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Comentário do padre Raniero Cantalamessa, ofmcap., à liturgia de 1 de janeiro

ROMA, segunda-feira, 1 de janeiro de 2006 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do padre Raniero Cantalamessa, ofmcap. – pregador da Casa Pontifícia – à liturgia da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, 1 de janeiro.

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Solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus Números 6, 22-27; Gálatas 4, 4-7; Lucas 2, 16-21

Maria meditava em seu coração todas estas palavras

O Concílio nos ensinou a ver Maria como a «figura» da Igreja, isto é, seu exemplo perfeito e sua primícia. Mas pode Maria servir de modelo à Igreja também em seu título de «Mãe de Deus», com o qual é honrada este dia? Podemos chegar a ser mães de Cristo?

Isso não só é possível, mas que alguns Padres da Igreja chegaram a dizer que, sem esta imitação, o título de Maria seria inútil para alguém: «De que me serve – diziam – que Cristo tenha nascido uma vez de Maria em Belém, se não nasce também pela fé em minha alma?». Jesus mesmo iniciou esta aplicação à Igreja do título «Mãe de Cristo», quando declarou: «Minha mãe e meus irmãos são os que escutam a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 8, 21). A liturgia do dia nos apresenta Maria como a primeira dos que se convertem em mães de Cristo mediante a escuta atenta de sua palavra. Foi eleita, de fato, para esta Solenidade, a passagem evangélica onde está escrito que «Maria, por sua parte, conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração».

Como é possível transformar-se, em concreto, em mãe de Cristo, o explica o próprio Jesus: escutando a Palavra e colocando-a em prática. Há duas maternidades incompletas ou dois tipos de interrupção de uma maternidade. Um é o antigo e conhecido aborto. Tem lugar quando se concebe uma vida mas não se lhe dá à luz porque, entretanto, por causas naturais ou pelo pecado dos homens, o feto morre. Até há pouco tempo, este era o único caso que se conhecia de maternidade incompleta. Hoje se conhece outro, que consiste, ao contrário, em dar à luz um filho sem tê-lo concebido. Assim ocorre com as crianças concebidas em provetas e implantadas em um segundo momento, no ventre da mulher, e no caso desolador e triste do útero dado por empréstimo para albergar, às vezes sob pagamento, vidas humanas concebidas em outro lugar. Neste caso a quem a mulher dá à luz não vem dela, não é concebido «antes no coração que no corpo».

Lamentavelmente, também no plano espiritual existem estas duas tristes possibilidades. Concebe Jesus, sem dá-lo à luz, quem acolhe a Palavra sem colocá-la em prática, quem continua praticando um aborto espiritual após outro, formulando propósitos de conversão que logo são sistematicamente esquecidos e abandonados no meio do caminho; quem se comporta para a Palavra como o observador apressado que olha seu rosto no espelho e logo se vai esquecendo de imediato como era (St 1, 23 24). Em resumo, quem tem fé, mas não tem obras.

Ao contrário, dá à luz Cristo sem tê-lo concebido quem realiza muitas obras, às vezes também boas, mas que não procedem do coração, do amor por Deus e da reta intenção, mas do costume, da hipocrisia, da busca da própria glória e do próprio interesse, ou simplesmente da satisfação que dá atuar. Em suma, quem tem as obras, mas não tem a fé.

Estes são os casos negativos, de uma maternidade incompleta. São Francisco de Assis nos descreve o caso positivo de uma verdadeira e completa maternidade que nos assemelha a Maria: «Somos mães de Cristo – escreve – quando o levamos no coração e em nosso corpo por meio do divino amor e da consciência pura e sincera; o geramos através das obras santas, que devem brilhar perante os demais para exemplo!». Nós – vem a dizer o santo – concebemos a Cristo quando o amamos com sinceridade de coração e com retidão de consciência, e o damos à luz quando realizamos obras santas que o manifestam ao mundo.

[Traduzido por Zenit]

 
 
 

I Pregação de Advento do Pe. Raniero Cantalamessa OFMCap.

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 15 de dezembro de 2006 (ZENIT.org).- «“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). As bem-aventuranças evangélicas». Este é o tema das meditações que o padre Raniero Cantalamessa OFMCap., pregador da Casa Pontifícia, dirige ao Papa e a seus colaboradores da Cúria Romana.

Na presença de Bento XVI –na Capela «Redentoris Mater» do Palácio Apostólico vaticano–, esta sexta-feira aconteceu a primeira meditação de Advento; a segunda está programada para o próximo 22 de dezembro.

