top of page

TODOS OS PRODUTOS

Eventos futuros

Publica a exortação «Sacramentum caritatis», surgida do Sínodo de 2005

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 13 de março de 2007 (ZENIT.org).- «Sacramento do amor» («Sacramentum caritatis») é o título do segundo documento mais importante do pontificado de Bento XVI, depois de sua encíclica «Deus caritas est», no qual recolhe as conclusões do Sínodo de Bispos do mundo celebrado em outubro de 2005 sobre a Eucaristia.

No sacramento da presença real de Jesus, explica a exortação apostólica pós-sinodal, «manifesta-se o amor “maior”, aquele que impulsiona a “dar a vida pelos próprios amigos”», afirma o Papa.

O documento, como o Sínodo celebrado no Vaticano, busca que os fiéis católicos de todo o mundo redescubram que «no Sacramento do altar, o Senhor vai ao encontro do homem, criado à imagem e semelhança de Deus, acompanhando-o em seu caminho».

«Neste Sacramento o Senhor se faz comida para o homem faminto de verdade e liberdade. Visto que só a verdade nos faz autenticamente livres, Cristo converte-se para nós em alimento da Verdade», declara.

Ao reunir as propostas surgidas no Sínodo da Eucaristia, no qual o novo Papa introduziu intervenções livres, o texto começa reafirmando «o influxo benéfico que teve para a vida da Igreja a reforma litúrgica posta em andamento a partir do Concílio Ecumênico Vaticano II».

«Os juízos positivos foram muito numerosos — recorda o pontífice –. Se constataram também as dificuldades e alguns abusos cometidos, mas não obscurecem o valor e a validade da renovação litúrgica, a qual tem ainda riquezas não descobertas do todo».

O documento apresenta meditações sobre o mistério da Eucaristia e as compagina com indicações de caráter prático que buscam renovar o amor e a veneração dos católicos pelo sacramento.

Foi apresentado na manhã desta terça-feira na Sala de Imprensa da Santa Sé pelo cardeal Angelo Scola, Patriarca de Veneza, que foi o relator geral do Sínodo sobre a Eucaristia, e pelo arcebispo Nikola Eterovic, secretário geral do Sínodo dos Bispos.

Celibato sacerdotal; comunhão a divorciados que se casaram novamente

«Sacramentum caritatis» recorda que o acesso à comunhão na missa celebrada na Igreja Católica está reservada às pessoas em plena comunhão com a Igreja Católica. Ao mesmo tempo, vê no desejo de poder concelebrar um dia a Eucaristia com os irmãos ortodoxos e com os filhos da Reforma um importante impulso para conseguir a unidade plena.

O documento confirma o «sentido profundo do celibato sacerdotal, considerado justamente como uma riqueza inestimável». Ante a escassez de sacerdotes, pede «ter a valentia de propor aos jovens a radicalidade do seguimento de Cristo, mostrando seu atrativo».

A exortação ratifica a indissolubilidade do matrimônio, recorda que não podem aceder à comunhão os que se divorciaram e contraíram novas núpcias, mas assegura que a Igreja acompanha estas pessoas «com especial atenção».

Boa parte do texto está dedicada a propor aspectos para viver mais intensamente a Eucaristia ou para refletir sua beleza. Oferece indicações para a homilia, para o rito da paz, ou para a despedida da assembléia.

Catequese

Para que possa acontecer esta renovação do amor dos católicos pela Eucaristia, o bispo de Roma considera de vital importância aplicar uma «catequese mistagógica», que introduza «no significado dos sinais contidos nos ritos».

«Este imperativo é particularmente urgente em uma época como a atual, tão imbuída pela tecnologia, na qual se corre o risco de perder a capacidade perceptiva dos sinais e símbolos. Mais que informar, a catequese mistagógica deve despertar e educar a sensibilidade dos fiéis ante a linguagem dos sinais e gestos que, unidos à palavra, constituem o rito», declara.

Adoração eucarística Outro elemento chave necessário para que cresça o amor pela Eucaristia, segundo o Papa, é a adoração do Sacramento. «A adoração fora da Santa Missa prolonga e intensifica o acontecido na própria celebração litúrgica». «Neste ato pessoal de encontro com o Senhor amadurece logo também a missão social contida na Eucaristia e que quer romper as barreiras não só entre o Senhor e nós, mas também e sobretudo as barreiras que nos separam uns aos outros».

Doutrina Social da Igreja «A oração que repetimos em cada Santa Missa: “Dá-nos hoje nosso pão de cada dia”, nos obriga a fazer todo o possível, em colaboração com as instituições internacionais, públicas ou privadas, para que cesse ou ao menos diminua no mundo o escândalo da fome e da desnutrição que sofrem tantos milhões de pessoas, especialmente nos países em vias de desenvolvimento», afirma.

«O cristão leigo em particular, formado na escola da Eucaristia, está chamado a assumir diretamente a própria responsabilidade política e social», declara.

Para conseguir este objetivo, «é necessário promover a Doutrina Social da Igreja e dá-la a conhecer nas dioceses e nas comunidades cristãs».

A conclusão constata: «Quantos santos fizeram autêntica a própria vida graças a sua piedade eucarística!». Entre estes, menciona três beatos, Madre Teresa de Calcutá, o jovem desportista e engenheiro italiano Piergiorgio Frassati (1901-1925) e o jovem professor croata Ivan Mertz (1896-1928).

«A santidade teve sempre seu centro no sacramento da Eucaristia», conclui a exortação.

Pode-se ler o documento na seção de documentos de Zenit www.zenit.org.

 
 
 

Homilia aos bispos suíços de 7 de novembro

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 7 de dezembro de 2006 (ZENIT.org).- Publicamos a homilia que Bento XVI pronunciou no dia 7 de novembro ao começar o encontro com os bispos da Suíça.

