OS MINISTROS [protestantes] NÃO POSSUEM A MISSÃO EXTRAORDINÁRIA

Segue a tradução do Artigo 3º – Controvérsias de São Francisco de Sales.
A prova dos milagres
Estas razões são tão evidentes, que os que têm uma melhor estratégia entre vós buscaram seus argumentos fora da missão ordinária, dizendo que aqueles [reformadores] foram extraordinariamente enviados por Deus, pois a missão ordinária estava desgastada e fora abolida ao cair a verdadeira Igreja sob a tirania do Anticristo (=o Papa).
Eis aqui o seu reduto mais seguro que, pelo que possui de comum com toda espécie de heresia, merece ser rebatido e destruído em seus fundamentos. Ordenemos, portanto, as nossas forças para ver se podemos bater esta última barricada.
Primeiramente, direi que ninguém deve alegar uma missão extraordinária que não seja demonstrável através de milagres:
1º) Porque, a que extremos teríamos chegado se esse pretexto de missão extraordinária fosse admissível assim sem provas? Isto não seria um véu para cobrir todo tipo de delírio? Ário, Marcião, Montano e Massálio não poderiam ser admitidos como reformadores, bastando apenas prestarem este mesmo juramento?
2º) Jamais pessoa alguma foi enviada extraordinariamente sem portar esta carta de crédito (=milagres) da Divina Majestade:
Moisés foi enviado imediatamente por Deus para governar o povo de Israel (cf. Êxodo 3,10); quis conhecer o Nome de quem o enviava (cf. Êxodo 3,18) e, quando soube que esse Nome era o admirável Nome de Deus, pediu sinais e patentes de sua comissão (cf. Êxodo 4,1), o que pareceu tão bem ao nosso Deus, que Este lhe concedeu a graça de três classes de prodígios e maravilhas (cf. Êxodo 4,3-4.6-7.9), que foram como que três certificados, em três línguas diferentes, do cargo que lhe conferia, a fim de que, quem não entendesse uma destas três línguas, entendesse as demais.
Se esses ministros [de agora] alegam a missão extraordinária, que nos apresentem algumas obras extraordinárias! Do contrário, não estaremos obrigados a crer neles!
Na verdade, Moisés mostrou muito bem a necessidade desta prova para quem quisesse falar extraordinariamente, pois tendo que pedir a Deus o dom da eloquência, não o pediu senão depois de ter o poder de fazer milagres (cf. Êxodo 4,10), demonstrando que é mais necessário possuir autoridade do que facilidade para falar.
A missão de São João Batista, ainda que não totalmente extraordinária, não foi autêntica por sua concepção (cf. Lucas 1,18-22), seu nascimento (cf. Lucas 1,63-66) e, ainda, por sua vida tão milagrosa (cf. Mateus 11,7-10), sobre a qual Nosso Senhor ofereceu tão excelente testemunho?
E quanto aos Apóstolos: quem ignora os milagres que fizeram e o grande número deles? Seus lenços (cf. Atos 20,11.22), sua sombra (cf. Atos 5,15), serviam para a imediata cura dos doentes e para afastar o demônio: “Pelas mãos dos Apóstolos se realizavam muitos sinais e maravilhas entre o povo” (Atos 5,12). E que isto foi para confirmar a sua pregação é dito claramente por São Marcos, nas últimas palavras do seu Evangelho (Marcos 16), e por São Paulo aos Hebreus (11,4).
Com efeito, como quererão se excusar e deixar de apresentar esta prova de sua missão aqueles que em nossos tempos querem apresentá-la como extraordinária? Que privilégios possuem para que sejam maiores que o Apostólico e o Mosaico?
O que direi mais? Se Nosso Soberano Mestre, consubstancial ao Pai, cuja missão é tremendamente autêntica, que pressupõe a comunicação da própria essência [divina], Ele mesmo – quero dizer que [Ele] é a fonte viva de toda missão eclesiástica – não quis se eximir desta prova dos milagres, que razão há para que estes novos ministros sejam cridos apenas por sua [própria] palavra? Nosso Senhor alega frequentemente a sua missão para dar crédito à sua Palavra: “Como meu Pai me enviou, assim eu também vos envio a vós” (João 20,21); “Minha doutrina não é minha, mas Daquele que me enviou” (João 7,16); “E vós me conheceis e sabeis de onde Eu sou; e não vim por Mim mesmo” (João 7,28). E, ainda assim, para dar autoridade à sua missão, põe na frente seus milagres e, além disso, atesta que se não tivesse feito obras como nenhum outro dos judeus, estes não teriam pecado por não crerem Nele (cf. João 15,21). E, em outro momento, lhes diz: “Não crês que meu Pai está em Mim e Eu em meu Pai? Crede, pelo menos, pelas obras [que fiz]” (João 14,11-12).
Portanto, quem quer que seja tão ousado, que se orgulhe da missão extraordinária sem exibir a prova dos milagres, merece ser tido por impostor. Deste modo, já que nem vossos primeiros [líderes], nem vossos últimos ministros fizeram milagre algum, não podem eles possuir missão extraordinária.