Como explica um comunicado da Casa Pontifícia, as bem-aventuranças são o auto-retrato de Jesus de Nazaré, pobre, manso, puro de coração e perseguido pela injustiça. Por isso, representam o caminho privilegiado a seguir para ter em si «os mesmos sentimentos de Cristo» (Fl 2, 5).

Já se aprofundou na bem-aventurança sobre os pobres de espírito tempos atrás. Assim que nas presentes meditações se busca refletir sobre as duas bem-aventuranças seguintes, a dos que choram e dos mansos, em especial consonância com o espírito litúrgico de Advento e necessárias para a Igreja na situação histórica atual.

Estes tempos de meditação estão abertos aos senhores cardeais, arcebispos e bispos, secretários das Congregações vaticanas, prelados da Cúria Romana e do Vicariato de Roma, e superiores gerais e procuradores das ordens religiosas que formam parte da Capela Pontifícia.

Publicamos a seguir o texto integral da primeira pregação deste Advento.

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Pe. Raniero Cantalamessa Primeira Pregação de Advento 2006

«Bem-aventurados os que choram!» A bem-aventurança dos aflitos

Começamos com esta meditação um ciclo de reflexão sobre as bem-aventuranças que, se Deus quiser, prosseguiremos na próxima Quaresma. As bem-aventuranças têm conhecido, dentro do próprio Novo Testamento, um desenvolvimento e aplicações diferentes, segundo a teologia de cada evangelista ou as necessidades novas das comunidades. A elas se aplica o que São Gregório Magno diz de toda a Escritura, que ela «cum legentibus crescit» [1], cresce com aqueles que a lêem, revela sempre novas implicações e conteúdos mais ricos, de acordo com as instâncias e os questionamentos novos com os que se lê.

Manter a fé neste princípio significa que também hoje nós devemos ler as bem-aventuranças à luz das situações novas nas que nos encontramos vivendo, com a diferença, entende-se, de que as interpretações dos evangelistas estão inspiradas, e por isso normativas para todos e para sempre, enquanto que as de hoje não compartilham tal prerrogativa.


1. Uma nova relação entre prazer e dor

Omitindo a bem-aventurança dos pobres que meditamos no Advento precedente, concentremo-nos na segunda bem-aventurança: «Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados» (Mt 5, 4). No evangelho de Lucas, onde as bem-aventuranças, que são quatro, estão em forma de discurso direto e reforçadas por uma advertência, a mesma bem-aventurança soa assim: «Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir». «Ai de vós, que agora rides, porque conhecereis o luto e as lágrimas!» (Lc 6, 21.25).

A mensagem mais formidável está contida precisamente na estrutura desta bem-aventurança. Esta se permite recolher a revolução que o evangelho imprimiu a respeito do problema do prazer e da dor. O ponto de partida –comum tanto ao pensamento religioso como profano– é a constatação de que nesta vida prazer e dor são inseparáveis; se sucedem um ao outro com a mesma regularidade com a que à elevação de uma onda no mar, sucede um afundamento e um vazio que puxa o náufrago mar adentro.

O homem busca desesperadamente separar estes dois irmãos siameses, ilhar o prazer da dor. Mas é inútil. É o mesmo prazer desordenado o que se volta contra ele e se transforma em sofrimento, ou de improviso e tragicamente, ou um pouco por vez, enquanto é por sua natureza transitório e gera cansaço e náusea. É uma lição que nos chega da crônica diária e que o homem tem expressado de mil maneiras em sua arte e sua literatura. «Um não sei quê de amargo –escreve o poeta Lucrécio– brota do íntimo de cada prazer e nos angustia já em meio de nossas delícias» [2].

A Bíblia tem uma resposta a dar a isto, que é o verdadeiro drama da existência humana. Houve desde o início uma eleição do homem, feita possível desde sua liberdade, que o levou a orientar exclusivamente para as coisas visíveis a capacidade de gozo da que estava dotado para que aspirasse a gozar o Bem infinito que é Deus.

Ao prazer, eleito contra a lei de Deus e simbolizado por Adão e Eva, que saboreiam o fruto proibido, Deus permitiu que seguisse a dor e a morte, mais como remédio que como castigo. A fim de que não ocorresse que, seguindo apenas seu egoísmo e seu instinto, o homem se destruísse completamente e destruísse cada um de seus próximos. Assim, ao prazer vemos como se adere a ele, como sua sombra, o sofrimento.

Cristo rompeu por fim esta corrente. Ele, «em vez da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz» (Hb 12, 2). Fez, em resumo, o contrário do que fez Adão e do que faz cada homem. «A morte do Senhor –escreveu São Máximo Confessor–, diferentemente da dos demais homens, não era uma dívida paga pelo prazer, mas algo que era lançado contra o próprio prazer. E assim, através desta morte, transformou o destino merecido pelo homem» [3]. Ressuscitando da morte, Ele inaugurou um novo gênero de prazer: o que não precede à dor, como sua causa, mas que lhe segue, com seu fruto.

