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Por Papa Bento XVI Tradução: Zenit Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Nas últimas catequeses, fizemos uma excursão pelas Igrejas do Oriente de língua semítica, meditando sobre Afraates, o persa, e Santo Efrém, o sírio; hoje regressamos ao mundo latino, ao norte do Império Romano, com São Cromácio de Aquiléia. Este bispo desempenhou seu ministério na antiga Igreja de Aquiléia, fervoroso centro de vida cristã situado na Décima região do Império Romano, a Venetia et Histria.

No ano 388, quando Cromácio subiu à cátedra episcopal da cidade, a comunidade cristã local já havia amadurecido uma gloriosa história de fidelidade ao Evangelho. Entre a segunda metade do século III e os primeiros anos do IV, as perseguições de Décio, de Valeriano e de Diocleciano haviam colhido um grande número de mártires. A Igreja de Aquiléia também havia tido de enfrentar, como as demais Igrejas da época, a ameaça da heresia ariana. O próprio Atanásio, o arauto da Ortodoxia de Nicéia, a quem os arianos haviam expulsado ao exílio, encontrou refúgio durante um tempo em Aquiléia. Sob a guia de seus bispos, a comunidade cristã resistiu às insídias da heresia e reforçou sua adesão à fé católica.

Em setembro do ano 381, Aquiléia foi sede de um sínodo, que reuniu cerca de 35 bispos da costa da África, do Vale do Rin, e de toda a Décima região. O sínodo pretendia acabar com os últimos resíduos de arianismo no Ocidente. No Concílio participou o presbítero Cromácio como perito do bispo de Aquiléia, Valeriano (370/1-387/8). Os anos em torno do sínodo do ano 381 representam a «idade de ouro» da comunidade de Aquiléia. São Jerônimo, que havia nascido em Dalmácia, junto com Rufino de Concórdia falam com nostalgia de sua permanência em Aquiléia (370-373), naquela espécie de cenáculo teológico que Jerônimo não hesita em definir como «tamquam chorus beatorum» (Crônica: PL XXVII, 697-698). Neste cenáculo, que em certos aspectos recorda as experiências comunitárias vividas por Eusébio de Vercelli e por Agostinho, conformam-se as personalidades mais notáveis das Igrejas do Alto Adriático.

Mas já em sua família, Cromácio havia aprendido a conhecer e a amar Cristo. Ele nos fala dela com palavras cheias de admiração; o próprio Jerônimo compara a mãe de Cromácio com a profetiza Ana, a suas irmãs com as virgens prudentes da parábola evangélica, e o próprio Cromácio e seu irmão Eusébio com o jovem Samuel (cf. Epístola VII: PL XXII, 341). Jerônimo segue dizendo: «O beato Cromácio e o santo Eusébio eram tão irmãos de sangue como pela união de ideais» (Epístola VIII: PL XXII, 342).

Cromácio havia nascido em Aquiléia no ano 345. Foi ordenado diácono e depois presbítero; por último, foi eleito pastor daquela Igreja (ano 388). Após receber a consagração episcopal do bispo Ambrósio, dedicou-se com valentia e energia a uma ingente tarefa pela extensão do campo que havia sido confiado à sua atenção pastoral: a jurisdição eclesiástica de Aquiléia, que se estendia desde os territórios da atual Suíça, Baviera, Áustria e Eslovênia, até chegar à Hungria.

É possível imaginar como Cromácio era conhecido e estimado na igreja de seu tempo por um episódio da vida de São João Crisóstomo. Quando o bispo de Constantinopla foi exilado de sua sede, escreveu três cartas a quem considerava como os mais importantes bispos do ocidente para alcançar seu apoio ante os imperadores: uma carta foi escrita ao bispo de Roma, a segunda ao bispo de Milão e a terceira ao bispo de Aquiléia, ou seja, Cromácio (Epístola CLV: PG LII, 702). Também para ele eram tempos difíceis por causa da precária situação política. Com toda probabilidade, Cromácio faleceu no exílio, em Grado, enquanto tentava escapar dos saques dos bárbaros, no mesmo ano 407, no qual também morria Crisóstomo.

