das ovelhas até o dom de si próprio, é o modelo daqueles que, em seu nome, exercitam o pastoreio e o cuidado generoso e humilde em prol do rebanho do Senhor. É um confronto desafiador, e por isso também única verdadeira medida para individuar o verdadeiro sentido de todo serviço pastoral na Igreja, e para verificar a autenticidade do ministério na Igreja.

São Pedro orienta os pastores nesta direção, no fim de sua carta: “Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, cuidando dele, não como por coação, mas de livre vontade, como Deus o quer…. Assim quando aparecer o supremo pastor recebereis a coroa imarcescível da glória” ( 1 Pd 5, 2-5).

Nós vivemos desde sempre o pecado da divisão do rebanho do Senhor, em nome de chefes, tradições doutrinais, disciplinas eclesiásticas, que ao pretender possuir com exclusividade a verdade do evangelho acabaram por dividir o próprio Senhor (cf. 1 Cor 1, 10-13). O Senhor Jesus assumiu também este pecado dos discípulos de todo tempo, e fez a superação desta negação da sua cruz, a razão da sua intensa e eterna oração ao Pai, para que os discípulos ao fim “sejam um, como nós” (Jo 17, 11).

A consciência deste pecado estrutural que nos acompanha e nos fere profundamente, e o empenho para voltar à unidade pela qual Jesus morreu e rezou ao Pai, desde o Concílio (cf. o documento Unitatis Redintegratio) faz parte da nossa identidade irrenunciável de cristãos do século XXI. É nossa maneira de caminhar seguindo o Bom Pastor que nos precede para a casa do Pai, para que esta se torne de verdade a casa comum para todos.

 
 
 

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

SÃO PAULO, quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à liturgia do próximo domingo – VI do Tempo Comum Eclo 15, 16-21; 1 Cor 2,6-10; Mt  5, 17-37 – redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes – São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os comentários à liturgia dominical, às quintas-feiras, na edição em língua portuguesa da Agência ZENIT.

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VI DOMINGO DO TEMPO COMUM

Leituras: Eclo 15, 16-21; 1 Cor 2,6-10; Mt  5, 17-37

“Não penseis que eu vim para abolir a lei e os profetas. Não vim para abolir mas para dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5,17).

Esta é uma afirmação fundamental de Jesus sobre sua missão; ao mesmo tempo é o cerne da profissão de fé da Igreja sobre a identidade e a função messiânica do próprio Jesus. É a chave hermenêutica a partir da qual devemos entender e viver a Boa-nova de Jesus. Nessa afirmação aparece bem como toda a história esteja ordenada ao Cristo e como nele ela encontra o seu centro e a sua plena realização. 

Ao longo do evangelho de Mateus ocorre com freqüência a frase “Isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor tinha dito pelo profeta” (cf. Mt 1, 22; 2,15.17.23). A intenção do evangelista está clara: Ele quer sublinhar que na vida e no ensinamento de Jesus está se revelando e cumprindo o desígnio de salvação de Deus, prometido e iniciado através dos acontecimentos dos patriarcas e das palavras dos profetas do AT, por meio da aliança e do dom da Torá.

O próprio Jesus, para iluminar e sustentar a fé dos discípulos profundamente perturbados em razão dos trágicos acontecimentos da paixão e morte em Jerusalém, com carinho e vigor destaca: “Era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos. Então abriu-lhes a mente para que entendessem as escrituras” (Lc 24, 44-45).

Ao celebrar a memória da páscoa de Jesus, morto e ressuscitado, a cada domingo, a Igreja nos faz viver em maneira nova este encontro revelador com o Senhor ressuscitado. À sua luz se iluminam nossas angústias e nossas perguntas incessantes sobre nós mesmos e a nossa condição de seus discípulos, às vezes desanimados diante das incongruências da vida.

Ao escutar as palavras de Jesus no evangelho de hoje, podemos bem compreender que no centro do ensino proporcionado para os discípulos, assim como nas disputas acirradas com os escribas e os fariseus que o acusavam de não respeitar a Lei e as tradições dos antigos pais, não está simplesmente em jogo a questão da observância dos preceitos da Lei de Moisés ou dos costumes tradicionais, mas a relação profunda com a pessoa do próprio Jesus e com o projeto original de Deus para com Israel e a humanidade inteira. Um projeto de vida, de autenticidade e de libertação de toda dissimulação consigo mesmo, com os demais e com Deus.

