top of page

TODOS OS PRODUTOS

Eventos futuros

Como estamos verificando nos textos anteriores, uma imensa série de nomes e imagens foi tirada da antiguidade clássica para legitimar a nova fé revolucionária. Dois nomes relativamente negligenciados tiveram importância central para o desenvolvimento de uma identidade ideal em meio aos intelectuais revolucionários: a imagem do revolucionário como um Pitágoras moderno e de seu ideal social como uma Filadélfia. Esses dois tópicos ilustravam o alcance proto-romântico de um distante ideal grego como uma alternativa majestosa às imagens romanas de poder e conquista que haviam dominado a França à medida que esta, assim como a Roma antiga, passava da república para o império sob o governo de Napoleão. Pitágoras e Filadélfia representavam uma destilação dos altos ideais fraternos comuns tanto às irmandades ocultistas da maçonaria e do iluminismo quanto à mobilização idealista de jovens para defender a revolução de 1792-1794. Houve uma recessão das esperanças revolucionárias ao fim do século XVIII e começo do XIX. Pitágoras, o semi-lendário filósofo grego, que fundou (uma espécie de seita político-religiosa com ritos secretos) em Crotona, na Itália meridional. Pitágoras (que provavelmente nada escreveu) e o antigo pitagorismo estão envolvidos pela lenda e é impossível distinguir a doutrina pessoal do mestre da dos seu discípulos. Certamente nem todo o conteúdo doutrinário do pitagorismo é antigo quanto Pitágoras (representado pela lenda como profeta e Taumaturgo) mas, por outro lado, é exagerado atribuir à antiga escola apenas um caráter místico e ritual. Com toda probabilidade duas doutrinas fundamentais (da “transmigração das almas” e dos “Números”) são antigas quanto a Escola. Pitágoras serviu de modelo para o intelectual-transformado-em-revolucionário. Tornou-se uma espécie de o padroeiro dos revolucionários românticos, que precisavam de novos santo símbolos de santidade secular. De acordo com a tradição, no século VI a.C. o grande geômetra da antiguidade deixou a cidade de Samos, na Grécia, e foi para Crotona, no sul da Itália, onde supostamente fundou uma irmandade religiosa-filosófica para transformar a sociedade. Reformadores intelectuais radicais, ao longo de toda a antiguidade, reviveram e embelezaram essa tradição. Neopitagóricos surgiram na Alexandria no século II a.C.; e um grupo posterior de pitagóricos produziu Apolônio de Tiana no século II, um sábio taumaturgo que foi, na sua época, um grande rival de Cristo. Embora grupos organizados tenham desaparecido, as ideias pitagóricas vieram a reaparecer na cristandade medieval, que por certo tempo representou Pitágoras como um elo judeu oculto entre Moisés e Platão. Houve uma corrente de fascínio pelo pensamento pitagórico no Renascimento e no Iluminismo que ganhou um espírito de ira durante a Revolução Francesa. O projeto final de Weishaupt de um iluminismo politizado, escrito durante o primeiro ano da Revolução, era intitulado Pitágoras; e, à medida que os extremistas procuravam princípios simples, porém sólidos, com base nos quais reconstruir a sociedade, cada vez mais passaram a buscar orientação nas crenças pitagóricas em números primos e formas geométricas. Antes, revolucionários românticos buscaram atalhos ocultistas para as verdades íntimas da natureza, e assim diversas vezes deram importância aos principais números primos do misticismo pitagórico: um, três, sete, e sobretudo cinco. Panfletários de direita sugeriram que os números primos propiciavam um código organizacional secreto para os revolucionários; uma elaboração particularmente engenhosa de 1797 derivava do número dezessete toda a estrutura da história revolucionária. Por mais esquisita que possa a revolucionários e historiadres posteriores, essa paixão pitagórica influenciou seriamente as atividades a organizacionais dos primeiros revolucionários. Estamos vendo como os iluminados fizeram os primeiros e hesitantes esforços de usar da maçonaria ocultista em conspirações ulteriores – abrindo