A missão extraordinária depende da missão ordinária
Passemos ao outro ponto:
Eu afirmo, em segundo lugar, que nenhuma missão deve ser recebida como extraordinária se é desaprovada pela Autoridade ordinária, que reside na Igreja de Nosso Senhor. Isto porque primeiramente estamos obrigados a obedecer aos nossos pastores ordinários, sob pena de sermos considerados ‘publicanos e pagãos’ (cf. João 18,17).
Com efeito, como poderíamos nos alistar sob outra disciplina que a Sua? Os enviados extraordinários teriam vindo em vão, pois estaríamos obrigados a não ouví-los – como eu já disse -, se fossem desautorizados pelos [enviados] ordinários (cf. 1Coríntios 14,33). Deus não é autor de divisão, mas de união e concórdia, principalmente entre os seus discípulos e ministros eclesiásticos, como ensina claramente Nosso Senhor na santa oração que dirigiu ao seu Pai nos últimos dias de sua vida mortal (cf. João 17,11-12).
Como, pois, autorizaria duas classes de pastores: uma extraordinária e outra ordinária? Que a [classe] ordinária está autorizada, não resta a menor dúvida; quanto à extraordinária, apenas o pressupomos. Haveria, portanto, duas Igrejas diferentes, o que contraria à mais pura Palavra de Nosso Senhor, o qual não possui mais do que uma única Esposa: “Una sola paloma, una sola perfecta” (Cântico 7,8). E como o rebanho poderia estar unido sendo conduzido por dois pastores, estes desconhecendo um ao outro, com diferentes pastagens, celeiros e redis? Onde um e outro não desejariam possuir o todo?
Assim seria a Igreja, sob a diversidade de pastores ordinários e extraordinários: desgarrada aqui e acolá em diferentes seitas. Porém, por acaso Nosso Senhor “está dividido” (cf. 1Coríntios 1,13) em si mesmo ou em seu Corpo, que é a Igreja? Na verdade, não! Pelo contrário: não há mais do que ‘um Senhor’ (cf. Efésios 4,5), o qual edificou o seu Corpo Místico (cf. Efésios 4,12) com uma bela variedade de membros bem proporcionais (cf. Efésios 4,2), “unidos e apertados totalmente por todos os ligamentos, através da mútua subministração” (cf. Efésios 4,16).
Daí se segue que querer inserir na Igreja esta divisão de tropas ordinárias e extraordinárias é querer arruiná-la e colocá-la a perder. Assim, é necessário retornar ao que dizíamos anteriormente, a saber: que a vocação extraordinária jamais é legítima se for desaprovada pela ordinária.
3º) Na ordem dos fatos, jamais me será apresentada qualquer vocação extraordinária legítima que não tenha sido [anteriormente] recebida pela autoridade ordinária.
São Paulo foi chamado extraordinariamente (cf. Atos 9,6), mas não foi aprovado e autorizado pela [autoridade] ordinária uma primeira (cf. Atos 9,17) e segunda (cf. Atos 13,3) vez? A missão recebida pela autoridade ordinária é denominada “missão do Espírito Santo” (Atos 13,4).
Da missão de São João Batista não se pode dizer que fosse propriamente extraordinária, porque ele nada ensinava contrário à Igreja mosaica e porque [também ele] pertencia à raça sacerdotal (cf. Lucas 1,8). Apesar disso, a raridade de sua doutrina foi confessada pelo magistrado ordinário da Igreja judaica na bela afirmação que foi feita pelos sacerdotes e levitas (cf. João 1,19ss), e cujo teor pressupõe a alta estima e reputação de que gozava entre eles. E os próprios fariseus, que estavam sentados na cátedra de Moisés, não participaram abertamente de seu batismo, sem escrúpulos (cf. Mateus 3,5.7), o que equivale a receber sua missão como boa?
E ainda Nosso Senhor, que era Mestre, não quis ser recebido:
– por Simeão (cf. Lucas 2,28.34), que era sacerdote, eis que este bendisse a Nosso Senhor e a São José?
– por Zacarias, sacerdote (cf. Lucas 1,76)?
– e por São João [Batista] (cf. João 1,29)?
E também por sua própria Paixão, que era a execução principal da sua missão: não quis Ele ter o testemunho profético do Sumo Sacerdote de então (cf. João 11,49-53)?
4º) Isto é o que São Paulo ensina quando não quer “que ninguém atribua para si a honra pastoral sem aquele que é chamado por Deus como Aarão” (Hebreus 5,1-4), pois a vocação de Aarão foi ordinariamente dada por Moisés, tanto que Deus não colocou a sua Santa Palavra imediatamente na boca de Aarão, mas na de Moisés, a quem Deus dirigiu esta ordem: “Fala a ele e coloca minhas palavras na boca dele. E eu estarei na tua boca e na [boca] dele” (Êxodo 4,15).