* * *

Os textos escutados a Leitura, o Salmo responsorial e o Evangelho têm um tema comum que poderia ser resumido na frase: Deus não falha. Ou mais exactamente: no início Deus falha sempre, deixa existir a liberdade do homem, e esta diz continuamente “não”. Mas a fantasia de Deus, a força criadora do seu amor é maior do que o “não” humano. Com cada “não” humano é acrescentada uma nova dimensão do seu amor, e Ele encontra um caminho novo, maior, para realizar o seu sim ao homem, à sua história e à criação. No grande hino a Cristo da Carta aos Filipenses com o qual iniciámos, ouvimos antes de tudo uma alusão à história de Adão, o qual não estava satisfeito com a amizade de Deus; era demasiado pouco para ele, pretendendo ele mesmo ser um deus. Considerou a amizade uma dependência e considera-se um deus, como se ele pudesse existir por si só. Por isso, disse “não” para se tornar ele mesmo um deus, e precisamente desta forma se deixou cair da sua altura. Deus “falha” em Adão e assim aparentemente ao longo de toda a história. Mas Deus não falha, porque agora ele mesmo se torna homem e recomeça assim uma nova humanidade; enraíza o ser homem de modo irrevogável e desce aos abismos mais profundos do ser homem; abaixa-se até à cruz. Vence a soberba com a humildade e com a obediência da cruz.

E assim acontece agora o que Isaías, cap. 45, tinha profetizado. Na época em que Israel estava no exílio e tinha desaparecido do mapa, o profeta tinha dito que o mundo inteiro “todos os joelhos” se teriam dobrado diante deste Deus impotente. E a Carta aos Filipenses o confirma: agora isto aconteceu. Por meio da cruz de Cristo, Deus aproximou-se das nações, saiu de Israel e tornou-se o Deus do mundo. E agora o mundo dobra os joelhos diante de Jesus Cristo, o que também nós podemos experimentar hoje de maneira maravilhosa: em todos os continentes, até às cabanas mais humildes, o Crucificado está presente. O Deus que tinha “falhado”, agora, através do seu amor, leva deveras o homem a dobrar os joelhos, e assim vence o mundo com o seu amor. Como Salmo responsorial cantámos a segunda parte do Salmo da paixão 21/22. É o salmo do justo sofredor, antes de tudo de Israel sofredor e, diante de Deus mudo que o abandonou, grita: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Como pudeste esquecer-te de mim? Agora quase já não existo. Tu já não ages, já não falas… Por que me abandonaste?”. Jesus identifica-se com Israel sofredor, com os justos sofredores de todos os tempos abandonados por Deus, e leva o grito do abandono de Deus, o sofrimento por ser esquecido leva-o até ao coração do próprio Deus, e assim transforma o mundo. A segunda parte do Salmo, a que recitámos, diz-nos o que disso deriva: os pobres comerão e serão saciados. É a eucaristia universal que provém da cruz.

Agora Deus sacia os homens em todo o mundo, os pobres que precisam dele. Dá-lhes a abundância de que precisam: doa Deus, doa-se a si mesmo. E depois o Salmo diz: “Hão-de lembrar-se do Senhor e voltar para Ele todos os confins da terra”. Da cruz deriva a Igreja universal. Deus vai além do hebraísmo e abraça o mundo inteiro para o unir no banquete dos pobres.

E, por fim, a mensagem do Evangelho. De novo o falimento de Deus. Os primeiros a serem convidados recusam, não vêm. A sala de Deus permanece vazia, o banquete parece ter sido preparado em vão. É o que Jesus experimenta na fase final da sua actividade: os grupos oficiais, autorizados dizem “não” ao convite de Deus, que é Ele próprio. Não vêm. A sua mensagem, a sua chamada termina com o “não” dos homens. Mas aqui também: Deus não falha. A sala vazia torna-se uma oportunidade para chamar um número maior de pessoas. O amor de Deus, o convite de Deus alarga-se Lucas narra-nos isto em duas fases: primeiro, o convite é feito aos pobres, aos abandonados, aos que não estão convidados por ninguém na mesma cidade.

Desta forma Deus faz o que ouvimos no Evangelho de ontem (O Evangelho de hoje faz parte de um pequeno simpósio no âmbito de uma ceia em casa de um fariseu. Encontramos quatro textos: primeiro a cura do hidrópico, depois a palavra sobre os últimos lugares, a seguir o ensinamento de não convidar os amigos que retribuiriam tal gesto, mas os que verdadeiramente têm fome, mas que não podem retribuir o convite, e depois, precisamente, segue a nossa narração). Agora Deus faz o que disse ao fariseu: Ele convida os que nada possuem; que têm verdadeiramente fome, que não o podem convidar, que nada lhe podem dar. E depois acontece a segunda fase. Sai para fora da cidade, pelas estradas do campo; estão convidados os desabrigados. Pudemos supor que Lucas tenha compreendido estas duas fases no sentido de que os primeiros a entrar na sala foram os pobres de Israel e depois dado que não são suficientes, sendo o ambiente de Deus maior o convite alarga-se para fora da Cidade Santa, ao mundo dos gentios.

Os que não pertencem a Deus, que estão fora, agora são convidados para encher a sala. E Lucas que nos transmitiu este Evangelho, viu certamente nisto a representação antecipada rica de imagens dos acontecimentos que depois narra nos Actos dos Apóstolos, precisamente onde isto acontece: Paulo começa a sua missão sempre na sinagoga, pelos que foram convidados primeiro, e só quando estas pessoas recusaram e permaneceu apenas um pequeno grupo de pobres, ele vai em direcção aos pagãos. Assim o Evangelho, através deste percurso de crucifixão sempre novo, torna-se universal, abraça a totalidade, finalmente até Roma. Em Roma Paulo chama a si os chefes da sinagoga, anuncia-lhes o mistério de Jesus Cristo, o Reino de Deus na Sua pessoa. Mas estes se recusaram, e ele despede-se deles com estas palavras: Pois bem, visto que não ouvis, esta mensagem será anunciada aos pagãos e eles ouvi-la-ão. Com esta confiança conclui-se a mensagem de falimento: Eles ouvirão; a Igreja dos pagãos formar-se-á. Formou-se e continua a formar-se. Durante as visitas ad limina ouço falar de muitas coisas graves e difíceis, mas sempre precisamente do Terceiro Mundo ouço também isto: que os homens ouvem, que eles vêm, que também hoje a mensagem vai pelas estradas até aos confins da terra e que os homens afluem para a sala de Deus, para o seu banquete.

