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A PREGAÇÃO DE SÃO DINIS DECAPITADO NO CONTEXTO ALEGÓRICO MEDIEVAL

Neste presente artigo, vamos tratar de um personagem da História da Igreja. Trata-se de São Dinís, de Paris. Este personagem tem sido alvo de controvérsias devido a uma interpretação errada de sua morte e de sua iconografia (está segurando sua cabeça após ser decapitado, e continua pregando). Ele pode ser classificado como um dos grandes heróis da fé e da cultura medieval. A controvérsia existe tanto por parte de Católicos ou Protestantes devido à sua história não ser conhecida e compreendida da maneira correta. Tal controvérsia é descabida, pois, na própria Idade Média, sabia-se distinguir os estilos de linguagem. Dessa forma, para chegarmos até o desfecho da sua construção histórica, será necessário explicar como a sociedade medieval francesa escrevia e compreendia a literatura em todos os seus aspectos.

Uma boa parte da produção literária da Idade Média ficou em manuscritos por muito tempo nas bibliotecas, mas a Escola dos Analles mudou essa perspectiva, juntamente com a grande medievalista Régine Pernoud. A partir das pesquisas desses grandes historiadores, podemos hoje ter uma compreensão da cultura e mentalidade da sociedade medieval.

Observa-se que a Idade Média não havia ignorado a Antiguidade. “Horácio, Séneca, Aristóteles, Cícero e muitos outros são estudados e citados frequentemente e os principais heróis das literaturas antigas, Alexandre, Heitor, Piramo e Tisbe, Fedro e Hipólito, inspiraram, por seu turno, todos os autores medievais; as Metamorfoses e as Heroides, de Ovídio, foram traduzidas por várias vezes seguidas; sobretudo, a Idade Média amou profundamente Virgílio, manifestando nisso um gosto indiscutível, uma vez que Virgílio foi, sem dúvida, o único poeta latino digno deste nome. Mas, se se vê então na Antiguidade um reservatório de imagens, de histórias e de sentenças morais, não se vai ao ponto de a enaltecer como um modelo, como o critério de toda a obra de arte; admite-se que é possível fazer tão bem e melhor do que ela; admiram-na, mas preservar-se-iam de a imitar.” (Pernoud; P.109)

Em contrapartida, a literatura medieval francesa é fruto inteiramente da sua sociedade. Sem influência exterior relevante direta, reproduz seus menores contornos e mínimos detalhes.

“Todas as classes sociais, todos os acontecimentos históricos, todos os traços da alma francesa nela revivem, num fresco deslumbrante. É que a poesia foi a grande ocupação da Idade Média e uma das suas paixões mais vivas. Reinava por toda a parte: na igreja, no castelo, nas festas e nas praças públicas; não havia festin sem ela, nem festejo em que ela não desempenhasse o seu papel, na sociedade, universidade, associação ou confraria; permeava todas as classes da sociedade.”(Pernoud, 109)

“Se se pode falar, na Idade Média, de uma literatura do povo, de uma literatura clerical e de uma literatura da nobreza, isso deve compreender-se antes como uma nota dominante, pois, tanto nos seus criadores como no seu público, as obras em geral participam tanto de umas como de outras classes, com apenas um gosto mais marcado aqui ou ali.” (Pernoud, P. 111)

E este domínio literário é tão móvel quanto vasto. “Deparamos com extremas dificuldades quando queremos fazer uma edição critica de uma canção de gesta ou de um poema medieval. Também aí, parece que se fez mal em trazer para os textos da Idade Média um método que só convida às obras antigas ou modernas. Na realidade, há sempre, não uma, mas múltiplas formas de uma mesma obra” (Pernoud, P. 11), (…) “Para nós, uma obra literária é coisa pessoal e imutável, fixada na forma que o seu autor lhe deu: daí a nossa obsessão do plagiato.” (Pernoud, p.111)