Jesus, o “homem novo”, o “novo Adão” (cf. Rm 5, 15 -19), realiza o desígnio do Pai segundo seu projeto original sobre o homem/mulher, e abre o caminho para também nós entrarmos na dinâmica do homem novo. Da relação autêntica com a pessoa de Jesus, vivenciada na fé, brotam no discípulo, a energia vital e os critérios que orientam do interior o estilo novo da sua vida, moldada pelo Espírito no seu exemplo. Ao conhecer e ao amar a Jesus, os preceitos e os critérios novos para agir, brotam da raiz do coração renovado. Abrem um processo que antecipa a plenitude da vida divina em nós. “A fé – afirma São Boaventura – é o conhecimento de Jesus Cristo, donde se origina a firmeza e a compreensão de toda a escritura… Ela foi escrita não apenas para que crêssemos, mas para que possuíssemos a vida eterna, onde veremos, amaremos, e teremos satisfeitos todos os nossos desejos” (Brevilóquio, 5, 201; LH III, pg. 151; 152).

Quando a experiência espiritual amadurece assim, os mandamentos de Deus não são mais leis ditadas ou impostas do exterior ao discípulo. Elas estão inscritas pelo Espírito no tecido vivo da consciência, segundo a profecia de Jeremias sobre a nova aliança: “Porei minha lei no fundo de seu ser e a escreverei em seu coração. Então eu serei seu Deus e eles serão meu povo” (Jr 31, 33).

A partir da sua experiência pessoal de total adesão ao Pai na obediência do amor, Jesus, seguindo a linha dos grandes profetas, reivindica a interiorização da lei e do culto, a fim de que estes correspondam ao sincero compromisso na vida. Pois, infelizmente, pode acontecer o paradoxo de uma vida formalmente condizente com as leis e as “tradições sagradas”, mas de fato em contradição radical com as exigências elementares de uma autêntica relação com Deus: “Vós sabeis muito bem como anular o mandamento de Deus, a fim de guardar as vossas tradições… Assim vós esvaziais a palavra de Deus com a tradição que vós transmitis” (Mc 7, 9.13).

Terrível esta admoestação de Jesus, que não acaba de ressoar na consciência dos discípulos! Pois a latente tensão entre formas exteriores e qualidade efetiva da vida acompanha o “homem religioso” em todo tempo. Palavras que constituem um ponto de referência substancial, para um constante exame de consciência individual e comunitário. Para um caminho de autêntica libertação.

A passagem do exterior ao interior coincide com a passagem progressiva da norma observada por dever ou medo do juízo de Deus, ao amor fonte de energia vital e lei suprema de ação. Toda observância de normas morais exige empenho, mas fica circunscrita dentro seus limites, como é na natureza de toda lei. Pelo contrário, a lei do amor é mais exigente, pois todo amor autêntico não conhece limites no seu compromisso. Mas o compromisso que nasce do amor, nasce e se exprime na liberdade e se torna libertador. Nenhuma norma é suficiente para conter as potenciais exigências do amor livre e generoso. O amor prevê e antecipa as necessidades do outro, assim como o cuidar deste com carinho.

Na vigília da sua total e definitiva dedicação ao Pai e aos discípulos, Jesus resume a revelação de si mesmo e seu ensino na entrega do mandamento único e novo, o mandamento do amor, em continuidade da sua mesma experiência: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 13,34).

Padres comprovados da vida espiritual, como São Bento, se colocam na linha do exemplo e do ensino de Jesus. Destacam a função pedagógica das normas de vida e a necessidade de passar sempre mais da prática disciplinar das regras, úteis para iniciar o caminho espiritual e nos sustentar nos momentos de fragilidade, para a lei do amor, fonte da verdadeira liberdade dos filhos e filhas de Deus. “O caminho da salvação – escreve São Bento – nunca se abre se não por penoso início. Mas, com o progresso da vida monástica e da fé, dilata-se o coração e com inenarrável doçura de amor corre-se pelo caminho dos mandamentos de Deus. De modo que não nos separando jamais do seu magistério e perseverando no mosteiro, em sua doutrina, até a morte, participemos, pela paciência, dos sofrimentos de Cristo, a fim de também merecermos ser co-herdeiros de seu reino” (Regra dos monges, Prólogo, 49-50).

A passagem através da pedagogia das normas até chegar à liberdade exigente do amor é um autêntico êxodo e saída de si mesmo, uma morte ao homem velho para dar lugar ao homem novo, uma passagem pascal em Cristo e com Cristo. Antes de tornar-se fruto do esforço moral, a vida do Espírito é fruto da graça pascal de Cristo, acolhida na experiência sacramental da liturgia e no caminho sincero da conversão do coração ao Senhor.

A meta do caminho espiritual, identificado por São Bento com “a subida da escada da humildade”, em sintonia com a humildade do Verbo que esvaziou a si mesmo, é alcançar a lei do amor gratuito, na liberdade e na alegria do Espírito.

“Tendo, por conseguinte, subido todos esses degraus da humildade, o monge atingirá logo, aquela caridade de Deus, que, quando perfeita, afasta o temor: por meio dela tudo o que observava antes, não sem medo, começará a realizar sem nenhum labor, como que naturalmente, pelo costume, não mais por temor do inferno, mas por amor de Cristo, pelo próprio bom costume e pela deleitação das virtudes” (Regra dos monges c. 7, 67-69).

