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Por Papa Bento XVI Tradução: Vaticano Fonte: Vaticano

Queridos irmãos e irmãs!

Nas últimas duas catequeses falámos da figura de São Pedro. Agora queremos, na medida em que as fontes o permitem, conhecer mais de perto também os outros onze Apóstolos. Portanto, falamos hoje do irmão de Simão Pedro, Santo André, também ele um dos Doze. A primeira característica que em André chama a atenção é o nome: não é hebraico, como teríamos pensado, mas grego, sinal de que não deve ser minimizada uma certa abertura cultural da sua família. Estamos na Galileia, onde a língua e a cultura gregas estão bastante presentes. Nas listas dos Doze, André ocupa o segundo lugar, como em Mateus (10, 1-4) e em Lucas (6, 13-16), ou o quarto lugar como em Marcos (3, 13-18) e nos Actos (1, 13-14). Contudo, ele gozava certamente de grande prestígio nas primeiras comunidades cristãs.

O laço de sangue entre Pedro e André, assim como a comum chamada que Jesus lhes faz, sobressaem explicitamente nos Evangelhos. Neles lê-se: “Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu os dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: “Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens”” (Mt 4, 18-19; Mc 1, 16-17). Do Quarto Evangelho tiramos outro pormenor: num primeiro momento, André era discípulo de João Baptista; e isto mostra-nos que era um homem que procurava, que partilhava a esperança de Israel, que queria conhecer mais de perto a palavra do Senhor, a realidade do Senhor presente. Era verdadeiramente um homem de fé e de esperança; e certa vez, de João Baptista ouviu proclamar Jesus como “o cordeiro de Deus” (Jo 1, 36); então ele voltou-se e, juntamente com outro discípulo que não é nomeado, seguiu Jesus, Aquele que era chamado por João o “Cordeiro de Deus”. O evangelista narra: eles “viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia” (Jo 1, 37-39). Portanto, André viveu momentos preciosos de familiaridade com Jesus.

A narração continua com uma anotação significativa: “André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus. Encontrou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: “Encontramos o Messias” que quer dizer Cristo. E levou-o até Jesus” (Jo 1, 40-43), demonstrando imediatamente um espírito apostólico não comum. Portanto, André foi o primeiro dos Apóstolos a ser chamado para seguir Jesus. Precisamente sobre esta base a liturgia da Igreja Bizantina o honra com o apelativo de Protóklitos, que significa exactamente “primeiro chamado”. E não há dúvida de que devido ao relacionamento fraterno entre Pedro e André a Igreja de Roma e a Igreja de Constantinopla se sentem irmãs entre si de modo especial. Para realçar este relacionamento, o meu Predecessor, o Papa Paulo VI, em 1964, restituiu as insignes relíquias de Santo André, até então conservadas na Basílica Vaticana, ao Bispo metropolita Ortodoxo da cidade de Patrasso na Grécia, onde segundo a tradição o Apóstolo foi crucificado.

As tradições evangélicas recordam particularmente o nome de André noutras três ocasiões, que nos fazem conhecer um pouco mais este homem. A primeira é a da multiplicação dos pães na Galileia. Naquele momento foi André quem assinalou a Jesus a presença de um jovem que tinha cinco pães de cevada e dois peixes: era muito pouco observou ele para todas as pessoas reunidas naquele lugar (cf. Jo 6, 8-9). Merece ser realçado, neste caso, o realismo de André: ele viu o jovem portanto já se tinha perguntado: “mas o que é isto para tantas pessoas?” (ibid.) mas apercebeu-se da insuficiência dos seus poucos recursos. Contudo, Jesus soube fazê-los bastar para a multidão de pessoas que vieram ouvi-lo. A segunda ocasião foi em Jerusalém. Saindo da cidade, um discípulo fez notar a Jesus o espectáculo dos muros sólidos sobre os quais o Templo se apoiava. A resposta do Mestre foi surpreendente: disse que não teria ficado em pé nem sequer uma pedra daqueles muros. Então André, juntamente com Pedro, Tiago e João, interrogou-o: “Diz-nos quando tudo isto acontecerá e qual o sinal de que tudo está para acabar” (Mc 13, 1-4).

