top of page

TODOS OS PRODUTOS

Eventos futuros

Afirma Bento XVI no Ângelus de hoje

CIDADE DO VATICANO, domingo, 26 de junho de 2011 (ZENIT.org) – Sem a Eucaristia, a Igreja não existiria, sublinhou hoje o Papa Bento XVI, ao introduzir a oração do Ângelus com os peregrinos presentes na Praça de São Pedro.

O Santo Padre recordou que, ainda que o Vaticano tenha celebrado o Corpus Christi na última quinta-feira, mantendo a tradição secular, esta festa é celebrada hoje em muitos países – entre eles a própria Itália –, por motivos pastorais.

Por isso, ele quis voltar a falar sobre o significado desta “festa da Eucaristia”, a qual “constitui o tesouro mais precioso da Igreja”.

“A Eucaristia é como o coração pulsante que dá vida a todo o corpo místico da Igreja: um organismo social baseado inteiramente no vínculo espiritual, mas concreto, com Cristo”, afirmou, insistindo em que, “sem a Eucaristia, a Igreja simplesmente não existiria”.

“A Eucaristia é, de fato, o que torna uma comunidade humana um mistério de comunhão, capaz de levar Deus ao mundo e o mundo a Deus.”

“O Espírito Santo transforma o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo; também transforma todos os que o recebem com fé em membros do Corpo de Cristo, para que a Igreja seja verdadeiramente um sacramento de unidade dos homens com Deus e entre eles”, acrescentou.

O Papa afirmou aos presentes que, “em uma cultura cada vez mais individualista, como aquela em que estamos imersos nas sociedades ocidentais, e que tende a se espalhar por todo o mundo, a Eucaristia é uma espécie de ‘antídoto’”.

O vazio produzido pela falsa liberdade pode ser muito perigoso, disse, e, diante disso, “a comunhão com o Corpo de Cristo é o remédio da inteligência e da vontade, para redescobrir o gosto da verdade e do bem comum”.

A Eucaristia “age nas mentes e nos corações dos crentes e que semeia de forma contínua neles a lógica da comunhão, do serviço, da partilha, em suma, a lógica do Evangelho”.

O novo estilo de vida que as primeiras comunidades já mostravam, vivendo em fraternidade e partilhando seus bens, para que ninguém fosse indigente, brotava “da Eucaristia, isto é, de Cristo ressuscitado, realmente presente entre os seus discípulos e operante com a força do Espírito Santo”.

“Também as gerações seguintes, através dos séculos, a Igreja, apesar dos seus limites e erros humanos, continuou sendo no mundo uma força de comunhão”, acrescentou.

 
 
 

Entrevista com Roberto Esteban, autor de “A verdade do amor”

MADRI, sexta-feira, 10 de junho de 2011 (ZENIT.org) – Roberto Esteban Duque é sacerdote, teólogo especializado em matrimônio e família e doutor em teologia moral. Acaba de escrever um ensaio intitulado “A verdade do amor”. Nesta entrevista, ele analisa a ideologia dominante no campo da manipulação da vida e dos pilares da identidade do ser humano.

Roberto Esteban Duque nasceu em Mira (Espanha), em 1963. Foi ordenado pelo bispo José Guerra Campos, em 1991. Cursou teologia na Universidade São Vicente Ferrer de Valência, com especialização em matrimônio e família pela Universidade Pontifícia Lateranense de Roma. É doutor em teologia moral pela faculdade de São Dâmaso de Madri.

ZENIT: O senhor fala em seu livro sobre “bioideologias”. Poderia nos explicar em que consistem e suas consequências para a pessoa humana?

Roberto Esteban Duque: As bioideologias são moralismos que buscam o poder para fazer com outros homens o que lhes compraz. O adversário é a religião tradicional, que pressupõe a existência de uma natureza humana comum, fixa e universal; daí a necessidade de substituir tal religião pela educação. A isso aponta a lei de 2007 de Educação para a Cidadania, aprovada na Espanha. Interessa-lhes mais a modificação da consciência através da cultura que a mudança das estruturas. São aparentemente resíduos das ideologias, mas se diferenciam delas porque sustentam a inexistência de uma natureza humana ou, pelo menos, sua completa modelabilidade,, tanto no humano quanto no natural. Aqui já se pode advertir uma contradição: enquanto a natureza humana não é algo evidente para a opinião pública, exige-se uma quantidade imensa de direitos, apoiando-se nos direitos humanos.