Na Idade Média, o anonimato é corrente. Sobretudo, uma ideia, uma vez emitida, pertence imediatamente ao domínio público. Passa de mão em mão, ornamentada com mil fantasias, sofre todas as adaptações imagináveis e só cai no esquecimento quando dela se esgotaram os múltiplos aspectos. “O poema leva uma vida independente da do seu criador, é coisa móvel, e renascendo incessantemente; qualquer descoberta é retomada, modificada, amplificada, rejuvenescida, com o movimento e a animação que caracterizam a vida.” (Pernoud, 111)

“Ao lado destes temas universais, alguns temas são especiais da literatura da Idade Média. Entre outros, a mágica; assiste-se a um transbordar da imaginação; o mundo real e os seus tesouros não bastaram à inspiração dos contistas: foi-lhes necessário beber da fantasmagoria e semear de maravilhas a vida dos seus heróis. Bem frequentemente, estes pormenores imaginários são apenas figuras encobrindo altas verdades. A alegoria está entre estas: podemos achar artificiais estas evocações de qualidades abstratas, este modo de fazer falar Doce Pensar e Falso Parecer, de invocar Esperança e de mal dizer Desconfiança ou Traição. É, em todo o caso, mais um indício dessa vida prodigiosa que anima as letras medievais e que dá uma alma, um corpo, uma linguagem a todas as coisas, mesmo às mais imateriais. Sabe-se qual foi o gosto da época por tudo aquilo que é concreto, pessoal, visível. O processo alegórico, que se alia curiosamente ao culto da imagem, manifesta este gosto mais uma vez (….) A alegoria parece ser apenas a transposição de um mundo invisível, ao qual damos de novo um lugar de eleição.” (152)

Temos, além do mais, de contar com essa aptidão, bem medieval para procurar o sentido oculto das coisas, para ver na natureza nos símbolos. “Para os nossos antepassados, a história natural propriamente dita apenas apresentava um interesse muito secundário (…) toda a manifestação de uma verdade espiritual, ao contrário, cativava-os no mais alto grau; de tal modo que a sua visão do mundo exterior não passa, as mais das vezes, de um simples suporte para dar suporte às lições morais: assim acontece com esses bestiários em que, ao descrever animais — tanto os mais familiares como os mais fantásticos — os autores veem nos seus hábitos, reais ou supostos, a imagem de uma realidade superior. O licorne, que só uma virgem pode acorrentar, representa para eles o Filho de Deus encarnando no seio da Virgem Maria: o galo canta para anunciar as horas:”(152)

“O onocentauro, metade homem e metade asno, é o homem arrastado pelos seus maus instintos; o nycticorax, que se alimenta de dejetos e de trevas e que só voa em movimentos de recuo, é o povo judeu virando as costas à Igreja e atingido pela maldição; a fénix, ave única e de cor púrpura, que morre numa fogueira e que ao terceiro dia ressuscita das cinzas, é Cristo vencendo a morte.”(152)

“O conjunto, de uma poesia sombria dá exatamente a medida do que o homem da Idade Média gostava de descobrir na natureza: “não um sistema de leis e de princípios cuja classificação, provavelmente, o teria aborrecido, a supor que a tivesse conhecido, mas um mundo fremente de beleza, profuso e secreto”.(153

Certa ou erradamente, colocavam no mesmo plano a verdade histórica e a verdade moral – preferindo, se necessário fosse, esta àquela. “Pense-se, por exemplo, no popular da Idade Média, de São Jorge vencendo o dragão. A questão de saber o que poderia ter sido exatamente esse dragão monstruoso e qual o grau de autenticidade que lhe devia ser atribuído nem sequer aflorava os espíritos da época. O que importava era a lição de coragem que essa luta lendária deve inspirar ao cavaleiro cristão. Por um processo análogo, os sermonários da época atribuem imensos pormenores miraculosos aos santos que elogiam e atribuem indiferentemente a um ou a outro este ou aquele milagre. São Dinis decapitado, segurando a cabeça debaixo do braço, teria tido numerosos imitadores. Porém nem o público nem o predicador se deixavam iludir, e seria uma grande ingenuidade tomá-los à letra: o essencial para eles não era a exatidão do pormenor, mas a verdade do conjunto e da lição a tirar.(153 “Não podemos expressar, pensar e compreender sequer a nossa própria experiência a não ser dentro dos limites do nosso poder sobre a linguagem – e esses limites foram estabelecidos para nós pelos nossos grandes escritores.” Northrop Frye, na citação acima, faz uma importante revelação, a de que a literatura nos ensina sobre as experiências humanas através da imaginação.