Tudo isto é maravilhosamente proclamado por nossa bem-aventurança, que à seqüência riso-pranto lhe opõe a seqüência pranto-riso. Não se trata de uma simples inversão dos tempos. A diferença, infinita, está no fato de que na ordem proposta por Jesus é o prazer, não o sofrimento, o que tem a última palavra e, o que importa mais, uma última palavra que dura eternamente.

2. «Onde está teu Deus?»

Procuremos agora entender quem são exatamente os aflitos e os que choram, proclamados bem-aventurados por Cristo. Os exegetas excluem hoje, quase unanimemente, que se tratem os aflitos somente em sentido objetivo e sociológico, gente à qual Jesus proclamaria bem-aventurada apenas pelo fato de sofrer e de chorar. O elemento subjetivo, isto é, o motivo do pranto, é determinante.

E qual é este motivo? A via mais segura para descobrir que pranto e que aflição são proclamados bem-aventurados por Cristo é ver por que se chora na Bíblia e por que chorou Jesus. Descobrimos assim que existe um pranto de arrependimento, como o de Pedro após a traição, um «chorar com os que choram» (Rm 12, 15), de compaixão pela dor alheia, como chorou Jesus com a viúva de Naim e com as irmãs de Lázaro; o choro de exilados que deixam a pátria, como o dos judeus nos rios da Babilônia… E muitos outros.

Gostaria de sacar à luz dois motivos pelos que se chora na Bíblia e pelos que Jesus chorou que me parecem merecer particular meditação no momento histórico que estamos vivendo.

No Salmo 41 lemos:

«As lágrimas são meu pão noite e dia, e todo dia me perguntam: “Onde está o teu Deus?” (…) Esmigalhando-me os ossos meus opressores me insultam, repetindo todo o dia: “Onde está o teu Deus?”».

Nunca esta tristeza do fiel pelo rechaço presunçoso de Deus aa seu redor teve tanta razão como hoje. Depois do período de relativo silêncio posterior ao ateísmo marxista, estamos assistindo a um ressurgimento de um ateísmo militante e agressivo, com marca de origem científica ou cientista. Os títulos de alguns livros recentes são eloqüentes: «Tratado de ateologia», «A ilusão de Deus», «O fim da fé», «Criação sem Deus», «Uma ética sem Deus» … [4].

Em um destes tratados, lê-se a seguinte declaração: «As sociedades humanas elaboraram vários meios ordinários de conhecimento, geralmente compartilhados, através dos quais se pode comprovar algo. Quem afirma a existência de um ser não cognoscível com esses instrumentos deve assumir a carga da prova. Por isso, me parece legítimo que, enquanto não se prove o contrário, Deus não existe» [5].

Com os mesmos argumentos se poderia demonstrar que tampouco existe o amor, dado que não é comprovável com os instrumentos da ciência. O fato é que a prova da existência de Deus não se encontra nos livros nem em laboratórios de biologia, mas na vida. Na vida de Cristo antes de tudo, na dos santos e na dos inumeráveis testemunhos da fé. Encontra-se também na tão desvalorizada prova dos sinais e milagres que Jesus mesmo dava como prova de sua verdade e que Deus segue dando, mas que os ateus rechaçam a priori, sem tomar sequer o incômodo de examinar.

Motivo de tristeza do fiel, como para o salmista, é a impotência que experimenta frente ao desafio: «Onde está o teu Deus?». Com seu misterioso silêncio, Deus chama o fiel a compartilhar sua debilidade e derrota, prometendo apenas nestas condições a vitória: «o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens» (1 Cor 1, 25).

3. «Levaram o meu Senhor!»

Não menos doloroso é hoje, para o fiel cristão, o rechaço sistemático de Cristo em nome de uma investigação histórica objetiva que, em certas formas, reduz-se a algo mais subjetivo que se pode imaginar: «fotografias dos autores e de seus ideais», como aponta o Santo Padre nas páginas introdutórias de seu próximo livro sobre Jesus. Assistimos a uma corrida para ver quem consegue apresentar um Cristo mais à medida do homem de hoje, despojando-o de toda prerrogativa transcendente. À pergunta dos anjos: «Mulher, por que choras?», Maria Madalena, na manhã de Páscoa, respondeu: «Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram» (Jo 20, 13). Um motivo de pranto que poderíamos fazer nosso.