O que as bioideologias apresentam é a construção a la carte da identidade humana. Aqui reside seu êxito. O homem é produto da evolução, muda segundo as circunstâncias e é possível fazê-lo evoluir no sentido desejado. Seus meios preferidos são a reivindicação de direitos, a engenharia educativa e a propaganda, apoiados pela engenharia médica e genética. As bioideologias adotam o papel do vitimismo, a “cultura da reclamação”, muito útil para a propaganda, sendo a discriminação um dos seus conceitos centrais. O ódio e o ressentimento são seus sentimentos básicos, ainda que contem também com seus fins lucrativos.

Outro denominador comum é a eugenesia, que assemelha a natureza humana à natureza animal. Daqui se chega a solicitar a morte por motivos humanitários: aborto, eutanásia, contracepção artificial. Da mesma forma, reivindica-se o “direito” à autodeterminação de quem se considera diferente, acentuando o igualitarismo até limites insuspeitados, como negar as diferenças naturais e biológicas (heterossexuais e homossexuais, idades naturais), exaltando o desvio natural e o patológico, como a homossexualidade e a pedofilia. Seu último fundamento é o emocional: os desejos e os caprichos, produto da moral hedonista. Nega-se a vida natural (desconstrução da natureza humana histórica) e se pretende, a partir de um notável sectarismo, que se aceitem seus preconceitos como verdades irrefutáveis, assumindo um caráter individualista em sua pretensão de libertar o homem das suas ataduras naturais e físicas.

As consequências para a pessoa, como podemos perceber, são múltiplas. Socavam o consenso social e o ethos, levando à ditadura do relativismo e à indiferença, exaltando o igualitarismo, ainda que discriminado aos que não são do grupo. Acreditam que se podem alterar não somente as leis humanas positivas – como as que regem o casamento e a família -, mas as próprias leis da natureza – como a diferença de sexos e as leis que regem a mudança climática. São formas da contracultura, reações intelectuais astênicas contra as normas culturais. Devem sua força à persistência do modo de pensamento ideológico que impregna a cultura dos meios de comunicação, intelectuais e políticos. Apelam à ciência para justificar seus desejos. São meros grupos de pressão que agem na mídia e na cultura, sendo parte do suculento negócio da contracultura. Se não existe uma natureza humana, tudo depende finalmente da vontade de poder.

O ecologismo, a homossexualidade e o feminismo são algumas conhecidas bioideologias. Mas seria bom notar que as bioideologias da saúde atemorizam as pessoas, estendendo o conceito de doença ao que impede a satisfação do desejo. Consideram a gravidez como um mal – daí a distribuição gratuita de anticoncepcionais e a defesa do aborto -, mas consideram a impossibilidade de satisfazer o desejo de ter filhos como equivalente a uma doença e, portanto, esse desejo deve ser satisfeito como problema público, como o caso da reprodução assistida artificial. A demagogia compassiva dos governos intervencionistas, apoiando-se no humanitarismo, faz sua esta bioideologia, justificando o genocídio do aborto e da eutanásia.

ZENIT: O que o senhor pode dizer do atual anteprojeto de lei que neste mês irá a conselho de ministros sobre os direitos do paciente no final da vida? A lei exclui o direito à objeção de consciência dos profissionais da saúde.

Roberto Esteban Duque: A lei da “morte digna” é uma má lei. Por que não se impediu que tirassem a sonda que mantinha com vida Eluana Englaro, em 9 de fevereiro de 2009, fazendo-a morrer por inanição três dias depois, a pedido do pai e com o consentimento posterior da justiça? Esta falta absoluta de amor, que é sempre a matéria pendente, será legalizada na Espanha. Está demonstrado que, nos poucos países em que se aprovou uma lei semelhante, a eutanásia se incrementou de maneira alarmante.

