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Por Luis Fernando Pérez Tradução: Carlos Martins Nabeto Fonte: http://www.veritatis.com.br/article/4709

Nunca será possível entender a importância da figura do Bispo de Roma, sucessor do Apóstolo Pedro, sem previamente se compreender quem foi aquele homem chamado Simão, filho de Jonas, e qual foi o papel que Nosso Senhor Jesus Cristo quis que desempenhasse em sua Igreja. No Evangelho de João, lemos como ocorreu o primeiro encontro entre Jesus e Simão:

“André, irmão de Simão Pedro, era um daqueles que havia ouvido a João e resolvera seguir a Jesus. Ele falou primeiramente com seu irmão Simão e lhe disse: ‘Encontramos o Messias’ (que traduzido significa ‘o Cristo’). E o levou até Jesus. E olhando-o, Jesus disse-lhe: ‘Tu és Simão, filho de Jonas; serás chamado ‘Cefas” (que quer dizer ‘Pedro’)” (João 1,40-42).

Em um primeiro momento, ninguém diria que estas primeiras palavras de Jesus a Pedro tivessem uma importância além da de estabelecer um primeiro contato entre ambos; porém, sem dúvida alguma, nelas encontramos um elemento essencial para saber quem foi o Apóstolo. Efetivamente, Cristo anuncia a Simão que ele receberá um novo nome, pelo qual será conhecido: Cefas (=Pedro). Mas por que tal mudança? Provavelmente encontraremos a resposta no Antigo Testamento:

“Então Abrão se prostrou sobre o seu rosto e Deus falou com ele, dizendo: ‘Eis o pacto que faço contigo: serás pai de uma multidão de povos. E teu nome não será mais Abrão, mas serás chamado de Abraão, porque te coloquei como pai de uma multidão de povos” (Gênese 17,3-5). “E o varão lhe disse: ‘Qual é o teu nome?’ E ele respondeu: ‘Jacó’. E o varão lhe disse: ‘Teu nome não será mais Jacó, mas Israel, porque lutaste contra Deus e os homens, e venceste'” (Gênese 32,27-28). “E Deus lhe disse: ‘Teu nome é Jacó, mas não mais serás chamado de Jacó; Israel será o teu nome’. E chamou seu nome de Israel. E Deus também lhe disse: ‘Eu sou o Deus todo-poderoso: crescei e multiplicai; uma nação e um conjunto de nações procederão de ti; e reis sairão de ti. A terra que dei a Abraão e a Isaac, a darei a ti; e à tua descendência darei a terra depois de ti'” (Gênese 35,10-12).

Toda vez que Deus altera o nome de alguém, o faz por um motivo bem particular. Ao estabelecer o pacto com Abrão, que significa “pai enaltecido”, o renomeia para Abraão, que significa “pai de uma numerosa multidão”. Tal mudança de nome está totalmente relacionada com o próprio pacto que Deus estabelece com o patriarca. O mesmo ocorre com Jacó, a quem um personagem misterioso que havia lutado com ele o adverte que seu nome passará a ser Israel, que significa “Deus luta” ou “aquele que luta com Deus”, o que é confirmado pelo próprio Senhor quando reafirma o pacto que já houvera feito anteriormente com seu avô Abraão.

Existem outros exemplos do Antigo Testamento em que podemos comprovar que o nome de uma pessoa era intimamente relacionado com certa circunstância da sua vida. Não foi em vão, portanto, que o anjo do Senhor anunciou a José que o fruto do ventre de Maria fôra gerado pelo Espírito Santo, acrescentando ao mesmo tempo que o menino deveria se chamar “Jesus”, que significa “Javé salva” (tal nome definia perfeitamente a missão do Senhor, que haveria de nascer do seio da Virgem Maria).

Considerando todos estes antecedentes, não podemos ignorar o fato de que Jesus, ao estabelecer um novo nome a Simão, logo na primeira vez em que se encontra com ele, estava demonstrando uma qualidade essencial do próprio Simão.

Porém, não seremos nós que o diremos; deixemos que o próprio Senhor nos diga quem é Pedro e quais são os elementos distintivos do seu ministério. Analisemos cada um dos versículos do texto de Mateus 16,13-19:

“Vindo Jesus à região da Cesaréia de Filipe, perguntou aos seus discípulos, dizendo: ‘Quem os homens dizem que é o Filho do Homem?’ Eles disseram: ‘Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; e outros ainda, Jeremias ou algum dos profetas'” (vv.13-14).

