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Intervenção na audiência geral desta quarta-feira

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 25 de abril de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos a intervenção de Bento XVI na audiência geral desta quarta-feira, em que apresentou a figura do padre apostólico Orígenes.

* * *

Queridos irmãos e irmãs:

Em nossas mediações sobre as grandes personalidades da Igreja antiga, conheceremos hoje uma das mais relevantes. Orígenes de Alexandria é realmente uma das personalidades determinantes para todo o desenvolvimento do pensamento cristão. Ele recolhe a herança de Clemente de Alexandria, sobre quem meditamos na quarta-feira passada, e a relança ao futuro de maneira tão inovadora que imprime um giro irreversível ao desenvolvimento do pensamento cristão. Foi um verdadeiro «mestre», e assim o recordavam com nostalgia e comoção seus discípulos: não só um brilhante teólogo, mas uma testemunha exemplar da doutrina que transmitia. «Ele ensinou», escreve Eusébio de Cesaréia, seu entusiasmo biógrafo, «que a conduta deve corresponder exatamente à palavra, e foi sobretudo por isso que, ajudado pela graça de Deus, induziu muitos a imitá-lo» (Hist. Eccl. 6, 3, 7).

Toda a sua vida esteve envolvida por um incessante anseio de martírio: Tinha dezessete anos quando, no décimo ano do imperador Septímio Severo, desatou-se em Alexandria a perseguição contra os cristãos. Clemente, seu mestre, abandonou a cidade, e o pai de Orígenes, Leônidas, foi preso. Seu filho ansiava ardentemente o martírio, mas não pôde cumprir este desejo. Então escreveu a seu pai, exortando-o a não desistir do supremo testemunho da fé. E quando Leônidas foi decapitado, o pequeno Orígenes sentiu que devia acolher o exemplo de sua vida. Quarenta anos mais tarde, enquanto pregava em Cesaréia, fez esta confissão: «De nada me serve ter tido um pai mártir se não tenho uma boa conduta e não honro a nobreza de minha estirpe, isto é, o martírio de meu pai e o testemunho que o tornou ilustre em Cristo» (Hom. Ez. 4, 8). Em uma homilia sucessiva — quando, graças à extrema tolerância do imperador Felipe o Árabe, parecia já esfumada a eventualidade de um testemunho cruento — Orígenes exclama: «Se Deus me concedesse ser lavado em meu sangue, como para receber o segundo batismo tendo aceitado a morte por Cristo, eu me afastaria seguro deste mundo… Mas são felizes os que merecem essas coisas» (Hom. Iud. 7, 12). Estas expressões revelam toda a nostalgia de Orígenes pelo batismo de sangue. E finalmente este irresistível anseio foi, ao menos em parte, comprazido. Em 250, durante a perseguição de Décio, Orígenes foi preso e torturado cruelmente. Debilitado pelos sofrimentos padecidos, morreu algum tempo depois. Não tinha ainda setenta anos.

Aludimos a esse «giro irreversível» que Orígenes imprimiu à história da teologia e do pensamento cristão. Mas em que consiste este marco histórico, esta novidade tão cheia de conseqüências? Corresponde em substância à fundação da teologia na explicação das Escrituras. Fazer teologia era para ele essencialmente explicar, compreender a Escritura; ou poderíamos inclusive dizer que sua teologia é a perfeita simbiose entre teologia e exegese. Na verdade, a marca própria da doutrina de Orígenes parece residir precisamente no incessante convite a passar da letra ao espírito das Escrituras, para progredir no conhecimento de Deus. E este chamado «alegorismo», escreveu von Baltasar, coincide precisamente «com o desenvolvimento do dogma cristão desenvolvido pelo ensinamento dos doutores da Igreja», os quais, de uma forma ou de outra — acolheram a «lição» de Orígenes. Assim, a tradição e o magistério, fundamento e garantia da investigação teológica, chegam a configurar-se como «Escritura em ato» (cfr. «Origene: il mondo, Cristo e la Chiesa», tr. It., Milano 1972, p. 43). Podemos afirmar por isso que o núcleo central da imensa obra literária de Orígenes consiste em sua «tripla leitura» da Bíblia. Mas antes de ilustrar esta «leitura» convém dar uma olhada geral à produção literária do alexandrino. São Jerônimo, em sua Epístola 33, cita os títulos de 320 livros e de 310 homilias de Orígenes. Lamentavelmente, a maior parte dessa obra se perdeu, mas inclusive o pouco que resta delao lhe converte no autor mais prolífico dos primeiros três séculos cristãos. Seu raio de interesse se estende da exegese ao dogma, à filosofia, à apologética, à ascética e à mística. É uma visão fundamental e global da vida cristã.