Portanto, deveríamos perguntar: Que significa tudo isto para nós? Antes de tudo significa uma certeza: Deus não falha. “Falha” continuamente, mas precisamente por isso não falha, porque disso surgem novas oportunidades de misericórdia maior, e a sua fantasia é inexaurível. Não falha porque encontra sempre novas formas para alcançar os homens e para abrir mais a sua grande casa, para que se encha totalmente. Não falha porque não se subtrai à perspectiva de solicitar os homens para que venham sentar-se à sua mesa, para receber o alimento dos pobres, no qual é oferecido o dom precioso, o próprio Deus. Deus não falha, nem sequer hoje. Mesmo se experimentamos tantos “não”, disso podemos ter a certeza. De toda esta história de Deus, a partir de Adão, podemos concluir: Ele não falha. Também hoje encontrará novos caminhos para chamar os homens e quer-nos ter consigo como seus mensageiros e servos.

Precisamente no nosso tempo conhecemos muito bem o “dizer não” de quantos foram convidados primeiro. De facto, a cristandade ocidental, isto é, os novos “primeiros convidados”, agora em grande parte se recusam, não têm tempo para se encontrar com o Senhor. Conhecemos as igrejas que se tornam cada vez mais vazias; conhecemos todas as formas nas quais se apresenta este “não, tenho coisas mais importantes para fazer”. E assusta-nos e perturba-nos ser testemunhas deste desculpar-se e recusar-se dos primeiros convidados, que na realidade deveriam conhecer a grandeza do convite e deveriam sentir-se atraídos por ele. Como nos devemos comportar?

Em primeiro lugar devemos fazer a pergunta: por que acontece precisamente assim? Na sua parábola o Senhor menciona dois motivos: a posse e as relações humanas, que envolvem totalmente as pessoas, a ponto de pensarem que já não precisam de mais nada para encher totalmente o seu tempo e, por conseguinte, a sua existência interior. São Gregório Magno na sua exposição deste texto procurou analisar mais profundamente e perguntou: mas como é possível que um homem diga “não” ao que há de maior; que não tenha tempo para o que é mais importante; que feche em si mesmo a própria existência? E responde: Na realidade, nunca fizeram a experiência de Deus; nunca tiveram “gosto” de Deus; nunca experimentaram como é bom ser “atingidos” por Deus! Falta-lhes este “contacto” e com ele o “gosto de Deus”. E só se nós, por assim dizer, o experimentarmos, só então vamos ao banquete. São Gregório cita o Salmo, do qual é tirada a hodierna Antífona da Comunhão: saboreai, provai e vereis; provai e então vereis e sereis iluminados!

A nossa tarefa é contribuir para que as pessoas possam provar, para que possam sentir de novo o gosto de Deus. Noutra homilia São Gregório Magno aprofundou ulteriormente a mesma questão, e interrogou-se: Como é possível que o homem nem sequer queira “provar” Deus? E responde: Quando o homem está totalmente absorvido pelo seu mundo, pelas coisas materiais, com aquilo que pode fazer, com tudo o que é realizável e que lhe confere sucesso, com tudo o que pode produzir ou compreender por si, a sua capacidade de percepção em relação a Deus enfraquece-se, os sentidos dirigidos a Deus debilitam-se, tornam-se incapazes de compreender e sentir. Ele já não percebe o Divino, porque os sentidos correspondentes nele tornaram-se áridos, não se desenvolveram mais. Quando usa demasiado as demais percepções, as empíricas, então pode acontecer que precisamente o sentido de Deus se esvaneça; que este sentido morra; e que o homem, como diz São Gregório, deixe de compreender o olhar de Deus, o ser olhado por Ele esta preciosidade que é o facto de que o seu olhar me alcance! Penso que São Gregório Magno tenha descrito exactamente a situação do nosso tempo de facto, era uma época muito semelhante à nossa.

E ainda surge a pergunta: como nos devemos comportar? Penso que a primeira coisa seja fazer o que o Senhor nos diz hoje na Primeira Leitura e que São Paulo nos grita em nome de Deus: “Tende os mesmos sentimentos de Jesus Cristo! Touto phroneite en hymin ho kai en Christo Iesou”. Aprendei a pensar como Cristo pensou, aprendei a pensar com Ele! E este pensar não é só o do intelecto, mas também um pensar do coração. Nós aprendemos os sentimentos de Jesus Cristo quando aprendemos a pensar com Ele e portanto, quando aprendemos a pensar também no seu falimento e no seu superar o falimento, ao aumentar-se do seu amor no falimento.

Se considerarmos estes seus sentimentos, se começarmos a exercitar-nos a pensar como Ele e com Ele, então desperta em nós a alegria para com Deus, a confiança em que Ele é sempre o mais forte; sim, podemos dizer, desperta em nós o amor por Ele. Sentimos como é bom que Ele exista e que podemos conhecê-lo que o conhecemos no rosto de Jesus Cristo, que sofreu por nós. Penso que esta seja a primeira coisa: que nós próprios entremos num contacto vivo com Deus com o Senhor Jesus, o Deus vivo; que em nós se fortaleçam os sentidos dirigidos a Deus; que tenhamos em nós próprios a percepção da sua excelência. Isto anima também o nosso agir; porque também nós corremos um perigo: podemos fazer muito, quer no campo eclesiástico, tudo para Deus…, quer no que permanece totalmente junto de nós próprios, sem encontrar Deus. O compromisso substitui a fé, mas depois esvazia-se interiormente.