Jesus sabia que havia um grande número de especulações acerca da sua identidade, fato este também de total conhecimento dos seus discípulos. Em meio a tanta confusão, o Senhor lhes faz uma pergunta bastante interessante:

“E disse-lhes: ‘E vós? Quem dizeis que eu sou?'” (v.15).

Ora, nem sempre o que cremos acerca de alguém corresponde ao que é realmente essa pessoa. Principalmente quando essa pessoa é o próprio Deus. Vivemos hoje uma situação semelhante àqueles tempos. Os homens especulam muito acerca da verdadeira identidade de Cristo: uns dizem que foi somente um bom mestre; outros, que foi um iluminado que fracassou; outros crêem que foi um guru palestino; outros ainda opinam que foi um extraterrestre; e muitos também o ignoram por completo. Porém, mais uma vez, o que é realmente importante é que nós, seus discípulos, podemos responder à pergunta: “Quem dizeis que eu sou?”. Ora, que aqueles que não conhecem verdadeiramente a Cristo se equivoquem sobre a sua real identidade, até certo ponto é natural; entretanto, nós não podemos nos equivocar. PEDRO NÃO SE EQUIVOCOU:

“Respondendo Simão Pedro, disse: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo'” (v.17).

Eis aí um PONTO FINAL sobre todas as especulações! Jesus é o Messias, o Filho do Deus vivo. Pedro o disse e a questão está encerrada. Pedro fala em nome de todos, já que a pergunta foi dirigida a todos. Em Pedro está a resposta da Igreja à pergunta mais importante que Cristo podia fazer: a pergunta sobre a sua verdadeira identidade! Mas de onde Pedro tirou a sua resposta? Da sua capacidade intelectual? Do seu potencial humano para compreender a verdade sobre Jesus? Não, de algo bem além:

“Então Jesus lhe respondeu: ‘Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque isto não te foi revelado pela carne ou pelo sangue, mas por meu Pai que está nos céus'” (v.18).

Simão soube – e com ele, a Igreja – quem é Jesus por revelação direta de Deus Pai. Não lhe foi revelado por outros homens, mas por Deus. Já sabemos, então, quem é Jesus. Jesus é o Messias, isto é, Jesus Cristo (pois Messias = Cristo). Agora escutemos bem quem é na verdade esse tal Simão, filho de Jonas:

“‘E eu também te digo: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela'” (v.19).

Reflitamos agora por um instante sobre o contexto em que o Senhor diz estas palavras. Simão acaba de declarar quem é Jesus. Cabe agora a Jesus nos dizer quem é o Apóstolo. Já não o chama de Simão, mas de Pedro. Simão havia dito a Jesus: “Tu és Cristo”; e Cristo responde a Simão: “E tu és Pedro”. Da mesma forma como não podemos separar o nome de Cristo e seu significado da pessoa de Jesus, também não podemos separar o nome de Pedro e seu significado da pessoa de Simão. Jesus é o Messias e Simão é a Pedra. E é justamente nesse contexto que Cristo diz: “e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Quem é o Cristo? Jesus, Jesus Cristo. Quem é a pedra sobre a qual Jesus edifica a sua Igreja? A quem foi dado o nome de pedra? A Simão, Pedro.

Muito se tem especulado sobre isto: a pedra é o próprio Pedro ou a sua declaração [de fé] acerca de Cristo? Pelo contexto verificamos que os versículos estão falando de PESSOAS, não de idéias. Trata-se de saber quem é Jesus e de saber quem Jesus diz que Simão é. Uma vez determinado quem é Jesus e quem é Pedro, Jesus edifica a sua Igreja. E nem a Igreja se edifica sem a verdade acerca de Cristo (declarada por Pedro), nem a Igreja se edifica sem a verdade acerca de Pedro (declarada por Cristo).

E é essa Igreja, a verdadeira, a que conhece e confessa quem é Cristo e quem é Pedro, aquela sobre a qual não prevalecerão as portas do Hades [=morte]!

 
 
 

Por Papa Bento XVI Tradução: Vaticano Fonte: Vaticano

Amados Irmãos e Irmãs,

Na nova série de catequeses começamos antes de tudo a compreender melhor o que é a Igreja, qual é a ideia do Senhor sobre esta sua nova família. Depois dissemos que a Igreja existe nas pessoas. E vimos que o Senhor confiou esta nova realidade, a Igreja, aos doze Apóstolos. Agora queremos vê-los um por um, para compreender nas pessoas o que significa viver a Igreja, o que significa seguir Jesus. Começamos com São Pedro.

