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Fr. Raniero Cantalamessa, ofmcap

Atualmente a cruz já não se apresenta aos fiéis em seu aspecto de sofrimento, de dura necessidade da vida ou inclusive como um caminho para seguir a Cristo, mas em seu aspecto glorioso, como motivo de honra, não de pranto. Antes de tudo, digamos algo sobre a origem desta festa. Ela recorda dois acontecimentos distantes no tempo. O primeiro é a inauguração, por parte do imperador Constantino, de duas basílicas, uma no Gólgota, outra no sepulcro de Cristo, no ano 325. O outro acontecimento, no século VII, é a vitória cristã contra os persas, que levou à recuperação das relíquias da cruz e sua devolução triunfal a Jerusalém. Contudo, com o passar do tempo, a festa adquiriu um significado autônomo. Converteu-se em uma celebração gloriosa do mistério da cruz, que, sendo instrumento de ignomínia e de suplício, Cristo transformou em instrumento de salvação.

As leituras refletem esta perspectiva. A segunda leitura volta a propor o célebre hino da Carta aos Filipenses, onde se contempla a cruz como o motivo da maior «exaltação» de Cristo: «aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor». Também o Evangelho fala da cruz como do momento no qual «o Filho do homem foi levantado para que todo o que creia tenha por Ele vida eterna».

Houve, na história, dois modos fundamentais de representar a cruz e o crucifixo. Os chamamos, por comodidade, de o modo antigo e o moderno. O modo antigo, que se pode admirar nos mosaicos das antigas basílicas e nos crucifixos da arte romântica, é glorioso, festivo, cheio de majestade. A cruz, frequentemente sozinha, sem crucifixo, aparece projetada em um céu estrelado, e sob ela a inscrição: «Salvação do mundo, salus mundi», como em um célebre mosaico de Ravena.

Nos crucifixos de madeira da arte românica, este tipo de representação se expressa no Cristo que reina com vestes reais e sacerdotais a partir da cruz, com os olhos abertos, o olhar para a frente, sem sombra de sofrimento, mas radiante de majestade e vitória, já não coroado de espinhos, mas de pedras preciosas. É a tradução do versículo do salmo: «Deus reinou do madeiro» (regnavit a ligno Deus). Jesus falava de sua cruz nestes mesmos termos: como o momento de sua «exaltação»: «E quando eu for levantado da terra, atrairei todos para mim» (Jo 12, 32).

A forma moderna começa com a arte gótica e se acentua cada vez mais, até converter-se no modo ordinário de representar o crucifixo. Um exemplo é a crucifixão de Matthias Grunewald no altar de Isenheim. As mãos de os pés se retorcem como arbustos ao redor dos cravos, a cabeça agoniza sob um feixe de espinhos, o corpo coberto de chagas. Igualmente, os crucifixos de Velázquez e de Dali e de muitos outros pertencem a este tipo.

Os dois modos evidenciam um aspecto verdadeiro do mistério. A forma moderna-dramática, realista, pungente – representa a cruz vista, por assim dizer, por diante, «de cara», em sua crua realidade, no momento em que se morre nela. A cruz como símbolo do mal, do sofrimento do mundo e da tremenda realidade da morte. A cruz se representa aqui «em suas causas», isto é, naquilo que, habitualmente, a ocasiona: o ódio, a maldade, a injustiça, o pecado.

O mundo antigo evidenciava não as causas, mas os efeitos da cruz; não aquilo que produz a cruz, mas o que é produzido pela cruz: reconciliação, paz, glória, segurança, vida eterna. A cruz que Paulo define como «glória» ou «honra» do crente. A festividade de 14 de setembro chama-se «exaltação» da cruz porque celebra precisamente este aspecto «exaltante» da cruz.

Deve-se unir à forma moderna de considerar a cruz, a antiga: redescobrir a cruz gloriosa. Se no momento em que se experimentava a provação, podia ser útil pensar em Jesus cravado na cruz entre dores e espasmos, porque isto fazia que o sentíssemos próximo a nossa dor, agora há que pensar na cruz de outro modo. Explico com um exemplo. Perdemos recentemente uma pessoa querida, talvez depois de meses de grande sofrimento. Pois bem: não há que continuar pensando nela como estava em seu leito, em tal circunstância, em tal outra, a que ponto se havia reduzido no final, o que fazia, o que dizia, talvez torturando a mente e o coração, alimentando inúteis sentimentos de culpa. Tudo isto terminou, já não existe, é irreal; atuando assim não fazemos mais que prolongar o sofrimento e conservá-la artificialmente com vida.