Em Huizinga, vemos Jean Gerson tratar de problemas de superstição e crenças populares. “Uma forma mecânica com que se tendia a multiplicar quando não havia nenhuma interferência de uma autoridade rígida”. “Jean Gerson toma esse costume como motivo para um tratado contra a superstição de um modo geral (…)”.(p.251)

“Ele foi um dos que enxergam nitidamente o perigo representado pela proliferação de ideias religiosas para a Igreja. Com o seu espirito aguçado, e de certa forma sensato, ele também percebe algo do fundamento psicológico que favorece o surgimento de todas essas crenças.”(p.251)

Elas nascem ex sola hominum phantasiatione et melancholica imaginatione exclusivamente da fantasia e da imaginação melancólica das pessoas: é uma corrupção da força imaginativa causada por uma lesão cerebral interna e esta, por sua vez, resultado de inspirações diabólicas. Assim, o diabo acaba por conseguir seu quinhão.

“Trata-se de um processo de contínua redução do infinito às coisas finitas, uma desintegração do milagre em átomos.”(p.251) Para concluir, podemos recorrer à obra de Daniel Rops. Nela podemos encontrar o relato do martírio de São Dinís, junto com seus companheiros: “É no entanto, à perseguição de Décio que as mais respeitáveis tradições ligam o martírio de São Dinís – bispo de Paris, que teria sido decapitado no lugar que ainda hoje tem o seu nome, juntamente com os seus companheiros Rústico e Eleutério(…)”. Não existe nenhuma menção ao Santo decapitado andando e pregando; essa é uma mensagem alegórica, e assim deve ser observada.

PERNOUD, Régine; Luz sobre a Idade Média HUIZINGA, Johan; o outono da Idade Média ROPS, Daniel; A Igreja dos Apóstolos e mártires

 
 
 

VIKINGS E MISSIONÁRIOS NA AMÉRICA ANTES DE COLOMBO

Os vikings exploraram e colonizaram regiões diversas do Atlântico Norte, que podemos verificar a ilha da Groenlândia, Terra Nova e Labrador (atual Canadá) e possivelmente os Estados Unidos a partir do século X (WAHLGREN, Erik. Destino, ed. Los Vikingos y América. 1990. Barcelona)

Sobre à questão de um domínio da Idade Média, que é o da exploração e dos conhecimentos geográficos, a atividade não foi pequena, nem é insignificante comparada com às descobertas da renascença. “Poder-se-á, aliás, ter a certeza de que a América não tenha sido, se não «descoberta», pelo menos visitada, já desde essa época? “ É o que verificamos nas obras e documentos da Idade Média de alguns grandes e renomados Historiadores. (…)“Um fato é certo, é que os Vikings tinham atravessado o Atlântico Norte e estabelecido relações regulares com a Groenlândia.”(…) “Fazer remontar a época das grandes viagens ao Renascimento é, mais do que uma injustiça, erro.” (Pernoud, Luz sobre a Idade Média).

A partir dessa primeira análise vemos que, a Idade Média ocidental estava longe de ser um momento de estagnação cultural, exploratória e econômica, isto poderemos observar na próxima citação, e sempre às missões católicas estavam na linha de frente dessas descobertas de novas regiões, pois o ímpeto de proclamar o Evangelho a todos os povos deu o combustível necessário para dar ânimo para tais missões.