O núcleo inspirador desta obra é, como mencionamos, a «tripla leitura» das Escrituras desenvolvida por Orígenes no arco de sua vida. Com esta expressão tentamos aludir às três modalidades mais importantes — entre si não sucessivas, porém mais freqüentemente sobrepostas — com as que Orígenes se dedicou ao estudo das Escrituras. Antes de tudo, ele leu a Bíblia com a intenção de assegurar o melhor texto e de oferecer dela a edição mais fiável. Este, por exemplo, é o primeiro passo: conhecer realmente o que está escrito e conhecer o que esta escritura queria intencional e inicialmente dizer. Realizou um grande estudo com este fim e redigiu uma edição da Bíblia com seis colunas paralelas, de esquerda a direita, com o texto hebreu em caracteres hebreus — ele teve também contatos com os rabinos para compreender bem o texto original hebraico da Bíblia –, depois o texto hebraico transliterado em caracteres gregos e a seguir quatro traduções diferentes em língua grega, que lhe permitiam comparar as diversas possibilidades de tradução. Daí o título de «Hexapla» («seis colunas») atribuído a esta enorme sinopse. Este é o primeiro ponto: conhecer exatamente o que está escrito, o texto como tal. Em segundo lugar, Orígenes leu sistematicamente a Bíblia com seus célebres Comentários. Estes reproduzem fielmente as explicações que o mestre oferecia na escola, em Alexandria e em Cesaréia. Orígenes avança quase versículo a versículo, de forma minuciosa, amplia e aprofunda, com notas de caráter filológico e doutrinal. Ele trabalha com grande exatidão para conhecer bem o que os sagrados autores queriam dizer.

Finalmente, também antes de sua ordenação presbiteral, Orígenes se dedicou muitíssimo à pregação da Bíblia, adaptando-se a um público de composição variada. Adverte-se também em suas Homilias o mestre, totalmente dedicado à interpretação sistemática da perícope em exame, pouco a pouco fracionada nos sucessivos versículos. Também nas Homilias Orígenes aproveita todas as ocasiões para recordar as diversas dimensões do sentido da Sagrada Escritura, que ajudam ou expressam um caminho no crescimento da fé: existe o sentido «literal», mas este oculta profundidades que não aparecem em um primeiro momento; a segunda dimensão é o sentido «moral»: o que devemos fazer vivendo a palavra; e finalmente o sentido «espiritual», ou seja, a unidade da Escritura, que em todo seu desenvolvimento fala de Cristo. É o Espírito Santo que nos faz entender o conteúdo cristológico e, assim, a unidade da Escritura em sua diversidade. Seria interessante mostrar isso. Tentei um pouco, em meu livro «Jesus de Nazaré», assinalar na situação atual estas múltiplas dimensões da Palavra, da Sagrada Escritura, que antes deve ser respeitada justamente no sentido histórico. Mas este sentido nos transcende para Cristo, na luz do Espírito Santo, e nos mostra o caminho, como viver. Encontra-se alusão a isso, por exemplo, na nona Homilia sobre os Números, na qual Orígenes compara a Escritura com as nozes: «Assim é a doutrina da Lei e dos Profetas na escola de Cristo», afirma a homilia; «amarga é a letra, que é como a casca; em segundo lugar atravessas a casca, que é a doutrina moral; em terceiro lugar encontrarás o sentido dos mistérios, do que se nutrem as almas dos santos na vida presente e na futura» (Hom. Num. 9, 7).

Sobretudo por esta via Orígenes chega a promover eficazmente a «leitura cristã» do Antigo Testemunho, replicando brilhantemente o desafio daqueles hereges — sobretudo gnósticos e marcionitas — que opunham entre si os dois Testamentos até rejeitar o Antigo. A respeito disso, na própria Homilia sobre os Números, o alexandrino afirma: «Eu não chamo a Lei de um ‘Antigo Testamento’, se a compreendo no Espírito. A lei se converte em um ‘Antigo Testamento’ só para os que querem compreendê-la carnalmente», isto é, fixando-se na letra do texto. Mas «para nós, que a compreendemos e a aplicamos no Espírito e no sentido do Evangelho, a Lei é sempre nova, e os dois Testamentos são para nós um novo Testamento, não por causa da data temporal, mas da novidade do sentido… Ao contrário, para o pecador e para os que não respeitam a condição da caridade, também os Evangelhos envelhecem» (Hom. Num. 9, 4).