Considero, portanto, que deveríamos comprometer-nos sobretudo: na escuta do Senhor, na oração, na participação íntima dos sacramentos, em aprender os sentimentos de Deus no rosto e nos sofrimentos dos homens, para desta forma sermos contagiados pela sua alegria, pelo seu zelo, pelo seu amor e para ver com Ele, e partindo d’Ele, ver o mundo. Se conseguirmos fazer isto, então até entre os muitos “não” encontramos de novo os homens que O esperam e que com frequência talvez sejam excêntricos a parábola di-lo claramente mas que contudo são chamados a entrar na sua sala.

Mais uma vez, com outras palavras: trata-se da centralidade de Deus, e precisamente não de um deus qualquer, mas do Deus que tem o rosto de Jesus Cristo. Isto é importante hoje. Há tantos problemas que podem ser elencados, que devem ser resolvidos, mas que todos nunca são resolvidos se Deus não for colocado no centro, se Deus não se torna de novo visível no mundo, se não se torna determinante na nossa vida e se não entra também através de nós de maneira determinante no mundo. Neste aspecto, penso, hoje decide-se o destino do mundo nesta situação dramática: se Deus o Deus de Jesus Cristo existe e é reconhecido como tal, ou se desaparece. Nós preocupamo-nos por que esteja presente.

Que devemos fazer? Em última análise? Dirigimo-nos a Ele! Nós celebramos esta Missa votiva do Espírito Santo, invocando-O: “Lava quod est sordidum, riga quod est aridum, sana quod est saucium. Flecte quod est rigidum, fove quod est frigidum, rege quod est devium”. Invoquemo-l’O para que irrigue, aqueça, endireite, para que nos preencha com a força da sua sagrada chama e renove a terra. Por isto o imploramos de coração neste momento, nestes dias.

Amém.

[Tradução distribuída pela Santa Sé © Copyright 2006 – Libreria Editrice Vaticana]

 
 
 

A Igreja sempre considerou a Oração do Senhor (Pai Nosso) como a oração Cristã por excelência. Na antiga Igreja da África, por exemplo, os rudimentos da fé (em que cremos) foram transmitidos a partir dela; no seu catecumenato quando imersos no conhecimento da oração (o que oramos).Depois de terem uma explanação sobre o Credo (tradição) eles tinham que recitá-la publicamente de memória (redição); a passagem entre esta ‘tradição’ e ‘redição’ era a Oração do Senhor. Tertuliano não era o único a considerar a Oração do Senhor como sendo o compêndio e a síntese do Antigo e do Novo Testamento.

“Em suas poucas palavras, estão resumidas as falas dos profetas, os evangelhos, os Apóstolos; os discursos, as parábolas, os exemplos e dos ensinamentos do Senhor e, ao mesmo tempo, muitas de nossas necessidades são preenchidas. Na invocação do Pai, nos honramos a Deus; no Nome está o testemunho da fé; em Sua vontade está a oferta da obediência; no Reino está a recordação da esperança; no Pão coloca-se a questão da vida; no pedido de perdão está a confissão dos pecados; no pedido de proteção está o medo da tentação. Por que medo? Somente Deus poderia ensinar-nos como Ele queria que orássemos” (De Oratione 9,1-3).

Apesar de Lucas 11,2-4, eu examinarei apenas o texto de Mateus 6,9-13. Ele aparece inserido justamente após a segunda de três virtudes ? caridade (6,1-3), oração (6,4-15) e jejum (6,16-18) ? todas como formas superiores à justiça dos Judeus.

Mateus 6,9-13 esta estruturado em três partes. Começa com uma invocação, continua com três pedidos com referência a Deus, e encerra com três pedidos relativo ao povo messiânico. A oração tinha uma clara orientação escatológica e presume uma sinergia Deus-homem.


1. A INVOCAÇÃO DE ABERTURA: “PAI NOSSO QUE ESTAIS NO CÉU”a) ‘Pai Nosso’Em todos os tempos, a humanidade tem se voltado para a divindade a quem chama ‘Pai’. Com isto, a humanidade pretende reconhecer Sua autoridade e suplicar o Seu amor.O Antigo Testamento ? Não surpreende que entre os livros inspirados do Antigo Testamento, vinte e dois textos Hebreus, Aramáicos ou Gregos atribuam ao Senhor Iahweh o nome ‘Pai’. Deus é o primeiro de todos os pais do povo de Israel. Esta paternidade divina singular é relacionada a eventos históricos envolvendo o povo de Israel. Deus é o pai de Israel porque Deus estabeleceu por meio de eleição e pacto, uma existência para Israel que o transformou no filho primogênito de Deus, um povo propriedade de Deus (Ex 4,22-23; Dt 32,6-8). Há dois componente na paternidade divina: autoridade e amor. Deus é Pai de Israel. Desta forma Ele merece a soberania, o prestígio, o poder e a legítima autoridade de pai de família, daqueles filhos que dependem dEle e que Lhe são subordinadas, para lhe mostrar respeito e obediência (Is 64,4; 1,2; 30,9; Ml 1,6).

Deus é o pai de Israel. Cuidadoso e carinhoso com Seus filhos, Ele os cerca de amor gratuito, sempre misericordioso e fiel. (Is 49,15; 66,15; Sl 131,2; Os 11,1-4.8).

Deus é também o pai das pessoas que se relacionam intimamente com Israel. Isto envolve pessoas notáveis como o rei ou o Messias. (Sl 89,27; 2Sm 7,14; Sl 2,7).

