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Índice

  1. 1. Branqueamento da responsabilidade por falsas profecias

  2. 1.1 Exemplo 1: A falsa profecia de 1914

  3. 1.2 Exemplo 2: A falsa interpretação das “autoridades superiores”

  4. 1.3 Exemplo 3: Um tempo de “provas e purificação”

  5. 1.4 Exemplo 4: A falsa profecia de 1925

  6. 1.5 Exemplo 5: A falsa profecia de 1975: ‘A culpa foi vossa’

  7. 1.6 Exemplo 6: O uso da terceira pessoa

  8. 1.7 Exemplo 7: A “libertação de Babilônia” em 1919 e as “impurezas”:

  9. 1.7.1 Autoridades superiores

  10. 1.7.2 Desenvolvimento do caráter

  11. 1.7.3 Feriados pagãos

  12. 1.7.4 Cruz

  13. 1.7.5 Uso do nome Jeová

  14. 1.7.6 Democracia

  15. 2. Publicações antigas e “verdades estabelecidas” que deixaram de o ser

  16. 2.1 Estudos das Escrituras

  17. 2.2 O Mistério Consumado

  18. 2.2.1 Falsas previsões

  19. 2.2.2 Interpretações pitorescas

  20. 2.2.3 Beemote = máquina a vapor

  21. 2.2.4 Leviatã = locomotiva a vapor

  22. 2.2.5 Miguel e anjos = Papa e Bispos

  23. 2.2.6 O profeta Naum e o comboio

  24. 2.3 Outras “verdades” que caducaram

  25. 2.4 O acesso às publicações antigas

  26. 2.5 ‘Os cristãos primitivos também cometiam erros’

  27. 3. Apenas a “organização” sobreviverá à ‘grande tribulação’

  28. 4. Ideias e atitudes “independentes”

  29. 5. Bibliografia

Adaptado de uma mensagem enviada por Odracir para a mailing list testemunhas em 1999-12-02. Nas citações que aparecem nesta página, parte do texto foi colocado em letra maiúscula para ênfase. Algumas edições de A Sentinela citadas aqui, especialmente as mais antigas, foram publicadas inicialmente em lingua inglesa, podendo não haver a exata correspondência com a data da edição em português. Sobre o tema piramidologia, abordado neste artigo, recomendamos a leitura de A Sentinela de 1/1/2000, onde a Sociedade VIU-SE OBRIGADA a fazer um reconhecimento mais explícito e pormenorizado do assunto, após o mesmo vir a conhecimento público.

1. Branqueamento da responsabilidade por falsas profecias

1.1 Exemplo 1: A falsa profecia de 1914

No ano de 1889, no livro “The Time Is At Hand”, páginas 98 e 99, Charles Taze Russell declara:

“Na verdade, é esperar grandes coisas AFIRMAR, COMO O FAZEMOS, que dentro dos próximos 26 anos [1914/1915], TODOS os atuais governos serão DERRUBADOS e dissolvidos; porém, estamos vivendo em um tempo especial e peculiar, o “Dia de Jeová”, no qual os assuntos chegarão a uma conclusão RÁPIDA…. Em vista da forte evidência bíblica concernente aos Tempos dos Gentios, consideramos uma VERDADE ESTABELECIDA que o FINAL DEFINITIVO dos reinos deste mundo e o pleno estabelecimento do Reino de Deus se realize pelo fim de 1914 A.D.” (o maiúsculo é meu)

Tais afirmações referiam-se às previsões sobre os anos de 1874, 1878 e 1914, iniciando-se a ‘parousia’ de Cristo na primeira data (sua ‘posse’ como Rei na segunda data). É importante frisar que tais cálculos cabalísticos começaram com o inglês John Acquila Brown, no ano de 1823 — 29 anos antes do nascimento de Russell, 47 anos antes da formação do grupo dele e mais de meio século (54 anos) antes da publicação do livro que ele financiou, “Os Tres Mundos”. Diversas outras obras da organização reafirmaram tais cálculos como algo além de simples opinião, chamando-os de “datas de Deus” e, em alguns casos, questionando a fé ou a vigilância de quem deles duvidava — “Thy Kingdom Come” (1891), “Watchtower” de 15/1/1892, de 1/7/1894 e de 1/10/1907.

Em 1916, dois anos após o fracasso daquelas previsões e do desapontamento — desnecessário, diga-se de passagem — de Russell e de seus seguidores, os quais ficaram expostos ao escárnio público, o que afirmou ele sobre seu erro, agora impossível de ser negado? Deixemos que o próprio Russell fale:

“Este foi um erro natural no qual se pode cair, mas O SENHOR O INVALIDOU para a bênção de Seu povo. O pensamento de que a igreja seria ajuntada em glória antes de Outubro de 1914, TEVE CERTAMENTE UM EFEITO MUITO ESTIMULANTE E SANTIFICADOR sobre milhares, todos os quais podem consequentemente louvar o Senhor — ATÉ PELO ERRO.” (Prefácio de “The Time is At Hand”, 1916, página iv)

Note o leitor que, após envolver até o próprio Deus em seus erros, “invalidando-os” — na verdade, minimizando-os — encontrou o pastor Russell uma alternativa bastante conveniente a ter que encarar o fato de que suas predições nada tinham de “datas de Deus”. Chegou ele ao cúmulo de elogiar o erro, sim, de promover o erro como meio válido pelo qual Jeová guia seu povo. Isto deu margem, mais tarde, a novas predições, hábito este bastante comum entre os líderes das TJ até os nossos dias, bastante “fiéis” às suas origens, diga-se. Parece isto simples “explicação”, como quer o nosso companheiro H., ou clara JUSTIFICAÇÃO? Precisa Deus dos nossos erros?

Este caso não constitui exceção no “currículo” da Watchtower ou tampouco expressa a simples opinião de um membro da sociedade, à parte do que os outros pensavam e dissonante da postura histórica desta entidade no que se refere aos seus falhanços doutrinais. O próximo exemplo ilustra outra situação em que ela GLORIFICA, como organização, seus erros ao invés de se desculpar por eles — na verdade, subentende que eles foram SUPERIORES à verdade, em razão dos seus efeitos “protetores”. Vamos a ele:

1.2 Exemplo 2: A falsa interpretação das “autoridades superiores”

Até 1929, a Watchtower ensinava que as “autoridades superiores” mencionadas no capítulo 13 de Romanos correspondiam às autoridades governamentais seculares. A partir daquele ano, mudou seu “entendimento” do texto e passou a ensinar que o texto referia-se apenas a Deus e Jesus Cristo. Esta doutrina perdurou por mais de 30 anos, até que, em 1962, uma “nova luz” remeteu a sociedade DE VOLTA ao entendimento anteriormente abandonado — o que, por si só, desfere um golpe mortal na tese da “luz progressiva”. Este assunto é considerado em “A Sentinela” de 1/5/1996. Sobre a mudança doutrinária, o artigo, na pág. 14, diz:

“Olhando para trás, precisa-se dizer que esta maneira de encarar as coisas, que enaltecia a supremacia de Jeová e de seu Cristo, AJUDOU o povo de Deus a manter uma intransigente posição neutra durante este período difícil (isto é, desde a 2ª Guerra Mundial até a ‘guerra fria’)”. (o maiúsculo é meu)

Sobre isto, Ray Franz, com muita propriedade, diz:

“Quer dizer que, para todos os efeitos, ter tido o entendimento CORRETO, o entendimento que o apóstolo Paulo tinha em mente quando escreveu seu conselho, NÃO TERIA SIDO NEM TÃO SUFICIENTE PARA ORIENTAR, NEM TÃO EFICAZ PARA PROTEGER contra a ação não-cristã, quanto o conceito ERRÔNEO ensinado pela organização Torre de Vigia. Não há nada que mostre que Deus guie seu povo por meio do erro. Ele o fortalece com a verdade, NÃO COM O ERRO, em época de crise.” 1 João 1:5 (o maiúsculo é meu) — “Crise de Consciência”, pág. 497.

Alguém da lista concordaria, como quer o nosso companheiro H., que, neste caso, o corpo governante APENAS EXPLICOU, SEM DEFENDER?

1.3 Exemplo 3: Um tempo de “provas e purificação”

No Anuário de 1983, pág. 120, quase 70 anos depois do fracasso de 1914, a Watchtower insiste em minimizar seus erros ou, pelo menos, dar-lhes uma conotação piedosa. Após o relato sobre a inocultável frustração que envolveu a expectativa criada por Russell sobre o arrebatamento da igreja e o fim do mundo em 1914 — com o tropeço na fé de muitos — ela dirige a atenção do leitor para o fato de que aquele período era um tempo de “provas e purificação” — por meio do ERRO, naturalmente — e, a seguir, desvia-a para um comentário de um dos desapontados seguidores de Russell, o qual teria dito: “Em vez da esperada coroa da glória, recebemos um resistente par de botas para realizar a obra de pregação”. O assunto é concluído por aí mesmo, sem qualquer assumimento direto da responsabilidade por falsas previsões e suas consequências ou por um cândido pedido de desculpas, como seria de se esperar de humildes cristãos tementes a Deus.

Isto até que soaria comovente, caso não fosse hilariante! Parece isto mais com “explicação”, como quer o nosso companheiro H., ou com “justificação”?

1.4 Exemplo 4: A falsa profecia de 1925

No livro “Testemunhas de Jeová — Proclamadores do Reino de Deus” (1993), pág. 78, faz-se uma tentativa de justificação da falsa profecia de 1925, advogada pelo sucessor de Russell, J. F. Rutherford, por afirmar o seguinte:

“O ano de 1925 chegou e passou. Alguns abandonaram sua esperança. Mas a vasta maioria dos Estudantes da Bíblia permaneceu fiel. ‘Nossa família’, explicou Herald Toutjian, cujos avós se tornaram Estudantes da Bíblia no início do século, “chegou a reconhecer que esperanças não realizadas não são exclusividade dos nossos dias. Os próprios apóstolos tiveram semelhantes expectativas indevidas… Jeová é digno de serviço leal e de louvor COM OU SEM a recompensa final.”