Para responder a esta pergunta Jesus pronunciou um importante discurso sobre a destruição de Jerusalém e sobre o fim do mundo, convidando os seus discípulos a ler com atenção os sinais do tempo e a permanecer sempre vigilantes. Podemos deduzir deste episódio que não devemos ter receio de fazer perguntas a Jesus, mas ao mesmo tempo devemos estar prontos para receber os ensinamentos, até surpreendentes e difíceis, que Ele nos oferece.

Por fim, nos Evangelhos está registrada uma terceira iniciativa de André. O Cenário ainda é Jerusalém, pouco antes da Paixão. Para a festa da Páscoa narra João tinham vindo à cidade santa alguns Gregos, provavelmente prosélitos ou tementes a Deus, que vinham para adorar o Deus de Israel na festa da Páscoa. André e Filipe, os dois apóstolos com nomes gregos, servem como intérpretes e mediadores deste pequeno grupo de Gregos junto de Jesus. A resposta do Senhor à sua pergunta parece como muitas vezes no Evangelho de João enigmática, mas precisamente por isso revela-se rica de significado. Jesus diz aos dois discípulos e, através deles, ao mundo grego: “Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (12, 23-24).

O que significam estas palavras neste contexto? Jesus quer dizer: sim, o encontro entre mim e os Gregos terá lugar, mas não como simples e breve diálogo entre mim e algumas pessoas, estimuladas sobretudo pela curiosidade. Com a minha morte, comparável à queda na terra de um grão de trigo, chagará a hora da minha glorificação. A minha morte na cruz originará grande fecundidade: o “grão de trigo morto” símbolo de mim crucificado tornar-se-á na ressurreição pão de vida para o mundo; será luz para os povos e para as culturas. Sim, o encontro com a alma grega, com o mundo grego, realizar-se-á naquela profundidade à qual faz alusão a vicissitude do grão de trigo que atrai para si as forças da terra e do céu e se torna pão. Por outras palavras, Jesus profetiza a Igreja dos gregos, a Igreja dos pagãos, a Igreja do mundo como fruto da sua Páscoa.

Tradições muito antigas vêem em André, o qual transmitiu aos gregos esta palavra, não só o intérprete de alguns Gregos no encontro com Jesus agora recordado, mas consideram-no como apóstolo dos Gregos nos anos que sucederam ao Pentecostes; fazem-nos saber que no restante da sua vida ele foi anunciador e intérprete de Jesus para o mundo grego. Pedro, seu irmão, de Jerusalém, passando por Antioquia, chegou a Roma para aí exercer a sua missão universal; André, ao contrário, foi o apóstolo do mundo grego: assim, eles são vistos, na vida e na morte, como verdadeiros irmãos uma irmandade que se exprime simbolicamente no relacionamento especial das Sedes de Roma e de Constantinopla, Igrejas verdadeiramente irmãs.

Uma tradição sucessiva, como foi mencionado, narra a morte de André em Patrasso, onde também ele sofreu o suplício da crucifixão. Mas, naquele momento supremo, de modo análogo ao do irmão Pedro, ele pediu para ser posto numa cruz diferente da de Jesus. No seu caso tratou-se de uma cruz decussada, isto é, cruzada transversalmente inclinada, que por isso foi chamada “cruz de Santo André”. Eis o que o Apóstolo dissera naquela ocasião, segundo uma antiga narração (início do século VI) intitulada Paixão de André: “Salve, ó Cruz, inaugurada por meio do corpo de Cristo e que se tornou adorno dos seus membros, como se fossem pérolas preciosas. Antes que o Senhor fosse elevado sobre ti, tu incutias um temor terreno.