Em relação à paternidade de Deus para as pessoas, os autores dos últimos livros do Antigo Testamento trabalham voltados para um mudança de perspectivas, isto é, em direção a um grande universalismo. Cada ser humano pode se tornar um filho de Deus, sem dúvida isto será realidade se ele/ela for santo e fiel a Deus. (Eclo 23,1-4; 51,10; Sb 2,13.16.18;5,5;14,3). De qualquer modo, esta é uma negação da idéia do Deus “solitário” do Islamismo (Alcorão 112,4.171; 5,116-117).

O Novo Testamento ? Com Jesus, a revelação bíblica da paternidade divina entra numa nova fase. Deus é o pai de Jesus Cristo e o pai dos Cristãos. Não é raro encontrar nas Epístolas Paulinas a expressão ‘o pai de Nosso Senhor Jesus Cristo’ (Rm 15,6; 2Cor 1,3; 11,31; Ef 1,13; Cl 1,3). Por outro lado, Jesus nunca diz ‘Pai Nosso”, mas ‘Meu Pai e vosso Pai’ (Jo 20,17) distinguindo entre ‘meu Pai’ (Mt 7,21) e ‘vosso Pai” (Mt 5,16).

O auto-conhecimento da filhação de Jesus é muito claro no Evangelho (Lc 2,49; Mc 13,32). Ele freqüentemente declara-se o enviado do Pai (Jo 3,17.34; 5,23.36.37; 6,44,57 etc…), em Hb 3,1 é chamado “o apóstolo”, isto é, “o enviado”. Jesus também afirma que sua pregação são palavras do Pai (Jo 3,34; 12,49-50; 14,10) e dão testemunhos do Pai (Jo 5,19.36;9,4).

Os Evangelhos contém muitas orações de Jesus. Mas apenas em Mc 15,34 invoca “Deus”: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Mas este grito do Crucificado é uma citação do Sl 22,2. Todas as outras preces começam com “Pai”; para louvar (Mt 11,25-26), na invocação durante a agonia no Getsêmani (Mt 26,39.42), na súplica na Cruz (Lc 23,34.36).

O Segundo Evangelho mostra-nos como Jesus se dirige a Deus com a expressão “Abba” (Mc 14,16). É uma palavra aramáica usada como forma de tratamento íntimo com uma pessoa mais velha, e muitas vezes adotada na linguagem usada pelas crianças na família, mesmo quando adultos se dirigem ao pai. Ao chamara Deus de “Abba”, Jesus demonstrou o singular relacionamento entre Ele e Deus, e ao mesmo tempo mostrou a familiaridade, a fidelidade, o respeito, a disposição que ele possui. Na oração, o judaísmo antigo, litúrgica ou particularmente, nunca ousou dirigir-se a Deus como “Abba”.

Além de ser o Pai de Jesus Cristo, Deus é também o Pai dos Cristãos em todos os sentidos. Isto não é um fenômeno puramente natural ? todos são filhos de Deus ?, mas um dom escatológico em Cristo. Este conceito tem origem em Deus, que criou-nos à imagem de Seu Filho, tanto que ele tornou-se o primogênito de todos os irmãos e irmãs (Rm 8,29), e colocou em nossos corações o Espírito de Seu Filho que clama: Abba, Pai (Gl 4,6). Deus nos escolheu para sermos Seus filhos adotivos através de Jesus Cristo (Ef 1,6). O Espírito Santo testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8,16) e nós que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando que a adoção como filhos seja completa e definitiva (Rm 8,23).

Entretanto, é através da fé que nós efetivamos nossa filiação divina. “Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (Gl 3,26). “Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que crêem em seu nome” (Jo 1,12).

Amor (Mt 5,44) e misericórdia (Lc 6,36), perdão (Mt 6,14-15) e paz (Mt 5,9): esses são algumas das manifestações concretas dos Cristãos como filhos de Deus. Como filhos de Deus, os Cristãos tornam-se irmãos e irmãs em Cristo, através de quem podem dirigir-se a Deus como Pai “nosso”.

Jesus, o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8,29), chamou seus Apóstolos (Mt 28,10. Jo 20,17), aqueles que fazem a vontade de Deus (Mc 3,31-35) e os mais marginalizados (Mt 25,40.45) como seus “irmãos”. Ele exortou para o amor aos inimigos (Mt 5,43-47) assim ampliou o sentido de “irmãos”. Ele convida ao amor ao próximo (Lc 10,29034) que pode ser um amigo ou inimigo, aquele que ajuda e que precisa de nossa ajuda. Os dois mandamentos do Antigo Testamento são unificados (Dt 6,5 e Lv 19,18; Lc 10,25-28). Ele aponta o amor para com os seus como fonte e fundamento de nosso amor para com os outros (Jo 15,12-13).

b) “Que estais no céu”

No Evangelho, Jesus fala várias vezes do “Pai … no céu” (Mt 5,16.45) e do “Pai celeste” (Mt 5,48). O que é “céu” para Jesus e para os escritores do Novo Testamento? É o trono de Deus (Mt 5,34) de onde Sua voz é ouvida (Mc 1,11). O Espírito Santo desce do céu (Mc 1,10; At 1,12). Jesus é do céu, veio do céu (Jo 6,38), e é do céu que um dia Ele descerá novamente (1Ts 4,16). Os anjos sempre vêm do céu (Lc 2,13-15). A recompensa do Cristão está no céu: a terra natal, o lar (2Cor 5,1), bênção (Ef 1,3) e recompensa (Mt 5,12), esperança (Cl. 1,5) e herança (1Pe 1,4). Céu é portanto uma realidade divina ? e freqüentemente substitui o nome de Deus (Mt 3,2; 16,1 etc…).

c) “Pai nosso que estais no céu”

Intimamente unidos a Jesus o Filho Único, todos os seus discípulos constituem uma única família de filhos adotivos de Deus. Eles podem dirigir-se a Deus como “Pai” de toda a humanidade que Ele ama, e em Seu amor onipotente Ele inclina-se para conceder a humanidade Sua transcendência que humanamente é impossível atingir.