O que, na verdade, isto quer dizer é COM OU SEM FALSAS PREVISÕES. Aquele argumento não procede, visto que não é a existência de uma recompensa que está em jogo — pois a Bíblia assegura a recompensa final aos servos leais de Deus — mas são as FALSAS EXPECTATIVAS criadas por uma organização, em função de uma data específica. A Watchtower, aqui, mais uma vez, passa ao lado da questão central, a saber, seus fracassos doutrinários. Queira notar o leitor que, tanto neste como no caso anterior, ela deixa que terceiros — membros dela, naturalmente — falem por ela. Dos que tropeçaram em razão das falsas profecias dela — nem uma palavra. Mesmo sabendo que muitos largaram seus empregos, venderam seus bens, abandonaram carreiras e até fazendeiros deixaram de colher suas safras, a Watchtower não lamenta aquele triste episódio. Mesmo sabendo que ele minou a fé de muitos, não só na organização, mas NA PRÓPRIA BÍBLIA. Mais uma vez ela não faz qualquer reconhecimento direto de que profetizou em vão. E, além disso, deixa de esclarecer ao leitor que, quando os apóstolos tinham expectativas quanto ao cumprimento de profecias em seus dias, eles estavam INDAGANDO a Cristo e NÃO ENSINANDO a milhões de “outras ovelhas”, no papel de ÚNICO CANAL ENTRE DEUS E OS SERES HUMANOS. A propósito, quanto a isto, Jesus respondeu aos discípulos: “NÃO VOS CABE OBTER CONHECIMENTO DOS TEMPOS OU DAS ÉPOCAS QUE O PAI TEM COLOCADO SOB SUA PRÓPRIA JURISDIÇÃO.” (Atos 1:7) Quão a sério tem o “escravo fiel e discreto” levado estas palavras nos últimos cem anos? Tem sido a estrita adesão a estas palavras de Cristo que tem motivado o conselho supremo da Torre de Vigia a especular sobre datas específicas para “o fim” ou terá sido o interesse em intensificar o ritmo de atividades de proselitismo dos adeptos, “alavancando” assim os chamados “AUGES” organizacionais tão propalados em sua literatura? Devemos louvar a Deus ou louvar números?

Mais uma vez, pergunto: parece isto com simples “explicação”, como quer o nosso companheiro H., ou clara “justificação”?

1.5 Exemplo 5: A falsa profecia de 1975: ‘A culpa foi vossa’

Em Toronto, Ontário, Canadá, na primavera de 1975, ao proferir discurso a uma vasta audiência, Fred Franz, então vice-presidente da Watchtower, declarou que ele e seus associados (o corpo governante) estavam ‘olhando com ansiedade particular’ para aquilo que o outono daquele ano traria. Contudo, um ano mais tarde, falando a uma audiência similar, ele falou em tom de retórica: “VOCÊS SABEM POR QUE NADA ACONTECEU EM 1975?” Daí, apontando para a platéia, ele falou em alto volume: “FOI POR QUE VOCÊS ESTAVAM ESPERANDO QUE ALGO ACONTECESSE!” Em outras palavras, desde que Jesus predisse que ninguém saberia “o dia ou a hora” de sua vinda para julgar a humanidade, as Testemunhas não deveriam ter acreditado que poderiam saber que ela ocorreria em 1975. Incrível como possa parecer, Franz pôs a culpa pelo fiasco inteiro na comunidade de Testemunhas e agiu virtualmente como se ele não tivesse qualquer responsabilidade na matéria. Fonte: “Apocalypse Delayed” (1985) — M. J. Penton

Embora o nosso companheiro H. prefira, nestes casos, desacreditar a fonte, ao invés de investigar os fatos ou de contestar embasadamente os relatos com contra-provas, eu publico este trecho neste fórum para que os demais tomem conhecimento dele e percebam que, a menos que Franz estivesse a mentir, o corpo governante, por meio de seu “oráculo” — nada menos que o vice-presidente e autor de muitas obras da organização — chegou ao ponto de remover a responsabilidade por fracassos doutrinários de seus próprios ombros e lançá-la sobre os lombos do seu próprio rebanho. E não disse isto em particular ao autor, mas em público, diante de uma vasta assistência. Será tudo mentira? Calúnia? Não houve tal fato? Em caso afirmativo, porque nenhum processo por calúnia, injúria ou difamação forçou uma retratação ou a retirada desta matéria de edição desde que foi lançada, há mais de uma década?

Isto é mais do que “explicação”, como quer o nosso colega H.. Tampouco é apenas “justificação”. Trata-se, na verdade, de pura desonestidade!

Tampouco é este um caso isolado. Vejamos como a Torre de Vigia justifica a mudança doutrinária sobre a geração de 1914, a qual ela sustentou por décadas e, quando se tornou insustentável, alterou, com consequências até sobre a contracapa das revistas “Despertai!” (a partir de 8/11/1995):

1.6 Exemplo 6: O uso da terceira pessoa

“Os estudantes da Bíblia, conhecidos desde 1931 como testemunhas de Jeová, esperavam também que o ano de 1925 traria o cumprimento de maravilhosas profecias bíblicas. ELES PRESUMIRAM que naquele tempo começaria a ressurreição terrestre, que traria de volta homens fiéis do passado, como Abraão, Davi e Daniel. Mais recentemente, MUITAS TESTEMUNHAS ACHAVAM que eventos relacionados com o começo do Reinado Milenar de Cristo poderiam começar a ocorrer em 1975. Sua expectativa baseava-se no entendimento de que o sétimo milênio da história humana começaria então.” — “Despertai!” de 22/6/1995 (o maiúsculo é meu)
“O POVO DE JEOVÁ, ansioso de ver o fim deste sistema iníquo, ÀS VEZES TEM ESPECULADO sobre quando irromperia a “grande tribulação”, até mesmo relacionando isso com cálculos sobre a duração da vida duma geração desde 1914.” — “A Sentinela” de 1995 (o maiúsculo é meu)

Queira o leitor notar aqui a tática habitual de falar NA TERCEIRA PESSOA, removendo a responsabilidade pelos erros doutrinários dos ombros do corpo governante e transferindo-a para as Testemunhas, como se elas tivessem chegado SOZINHAS àquelas conclusões, como se fossem elas a FONTE de alterações doutrinárias, como se não tivesse sido a própria sociedade que alimentou tais expectativas já a partir de 1969 (“Despertai!” de 22/4/69, “A Sentinela” de 15/2/69 e 15/9/75, bem como o “Ministério do Reino” de 7/74). Na verdade, as Testemunhas são as VÍTIMAS DE TAIS MUDANÇAS!

1.7 Exemplo 7: A “libertação de Babilônia” em 1919 e as “impurezas”

No afã de dar coerência à sua história e de se “purificar” de suas impurezas, a Watchtower vai bem além de “justificar”. Ela, às vezes, insulta a inteligência do leitor ou apóia-se em sua ignorância dos fatos, especialmente quando tais fatos já se dissiparam na corrente do tempo, envoltos na neblina do passado. Referindo-se às práticas e crenças advogadas pela organização no período de sua seleção por Jesus Cisto, ou seja, de 1914-1918, ela diz, em “A Sentinela” de 15/11/1980, o seguinte:

“Como os Israelitas dos dias de Isaías, os israelitas espirituais [Testemunhas de Jeová] venderam-se por causa de práticas errôneas e vieram a ligar-se ao império mundial de religião falsa, isto é, Babilônia, a Grande….”

Em “A Sentinela” de 15/7/1960, páginas 435 e 436, ela acrescenta:

“Eles tinham muitas práticas, características e crenças similares às das seitas da cristandade. Assim, de 1914 a 1918, um período de ardente teste veio sobre eles, não diferente do antigo período de captura dos Judeus por Babilônia lá em 607-537 AEC.” “Jeová e Jesus Cristo permitiram que estas Testemunhas fôssem reprovadas, perseguidas, banidas e seus membros fôssem aprisionados pelas nações deste velho mundo.”

O episódio em questão refere-se à condenação e encarceramento de Rutherford e seus diretores, após julgamento sob a acusação de ‘espionagem’ por uma corte norte-americana, em 1919. Cumprir eventos portentosos e profecias de longo alcance da bíblia em um punhado de homens nos EUA em nosso século, sem provas para apoiar tais asserções, constitui um triste exemplo da presunção e arrogância típicas das seitas.

Note o leitor que, mais uma vez, a Watchtower fala na TERCEIRA PESSOA, e não na primeira. Pois bem, que práticas e crenças eram estas a que a sociedade se referia? O livro “As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino”, na pág. 91, lista algumas destas “impurezas”: .

  1. 1.7.1 “A crença de que as autoridades terrestres constituem as “altas potestades” ou “autoridades superiores” descritas em romanos 13:1, com resultante temor dos homens”.Comentário: Conforme já falei antes, tal pensamento perdurou até 1929, DEZ ANOS após a libertação dos assim chamados “israelitas espirituais” do seu cativeiro babilônico. Como se não bastasse, após 33 anos deste “avanço”, a sociedade retorna ao pensamento de antes de 1929, O MESMO QUE RESULTOU EM SEU APRISIONAMENTO POR “BABILÔNIA, A GRANDE”. Que sentido fez sua libertação, se uns dos motivos do encarceramento prolongou-se por mais uma década e retornou 43 anos depois?

  2. 1.7.2 Dar ênfase ao “desenvolvimento do caráter”.Comentário: a sociedade continuou a dar ênfase às “obras” cristãs, ao invés de dar primazia à fé (o que vem primeiro, antecedendo as obras) e a benignidade imerecida de Deus em suas publicações, só que agora sob um novo pretexto, o “revestir-se da nova personalidade” (Efésios 4:24), no lugar do “desenvolvimento do caráter cristão”, embora seja difícil entender a diferença entre estas duas coisas. Há uma farta quantidade de matéria publicada neste sentido, em nada diferindo das publicações antigas, anteriores a 1919, o ano da pretensa “purificação”.

  3. 1.7.3 “A celebração de feriados pagãos, como o Natal”.Comentário: o Natal CONTINUOU A SER CELEBRADO pela Watchtower até, pelo menos, 1926, havendo, inclusive, uma foto de Betel, com Rutherford à testa da mesa em meio a uma sala cheia de adornos natalinos e presentes — SETE ANOS, portanto, APÓS a pretensa “purificação”.

  4. 1.7.4 “O uso do símbolo da cruz”.Comentário: Não só a cruz CONTINUOU A SER USADA, como também o símbolo da maçonaria (o elmo da armadura dos “Cavaleiros Templares”), até, pelo menos, 1931, do modo como se vê na capa da revista “The Watchtower” de 15/7/1930 — 11 ANOS APÓS a pretensa “purificação”.

  5. 1.7.5 “Não usar o nome Jeová tão frequentemente quanto seria feito em tempos posteriores”.Comentário: em 1927, Rutherford lançou o livro “Creation” (“Criação”), onde se diz, na pág. 10:

“A Bíblia mostra que O NOME de Quem exerce poder supremo na criação e em todas as coisas, É DEUS. ELE TEM TAMBÉM OUTROS NOMES que se encontram na Bíblia, TODOS OS QUAIS têm um significado profundo acerca de seu propósito para com suas criaturas.” (o maiúsculo é meu)

Parece haver aqui — 8 ANOS APÓS a pretensa purificação” — alguma ênfase especial ao nome “Jeová”?