Depois de Jesus, Pedro é a personagem mais conhecida e citada nos escritos neotestamentários: é mencionado 154 vezes com o cognome de Pétros, “pedra”, “rocha”, que é a tradução grega do nome aramaico que lhe foi dado directamente por Jesus Kefa, afirmado nove vezes sobretudo nas cartas de Paulo; depois, deve-se acrescentar o nome frequente Simòn(75 vezes), que é a forma helenizada do seu original nome hebraico Simeon (2 vezes: Act 15, 14; 2 Pd 1, 1). Filho de João (cf. Jo 1, 42) ou, na forma aramaica, bar-Jona, filho de Jonas (cf. Mt 16, 17), Simão era de Betsaida (cf. Jo 1, 44), uma cidadezinha a oriente do mar da Galileia, da qual provinha também Filipe e naturalmente André, irmão de Simão. O seu modo de falar traía o sotaque galileu. Também ele, como o irmão, era pescador: com a família de Zebedeu, pai de Tiago e de João, dirigia uma pequena empresa de pesca no lago de Genesaré (cf. Lc 5, 10). Por isso devia gozar de um certo bem-estar económico e era animado por um sincero interesse religioso, por um desejo de Deus ele queria que Deus interviesse no mundo um desejo que o estimulou a ir com o irmão até à Judeia para seguir a pregação de João Baptista (cf. Jo 1, 35-42).

Era um judeu crente e praticante, confiante na presença activa de Deus na história do seu povo, e sofria por não ver a sua acção poderosa nas vicissitudes das quais ele era, naquele momento, testemunha. Era casado e a sogra, curada um dia por Jesus, vivia na cidade de Cafarnaum, na casa na qual também Simão vivia quando estava naquela cidade (cf. Mt 8, 14 s; Mc 1, 29 s; Lc 4, 38 s).

Recentes escavações arqueológicas permitiram trazer à luz, sob a pavimentação em mosaicos octagonais de uma pequena igreja bizantina, os vestígios de uma igreja mais antiga existente naquela casa, como afirmam os grafites com invocações a Pedro. Os Evangelhos informam-nos que Pedro é um dos primeiros quatro discípulos do Nazareno (cf. Lc 5, 1-11), aos quais se junta um quinto, segundo o costume de cada Rabino de ter cinco discípulos (cf. Lc 5, 27: chamada de Levi).

Quando Jesus passa de cinco para doze discípulos (cf. Lc 9, 1-6), será clara a novidade da sua missão: Ele já não é um entre tantos rabinos, mas veio para reunir o Israel escatológico, simbolizado pelo número doze, como doze eram as tribos de Israel.

Simão aparece nos Evangelhos com um carácter decidido e impulsivo; ele está disposto a fazer valer as próprias razões também com a força (pense-se no uso da espada no Horto das Oliveiras: cf. Jo 18, 10 s). Ao mesmo tempo, por vezes é também ingénuo e medroso, e contudo honesto, até ao arrependimento mais sincero (cf. Mt 26, 75). Os Evangelhos permitem seguir passo a passo o seu itinerário espiritual. O ponto de partida é a chamada da parte de Jesus. Acontece num dia qualquer, enquanto Pedro está empenhado no seu trabalho de pescador. Jesus encontra-se junto do lago de Genesaré e a multidão reúne-se à sua volta para o ouvir. O número dos ouvintes gera uma certa confusão. O Mestre vê duas barcas ancoradas à margem; os pescadores desceram e lavam as redes. Então Ele pede para entrar na barca, na de Simão, e pede-lhe que se faça ao largo. Sentado naquela cátedra improvisada, da barca, começa a ensinar à multidão (cf. Lc 5, 1-3). E assim a barca de Pedro torna-se a cátedra de Jesus. Quando terminou de falar, diz a Simão: “Faz-te ao largo e lança as redes para a pesca”. Simão responde: “Mestre, trabalhámos durante toda a noite e nada apanhámos; mas, porque tu o dizes, lançarei as redes” (Lc 5, 4-5). Jesus, que era um carpinteiro, não era perito em pesca: mas Simão, o pescador, confia neste Rabino, que não lhe dá respostas mas o chama a ter confiança. A sua reacção diante da pesca milagrosa é de admiração e de trepidação: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5, 8). Jesus responde convidando-o a ter confiança e a abrir-se a um projecto que ultrapassa qualquer sua perspectiva: “Não tenhas receio; de futuro, serás pescador de homens” (Lc 5, 10). Pedro ainda não podia imaginar que um dia teria chegado a Roma e seria nessa cidade “pescador de homens” para o Senhor. Ele aceita esta chamada surpreendente, de se deixar envolver nesta grande aventura: é generoso, reconhece os seus limites, mas crê n’Aquele que o chama e segue o sonho do seu coração. Diz sim um sim corajoso e generoso e torna-se discípulo de Jesus.