Seguindo a narrativa de Pernoud (p.157), ‘Ai se estabeleceram Islandeses; aí se instituiu um bispado e, em 1327¹, os Gronelandeses responderam ao apelo à cruzada do papa João XXII, enviando-lhe, como participação nas despesas, um carregamento peles de focas e de dentes de morsas. Não é impossível que tenham, a partir dessa época, explorado uma parte do Canadá e remontado o São Lourenço, onde Jacques Cartier haveria de descobrir com surpresa, alguns séculos mais tarde, que os índios faziam o sinal da cruz e declaravam que o tinham aprendido dos seus antepassados. Nada disto é, aliás, tão espantoso se considerarmos que a Idade Média se encontrava, por intermédio dos Árabes, em relações pelo menos indiretas com a Índia e a China e beneficia igualmente dos seus conhecimentos astronômicos e geográficos. Um planisfério datado de 1413 traçado por Mecia de Viladestes e conservado na Biblioteca Nacional, dá a nomenclatura e a situação exata das e conservado na estradas e dos oásis saarianos, em toda a extensão do deserto e até Tombuctu. Nesse imenso espaço que, até o século XIX, imenso espaço que, até meado iria permanecer em branco nos nossos mapas, um viajante da Idade Média pode preparar com precisão o seu itinerário e, do Atlas ao Niger.”

Uma outra referência é o Gesta Hammaburgensis ecclesiae pontificum (latim medieval para “Ações dos Bispos de Hamburgo”) é um tratado histórico escrito “entre 1073 e 1076 por Adão de Bremen, que fez acréscimos (scholia) ao texto até sua morte (possivelmente 1081; antes de 1085) . É uma das fontes mais importantes da história medieval do norte da Europa e a mais antiga fonte textual que relata a descoberta do litoral da América do Norte. Abrange todo o período conhecido como Era Viking, desde a fundação do bispado sob Willehad em 788 até o governo do príncipe-bispo Adalbert no tempo de Adão (1043-1072). O texto dá um enfoque na história da diocese de Hamburgo-Bremen e de seus bispos. Como os bispos tinham jurisdição sobre as missões na Escandinávia, também fornece um relatório do paganismo nórdico do período. A existência da obra foi esquecida no período medieval posterior, até ser redescoberta no final do século XVI na biblioteca da Abadia de Sorø, na Dinamarca. Adam menciona Vinland (Winland) no capítulo 39 do livro 4 de seus atos, Anselm von (1917). Schmeidler, Bernhard (ed.). Hamburgische Kirehengeschichte [História de Hamburgo] (em alemão). Hannover e Leipzig, Alemanha: Hahnsche. pp. 275-276. Das pp. 275-276: “39. Além disso, em uma ilha recitada por muitos fatores encontrados no oceano, chamada Winland(…), uma curiosidade é a forma como os navegadores entendiam o mar, mesmo sendo grandes navegadores, entende-se que eles acreditavam numa Terra plana, (…)”Mas um dia navegando além de Thule, ele diz, o mar está congelado. Harald [ou seja, Harald Hardrada (ca. 1015-1066), rei da Noruega]], líder dos mais empreendedores” os normandos, recentemente tentaram [ir] a este lugar. [Foi ele] quem – a extensão do oceano do norte tendo sido investigada pelo [navio] – foi inicialmente, retirando-se das neblinas antes da borda no fim do mundo, mal escapou com segurança ao inverter o vasto abismo do inferno [a] trilha.” Esta é a visão dos vikings.”

Verificasse também na obra de (P. H. Sawyer KINGS and VIKINGS Scandinavia and Europe AD 700-1100), uma vasta documentação em torno da ida dos vikings e dos missionários Católicos até a Groelândia. “O fato de o marfim romano ter sido reutilizado na época carolíngia mostra que o marfim escasso da morsa era um substituto menos fino, mas satisfatório, e era usado para alguns objetos de prestígio, como é o caso do século VIII de Gandersheim, 1972. n. 2) ainda era usado para grandes obras de arte que antecipavam o crucifixo Bury, até o século XII.

O marfim da morsa só foi encontrado no Ártico e, antes da colonização da Groenlândia, os europeus ocidentais só podiam obtê-lo no norte da Noruega. O relato de Óttar sobre o norte da Noruega confirma a importância da caça à morsa, pois, quando ele viajou pelo Cabo Norte, explicou, em parte, fazia um levantamento da terra: mas principalmente para as morsas, porque elas têm marfim muito fino em suas presas [ trouxeram algumas dessas presas ao rei Alfred] e a pele delas é excelente para cordas de navios. A morsa “) é muito menor que as outras baleias, não tendo mais de sete metros de comprimento.”