  1. 1.7.6 “Tendo uma forma democrática de administração congregacional”.Comentário: o assim chamado sistema “democrático” (por meio da eleição dos anciãos) PERDUROU ATÉ 1932 — 13 ANOS APÓS a pretensa “purificação” — quando Rutherford centralizou o poder decisório na pessoa do presidente da Watchtower, no caso, ELE PRÓPRIO, o que deu início uma virtual ditadura individual, a qual, só em 1976 foi substituída pelo arranjo de um Corpo Governante, resultando no sistema autoritário grupal que hoje conhecemos. O sistema é “democrático” até nos detalhes, como, por exemplo, a votação por maioria absoluta (2/3) nas reuniões do Corpo Governante, igual à câmara dos deputados e o senado, em Brasília. Também, neste caso, a sociedade “avançou” e depois “recuou” naquilo que constituía um dos motivos para seu encarceramento às mãos de “Babilônia, a Grande”.

Diante de tudo isto, fazem-se algumas perguntas: que sentido houve em haver um encarceramento “purificador” de práticas e crenças errôneas, se, após a libertação, tais coisas PERSISTIRAM por até mais de uma década, sendo que se RETORNOU a algumas delas, como fruto de “novas luzes”, as quais são bem conhecidas na atualidade? Não é o mesmo que um delinquente ser preso por diversos crimes e, após sua libertação, CONTINUAR A PRATICAR, por anos, todos eles ou até RETORNANDO a eles após um período de recuperação, SEM SER NOVAMENTE PUNIDO, ou até, ao contrário, considerando-se que o aprisionamento, de fato, resultou numa “purificação” que justificaria sua soltura? Não faz parecer que Deus e Cristo equivocaram-se ao permitir a libertação daquele grupo numa época em que continuavam a ter vínculos com as práticas de “Babilônia”? Acredita você nisto, H.? O Corpo Governante quer que você acredite…

Muitos outros exemplos eu poderia mencionar. Posso acrescentar vários outros, com a necessária documentação, caso você ache que estes não são suficientes, H.. Todavia, creio que isto só agravaria mais a situação. Em breve, lançarei artigo, provando que, quando necessário, a Watchtower, em sua defesa, lança mão até de injúria, difamação e revisionismo histórico. É mister lembrar que alguns dos erros doutrinários sequer mereceram uma justificativa. A mudança foi feita sem se mencionar a posição anterior (como, por exemplo, a mudança doutrinária quanto aos transplantes nos anos 1962,1968 e 1980). Contudo, creio que estes já são suficientes para demonstrar meu ponto: defender a organização “no geral” DE MODO ALGUM SIGNIFICA EXPLICAR ERROS PASSADOS SEM JUSTIFICÁ-LOS (ou defendê-los). Se esta é a sua atitude, H., certamente NÃO É A ATITUDE “FREQUENTE” DO CORPO GOVERNANTE. Os exemplos acima demonstram isto.

Assim sendo, em nome da lógica, mantenho meu entendimento anterior do assunto, no sentido de que a sua postura quanto ao primeiro ponto difere, sim, daquela manifesta pelo corpo governante. Se você quiser estar em fina sintonia com o “escravo fiel e discreto”, terá de aprender a omitir, “justificar”, “branquear” ou até louvar os erros passados, mentindo, se necessário….

2. Publicações antigas e “verdades estabelecidas” que deixaram de o ser

Quanto ao acesso a publicações antigas e já obsoletas vejamos o que diz o “Ministério do Reino” de Dezembro deste ano na seção de ‘anúncios’, conforme e-mail recebido da Espanha:

“De vez em quando, nos salões do Reino ou pessoalmente, se recebem ofertas de particulares que animam a adquirir publicações da Sociedade QUE JÁ NÃO SE REIMPRIMEM POR DIVERSAS RAZÕES. Oferecem-se fotocópias ou CD-ROM e quem assim procede o faz SEM AUTORIZAÇÃO DA SOCIEDADE. OS MEMBROS DA CONGREGAÇÃO RECONHECEM QUE TEM TUDO O QUE NECESSITAM ATRAVÉS DO “ESCRAVO FIEL E DISCRETO”, o qual supre ‘o alimento [de que necessitamos] no tempo apropriado’, por causas teocráticas estabelecidas (Mateus 24:45-47) (o maiúsculo é meu)

Note o leitor que a própria sociedade admite que diversas publicações suas “não se reimprimem por DIVERSAS RAZÕES”. Naturalmente, ela prefere, aqui, não entrar no mérito de QUE RAZÕES SÃO ESTAS. Seria, deveras, muito embaraçoso analisar tais razões pormenorizadamente. Se fosse solicitada a falar destas “diversas razões”, não seria surpresa que a resposta fôsse: “O povo de Deus (3ª pessoa) teve de fazer “ajustes” quanto ao que esta literatura ensinava…” — resposta bem típica da Watchtower. Antes que alguém diga que se trata de mera proteção de direitos autorais, releia o texto e note que NÃO é este o motivo alegado pela sociedade neste anúncio. Ela não deixa aqui espaço para a aquisição de publicações expiradas sob qualquer que seja o pretexto, não abrindo exceção mesmo que a publicação de tais obras não tenha fins lucrativos, coisa que a lei de direitos autorais não proíbe. Mais adiante, a própria organização mostra O MOTIVO: os seus adeptos “reconhecem que têm tudo o que necessitam”, deixando implícito que AQUELES QUE ADQUIREM TAIS PUBLICAÇÕES VÃO ALÉM DAQUILO DE QUE PRECISAM. Diante disto, pergunta-se: O que há de tão inconveniente em tais publicações, de modo que a Torre de Vigia prefira mantê-las fora do alcance de seus membros? Por que ela desestimula seus adeptos a consultá-las, ao passo que os estimula a CONTENTAREM-SE com o que é provido como “verdade atual” pelo “escravo fiel e discreto”? Por que não abre espaço a que um cristão, ainda que sob o pretexto de pesquisa pessoal e melhor familiarização com os primórdios da organização, passe a examinar o conteúdo de obras expiradas há décadas atrás? Não lhe daria isto uma visão mais abrangente do desenvolvimento da “Organização de Deus”? Ou, ao contrário, PORIA EM RISCO sua fé? Há algo a se esconder? O que veremos a seguir mostra que há.

“Quem se esquece do passado, condena-se a repetí-lo…”

Passo agora a apresentar algumas “amostras” daquilo que a Watchtower quer que continue bem longe das mentes de suas vítimas e que outrora foi “verdade estabelecida” em publicações hoje “caducas”. Vamos a algumas delas:

2.1 “Estudos das Escrituras”

The Divine Plan of the Ages (1886)

The Divine Plan of the Ages as Shown in the Great Pyramid (1915)

“Studies in the Scriptures” (“Estudos das Escrituras”) — C. T. Russell — Obra composta de 6 volumes ao todo, inicialmente com o nome “Millennial Dawn” (“Aurora do Milênio”), o maior legado do “Pastor” Russell a seus seguidores. Em 1886 foi escrito o primeiro de seus volumes — “The Divine Plan of the Ages” (“O Plano Divino das Eras”). Em 1915 foi publicada pela organização uma obra de 438 páginas, quase homônima — “The Divine Plan of Ages as Shown in the Great Pyramid” (“O Plano Divino das Eras Como Mostrado na GRANDE PIRÂMIDE”) — provavelmente de autoria de Morton Edgar — uma edição de visual mais atraente do que o primeiro volume de Russell. Na capa, o título é subdividido em dois — no alto, em “layout” praticamente idêntico ao livro de Russell, temos o título “The Divine Plan of the Ages”, no centro, ao invés da gravura do “anel alado” egípcio, comum em diversas publicações da Watchtower — inclusive na capa de TODOS os volumes de “Studies in the Scriptures” –, vemos a gravura da Pirâmide de Gizé e, abaixo, o complemento do título “As Shown in the Great Pyramid”. Queira o leitor examinar as gravuras abaixo. Repare bem no aspecto das letras do título no alto em ambas as capas. Não parece se tratar de edições diferentes de UMA MESMA obra? Não é difícil deduzir que tal livro (o da direita) nada mais é do que uma confirmação dos cálculos de Russell baseados em piramidologia, os quais são apresentados no terceiro volume do “Studies in the Scriptures”, entitulado “Thy Kingdom Come” (“Venha o Teu Reino”). A Watchtower jamais menciona as DUAS obras JUNTAS, apesar da estreita relação entre elas, até na aparência das letras. Por exemplo, no Anuário de 1976, páginas 40 e 41, ela cita o livro “The Divine Plan of the Ages” (o da esquerda) e, a exemplo de outras retrospectivas, omite completamente a existência daquela outra obra publicada (a da direita) na mesma linha de ensino pela organização. Até hoje me pergunto se o redator do Anuário de 1976 alguma vez ouviu falar do livro de 1915. Havia alguma razão para omití-lo?

No capítulo 10 do Volume III de “Studies in the Scriptures” (“Estudos das Escrituras”), lemos:

“O testemunho divino da Testemunha e Profeta de Pedra” — A GRANDE PIRÂMIDE DO EGITO “Naquele dia haverá um altar a Jeová em meio à terra do Egito, e uma coluna a Jeová ao lado de seu limite, e tem que resultar ser para sinal e para testemunho a Jeová dos Exércitos na terra do Egito.” Isaías 19:19, 20 (Página 313)

Após fazer uma descrição geral da pirâmide, diz-se a seguir:

“…[a pirâmide] converteu-se em objeto de interesse crescente PARA CADA CRISTÃO MADURO no estudo da palavra de Deus; pois ela parece dar-nos de uma maneira notável, e de acordo com todos os profetas, UM ESQUEMA DO PLANO DE DEUS PARA O PASSADO, PRESENTE E FUTURO.” (Página 314)

Mais adiante, o livro acrescenta as seguintes expressões sobre a pirâmide egípcia:

“…seu testemunho está EM PERFEITA HARMONIA COM A BÍBLIA….. é uma poderosa TESTEMUNHA corroborativa do plano de Deus…. a harmonia de seu testemunho com a Palavra escrita…. a construção da grande pirâmide foi projetada e construída pela mesma sabedoria divina, sendo realmente a ‘coluna’ de testemunho da qual falou o profeta [Isaías].” (Páginas 314-315)

Alguém sabe quem primeiro recebeu o título “Testemunha de Jeová”, desde a criação da Watchtower? O livro responde:

“…quando se lançou a idéia segundo a qual a grande pirâmide é a ‘Testemunha’ de Jeová, cujo testemunho é de igual importância tanto para a verdade divina quanto para a ciência pura…” (Página 320)

Russell chega a comparar a pirâmide à Bíblia:

“E, ainda, vemos que este repositório de conhecimento, TAL COMO A MAIOR PARTE DO CONHECIMENTO DA BÍBLIA, foi propositadamente mantido selado até que o seu testemunho fosse necessário e apreciado.” (Página 320)

Referindo-se a Jeová, o livro diz:

“Será que isto significa que o seu grande Arquiteto sabia que viria um tempo em que o seu testemunho seria necessário? […] Parece que sim.” (Páginas 320-321)

A partir daí todo um diagrama é traçado, relacionando as medidas, símbolos e passagens da grande pirâmide egípcia com o plano de Deus, a vinda de Cristo, a data de 1914 e assim por diante, fazendo um paralelo entre a Bíblia e os segredos ocultos nesta construção erigida por reis pagãos, adoradores de animais e escravizadores dos hebreus.