caminho para Bonneville, Buonarroti e os primeiros revolucionários profissionais. Ocultistas se tornaram políticos e fizeram especial emprego de dois dos mais importantes símbolos geométricos pitagóricos o círculo e o triângulo ao dramatizarem seu desafio ao poder estabelecido. Essas duas formas se tornaram símbolos que representava o divino no cristianismo medieval. Passaram a progressivamente dominar os hieróglifos das ordens maçônicas mais altas e também a imaginação de arquitetos utópicos pré-revolucionários que, com frequência, buscavam fazer edificações só com base em “figuras geométricas do triângulo ao círculo”. Como muitos dos primeiros líderes da revolução viam a si mesmos como maçons-arquitetos, sentiram alguma afinidade com a campanha então em andamento de combate ao estilo rococó aristocrático com o “poder da geometria”. Assegurados pela lei da gravidade de Newton quanto à harmonia circular do universo, sentiram que o domínio das leis matemáticas tornava o homem “possuidor do segredo do universo solar” destinado a organizar a sociedade humana racionalmente. Ao mesmo tempo, a filosofia proto – romântica do ocultismo alemão levou muitos a verem o homem não como uma engrenagem, mas como um dinâmico “ponto vivo destinado a se tornar um círculo. Mas, antes que as fronteiras pudessem se expandir, monumentos precisavam ser construídos em seu centro. A forma piramidal se tornou popular após o retorno de Napoleão do Egito, embora tenha sido logo ultrapassada em locais públicos por obeliscos. Mesmo antes da revolução, arquitetos utópicos se sentiram atraídos pela “sublime magnificência da esfera”. Essa forma pura reapareceu no esboço de um Memorial de Newton (uma esfera tendo dentro de si apenas um pequeno túmulo iluminado por um único raio de sol) e de um proposto Templo da Igualdade (uma imensa esfera erguida sobre colunas, contendo uma esfera menor em seu interior). O círculo Os pitagóricos tinham sido a primeira escola da antiguidade clássica a sustentar sistematicamente que a Terra e o universo eram esféricos em sua forma e finitos em sua extensão. Os números e a música expressavam as harmonias ocultas de uma derradeira e esférica perfeição natural. A realidade central da vida humana era a transmigração de almas humanas de um corpo para o outro – tudo a se mover em ciclos como o próprio universo. Pitagóricos do século XVIII ficaram especialmente entusiasmados com a ideia dos Iluminados de uma progressiva purificação humana desde círculos mais baixos da natureza animal até as esferas de pura inteligência. A hierarquia de círculos dos Iluminados – Movendo-se desde a “Igreja” para o “sínodo” e, por fim, para o centro areopagita – sugeria os círculos concêntricos do próprio universo. A chama ao centro do último e mais interno círculo era tomada como uma imagem do fogo interno do universo redor do qual a Terra e todos os outros planetas giravam. Ocultistas podem até não ter acreditado sempre nisso, mas sentiam jazer em algum secreto círculo interno a promessa tanto de redenção pessoal como de compreensão cósmica. Acrescia-se a essa crença tradicional numa sabedoria esotérica superior a nova promessa de libertação que vinha do romantismo alemão. O conceito de um círculo interno encantado de dimensão espacial ao desejo romântico de liberdade. A vida “do círculo era uma vida de libertação – libertando-se até das limitações corporais na esferas celestes, libertando a sociedade das amarras da tradição herdada. Ao que parece, Weishaupt foi o primeiro a utilizar o termo “círculo” para descrever um novo tipo de organização política que fazia reivindicações tanto de ordem moral quanto de ordem ideológica universal. Weishaupt descreveu o recrutamento de Iluminados no interior de lojas maçônicas em Munique como “o progresso do ⊙” na área política. Ele introduziu variantes destacadas em itálico da palavra latina (circul, circl) em seus escritos alemães para explicar a politização do movimento, que ele divulgava de “circulares” e “circulação”. Luchet descrevia