Por prestígio e importância, Aquiléia era a quarta cidade da península italiana, e a nona do Império romano: por este motivo, chamava a atenção dos godos e dos hunos. Além de causar graves lutos e destruição, as invasões destes povos comprometeram gravemente a transmissão das obras dos Padres conservadas na biblioteca episcopal, rica em códices. Perderam-se também os escritos de Cromácio, que se dispersaram, e com freqüência foram atribuídos a outros autores: a João Crisóstomo (em parte, por causa de que seus dois nomes começavam da mesma forma: «Chromatius» como «Chrysostomus») ou a Ambrósio e a Agostinho; e inclusive a Jerônimo, a quem Cromácio havia ajudado muito na revisão do texto e na tradução latina da Bíblia. A redescoberta de grande parte da obra de Cromácio se deve a afortunadas vicissitudes, que permitiram nos anos recentes reconstruir um corpus de escritos bastante consistente: mais de quarenta sermões, dos quais uma dezena em fragmentos, além de aproximadamente sessenta tratados de comentário ao Evangelho de São Mateus.

Cromácio foi um sábio mestre e zeloso pastor. Seu primeiro e principal compromisso foi o de pôr-se à escuta da Palavra para ser capaz de converter-se em seu arauto: em seu ensinamento, ele sempre se baseava na Palavra de Deus e a ela regressava sempre. Alguns temas eram predominantes nele: antes de tudo, o mistério da Trindade, que contempla em sua revelação através da história da salvação. Depois está o tema do Espírito Santo: Cromácio recorda constantemente aos fiéis a presença e a ação da terceira Pessoa da Santíssima Trindade na vida da Igreja.

Mas o santo bispo enfrenta com particular insistência o mistério de Cristo. O Verbo encarnado é verdadeiro Deus e verdadeiro homem: assumiu integralmente a humanidade para entregar-lhe como dom a própria divindade. Estas verdades, repetidas com insistência, em parte em chave antiariana, levariam, cerca de cinqüenta anos depois, à definição do Concílio de Calcedônia.

O fato de sublinhar intensamente a natureza humana de Cristo leva Cromácio a falar da Virgem Maria. Sua doutrina mariológica é precisa. Devemos-lhe algumas descrições sugestivas da Virgem Santíssima: Maria é a «virgem evangélica capaz de acolher Deus»; é a «ovelha imaculada» que gerou o «cordeiro coberto de púrpura» (cf. Sermo XXIII, 3: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/1, p. 134).

O bispo de Aquiléia põe freqüentemente a Virgem em relação com a Igreja: ambas, de fato, são «virgens» e «mães». A eclesiologia de Cromácio se desenvolve sobretudo no comentário a Mateus. Estes são alguns dos conceitos repetidos: a Igreja é única, nasceu do sangue de Cristo; é um vestido precioso tecido pelo Espírito Santo; a Igreja está ali onde se anuncia que Cristo nasceu da Virgem, onde floresce a fraternidade e a concórdia. Uma imagem particularmente querida por Cromácio é a do barco no mar na tempestade – viveu em uma época de tempestades, como vimos: «Não há dúvida, afirma o santo bispo, de que esta nave representa a Igreja» (cf. Tract. XLII, 5: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/2, p. 260).

Como zeloso pastor, Cromácio sabe falar à sua gente com uma linguagem fresca, colorida e incisiva. Sem ignorar a perfeita construção latina, prefere recorrer à linguagem popular, rica de imagens facilmente compreensíveis. Deste modo, por exemplo, usando a imagem do mar, põe em relação por uma parte a pesca natural de peixes que, deixados na margem, morrem; e por outra, a pregação evangélica, graças à qual os homens são salvos das águas da morte, e introduzidos na verdadeira vida (cf. Tract. XVI, 3: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/2, p. 106).

Desde o ponto de vista do bom pastor, em um período difícil como o seu, flagelado pelos saques dos bárbaros, sabe pôr-se sempre ao lado dos fiéis para alentar-lhes e para abrir seu espírito à confiança em Deus, que nunca abandona a seus filhos.