A simples leitura deste capítulo nos dias atuais permite-nos formar um esboço das idéias místicas, esotéricas e cabalísticas do senhor Charles T. Russell, ao lançar os alicerces daquela que seria a entidade que um dia controlaria a vida de 6 milhões de seres humanos. Seria, de fato, muito embaraçoso expor tal conteúdo a uma TJ em nossos dias. Seria uma ameaça real e imediata à fé dela na Torre de Vigia. Naquela época, para aqueles que ousassem questionar tais ensinos — pesadas críticas e o questionamento da fé da pessoa. Hoje em dia, Russell seria DESASSOCIADO por tais idéias “apóstatas”…

E pensar que era a obras como esta que a Watchtower referia-se ao publicar os seguintes comentários:

“Se os seis volumes de “Studies in the Scriptures” são de modo prático a Bíblia topicamente arranjada, COM PROVAS TEXTUAIS BÍBLICAS, podemos de modo próprio denominar os volumes — A BÍBLIA NUMA FORMA ARRANJADA.” “Além do mais, não só achamos que as pessoas não podem visualizar o plano divino ao estudar a Bíblia em si mesma, mas entendemos outrossim que se alguém PÕE DE LADO o “Studies in the Scriptures”, mesmo depois de os ter usado, depois de ter se familiarizado com eles, depois de os ter lido por dez anos — se então os põe de lado e ignora E VAI PARA A BÍBLIA SOZINHO, embora já entenda a Bíblia há dez anos, nossa experiência demonstra que ELE VAI PARA AS TREVAS DENTRO DE DOIS ANOS. Por outro lado, se ele tivesse simplesmente lido o “Studies in the Scriptures”com suas referências, E NÃO TIVESSE LIDO UMA PÁGINA DA BÍBLIA, semelhantemente, ESTARIA NA LUZ ao término de dois anos, porque teria a luz das escrituras.” “Watchtower”de 1/9/1910, pág. 298 (o maiúsculo é meu)

Um simples exame nos trechos que trancrevi há pouco mostra quão presunçosas, vazias, antibíblicas e ridículas são tais conclusões!

O que não pensaria hoje o “Pastor” Russell ao ver que NENHUM de seus livros — os quais supostamente protegeriam os cristãos contra as “trevas” espirituais — é hoje publicado pela Sociedade Torre de Vigia, tendo a sua última edição se esgotado há mais de 70 anos?!

2.2 “O Mistério Consumado”

The Finished Mistery (1917)

“The Finished Mistery” (“O Mistério Consumado”) — publicado em 1917 pela Watchtower durante a presidência de J. F, Rutherford, em continuação a “Studies in the Scriptures” (sétimo volume), como obra póstuma de Russell, apesar de incluir outros dois autores. Foi à publicação deste livro que se atribuiu falsamente o “cisma” de 1917. De fato, se tivessem lido seu conteúdo, conforme veremos, talvez os membros da diretoria (expulsos por Rutherford) se opusessem à sua publicação, no todo ou em parte. Já na capa, encontramos O MESMO símbolo pagão egípcio dos volumes de “Studies in the Scriptures” analisados no ítem anterior, a saber, o “anel alado”. Trata-se de uma obra de conteúdo grotesco, repleto de sandices, interpretações pitorescas — quase psicodélicas — e falsas previsões. Foi exatamente este livro que minou a fé de Peter Gregerson, ancião por anos e amigo pessoal de Ray Franz. O que teria ele encontrado de tão grave ao ponto de se desligar da Watchtower após esta leitura? Vamos a algumas “preciosidades” (queira o leitor ter em mente que este livro foi um marco na história da organização, em uma época em que, dizia-se, Cristo estava a examinar todas as religiões e a rejeitá-las em favor da Watchtower):

OBS: sugiro ao leitor que acompanhe em sua Bíblia as citações, à medida em que surgirem.

2.2.1 Falsas Previsões

“Revelação 16:20 — ‘Também toda ilha fugiu’ — ATÉ AS REPÚBLICAS DESAPARECERÃO NA CHEGADA DE 1920. [Página 258] ‘…e os montes não foram encontrados.’ — TODOS OS REINOS DA TERRA PASSARÃO, SERÃO TRAGADOS EM ANARQUIA.” [Página 258] “Ezequiel 24:24 — ‘E Ezequiel tornou-se para vós um portento. Fareis segundo tudo o que ele fez. Quando vier, então tereis de saber que eu sou o Senhor Deus.’ — ENTÃO A SILENCIOSA TRISTEZA NO CORAÇÃO DO PASTOR RUSSELL SE TORNARIA UM SINAL PARA A CRISTANDADE. AS PENOSAS EXPERIÊNCIAS DO PASTOR RUSSELL NESTE RESPEITO SERÃO AQUELAS DE TODA A CRISTANDADE. [Página 485] 24:25, 26 — ‘E quanto a ti, ó filho do homem, não será no dia em que eu tirar deles seu baluarte, o belo objeto de sua exultação, a coisa desejável a seus olhos e o anseio da sual alma, seus filhos e suas filhas, que nesse dia virá a ti o fugitivo para fazer os ouvidos ouvir?’ — TAMBÉM, NO ANO DE 1918, QUANDO DEUS DESTRUIR AS IGREJAS POR COMPLETO E OS MEMBROS DAS IGREJAS AOS MILHÕES, TERÁ DE SER QUE, QUALQUER UM QUE ESCAPE, SE CHEGARÁ À OBRA DO PASTOR RUSSELL PARA APRENDER O SIGNIFICADO DA QUEDA DO ‘CRISTIANISMO’.” [Página 485] “…Nenhum vestígio dela [a cristandade] sobreviverá às devastações da abrangente anarquia mundial, na chegada de 1920.” [Página 542]

2.2.2 Interpretações Pitorescas

Revelação 14:20 — ‘E o lagar foi pisado fora da cidade, e saiu sangue do lagar, até à altura dos freios dos cavalos, a uma distância de 1600 estádios.’

Utilizando a versão de Rotherham, a qual diz ‘1200 estádios’, ao invés de ‘1600 estádios’, o livro revela sua “interpretação” do texto bíblico. Vejamos [página 230]:

“Isto não pode ser interpretado como referindo-se à linha de batalha de 2100 milhas da guerra mundial. Um oitavo de milha ou estádio não é uma milha e é fora da cidade, enquanto a linha de combate é dentro da cidade. Veja a tradução de Rotherham. Um estádio é 603,75 pés ingleses; 1200 estádios são 137,9 milhas. O trabalho neste volume foi realizado em Scranton, Pennsylvania. Tão logo foi concluído, foi enviado a Betel. Metade do trabalho foi feito a uma distância comum de 5 quadras da estação de Lackawanna, e a outra metade a uma distância de 25 quadras. Quadras em Scranton são 10 por milha. Logo, a distância comum à estação é de 15 quadras, ou 1,5 milhas A milhagem de Scranton ao terminal de Hoboken é mostrado em tabelas de tempo como sendo de 143,8 e esta é a milhagem cobrada dos passageiros, mas em 1911, ao custo de 12.000.000 de dólares, a ferrovia de Lackawanna completou seu famoso atalho, reduzindo em 11 milhas a distância. Desde o dia em que o atalho foi concluído, os ferroviários têm à sua disposição 11 milhas a menos do que a tabela mostra, ou uma distância líquida de 132,8 milhas Do ‘Ferry-boat’ de Hoboken ao ‘Ferry-boat’ da Rua Barclay, Nova Iorqu e, temos 2,0 milhas Do ‘Ferry-boat’ da Rua Barclay ao ‘Ferry-boat’ de Fulton, Nova Iorque, temos 4800 pés ou 0,9 milhas Do ‘Ferry-boat’de Fulton, Nova Iorque, ao ‘Ferry-boat’ de Fulton, Brooklyn temos 2,000 pés ou 0,4 milhas Do ‘Ferry-boat’ de Brooklyn a Betel temos 1,485 pés ou 0,3 milhas A menor distância desde o lugar onde o lagar foi pisado pelos pés dos membros do Senhor, Cuja orientação, apenas, tornou possível a produção deste volume (João 6:60, 61; Mateus 20:11) é 137,9 milhas”

2.2.3 Beemote = Máquina a Vapor

O animal que Jó menciona no capítulo 40 de seu livro, de nome “beemote” (entendido atualmente como referindo-se ao hipopótamo) é representado em “The Finished Mistery” [páginas 84-86] — parte por parte — como referindo-se a uma MÁQUINA A VAPOR ESTACIONÁRIA, como se Jó estivesse a descrever seus diversos componentes, tais como caldeira (as “ancas” do animal), grades (os “ossos” do animal), pistões (os “tendões” do animal), combustível, no caso, carvão (a “palha” de que se alimenta o animal) etc.

2.2.4 Leviatã = Locomotiva a Vapor

O “leviatã” descrito por Jó no capítulo 41 de seu livro (entendido atualmente como referindo-se ao crocodilo) é igualmente representado em “The Finished Mistery” [páginas 84-86], peça por peça, como correspondendo à descrição — pasme o leitor — de UMA LOCOMOTIVA A VAPOR, como se Jó estivesse a descrever componentes, tais como cabine (a “cabana” de um pescador), cilindros (as “narinas” do animal), engate (a “língua” do animal), caldeira (as “placas” do animal), parafusos (“espinhos” na pele do animal), farol (os “olhos” do animal), porta da caldeira (a “boca” do animal), rebites (os “dentes” do animal) e até a referir-se ao seu uso, como transportar pessoas a um piquenique ou convenção….

2.2.5 Miguel e Anjos = Papa e Bispos

De acordo com “The Finished Mistery” [páginas 188 e 189], “Miguel e seus anjos”, descritos em Revelação 12:7, correspondem AO PAPA EM ROMA E SEUS BISPOS… (hoje a Watchtower diz que são Jesus Cristo e seus anjos)

2.2.6 O Profeta Naum e o Comboio

De acordo com “The Finished Mistery” (página 93), o profeta Naum, em seu livro, cap. 2, versículos 3 a 6, descreve UM TREM EM MOVIMENTO (e não um automóvel, como alguns pensavam), com seus componentes detalhados — o farol (o “escudo”), o pessoal da caldeira (os “homens de valor”), vagões (as “carruagens”), estação (a “barricada”) e até os carregadores de bagagem, ônibus do hotel, passageiros e amigos aguardando a chegada da locomotiva no terminal….