Santo Agostinho, o homem que experimentou em si mesmo as radicais contradições entre os desejos mais profundos do coração humano e a incapacidade para segui-los com as própria forças, e que depois experimentou a explosiva energia renovadora da graça, chegará a cunhar a famosa frase que bem resume a raiz e o horizonte infinito do amor de Deus derramado no coração: “Ama e faz o que quiseres!”. Se alguém amar de verdade, não pode agir a não ser segundo a lógica do amor de Deus.

Esta é a verdadeira identidade cristã e o dinamismo da liberdade e responsabilidade do cristão, como filho e filha de Deus em Cristo.

Este é o caminho que Jesus abre novamente com seus gestos e palavras. Inevitavelmente muitas vezes elas vão embater com as atitudes míopes dos fariseus de todos os tempos. Na verdade o que Jesus põe novamente em primeiro lugar constitui o sentido do original projeto de Deus, revelado e doado a Israel na aliança e na Lei. Por isso nem os pormenores da Lei, assim entendida, deveriam ser arbitrariamente omitidos. Pois, também neles se manifesta a plenitude da lei. A lógica do amor é abrangente. Se os discípulos tem que estar dispostos a perder a vida por Jesus e pelo evangelho, para tornar-se dignos do reino de Deus ( Mt 10, 32-33), é também não menos verdade que “quem der, nem que seja um copo de água fria a um destes pequeninos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo que não perderá sua recompensa” (Mt 10,42). No pequeno gesto está presente a plenitude do amor. Por isso toda vocação cristã tem em si mesma as potencialidades da santidade.

A lei de Deus não é constrangedora da dignidade da pessoa humana; é o contrário do que acontece nas mãos dos fariseus: por a terem manipulado e submetida às arbitrárias interpretações e tradições humanas, chegaram a ponto de até esvaziá-la e substituí-la com as próprias tradições.

Jesus indica a exigência que a relação dos discípulos com a lei, “a justiça” deles, seja “superior à dos fariseus e dos letrados”, prisioneiros do legalismo exterior (Mt 5, 20).

A partir da perspectiva da interioridade e da integridade do compromisso da pessoa na prática da vida cotidiana, destaca a lei suprema do amor como critério fundamental de vida na nova comunidade dos discípulos. Ao se colocar no patamar do projeto original de Deus, Jesus com sua autoridade soberana põe em luz as contradições e evidencia a exigência de descer às raízes de onde brotam os sentimentos e as ações. “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos… Eu porém, vos digo…”.

As três antíteses relativas ao preceito de não matar (v. 21 – 26), à proibição do adultério – divórcio (v. 27 – 32), e à proibição do juramento (v. 33 – 37), tocam as fundamentais relações com o próximo, consigo mesmo e com Deus. Jesus passa do aspecto exterior, mesmo aparentemente de pouca importância, como um olhar furtivo para uma mulher/homem, ou uma palavra desrespeitosa dirigida a um irmão, à raiz mais profunda dos pensamentos, dos desejos, da falsidade ou da integridade consigo mesmo e nas relações.

Até mesmo o ato de culto: quando aquele que oferece se encontra já diante do altar do Senhor, deve se submeter a verificar dos sentimentos do irmão em relação a si (Mt 5, 23-25). A relação com o irmão se torna critério fundamental da autenticidade da relação com o Senhor! A lei do amor não admite divisão e diferenciação ao relacionar-se com a vida. Como disse o próprio Jesus: “Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 13,34). Se a pessoa está divida em si mesma, por desejos e atividades contrastantes com a exigência da integridade, é necessário enfrentar uma transformação radical desses elementos através de uma verdadeira morte e ressurreição pascal com Cristo (Mt 5, 29-30).

Junto com o evangelho encontramos na leitura semi-contínua da primeira carta de Paulo aos Coríntios (2a Leitura), palavras iluminadoras. Percebemos ainda mais claramente que o horizonte e o caminho proposto por Jesus pertencem ao mundo alternativo, outro: aquele da sabedoria da cruz e do mistério de Deus revelado em Jesus crucificado. Esta é a sabedoria que Paulo tem usado ao falar do evangelho de Jesus aos Coríntios, contando unicamente sobre a força persuasiva que vem do Espírito. Paulo recebeu de Deus esta surpreendente sabedoria divina através do Espírito, e ao próprio Espírito é preciso se submeter, para entrar no dinamismo da nova modalidade de viver.

Esta é a graça que a Igreja invoca como dom supremo do Pai para todo o povo que participa na celebração eucarística: “Ó Deus, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-nos, por vossa graça, viver de tal modo, que possais habitar em nós”.

 
 
 
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