Recolhemos, no final, como conclusão destas reflexões, uma exortação de Cromácio que ainda hoje continua sendo válida: «Invoquemos o Senhor com todo o coração e com toda a fé – recomenda o bispo de Aquiléia em um Sermão; peçamos-lhe que nos liberte de toda incursão dos inimigos, de todo temor dos adversários. Que não leve em conta nossos méritos, mas sua misericórdia. Que nos proteja com seu acostumado amor misericordioso, e que atue através de nós o que disse São Moisés aos filhos de Israel: ‘O Senhor lutará em vossa defesa e vós ficareis em silêncio’. Quem luta é Ele e é Ele quem vence…E para que se digne fazê-lo, temos de rezar tudo o que for possível. Ele mesmo diz pelos lábios do profeta: ‘Invoca-me no dia da tribulação; eu te libertarei e tu me glorificarás’ (Sermo XVI, 4: «Scrittori dell’area santambrosiana» 3/1, pp. 100-102).

Deste modo, precisamente no início do Advento, São Cromácio nos recorda que o Advento é tempo de oração, no qual é necessário entrar em contato com Deus. Deus nos conhece, Ele me conhece, conhece cada um de nós, Ele me ama, não me abandona. Sigamos adiante com esta confiança no tempo litúrgico recém-começado.

 
 
 

Por Papa Bento XVI Tradução: Zenit Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Nas últimas catequeses, falei de dois grandes doutores da Igreja do século IV, Basílio e Gregório de Nazianzeno, bispo em Capadócia, na atual Turquia. Hoje falaremos de um terceiro, o irmão de Basílio, São Gregório de Nisa, homem de caráter meditativo, com grande capacidade de reflexão e uma inteligência desperta, aberta à cultura de seu tempo. Converteu-se assim em um pensador original e profundo da história do cristianismo.

Nasceu por volta do ano 335; sua formação cristã foi atendida particularmente por seu irmão Basílio, definido por ele como «pai e mestre» (Epístola 13, 4:SC 363, 198), e por sua irmã Macrina. Em seus estudos, gostava particularmente da filosofia e da retórica. Em um primeiro momento, ele se dedicou ao ensino e se casou. Depois, como seu irmão e sua irmã, entregou-se totalmente à vida ascética. Mais tarde, foi eleito bispo de Nisa, convertendo-se em pastor zeloso, conquistando a estima da comunidade. Acusado de malversações econômicas por seus adversários hereges, teve de abandonar brevemente sua sede episcopal, mas depois regressou triunfantemente (cF. Epístola 6:SC 363, 164-170), e continuou comprometendo-se na luta por defender a autêntica fé.

Após a morte de Basílio, recolhendo sua herança espiritual, cooperou sobretudo no triunfo da ortodoxia. Participou de vários sínodos; procurou dirimir os enfrentamentos entre as Igrejas; participou na reorganização eclesiástica e, como «coluna da ortodoxia», foi um dos protagonistas do Concílio de Constantinopla do ano 381, que definiu a divindade do Espírito Santo.

Teve vários encargos oficiais por parte do imperador Teodósio, pronunciou importantes homilias e discursos fúnebres, compôs várias obras teológicas. No ano 394 voltou a participar de um sínodo que se celebrou em Constantinopla. Desconhece-se a data de sua morte.

Gregório expressa com clareza a finalidade de seus estudos, objetivo supremo ao que dedica seu trabalho teológico: não entregar a vida a coisas banais, mas encontrar a luz que permita discernir o que é verdadeiramente útil (cf. «In Ecclesiasten hom. »1: SC 416, 106-146).

Encontrou este bem supremo no cristianismo, graças ao qual é possível «a imitação da natureza divina» («De professione christiana»: PG 46, 244C). Com sua aguda inteligência e seus amplos conhecimentos filosóficos e teológicos, defendeu a fé cristã contra os hereges, que negavam a divindade do Espírito Santo (como Eunômio e os macedônios), ou questionavam a perfeita humanidade de Cristo (como Apolinário). Comentou a Sagrada Escritura, meditando na criação do homem. A criação era para ele um tema central. Ele via na criatura um reflexo do Criador e a partir daí encontrava o caminho para Deus.