O exame de tais passagens, por si só, deixa-me perplexo com aquilo que um dia, foi servido à mesa de Jeová, como ÚNICO “ALIMENTO ESPIRITUAL NO TEMPO APROPRIADO” disponível para seu povo àquele período. Tais alegorias, fruto de uma mente (ou mentes) fantasiosa, oscilam — em minha opinião — entre o ridículo e o patético, levando-me a questionar até a sanidade mental dos autores de tais disparates. Alimentar-se-ia você àquela época desta mesa, H.? Infelizmente, creio que sim….

Uma pergunta: o que aconteceria a um membro da Watchtower que questionasse ou simplesmente insinuasse que tais ensinos poderiam estar errados? Resposta: a perda de “privilégios” ou até a “exclusão” da organização e, consequentemente, a destruição no Armagedon, então, “às portas”!

Como descreve na atualidade a Torre de Vigia tal obra? Reconhece ela tais absurdos ou tenta “justificá-los”? Em 1988, a publicação “Revelação — Seu Grande Clímax Está Próximo!”, na página 165, descreve “The Finished Mistery” — pasme o leitor — como “UM PODEROSO COMENTÁRIO SOBRE APOCALIPSE E EZEQUIEL”! (de fato, “poderoso” o suficiente para destruir a fé de Peter Gregerson)

Tal versão dos fatos, parece-me, só poderia se basear em duas coisas: ou a ignorância do autor desta publicação de 1988 sobre o conteúdo do livro “The Finished Mistery” ou a CERTEZA DE QUE TAL LIVRO NÃO ESTARIA DISPONÍVEL ÀS TESTEMUNHAS ATUAIS para um exame minuncioso sobre quão “poderoso” era tal “comentário”. A segunda hipótese me parece mais provável. Mesmo que uma TJ hoje em dia consiga o acesso a tal livro, publicado há mais de 80 anos, o que certamente não é fácil, conseguirá ela expor tais coisas aos outros 6 milhões delas espalhadas pelo mundo? Não, pois seria desassociada antes de tentar qualquer coisa entre os seus próprios. O que aconteceria se tal conteúdo “nonsense” fosse mostrado às pessoas com quem se dirigem estudos bíblicos domiciliares na atualidade? Mostraria você tais coisas aos seus estudantes, H.? Se assim o fizesse, poria em risco o “progresso” deles e certamente cairia na desaprovação da Torre de Vigia. Não acha você que TODA Testemunha de Jeová no mundo TINHA O DIREITO de conhecer tais fatos ANTES DE SE BATIZAR? Acha você que isto NÃO INFLUIRIA na decisão delas ? No meu caso, certamente influiria e, creio, no caso de cada um aqui. Se influiria, então era meu direito saber. Todavia, após mais de 14 anos como membro da organização, só agora vim a conhecer tais coisas, pois nem meu instrutor sabia delas. E certamente nem o instrutor dele…

Isto me faz lembrar as palavras da própria Watchtower, no livro “É esta vida tudo o que há?”, pág. 46, onde ela pergunta: DESEJARIA ASSOCIAR-SE A UMA RELIGIÃO QUE NÃO O TRATOU COM HONESTIDADE? Minha resposta: NÃO. Foi exatamente porisso que deixei a Torre de Vigia…

2.3 Outras “verdades” que caducaram

Diversas outras obras poderiam ser mencionadas, tais como:

  1. O folheto “Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão” — 1920 (a falsa profecia de 1925 e a “campanha dos milhões”),

  2. “A Harpa de Deus” — 1921 (confirmando 1799, e não, 1914 como o início do “tempo do fim” [páginas 236, 229 e 230]),

  3. “Filhos” — 1941 (onde os casais eram incentivados a adiar seu casamento e a não terem filhos [páginas 312, 313 e 366]),

  4. “Watchtower” de 15/9/41, página 288 (onde se dizia que o Armagedon estava “poucos meses” à frente),

  5. os livros sobre as profecias do “Rei do Norte” e “Rei do Sul”, que simplesmente sumiram depois da queda da URSS e muitas, muitas outras publicações.

Creio que estes exemplos já bastam. Não é à toa que muitos entre os que deixam a Torre de Vigia, perdem toda sua fé em Deus. Dizer que Deus dirigia tais assuntos só pode resultar em uma coisa — vitupério ao Seu Nome! Há mais de um século que a Watchtower lança desonra sobre Deus e Jesus Cristo!

2.4 O acesso às publicações antigas

Quanto ao material contido na biblioteca de Betel estar à disposição de QUALQUER TJ para consulta, nada posso provar, embora eu, pessoalmente, duvide que seja assim, especialmente em face do anúncio no “Ministério do Reino”, o qual mencionei anteriormente. Que tal enviar uma correspondência a Cesário Lange, solicitando uma fotocópia dos livros “O Plano Divino das Eras”, o “Mistério Consumado” ou “Milhões que Agora Vivem Nunca Morrerão” para estudo pessoal e pesquisa ou com o inocente fim de formar uma biblioteca pessoal da literatura da Torre de Vigia? Que resposta você acha que receberia, H.? Gostaria de tentar? Convido-o a fazê-lo e nos informar da resposta. Todavia, acho que seria de seu interesse saber que, ATÉ PARA OS MEMBROS DO CORPO GOVERNANTE, houve restrições. Ray Franz, na pág. 332 de seu livro “Crise de Consciência”, relata um incidente ocorrido em uma das reuniões fechadas do CG, quando foi interrogado sobre a leitura que supostamente tinha feito de comentários bíblicos. Ray respondeu:

“Começei a usá-los mais extensamente em resultado das recomendações de meu tio, durante o projeto do livro ‘Ajuda ao Entendimento da Bíblia’. Se a opinião é de que não devo usá-los, então, há seções inteiras na biblioteca de Betel que deveriam ser esvaziadas, pois há dúzias de coleções de tais comentários lá.”

O fato é que, por um lado, desestimulando seus adeptos a pesquisar literaturas expiradas e, por outro, não reimprimindo um trecho sequer de tais obras, a Watchtower está, de fato, a obstruir o acesso das Testemunhas de Jeová da atualidade a tais publicações. Isto chama-se CONTROLE DE INFORMAÇÃO. É uma prática comum aos sistemas totalitários…

2.5 ‘Os cristãos primitivos também cometiam erros’

No que se refere à sua tentativa de justificar os erros doutrinários da Watchtower, comparando-os a erros de textos extra-bíblicos do primeiro século, fico a me perguntar se a congregação cristã primitiva respondia ou não pelas consequências daquilo que você chama de “conceitos esdrúxulos” extra-bíblicos. Pergunto-me se ela procurava ocultar de seus membros tais erros, “branqueá-los” ou se procurava até “louvar” tais erros — como faz a Watchtower — fazendo-os parecer úteis à causa de Jesus Cristo ou como “proteção” ao povo de Deus. Principalmente quando, de tais “conceitos esdrúxulos” resultam perdas de vidas humanas, como a proibição às vacinas, aos transplantes ou ao recebimento de “frações” do sangue, sem que a sociedade assuma culpa de sangue por estes erros. Isto sem falar nos prejuízos pessoais daqueles que se desfizeram de seus bens, abdicaram de carreiras ou de constituir família em razão das falsas expectativas criadas pela literatura da sociedade. Ou daqueles que desperdiçaram os melhores anos de sua juventude atrás das grades por rejeitarem o serviço militar alternativo, hoje liberado. Ou dos que viram seus entes amados lhe virarem o rosto, renegando-os como apóstatas e odiadores de Deus, sob o beneplácito e incentivo dos “conceitos esdrúxulos” publicados em “A Sentinela” e “Despertai!”.

Acha mesmo válida tal analogia entre os primitivos cristãos e a Torre de Vigia, H.? Por que absolver a Watchtower por seus “conceitos esdrúxulos” altamente danosos e, ao mesmo tempo, condenar outras denominações religiosas pelos seus próprios “conceitos esdrúxulos” (em alguns casos, menos prejudiciais do que os de Brooklyn), os quais elas poderão rever e modificar no futuro, assim como você alega que a Torre de Vigia tem feito? Acaso Deus é parcial? Se você absolve a Torre de Vigia e condena as outras religiões (o que suas palavras parecem indicar), certamente está sendo parcial. Se, por outro lado, não desaprova outras religiões, está sendo ecumênico, coisa que o “escravo fiel e discreto” condena. De que lado ficará você? Do lado de Deus? Pode-se estar ao lado de Deus, ao passo que se discorda, em parte, dos ensinos do “único canal” entre Ele e a humanidade?

3. Apenas a “organização” sobreviverá à ‘grande tribulação’

Alegra-me que você considere que o julgamento divino se dá em base individual e não necessariamente POR SE ESTAR LIGADO a uma denominação religiosa ou “redil jurídico”, como você chama. Também vejo desta forma. Todavia, O “ESCRAVO FIEL E DISCRETO” NÃO PENSA ASSIM. Você suscita a questão sobre a identidade daquilo que se denomina a “arca” figurativa para os nossos dias, como se ela pudesse ser outra coisa que não a organização ou “redil jurídico” Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. Vejamos o que diz o livro “Poderá Viver para Sempre no Paraíso na Terra”, pág. 195:

“A ORGANIZAÇÃO VISÍVEL de Deus hoje também recebe ORIENTAÇÃO E DIREÇÃO teocráticas. NA SEDE DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ EM BROOKLYN, New York, existe um corpo de anciãos cristãos de várias partes da terra que dão A NECESSÁRIA SUPERVISÃO às atividades mundiais do POVO DE DEUS. Este corpo governante é composto de membros do ‘escravo fiel e discreto’. Serve qual porta-voz do ‘escravo’ fiel.” (o maiúsculo é meu)

Há alguma dúvida sobre o “redil jurídico” a que se refere este texto — mencionado por nome e endereço — ao qual toda pessoa necessariamente tem que estar ligada para obter a aprovação de Deus?

E se a pessoa INDIVIDUALMENTE quer servir a Deus, sem a intermediação da Watchtower? Pode ela encontrar a aprovação divina? Ser-lhe-á isto contado como mérito? Deixemos que o “escravo fiel e discreto” responda:

“Alguns que se chamam cristãos e anunciam Deus como seu Pai gabam-se de andar com Deus apenas, que Ele lhes dirige os passos pessoalmente. Tais pessoas não só abandonam o ensino ou lei da MÃE, mas eles literalmente LANÇAM A “ESPOSA” DE DEUS [a organização] NAS RUAS.” (“Watchtower” de 1/5/57, pág. 274. O maiúsculo é meu.)