Agora, ao contrário, dotada de um amor celeste, és recebida como um dom. Os crentes sabem, a teu respeito, quanta alegria possuis, quantos dons tens preparados. Portanto, certo e cheio de alegria venho a ti, para que também tu me recebas exultante como discípulo daquele que em ti foi suspenso… Ó Cruz bem-aventurada, que recebestes a majestade e a beleza dos membros do Senhor!… Toma-me e leva-me para longe dos homens e entrega-me ao meu Mestre, para que por teu intermédio me receba quem por ti me redimiu. Salve, ó Cruz; sim, salve verdadeiramente!”.

Como se vê, há aqui uma profundíssima espiritualidade cristã, que vê na Cruz não tanto um instrumento de tortura como, ao contrário, o meio incomparável de uma plena assimilação ao Redentor, ao grão de trigo que caiu na terra. Nós devemos aprender disto uma lição muito importante: as nossas cruzes adquirem valor se forem consideradas e aceites como parte da cruz de Cristo, se forem alcançadas pelo reflexo da sua luz. Só daquela Cruz também os nossos sofrimentos são nobilitados e adquirem o seu verdadeiro sentido.

Portanto, o apóstolo André ensina-nos a seguir Jesus com prontidão (cf. Mt 4, 20; Mc 1, 18), a falar com entusiasmo d’Ele a quantos encontramos, e sobretudo a cultivar com Ele um relacionamento de verdadeira familiaridade, bem conscientes de que só n’Ele podemos encontrar o sentido último da nossa vida e da nossa morte.

 
 
 

Entrevista ao professor de Novo Testamento Bernardo Estrada

Por Mirko TestaROMA, quarta-feira, 9 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).- A consistência histórica dos Evangelhos está em sua própria gênese, na continuidade entre a pregação de Jesus, a pregação apostólica e sua redação, afirma nesta entrevista concedida à Zenit o Pe. Bernardo Estrada, professor de Novo Testamento da Faculdade de Teologia da Universidade da Santa Cruz de Roma, que cita alguns testemunhos alheios à Bíblia, que enriquecem o conteúdo dos Evangelhos.

O senhor pode nos explicar como aconteceu o processo de redação dos Evangelhos?

–Padre Estrada: Podemos dizer que os Evangelhos se iniciam com a pregação de Jesus, que não escreveu de punho e letra praticamente nada, senão aquelas poucas palavras traçadas na terra quando lhe levaram a uma mulher surpreendida em adultério. De Jesus Cristo sabe-se, sobretudo, que pregava. Deve-se sublinhar a este respeito que a exigência de pregar e ensinar de memória era um costume constante da época, porque a escritura era impraticável em condições normais.

Contudo, depois da paixão e morte de Jesus, a pregação da Igreja se fundou justamente no acontecimento pascoal. É este o fundamento de toda a nossa fé, não só porque Paulo o diz ao final da Carta aos Coríntios, mas porque precisamente o kerigma, o anúncio fundamental da Igreja após Pentecostes, foi «Jesus Cristo crucificado e ressuscitado». O Evangelho como tal era, como afirma São Paulo, proclamação da «gozosa mensagem»: Deus nos salvou da morte eterna com a morte e ressurreição de seu Filho Jesus.

Só na segunda metade do século II, São Justino, ao escrever no ano 160 sua «Apologia», afirma que as memórias dos Apóstolos são denominadas «Evangelhos». É o primeiro testemunho no qual se passa do Evangelho como anúncio pregado ao Evangelho como texto. Após esta declaração apostólica, podemos dizer que os autores sagrados, ou seja, os evangelistas dos quais ao menos dois eram apóstolos, chegam à redação dos livros.

Por isso pode-se dizer que os Evangelhos têm uma consistência histórica, porque refletem estes três estágios em sua formação, dando-se sempre uma continuidade. Uma continuidade que une a pregação de Jesus, a pregação apostólica e a redação do Evangelho.