2. A PRIMEIRA SÚPLICA: A SANTIFICAÇÃO DO NOME DE DEUSEsta é a abertura de uma série de três súplicas relacionadas a Deus. O pronome possessivo na segunda pessoa do plural é utilizado nos pedidos: “vosso” nome, “vosso” reino, “vossa” vontade. A voz passiva teológica pode ser observadas no primeiro e no terceiro pedido: “santificado seja”, “seja feita”, significando “para vós”. Os três pedidos portanto podem ser interpretados como “santificai vosso nome” , “vinde e reinai”, “fazei vossa vontade”.a) O NomeO nome é entre os semitas aquilo que constitui um indivíduo, pelo menos o desejo que impõe e define as suas qualidades. Mas se na humanidade há aqueles que não honram seus nomes, Deus torna plenamente efetivo o significado de Seu Nome. Entre os nomes divinos há também “o Santo”. E Deus é realmente Santo, visto que Ele transcende as realidades terrestres; Ele está afastado da ineficácia e maldade do mundo, pois é absolutamente poderoso e bom . Isto recorda também que os Judeus falavam com respeito do “Nome de Deus” de forma a evitar a referência direta a “Deus” mesmo.

b) A Santificação do Nome

De acordo com a Bíblia o Nome de Deus podia ser santificado ou profanado pelo homem ou por Deus. A humanidade santifica o Nome pela observância de Seus Mandamentos. Ela profana Seu Nome quando transgride-os. Lv 22,31-32 estabelece: “Guardareis os meus mandamento e os praticareis. Eu sou Iahweh. Não profanareis o meu Santo Nome, a fim de que Eu seja Santificado no meio dos filhos de Israel”.

Observe-se as duas formas paralelas: uma condicional “guardareis” e “a fim de que Eu seja Santificado”; e outra imperativa “guardareis” e “não profanareis”. Para Deus, santificar (não profanar) Seu Nome é manifestado pela punição dos Israelitas culpados de idolatria no Egito e a sua libertação. Deste modo os Egípcios não podem acusá-Lo de ter sido impotente no auxílio do Seu povo perseguido e oprimido pelo Faraó (Ez 20,5-12). Deus também santifica Seu Nome (não profana) intervindo para punir os pecadores pagãos. Deste modo os idólatras vêem o Seu poder. (Ez 39, 1-7).

Finalmente, Deus santificará Seu Nome definitiva e completamente quando Ele purificar os Israelitas de seus pecados, dando-lhes um novo coração e um novo espírito, para que possam observar os Seus estatutos (Ez 36,22-28). Os Cristãos sabem que Deus tem presente o início da era escatológica.

Pela intervenção salvífica, Ele revela-se a Si mesmo como Santo (revela a Santidade de Seu Nome) no Filho, e dá-nos Seu Espírito Santo. Na adesão a Deus que revelou-se como Santo, e esperando para vê-Lo em toda Sua glória e poder, os Cristãos procuram revelar Deus como Santo, para santificá-Lo pela observância de Seus Mandamentos e assim interpretar Sua glória.

3. A SEGUNDA SÚPLICA: A VINDA DO REINO DE DEUSa) O ReinoO Reino de Deus, sus instituição, comunicação e realização, constitui o ensinamento central que Jesus anuncia para as multidões e para seus discípulos numa linguagem muito clara ou através da forma velada das parábolas.Para indicar o cumprimento do tempo da salvação, Jesus escolheu a expressão “Reino de Deus” para lembrar a autoridade de Deus, o território ou o sujeito de Sua autoridade. Isto fica bem nítido na Epístola aos Hebreu. Esta expressão sugere um domínio, um império, embora sobrenatural. Ou designa um estado de existência, semelhante a uma comunidade, uma realidade atual ou escatológica, uma realidade terrestre ou celeste.

b) A Vinda do Reino

Várias vezes Jesus fala que o Reino de Deus “está próximo” (Mt 4,17;10,7), outras vezes que “já chegou a vós” (12,28). No pensamento de Jesus, o Reino é tanto futuro como iminente, presente, todavia misteriosamente oculto nas próprias pessoas e atitudes.

No “Pai Nosso”, o verbo aoristo “vir” indica que o Reino veio, mas não está inteiramente realizado. Para estes Cristãos não se pergunta por uma lenta e progressiva vinda do Reino de Deus à terra; mas uma única e definitiva erupção no final dos tempos, quando Deus virá pessoalmente para governar.

Este evento escatológico coincidirá com a vinda gloriosa de Jesus que os Cristãos invocam com o “Maran atha” (1Cor 16,22), “Vinde Senhor Jesus” (Ap. 22,20). No final dos tempos, Jesus subjugará todos os inimigos, incluindo a morte, assim Deus será “tudo em todos” (1Cor 15,28).

4. A TERCEIRA SÚPLICA: A REALIZAÇÃO DA VONTADE DE DEUSa) A Vontade de DeusExceto por Ap 4,11 que fala da vontade criadora de Deus, o “problema” de Deus em todo o Novo Testamento é dar a conhecer Sua gratuita vontade universal para salvação, revelada e promulgada em sua plenitude somente na escatológica inaugurada por Cristo. A vontade de Deus de salvar toda a humanidade esta expressa em um momento sob a forma de promessa, e em outro em forma de preceito. A terceira súplica do “Pai Nosso” inclui ambos os aspectos da vontade de Deus.Os Cristãos pedem a Deus que conclua o Seu plano de salvação que acontecerá no final dos tempos. Eles também pedem que a humanidade não obstrua com seus pecados a realização do projeto divino de salvação. Outrossim, em termos positivos, os Cristãos pedem que a humanidade coopere com a vontade de Deus pela observação de Suas exigências éticas.

Se é verdade, como Santo Agostinho ensinou, que “Deus não quer a sua salvação sem a sua cooperação”, então Deus executará seu plano de salvação de tal modo que a humanidade, com o auxílio do Espírito Santo, receberá a graça para acompanhar os preceitos divinos.