Mas também escreveu um importante livro sobre a vida de Moisés, a quem apresenta como homem em caminho para Deus: esta ascensão para o Monte Sinai se converte para ele em uma imagem de nossa ascensão na vida humana para a verdadeira vida, para o encontro com Deus. Interpretou também a oração do Senhor, o Pai Nosso e as Bem-aventuranças. Em seu «Grande discurso catequético» («Oratio catechetica magna»), expôs as linhas fundamentais da teologia, não de uma teologia acadêmica, fechada em si mesma, mas ofereceu aos catequistas um sistema de referência para seus ensinamentos, como uma espécie de padrão no qual se move depois a interpretação pedagógica da fé.

Gregório também é insigne por sua doutrina espiritual. Sua teologia não era uma reflexão acadêmica, mas a expressão de uma vida espiritual de uma vida de fé vivida. Como grande «padre de mística», apresentou em vários tratados – como o «De professione christiana» e o «De perfectione christiana» – o caminho que os cristãos têm de empreender para alcançar a verdadeira vida, a perfeição.

Exaltou a virgindade consagrada («De virginitate»), e propôs um modelo insigne na vida de sua irmã Macrina, que foi para ele sempre uma guia, um exemplo (cf. «Vita Macrinae»). Pronunciou vários discursos e homilias, escreveu numerosas cartas. Comentando a criação do homem, Gregório sublinha que Deus, «o melhor dos artistas, forja nossa natureza de maneira que seja capaz do exercício da realeza. Por causa da superioridade da alma, e graças à própria conformação do corpo, faz que o homem seja realmente idôneo para desempenhar o poder régio» («De hominis opificio» 4: PG 44, 136B).

Mas vemos como o homem, na rede dos pecados, com freqüência abusa da criação e não exerce a verdadeira realeza. Por este motivo, para desempenhar uma verdadeira responsabilidade ante as criaturas, tem de ser penetrado por Deus e viver em sua luz. O homem, de fato, é um reflexo dessa beleza original que é Deus: «Tudo o que Deus criou era ótimo», escreve o santo bispo. E acrescenta: «A narração da criação testemunha isso (cf. Gêneses 1, 31). Entre as coisas ótimas também se encontrava o homem, dotado de uma beleza muito superior à de todas as coisas belas. Que outra coisa podia ser tão bela como a que era semelhante à beleza pura e incorruptível?… Reflexo e imagem da vida eterna, ele era realmente belo, mais ainda, belíssimo, com o sinal radiante da vida em seu rosto» («Homilia in Canticum» 12: PG 44, 1020).

O homem foi honrado por Deus e colocado acima de toda criatura: «O céu não foi feito à imagem de Deus, nem a lua, nem o sol, nem a beleza das estrelas, nem nada do que aparece na criação. Só tu (alma humana) foste feita à imagem da natureza que supera toda inteligência, semelhante à beleza incorruptível, marca da verdadeira divindade, espaço de vida bem-aventurada, imagem da verdadeira luz, e ao contemplar-te te convertes no que Ele é, pois por meio do raio refletido que provém de tua pureza tu imitas aquele que brilha em ti. Nada do que existe é tão grande que possa ser comparado à tua grandeza» («Homilia in Canticum 2»: PG 44, 805D).

Meditemos neste elogio do homem. Vejamos também como o homem foi degradado pelo pecado. E procuremos voltar à grandeza originária: somente se Deus está presente, o homem alcança sua verdadeira grandeza.

O homem, portanto, reconhece dentro de si o reflexo da luz divina: purificando seu coração, volta a ser, como era no início, uma imagem límpida de Deus, Beleza exemplar (cf. «Oratio catechetica 6»: SC 453, 174). Deste modo, o homem, purificando-se, pode ver Deus, como os puros de coração (cf. Mateus 5, 8):«Se, com um estilo de vida diligente e atento, lavas as fealdades que se depositaram em teu coração, resplandecerá em ti a beleza divina… Contemplando-te a ti mesmo, verás em ti o desejo de teu coração e serás feliz» («De beatitudinibus, 6»:PG 44, 1272AB). Portanto, é preciso lavar as fealdades que se depositaram em nosso coração e voltar a encontrar em nós mesmos a luz de Deus.

O homem tem como fim, portanto, a contemplação de Deus. Só nela poderá encontrar sua plenitude. Para antecipar em certo sentido este objetivo já nesta vida, tem de avançar incessantemente a uma vida espiritual, uma vida de diálogo com Deus. Em outras palavras – e esta é a lição importante que São Gregório de Nisa nos deixa – a plena realização do homem consiste na santidade, em uma vida vivida no encontro com Deus, que deste modo se torna luminosa também para os demais, também para o mundo.