Há mães (não digo para julgá-las, mas para ajudá-las) que depois de terem acompanhado durante anos um filho em seu calvário, quando o Senhor o chama para Si, rechaçam viver de outra forma. Em casa, tudo deve permanecer como estava no momento da morte do filho; tudo deve falar dele; visitas contínuas ao cemitério. Se há outras crianças na família, devem adaptar-se a viver também neste clima permeado de morte, com grave dano psicológico. Estas pessoas são as que mais necessitam descobrir o sentido da festa de 14 de setembro: a exaltação da cruz. Já não és tu que leva a cruz, mas a cruz que te leva; a cruz que não te arrebata, mas que te ergue.

Há que pensar na pessoa querida como é agora que “tudo terminou”. Assim faziam com Jesus os artistas antigos. Contemplavam-no como é agora, como está: ressuscitado, glorioso, feliz, sereno, sentado no trono de Deus, com o Pai que “enxugou toda lágrima de seus olhos” e lhe deu “todo poder nos céus e na terra”. Já não entre os espasmos da agonia e da morte.

Não digo que se possa sempre dominar o próprio coração e impedir que sangue com a recordação do sucedido, mas há que procurar que impere a consideração de fé. Senão, para que serve a fé? [Traduzido por Zenit]

 
 
 

Comentário do Pe. Cantalamessa sobre a liturgia do próximo domingo

ROMA, sexta-feira, 5 de setembro de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap. – pregador da Casa Pontifícia – sobre a Liturgia da Palavra do próximo domingo.

* * *

XXIII Domingo do Tempo Comum

Ezequiel 33, 7-9; Romanos 13, 8-10; Mateus 18, 15-20

Se teu irmão chegar a pecar…

No Evangelho deste domingo lemos: «Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: ‘Se teu irmão chegar a pecar, vai e repreendê-o, a sós tu e ele. Se te escutar, terás ganhado um irmão’». Jesus fala de toda culpa; não restringe ao campo apenas do que se comete contra nós. Neste último caso, de fato, é praticamente impossível distinguir se o que nos move é o zelo pela verdade ou nosso amor próprio ferido. Em todo caso, seria mais uma autodefesa que uma correção fraterna. Quando a falta é contra nós, o primeiro dever não é a correção, mas o perdão.

Por que Jesus diz: «repreende-o a sós»? Antes de tudo, por respeito ao bom nome do irmão, à sua dignidade. O pior seria pretender corrigir um homem na presença da sua esposa, ou uma mulher na presença do seu marido; um pai diante de seus filhos, um professor na presença dos seus alunos, um superior diante dos seus subordinados. Isto é, na presença das pessoas cujo respeito e estima para alguém importa mais. O assunto se converte imediatamente em um processo público. Será muito difícil que a pessoa aceite de bom grado a correção.

Ele diz «a sós tu e ele» também para dar à pessoa a possibilidade de defender-se e explicar sua própria ação com toda liberdade. Muitas vezes, com efeito, aquilo que para um observador externo parece uma culpa, na intenção de quem a cometeu não o é. Uma explicação sincera dissipa muitos mal-entendidos. Mas isso deixa de ser possível quando o tema é conhecido por muitos.

Quando por qualquer motivo não é possível corrigir fraternalmente, a sós, na presença da pessoa que errou, há algo que se deve evitar absolutamente: a divulgação, sem necessidade, da culpa do irmão, falar mal dele ou inclusive caluniá-lo, dando por provado aquilo que não o é ou exagerando a culpa. «Não faleis mal uns dos outros», diz a Escritura (Tiago 4, 11). A fofoca não é menos mal ou menos grave só porque agora é chamada de «gossip».

Uma vez uma mulher foi se confessar com São Felipe Néri, acusando-o de ter falado mal de algumas pessoas. O santo a absolveu, mas lhe pôs uma estranha penitência. Disse-lhe que fosse para casa, pegasse uma galinha e voltasse onde ele estava, depenando-a pouco a pouco ao longo do caminho. Quando esteve novamente diante dele, ele lhe disse: «Agora volta para casa e recolhe uma por uma das penas que deixaste cair quando vinhas para cá». A mulher lhe mostrou a impossibilidade: o vento as havia dispersado. Aí é onde queria chegar São Felipe. «Vês – disse-lhe – que é impossível recolher as penas uma vez que o vento as levou? Da mesma forma é impossível retirar murmurações e calúnias, uma vez que saíram da boca.»