o “círculo” como a principal célula da conspiração constituída por nove homens: o “comitê administrativo” para um tipo inteiramente novo de sociedade humana, no qual “cada membro de um círculo pertence igualmente a todos os outros” e “rompeu com todos laços que o ligavam à sociedade”. [Luchet, Essai, pp. 54, 67, 91; e os capítulos “Circles” e “Proofs used to Concentrate Illuminist member of a Circle”]. Os conservadores rosacruzes, que dominavam a corte prussiana após a ascensão de Frederico William 11 em 1786, criaram o seu próprio conceito rival de um Zirkel composto de nove homens. Disseminadores do ideal dos Iluministas tentaram repetidamente atacar os “círculos de corrupção” dos rosacruzes e/ou incorporá-los em seus próprios planos de “circulação” ocultista, Já vimos como Bonneville tinha por meta uma transformação global segundo o modelo dos Iluminados a ser feita através de “círculos mágicos” que irradiariam as idéias do seu “círculo social” ao centro para todo o CERCLE DU PEUPLE FRANC. Com o recesso das expectativas revolucionárias ao fim da década de 1790, Bonneville (e companheiros seus como Thomas Paine – como, antes dele, Weishaupt no exílio e Sylvain Maréchal) se apoiou na imagem de si mesmo como um Pitágoras: um intelectual exilado mas “relevante”, a construir uma nova irmandade de libertação para o futuro. Já antes da revolução, Bonneville fizera o ideal dos Iluminados remontar a Pitágoras, o qual “trouxe do Oriente o seu sistema de verdadeiros ensinamentos maçons para iluminar o Ocidente” 102 Após o fracasso de sua tentativa de “multiplicar o círculo social” 103 por meio de suas organizações do início dos anos 1790, Bonneville escreveu versos sobre “os números de Pitágoras”, 104 proclamando que “o homem é Deus” e “se tornará angélico” ao ampliar o círculo da irmandade universal: [Ó Círculo Social! Esperança cada vez mais doce, de um pacto geral, Dos povos oprimidos sua liga fraterna Jura libertação, inteira, universal.” Esperança sempre mais doce de um pacto geral, Tua irmandade de povos oprimidos Jurou libertação total, universal]. Thomas Paine, que viveu num ménage à trois com Bonneville e sua esposa de 1797 a 1802, acreditava que os druidas e os pitagóricos tinham se unido para oferecer uma alternativa ideológica ocultista ao cristianismo. Seu “Um ensaio sobre a origem da maçonaria”, escrito após seu retorno aos Estados Unidos (com a esposa de Bonneville) e imediatamente traduzido para francês por Bonneville, insistia em que a adoração natural do sol cultivada pelos druidas não havia desaparecido, mas apenas passado para dentro da maçonaria. No apogeu de sua influência em 1782, o Círculo Social começou a publicar novas obras cripto-revolucionárias do sumo-sacerdote do misticismo de Lyon Louis-Claude de Saint-Martin. Ele havia subitamente descoberto no misterioso caos da revolução a possibilidade de construir uma nova Jerusalém através de formas e números pitagoricos “Um radiante sol se desprendeu do firmamento e veio se instalar sobre Paris desde onde espalha sua luz universal”. O “novo homem” pode perceber essa luz ao contemplar os círculos concêntricos que convergem sobre um ponto dentro da chama de uma vela acesa, assim a se “reintegrar” com os elementos primais do ar, da terra e da água. À medida que o homem se encaminhar para o puro espírito, a democracia revolucionária se tornará “deocracia”. A imagem de Pitágoras como modelo heróico para todos os revolucionários foi desenvolvida em toda sua intensidade na grande obra de despedida de Sylvain Maréchal: suas monumentais, em seis volumes, Viagens de Pitágoras, de 1799. O Pitágoras de Maréchal incitava ao levante armado (“não com palavras, [mas com] arco e flecha”), invocando uma metáfora que viria a se tornar clássica na retórica revolucionária: É preciso apanhar o momento propício […] com a menor das centelhas se pode Iniciar um grande incêndio […] O ideal dos herdeiros de Pitágoras é: Compartilhar a posse de tudo, nada para você mesmo […] a igualdade da natureza […] a república