ENSINAMENTOS

Eu vos proponho alguns aspectos da doutrina de São Gregório de Nisa, de quem já falamos na quarta-feira passada. Antes de tudo, Gregório manifesta uma concepção muito elevada da dignidade do homem. O fim do homem, diz o santo bispo, é o de tornar-se semelhante a Deus, e este fim se alcança sobretudo através do amor, do conhecimento e da prática das virtudes, «raios luminosos que descendem da natureza divina» («De beatitudinibus» 6: PG 44, 1272C), com um movimento perpétuo de adesão ao bem, como o corredor que tende para frente.

Gregório utiliza neste sentido uma imagem eficaz, que já estava presente na carta de Paulo aos Filipenses: «épekteinómenos» (3, 13), ou seja, «tendendo-me» para o que é maior, para a verdade e o amor. Esta expressão plástica indica uma realidade profunda: a perfeição que queremos encontrar não é algo que se conquista para sempre; perfeição é seguir o caminho, é uma contínua disponibilidade para seguir adiante, pois nunca se alcança a plena semelhança com Deus; sempre estamos a caminho (cf. «Homilia in Canticum 12»: PG 44, 1025d). A história de cada alma é a de um amor que é cumulado em cada ocasião, e que ao mesmo temo está aberto a novos horizontes, pois Deus dilata continuamente as possibilidades da alma para torná-la capaz de bens sempre maiores. O próprio Deus semeou em nós sementes de bem e d’Ele surge toda iniciativa de santidade, «modela o bloco… Limando e polindo nosso espírito forma, Cristo em nós» («In Psalmos 2», 11: PG 44, 544B).

Gregório declara: «Não é obra nossa, e não é tampouco o êxito de uma potência humana o chegar a ser semelhantes à Divindade, mas o resultado da generosidade de Deus, que desde sua origem ofereceu à nossa natureza a graça da semelhança com Ele» («De virginitate 12», 2:SC 119, 408-410). Para a alma, portanto, «não se trata de conhecer algo de Deus, mas de ter Deus em si» («De beatitudinibus 6»: PG 44,1269c). De fato, constata agudamente Gregório, «a divindade é pureza, é libertação das paixões e remoção de todo mal: se tudo isso está em ti, Deus realmente está em ti» («De beatitudinibus 6»: PG 44,1272C).

Quando temos Deus em nós, quando o homem ama Deus, por essa reciprocidade que é própria da lei do amor, quer o que Deus mesmo quer (cf. «Homilia in Canticum 9»: PG 44,956ac), e, portanto, coopera com Deus para modelar em si a imagem divina, de maneira que «nosso nascimento espiritual é o resultado de uma opção livre, e nós somos em certo sentido os pais de nós mesmos, criando-nos de uma opção livre, e nós mesmos queremos ser, e formando-nos por nossa vontade segundo o modelo que escolhemos» («Vita Moysis 2», 3: SC 1bis, 108).

Para ascender a Deus, o homem deve purificar-se: «A vida que reconduz a natureza humana ao céu não é mais que se afastar dos maus deste mundo… Tornar-se semelhante a Deus significa chegar a ser justo, santo e bom… Se, portanto, segundo o Eclesiastes (5,1), ‘Deus está no céu’ e se, segundo o profeta (Salmo 72, 28), vós ‘estais com Deus’, isso quer dizer necessariamente que tendes de estar ali onde está Deus, pois estais unidos a Ele. Dado que Ele vos ordenou que, quando rezardes, deveis chamar Deus de Pai, está vos dizendo que sejais semelhantes ao vosso Pai celestial, com uma vida digna de Deus, como o Senhor nos ordena com mais clareza em outro momento, quando diz: ‘Sede perfeitos como é perfeito vosso Pai celestial’ (Mateus 5, 48)» («De oratione dominica 2»: PG 44, 1145ac).