Voltando ao tema da correção, deve-se dizer que nem sempre depende de nós o bom resultado ao fazer uma correção (apesar de nossas melhores disposições, o outro pode não aceitar, obstinar-se); contudo, depende sempre e exclusivamente de nós o bom resultado… ao receber uma correção. De fato, a pessoa que «cometeu a culpa» bem poderá ser eu e quem corrige ser o outro: o marido, a mulher, o amigo, o irmão de comunidade ou o padre superior.

Em resumo, não existe só a correção ativa, mas também a passiva; não só o dever de corrigir, mas também o dever de deixar-se corrigir. Mais ainda: aqui é onde se vê se alguém amadureceu o bastante como para corrigir os demais. Quem quer corrigir o outro deve estar disposto também a deixar-se corrigir. Quando vês alguém receber uma observação e responder com simplicidade: «Tens razão, obrigado por ter me dito isso!», admira-o: estás diante de um autêntico homem ou de uma autêntica mulher.

O ensinamento de Cristo sobre a correção fraterna deveria ser lido sempre junto ao que Ele disse em outra ocasião: «Como olhas o cisco no olho do teu irmão e não vês a trave que há em teu? Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa que tire o cisco que há em teu olho’, não vendo tu mesmo a trave que há no teu?» (Lc 6, 41s.).

O que Jesus nos ensinou sobre a correção pode ser também muito útil quanto à educação dos filhos. A correção é um dos deveres fundamentais do progenitor: «Que filho há a quem seu pai não corrige?» (Hb 12, 7); e também: «Endereça a planta enquanto está terna, se não queres que cresça irremediavelmente torcida». A renúncia total a toda forma de correção é um dos piores serviços que se pode fazer aos filhos e hoje infelizmente isso é freqüentíssimo.

Só se deve evitar que a própria correção se transforme em um ato de acusação ou em uma crítica. Ao corrigir, deve-se circunscrever a reprovação ao erro cometido, não generalizá-la, rejeitando toda a pessoa e sua conduta. Mais ainda: aproveitar a correção para pôr em primeiro plano todo o bem que se reconhece no jovem e o muito que se espera dele, de maneira que a correção se apresente mais como um estímulo que como uma desqualificação. Este era o método que São João Bosco usava com seus jovens.

Não é fácil, em casos individuais, compreender se é melhor corrigir ou deixar passar, falar ou calar. Por isso, é importante levar em conta a regra de ouro, válida para todos os casos, que o Apóstolo dá na segunda leitura: «Com ninguém tenhais outra dívida que a do amor mútuo… O amor não faz mal ao próximo». Agostinho sintetizou tudo isso na máxima «Ama e faze o que queres». É preciso garantir antes de tudo que haja no coração uma disposição fundamental de acolhida para da pessoa. Depois, o que se decida fazer, seja corrigir ou calar, estará bem, porque o amor «jamais causa dano a ninguém».

 
 
 

Por Papa Bento XVI Tradução: José Caetano Fonte: Zenit/Vaticano

Caros irmãos e irmãs,

Hoje eu gostaria de falar de São Bento, Fundador do monasticismo ocidental, e também padroeiro de meu pontificado. Começo com uma palavra de São Gregório Magno, que escreve de São Bento: «O homem de Deus que brilhou sobre esta terra com tantos milagres não brilhou menos pela eloqüência com a qual soube expor sua doutrina» (Dial. II, 36). Estas palavras foram escritas pelo grande Papa no ano 592; o santo monge estava morto há apenas 50 anos e estava ainda vivo na memória das pessoas e sobretudo na florescente Ordem religiosa por ele fundada. São Bento de Núrcia, com sua vida e sua obra, exerceu uma influência fundamental sobre o desenvolvimento da civilização e da cultura européia. A fonte mais importante sobre a vida dele é o segundo livro dos Diálogos de São Gregório Magno. Não é uma biografia no sentido clássico. Segundo as idéias de seu tempo, ele quer ilustrar, mediante o exemplo de um homem concreto – precisamente de São Bento –, a subida aos montes da contemplação, como pode ser realizada por quem se abandona a Deus. Então nos dá um modelo da vida humana como subida ao vértice da perfeição. São Gregório Magno relata também, neste livro dos Diálogos, muitos milagres realizados pelo santo, e também aqui não quer simplesmente relatar alguma coisa extraordinária, mas demonstrar como Deus, admoestando, ajudando e também punindo, intervém nas situações concretas da vida do homem. Quer mostrar que Deus não é uma hipótese distante posicionada na origem do mundo, mas está presente na vida do homem, de todo homem.