Pedro vive outro momento significativo no seu caminho espiritual nas proximidades de Cesareia de Filipe, quando Jesus faz aos discípulos uma pergunta concreta: “Quem dizem os homens que Eu sou?” (Mc 8, 27). Mas para Jesus não era suficiente a resposta do ter ouvido dizer. Daqueles que aceitaram comprometer-se pessoalmente com Ele pretende uma tomada de posição pessoal. Por isso insiste: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” (Mc 8, 29). Responde Pedro também em nome dos outros: “Tu és o Messias” (ibid.), isto é, Cristo. Esta resposta de Pedro, que não veio “da carne e do sangue” dele, mas foi-lhe concedida pelo Pai que está no céu (cf. Mt 16, 17), tem em si como que em gérmen a futura confissão de fé da Igreja. Contudo, Pedro ainda não tinha compreendido o conteúdo profundo da missão messiânica de Jesus, o novo sentido desta palavra: Messias.

Demonstra-o pouco depois, deixando compreender que o Messias que persegue nos seus sonhos é muito diferente do verdadeiro projecto de Deus. Perante o anúncio da paixão escandaliza-se e protesta, suscitando uma reacção enérgica de Jesus (cf. Mc 8, 32-33). Pedro quer um Messias “homem divino”, que cumpra as expectativas do povo impondo a todos o seu poder: é também nosso desejo que o Senhor imponha o seu poder e transforme imediatamente o mundo; Jesus apresenta-se como o “Deus humano”, o servo de Deus, que altera as expectativas da multidão encaminhando-se por uma via de humildade e de sofrimento. É a grande alternativa, que também nós devemos aprender sempre de novo: privilegiar as próprias expectativas recusando Jesus ou acolher Jesus na verdade da sua missão e abandonando as expectativas demasiado humanas.

Pedro impulsivo como é não hesita em repreender Jesus separadamente. A resposta de Jesus abala todas as suas falsas expectativas, quando o chama à conversão e ao seguimento: “Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mc 8, 33). Não me indiques tu o caminho, eu sigo o meu percurso e tu põe-te atrás de mim.

Pedro aprende desta forma o que significa verdadeiramente seguir Jesus. É a sua segunda chamada, análoga à de Abraão em Gn 22, depois de Gn 12: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la” (Mc 8, 34-35). É a lei exigente do seguimento: é preciso saber renunciar, se for necessário, ao mundo inteiro para salvar os verdadeiros valores, para salvar a alma, para salvar a presença de Deus no mundo (cf. Mc 8, 36-37). Mesmo com dificuldade, Pedro aceita o convite e prossegue o seu caminho seguindo os passos do Mestre.

Parece-me que estas diversas conversões de São Pedro e toda a sua figura são de grande conforto e um forte ensinamento para nós. Também nós sentimos o desejo de Deus, também nós queremos ser generosos, mas também nós esperamos que Deus seja forte no mundo e transforme imediatamente o mundo segundo as nossas ideias, segundo as necessidades que vemos. Deus escolhe outro caminho. Deus escolhe o caminho da transformação dos corações no sofrimento e na humildade. E nós, como Pedro, devemos converter-nos sempre de novo. Devemos seguir Jesus em vez de o preceder: é Ele quem nos indica o caminho. Assim Pedro diz-nos: Tu pensas que tens a receita e que deves transformar o cristianismo, mas é o Senhor quem conhece o caminho. É o Senhor que diz a mim, diz a ti: segue-me! E devemos ter coragem e humildade para seguir Jesus, porque Ele é o caminho, a Verdade e a Vida.

O APÓSTOLO

Nestas catequeses estamos a meditar sobre a Igreja. Dissemos que a Igreja vive nas pessoas e, por isso, na última catequese, começámos a meditar sobre as figuras de cada um dos Apóstolos, começando por São Pedro. Vimos duas etapas decisivas da sua vida: a chamada junto do Lago da Galileia e, depois, a profissão de fé: “Tu és Cristo, o Messias”. Uma confissão, dissemos, ainda insuficiente, inicial e contudo aberta. São Pedro coloca-se num caminho de seguimento. E assim, esta confissão inicial tem em si, como em gérmen, já a futura fé da Igreja. Hoje queremos considerar outros dois acontecimentos importantes na vida de Pedro: a multiplicação dos pães ouvimos no trecho agora lido a pergunta do Senhor e a resposta de Pedro e depois o Senhor que chama Pedro para ser pastor da Igreja universal.