Neste caminho de ascensão espiritual, Cristo é o modelo e o mestre que nos permite ver a bela imagem de Deus (cf. «De perfectione christiana»: PG 46,272a ). Cada um de nós, contemplando-O, se converte no «pintor da própria vida», fazendo que a vontade seja a realizadora do trabalho e as virtudes, como as pinturas das quais pode servir-se (ibidem: PG 46, 272b). Portanto, se o homem é considerado digno do nome de Cristo, como deve comportar-se? Gregório responde assim: tem de «examinar sempre em sua intimidade os pensamentos, as palavras e as ações, para ver se estão dirigidos a Cristo ou se afastam dele» (ibidem: PG 46,284c). E este ponto é importante para o valor que dá à palavra «cristão». Cristão é quem leva o nome de Cristo e, portanto, deve assemelhar-se a Ele também na vida. Nós, os cristãos com o Batismo, assumimos uma grande responsabilidade.

Pois bem, Cristo, recorda Gregório, está presente também nos pobres, de maneira que eles jamais podem ser ultrajados: «Não desprezeis aqueles que estão prostrados, como se por este motivo não valessem nada. Considera quem são e descobrirás qual é a sua dignidade: representam a Pessoa do Salvador. E assim é, pois o Senhor, em sua bondade, lhes prestou sua própria Pessoa para que, através dela, tenham compaixão por aqueles que são duros de coração e inimigos dos pobres» («De pauperibus amandis»: PG 46,460bc). Gregório, como dizíamos, fala de uma ascensão: ascensão a Deus na oração através da pureza de coração; mas ascensão a Deus também mediante o amor ao próximo. O amor é a escada que leva a Deus. Portanto, Gregório de Nisa exorta vivamente aos que o escutavam: «Sê generoso com estes irmãos, vítimas da desventura. Dá ao faminto o que tiras do teu estômago» (ibidem: PG 46,457c).

Com muita clareza, Gregório recorda que todos nós dependemos de Deus, e por isso exclama: «Não penseis que tudo é vosso! Tem de haver também uma parte para os pobres, os amigos de Deus. A verdade, de fato, é que tudo procede de Deus, Pai universal, e que somos irmãos, e pertencemos a uma mesma estirpe» (Ibidem:PG 46, 465b). Então, o cristão deve examinar-se, continua insistindo Gregório: «Mas, de que te serve jejuar e fazer abstinência, se depois com tua maldade não fazes mais que dano a teu irmão? O que ganhas, ante Deus, pelo fato de não comer do teu, se depois, atuando injustamente, arrancas das mãos do pobre o que é seu?» (Ibidem: PG 46,456a).

Concluamos nossas catequeses sobre os três grandes padres da Capadócia recordando mais uma vez esse aspecto importante da doutrina espiritual de Gregório de Nisa, que é a oração. Para avançar no caminho para a perfeição e acolher Deus em si, levando em si o Espírito de Deus, o amor de Deus, o homem tem de dirigir-se com confiança a Ele na oração: «Através da oração conseguimos estar com Deus. E quem está com Deus, está longe do inimigo. A oração é apoio e defesa da castidade, freio da ira, sossego e domínio da soberba. A oração é custódia da virgindade, proteção da fidelidade no matrimônio, esperança para quem vela, abundância de frutos para os agricultores, segurança para os navegantes» («De oratione dominica 1»:PG 44,1124A-B).

O cristão reza inspirando-se sempre na oração do Senhor: «Se, portanto, queremos pedir que desça sobre nós o Reino de Deus, pedimos com a potência da Palavra: que eu seja afastado da corrupção, que seja libertado da morte e das correntes do erro; que nunca reine sobre mim a morte, que não tenha nunca poder sobre nós a tirania do mal, que não me domine o adversário nem me torne seu prisioneiro com o pecado, mas que venha a mim teu Reino para que se afastem de mim, ou melhor ainda, se anulem as paixões que agora me dominam» (ibidem 3:PG 44,1156d-1157a).

Terminada sua vida terrena, o cristão poderá dirigir-se com serenidade a Deus. Falando disso, são Gregório pensa na morte de sua irmã Macrina e escreve que ela, no momento da morte, rezava a Deus com estas palavras: «Tu, que tens na terra o poder de perdoar os pecados, perdoa-me para que possa ter descanso (cf. Salmo 38, 14), e para que me apresente em tua presença sem mancha, no momento no qual fico despojada de meu corpo (cf. Colossenses 2, 11), de maneira que meu espírito, santo e imaculado (cf. Efésios 5, 27) seja acolhido em tuas mãos, ‘como incenso ante ti’ (Salmo 140,2)» («Vita Macrinae 24»: SC 178, 224). Este ensinamento de São Gregório continua sendo válido sempre: não podemos somente falar de Deus, mas levar Deus em nós mesmos. E o fazemos com o compromisso da oração e vivendo no espírito de amor por todos os nossos irmãos.