Esta perspectiva do «biógrafo» se explica também à luz do contexto geral de seu tempo: entre os séculos V e VI, o mundo era devastado rapidamente por uma tremenda crise de valores e de instituições, causada pela queda do Império Romano, pelas invasões dos novos povos e pela decadência dos costumes. Com a apresentação de São Bento como «astro luminoso», Gregório queria indicar nesta situação, justamente aqui nesta cidade de Roma, a via de escape da «noite escura da história» (cf. João Paulo II, Insegnamenti, II/1, 1979, p. 1158). De fato, a obra do santo e, de modo particular, sua Regra, revelaram-se portadoras de um autêntico fermento espiritual, que penetrou no curso dos séculos, muito além dos confins de sua pátria e de seu tempo, o rosto da Europa, suscitando depois da queda da unidade política criada pelo império romano uma nova unidade espiritual e cultural, a da fé cristã partilhada pelos povos do continente. Nasceu justamente assim a realidade que nós chamamos de «Europa».

O nascimento de São Bento ocorreu por volta do ano 480. Provinha, assim disse São Gregório, «ex provincia Nursiae» – da região da Núrsia. Seus progenitores logo o mandaram para realizar os estudos em Roma. Ele, porém, não se firmou muito tempo na Cidade Eterna. Como explicação plenamente acreditável, Gregório indica o fato de que o jovem Bento estava incomodado pelo estilo de vida de muitos de seus colegas de estudos, que viviam de modo dissoluto, e não queria cair nos mesmos erros. Queria agradar a Deus somente; «soli Deo placere desiderans» (II Dial., Prol 1). Assim, ainda antes da conclusão de seus estudos, Bento deixou Roma e se retirou na solidão dos montes ao leste de Roma. Depois de uma primeira estadia no vilarejo de Effide (hoje: Affile), onde por certo período se associou a uma «comunidade religiosa» de monges, fez-se eremita na distante Subiaco. Lá viveu por três anos completamente só em uma gruta que, a partir da Alta Idade Média, constitui o «coração» de um mosteiro beneditino chamado «Sacro Speco». O período em Subiaco, um período de solidão com Deus, foi para Bento um tempo de amadurecimento. Lá devia suportar e superar as três tentações fundamentais de todo ser humano: a tentação da auto-afirmação e do desejo de pôr a si mesmo no centro, a tentação da sensualidade e, por fim, a tentação da ira e da vingança. Era, de fato, convicção de Bento que, só depois de ter vencido estas tentações, ele poderia dizer aos outros uma palavra útil para sua situação de necessidade. E assim, pacificada sua alma, estava em condições de controlar plenamente os impulsos do eu, para ser assim um criador de paz em torno de si. Só então decide fundar os primeiros mosteiros no vale do Anio, vizinho a Subiaco.

No ano de 529 Bento deixou Subiaco para estabelecer-se em Montecassino. Alguns explicaram esta transferência como uma fuga diante das intrigas de um invejoso eclesiástico local. Mas esta tentativa de explicação se revelou pouco convincente, já que a morte inesperada dele não induz Bento a retornar (II Diál. 8). Na verdade, ele se impôs esta decisão porque havia entrado em uma nova fase de seu amadurecimento interior e de sua experiência monástica. Segundo Gregório Magno, o êxodo do remoto vale do Anio para Montecassino – uma altura que, dominando a vasta planície circunstante, é visível de longe – reveste um caráter simbólico: a vida monástica no ocultamento tem sua razão de ser, mas um mosteiro tem também uma finalidade pública na vida da Igreja e da sociedade: deve dar visibilidade à fé como força de vida. De fato, quando, em 21 de março de 547, Bento conclui sua vida terrena, deixou com sua Regra e com a família beneditina por ele fundada um patrimônio que produziu nos séculos transcorridos, e produz ainda agora, fruto no mundo inteiro.