Os Evangelhos «canônicos», ou seja, os aceitos pela Igreja por sua origem «apostólica» e por sua «conformidade com a norma da fé» das primitivas comunidades cristãs e as maiores Igrejas de origem apostólica, foram compostos entre 60 e 100. Quais são os critérios que testificam sua historicidade?

–Padre Estrada: Os expoentes mais radicais da crítica histórica consideravam que havia uma distância tal entre a redação dos Evangelhos e a vida de Jesus que toda uma geração de testemunhas oculares havia desaparecido. Mas isso não é verdade. O primeiro Evangelho, que se sabe que foi escrito por Marcos, remonta-se ao ano 64, ou seja, 34 anos após a data provável da morte de Jesus. Naqueles anos o que se fez? Essencialmente, pregou-se o Evangelho em diversos lugares, refletiu-se sobre esse anúncio, dando-lhe uma sistematização teológica, que é o que Paulo fez. De fato, os Evangelhos se escreveram depois de que Paulo elaborasse praticamente toda a sua teologia. Em torno do ano 64, todas as Cartas haviam sido escritas, inclusive as pastorais, se é que ele foi seu autor. Podemos dizer que, naqueles anos, os Evangelhos sofreram uma evolução mais teológica que biográfica, porque os fatos e palavras da vida de Jesus já estavam comprovados.

Então, quais são os critérios para poder separar com certa segurança o que é histórico do que não é?

–Padre Estrada: Na segunda metade do século XX, desenvolvem-se diversos critérios históricos, entre eles o da «descontinuidade», que se concentra naquelas palavras ou aqueles fatos de Jesus que não podem derivar nem do judaísmo do tempo de Jesus, nem da Igreja primitiva depois d’Ele. Por exemplo, no Evangelho de Mateus, Jesus enfrenta de maneira crítica as escrituras e Moisés, como nenhum rabino jamais fez, revelando a superioridade da nova lei proclamada por Ele, que não se fundamenta no estilo exterior dos fariseus, mas se assenta na intimidade do coração.

Outro critério é o que se chama da «dificuldade», segundo a qual a Igreja não teria nunca comunicado um fato que pudesse humilhar Jesus, como por exemplo a cruz, que é o caso mais emblemático e paradigmático. O batismo por obra de João, se não tivesse acontecido realmente, não teria podido ser imaginado por nenhum autor. Assim como a aparição às mulheres, porque naquele tempo as mulheres não eram testemunhas qualificadas em Israel.

As notáveis afinidades entre os textos de Mateus e Lucas levaram diversos estudiosos a afirmar a existência de uma fonte comum, fazendo pensar que na realidade recorreram a fontes indiretas e não de primeira mão. O que o senhor pensa a este respeito?

–Padre Estrada: Podemos admitir que os Evangelhos de Mateus e Lucas tiveram uma fonte comum, porque existe uma série de narrações, sobretudo de frases, que não aparecem em Marcos. Mas o que surpreende não é que Mateus e Lucas tiveram uma fonte comum, mas as diferenças. Por exemplo, os dois relatam a infância de Jesus, mas cada um o faz através de eventos que o outro sequer conhece. Em Mateus, o protagonista da infância de Jesus é José, enquanto que em Lucas é Maria. Se existissem muitas afinidades, isso teria podido levar a supor que houve um acordo entre os dois. Evidentemente, cada evangelista tinha uma fonte própria à qual recorrer e outra compartilhada.

Há fontes históricas independentes dos Evangelhos canônicos que enriquecem seu conteúdo?

–Padre Estrada: A historicidade dos Evangelhos só é garantida pelos próprios Evangelhos, mediante seu processo de formação. Mas há, contudo, testemunhos alheios à Bíblia que não se devem desprezar. O primeiro é o de Plínio o Jovem, que foi pró-cônsul de Bitínia entre os anos 111 e 113, e que em uma das cartas enviadas ao imperador Trajano escreve que os cristãos «costumavam reunir-se antes do amanhecer e entoar a coros alternos um hino a Cristo como se fosse um deus». Portanto, afirma que estão convencidos da divindade de Cristo.