O livro “Qualificados para ser ministros” — 1967, pág. 156, chega ao cúmulo de dizer:

“Se temos amor por Jeová e pela organização de Seu povo não seremos suspeitosos, mas, como a Bíblia diz, ‘acreditaremos em todas as coisas’, TODAS AS COISAS QUE A ‘WATCHTOWER’ PUBLICAR…”

Adicionalmente, o livro “Poderá viver…”, na pág. 255, diz:

“Foi apenas aquela única arca que sobreviveu ao dilúvio e não um sem-número de embarcações. E HAVERÁ APENAS UMA ORGANIZAÇÃO — a organização visível de Deus — que sobreviverá à ‘grande tribulação’ que rapidamente se aproxima. Simplesmente NÃO É VERDADE QUE TODAS AS RELIGIÕES CONDUZEM A UM MESMO FIM. VOCÊ PRECISA PERTENCER À ORGANIZAÇÃO DE JEOVÁ, a fim de receber Sua bênção de vida eterna.”

A “organização visível de Deus” a que o livro se refere aqui não é outra senão a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados.

Assim, não posso deixar de notar, novamente, uma discrepância entre o seu pensamento, H., e o pensamento do corpo governante, ao qual deveria estar completamente submisso. Concorda que tem de estar submisso? Em “A Sentinela” de 1/10/1967, páginas 587-592, lemos:

“Aquele que reconhece a organização teocrática visível de Jeová, portanto, TEM DE RECONHECER E ACEITAR esta designação do “escravo fiel e discreto” e SER SUBMISSO A ELA.” (o maiúsculo é meu)

Pode-se ser parcialmente submisso e ainda assim, obter a aprovação divina? Não é isto o que o corpo governante ensina.

4. Ideias e atitudes “independentes”

No tópico “independência”, infelizmente, seu conceito, H., novamente difere do conceito do corpo governante. Não pretendo polemizar. Vou apenas provar documentalmente o que agora afirmo. Comecemos pelo que diz “A Sentinela” de 15/7/1983, sob o tópico “Evite Idéias Independentes”:

“Como se manifestam tais idéias independentes? Um modo comum é questionar o conselho provido pela organização de Deus.”

Mas talvez você afirme: “Eu não questiono tais conselhos!”

Uma maneira de questionar é por não cumprir à risca um de tais conselhos, não acha? Vamos a um exemplo? “A Sentinela” de 15/12/1981″, sob o tópico “Deve-se falar com o desassociado ou o dissociado?”, diz:

“….O apóstolo Paulo que deu este aviso sábio era íntimo de Jesus e sabia muito bem o que Cristo dissera sobre cumprimentar outros. Ele sabia também que a saudação costumeira daquele tempo era: “Paz”. Diferente de algum inimigo pessoal ou dum homem de autoridade do mundo, que se opõe aos cristãos, o desassociado ou dissociado que procura promover ou justificar seu pensamento apóstata, ou que continua no seu proceder ímpio, certamente não é alguém a quem se deseja “Paz”. E todos sabemos de experiência no decorrer dos anos que UM SIMPLES “Oi” dito a alguém pode ser o primeiro passo para uma conversa ou mesmo para uma amizade. QUEREMOS DAR ESTE PRIMEIRO PASSO COM ALGUÉM DESASSOCIADO?”

O conselho da Watchtower aqui parece claro, não? Felizmente você adotou uma atitude “independente” neste respeito, H.. Principalmente pelo fato de a sociedade, em artigos mais recentes, ter aconselhado seus membros a “odiar no sentido bíblico” os classificados por ela como apóstatas — “A Sentinela” de 1/10/1993. É elogiável que você também não tenha seguido mais este conselho. Sinceramente espero que você continue assim — independente!

5. Bibliografia

  1. Raymond Franz, Crise de Consciência (Brasil, Fortaleza/CE: Primeira Edição, 1999) ISBN 85-901057-1-7.

  2. M. James Penton, Apocalypse Delayed. The Story of Jehovah’s Witnesses (Toronto, Buffalo, London: University of Toronto Press, 1985) ISBN 0-8020-6721-2.

  3. Raymond Franz, In Search of Christian Freedom (Atlanta: Commentary Press, 1991) ISBN 0-914675-16-8.

  4. Esequias Soares da Silva, Provas Documentais (Brasil, São Paulo: Editora e Distribuidora Candeia, 1.ª edição, 1997).

 
 
 

Querido Gustavo,

Respondo, finalmente, as questões que me foram apresentadas por você. Se puder, publique a resposta em seu blog. Resolvi recortar as questões e respondê-las uma a uma.

“Uma das suas primeiras assertivas, que a mim causou muito espanto e preocupação, foi a de que “precisamos nos despir dessa arrogância de que nós somos proprietários da verdade suprema”. De fato, “donos” da verdade nós não somos. Mas nós a conhecemos! A Verdade é Cristo, e não há outra”.

Gustavo, a Teologia nos ensina que a Plentiude da Revelação é Cristo, mas esta plenitude não significa esgotamento da verdade. Os desdobramentos desta verdade estão em todos os lugares do mundo. Deus continua se revelando. Plenitude não significa finalização.

O que sabemos do Cristo é processual. É assim que o Espírito Santo trabalha na vida da Igreja. A Teologia está a caminho. A grandeza da Revelação não cabe nos documentos que temos, nem tampouco na Teologia que já sistematizamos. O dogma evolui, pois é verdade santa. Tudo o que é santo, movimenta, porque é vivo. O que alimentou o passado precisa continuar alimentando o presente, e o futuro. Não significa modificar a verdade, mas sim, à luz do Espírito e da autoridade da Igreja, buscar a interpretação que favoreça o conhecimento da verdade que o dogma resguarda. Este exercício eclesial manifesta ao mundo o zelo pela verdade que nos foi confiado cuidar e administrar.

Deus continua se revelando ao mundo. O limite da Revelação é a inteligência humana. Nós o vitimamos constantemente com nossas reflexões, mas mesmo assim, Ele não deixa de se manifestar. Onde houver uma brecha, lá Deus acontecerá. Não podemos nos esquecer que a salvação é oferecida a todos. É interesse amoroso de Deus que a humanidade o conheça.

Nós, enquanto proprietários desta verdade que é Jesus, cuidamos do que recebemos. O cuidado da verdade recebida está sustentado sobre dois pilares. Anúncio e Reconhecimento. Nós anunciamos o Cristo. Nisso consiste a ação evangelizadora da Igreja. Mas nós também reconhecemos a sua presença, indícios do sagrado, em outras religiões. Como reconhecemos? Através dos frutos que produzem.

O amor que temos ao Cristo deve ser suficiente para que saibamos respeitar tudo o que é cristão, mesmo que as pessoas não se reconheçam cristãs. É dialética, meu caro. É a tensão escatológica que também esbarra na hermenêutica cristã. Já, mas ainda não. É neste ainda não que nos abrimos com humildade para compreender que outras religiões também vivem e perseguem os rastros do sagrado, e que mesmo oculto, lá o Cristo já está sendo vivido. É uma questão de tempo.

Recordo-me de uma frase muito sábia, que um grande professor jesuíta costumava repetir em nossas aulas de mestrado. Ele dizia: “todo mundo tem o direito de viver o seu antigo testamento.” A administração desta verdade só pode ser responsável, à medida que reconhecemos que ela já ultrapassou os limites dos muros, que estão sob nossa custódia.

“E como explicar que, ao falar da condição adâmica do homem, o senhor tenha adotado a interpretação modernista segundo a qual a historicidade das escrituras fica reduzida ao nível das histórias da carochinha?! Dizer que Adão é uma imagem simbólica, metafórica, “fabulesca”, não faz parte da Doutrina Católica! O fato de a linguagem empregada no livro de Gênesis ser recheada de simbolismo não elimina o fato de que os acontecimentos nele narrados tenham se dado no tempo e no espaço tal como foram escritos. A interpretação literal complementa e enriquece a hermenêutica que se pode fazer a partir dos símbolos. Não é assim que ensina a Igreja?”

Não, não é isso que ensina a Igreja. Se você freqüentasse os meios teológicos saberia muito bem que a linguagem metafórica nem sempre está a serviço de um fato concreto, pontuado no tempo e no espaço. Por isso é metáfora.

A linguagem metafórica não é mentirosa. Sou professor universitário e ensinei Antropologia Teológica. É uma clareza que não posso perder de vista. Ao falar da condição adâmica nós precisamos pensar na humanidade como um todo. Não temos a certidão de nascimento de Adão. O que temos é a fé de que Deus criou a humanidade. Não posso pontuar a existência do primeiro homem. A sagrada escritura só que nos ensinar que somos filhos Dele.

Gustavo, toda a Antropologia teológica é construída na perspectiva da Cristologia. A narração das origens está diretamente ligada ao evento crístico. A Teologia da Criação não é uma ciência exata. O que precisa ser assegurado é o fato de que Deus é o criador do Universo. A maneira como tudo isso se deu é metáfora. Isso não significa meia verdade, nem tampouco conto da carochinha. O que não pode ser relativizado é a entrada de Jesus na história.

Há um destino Crístico que nos foi oferecido (Soteriologia). Jesus é histórico. Está situado no tempo e no espaço. Isso sim é fundamental para a fé. Quando a Sagrada Escritura narra o nascimento do primeiro homem, o grande objetivo não é pontuar o início da vida humana, mesmo porque o escritor sagrado não escrevia com essa finalidade. Volto a dizer. A exegese nos ensina que o escrito tem como principal objetivo salvaguardar que o princípio de todas as realidades criadas está em Deus (Criacionismo). É por isso que a fé não se opõe à ciência no que diz respeito à evolução (Evolucionismo). É simples. O primeiro homem criado não pode ter tido a experiência que a sagrada escritura relata. Ou você pode desconsiderar tod os os conhecimentos a respeito da origem do ser humano?

Gustavo, a fé não é um conjunto de certezas, meu caro. Não temos provas concretas para muitos aspectos da fé que professamos. Se as tivéssemos não precisaríamos ter fé. Acreditamos no que não vemos. Nem por isso é “conto da carochinha”, como você sugere.