Comecemos com a vicissitude da multiplicação dos pães. Vós sabeis que o povo tinha ouvido o Senhor durante horas. No fim, Jesus diz: estão cansados, têm fome, devemos dar de comer a este povo. Os Apóstolos perguntam: Mas como? E André, irmão de Pedro, chama a atenção de Jesus para um jovem que levava consigo cinco pães e dois peixes. Mas o que são para tantas pessoas, interrogam-se os Apóstolos. Mas o Senhor faz sentar as pessoas e distribuir estes cinco pães e os dois peixes e todos se saciam. Aliás, o Senhor encarrega os Apóstolos, e entre eles Pedro, que recolham o que sobrou em abundância: doze cestas de pão (cf. Jo 6, 12-13). Sucessivamente o povo, vendo este milagre que parece ser a renovação, tão esperada de um novo “maná”, do dom do pão do céu deseja fazer dele o seu rei. Mas Jesus não aceita e retira-se para o monte para rezar sozinho. No dia seguinte, Jesus na outra margem do lago, na Sinagoga de Cafarnaum, interpretou o milagre não no sentido de uma realeza sobre Israel com um poder deste mundo no modo esperado pela multidão, mas no sentido da doação de si: “o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo” (Jo 6, 51). Jesus anuncia a cruz, e com a cruz a verdadeira multiplicação dos pães, o pão eucarístico o seu modo absolutamente novo de ser rei, um modo totalmente contrário às expectativas do povo.

Nós podemos compreender como estas palavras do Mestre que não deseja cumprir todos os dias uma multiplicação dos pães, que não quer oferecer a Israel um poder deste mundo pareciam verdadeiramente difíceis, aliás, inaceitáveis para a multidão. “Da sua carne”: O que significa? E também para os discípulos é inaceitável o que Jesus diz neste momento. Era e é para o nosso coração, para a nossa mentalidade, um sermão “duro”, que provava a fé (cf. Jo 6, 60). Muitos dos discípulos se afastaram. Queriam alguém que renovasse realmente o Estado de Israel, do seu povo, e não um que dizia: “Eu dou a minha carne”. Podemos imaginar como as palavras de Jesus eram difíceis também para Pedro, que em Cesareia de Filipe se tinha oposto à profecia da cruz. E contudo quando Jesus perguntou aos doze: “Quereis retirar-vos vós também?”, Pedro reagiu com o impulso do seu coração generoso, guiado pelo Espírito Santo. Em nome de todos respondeu com palavras imortais, que são também nossas: “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna; nós cremos e conhecemos que tu és o Santo de Deus” (cf. Jo 6, 66-69).

Aqui, como em Cesareia, com as suas palavras Pedro começa a profissão da fé cristológica da Igreja e torna-se também o intérprete dos outros Apóstolos e também de nós, crentes de todos os tempos. Isto não significa que já tivesse compreendido o mistério de Cristo em toda a sua profundidade. A sua fé ainda estava no início, uma fé a caminho; teria chegado à verdadeira plenitude apenas mediante a experiência dos acontecimentos pascais. Mas contudo já era fé, aberta à realidade maior aberta sobretudo porque não era fé em algo, era fé em Alguém: n’Ele, Cristo. Assim, também a nossa fé é sempre uma fé inicial, e devemos percorrer ainda um longo caminho. Mas é fundamental que seja uma fé aberta e que nos deixemos guiar por Jesus, porque Ele não só conhece o Caminho, mas é o Caminho.

Mas a generosidade impetuosa de Pedro não o salvaguarda dos riscos relacionados com a debilidade humana. De resto, é o que também nós podemos reconhecer com base na nossa vida. Pedro seguiu Jesus com ímpeto, superou a prova da fé, abandonando-se a Ele. Contudo chega o momento no qual também ele cede aos receios e cai: trai o Mestre (cf. Mc 14, 66-72). A escola da fé não é uma marcha triunfal, mas um caminho repleto de sofrimentos e de amor, de provas e de fidelidade a ser renovada todos os dias. Pedro, que já tinha prometido fidelidade absoluta, conhece a amargura e a humilhação da renegação: o atrevido aprende à sua custa a humildade. Também Pedro deve aprender a ser frágil e carente de perdão. Quando finalmente perde a máscara e compreende a verdade do seu coração frágil de pecador crente, cai num libertador choro de arrependimento. Depois deste choro ele já está pronto para a sua missão.