Na obra de Bernardo Hamilton “espalhando o Evangelho na Idade média”, Hamilton que é professor de história das cruzadas na Universidade de Nottingham nos aponta o seguinte sobre a Era dos Vikings: “A Europa católica mostrou-se resistente a ataques de novos inimigos nos anos 800-1000 – os vikings do norte, os magiares do leste e os muçulmanos do norte da África do sul. Em parte como resultado do casamento entre os invasores e os cristãos ocidentais, a religião católica se espalhou por toda a Escandinávia e também para as novas terras que os vikings descobriram e se estabeleceram no Atlântico Norte, notadamente na Islândia e na Groenlândia, onde um bispado foi estabelecido em 1112. Da mesma forma, os magiares, juntamente com os outros povos da Europa central, como os boêmios e os poloneses, foram convertidos ao catolicismo em c.1000. A Sicília, a Península Ibérica e as Ilhas Baleares foram recapturadas dos muçulmanos em uma série de guerras apoiadas pelo papado, que começou no século XI, mas só terminou quando Granada caiu para os reis católicos da Espanha em 1492. Embora houvesse comunidades judaicas em algumas cidades e grupos de muçulmanos em algumas regiões fronteiriças do sul, em 1050 a grande maioria dos habitantes da Europa Ocidental em 1050 eram membros da Igreja Católica. Pequenos movimentos dissidentes se desenvolveram durante o século XI e uma tradição de dissidência continuou por todo o resto da Idade Média, mas seu impacto foi limitado, exceto em algumas áreas como o Languedoc do século XIII e a Boêmia do século XV. Nos primeiros séculos medievais, a igreja ocidental era a guardiã da alfabetização em um mundo bárbaro e inevitavelmente se envolveu no trabalho do governo secular, uma vez que os governantes contavam com o clero para elaborar leis e manter registros. A Igreja adorava em latim e preservava a tradição clássica de aprendizado em algumas de suas escolas monásticas e catedrais. A civilização católica ocidental atingiu a maturidade nos séculos XII e XIII, quando seu crescimento da bolsa de estudos encontrou expressão institucional no surgimento de universidades onde os estudantes eram treinados para argumentar em termos da lógica aristotélica. Com o tempo, isso levou à reformulação da doutrina cristã por teólogos como São Tomás de Aquino, que procuraram demonstrar que não havia conflito necessário entre a razão humana e a revelação divina.” E para finalizar citamos dois grandes historiadores (Le Goff Jean Claude Schimidt, p.108) “A Idade Média abre-se com a emergência de novas rotas e novas marinhas: bretões, anglos, frísios e escandinavos dilatam o espaço do mar do Norte e no báltico, até a Islândia e a Groelândia.”

Para leitura adicional: P. Brown, A Ascensão da Cristandade Ocidental, Triunfo e Diversidade 200-1000 (Blackwells, 1996); JM Hussey, Igreja Ortodoxa no Império Bizantino (Oxford UP, 1986); I. Gillman e HJ Klimkeit, cristãos na Ásia antes de 1500 (Curzon Press, 1999); G. Gerster, Igrejas em Rock: Arte Cristã Primitiva na Etiópia (Phaidon 1970); J. Farnell, História da Igreja Russa até 1448 (Longman, 1995).