Não sei se você a conhece, mas se não conhecer, sugiro que tenha contato com a obra do americano Joseph Campbell, que de maneira brilhante e pertinente, fez uma análise da linguagem mitológica nas culturas. Na primeira parte da obra “O poder do mito”, ele fala justamente deste grande equívoco que costuma ser muito comum entre as pessoas que não transcendem a linguagem. Campbell é uma das maiores autoridades no campo da mitologia, pois faz uma abordagem semiótica destas narrações. O mito não é uma mentira, mas também não precisa ser verdade, diz ele. O importante é a fé que ele sugere. O importante é reconhecer que ele está a serviço de uma verdade superior, porque não cabe no tempo. Foi mais ou menos isso que desejou Guimarães Rosa, ao escrever o conto “ A terceira margem do rio”. Onde fica a terceira margem? O mesmo não se dá com as nossas convicções religiosas? O discurso religioso é o discurso da terceira margem. Guimarães Rosa compreendeu bem esta linguagem. E nós precisamos compreendê-la também.

“Depois o senhor falou que durante muito tempo “nós (subentenda-se: Igreja) fomos omissos”. Parece-me que essa omissão se referia às questões ecológicas. Pelo amor de Deus, padre! A missão da Igreja é salvar a Amazônia ou salvar as almas? Que conversa é essa de “cristificação do universo ”? Por que dar atenção a isso quando tantas almas se perdem na imoralidade, na heresia, na inércia espiritual?”

Gustavo, sua visão soteriológica é muito estreita. Salvar almas, somente? Essa visão compartimentada do ser humano é herética. Precisamos salvar a totalidade do humano, meu caro. Esqueceu o postulado fundamental da Antropologia cristã? Somos corpo e alma. Unidade. É só ler Tomás de Aquino, Santo Agostinho.

Fazer uma pregação desencarnada? A alma que quero salvar tem corpo, sente frio, tem fome, medo. A alma que quero salvar está num corpo que morre antes da hora, porque sofre as conseqüências de um meio ambiente marcado pelo pecado da omissão.

Se você fala da inércia espiritual, a Igreja fala da inércia espiritual e corporal. Cuidar do mundo é dar continuidade ao milagre da criação. Somos “co-criadores”. Deus continua criando, e nós correspondemos com a experiência do cuidado. Criar é atributo divino, mas cuidar é atributo humano. A horizontalidade da fé é real, concreta. Isso é Teologia da Criação. Está nos livros fundamentais, no catecismo da Igreja e também nos ensaios teológicos mais arrojados.

Quanto à essa conversa de “Cristificação do universo”, que você pareceu banalizar, fazer menor, é apenas uma interpretação belíssima da presença de Cristo no mundo, tomando posse de todos os lugares, mediante o movimento sacramental que Igreja celebra e propaga.

Todos os sacramentos que a Igreja celebra nos cristificam. O nosso comprometimento com o Cristo, mediante o processo de conversão, nos cristifica. O gesto de caridade nos cristifica. A oração nos cristifica. Ser cristão é ao Cristo estar configurado. É boba essa conversa?

“Em seguida, veio aquela colocação, esdrúxula e totalmente non sense, de que a Igreja – que se considerava barca de Pedro – após o Concílio Vaticano II passou a se enxergar como Povo de Deus. Devo informar-lhe que a Igreja permanece sendo barca de Pedro, e o povo de Deus é – por assim dizer – a tripulação desta barca. Onde é que houve mudança na compreensão da eclesiologia”?

A colocação esdrúxula não tem outro objetivo senão ensinar a busca que a Igreja tem feito de ser “Católica”. Você bem sabe que o significado de ser católica é ser “universal”. A expressão “barca de Pedro” não foi banida, Gustavo. Eu falei de superação conceitual. O problema não é a expressão, mas a interpretação que podemos fazer dela. É uma questão hermenêutica. A expressão “Povo de Deus” sugere a universalidade que a Igreja quer e precisa ter. O concílio Vaticano II compreendeu assim. É orientação da Igreja. Eu não inventei isso. Toda essa aversão que você tem ao Ecumenismo expõe uma fragilidade na sua reflexão. Não é bla, bla, bla, como você costu ma dizer. A Igreja trata com muito cuidado esta questão, pois sabe que as questões religiosas estão sendo causas de muito conflito no mundo. Banalizar a dimensão ecumênica da Igreja é, no mínimo, irresponsável. Há uma vasta literatura na área da Eclesiologia refletindo sobre esse tema. Sugiro que você a conheça. Só vai lhe enriquecer.

Meu filho, o importante é a gente não esquecer, que mesmo estando na barca de Pedro, é sempre cordial e cristão, acenarmos com carinho e respeito aos que estão em barcas diferentes. As grandes guerras atuais são movidas por essa incapacidade de aceno.

“Entre as críticas feitas pelos blogueiros, salientava-se a sua posição – no mínimo, omissa – quando o apresentador Jô Soares comentou que achava um absurdo que a Igreja considerasse que o matrimônio servia apenas à procriação. Pergunto: por que o senhor não afirmou, como ensina a Igreja, que o matrimônio tem duas finalidades: a unitiva e a procriativa? Por que não disse que , sim, o amor dos esposos importa e ele é – ou, pelo menos, deve ser – expresso pela unidade (de pensamento e de vontade) que os cônjuges demonstram em todas e cada uma de suas ações? Era tão simples desfazer a argumentação errônea do entrevistador e, ao mesmo tempo, aproveitar para instruir as pessoas segundo a Sã Doutrina!”

Concordo com você. Eu errei ao não ter usado os termos técnicos. Quis levar a discussão através de outros recursos e acabei não sendo claro como deveria.

“Pior que não ter ensinado no momento oportuno, foi o senhor afirmar que “o nosso discurso já mudou”! Diga-me, Pe. Fábio, acaso a doutrina imutável da Igreja perdeu a sua imutabilidade? O senhor crê, convictamente, que a Igreja está, dia após dia, se amoldando à mentalidade atual? Não seria missão da Esposa de Cristo formar na sociedade uma mentalidade cristã, isto é, fomentar um novo modo de pensar e de viver que esteja impregnado do perfume de Cristo? Ou é o contrário: o mundo é que deve catequizar a Igreja?”

Não, não é a Igreja que precisa ser moldada aos formatos do mundo. Em nenhum momento alguém me viu pregar sobre isso. Quando eu disse que o discurso já mudou, eu me referia justamente à visão antiga que ele tinha do “sexo no casamento”. O apresentador desconhecia a reflexão a dimensão unitiva do sexo na vida do casal.

“Em outro momento da entrevista o senhor afirmou que não “conseguia” celebrar a missa todos os dias? Não lhe parece estranho, e prejudicial, que a sua “agenda” não permita que o senhor celebre todos os dias a Eucaristia? Qual deve ser o centro da vida do sacerdote: o altar ou o palco? E quanto ao breviário? A sua “agenda” permite que o senhor o reze diariamente (considerando que não fazê-lo é pecado grave para o sacerdote)?”

Gustavo, quanto ao zelo que tenho pela minha vida de padre, gostaria de lhe tranqüilizar. Não sou um aventureiro. Sou um homem responsável, e se tem uma coisa que não perco de vista é a maturidade humana. Se me conhecesse, talvez não incorreria no julgamento velado de suas palavras.

Deus conhece a vida que tenho, e conhece também minha dedicação aos seus projetos. Se você gosta de quantificar o que faz, este não é o meu caso. Eu sou filho do Novo Testamento. Jesus é o Senhor da minha vida. Com Ele eu aprendi que a salvação não está na obrigação dos ritos, mas na qualidade do coração que temos. Busco cumprir todas as obrigações que a Igreja me pede, mas não coloco nisso a certeza da minha salvação. Não sou rubricista, nem pretendo me tornar. A Igreja nos recomenda muitas coisas. Lutamos para cumprir tudo. O que não conseguimos, deixamos nas mãos de Deus. Só Ele poderá nos julgar.

“Depois veio a pergunta: “o senhor teve experiências sexuais antes de ser padre?” Creio um homem que consagrou (frise-se o termo: consagrou) sua sexualidade a Deus não deveria expor sua intimidade diante do público. Mas, já que a pergunta indecorosa foi feita, a resposta que esperei foi algo no sentido de fazer o interlocutor entender que aquela questão era de ordem privada; que não convinha ser tratada em público. Em resumo: algo como “não é da sua conta!”. Porém, que fez o senhor? Respondeu que teve, sim, experiências sexuais precedentes, mas “às escondidas”! Caro Pe. Fábio, o senhor acha que convém dar uma resposta deste tipo? Isso não induziria as pessoas a pensar que não existem padres castos (considerando que muitos confundem castidade com virgindade)? Isso não estimularia as pessoas a crer na falácia segundo a qual todo jovem já teve, tem ou deve ter experiências sexuais que precedam a sua decisão vocacional?”

Gustavo, a vida é o testemunho que temos. Não tenho dificuldade alguma de responder às perguntas que me expõem como homem. Não fiquei padre por acaso. Tenho uma história e dela não fujo. São Paulo não fez o mesmo? Leia as cartas que ele escreveu. Ele sempre fez referência à vida vivida. Em nenhum momento se esquivou de contar sua história, mas fez dela um instrumental para orientar e sugerir vida nova em Cristo. Não gosto da expressão “não é da sua conta”. Se eu me disponho a ser entrevistado por alguém, tenho que saber que a minha vida será a pauta. Só não admitiria o desrespeito, mas isso não ocorreu. Não vou mentir para o povo. Nas minhas pregações eu falo o tempo todo da minha vida. Não quero bancar o santo. Eu quero é ser santo.

“O senhor comentou, ainda, que “para a gente ser padre, a gente tem que ter amado na vida. É impossível (grifos meus) fazer uma opção pelo celibato, pela vida consagrada, se eu não tiver tido uma experiência de amar alguém de verdade”. O senhor acha, realmente, que o homem que nunca amou uma mulher não sabe amar? Baseado em que o senhor diz isso? Que dizer então do meu pároco que, tendo ido para o seminário aos 11 anos, nunca namorou? Ele é menos feliz por causa disso? Menos decidido pelo sacerdócio? Não creio que isso proceda.”

Digo baseado no fato de ser padre, conviver com padres, morar em seminários desde os 16 anos de idade, ser diretor espiritual de inúmeros seminaristas, padres e freiras. Digo isso porque vivo os bastidores da Igreja. Sou amigo pessoal de muitos bispos, religiosos, diretores de seminários. Tenho 38 anos e sou profundamente interessado pela vida sacerdotal. A minha experiência, e a de tantos que passaram pela minha vida, mostraram-me que o celibato é ESCOLHA. Para haver escolha é preciso que haja possibilidades. Quanto à felicidade de seu pároco, sobre ela não posso dizer, pois não o conheço. Minha fala é fruto do que a vida me mostrou, e só.