Suetônio, no entanto, em sua obra «Vida dos doze césares», referindo um fato acontecido em torno do ano 50, afirma que Cláudio «expulsou de Roma os judeus que por instigação de Cresto eram contínua causa de desordem» (Vita Claudi XXIII, 4). Suetônio escreveu «Chrestus» ao invés de «Chrestòs, que era um nome grego muito comum, e Christòs, que queria dizer o «ungido», o «Messias». Portanto, existiam em Roma judeus-cristãos e – diria – judeus não-convertidos que discutiam entre si sobre Cristo e que podiam aparecer aos olhos da autoridade romana como causa de desordem pública.

E depois está o testemunho do historiador romano Tácito que, nos «Anais», narra o incêndio que aconteceu em Roma no ano 64, pelo qual foi acusado o imperador Nero, que fez de tudo «para fazer cessar tal rumor», e por isso «inventou culpados e submeteu a penas refinadas a quem a plebe chamava de cristãos, detestando-os por seus atos abomináveis». Tácito afirma também que «a origem deste nome era Cristo, o qual, sob o império de Tibério, foi condenado ao suplício pelo procurador Pôncio Pilatos; e esta superstição, momentaneamente adormecida, difundia-se de novo, não só na Judéia, ponto central daquele mal, mas também em Roma, onde confluiu de todas as partes e foi considerado honorável tudo o que há nele de torpe e vergonhoso» («Anais» XV, 44).

O elenco completo dos 27 livros do Novo Testamento é fixado pela primeira vez no tempo de Atanásio de Alexandria, em 367 d.C. Como se chega a escolher estes quatro Evangelhos no cânon das Escrituras?

–Padre Estrada: Já antes do final do século II, Santo Irineu, bispo de Lyon e mártir, afirma em uma célebre passagem que «visto que o mundo tem quatro regiões e são quatro os ventos principais (…), o Verbo criador de cada coisa (…), revelando-se aos homens, deu-nos um Evangelho quádruplo, mas unificado por um único Espírito» («Contra as heresias», III 11, 8).

A Igreja havia já definido então os quatro textos que se usavam na liturgia. Vinte anos antes do Irineu, também Justino fala dos quatro Evangelhos ou da memória dos Apóstolos, que eram mencionados ou lidos durante as celebrações eucarísticas. Então como se chegou a esta seleção? Na realidade, chegou-se através de um processo no qual o Espírito Santo se introduziu de forma natural e espontânea. Quando se difundia um texto que afirmava algo estranho, os próprios fiéis, unidos a seu pastor, o rejeitavam. Portanto, não haviam sido preparados por ninguém, ainda que já no século II existia a consciência de que o Evangelho era quádruplo: ou seja, um só, porque uma só é a pregação sobre a vida, as obras e as palavras de Jesus, mas com quatro imagens diversas, cada uma das quais oferece um toque pessoal.

A outra questão que surge agora é como a tradição apostólica chegou a incluir entre os Evangelhos canônicos também o Evangelho de João, o mais diferente com relação aos outros quanto a conteúdo e exposição, tecido com freqüência de reflexões espirituais e teológicas. Também alguns estudiosos atribuem a paternidade deste escrito a discípulos pertencentes a diversas «escolas de João», como se pode notar nesta passagem: «Este é o discípulo que dá testemunho sobre estes fatos e os escreveu; e nós sabemos que seu testemunho é verdadeiro» (João 21, 20).