Esta terceira súplica não é por um povo desanimado e abatido que aceita passivamente e com resignação, a vontade de Deus. Ao contrário, é por pessoas que esperam e apressam (2Pe 3,12) dinamicamente a definitiva completa execução da vontade divina para executar suas obrigações éticas.

b) “Na terra como no céu”

A frase não se refere apenas a esta terceira súplica, mas a todas as três. Assim como Deus sempre santifica Seu Nome no céu onde Ele reina e executa Sua vontade, assim Deus também santifique Seu Nome na terra, reinando e executando Sua vontade. Ou colocando de outro modo, Deus santifica Seu Nome, governe e execute Sua vontade em todo o Universo, que inclui o céu e a terra.

5. A QUARTA SÚPLICA: O PÃO DA VIDAEsta é a primeira de três súplicas que dizem respeito ao povo messiânico. Os pronomes pessoas estão na segunda pessoal do plural e os pronomes possessivos na primeira pessoal do plural: “nos dai”, “perdoai as nossas ofensas”, “não nos deixeis cair”, “a quem nos tem ofendido”, “o pão nosso de cada dia”, “nossas ofensas”.a) O PãoUm alimento fundamental, como o óleo e o vinho, na bacia mediterrânea, o pão indicado que serve para sustentar o corpo, e conforme a interpretação de muitos Padres da Igreja, para sustentar a alma.

O Cristão pede a Deus que conceda o alimento que é o pão, o alimento espiritual da Palavra de Deus e a Eucaristia, para a salvação eterna.

b) Epiousios (“de cada dia”)

Um termo que fez-se obscuro desde o tempo do Gênesis. De acordo com diversas etimologias, ele pode significar o pão “de cada dia”. E qual é esse dia? Hoje. A expressão grega pode ter sido usada para evitar “semeron”/”hoje”. Em lugar de “o pão nosso de hoje nos dai hoje”, agora se diz “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”.

Os Cristãos recordam-se as palavras de Jesus “… o vosso Pai celeste sabe que tendes necessidade (comida e roupa). Buscai , em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,32-33).

Confiança na generosidade do Pai celeste é a condição necessária. Ele proverá o sustento necessário de toda a comunidade.

“De cada dia” é “de amanhã”, isto é, da escatologia. Jesus pôs seus discípulos a salvo de preocupações futuras e da acumulação de bens para si; à frente de suas preocupação sobre as coisas do mundo: “Não vos preocupei, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal” (Mt 6,34).

Os Cristãos pedem pão do amanhã escatológico, do banquete do Reino do céu (Lc 14,15). Eles pedem-no para hoje porque toda realidade terrestre vive o “agora” da era escatológica que aguarda o seu pleno desenvolvimento.

6. A QUINTA SÚPLICA: A REMISSÃO DOS PECADOSa) As transgressõesNão se trata de dívidas de gratidão obtidas por nós da generosidade paternal de Deus quando Ele nos concede suas dádivas. “Dividas” de acordo como entendimento dos Judeus são os nossos pecados. As dívidas não são consideradas como ações perversas em si mesmas, mas antes em relação a Deus cujas regras nós transgredimos e a quem nós devemos fazer uma reparação adequada.Ainda que nós devamos executar isto, nós nunca o faremos, devido a imensidão dessas dívidas. Nós mesmos nos encontramos na condição do servo implacável cujo débito chega a 10.000 talentos, e que não tem como pagar, foi vendido juntamente com todos os seus familiares e com seus bens (Mt 18,23-25). A confissão desta impossibilidade de compensar a dívida leva-nos a voltar com humildade em direção ao misericordioso amor de Deus que sobrepõe-se a tudo; então Ele perdoa nossos pecados, que nós mesmos jamais poderíamos expiar.

b) “Como nós perdoamos quem …”

A generosidade de Deus, para qual nós apelamos, coloca um única condição para que recebamos a remissão dos pecados: que nós perdoemos também quem nos ofendeu, que nós perdoe-mos aquele que tenha nos ofendido. E nos podemos mostrar misericórdia para com nossos irmãos e irmãs, exatamente porque nos podemos passar o grande tesouro de misericórdia que Deus primeiro mostrou a nós. Isto é tão claro que ao contrário também é verdade: que nossa oração não será atendida se como o servo implacável (Mt 18,23.15; cf. 6,14-15) nós deixarmos de perdoar nossos irmãos e irmãs.

O quinto pedido, como o sexto, resulta da situação que o pecado adia a definitiva vindo do Cristo glorioso e do Reino do Pai. 2Pe 3,9 diz que o Senhor não tarda a cumprir a sua promessa, como pensam alguns; mas o que ele está é usando de paciência com convosco, porque não quer que ninguém se perca, mas que todos venham a converter-se.

7. A SEXTA SÚPLICA: A PRESERVAÇÃO DAS TENTAÇÕES E A LIBERTAÇÃO DO MALa) A TentaçãoTentar significa testar, experimentar; portando tentação significa teste ou experiência. Algumas vezes é a humanidade que testa Deus, como os Israelitas no deserto (Dt 8,2). Isto significa desafiar Deus, negando-se a demonstrar-Lhe dedicação e obediência, em oposição ao Seu plano de salvação.Outras vezes é Deus quem testa a humanidade, como quando Ele testou Abraão no sacrifício de seu único filho (Gn 22,1f). Isto significa dizer que Deus, querendo realizar seu plano para salvação, antes deu à humanidade a decisão de acreditar ou não nEle, para obedecê-Lo ou não.

Outras vezes, ainda, é o demônio, Satanás, que testa a humanidade para tentar obstruir o plano divino de salvação, buscando empurrar a humanidade em direção à descrença e a desobediência (Mt 4,1-11).