Sempre existiu a tendência a revestir Cristo das roupagens da própria época ou da própria ideologia. No passado, por outro lado, se bem que discutíveis, se tratava de causas sérias e de grande impacto: o Cristo idealista, romântico, liberal, socialista, revolucionário… Nossa época, obcecada pelo sexo, não consegue pensar nele mais que com problemas sentimentais: «Uma vez mais Jesus foi modernizado, ou melhor dito, pós-modernizado» [6].

É bom saber de onde vem esta corrente recente que faz de Jesus de Nazaré o campo de provas dos ideais pós-modernos de relativismo ético e individualismo absoluto (o chamado desconstrucionismo) e que, direta ou indiretamente, está inspirando romances, filmes e espetáculos e influi também nas pesquisas históricas sobre Ele. Trata-se de um movimento nascido nos Estados Unidos nas últimas décadas do século passado, que tem em “The Jesus Seminar” seu ponto de agregação mais ativo.

Foi definido com «neoliberalismo», por seu retorno ao Jesus da teologia liberal do século XIX, sem vínculos nem com o judaísmo, por um lado, nem com o cristianismo e a Igreja, por outro; um Jesus propagador de idéias morais, mas já não de grande alcance, como no liberalismo clássico (paternidade de Deus, valor infinito da alma humana), mas de sabedoria simples, de alcance sociológico mais que teológico. O objetivo destes estudiosos já não é simplesmente corrigir, mas destruir, como dizem eles, «esse erro chamado cristianismo».

É muito significativo o discurso programático realizado pelo fundador do movimento em 1985: «Estamos a ponto de embarcar em uma empresa de grande alcance. Queremos simples e vigorosamente nos colocarmos em busca da voz de Jesus, do que Ele disse verdadeiramente. Neste processo, lançaremos questionamentos no limite do sagrado e até da blasfêmia para os ouvidos de muitos de nossa sociedade. Como conseqüência, o caminho que seguiremos poderia revelar-se arriscado. Poderia nascer hostilidade, mas avençaremos a despeito dos perigos porque o problema de Jesus é o que nos desafia, como o Everest desafia os alpinistas» [7].

Jesus é liberado já não só dos dogmas da Igreja, mas também das Escrituras e dos Evangelhos. Que fontes permanecem, neste ponto, para falar dele, que não seja a simples e pura fantasia? Naturalmente, os apócrifos, e em primeiro lugar o Evangelho de Tomé, fechado inclusive, segundo eles, nos anos 30-60 depois de Cristo, antes que os Evangelhos canônicos e que o próprio Paulo; depois, a análise sociológica das condições de vida na Galiléia nos tempos de Cristo.

Que imagem de Jesus se tira daí? Cito algumas das definições que se deram, não todas, naturalmente, compartilhadas por todos: «um excêntrico galileu», «o famoso festeiro», «um sábio vagabundo ou subversivo», o «mestre de uma sabedoria aforística», «um camponês judeu empapado de filosofia cínica» [8].

Fica por explicar o mistério de como é que um ser tão inócuo tenha acabado na cruz e tenha podido converter-se no «homem que mudou o mundo». O que é verdadeiramente para chorar não é que se escrevam estas coisas (também há que inventar algo novo se se quer seguir escrevendo livros); mas que, uma vez publicados, estes livros vendam centenas de milhares, até milhões, de cópias.

A incapacidade da investigação histórico-filológica de empalmar o Jesus da realidade com o Jesus das fontes evangélicas e da Igreja depende, ao meu ver, do fato de que aquela ignora e não se dispõe a estudar a dinâmica dos fenômenos espirituais e sobrenaturais. Seria como querer ouvir um som com os olhos ou ver uma cor com os ouvidos.

O estudo e a experiência dos fenômenos místicos (também estes são uma realidade!) mostram como todo um desenvolvimento posterior, na vida da própria pessoa ou do movimento nascido dela, pode estar contido num evento, às vezes em um instante (quando se trata de um encontro com o divino), do qual somente depois, pelos frutos, revelam-se as potencialidades escondidas. Os sociólogos se aproximam desta verdade com o conceito de statu nascenti [9].

A criança e o homem adulto se vêem de uma maneira distinta do embrião do começo; no entanto, neste tudo estava contido. De igual maneira, o reino é a princípio «a menor das sementes», mas está destinado a crescer e a converter-se em uma grande árvore (Mt 13, 32).

O nascimento do movimento franciscano se presta a uma comparação, naturalmente em um plano qualitativamente diferente. As fontes franciscanas apresentam divergências e contradições quase sobre cada ponto de vista do Pobrezinho: sobre a visão e a palavra do crucificado de São Damião, sobre o episódio dos estigmas… De nenhuma palavra do santo, exceto dos poucos escritos de seu punho, têm-se a segurança de que tenha saído de sua boca. As Florezinhas parecem toda uma idealização da história.