–Padre Estrada: O fato de que seus autores não sejam necessariamente os quatro que são mencionados nos títulos não desmerece a historicidade dos Evangelhos. Eu gostaria de dizer também que nem sequer há motivo para duvidar se não há razões sérias. Pelo que se refere ao Evangelho de João, é certo que um núcleo se remonta ao apóstolo, mas também houve discípulos que refletiram sobre as palavras de Jesus e encontraram outras fontes e redigiram um Evangelho que se afasta um pouco dos demais. De fato, é o Evangelho mais espiritual, onde não se fala nunca da crucifixão e do sofrimento, porque para o evangelista João, a hora da paixão se identifica com a glorificação e a suprema «elevação» de Jesus.

João já apresenta a missão do Cristo a partir da Ressurreição. É um Cristo que triunfou e venceu a morte. Por outra parte, é impossível explicar o relato tão detalhado e cru da Paixão senão à luz da plena convicção que os evangelistas tinham da Ressurreição. Do contrário, teria sido simplesmente masoquismo! O sofrimento serviu para a nossa salvação.

João relata muitíssimos diálogos de Jesus com o Pai, como se não tocasse a terra, mas que estivesse constantemente imerso na contemplação do rosto de Deus e já glorificado, enquanto nos outros Evangelhos Jesus é um homem com todas as suas características e seus limites humanos. O fato de que o Evangelho de João tenha sido retocado por uma comunidade de discípulos que se encontrava provavelmente em Éfeso, e ampliado ou talvez articulado de outro modo, comprova-se na passagem que você citou, e que é considerada um apêndice, um anexo posterior por parte de um discípulo que faz de João um testemunho veraz. Quando se lê o capítulo 20, compreende-se que estamos ante um final: «Estas coisas foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e para que, crendo, tenhais vida em seu nome» (João 20, 31).

Lucas, em seu Evangelho, composto por volta dos anos 80 do século I, alude aos «muitos outros» que escreveram sobre os acontecimentos de Jesus, quase testificando a existência de uma multiplicidade de Evangelho, aqueles mesmos Evangelhos que depois foram considerados apócrifos…

–Padre Estrada: Na verdade, quando Lucas inicia o prólogo do Evangelho e diz «porque muitos se puseram a escrever um relato sobre os acontecimentos que sucederam entre nós», não se está referindo a livros, mas aos testemunhos de muitas pessoas que receberam a pregação apostólica e que escreveram os fatos e as palavras de Jesus.

Certamente, essas são as fontes às quais os evangelistas também recorrem. Mas disso não devemos deduzir necessariamente que se tratasse de verdadeiros livros. Talvez Lucas, que tinha presente o Evangelho de Marcos, tenha percebido que outros tentaram redigir ou ordenar os fatos ligados à vida de Jesus. Mas isso não quer dizer que no século II se tivessem difundido os Evangelhos apócrifos. O fragmento mais antigo do «Evangelho de Tomé» se remonta ao final do século II, que provavelmente é a data de composição daquele Evangelho. Não antes. Mas nós sabemos que muitos Evangelhos são datados no século I inclusive nas citações contidas na Primeira Carta de Clemente, um texto atribuído ao Papa Clemente I (88-97) escrito em grego para finais do século I.

Na «Didaquê» ou «Doutrina dos doze Apóstolos», que pode ser considerada como o catecismo cristão mais antigo, tendo sido escrita algumas décadas depois da morte de Cristo, cita-se o «Pai Nosso» exatamente como o recitamos hoje.

Também sabemos que o fragmento mais antigo do Novo Testamento está dentro do papiro Rylands (P. 52), que contém partes do Evangelho de João e se remonta a cerca de 125 d.C., e é portanto uma cópia escrita a menos de 30 anos de distância do original.

Ainda que descartados porque não contêm verdades divinas reveladas, alguns Evangelhos apócrifos chegaram até nós em longos fragmentos, como o «Evangelho copto de Tomé» ou o «Evangelho de Pedro», sendo inclusive utilizados entre os monges cristãos da Síria e da Ásia Menor. Que valor têm? Acrescentam informações úteis ao relato dos quatro evangelistas?