O cardeal Rouco Varela, que reconhece não ter lido o texto aprovado pelo governo, considera que “não é uma lei de eutanásia”. E o cardeal tem razão: não é abertamente uma lei de eutanásia. No entanto, possui uma clara vocação eutanásica, se levarmos em conta que ela considera como cuidados extraordinários a alimentação e a hidratação, o que suporia deixar um paciente morrer de fome e de sede. O caso de Terri Schiavo, privada de hidratação e alimentação por ordem judicial, contra a vontade dos seus pais, que desejavam cuidar dela até o final, é um caso paradigmático dessa má lei. Por outro lado, a lei permite que o paciente e a família obriguem o médico a proporcionar tratamentos contraindicados, como no caso de uma sedação.

A única morte digna é aquela que acontece cercada de amor. Não há segredos nem terapias estranhas, não existe melhor analgésico nem maior excelência no ser humano que amar os moribundos, uma vida entregue, a compaixão e a presença silenciosa, mas habitada pelo milagre do amor, com o fim de permitir viver o tempo que resta da melhor maneira possível, respeitando a autonomia e dignidade do doente. Os instantes últimos da vida podem tornar-se o momento da realização pessoal, o da transformação do ambiente, outorgando assim um sentido humano à vida. Um sofrimento de cruz deveria constituir uma experiência de graça, um caminho de luz e de esperança.

Da mesma forma, duvido que uma lei que pretende impedir que a equipe de saúde exerça a objeção de consciência seja uma melhoria nos cuidados paliativos. Não sabemos ainda por que, nesta declaração, se exclui este direito dos profissionais de saúde, a não ser porque, em efeito, se trata de uma má lei que introduz más práticas.

ZENIT: O senhor acusa duramente todos os feminismos. Não há matizes? De fato, na década de 20 e 30, na Espanha, houve feminismos católicos. Não é verdade que, graças à ação em prol dos direitos de muitas mulheres, hoje a família é mais uma comunidade na qual todos contam, do que uma instituição patriarcal na qual a mulher casada seria considerada menor de idade e precisaria da autorização do marido para uma série de decisões de cunho legal ou profissional?

Roberto Esteban Duque: Você acha que sou duro? Eu só me limito a constatar que a Espanha está encabeçando políticas feministas radicais. Que outra coisa seria a “ideologia de gênero”? As políticas do atual governo da Espanha são paradigmáticas quando às reivindicações feministas na relativização dos papéis sexuais, como o casamento homossexual, a impregnação “de gênero” da educação, como a Educação para a Cidadania, e o favorecimento da promiscuidade sexual, com a distribuição da pílula abortiva.

Naturalmente, existiu um feminismo compatível com o catolicismo, um feminismo clássico, que se limita a estender o princípio da igualdade do sexo feminino perante a lei. Mas logo depois, nos anos 60, politizou-se o âmbito familiar: as fontes de opressão sexual já não são as leis discriminatórias, mas a função de mãe e esposa. A deriva do feminismo rumo à liberdade sexual e a cultura da morte, a anticoncepção e o aborto livre serão seus sinais mais característicos.

O que acontece desde os anos 90? Simples: substitui-se o conceito de sexo (determinação biológica) pelo de gênero (construção cultural), acudindo à demagogia do aprofundamento da democracia e a extensão ou ampliação de direitos, com o fim de politizar o âmbito familiar. São estas as propostas progressistas de que uma nação precisa? Realmente os católicos podem se permitir o luxo de permanecer de braços cruzados e não opor resistência ao que poderíamos chamar de “hegemonia cultural progressista”?

ZENIT: É interessante apresentar as diferentes manifestações de amor através dos clássicos da literatura. Parece que você fica com Rilke. Por que deixar de lado o poeta Karol Wojtyla?

Roberto Esteban Duque: Desconheço os textos de Wojtyla poeta, lamentavelmente. No entanto, estudei seu magistério. Em meu livro sublinho sua norma personalista do amor, sua ideia de pessoa como “um ser para quem a única dimensão adequada é o amor”. Por outro lado, considero necessário o percurso que faço sobre o conhecimento do amor através das linhas de Goethe, Stendhal, Dostoievski ou Proust, entre outros, porque a literatura é um reflexo da realidade, um verdadeiro prolongamento de nossa experiência, estimulando-nos a compreender e desenvolver nossas respostas cognitivas e passionais.