dos iguais. O volume final das Viagens, ao listar supostas 3506 “leis de Pitágoras”, O volume final das Viagens, ao listar supostas 3506 “leis de Pitágoras”, Advertia em “Revolução” que […] a história de todo um povo muito frequentemente se encontra na vida de um punhado de homens. Os líderes das revoluções não eram militares, mas jornalistas-intelectuais, eram influenciados não tanto pelo racionalismo do Iluminismo francês, e sim mais pelo ocultismo do nascente romantismo alemão. A obra de Maréchal era amplamente distribuída no mundo de fala alemã; mas, profeticamente, era mais prezada no distante Império Russo, na atmosfera de vaga religiosidade e disperso reformismo sob o governo do Tzar Alexandre I. A começar em 1804, as Viagens de Maréchal passaram a aparecer em jornais governamentais oficiais em tradução russa ao ritmo de um volume por ano. Outro jornal russo publicou, paralelamente, 150 “regras de Pitágoras” tiradas do sexto volume de Maréchal. O agente russo de Maréchal era o protegido de Nicholas Novikov, um ocultista encarcerado cujo pseudônimo era “amante da verdade” e cujas reuniões secretas ao fim do século XVIII tinham dado início à kruzhkovshchina (mania de círculos da tradição radical moderna na Rússia. O sonho de uma organização pitagórica revolucionária animou o primeiro fluxo de atividade política juvenil no Império Russo depois da derrota de Napoleão. Um grupo de estudantes de Vilnius se reunia em encontros noturnos em locais de beleza natural para ouvir a sabedoria ocultista de um visitante “arquiiluminado” vindo de um círculo mais interno; e a tradição de “pitagóricos livres” se espraiou pelas regiões do Império onde havia influência polonesa. Na Ucrânia ocidental, três jovens russos formaram uma “sociedade de Pitágoras” em maio de 1818 e estabeleceram as “regras da seita pitagórica”. Propuseram os três clássicos círculos concêntricos o terceiro a representar a República de Platão. Desse grupo viria a surgir a Sociedade dos Eslavos Unidos, que objetivava realizar seu ideal helênico por todo o mundo eslavo e dera feição russa aos três graus de associação:, “irmãos, homens e boiardo”. Os primeiros radicais russos com frequência argumentavam em termos de leis de Pitágoras que concorriam entre si – alguns enfatizando as “duas leis de Pitágoras” que proibiam a propriedade privada e exigiam a posse comum; outros enfatizando a “regra” segundo a qual as armas e a amizade podiam tudo conquistar; outros insistindo na primazia da perfeição moral sobre a reforma legal: “Não criem leis para o povo; criem um povo para as leis”. Um dos primeiros grupos a alimentar a Revolta Dezembrista de 1825 foi o ainda misterioso Lâmpada Verde. Um de seus líderes escreveu para sua organização um retrato utópico de São Petersburgo trezentos anos no futuro, quando o tzarismo e a ortodoxia teriam, afinal, sido substituídos por formas pitagóricas. Há um templo circular com um altar plano e branco, feito de mármore, e um arco ao ar livre. A música é a única arte permitida. Uma fênix segurando um ramo de oliveira substituiu a decapitada águia de duas cabeças (as duas cabeças do selo imperial, que supostamente representavam o despotismo e a superstição). Alexander Puchkin, o maior poeta russo, referia-se à Lâmpada Verde como um círculo no qual a “amada igualdade se sentava à mesa redonda trajando um barrete frígio”. Embora não tão envolvido com círculos revolucionários ocultistas quanto o seu congênere polonês, Adam Mickiewicz, Puchkin compartilhava com ele o fascínio pela dedicação e sacrifício que pareciam poder ser encontrados somente em símbolo supremo do que uma canção maçônica russa da época chamava de um círculo mágico de jovens revolucionários. O “círculo” era, em suma, o símbolo supremo do que uma canção maçônica russa da época chamava de Aquelas verdades da santa lei A ti dadas pela Geometria. A maçonaria russa desenvolveu no mínimo dois conjuntos de símbolos geométricos como equivalentes às letras do alfabeto. No próximo artigo falaremos do triângulo