Em todo o segundo livro dos Diálogos, Gregório nos ilustra como a vida de São Bento estava imersa em uma atmosfera de oração, principal fundamento de sua existência. Sem a oração não há experiência de Deus. Mas a espiritualidade de Bento não era uma interioridade fora da realidade. Na inquietude e na confusão de seu tempo, ele vivia sob o olhar de Deus e justamente assim não perde mais de vista os deveres da vida cotidiana e o homem com suas necessidades concretas. Vendo Deus, entende a realidade do homem e sua missão. Na sua Regra, ele qualifica a vida monástica como «uma escola do serviço do Senhor» (Prol. 45) e pede a seus monges que «à Obra de Deus [isto é, ao Ofício Divino ou à Liturgia das Horas] não se anteponha nada» (43, 3). Sublinha, porém, que a oração é em primeiro lugar um ato de escuta (Pról. 9-11), que deve pois traduzir-se em ação concreta. «O Senhor espera que nós respondamos todo dia, com fatos, a seus santos ensinamentos», ele afirma (Pról. 35). Assim, a vida do monge se torna uma simbiose fecunda entre ação e contemplação, «a fim de que em tudo Deus seja glorificado» (57, 9). Em contraste com uma auto-realização fácil e egocêntrica, hoje mesmo exaltada, o primeiro e irrenunciável empenho do discípulo de São Bento é a sincera busca de Deus (58, 7), sobre o caminho traçado por Cristo humilde e obediente (5, 13), ao amor do qual ele não deve antepor qualquer coisa (4, 21; 72, 11); e justamente assim, no serviço ao outro, torna-se homem do serviço e da paz. No exercício da obediência transformada em ato com uma fé animada pelo amor (5,2), o monge conquista a humildade (5,1), à qual a Regra dedica um capítulo inteiro (7). Deste modo, o homem se torna sempre mais conforme a Cristo e alcança a verdadeira auto-realização como criatura à imagem e semelhança de Deus.

À obediência do discípulo deve corresponder a sabedoria do Abade, que no mosteiro assume «o lugar de Cristo» (2,2; 63,13). Sua figura, delineada sobretudo no segundo capítulo da Regra, com um perfil de espiritual beleza e de exigente empenho, pode ser considerada como um auto-retrato de Bento, pois – como escreve Gregório Magno – «o Santo não pode de modo algum ensinar diversamente de como viveu» (Diál. II, 36). O Abade deve ser ao mesmo tempo um tenro pai e também um severo mestre (2, 24), um verdadeiro educador. Inflexível contra os vícios, é, porém, chamado sobretudo a imitar a ternura do Bom Pastor (27,8), a «ajudar muito mais que dominar» (64,8), a «acentuar mais com os fatos que com as palavras tudo o que é bom e santo» e a «ilustrar os divinos mandamentos com seu exemplo» (2,12). Para estar em grau de decidir responsavelmente, o Abade também deve ser alguém que escuta «o conselho dos irmãos» (3,2), porque «mesmo Deus revela ao mais jovem a solução melhor» (3,3). Esta disposição torna surpreendentemente moderna uma Regra escrita há quase quinze séculos! Um homem de responsabilidade pública, e também em pequenos âmbitos, deve sempre ser também um homem que sabe escutar e sabe aprender do que escuta.

Bento qualifica a Regra como «mínima, escrita só para o início» (73,8); na verdade, porém, essa oferece indicações úteis não só aos monges, mas também a todos aqueles que buscam um guia em seu caminho para Deus. Pela sua medida, sua humanidade e seu sóbrio discernimento entre o essencial e o secundário na vida espiritual, ela pode manter sua força iluminadora até hoje. Paulo VI, proclamando em 24 de outubro de 1964 São Bento como padroeiro da Europa, queria reconhecer a obra maravilhosa desenvolvida pelo Santo mediante a Regra para a formação da civilização e da cultura européia. Hoje a Europa – saída há pouco de um século profundamente ferido por duas guerras mundiais e depois da queda das grandes ideologias reveladas como trágicas utopias – está em busca de sua identidade. Para criar uma unidade nova e duradoura, são certamente importantes os instrumentos políticos, econômicos e jurídicos, mas ocorre também suscitar uma renovação ética e espiritual que chegue às raízes cristãs do continente, ou então não se pode reconstruir a Europa. Sem esta seiva vital, o homem fica exposto ao perigo de sucumbir à antiga tentação de querer ser redimido por si mesmo – utopia que, de uma forma diversa, na Europa do século passado causou, como revelou o Papa João Paulo II, «uma volta sem precedentes na atormentada história da humanidade» (Insegnamenti, XIII/1, 1990, p. 58). Buscando o verdadeiro progresso, escutemos também hoje a Regra de São Bento como uma luz para nosso caminho. O grande monge permanece sendo um verdadeiro mestre de cuja escola podemos aprender a arte de viver o verdadeiro humanismo.

 
 
 
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