No entanto, tudo o que floresceu em torno e depois de Francisco – o movimento franciscano com seus reflexos na espiritualidade, na arte, na literatura – depende dele; não é senão uma manifestação – e inclusive empobrecida – das energias espirituais postas em movimento por sua pessoa e por sua vida; melhor, pelo que Deus havia feito em sua vida.

Muitos, até entre os estudiosos fiéis, dão por certo que o Jesus real foi, e pretendeu ser, muito menos do que está escrito dele nos evangelhos, que não se atribuiu tal ou qual título. A verdade é que Ele é imensamente mais, não menos, que o que está escrito dele! Quem é o Filho, somente o sabe o Pai, e o sabem, em pequena medida, também aqueles a quem o Pai quer revelar, em geral não os doutos e os acadêmicos, ao menos que eles se façam pequenos…

Paulo dizia que experimentava no coração «tristeza imensa e uma profunda e contínua dor» pelo rechaço de Cristo por parte de seus compatriotas (Rm 9, 1s.); como não experimentar a mesma dor pelo rechaço dele por parte de muitos contemporâneos nossos, nos países de antiga fé cristã? Por um motivo similar, por não haver reconhecido nele o próprio amigo e salvador, Jesus chorou em Jerusalém…

Felizmente parece precisamente que está encerrando já um ciclo e se está virando página nas investigações sobre Jesus. Em uma obra de três volumes – de mil páginas cada uma – intitulada «Christianity in the Making», destinada a criar época como outros estudos seus precedentes, um dos máximos estudiosos vivos do Novo Testamento, James Dunn, após uma meticulosa análise dos resultados dos últimos três séculos de investigações, chegou à conclusão de que não houve nenhuma interrupção entre o Jesus que prega e o Jesus pregado, e portanto, entre o Jesus da história e o Jesus da fé. Esta não nasceu depois da Páscoa, mas com os primeiros encontros dos discípulos, que se fizeram discípulos justamente porque acreditaram nele, se bem que ao início com uma fé frágil e ainda ignorante de suas implicações.

O contraste entre o Cristo da fé e o Jesus da história é o resultado de uma «fuga da história», antes que de uma «fuga da fé», devidas, uma e outra, ao fato de haver projetado sobre Jesus interesses e ideais do momento. Libertava-se, sim, Jesus das roupagens da dogmática eclesiástica, mas para colocar-lhe vestidos de moda que mudavam a cada estação. Mas o imenso esforço de investigação em torno à pessoa de Cristo não foi em vão, porque é precisamente graças a ele que agora, exploradas todas as soluções alternativas, estamos em grau de chegar criticamente a esta conclusão [10].

4. «Chorem os sacerdotes, ministros do Senhor»

Existe também um segundo pranto na Bíblia sobre o qual devemos refletir. Falam dele os profetas. Ezequiel refere a visão que teve um dia. A voz poderosa de Deus grita a um misterioso personagem «vestido de linho, que trazia na cintura o estojo de escriba»: «Percorre a cidade, a saber, Jerusalém, e assinala com uma cruz [tav] a testa dos homens que estão gemendo e chorando por causa de todas as abominações que se fazem no meio dela» (Ez 9, 4).

Esta visão teve ressonâncias profundas na continuação da revelação e da Igreja. Aquele sinal, tav, última letra do alfabeto hebreu, por sua forma de cruz se converte no Apocalipse no «selo do Deus vivo» impresso na frente dos salvos (Ap 7, 2s.).

A Igreja tem «chorado e suspirado» em tempos recentes pelas abominações cometidas em seu seio por alguns de seus próprios ministros e pastores. Tem pago um preço elevadíssimo por isso. Tem se esforçado a remediar, regras firmes foram estabelecidas para impedir que os abusos se repitam. Chegou a hora, após a emergência, de fazer o mais importante de tudo: chorar ante Deus, afligir-se como se aflige Deus; pela ofensa ao corpo de Cristo e o escândalo «aos mais pequenos de seus irmãos», mais que pelo dano e desonra ocasionados a nós.

É a condição para que de todo este mal possa verdadeiramente chegar o bem e se estabeleça uma reconciliação do povo com Deus e com os próprios sacerdotes.

«Tocai a trombeta em Sião! ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada! (…) Entre o pórtico e o altar chorem os sacerdotes, ministros de Iahweh e digam: “Iahweh, tem piedade do teu povo! Não entregues ao opróbrio a tua herança, Para que as nações zombem deles!”» (Jl 2, 15-17).