 
 
 

A gnose revolucionária A visão de mundo primitiva dos revolucionários como uma luta dualista entre as forças das trevas e da luz pode ter se originado na concepção dos seguidores de Weishaupt de que seu grupo de eleitos, de “iluminados”, travava uma batalha contra “os filhos das trevas”, o nome categórico que davam ao mundo exterior. O nome da ordem, no princípio, foi aparentemente indeterminado (Perfectibilistas chegou a ser usado e Abelhas, a ser considerado);5¹ mas o nome Iluministas foi escolhido, ao que parece, com base na imagem do sol que ilumina os círculos exteriores. No centro do círculo dos Areopagitas ficava acesa uma vela simbolizando a fonte solar de toda iluminação. Esse culto zoroastrista-maniqueu do fogo era de importância central para o ambiente em geral eclético de simbolismo dos Iluminados; o seu calendário era baseado no calendário persa, e não nos modelos clássico ou cristão.52 Pseudônimos e símbolos, cujo sentido esotérico era preciso nas lojas maçônicas, tornaram-se instrumentos deliberados de camuflagem para os Iluminados. Ingolstadt era ao mesmo tempo Elêusis e Éfeso; Munique era Atena; Viena, Roma. O nome do próprio Weishaupt na Ordem dos Iluminados, Espártaco, o líder de uma revolta de escravos na Roma antiga, serve de indicativo do seu comprometimento revolucionário; mas os seus principais colaboradores originais tomaram para si os nomes do grego Ajax e do egípcio Dánao, e outros nomes iam de Tamerlão a Confúcio, Os Iluminados tentaram utilizar a agitação e a confusão da maçonaria para os seus próprios objetivos. Weishaupt ingressou para uma loja maçônica de Munique em 1777; e tentou recrutar “comandos” (grupos de seguidores) dentro de lojas da capital bávara. Ao fim de 1780, a campanha de Weishaupt se espalhou por toda a Alemanha e às falsas ordens de cavalaria mais altas da maçonaria com a entrada de Weishaupt para o círculo próximo do Barão Adolph Knigge. Os Iluminados cooptaram a estrutura organizacional de seu rival maçônico conservador; no curso desse processo, adquiriram algo do charme misterioso que antes não possuíam em sua árida seita de intelectuais racionalistas. O Iluminismo também se tornou muito mais político. Weishaupt parece ter começado a ver a maçonaria como uma espécie de terreno intermediário de treino para os Iluminados – depois de terem entrado na ordem, mas antes que ingressassem nos círculos secretos mais internos. Assim, sob a liderança de Knigge, ele desenvolveu um sistema de três “classes” sucessivas que incorporava todos os “graus” existentes na maçonaria etapa preliminar a graus de uma classe superior dos Iluminados. As primeiras duas classes (a preparatória e a intermediária) incorporavam os três graus como tradicionais e os graus simbólicos mais altos da maçonaria, respectivamente. A terceira classe, a classe “administrativa”, era a mais original-e indicava, só pelo seu nome, as implicações políticas do projeto de Weishaupt para uma renovação moral da humanidade. Os seus primeiros dois graus, aqueles dos “pequenos mistérios” e dos “grandes mistérios” respectivamente, levavam a um terceiro e mais alto grau: o dos Areopagitas, onde todos os afinal irrelevantes simbolismos eram abandonados em prol do puro reino da liberdade e da igualdade. Nesse grau último totalmente secreto para os demais – , a “nobreza dos motivos”56 era total, o contrato social era restaurado e uma nova “política interior” proporcionaria o núcleo e o modelo para um mundo transformado. Essas divisões dentro da hierarquia iluminista eram descritas popularmente em termos eclesiásticos. As primeiras duas classes, que abrangiam todos os estágios maçônicos anteriores, eram a “Igreja”; os primeiros dois graus da classe administrativa, o “Sínodo”; e o último grau, o Areopagita, representava o homem liberto de toda a autoridade para viver em harmonia igualitária. Essa promessa de total libertação terrificou o mundo de fala alemã, e a ordem foi ridicularizada, perseguida e obrigada a se dissolver formalmente em 