Eu vos convido — e assim concluo — a acolher em vosso coração o ensinamento desse grande mestre na fé. Ele nos recorda com íntimo entusiasmo que, na leitura orante da Escritura e no coerente compromisso da vida, a Igreja sempre se renova e rejuvenesce. A Palavra de Deus, que não envelhece jamais, nem se esgota nunca, é meio privilegiado para tal fim. É, com efeito, a Palavra de Deus que, por obra do Espírito Santo, nos guia sempre de novo à verdade completa (cf. Bento XVI, «Ai partecipanti al Congresso Internazionale per il XL anniversario della Costituzione dogmática ‘Dei Verbum’», in: «Insegnamenti», vol. I, 2005, pp. 552-553). E peçamos ao Senhor que nos dê hoje pensadores, teólogos, exegetas que encontrem esta multidimensionalidade, esta atualidade permanente da Sagrada Escritura, para alimentar-nos realmente do verdadeiro pão da vida, de sua Palavra.

[Tradução realizada por Zenit. Ao final da audiência o Santo Padre saudou os peregrinos em língua portuguesa:]

Saúdo os peregrinos de língua portuguesa, especialmente os portugueses da Paróquia de Santo António do Estoril, e um grupo de visitantes brasileiros. Possam a vossas obras e orações elevarem-se diariamente ao Pai pela santificação e unidade da grande família humana em Jesus Cristo. Sirva-vos de apelo e encorajamento a Bênção que de bom grão vos concedo, extensiva aos vossos familiares e conterrâneos.

[© Copyright 2007 – Libreria Editrice Vaticana]

 
 
 

Uma das mais freqüentes acusações que nós, católicos, sofremos de nossos irmãos protestantes, é a de praticar a “idolatria”, porque, segundo eles, “adoramos” imagens. Trata-se de uma acusação absolutamente sem fundamento, que somente se explica pelo desconhecimento da Palavra de Deus. Com efeito, os protestantes falam esse tipo de coisa dos católicos, muitas vezes com violência e de modo agressivo, simplesmente porque não sabem o que é idolatria.

Idolatria não é o uso de imagens no culto divino, mas prestar a uma criatura o culto de adoração que devemos exclusivamente a Deus. É por isso que São Paulo Apóstolo nos adverte que a avareza é uma idolatria (cf. Col 3,5), uma vez que o avarento coloca o dinheiro no lugar de Deus, como o valor supremo de sua vida.

Todo o comportamento humano depende de valores: é em vista de um determinado valor que escolhemos agir de um modo ou de outro. Se, por exemplo, preferimos gastar nosso tempo dando catequese para crianças, é porque essa opção nos pareceu mais valiosa do que outras.

Assim sendo, a forma como ordenamos as nossas ações vai depender de como hierarquizamos os valores que adotamos para reger nossas vidas. Se colocamos como valor supremo o prazer da vida corporal, certamente não poderemos levar uma vida de pureza e abnegação. Todavia, a forma como hierarquizamos esses valores, em nossa subjetividade, deve coincidir com a hierarquia objetiva dos valores presente no universo. Se isto não se der, haverá uma distorção entre a forma com que vemos o mundo e o próprio mundo.

Repetindo: a nossa hierarquia subjetiva de valores deve coincidir com a ordem objetiva de valores presente no cosmos. Se não for assim, estaremos dando a certas coisas mais importância do que elas merecem, enquanto a outras não prestamos o devido valor. Isto é introduzir a desordem em nossa alma, é quebrar a harmonia que deve existir em nosso interior.

Ora, o que há de mais importante no universo é Deus, pois é Ele quem o criou e sustenta no ser. Todo o cosmos depende de Deus para existir. Logo, também em nossa hierarquia de valores, Deus deve ocupar o primeiro lugar, como valor supremo. Todos os demais valores e ideais devem submeter-se a ele. Quando colocamos outro bem, valor ou ideal no lugar que é exclusivo de Deus, destoamos da ordem do cosmos e caímos na idolatria. Afinal de contas, todo o universo canta a glória de Deus (cf. Sl 18,2). Diz o salmista: “Louve a Deus tudo o que vive e que respira, / tudo cante os louvores do Senhor!” (Sl 150,5).

Quem, portanto, não coloca a Deus como valor supremo de sua vida, não apenas nega a adoração exclusivamente a Ele devida, como também prejudica a si próprio. Por isso Deus ordenou no primeiro mandamento de sua Lei: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20,2-3). Do mesmo modo o Senhor Jesus, quando repeliu o demônio que o tentava, repetiu o preceito: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás” (Mt 4,10).

Todavia, se devemos adorar somente a Deus, isso não significa que não devemos honrar e invocar seus santos e anjos. O mesmo Deus que ordenou que adorássemos só a Deus, também mandou honrar os pais (cf Ex 20,12), as autoridades públicas (cf. Rom 13) os nossos superiores e as pessoas mais idosas. Prestar honra a essas pessoas, simples criaturas, em nada prejudica a adoração devida exclusivamente ao Criador.