1- حشاشين Ḥaxāxīn ou باطنیان Bāteniān) foi uma seita fundada no século XI por Haçane Saba, conhecido como O Velho da Montanha. Seu fundador criou a seita com o objetivo de difundir nova corrente do ismaelismo, que ele mesmo havia criado. Sua sede era o castelo de Alamute, no Iram. A fama do grupo se alastrou até o mundo cristão, que ficou surpreso com a fidelidade de seus membros, mais até que com sua ferocidade. Seu líder possuía cerca de 60 mil seguidores, segundo alguns relatos da época especulavam. Para Bernard Lewis, autor de Os Assassinos, haveria um evidente paralelo entre essa seita e o comportamento extremista islâmico, assim como o ataque suicida como demonstração de fé. O ismaelismo é uma das correntes do esoterismo islâmico, que se enquadra no Islão Xiita. Bernard Hamilton | Publicado no History Today Volume 53 Edição 1 de janeiro de 2003 Bernhard Schmeidler (ed.): Scriptores rerum Germanicarum in usum scholarum separatim editi 2: Adam von Bremen, Hamburgische Kirchengeschichte (Magistri Adam Bremensis Gesta Hammaburgensis ecclesiae pontificum). Hanover, 1917 ( Monumenta Germaniae Historica , digitalizada ) ed. Waitz (1876) Gesta Hammaburgensis Pontificum Liber I (Wikisource) (phys.msu.ru) Georg Heinrich Pertz et al. (ed.): Scriptores (in Folio) 7: Chronica et gesta aevi Salici. Hanover, 1846, pp. 267–389 ( Monumenta Germaniae Historica , 267 digitalizado ) P. H. Sawyer KINGS and VIKINGS Scandinavia and Europe AD 700-1100) Jacques Le Goff, Jean-Claude Schimidt; Dicionário analítico do Ocidente medieval, volume 2. Régine Pernoud, Luz sobre a Idade Média.

 
 
 

Há alguns dias li um texto no Facebook que começava assim: “Tomar banho na Europa era considerado heresia”. Como sempre, é o tipo de texto que faz sucesso, todavia, devemos refletir sobre o porquê de tantas mentiras serem tão bem aceitas pela turba. Essas informações nunca trazem uma bibliografia acadêmica sobre o assunto, claro! A mentira não pode deixar rastros para os ignorantes descobrirem que são apenas massa de manobra. Nesse caso o motivo é criar um senso comum que odeie o passado; a pretensão é que vejam o passado como algo nojento e ridículo, indigno sequer de ser “escavado”. Vamos discorrer sobre uma bibliografia de referência a respeito do assunto dos cuidados do asseio pessoal na Idade Média.

Vejamos a seguir o que a historiadora Régine Pernoud nos traz através de documentos primários do medievo: “Espantar-se-ão talvez de encontrar mencionados nos inventários, como fazendo parte do mobiliário, o fundo-de-banho ou tapete-banheira, espécie de moletom que guarnecia o fundo das banheiras, para evitar as farpas quase inevitáveis quando o fundo é de madeira. É que efetivamente a Idade Média, contrariamente ao que se julga, conhecia os banhos e fazia largo uso deles; ainda aqui, conviria não confundir as épocas, atribuindo indevidamente ao século XIII a porcaria repelente do século XVI e dos que se lhe seguiram até aos nossos dias. A Idade Média é uma época de higiene e limpeza. Um dito de uso corrente fala bem daquilo que era considerado como um dos prazeres da existência: ‘Caçar, jogar, lavar, beber- isto é viver!”.

Continuando com nossa grande historiadora — “quando se entra em casa; sempre no Ménagier de Paris, se recomenda a uma mulher, para conforto e bem-estar do seu marido, que ‘tenha um grande fogão para lhe lavar muitas vezes os pés, reserva de lenha para o aquecer, uma boa cama de penas, lençóis e cobertores, barretes, almofadas, meias e batas limpas”. Os banhos faziam parte da cultura medieval, e isso era um cuidado que vinha desde a mais tenra infância: “Maria de França recorda-o num dos seus lais: “Pelas cidades em que erravam / Sete vezes ao dia repousavam A criança faziam aleitar, / Deitar em Lençóis limpos, e banhar-se”.

“Se não se tomava banho todos os dias na Idade Média (poder-se-ia afirmar que se trate de um hábito generalizado na nossa época?), pelo menos os banhos faziam parte da vida corrente; a banheira é uma peça do mobiliário; não passa muitas vezes de uma simples tina, e o seu nome, dolium, que significa também tonel, pode prestar-se a confusões. A abadia românica de Cluny, que data do século XI, não comportava menos de doze salas de banho: células abobadadas contendo outras tantas banheiras de madeira. Gostava-se muito de ir, no Verão, relaxar para os rios, e as Horas muito ricas do Duque de Berry mostram aldeões e aldeãs a lavarem-se e a nadarem num belo dia de Agosto, na mais simples indumentária, pois a ideia de pudor de então era muito diferente da que temos hoje em dia, e tomava-se banho nu, tal como se dormia nu entre os lençóis”.