Rainer María Rilke é um poeta intimista e profundo. Comecei a lê-lo quando ingressei no seminário maior de Cuenca. Desde então, não pude me separar dele. A proposta de Rilke é insubstituível: só o Amor, que é Deus, alcançará que a finitude do amor dos infinitos enamorados chegue a sua plenitude e se converta em infinitude em um terceiro termo amoroso. Dito de outro modo, há um “amor maior”, que é Deus, que constitui a verdade da relação amorosa. Só quando o Amor fica inserido na relação entre um homem e uma mulher, o amor permanece.

(Por Nieves San Martín)

 
 
 

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

SÃO PAULO, quinta-feira, 12 de maio de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à liturgia do IV Domingo da Páscoa – At 2, 14. 36-41; 1 Pd 2, 20b-25; Jo 10, 1-10 – redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes – São Paulo). Doutor em liturgia pelo ‘Pontificio Ateneo Santo Anselmo’ (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os comentários à liturgia dominical, às quintas-feiras, na edição em língua portuguesa da Agência ZENIT.

* * *

IV DOMINGO DA PÁSCOA

Leituras: At 2, 14. 36-41; 1 Pd 2, 20b-25; Jo 10, 1 – 10

O Senhor é o pastor que me conduz; para águas repousantes me encaminha” (Sl 22 – Salmo Responsorial).

Com a voz do salmista, a Igreja inteira – que continua celebrando a surpreendente vitória sobre as tribulações e a morte do seu Senhor, crucificado pelos homens mas ressuscitado pelo Pai, segundo o testemunho de Pedro (primeira leitura: At 2, 36) – proclama com alegria e gratidão, neste canto, o âmago da sua nova existência no Senhor. Descobre a si mesma como forte e vencedora dos desafios do mal e dos perseguidores, não por força própria, mas pela força do seu Senhor, que está presente junto dela, guiando-a, como o pastor que guarda e guia o seu rebanho.

Quem poderia imaginar que aquele que iria realizar o papel deste pastor, capaz de infundir tamanha segurança e beatitude nas ovelhas do Senhor, seria um cordeiro, ou melhor, “O Cordeiro”?

O bom pastor se fez cordeiro, dando a própria vida para que as ovelhas tenham a vida. Este é o paradoxo da Páscoa! Esta é a real perspectiva da história, que à luz da páscoa permite aos discípulos de Jesus vislumbrá-la presente até dentro da própria existência, dando-lhes a força de perseverar na esperança e de enfrentar com alegria as tribulações, suportadas por causa da fidelidade ao Senhor (segunda leitura: 1 Pd 2, 20-21).

A visão profética do autor do Apocalipse contempla na sua plenitude a condição de fecundidade e de paz que a Igreja, e cada discípulo e discípula, pode antecipar na esperança. Seguir o caminho de Jesus, partilhar na fé a sorte dele, que por amor se deixou imolar como cordeiro inocente, a fim de resgatar o povo de Deus, disperso pelo pecado como ovelhas desgarradas, significa voltar ao redil do Senhor e encontrar nele segurança, pastagens abundantes e paz. Pedro descreve a mudança de condição da alienação ao encontro, com um novo centro da própria vida em Cristo: “Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda da vossa fé” (1 Pd 2, 25).

Foi o início de uma radical transformação, que João contempla na sua plena florescência: “Esses são os que saíram de uma grande tribulação, lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro… Não passarão fome nem sede, o sol não os prejudicará nem o mormaço, porque o Cordeiro que está no trono os apascentará e os guiará a fontes de água viva. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos” (Ap 7, 13-17).

Seria uma fuga nos sonhos de um futuro improvável, diante das insuportáveis falhas do presente tão opaco?

Os mártires de ontem e de hoje atestam o contrário.

Há alguns dias, entrevistado na TV sobre a escassez de missionários na Amazônia e sobre como enfrentar o desafio de um território tão imenso e de condições de vida bastante difíceis, um bispo daquela região, com uma grande serenidade no rosto e a luminosidade nos olhos de quem já viu muitas vezes as maravilhas operadas pelo Senhor, dentro da fragilidade humana e das estruturas, respondeu: “Vinde conosco, a partilhar este maravilhoso desafio da evangelização na Amazônia! Não tenhais medo! Experimentamos todos os dias como o Senhor tem cuidado de nós, nos sustenta, nos guia e nos dá sua paz e alegria!”.