1785-1787. Weishaupt foi banido para Gotha e mantido sob vigilância. Mas a diáspora de uma ordem que chegara a ter 2.500 membros57 no seu auge no começo da década de 1780 gerou um impacto póstumo que foi muito maior, por toda a Europa, do que ordem alguma jamais conseguira durante sua efêmera vida como um movimento de intelectuais alemães. Na França, a publicação, pela polícia bávara, da correspondência de Weishaupt e de outros documentos, em 1787, provocou mais admiração que medo. O “Ensaio sobre a seita dos Iluminados”, publicado no ano seguinte pelo irmão de um ex-funcionário da corte prussiana, provocou mais perplexidade que horror. Nem mesmo a imaginação erótica do Palais-Royal teria sido capaz de aperfeiçoar a descrição de um suposto rito de iniciação dos Iluminados: marcas eram feitas sobre o corpo nu do candidato deitado. Seus testículos eram amarrados com uma fita cor de rosa e carmesim; e ele renunciava a quaisquer outros laços humanos antes que cinco fantasmas de capuz branco, com estandartes ensanguentados e postados à frente de uma “imagem colossal”, aparecessem numa fogueira. Por fim, as amarras e marcas eram removidas, e ele era aceito à ordem superior ao beber sangue diante de sete velas pretas. O livro que teve papel decisivo na popularização do ideal dos Iluminados foi a monarquia prussiana sob o governo de Frederico, o Grande, do Conde de Mirabeau, publicado em 1788. Com boa extensão sua escrita por um ex-membro dos Iluminados, Jakob Mauvillon, a obra de Mirabeau distinguia os Iluminados racionalistas dos ocultistas “místicos”, saudando os primeiros como líderes de um movimento cujo “grande objetivo” era “a melhoria do atual sistema de governos e legislações”. Mirabeau tirou muito de seu novo e abrangente conceito de “revolução” diretamente dos Iluminados; é quase quase certo que transmitiu algo desse ideal aos seus influentes protegidos, Camille Desmoulins e Etienne Dumont (o amigo e protetor de Thomas Paine em Londres), o qual depois foi seu secretário pessoal. Nicholas Bonneville, contudo, é que foi o canal decisivo de influência dos Iluminados. Foi convertido às idéias dos Iluminados durante a primeira de suas duas viagens a Paris (em junho de 1787) por um destacado colaborador de Weishaupt na última fase política do Iluminismo, Christian Bode. Amigo de Lessing e alguém bem-sucedido na tarefa de sustar a inclinação dos franceses ao ocultismo conservador, Bode aparentemente converteu Bonneville (à época trabalhando como advogado no Parlamento) a uma fé que combinava símbolos dos Iluminados e ideias radicais de soberania popular. Bonneville via a libertação popular como uma espécie de ingresso em massa, de olhos vendados, num santuário dos Iluminados: “Retirem a venda que cobre os olhos do Povo […]. Ponham a mão do Povo sobre o véu [.. ele em breve será rasgado”. Acusado por contemporâneos de tornar “o título de cidadão um grau de iniciação dos Iluminados”, Bonneville respondeu, à maneira dos Iluminados, que o homem integral é Deus” e que do centro do círculo social “emanará um círculo de luz que nos revelará o que jaz escondido no caos simbólico das inovações maçônicas”.64 Em seu extenso estudo de 1788, A expulsão dos jesuítas da maçonaria, Bonneville desenvolveu a idéia básica de Weishaupt e Bode de que a maçonaria tinha sido infiltrada pelos jesuítas, os quais deveriam ser expulsos por uma nova ordem que se opusesse aos tiranos e aos padres. Observamos que os jesuítas estavam buscando se infiltrar na maçonaria para destruir essa sociedade por dentro, na obra Les jésuites percebe-se isto, foi quase imediatamente publicado em tradução alemã de Bode, o qual, por sua vez, impressionara Friedrich Schiller com a história de uma conspiração jesuítica contra o Iluminismo (v.a carta de Schiller de 10 de setembro de 1787, “Die jetzige Anarchie der Aufklärung wäre hauptsächlich der Jesuiten Werk”, Grassl, p. 290). Devido a complexidade do tema “a infiltração dos jesuítas na maçonaria”, iremos tratar deste tema à parte em outras postagens.