“O que se viu nessa malfadada entrevista à rede globo foi a apresentação de um comunicador, um cantor, um filósofo, um homem qualquer. Pudemos enxergar Fábio de Melo. E só. O padre passou desapercebidamente. De comunicadores, cantores e filósofos, já basta: nós os temos em número suficiente! Precisamos de padr es! Padres que são, sim, homens por natureza; mas que tiveram sua dignidade elevada pelo caráter impresso no sacramento da Ordem. Homens que não são “como quaisquer outros” porque receberam a graça e a missão de agir in persona Christi. Temos carência de ver padres que ajam, falem e – até mesmo – se vistam, em conformidade com a sua dignidade sacerdotal.”

Gustavo, se os seus olhos me enxergaram como um “homem qualquer”,perdoe-me. Talvez eu não tenha conseguido revelar a você a sacralidade que move os meus objetivos. Talvez você esteja elevado demais em sua vida espiritual, e necessite de padres mais espiritualizados, menos humanos. Tenho consciência que ninguém precisa ser unanimidade. O que sei é que na Igreja de Cristo há um lugar para um padre com o meu perfil. Eu vejo a obra que Deus tem realizado na minha vida e na vida de tantas pessoas que se identificam com meu trabalho.

Meu filho, eu tenho encontrado pela vida as dores do mundo, e com elas tenho me ocupado. Demorei responder a sua carta justamente por isso. Tenho gastado o meu sangue nesta proeza de ser e agir “ in persona Christi”. Não tenho outro objetivo senão tentar atualizar a presença de Jesus na vida das pessoas. Eu o faço como posso. Evangelizo a partir da teologia que amo, mas também a partir da experiência que me guia. Conheci a Deus através do amor ágape. Fiquei fascinado quando me ensinaram que Deus é um pai amoroso que não despreza os filhos que tem, mesmo quando não correspondem ao que Ele espera. O banquete em sua casa está sempre posto, pronto para receber o filho que tem fome. Adentrei a morada de Deus assim, na condição de homem qualquer, mas o surpreendente é que Ele não me recebeu como homem qualquer. Recebeu-me com festa, com carinho, com misericórdia, pois é capaz de me enxergar para além de minha aparência. É isso que tenho feito, meu caro. Tenho me esmerado para convencer as pessoas de que o mesmo pode acontecer com elas.

Quanto à minha dignidade sacerdotal, esta eu costumo preservar através das minhas atitudes. Minha roupa de padre não me garante muita coisa. O sacerdócio que o povo espera de mim não está no hábito que ostento, mas na sinceridade que preciso ter diante do meu compromisso assumido. Zelo para que Deus não seja transformado numa caricatura qualquer.

“Creio que muitos destes desdobramentos que eu estou expondo não foram sequer imaginados pelo senhor no momento em que concedeu a entrevista, e enquanto respondia às perguntas. Contudo, o ônus de quem se expõe à opinião pública é, exatamente, suportar os possíveis mal-entendidos que se geram quando as palavras são compreendidas de modo diverso da intenção e da mentalidade de quem as proferiu. Espero que tudo que eu falei aqui tenha sido realmente um grande mal-entendido… Sempre cabe, contudo, esclarecer os desentendimentos mais graves que possam prejudicar não só a sua imagem, mas a da Igreja como um todo. Um ensino errado pode levar uma alma à perdição.”

Querido Gustavo, como professor de Hermenêutica eu não tenho dificuldade com os que pensam diferente de mim. Não é nenhum crime termos diferenças. O problema é quando nós fazemos da diferença um motivo de pré julgamento e acusação.

“Perdoe-me, sinceramente, a franqueza e, talvez, a dureza em alguns momentos. Mas eu precisava lhe expor as minhas dúvidas, impressões e inquietudes com relação a essa entrevista. Se o senhor se dignar me responder esta carta, ainda que de modo breve, sucinto, ficaria imensamente grato. Despeço-me rogando mais uma vez a sua bênção e garantindo-lhe as minhas orações em favor de seu sacerdócio e de sua alma. Gustavo Souza, Indigno filho da Santa Igreja Católica”

Perdôo, é claro que perdôo, afinal, este o meu ofício. Como padre eu sou ministro da reconciliação. Confesso que a ira de seus seguidores, blogueiros que acompanham os seus escritos, me feriu muito mais que suas indignações. E é sobre isso gostaria de dizer, ao final desta resposta. Não sei quem é você. Vi a sua foto, aquela em que você diz estar embriagado de Coca Cola, e nada mais. O pouco que sei de você está revelado nos textos do seu blog. Tenho acompanhado seus constantes combates, esforços para diminuir as heresias e afrontas à Igreja. Admiro o seu zelo. Ele expressa o amor que você tem a Deus. Mas confesso que sinto falta de “misericórdia” em suas falas, meu caro.

Gustavo, não faça do seu amor à Igreja um obstáculo ao seu amor pelos mais fracos, pelos diferentes. Defenda tudo o que quiser defender, mas não permita que o seu discurso seja causa de contenda e inimizades. Há sempre um jeito de discordar sem precisar ofender. A ofensa faz crescer o que é diabólico.

Cuidado com as generalizações. Você tem combatido as CEBS. Cuidado. Há muita gente honesta nestes movimentos. Eu as conheço. Vi de perto o trabalho frutuoso, espiritual, humano, salvação total acontecendo em muitos lugares deste grande Brasil. Vi nomes sendo citados de forma banal, irresponsável. Irmã Doroty morreu defendendo o evangelho, meu filho. Gostando você, ou não, ela é foi uma mulher comprometida com as causas de Jesus. É muito triste ver o nome dela citado no seu espaço, como se fosse uma “mulher qualquer”. Chico Mendes foi um homem que defendeu questões nobres. Só por isso já merece o nosso respeito. Frei Beto é um homem fabuloso. Já fez muita gente se aproximar de Deus, por meio de sua inteligência e sabedoria aguçada.

Não limite o seu blog a um lugar de combates. Que seja um lugar de discussões, mas que sejam feitas à luz do princípio fundamental que o evangelho nos sugere: o amor ágape. Gustavo, aproxime-se cada vez mais do Coração de Jesus. Ele é a interpretação da verdade que tanto buscamos compreender. Deus está inteiro em Jesus. O grande desafio da conversão é aproximar a nossa humanidade de sua divindade.

Do Adão que há em nós ao Cristo que nos foi oferecido. Mesmo estando em estágios diferentes, uns mais à frente, outros mais atrasados, não importa. O importante é que saibamos ir juntos. Nossa salvação depende disso. Uma coisa é certa, meu caro. Todos nós estamos desejosos de acertar. Sigamos juntos nesta busca. Com meu carinho e benção,

Pe. Fabio de melo.

 
 
 

Intervenção antes da oração mariana do Ângelus

CIDADE DO VATICANO, domingo, 14 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos, a seguir, as palavras do Papa hoje, ao introduzir a oração do Ângelus na Praça de São Pedro, com peregrinos procedentes dos cinco continentes.

***

Queridos irmãos e irmãs:

O ano litúrgico é um grande caminho de fé, que a Igreja realiza sempre precedida pela Virgem Mãe Maria. Neste ano, nos domingos do Tempo Comum, este itinerário está marcado pela leitura do Evangelho de Lucas, que hoje nos acompanha “num lugar plano” (Lc 6, 17), onde Jesus para com os Doze e onde se reúne uma grande multidão de outros discípulos e de pessoas vindas de todos os lugares para escutá-lo.

É neste contexto que se insere o anúncio das “bem-aventuranças” (Lc 6,20-26; cf. Mt 5,1-12). Jesus, levantando os olhos para os seus discípulos, diz: “Bem-aventurados vós, que agora tendes fome (…). Bem-aventurados vós, que agora chorais (…). Bem-aventurados sereis, quando os homens (…) amaldiçoarem o vosso nome” por minha causa.

Por que os proclama bem-aventurados? Porque a justiça de Deus fará que estes sejam saciados, ressarcidos de toda falsa acusação, enfim, porque os acolhe desde já em seu reino. As bem-aventuranças se baseiam no fato de que existe uma justiça divina, que exalta quem for humilhado e humilha quem se exaltar (cf. Lc 14,11).

De fato, o evangelista Lucas, depois dos quatro “bem-aventurados vós”, acrescenta quatro admoestações: “Ai de vós, os ricos (…). Ai de vós, que agora tendes fartura (…). Ai de vós, que agora rides (…). E “ai de vós quando todos vos elogiam”, porque, como afirma Jesus, as coisas se inverterão, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (cf. Lc 13, 30).

Esta justiça e esta bem-aventurança se realizarão no “Reino de Deus” ou “Reino dos céus”, que terá seu cumprimento no final dos tempos, mas que já está presente na história. Onde os pobres são consolados e admitidos no banquete da vida, lá se manifesta a justiça de Deus.

Esta é a tarefa que os discípulos do Senhor estão chamados a levar a cabo também na sociedade atual. Penso na realidade do Albergue da Cáritas de Roma, na Estação Termini, que visitei nesta manhã: incentivo de coração os que trabalham nesta benemérita instituição e todos que, no mundo inteiro, se empenham gratuitamente em obras similares de justiça e de amor.

O tema da justiça é precisamente o centro da Mensagem para a Quaresma, que começará na próxima quarta-feira, chamada de Cinzas. Hoje desejo, portanto, entregá-la idealmente a todos, convidando-os a lê-la e meditá-la.

O Evangelho de Cristo responde positivamente à sede de justiça do homem, mas de maneira inesperada e surpreendente. Jesus não propõe uma revolução de cunho social ou político, mas a do amor, que realizou com sua cruz e ressurreição. Nela se baseiam as bem-aventuranças, que propõem um novo horizonte de justiça, inaugurado pela Páscoa, graças à qual podemos ser justos e construir um mundo melhor.

Queridos amigos: dirijamo-nos agora a Nossa Senhora. Todas as gerações a proclamarão “bem-aventurada”, porque Ela acreditou na boa notícia que o Senhor anunciou (cf. Lc 1, 45.48). Deixemo-nos guiar por Ela no caminho da Quaresma, para ser libertados da ilusão da autossuficiência, reconhecer que temos necessidade de Deus, da sua misericórdia, e entrar assim em seu Reino de justiça, de amor e de paz.

[Depois o Ângelus, o Papa cumprimentou os diversos grupos de fiéis e peregrinos presentes, saudou os poloneses, recordando a festa de hoje dos santos Cirilo e Metódio, padroeiros da Europa, e disse em Português:]

A minha saudação estende-se também aos peregrinos de língua portuguesa, nomeadamente ao Senhor Cardeal Dom José Policarpo com os seus fiéis do Patriarcado de Lisboa, a quem agradeço a visita de hoje e a oração diária pelo Sucessor de Pedro. Possam irradiar a santidade de Cristo pelos caminhos da vida, particularmente no seio da família e comunidade cristã, que de coração abençoo. [Tradução: Aline Banchieri

©Libreria Editrice Vaticana]

 
 
 
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Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

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