“O Senhor é o pastor que me conduz; para águas repousantes me encaminha… Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei”. Este bispo humilde e este povo simples e corajoso compuseram seu próprio canto novo ao Senhor bom pastor. Eles nos convidam a nos unirmos a eles e a compormos, nós também, o nosso canto, que proclama a novidade que o Senhor está criando dentro de nós e para nós, acompanhando-nos com alegria e paz, do momento que nos colocamos no seguimento do caminho do Cordeiro que nos precede.

Na Amazônia, assim como na paróquia ou na família, ou em qualquer outro lugar e condição de vida onde o Senhor nos coloca, Ele nos chama a segui-lo. Não podemos esquecer que o nome do Cordeiro e o do Pai estão gravados na nossa fronte, desde o dia do nosso batismo, e que por isso pertencemos a ele e a seu rebanho, de quem ele tem fiel cuidado (cf. Ap 14, 1).

“Cantam um cântico novo diante do trono, diante dos quatro seres vivos e dos anjos. Ninguém podia aprender o cântico, exceto os cento e quarenta e quatro mil resgatados da terra… Eles acompanham o Cordeiro aonde for. Foram resgatados da humanidade como primícias para Deus e para o Cordeiro” (Ap 14, 3-4).

No evangelho de hoje Jesus utiliza a imagem do pastor, bem conhecida na tradição do AT, sobretudo nos profetas (cf. Is 40,11; Jr 23; Ez 34) e nos salmos (cf. 23; 80), e familiar aos seus ouvintes. Com ela Jesus destaca sua tarefa de messias, enviado por Deus em favor de Israel e de todos os povos. Ao redor da imagem do pastor, está gravitando uma série de outras imagens conexas com a atuação do pastor e a vida das ovelhas: a porta do redil, o porteiro que a controla, o estranho que as ovelhas não conhecem, o ladrão que assalta para roubar e matar, o pastor que sai à frente do rebanho para guiá-lo a pastagens seguras, a relação pessoal estabelecida pelo pastor com cada uma das ovelhas.

Outras imagens, sobretudo a do mercenário que foge diante da vinda do lobo, e a do pastor autêntico que, ao invés, luta para defender o rebanho até dar a própria vida por ele, são desenvolvidas na segunda parte do capítulo (10, 11-18). Esta parte será proclamada no quarto domingo da Páscoa do Ano B.

No centro desta encruzilhada de imagens está a pessoa de Jesus – pastor legítimo e porta do redil –, a sua mediação única e a sua missão, caracterizada pela profunda relação existencial estabelecida por ele com cada uma das ovelhas.

Nestas imagens está expressa a história da relação de Deus com o povo de Israel, a experiência pascal do próprio Jesus, e a missão por ele entregue à Igreja, missão a ser desenvolvida no mesmo estilo pascal, de doação de si mesmo e de serviço, doação esta vivenciada pelo próprio Jesus. Ele, o pastor autêntico, teve cuidado do povo que o Pai lhe entregou, até o ponto de doar a própria vida para defender as ovelhas e comunicar-lhes a sua própria vida e a comunhão com o Pai.

A vida inteira de Jesus se apresenta como cumprimento da profecia que pré-anuncia o cuidado do povo por parte de Deus e, ao mesmo tempo, seu severo julgamento sobre os falsos pastores. Por isso os gestos e as palavras de Jesus provocam reações contrastantes: alegria nos simples de coração, que reconhecem a presença de Deus em Jesus, violência nos que se sentem questionados: “Estas palavras provocaram nova divisão entre os judeus. Muitos diziam: Está endemoninhado e louco. Porque o escutais? Outros diziam: Essas palavras não são de um endemoninhado; pode um endemoninhado abrir os olhos dos cegos?” (Jo 10, 19-21).

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Estas palavras abrem as mais profundas perspectivas do serviço de Jesus pastor. O pastor guia as ovelhas para pastagens que se encontram diante delas, Jesus dá a si mesmo como pão da vida: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6, 35).