 
 
 

O ambiente da maçonaria Continuando nosso estudo sobre a relação maçonaria/Revolução: Vamos verificar a abordagem da organização revolucionária de Buonarroti, verificasse que esta fosse muito além de qualquer modelo maçônico, ela foi claramente influenciada pelo período de cinco anos de imersão em lojas maçônicas que ele passou em Genebra. Tão grande, na verdade, foi o impacto da maçonaria no período revolucionário, que alguma compreensão do ambiente social maçônico parece um ponto de partida essencial para qualquer investigação séria das raízes ocultistas da tradição revolucionária. A maçonaria transmitiu à tradição revolucionária já em sua nascença a metáfora essencial de que os revolucionários se valeram para compreender a sua própria missão em meados do século XIX: a metáfora de um arquiteto construindo uma nova e melhor estrutura para a sociedade humana. Os maçons acreditavam estar recriando em suas sociedades fraternas a condição “natural” de cooperação que prevalecera em meio aos pedreiros (mason deu origem a palavra maçon que significa pedreiro) artesãos do passado que moldaram as pedras de uma construção comum. A evolução de cada “irmão”, desde o estágio de aprendiz, passando pelo de companheiro e, por fim, alcançando o de mestre, requeria realizações mais filosóficas e filantrópicas do que reputação social. A “franco-maçonaria era, pois, matéria de meritocracia moral-coisa implicitamente subversiva em qualquer sociedade estática baseada em hierarquia tradicional. Homens inteligentes e ambiciosos do século XVIII frequentemente vivenciaram dentro de lojas maçônicas uma espécie de irmandade entre iguais que não se poderia encontrar na sociedade aristocrática externa. Os rituais que davam acesso a cada novo grau de associação não eram, como às vezes se sugere, iniciações infantis. Eram impressionantes ritos de passagem a novos tipos de associação, com a promessa de acesso a verdades mais elevadas da Natureza tão logo a venda fosse removida dos olhos no cômodo interior da loja. Cada noviço deveria buscar se tornar um pedreiro “livre” e “aperfeiçoado” capaz de ler os planos do “Divino Arquiteto” para “reconstruir o templo de Salomão” e de remoldar a ordem secular mediante a força moral. Era mais acessível a mobilidade ascendente propiciada pela fraternidade ritualizada da maçonaria do que aquela que se encontraria no restante da sociedade. O título maçom de “irmão” materializava na França parte da mescla de burguesia e aristocracia sugerida na Inglaterra pelo uso do invejado termo “cavalheiro”[ pesquisa de D. Ligou, “Um source important de l’histoire du XVIIIe siècle. Le fond maçonnique de la Bibliothèque Nationale”, Actes du 89 Congrès National des Societés Savantes (Section d’histoire), 1965, p. 38]. Nos meios maçônicos, pessoas normalmente conservadoras poderiam cultivar seriamente a possibilidade de uma Utopia [J. Servier, “Utopie et franc-maçonnerie au XVIII siècle”, Annales Historiques, 1969, jul.