 
 
 

VATICANO, 30 Nov. 07 / 12:00 am (

ACI).- A Santa Sé publicou hoje a nova encíclica do Papa Bento XVI “Spe Salvi”, (Salvos pela Esperança) em que o Pontífice explica o papel da virtude da esperança no mundo contemporâneo e a urgência de que os cristãos recuperem para si e o mundo seu verdadeiro sentido.

No documento de 75 páginas divulgado esta sexta-feira em Roma durante uma coletiva de imprensa, o Pontífice assinala que “o presente, embora seja um presente fatigante, pode-se viver e aceitar se levar para uma meta, se podemos estar seguros desta meta e se esta meta for tão grande que justifique o esforço do caminho”.

Na encíclica, enriquecida com numerosas entrevistas e meditações bíblicas, além de exemplos e entrevistas tirados da vida de Santos e Padres da Igreja, o Pontífice assinala que a partir do anúncio do Evangelho pelo Jesus Cristo, “a porta obscura do tempo, do futuro, foi totalmente aberto. Quem tem esperança vive de outra maneira; deu-lhe uma vida nova”. “Chegar a conhecer deus, ao Deus verdadeiro, isso é o que significa receber esperança“, adiciona.

Mais adiante, ao referir-se ao conceito de esperança apoiada na fé no Novo Testamento, a encíclica recorda que “o cristianismo não trazia uma mensagem sócio-revolucionária como o de Espartaco que, com lutas cruentas, fracassou”. “O que Jesus trouxe, tendo morrido Ele mesmo na cruz, era algo totalmente diverso: o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com o Deus vivo e, assim, o encontro com uma esperança mais forte que os sofrimentos da escravidão, e que por isso transforma de dentro a vida e o mundo”.

“Não são –explica o Santo Padre– os elementos do cosmos, a leis da matéria, o que em definitiva governa o mundo e o homem, mas sim é um Deus pessoal quem governa as estrelas, quer dizer, o universo; a última instância não são as leis da matéria e da evolução, mas sim a razão, a vontade, o amor: uma Pessoa. E se conhecermos esta Pessoa, e ela a nós, então o inexorável poder dos elementos materiais já não é a última instância; já não somos escravos do universo e de suas leis, agora somos livres”.

Com efeito, Jesus “diz-nos quem é em realidade o homem e o que deve fazer para ser verdadeiramente homem. Ele nos indica o caminho e este caminho é a verdade”, explica o Papa.

Em seguida, meditando sobre a passagem de Hebreus 11,1; Bento XVI assinala que “a fé não é somente um tender da pessoa para o que tem que vir, e que está ainda totalmente ausente; a fé nos dá algo. Dá-nos já agora algo da realidade esperada, e esta realidade presente constitui para nós uma ‘prova’ do que ainda não se vê”.

“A fé –prossegue– outorga à vida uma base nova, um novo fundamento sobre o que o homem pode apoiar-se, de tal maneira que precisamente o fundamento habitual, a confiança na renda material, fica relativizado”.

Vida eterna e mundo atual

Spe Salvi aborda em seguida a pergunta sobre o que é a vida eterna. Ali o Santo Padre interroga: “a fé cristã é também para nós agora uma esperança que transforma e sustenta nossa vida?”. “De verdade queremos isto: viver eternamente?”

“Talvez muitas pessoas –explica o Sumo Pontífice– rechaçam hoje a fé simplesmente porque a vida eterna não lhes parece algo desejável. Em modo algum querem a vida eterna, mas sim a presente e, para isto, a fé na vida eterna lhes parece mas bem um obstáculo. Seguir vivendo para sempre –sem fim– parece mais uma condenação que um dom”.