Numa manhã de Primavera esta missão ser-lhe-á confiada por Jesus ressuscitado. O encontro será na margem do lago de Tiberíades. O evangelista João narra-nos o diálogo que naquela circunstância se realiza entre Jesus e Pedro. Nele revela-se um jogo de verbos muito significativo. Em grego o verbo “filéo” expressa o amor de amizade, terno mas não totalizante enquanto o verbo “agapáo” significa o amor sem reservas, total e incondicionado. Jesus pergunta a Pedro pela primeira vez: “Simão… tu amas-Me (agapâs-me)” com este amor total e incondicionado ( cf. Jo 21, 15)? Antes da experiência da traição o Apóstolo teria certamente respondido: “Amo-Te (agapô-se) incondicionalmente”. Agora, que conheceu a amarga tristeza da infidelidade, o drama da própria debilidade, diz apenas: “Senhor… tu sabes que sou deveras teu amigo (filô-se), isto é, “amo-te com o meu pobre amor humano”. Cristo insiste: “Simão, tu amas-Me com este amor total que Eu quero?”. E Pedro repete a resposta do seu humilde amor humano: “Kyrie, filô-se”, “Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo”. Pela terceira vez Jesus pergunta a Simão: “Fileîs-me?”, “tu amas-Me?”. Simão compreende que para Jesus é suficiente o seu pobre amor, o ùnico de que é capaz, e contudo sente-se entristecido porque o Senhor teve que lhe falar daquele modo. Por isso, responde: “Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo! (filô-se)”. Seria para dizer que Jesus se adaptou a Pedro, e não Pedro a Jesus! É precisamente esta adaptação divina que dá esperança ao discípulo, que conheceu o sofrimento da infidelidade. Surge daqui a confiança que o torna capaz do seguimento até ao fim: “E disse isto para indicar o género de morte com que ele havia de dar glória a Deus. Depois destas palavras acrescentou: “Segue-Me”!” (Jo 21, 19).

A partir daquele dia Pedro “seguiu” o Mestre com a clara consciência da própria fragilidade; mas esta consciência não o desencorajou. De facto, ele sabia que podia contar com a presença do Ressuscitado. Dos ingénuos entusiasmos da adesão inicial, passando pela experiência dolorosa da negação e pelo choro da conversão, Pedro alcançou a confiança naquele Jesus que se adaptou à sua pobre capacidade de amor. E mostra assim também a nós o caminho, apesar da nossa debilidade. Sabemos que Jesus se adapta a esta nossa debilidade.

Nós seguimo-lo com a nossa capacidade de amor e sabemos que Jesus é bom e nos aceita. Para Pedro foi um longo caminho que fez dele uma testemunha de confiança, “pedra” da Igreja, porque constantemente aberto à acção do Espírito de Jesus. O próprio Pedro qualificar-se-á como “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há-de manifestar” (1 Pd 5, 1). Quando escreveu estas palavras já era idoso, encaminhado para a conclusão da sua vida que selou com o martírio.

Então, foi capaz de descrever a alegria verdadeira e de indicar de onde ela pode ser obtida: a fonte é Cristo acreditado e amado com a nossa fé frágil mas sincera, apesar da nossa fragilidade. Por isso escreveu aos cristãos da sua comunidade, e di-lo também a nós: “Sem o terdes visto, vós o amais; sem o ver ainda, credes nele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante, alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas” (1 Pd 1, 8-9).

A PEDRA

Retomamos as catequeses semanais que iniciámos nesta primavera. Na última, de há quinze dias, falei de Pedro como o primeiro dos Apóstolos; hoje, queremos voltar mais uma vez sobre esta grande e importante figura da Igreja. O evangelista João, narrando o primeiro encontro de Jesus com Simão, irmão de André, registra um acontecimento singular: Jesus, “fixando nele o olhar… disse: “Tu és Simão, o filho de João. Hás-de chamar-te Cefas que significa Pedra”” (Jo 1, 42). Jesus não costumava mudar o nome aos seus discípulos. Se excluirmos o apelativo de “filhos do trovão”, dirigido numa circunstância precisa aos filhos de Zebedeu (cf. Mc 3, 17) que não voltou a usar sucessivamente, Ele nunca atribuiu um novo nome a um discípulo seu. Mas fê-lo com Simão, chamado-o Cefas, nome que depois foi traduzido em grego Petros, em latim Petrus. E foi traduzido precisamente porque não era só um nome; era um “mandato” que Pedro recebia daquele modo do Senhor. O novo nome Petrus voltará várias vezes nos Evangelhos e terminará por substituir o nome originário, Simão.