-set., pp. 409-413]; em outros artigos poderemos verificar a questão dos laços da maçonaria com a revolução. – ou pelo menos de uma alternativa ao ancien régime. Filipe de Orléans era o chefe titular da maçonaria francesa (a Grande Oriente); e muitos dos frequentadores pró-revolucionários dos cafés do Palais-Royal eram seus “irmãos” maçons. Nos primeiros dias da revolução, a maçonaria proporcionou grande parte dos principais simbolismos e rituais – a começar com a recepção maçônica sob uma “abóbada de espadas” feita ao rei no Hotel de Ville três dias antes da queda da Bastilha [Sobre o uso do voûte d’acier no 17 de julho, v. J. Palou, La franc-maçonnerie, 1972, p.187]. Compreenda-se, contudo, que a maior parte dos maçons franceses antes da revolução “não tinham sido revolucionários, nem mesmo reformistas, nem mesmo descontentes” [D. Mornet, Les origines intelectuelles de la révolution française (1715-1787), 1954, p. 375; vejam-se comentários às pp. 357-387; bibliografia às pp. 523-525; e, fora da França, veja-se Billington, Icon, A. Mellor, Les mythes maçonniques (1974), também minimiza a influência maçônica, embora reconhecendo vagamente a influência do renascimento ocultista no movimento revolucionário pp. 712-714] e, mesmo durante a revolução, a própria maçonaria permaneceu politicamente polimorfa: “Qualquer elemento social e qualquer tendência política poderia ‘se tornar maçônico’ caso assim quisesse”. Mas a maçonaria propiciava um refúgio rico e relativamente não tradicional para os novos símbolos nacionais (moedas, canções, cartazes, selos), as novas formas de tratamento (tu, frère, vivat!) e os novos modelos de organização civil, particularmente fora de Paris [No Novo Mundo, onde os elos entre as organizações maçônicas e as revolucionárias eram particularmente fortes, partidos revolucionários adversários às vezes adotavam nomes de ritos adversários. No México, por exemplo, escoceses (“centralistas”pró-ingleses rito escocês) combatiam os yorquinos (federalistas oriundos do rito de York, criado pelo primeiro embaixador norte-americano, Joel Poinsett). [Ver A. Bonner, “Mexican Pamphlets in the Bodlein Library”, The Bodleian Library Record, 1970, abr., pp. 207-208]. Mais relevante para a nossa história, fato é que a maçonaria foi propositalmente utilizada por revolucionários no início do século XIX como um modelo e como um espaço para recrutamento para os seus primeiros experimento conspiratórios de organização política. Buonarroti agia de maneira típica ao adotar os nomes de duas lojas maçônicas, “perfeita igualdade” e “perfeita união”, para os seus dois primeiros grupos em Genebra. Essas lojas tinham surgido na década de 1760 em oposição, respectivamente, à monarquia absolutisra e aos privilégios aristocráticos. Buonarroti elaborou seu primeiro projeto dos “sublimes mestres perfeitos” em 1806-1813, quando era membro ativo na loja da “perfeita igualdade” em Genebra[O. Karmin, “Notes sur la loge et le chapitre, La Perfaite Égalité la Révolution Française, vol. XII, 1917, jul.-dez., pp. 314-324], de Genève”, Revue Historique de, tendo defnido a “perfeita igualdade” como seu objetivo. As lojas da “perfeita união” influenciaram a organização revolucionária União, fundada em 1813-1814 em Grenoble por Joseph Rey, um futuro colaborador de Buonarroti, que nesse período visitava a cidade.

 
 
 
CONTATO
Avalie-nosRuimNão muito bomBomMuito bomÓtimoAvalie-nos

Agradecemos pelo envio !

© 2019 - 2023. INTERVENÇÃO DIVINA - Criado por Divino Design.

Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

bottom of page
ConveyThis