Assim o Papa observa: “obviamente, há uma contradição em nossa atitude, que faz referência a um contraste interior de nossa própria existência. Por um lado, não queremos morrer; os que nos amam, sobre tudo, não querem que morramos. Por outro lado, entretanto, tampouco desejamos seguir existindo ilimitadamente, e tampouco a terra foi criada com esta perspectiva. Então, o que é realmente o que queremos?

“No fundo –responde o Pontífice– queremos apenas uma coisa, a ‘vida bem-aventurada’, a vida que simplesmente é vida, simplesmente ‘felicidade’”.

É individualista a esperança cristã?

Sob este subtítulo, Bento XVI aborda a questão de se a esperança cristã, centrada no desejo pessoal da salvação, pode terminar sendo individualista, até egoísta.

A respeito, o Papa argumenta que esta visão da salvação não tem suas raízes nem nas Sagradas Escrituras nem no cristianismo primitivo; e por isso se pergunta na encíclica: Como se chegou a interpretar a ‘salvação da alma’ como fuga da responsabilidade em relação às coisas em seu conjunto e, por conseguinte, a considerar o programa do cristianismo como busca egoísta da salvação que se nega a servir a outros?”

“Para encontrar uma resposta a esta questão temos que nos fixar nos elementos fundamentais da época moderna”, assinala. E logo depois de explicar o impacto do pragmatismo racionalista do intelectual inglês Francis Bacon (1561-1626), para quem “o restabelecimento do ‘paraíso’ perdido, já não se espera da fé, mas sim da correlação apenas descoberta entre ciência e praxe”; assinala que “esta visão programática determinou o processo dos tempos modernos e influi também na crise atual da fé que, em seus aspectos concretos, é sobre tudo uma crise da esperança cristã. Por isso, em Bacon a esperança recebe também uma nova forma. Agora se chama: fé no progresso”.

Assim, “durante o desenvolvimento ulterior da ideologia do progresso, a alegria pelos visíveis adiantamentos das potencialidades humanas é uma confirmação constante da fé no progresso como tal“, adverte o Santo Padre.

“Ao mesmo tempo, –explica em seguida– há duas categorias que ocupam cada vez mais o centro da idéia de progresso: razão e liberdade. O progresso é sobre tudo um progresso do domínio crescente da razão, e esta razão é considerada obviamente um poder do bem e para o bem. O progresso é a superação de todas as dependências, é progresso para a liberdade perfeita”.

Entretanto, o Papa adverte que “em ambos os conceitos chave, ‘razão’ e ‘liberdade’, o pensamento está sempre, tacitamente, em contraste também com os vínculos da fé e da Igreja“.

De uma perspectiva histórica, o Pontífice assinala a “a Revolução Francesa como a tentativa de instaurar o domínio da razão e da liberdade“: “Em s. XVIII não faltou a fé no progresso como nova forma da esperança humana”.

“Entretanto –explica– o avanço cada vez mais rápido do desenvolvimento técnico e a industrialização que comportava criaram muito em breve uma situação social completamente nova: formou-se a classe dos trabalhadores da indústria e o assim chamado ‘proletariado industrial’”.

“Depois da revolução burguesa de 1789 –explica o Papa– tinha chegado a hora de uma nova revolução, a proletária… Karl Marx recolheu esta chamada do momento e, com vigor de linguagem e pensamento, tratou de represar este novo e, como ele pensava, definitivo grande passo da história para a salvação”.

A promessa marxista, “graças à acuidade de sua análise e à clara indicação dos instrumentos para a mudança radical, fascinou e fascina ainda hoje de novo”, adiciona.

Entretanto, essa promessa “em lugar de iluminar um mundo são, deixou atrás de si uma destruição desoladora. O engano de Marx não consiste sozinho em não ter ideado os ordenamentos necessários para o novo mundo… Seu engano está mais ao fundo. Esqueceu que o homem é sempre homem. esqueceu ao homem e esqueceu sua liberdade. Esqueceu que a liberdade é sempre liberdade, inclusive para o mal. Acreditou que, uma vez solucionada a economia, tudo ficaria solucionado. Seu verdadeiro engano é o materialismo“, destaca o Papa na Spe Salvi.

Para ler a encíclica completa, em espanhol, acesse: http://www.acidigital.com/Documentos/spesalvis.htm

 
 
 
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