O facto adquire relevo particular se se considera que, no Antigo Testamento, a mudança do nome anunciava em geral a designação de uma missão (cf. Gn 17, 5; 32, 28ss, etc.). De facto, a vontade de Cristo de atribuir a Pedro um papel especial no âmbito do Colégio apostólico resulta de numerosos indícios: em Cafarnaum o Mestre é hospedado em casa de Pedro (Mc 1, 29); quando a multidão se comprime nas margens do lago de Genesaré, entre as duas barcas ali ancoradas, Jesus escolhe a de Simão (Lc 5, 3); quando em circunstâncias particulares Jesus se faz acompanhar só por três discípulos, Pedro é sempre recordado como primeiro do grupo: assim na ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 9, 2; Mt 17, 1; Lc 9, 28), e por fim durante a agonia no Horto do Getsémani (cf. Mc 14, 33; Mt 16, 37). E ainda: dirigem-se a Pedro os cobradores do imposto para o Templo e o Mestre paga para si e somente para ele (cf. Mt 17, 24-27); a quem lava primeiro os pés é a Pedro (cf. Jo 13, 6) e reza unicamente por ele para que não lhe venha a faltar a fé e possa depois confirmar nela os outros discípulos (cf. Lc 22, 30-31).

De resto, o próprio Pedro tem consciência desta sua posição particular: com frequência é ele que, em nome também dos outros, toma a palavra para pedir a explicação de uma parábola difícil (Mt 15, 15), ou o sentido exacto de um preceito (Mt 18, 21) ou a promessa formal de uma recompensa (Mt 19, 27). Em particular, é ele quem resolve o embaraço de determinadas situações intervindo em nome de todos. E também quando Jesus, desanimado pela incompreensão da multidão depois do discurso sobre o “pão de vida”, pergunta: “Também vós quereis ir embora?”, a resposta de Pedro é peremptória: “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna” (cf. Jo 6, 67-69). Igualmente decidida é a profissão de fé que, ainda em nome dos Doze, ele faz perto de Cesareia de Filipe. A Jesus que pergunta: “Vós quem dizeis que Eu sou?”, Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 15-16). Em resposta Jesus pronuncia então a declaração solene que define, de uma vez para sempre, o papel de Pedro na Igreja: “Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja… Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu” (Mt 16. 18-19). As três metáforas às quais Jesus recorre são em si muito claras: Pedro será o fundamento rochoso sobre o qual apoiará o edifício da Igreja; ele terá as chaves do Reino dos céus para abrir ou fechar a quem melhor julgar; por fim, ele poderá ligar ou desligar no sentido que poderá estabelecer ou proibir o que considerar necessário para a vida da Igreja, que é e permanece Cristo. É sempre Igreja de Cristo e não de Pedro. Deste modo, é descrito com imagens de plástica evidência o que a reflexão sucessiva qualificará com a palavra de “primazia de jurisdição”.

Esta posição de preeminência que Jesus decidiu conferir a Pedro verifica-se também depois da ressurreição: Jesus encarrega as mulheres de ir anunciar a Pedro, distintamente dos outros Apóstolos (cf. Mc 16, 7); Madalena vai ter com ele e com João para os informar que a pedra tinha sido afastada da entrada do sepulcro (cf. Jo 20, 2) e João dá-lhe a precedência quando chegam diante do túmulo vazio (cf. Jo 20, 4-6); será depois Pedro, entre os Apóstolos, a primeira testemunha de uma aparição do Ressuscitado (cf. Lc 24, 34; 1 Cor 15, 5). Este seu papel, realçado com decisão (cf. Jo 20, 3-10), marca a continuidade entre a preeminência obtida no grupo apostólico e a preeminência que continuará a ter na comunidade que nasceu depois dos acontecimentos pascais, como afirma o Livro dos Actos (cf. 1, 15-26; 2, 14-40; 3, 12-26; 4, 8-12; 5, 1-11.29; 8, 14-17; 10; etc.). O seu comportamento é considerado tão decisivo, que está no centro de observações e também de críticas (cf. Act 11, 1-18; Gl 2, 11-14). Ao chamado Concílio de Jerusalém Pedro desempenha uma função directiva (cf. Act 15 3; Gl 2, 1-10), e precisamente por este seu ser como testemunha da fé autêntica o próprio Paulo reconhecerá nele uma certa qualidade de “primeiro” (cf. 1 Cor 15, 5; Gl 1, 18; 2, 7s.; etc.). Depois, o facto de que vários textos-chave relativos a Pedro possam ser relacionados com o contexto da Última Ceia, na qual Cristo confere a Pedro o ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22, 31s.), mostra como a Igreja que nasce do memorial pascal celebrado na Eucaristia tenha no ministério confiado a Pedro um dos seus elementos constitutivos.