Existiam banhos ou estufas públicas, que eram muito frequentados; o Museu Borély, em Marselha, conservou uma tabuleta de banhos em pedra esculpida que data do século XIII, Paris; o Paris de Filipe Augusto, contava vinte e seis banhos públicos, mais do que as piscinas da Paris atual. Todas as manhãs, os proprietários dos banhos mandavam «apregoar» pela cidade: “Ouvi o pregão matinal: / Senhores, banhas-vos / E lavai-vos sem delongas: / Os banhos estão quentes, e é sem mentir. Guillaume de Villeneuve, Crieries de Paris.”

“Alguns exageravam mesmo: no Livre des Métiers de Étienne Boileau, prescreve-se: «Que ninguém apregoe nem mande apregoar os seus banhos até ser de dia. Estes banhos eram aquecidos por meio de galerias e de condutores subterrâneos, procedimento semelhante ao dos banhos romanos. Alguns particulares tinham mandado instalar em sua casa um sistema deste género, e no palácio de Jacques Coeur, em Bourges, ainda hoje se pode ver uma casa de banho, aquecida por condutores muito parecidas do moderno aquecimento central; mas trata-se, evidentemente, de um luxo excepcional para uma casa particular.”

É a disposição que se encontrou também nos banhos de Dijon, onde as galerias correspondiam a três salas diferentes: a sala de banhos propriamente dita, uma espécie de piscina e o banho de vapor; os banhos, na Idade Média, são com efeito acompanhados de banhos de vapor, tal como nos nossos dias as saunas finlandesas, e o nome de estufas que lhes era dado indica suficientemente que uma coisa não era separada da outra. Os cruzados trouxeram para o Ocidente o hábito de acrescentar a isto salas de depilação, cujo uso aprenderam em contato com os Árabes.

E os banhos públicos eram muito frequentados. Podemos mesmo espantar-nos de ver, no século XIII, alguns bispos censurarem as religiosas das cidades latinas do Oriente por irem aos banhos públicos, mas isso prova que, não tendo casas de banho instaladas nos seus mosteiros, elas não deixavam por isso de conservar os seus hábitos de limpeza. Em Provins, o rei Luís XIV mandou construir, em 1309, novos banhos, uma vez que os antigos já não serviam, “ob affluentiam populi” (por causa do crescimento da população); em Marselha, tinha sido regulamentada a sua entrada e fixado um dia especial para os judeus e outro para as prostitutas, para evitar o seu contacto com os cristãos e as mulheres respeitáveis”.

A Idade Média conhecia igualmente o valor curativo das águas e o uso das curas termais; no Roman de Flamenca, vê-se uma dama alegar enfermidades e pedir ao seu médico que lhe prescreva os banhos de Bourbon-l’Archambault, para poder ir juntar-se a um belo cavaleiro.

Tudo isto está evidentemente longe das ideias aceitas a respeito do asseio na Idade Média e, contudo, os documentos existem e estão disponíveis. O erro proveio de uma confusão com as épocas que se seguiram, e também de certos textos cômicos que foram indevidamente tomados à letra.

Langlois fez acerca disto uma observação muito judiciosa: «Houve quem se espantasse de encontrar, diz, no Chastoiement de Robert de Blois, certos preceitos de asseio e de conveniência elementares que podem parecer assaz inúteis para damas que se não devem supor desprovidas de educação. ‘Não limpem, diz por exemplo o porta, os olhos à toalha, nem o nariz; não bebam demais’. “Tais conselhos fazem-nos sorrir. Mas o que importa saber é se estamos perante índices da grosseria intrínseca da antiga sociedade cortês, ou se não terão sido formulados pelo seu autor, precisamente, para provocar o sorriso, e se os homens do séc. XIII não sorririam disso como nós, não se deve tomar isto a sério”.