Se considerarmos direito as palavras de São Paulo, aprenderemos também que a vocação dos pastores deve ser dada visível ou perceptivelmente, e não por aclamação e moção secreta. Vejam-se, assim, os dois exemplos que ele propõe: o de Aarão, que foi ungido e visivelmente chamado (cf. Levítico 8,12; Êxodo 28,1) e, depois, o de Nosso Senhor e Mestre, que sendo Soberano Pontífice e Pastor de todos os séculos, “não qualificou a si mesmo” (Hebreus 5,5), isto é, não atribuiu para si a honra do seu Sumo Sacerdócio, como já havia dito anteriormente São Paulo, mas “foi ilustrado por Aquele que lhe disse: ‘Tu és meu Filho; Eu hoje te gerei; Tu és eternamente Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec’” (Hebreus 5,6).
Eu vos peço que considereis este argumento: Jesus é Soberano Pontífice segundo a ordem de Melquisedec. Ele atribuiu para si e impulsionou por si mesmo esta honra? Não! Ele foi chamado (Hebreus 5,10). Quem o chamou? Seu Pai Eterno (cf. Hebreus 5,5). Como? Imediata e mediatamente, simultaneamente: imediatamente em seu Batismo (cf. Mateus 3,17) e em sua Transfiguração (cf. Mateus 17,5), com estas palavras: “Este é meu Filho muito amado, em quem tenho todas as minhas delícias. Escutai-o”; e mediatamente, pelos Profetas e, sobretudo, Davi, nos lugares em que São Paulo cita, acerca disto, os Salmos: “Tu és meu Filho; Eu hoje te gerei” (Salmo 2,7); “Tu és sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedec” (Salmo 140,4).
E tudo demonstra esta vocação: a palavra da nuvem [durante a Transfiguração] foi audível e, em Davi, audível e legível. Entretanto, São Paulo, querendo mostrar a vocação de Nosso Senhor, traz apenas as passagens de Davi, as quais dizem que Nosso Senhor foi explicitado por seu Pai, contentando-se, assim, em produzir o testemunho perceptível, e produzido através das Escrituras ordinárias e dos Profetas aceitos.
Afirmo, em terceiro lugar, que a autoridade da missão extraordinária jamais destrói a ordinária e nunca é conferida para revogá-la. Testemunhas disto são todos os Profetas, que jamais levantaram altar contra altar, nem revogaram a autoridade de Aarão, nem jamais aboliram as constituições da Sinagoga. Nosso Senhor também testemunha isso, ao afirmar que “todo reino dividido contra si mesmo será destruído e uma casa cairá sobre a outra” (Lucas 11,17); igualmente, testemunhou o respeito que teve à cátedra de Moises, cuja doutrina quis que fosse preservada (cf. Mateus 23,2-3).
Na verdade, se o extraordinário fosse abolir o ordinário, como saberíamos quando, em quê e como deveríamos nos ater a isso? Não, não! O ordinário é imortal enquanto a Igreja existir neste mundo. Os pastores e doutores que geraram a Igreja devem possuir perpétua sucessão, “para a consumação dos Santos, até que todos nós cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, como varão perfeito, segundo a medida da idade cumprida de Cristo, a fim de que não sejamos mais meninos, instáveis, levados daqui para acolá a qualquer vento de doutrina, pela malícia dos homens que enganam com astúcia” (Efésios 4,11-14).
Eis aí o belo discurso que São Paulo faz para mostrar que se os doutores e pastores ordinários não tivessem perpétua sucessão ou estivessem sujeitos à ab-rogação dos [doutores e pastores] extraordinários, teríamos apenas uma fé e uma disciplina desordenada e interrompida a todo momento; estaríamos sujeitos a sermos seduzidos pelos homens que a todo instante se orgulham da vocação extraordinária; e, como os gentios, caminharíamos – como faz observar posteriormente (cf. Efésios 4,17) – na vaidade dos nossos [próprios] entendimentos, imaginando cada um sentir a moção extraordinária do Espírito Santo. Disto, nossos tempos apresentam muitos exemplos e esta é uma das mais sólidas razões que podemos expor a este propósito: se a administração extraordinária pode invalidar a ordinária, a quem daremos a primazia? A Calvino ou a Lutero? A Lutero ou a Pacimontain? A Pacimontain ou a Blandrate? A Blandrate ou a Brence? A Brence ou à Rainha da Inglaterra?
Cada um atribuirá para si este tapa-olhos da missão extraordinária, mas a Palavra de Deus retira de nós estas dificuldades, pois edificou a sua Igreja sobre um fundamento tão bom e com uma proporção tão bem compreendida, que “as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela” (Mateus 16,18). E se jamais prevaleceram e nem prevalecerão, a vocação extraordinária não tem como abolí-la, pois Deus não odeia nada do que faz; então, como Ele aboliria a Igreja ordinária para criar outras [igrejas] extraordinárias, já que foi Ele quem edificou a ordinária sobre Si mesmo e a fundamentou no seu próprio Sangue?
Tradução: Luis Carlos Nabeto
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