Esta contextualização da Primazia de Pedro na Última Ceia, no momento institutivo da Eucaristia, Páscoa do Senhor, indica também o sentido último desta Primazia: Pedro deve ser, para todos os tempos, o guardião da comunhão com Cristo; deve guiar à comunhão com Cristo; deve preocupar-se por que a rede não se rompa e assim possa perdurar a comunhão universal. Só juntos podemos estar com Cristo, que é o Senhor de todos. A responsabilidade de Pedro é garantir assim a comunhão com Cristo com a caridade de Cristo, conduzindo à realização desta caridade na vida de todos os dias. Rezemos para que a Primazia de Pedro, confiada a pobres pessoas humanas, possa ser sempre exercida neste sentido originário querido pelo Senhor e, assim, possa ser cada vez mais reconhecida no seu verdadeiro significado pelos irmãos que ainda não estão em plena comunhão connosco.

 
 
 

Ao apresentar na audiência geral a figura do pontífice Leão Magno

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 5 de março de 2008 (ZENIT.org).- O primado do Papa é necessário para a comunhão da Igreja universal, declara Bento XVI.

Assim explicou hoje aos mais de 7 mil peregrinos congregados na Sala Paulo VI por ocasião da audiência geral, dedicada ao Papa São Leão Magno (falecido no ano 461), na qual continuou com a série de catequeses em que está apresentando os Padres da Igreja.

Como não cabiam na sala todos os peregrinos, o Papa saudou outros milhares de fiéis na Basílica de São Pedro do Vaticano, onde se encontram precisamente os restos mortais daquele pontífice.

Rememorando a figura do primeiro Papa que assumiu o nome de Leão, Bento XVI mostrou «como o exercício do primado romano era necessário então, como o é hoje, para servir eficazmente a comunhão, característica da única Igreja de Cristo».

E o Papa Joseph Ratzinger o mostrou evocando o ministério de seu predecessor: «Leão Magno, constantemente requerido por seus fiéis e pelo povo de Roma, assim como pela comunhão entre as diferentes Igrejas e por suas necessidades, apoiou e promoveu incansavelmente o primado romano, apresentando-se como um autêntico herdeiro do apóstolo Pedro».

«Os numerosos bispos, em boa parte orientais, reunidos no Concílio de Calcedônia, demonstraram que eram sumamente conscientes disso», continuou explicando.

Celebrado no ano 451, com 350 bispos participantes, este Concílio se converteu na assembléia mais importante celebrada até então na história da Igreja e culminou o processo dos três concílios precedentes, com o qual se formulou a natureza divina e humana da Pessoa do Filho de Deus.

O Papa enviou uma carta ao bispo de Constantinopla sobre a natureza de Jesus, que ao ser lida na assembléia, foi acolhida, segundo recordou o Papa, «pelos bispos presentes com uma aclamação eloqüente, registrada nas atas do Concílio: ‘Pedro falou pela boca de Leão’, exclamaram unidos os padres conciliares».

Naquela intervenção e em outras pronunciadas durante a controvérsia sobre a natureza de Cristo daqueles anos, «torna-se evidente que o Papa experimentava com particular urgência as responsabilidades do sucessor de Pedro».

Seu papel, declarou, «é único na Igreja». «E o pontífice soube exercer estas responsabilidades, tanto no Ocidente como no Oriente, intervindo em diferentes circunstâncias com prudência, firmeza e lucidez, através de seus escritos e de seus legados.»

Leão Magno exerceu este ministério estando perto do povo e dos fiéis «com a ação pastoral e a pregação», recordou o Papa.

Em particular, explicou, «alentou a caridade em uma Roma afetada pelas carestias, pela chegada de refugiados, pelas injustiças e pela pobreza. Enfrentou as superstições pagãs e a ação dos grupos maniqueístas».

Mas em particular, Bento XVI sublinhou uma das grandes preocupações do Papa Leão:«ligou a liturgia à vida cotidiana dos cristãos: por exemplo, unindo a prática do jejum à caridade e à esmola».

«Leão Magno ensinou a seus fiéis – e suas palavras continuam sendo válidas para nós – que a liturgia cristã não é a lembrança de acontecimentos passados, mas a atualização de realidades invisíveis que atuam na vida de cada um.»

Esta foi a conclusão da intervenção: «Aprendamos, portanto, com São Leão Magno, a crer em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, e a viver esta fé cada dia na ação pela paz e no amor ao próximo».

 
 
 
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