Estas palavras do profeta Joel contêm um chamado para nós. Não se poderia fazer o mesmo também hoje: convocar um dia de jejum e de penitência, ao menos no âmbito local e nacional, onde o problema tenha sido mais forte, para expressar publicamente arrependimento ante Deus e solidariedade com as vítimas, estabelecer, em resumo, uma reconciliação dos ânimos e retomar um caminho de Igreja, renovados no coração e na memória?

Dão-me o valor de dizer isso as palavras pronunciadas pelo Santo Padre ao episcopado de uma nação católica em uma recente visita ad limina: «As feridas causadas por estes atos são profundas, e é urgente a tarefa de restabelecer a esperança e a confiança quando estas ficaram danificadas… Deste modo a Igreja se reforçará e será cada vez mais capaz de dar testemunho da força redentora da Cruz de Cristo» [11].

Mas não devemos deixar sem uma palavra de esperança também os desventurados irmãos que foram a causa do mal. Sobre o caso de incesto ocorrido na comunidade de Corinto, o Apóstolo sentenciou: «Entreguemos tal homem a Satanás para a perda da sua carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor» (1 Cor 5, 5). (Hoje diríamos: que seja entregue à justiça humana, para que sua alma obtenha a salvação). A salvação do pecador, não seu castigo, é o que importava ao Apóstolo.

Um dia que pregava ao clero de uma diocese que havia sofrido muito por esta razão, impactou-me um pensamento. Estes irmãos nossos foram despojados de tudo, ministério, honra, liberdade, e só Deus sabe com quanta responsabilidade moral efetiva, em cada caso; passaram a ser os últimos, os rechaçados… Se nesta situação, tocados pela graça, afligem-se pelo mal causado, unem seu pranto ao da Igreja, a bem-aventurança dos aflitos e dos que choram passa a ser subitamente sua bem-aventurança. Poderiam estar próximos de Cristo, que é o amigo dos últimos, mais que muitos outros – inclusive eu –, ricos da própria respeitabilidade e talvez levados, como os fariseus, a julgar a quem erra.

Mas há uma coisa que estes irmãos deveriam absolutamente evitar fazer e que alguns, lamentavelmente, estão tentando no entanto realizar: aproveitar o clamor para tirar benefícios até da própria culpa, concedendo entrevistas, escrevendo memórias, na tentativa de fazer recair a culpa sobre os superiores e sobre a comunidade eclesial. Isso revelaria uma dureza de coração verdadeiramente perigosa.

5. As lágrimas mais belas

Concluo aludindo a um tipo de lágrima diferente. Pode chorar de dor, mas também de comoção e de alegria. As lágrimas mais belas são as que nos chegam aos olhos quando, iluminados pelo Espírito Santo, «provamos e vemos como o Senhor é bom» (Sal 34, 9).

Quando se está neste estado de graça, surpreende que o mundo e nós mesmos não caiamos de joelhos e não choremos todo o tempo de estupor e de comoção. Lágrimas deste tipo deviam correr pelo rosto de Agostinho quando escrevia as Confissões: «Quanto nos amaste, oh bom Pai, que não te reservaste teu único Filho, mas que nos deste por todos nós. Quanto nos amaste!» [12].

Lágrimas como estas verteu Pascal na noite em que teve a revelação do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, que se revela pelas vias do evangelho, e em uma folhinha de papel (encontrada tecida no interior de sua jaqueta após a sua morte) escreveu: «Alegria, alegria, lágrimas de alegria!». Penso que também as lágrimas com as que a pecadora empapou os pés de Jesus não eram lágrimas somente de arrependimento, mas também de gratidão e de alegria.

Se no céu se pode chorar, é deste pranto que está cheio o Paraíso. Em Istambul, a antiga Constantinopla, onde o Santo Padre viajou dias atrás, viveu em torno ao ano 1.000 São Simeão o Novo Teólogo, o santo das lágrimas. É o exemplo mais brilhante na história da espiritualidade cristã das lágrimas de arrependimento que se transformam em lágrimas de estupor e de silêncio. «Chorava – conta em uma obra sua – e estava em uma alegria inexpressível» [13]. Parafraseando a bem-aventurança dos aflitos, diz: «Bem-aventurados os que sempre choram amargamente seus pecados, porque brilhará a luz e transformará as lágrimas amargas em doces» [14].

Que Deus nos conceda desfrutar, ao menos uma vez na vida, destas lágrimas de comoção e de alegria.