–Padre Estrada: Sobretudo, é necessário dizer que entre os Evangelhos apócrifos há alguns que, ao apresentar a figura de Jesus ou ao renovar o ensinamento, inspiram-se no gnosticismo, que é a teoria filosófico-religiosa dos primeiros séculos do cristianismo (I-IV), e que se contrapôs violentamente à Igreja Católica. Em 1945, na aldeia de Nag Hammdi, no Alto Egito, descobriu-se uma antiga biblioteca copta que custodiava 13 códices, todos escritos no século IV, alguns dos quais continham frases de Jesus, para expressar contudo conceitos não-cristãos.

Todos os estudiosos concordam, por exemplo, em afirmar que o «Evangelho de Tomé» – o que suscitou maior interesse – é um Evangelho gnóstico que contém as doutrinas e as orientações de uma comunidade, nascida como heresia dentro do cristianismo, e que pretendia atribuir a Jesus seu conceito da salvação e todos os princípios da fé segundo seu ponto de vista. Por exemplo, não reconhecem a morte de cruz porque a única salvação viria da «gnose», ou seja, do conhecimento. E que a matéria é sempre causa de pecado ou está ligada ao demônio. O «Evangelho de Tomé», como os outros Evangelhos gnósticos, limita-se a notificar frases de Jesus sem inseri-los na narração do que fez. É uma espécie de «Confúcio cristão» do século II.

Então, podemos perguntar-nos se os Evangelhos apócrifos contêm alguma verdade. Certamente. Por exemplo, os protoevangelhos nos contam os primeiros anos de vida de Jesus. Neste sentido, o mais famoso é o «Proto-evangelho de São Tiago», filho de José, que o teria tido, junto com outros três irmãos e duas irmãs, em um matrimônio anterior ao seu com Maria. Este texto teve certa influência na tradição e na iconografia, tanto que a presença do boi e do burro na gruta do Nascimento e o nome dos pais de Maria, Joaquim e Ana, nos chegam justamente desta fonte.

Certamente, o conteúdo dos Evangelhos apócrifos pode diferir. Alguns contêm verdades e amplificações fantasiosas com relação aos Evangelhos canônicos, assim como um gosto teatral próprio de um cristianismo popular, ainda permanecendo no fundamental da ortodoxia, enquanto muitos outros, sobretudo aqueles de orientação gnóstica, contêm falsidades porque querem convencer da validez de sua heresia.

Sob o perfil histórico, não nos dizem nada além do que já sabemos pelos Evangelhos segundo Mateus e Lucas, dos quais eles dependem. Sua intenção não é histórica, querem fazer obra de edificação. Frente à sobriedade dos Evangelhos, que relatam também realidades sobrenaturais de maneira «natural» e sóbria, sem acrescentar circunstâncias desnecessárias, escolhe-se responder ao desejo do povo cristão acrescentando de maneira mais ampla e colorida detalhes para sublinhar aspectos e fatos da infância e da adolescência de Jesus e Maria. Mas na verdade, dessa forma dão uma imagem de Jesus não conforme a realidade, como acontece no «Evangelho da Infância», de Tomé, onde é descrito como uma criança que já é capaz de fazer milagres.

Portanto, pode-se dizer que se não tivessem ainda que fosse uma pequena parte de verdade, ninguém os teria aceitado. Sua importância está no fato de fazer ver uma época, um desenvolvimento do cristianismo, uma confluência de várias correntes teológicas e religiosas. Sua utilidade está em conseguir mostrar a evolução do cristianismo.

 
 
 

Comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap., sobre a liturgia do próximo domingo

ROMA, sexta-feira, 19 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap. — pregador da Casa Pontifícia — sobre a liturgia do próximo domingo, III do Tempo Comum.

* * *

Os Evangelhos são relatos históricos?