Tentação neste sentido não vem de Deus, mas do demônio. Mas é atribuída a Deus na concepção semítica, Deus é a causa fundamental e todas as coisas (cf. Prólogo do Livro de Jó). Assim se fala da tentação de todos os dias da vida, símbolo e antecipação da tentação do último dia, “da tentação que virá sobre o mundo inteiro” (Ap 3,10). Esta “grande tribulação” (Mt 24,21) é o final e decisivo ataque que Satanás lançará contra os fiéis, atacando com tanta violência que, como disse Jesus, “se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma vida se salvaria. Mas, por causa dos eleitos, aqueles dias serão abreviados” (Mt 24,22) assim haverá fé sobre a terra (cf. Lc 18,18).

Os Cristãos rezam para o Pai celeste, para que Ele apenas os guarde da tentação, mas também que não os deixe cair em tentação. De acordo com esta idéia é o ensinamento encontrando em 1Cor 10,13: “Deus é fiel; não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças; mas, com a tentação, ele vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar”.

Isto é valido para as tentação da vida diária, mas além de tudo para a grade tentação dos últimos dias.

b) A Libertação do Mal

A segunda parte do sexto pedido repete mais ou menos o que foi dito na primeira, porém no modo positivo (diferente do modo negativo da primeira parte). Os Cristãos pedem a Deus que preserve-os do mal. Porém a personificação do “ponerou” (forma masculina de “poneros” para indicar Satanás) é preferida, o que não exclui o significado de “mal”.

Sob a luz do Antigo Testamento e do Judaísmo, o “Pai Nosso” não apresenta nenhuma idéia nova.Em “Anicia Proba Faltonia” (pouco depois de 411 d.C.), Santo Agostinho, nascido de uma família nobre, que buscou proteção no Godo Alarico, observa os paralelos no Antigo Testamento de cada pedido da Oração do Senhor.Ele concluiu “Se todas as palavras da sagrada invocação constante da Escritura fossem revisadas, você não encontraria nenhuma, isto me parece, que não está contida ou resumida no “Pai Nosso” (Epístola 130,12.22-13).

Aqui está uma sinopse dos paralelos citados por Santo Agostinho:

Santificado seja o vosso nome ? “Como, diante delas, te mostrastes santo em nós, assim, diante de nós, mostra levas a tua grandeza” (Eclo 36,3)

Venha a nós o vosso Reino ? “Deus dos Exército, faze-nos voltar! Faze tua face brilhar, e seremos salvos” (Sl 80,8).

Seja feita vossa vontade assim na terra como no céu ? “Firma meus passos com a tua promessa e não deixes mal nenhum me dominar” (Sl 119,133).

O pão nosso de cada dia nos daí hoje ? “… não me dês nem riqueza e nem pobreza, concede-me o pedaço de pão” (Pv 30,8).

Perdoai as nossas ofensas assim como nos perdoamos a quem nos tem ofendido ? “Iahweh, lembra-te de Davi, de suas fadigas todas…” (Sl 132,1). “Iahweh, meu Deus, se eu fiz algo … se em minhas mãos há injustiça, se paguei com mal ao meu benfeitor … (Sl 7,4-6).

Livrai-nos do mal ? “Deus meu, livra-me dos meus inimigos, protege-me dos meus agressores! (Sl 58,2).

O mesmo pode ser observado na literatura judaica; passagens de orações litúrgicas e outros textos antigos mostram-se paralelos à Oração do Senhor, um exemplo é “Literatura Rabínica e Ensino do Evangelho”, de G.G. Montefiore, Londres, 1930, p. 125-135.

Abaixo esta uma breve síntese:

Pai nosso que estais no céu ? “Nosso Pai do céu, vós vos agradais em estabelece um Casa de nossa vida e para colocar Vossa Presença no centro de nossos dias ….” (Liturgia para Manhã de Sábado de acordo com o costume romano).

Santificado seja Vosso Nome ? “Possa Vosso grande Nome ser elevado e santificado” (Qaddish).

Venha a nós o Vosso Reino ? “Possa Vosso Reino ser realizado em vossa vida, e em vossos dias e na vida de toda Casa de Israel agora e para sempre” (Qaddish).

O pão nosso de cada dia nos dai hoje ? Rabbi Eliezer, o Grande, disse: “quem tiver um pedaço de pão numa cesta e disser: que comerei amanhã? é uma pessoal de pouca fé” (B. Soda 48b).

Perdoai os nossos pecados ? “Perdoai-nos, Ó Pai Nosso, porque nos temos pecado, Absolve-nos, Ó Nosso Rei, porque nos cometemos transgressões” (Amida).

Como nós perdoamos a quem nos tem ofendido ? Samuel, o Pequeno, disse: “se o vosso inimigo cair, não vos rejubileis, se ele se perder, não deixai vosso coração se alegrar, para que Deus não veja e volte os Seus olhos e afaste dele Sua fúria” (Aboth 4,24).

Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal ? “Seja um escudo para nós, e afaste nossos inimigos, doenças, a espada, fome, angústia. Afaste o Adversário da frente e de trás de nós” (oração de Mar Bar Rabna, 5ª centúria, na Liturgia Noturna).

Não obstante isto, a Oração do Senhor é ainda a mais original das orações; é a oração por excelência. Tudo o que diz e contém (e o que não é dito) é a referência essencial do relacionamento entre a humanidade e Deus.

Colocada acima das contingência de tempo e espaço, tem um caráter universal em que a humanidade encontra a si mesmo, através de muitas épocas e civilizações.

Autor: pe. Marco Andinolfi Fonte: Site Christus Rex Tradução: Claudiomar Barbosa da Silva

 
 
 
CONTATO
Avalie-nosRuimNão muito bomBomMuito bomÓtimoAvalie-nos

Agradecemos pelo envio !

© 2019 - 2023. INTERVENÇÃO DIVINA - Criado por Divino Design.

Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

bottom of page
ConveyThis