———————————————————– [1] Gregorio Magno, Commento morale a Giobbe, 20,1 (CC 143 A, p. 1003). [2] Lucrecio, De rerum natura, IV, 1129 s. [3] Máximo el Confesor, Capitoli vari, IV cent. 39; en Filocalia, II, Torino 1983, p. 249. [4] Respectivamente de Michel Onfray, de Richard Dawkins, Sam Harris, Telmo Pievani, Eugenio Lecaldano. [5] Carlo Augusto Viano, Laici in ginocchio, Laterza, Bari. [6] J. D.G. Dunn, Gli albori del cristianesimo, I,1, Brescia, Paideia 2006, p. 81. [7] Robert Funk, Discurso inaugural de março de 1985 em Berkeley, California. [8] Cfr. J. D.G. Dunn, Gli albori del cristianesimo, I, 1, Brescia 2006, pp. 75-82. [9] Cf. F. Alberoni, Innamoramento e amore, Garzanti, Milán 1981. [10] Cfr. Dunn, Christianity in the Making, Grand Rapids, Michigan 2003. Publicaram-se em italiano os primeiros dois volumes do primeiro tomo com o título Gli albori del cristianesimo, I, La memoria di Gesú, vol. 1: Fede e Gesú storico; I, 2: La missione di Gesú, Paideia, Brescia 2006. [11] Benedicto XVI, Discurso aos bispos da Conferencia Episcopal da Irlanda, sábado, 28 de outubro de 2006. [12] Agustín, Confessioni, X, 43. [13] Simeón, el Nuevo Teólogo, Ringraziamenti, 2 (SCh 113, p. 350). [14] Simeón, el Nuevo Teólogo, Trattati etici, 10 (SCh 129, p. 318).

[Traduzido por Zenit]

 
 
 

Comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap., sobre a liturgia do próximo domingo

ROMA, sexta-feira, 6 de outubro de 2006 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap. — pregador da Casa Pontifícia — sobre a liturgia do próximo domingo, XXVII do tempo comum.

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E os dois serão uma só carne

XVII Domingo do tempo comum (B) Gênesis 2, 18-24; Hebreus 2, 9-11; Marcos 10, 2-16

O tema deste XXVII Domingo é o matrimônio. A primeira leitura começa com as bem conhecidas palavras: «Disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma ajuda adequada». Em nossos dias, o mal do matrimônio é a separação e o divórcio, enquanto que nos tempos de Jesus o era o repúdio. Em certo sentido, este era um mal pior, porque implicava também uma injustiça com relação à mulher, que ainda persiste, lamentavelmente, em certas culturas. O homem, de fato, tinha o direito de repudiar a própria esposa, mas a mulher não tinha o direito de repudiar seu próprio marido.

Duas opiniões se contrapunham, com relação ao repúdio, no judaísmo. Segundo uma delas, era lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo, ao arbítrio, portanto, do marido; segundo a outra, ao contrário, se necessitava de motivo grave, contemplado pela Lei. Um dia submeteram esta questão a Jesus, esperando que adotasse uma postura a favor de uma ou outra tese. Mas receberam uma resposta que não esperavam: «Tendo em conta a dureza de vosso coração [Moisés] escreveu para vós este preceito. Mas desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, deixará o homem seu pai e a sua mãe, e os dois serão uma só carne. De maneira que já não são dois, mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu, o homem não separe».

A lei de Moisés acerca do repúdio é vista por Cristo como uma disposição não querida, mas tolerada por Deus (como a poligamia ou outras desordens) por causa da dureza de coração e da imaturidade humana. Jesus não critica Moisés pela concessão feita; reconhece que nesta matéria o legislador humano não pode deixar de levar em conta a realidade de fato. Mas volta a propor a todos o ideal originário da união indissolúvel entre o homem e a mulher («uma só carne») que, ao menos para seus discípulos, deverá ser já a única forma possível de matrimônio.

Contudo, Jesus não se limita a reafirmar a lei; acrescenta-lhe a graça. Isto quer dizer que os esposos cristãos não têm só o dever de manter-se fiéis até a morte; têm também as ajudas necessárias para fazê-lo. Da morte redentora de Cristo vem uma força — o Espírito Santo — que permeia todo aspecto da vida do crente, inclusive o matrimônio. Este inclusive é elevado à dignidade de sacramento e de imagem viva de sua união esponsalícia com a Igreja na cruz (Ef. 5, 31-32).

Dizer que o matrimônio é um sacramento não significa só (como com freqüência se crê) que nele está permitida e é lícita e boa a união dos sexos, que fora daquele seria desordem e pecado; significa — mais ainda — dizer que o matrimônio se converte em um modo de unir-se a Cristo através do amor ao outro, um verdadeiro caminho de santificação.