O pastor guia o rebanho para as águas da torrente, Jesus desperta naqueles que acreditam nele a fonte inesgotável de água viva, que é o próprio Espírito Santo: “‘Se alguém tem sede, venha a mim e beberá, aquele que crêem em mim!’; conforme a palavra da escritura, ‘De seu seio jorrarão rios de água viva’. Ele falava do Espírito que deviam receber aqueles que haviam crido nele” (Jo 7, 37-39).

O caminho a seguir para entrar no redil – que é o Reino de Deus – não está fora, mas dentro de nós: a conversão ao Senhor e a conformação a ele. Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6 ). A relação com ele se torna dinâmica e criadora, um caminho sem fim. A Igreja exprime esta consciência nas três orações que acompanharam a celebração eucarística ao longo da semana, mas sobretudo na celebração deste domingo.

Com a Oração do dia, a Igreja pede que o próprio Senhor conduza o rebanho até a experiência da comunhão divina, para que “possa atingir, apesar de sua fraqueza, a fortaleza do pastor”. No mesmo espírito, a Oração sobre as oferendas invoca a graça de saber apreciar o dinamismo dos mistérios pascais, “para que nos renovem continuamente e sejam fonte de eterna alegria”.

Enquanto a Oração depois da comunhão solicita ao mesmo bom pastor que vele sobre o rebanho a caminho, para que possa chegar a gozar a vida plena, “nos prados eternos, as ovelhas remidas pelo seu sangue”.

Nesta base, a relação entre pastor e ovelhas, entre o mestre e o discípulo, não é somente a do ensino iluminador, nem do exemplo divino a seguir, mas relação de recíproco conhecimento, relação íntima, pessoal, única, e transformadora. “Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora… e caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10, 3-4).

Esta relação de intimidade com o Senhor, fruto do seu amor gratuito, é o cume da nova aliança prometida pelo profeta Jeremias (31,31-34), selada pela presença do mesmo Espírito que nos faz nos relacionarmos com Deus como Pai: “Porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu filho, que clama: Abba, Pai!” (Gl 4,6).

“Procura saber como o homem pode amar a Deus; não encontrarás resposta, a não ser este: Deus o amou primeiro. Deu-se a si mesmo aquele que amamos, deu-nos a capacidade de amar…. pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Santo Agostinho, Sermão 34,1-3; LH, 3ª Semana da páscoa, terça-feira).

Jesus, bom pastor, e “pastor supremo” do rebanho de Deus, com sua atitude de dedicação sem reserva e de serviço à vida das ovelhas até o dom de si próprio, é o modelo daqueles que, em seu nome, exercitam o pastoreio e o cuidado generoso e humilde em prol do rebanho do Senhor. É um confronto desafiador, e por isso também única verdadeira medida para individuar o verdadeiro sentido de todo serviço pastoral na Igreja, e para verificar a autenticidade do ministério na Igreja.

São Pedro orienta os pastores nesta direção, no fim de sua carta: “Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, cuidando dele, não como por coação, mas de livre vontade, como Deus o quer…. Assim quando aparecer o supremo pastor recebereis a coroa imarcescível da glória” ( 1 Pd 5, 2-5).

Nós vivemos desde sempre o pecado da divisão do rebanho do Senhor, em nome de chefes, tradições doutrinais, disciplinas eclesiásticas, que ao pretender possuir com exclusividade a verdade do evangelho acabaram por dividir o próprio Senhor (cf. 1 Cor 1, 10-13). O Senhor Jesus assumiu também este pecado dos discípulos de todo tempo, e fez a superação desta negação da sua cruz, a razão da sua intensa e eterna oração ao Pai, para que os discípulos ao fim “sejam um, como nós” (Jo 17, 11).

A consciência deste pecado estrutural que nos acompanha e nos fere profundamente, e o empenho para voltar à unidade pela qual Jesus morreu e rezou ao Pai, desde o Concílio (cf. o documento Unitatis Redintegratio) faz parte da nossa identidade irrenunciável de cristãos do século XXI. É nossa maneira de caminhar seguindo o Bom Pastor que nos precede para a casa do Pai, para que esta se torne de verdade a casa comum para todos.

 
 
 
CONTATO
Avalie-nosRuimNão muito bomBomMuito bomÓtimoAvalie-nos

Agradecemos pelo envio !

© 2019 - 2023. INTERVENÇÃO DIVINA - Criado por Divino Design.

Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

bottom of page
ConveyThis