É mais ou menos como se dissesse hoje: «Se forem convidados para uma recepção de embaixada, evitem cuspir no chão e apagar o cigarro à toalha»; há que contar com o humor, sempre presente na Idade Média, ao contrário, o refinamento dos costumes foi bastante avançado. Não só eram gerais hábitos elementares como o de lavar as mãos antes das refeições — na parábola do mau rico, vemos este impacientar-se porque a mulher, lenta a lavar as mãos, o retarda na ida para a mesa , mas ainda eram apreciados certos preciosismos, como o uso de taças para lavar as mãos na mesa. O Ménagier de Paris dá assim uma receita “para fazer água de lavar as mãos à mesa”:

“Ponha-se a ferver salva, em seguida escorra-se a água e faça-se arrefecer até mais do que morna. Ou se põe ao de cima camomila ou manjerona, ou se utiliza rosmaninho, e se põe a cozer com cascas de laranja. Também as folhas de loureiro são boas”. Para que se tenha sentido necessidade de fornecer tais receitas, é preciso que as donas de casa tenham levado muito longe os cuidados com o interior da casa e o sentido da apresentação.

A mesma obra fornece esclarecimentos sobre a maneira como eram tratados os hóspedes ordinários do lar, quer dizer os criados, cuja sorte não era para grandes lamentos, a julgar pelos textos da época: “Às horas pertinente, mandai-os sentar à mesa e dai-lhes alimentos de uma única espécie de carne, largamente e abundantemente, e não de várias, nem deleitáveis ou delicadas, e servi-lhes uma só bebida alimentícia e não molesta, vinho ou outra, e não várias e admoestai-vos para que comam muito e bebam bem e abundantemente […] e após o seu segundo labor e nos dias de festa, que tenham outra refeição, e seguidamente, a saber nas vésperas, que sejam saciados abundantemente como antes, e largamente, e, se a estação o requerer, que sejam aquecidos e postos a contento”. Em suma, três refeições ao dia, uma alimentação simples, mas sólida, e, como bebida vinho. É o que sobressai igualmente dos romances de ofícios, onde se vê os burgueses abastados comerem com os criados à mesa e alimentá-los do mesmo modo que a si próprios, como já não se pratica senão nos nossos campos. A dona de casa deve estender mais longe a sua solicitude: “Se um dos vossos serviçais cai em enfermidade todas as coisas comuns postas de parte, pensai vós própria nele muito amorosamente e caridosamente, visita-o várias vezes, e pensai nele ou nela muito curiosamente, avançando a sua cura”.

Ela deve igualmente pensar nos «irmãos inferiores», nesses animais domésticos que parece terem sido muito mais numerosos então do que nos nossos dias: não há miniatura de cenas de interior ou de vida familiar onde não figurem cães saltando ao pé dos donos, rondando em volta das mesas nos banquete, ou ajuizadamente estendidos aos pés da dona ocupada a fiar: em todos os jardins se veem pavões desdobrarem ao sol a cauda luzidia. Assim, o autor do Ménagier recomenda à mulher que «mande cuidar principal, cuidadosa e diligentemente dos animais domésticos, como cãezinhos e passarinhos de gaiola: e pensai igualmente nos outros animais domésticos, pois não podem falar, e por isso deveis falar e pensar por eles».

Como podemos observar, a civilização da Idade Média tinha por hábito corriqueiro o banho, e os seus animais não dormiam nas mesmas camas que seus donos, mas eram muito bem tratados. Todavia, importar frisar que, se o leitor deseja conhecer história verídica e fundamentada em dados e documentos, procure quem seja um pesquisador sério; não tome por verdade que tudo quanto se acha na internet. Seja crítico, observe as bibliografias para saber que se trata de um artigo sério, e tente ao menos imaginar o meio e as intenções daqueles que os divulgam. Não seja um “bobo da corte”.

PERNOUD, Pernoud. Luz sobre a Idade Média. Europa-América publicações Ltda, Lisboa, 1996.

 
 
 
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