Esta visão positiva é a que mostrou tão felizmente o Papa Bento XVI em sua Encíclica «Deus caritas est», sobre amor e caridade. O Papa não contrapõe nela a união indissolúvel no matrimônio a outra forma de amor erótico; mas a apresenta como a forma mais madura e perfeita desde o ponto de vista não só cristão, mas também humano.

«O desenvolvimento do amor para com suas altas cotas e sua mais íntima pureza — diz — leva a que agora se aspire ao definitivo, e isto em um duplo sentido: enquanto implica exclusividade — só esta pessoa –, e no sentido do “para sempre”. O amor engloba a existência inteira e em todas as suas dimensões, inclusive também o tempo. Não poderia ser de outra maneira, já que sua promessa aponta para o definitivo: o amor tende à eternidade.» [n. 6]

Este ideal de fidelidade conjugal nunca foi fácil (adultério é uma palavra que ressoa sinistramente até na Bíblia); mas hoje a cultura permissiva e hedonista na qual vivemos o tornou imensamente mais difícil. A alarmante crise que a instituição do matrimônio atravessa em nossa sociedade está à vista de todos. Legislações civis, como a do governo espanhol, que permitem (e indiretamente, de tal forma, estimulam!) iniciar os trâmites de divórcio apenas poucos meses depois de vida em comum. Palavras como: «estou farto desta vida», «se é assim, cada um por si!», «vou embora», já se pronunciam entre cônjuges diante da primeira dificuldade (dito seja de passagem: creio que um cônjuge cristão deveria acusar-se em confissão do simples fato de ter pronunciado uma destas palavras, porque o simples fato de dizer é uma ofensa à unidade e constitui um perigoso precedente psicológico).

O matrimônio sofre nisso a mentalidade comum do «usar e jogar fora». Se um aparelho ou uma ferramenta sofre algum dano ou uma pequena avaria, não se pensa em repará-lo (desapareceram já aqueles que tinham estes ofícios), pensa-se só em substituir. Aplicada ao matrimônio, esta mentalidade resulta mortífera.

O que se pode fazer para conter esta tendência, causa de tanto mal para a sociedade e de tanta tristeza para os filhos? Tenho uma sugestão: redescobrir a arte do remendo! Substituir a mentalidade do «usar e jogar fora» pela do «usar e remendar». Quase ninguém faz remendos mais. Mas se não se fazem já na roupa, deve-se praticar esta arte do remendo no matrimônio. Remendar os desgarrões. E remendá-los rapidamente.

São Paulo dava ótimos conselhos ao respeito: «Se vos irais, não pequeis; não se ponha o sol enquanto estejais irados, nem deis ocasião ao Diabo», «suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente se algum tem queixa contra outro», «ajudai-vos mutuamente a levar vossas cargas» (Ef 4, 26-27; Col 3, 13; Ga 6, 2).

O importante que se deve entender é que neste processo de desgarrões e recosidos, de crises e superações, o matrimônio não se gasta, mas se afina e melhora. Percebo uma analogia entre o processo que leva a um matrimônio exitoso e o que leva à santidade. Em seu caminho rumo à perfeição, nenhum impulso, tem aridez estão vazios, fazem tudo à força de vontade e com fadiga. Depois desta, chega a «noite escura do espírito», na qual não entra em crise só o sentimento, mas também a inteligência e a vontade. Chega-se a duvidar de que se esteja no caminho adequado, se é que acaso não foi tudo um erro, escuridão completa, tentações sem fim. Segue-se adiante só por fé.

Então tudo se acaba? Ao contrário! Tudo isto não era senão purificação. Depois de passar por estas crises, os santos percebem quão mais profundo e mais desinteressado é agora seu amor a Deus, com relação ao do começo.

A muitos casais não será custoso reconhecer nisso sua própria experiência. Também terão atravessado freqüentemente, em seu matrimônio, a noite dos sentidos, na qual falta todo êxtase daqueles, e se alguma vez houve, é só uma lembrança do passado. Alguns conhecem também a noite do espírito, o estado em que entra em crise até a opção de fundo e parece que não se tem já nada em comum.

Se com boa vontade e a ajuda de alguém se conseguem superar estas crises, percebe-se até que ponto o impulso e o entusiasmo dos primeiros dias era pouca coisa, com relação ao amor estável e a comunhão amadurecidos nos anos. Se primeiro o esposo e a esposa se amavam pela satisfação que isso lhes procurava, hoje talvez se amam um pouco mais com um amor de ternura, livre de egoísmo e capaz de compaixão; amam-se pelas coisas que passaram e sofreram juntos.

[Traduzido por Zenit]

 
 
 
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