III Domingo do Tempo Comum Neemias 8, 2-4ª.5-6.8-10; I Coríntios 12, 12-31a; Lucas 1, 1-4; 4, 14-21

Antes de começar o relato da vida de Jesus, o evangelista Lucas explica os critérios que o guiaram. Assegura que refere fatos transmitidos por testemunhas oculares, verificados pelo mesmo com «comprovações exatas» para que quem lê possa perceber a solidez dos ensinamentos contidos no Evangelho. Isso nos oferece a ocasião de nos ocuparmos do problema da historicidade dos Evangelhos.

Até pouco tempo atrás, não se mostrava entre as pessoas o sentido crítico. Tomava-se por historicamente ocorrido tudo o que era referido. Nos últimos dois ou três séculos nasceu o sentido histórico, pelo qual, antes de crer em um fato do passado, ele é submetido a um atento exame crítico para comprovar sua veracidade. Esta exigência foi aplicada também aos Evangelhos.

Resumamos as diversas etapas pelas que a vida e o ensinamento de Jesus atravessaram antes de chegar a nós.

Primeira fase: vida terrena de Jesus. Jesus não escreveu nada, mas em sua pregação utilizou alguns recursos comuns às culturas antigas, os quais facilitavam muito a retenção de um texto na memória: frases breves, paralelismo e antítese, repetições rítmicas, imagens, parábolas… Pensemos em frases do Evangelho como: «Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos», «Larga é a entrada e espaçoso o caminho que leva à perdição…, estreita a entrada e o caminho que leva à Vida» (Mt 7, 13-14). Frases como estas, uma vez escutadas, até as pessoas de hoje dificilmente as esquecem. O fato, portanto, de que Jesus não tenha escrito Ele mesmo os Evangelhos não significa que as palavras neles referidas não sejam suas. Ao não poder imprimir as palavras no papel, os homens da antiguidade as fixavam na mente.

Segunda fase: pregação oral dos apóstolos. Depois da ressurreição, os apóstolos começaram imediatamente a anunciar a todos a vida e as palavras de Cristo, levando em conta as necessidades e as circunstâncias dos diversos ouvintes. Seu objetivo não era o de fazer história, mas de levar as pessoas à fé. Com a compreensão mais clara que agora temos disso, eles foram capazes de transmitir aos outros o que Jesus havia dito e feito, adaptando-o às necessidades daqueles a quem se dirigem.

Terceira fase: os Evangelhos escritos. Cerca de trinta anos após a morte de Jesus, alguns autores começaram a escrever esta pregação que lhes havia chegado por via oral. Nasceram assim os quatro Evangelhos que conhecemos. Das muitas coisas chegadas até eles, os evangelistas escolheram algumas, resumiram outras e explicaram finalmente outras, para adaptá-las às necessidades do momento das comunidades às quais escreviam. A necessidade de adaptar as palavras de Jesus a exigências novas e diferentes influiu na ordem com o que se relatam os fatos nos quatro Evangelhos, na diversa colocação e importância que revestem, mas não alterou a verdade fundamental deles.

Que os evangelistas tenham tido, na medida do possível naquele tempo, uma preocupação histórica e não só edificante é demonstrado na precisão a que situam o acontecimento de Cristo no espaço e no tempo. Pouco mais adiante, Lucas nos proporciona todas as coordenadas políticas e geográficas do início do ministério público de Jesus (Lc 3, 1-2).

Em conclusão, os Evangelhos não são livros históricos no sentido moderno de um relato o mais neutro possível dos fatos ocorridos. Mas são históricos no sentido de que o que nos transmitem reflete em substância o acontecimento.

Mas o argumento mais convincente a favor da fundamental verdade histórica dos Evangelhos é o que experimentamos dentro de nós cada vez que somos tocados em profundidade por uma palavra de Cristo. Que outra palavra, antiga ou nova, teve o mesmo poder?

[Traduzido por Zenit]

 
 
 
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