Se devemos honrar os governantes deste mundo, quanto mais os anjos, de cujo ministério Deus se serve para governar não só a Igreja, como também todas as coisas criadas. Foi por isso que Abraão prostrou-se diante dos três anjos que lhe apareceram em forma humana, para anunciar o nascimento de seu filho Isaac (cf. Gen 18,2).

Ensina a Igreja e a Sagrada Escritura que desde o início até a morte a vida humana é cercada pela proteção e intercessão do anjo da guarda: “Eis que eu enviarei o meu anjo, que vá adiante de ti, e te guarde pelo caminho” (Ex 23,20). Pela invisível assistência dos anjos, somos quotidianamente preservados dos maiores perigos, tanto da alma como do corpo. Com a maior boa vontade, patrocinam a nossa salvação e oferecem a Deus as nossas orações e nossas lágrimas. O Senhor Jesus advertiu que não se devia dar escândalo aos pequeninos, porque “seus anjos nos céus vêem incessantemente a face de seu Pai, que está nos céus” (cf. Mt 18,10). Se os anjos contemplam a Deus sem cessar, por que não seriam merecedores de grande honra?

Também o culto aos santos, longe de diminuir a glória de Deus, lhe dá o maior incremento possível. Canta a Virgem Maria no Magníficat que “o Poderoso fez em mim maravilhas” (Lc 1,49). Quando honramos retamente um santo, proclamamos as maravilhas que a graça de Deus operou na vida dele. Como se diz no Prefácio dos Santos, “na assembléia dos santos vós sois glorificado e, coroando seus méritos, exaltai vossos próprios dons”. A santidade que veneramos nos homens santos é dom do único Santo. Honrando os santos, glorificamos a Deus que os santificou.

Deus é um Pai amoroso, a quem muito agrada ver seus filhos intercedendo uns pelos outros. Ademais, quis associar suas criaturas na obtenção e distribuição de suas graças. Muitas coisas Deus não as concede, se não houver a intervenção de um intercessor. Para que os amigos de Jó fossem perdoados, por exemplo, foi necessária a sua intercessão: “O meu servo Jó orará por vós; admitirei propício a sua intercessão para que se não vos impute esta estultícia, porque vós não falastes de mim o que era reto” (Jó 42,8). Também não é sinal de falta de fé em Deus, recorrermos à intercessão dos santos em nossas orações. O centurião, por exemplo, recorreu à intercessão dos anciãos dos judeus (cf. Lc 7,3) para que Jesus curasse seu servo, mas nem por isso o Senhor deixou de enaltecer sua fé com os maiores elogios: “Em verdade vos digo que não encontrei tanta fé em Israel” (Lc 7,9).

É verdade que temos um único Mediador na pessoa de Jesus Cristo Nosso Senhor. Só Ele nos reconciliou com o Pai pelo oferecimento de seu precioso sangue, entrando uma só vez no Santo dos Santos, consumou uma Redenção eterna (cf. Hebr 9,11-12) e não cessa de interceder por nós (cf. Hebr 7,25). Todavia, o fato de termos um único Mediador de Redenção, não significa que não podemos ter junto dele outros mediadores de intercessão. Se recorrer à intercessão dos santos prejudicasse a glória devida unicamente a Cristo Mediador, o Apóstolo Paulo não pediria, com tanta insistência, que seus irmãos rezassem por ele: “Rogo-vos, pois, irmãos, por Nosso Senhor Jesus Cristo e pela caridade do Espírito Santo, que me ajudeis com as vossas orações por mim a Deus” (Rom 15,30). “Se vós nos ajudardes também, orando por nós…” (2Cor 1,11). Se as orações dos que vivem nesta terra são úteis e eficazes para que sejamos ouvidos por Deus, quem dirá as orações daqueles que já estão em glória, contemplando a Deus face a face.

No livro dos Atos dos Apóstolos, conta-se que “Deus fazia milagres não vulgares por mão de Paulo, de tal modo que até, sendo aplicados aos enfermos os lenços e aventais que tinham tocado no seu corpo, não só saiam deles as doenças, mas também os espíritos malignos se retiravam” (At 19,11-12). E também que “traziam os doentes para as ruas e punham-nos em leitos e enxergões, a fim de que, ao passar Pedro, cobrisse ao menos a sua sombra algum deles” (At 5,15). Se as vestes, os lenços e a sombra dos santos, já antes de sua morte, removiam doenças e expulsavam demônios, quem será louco de dizer que Deus não possa fazer os mesmos milagres por intermédio deles, depois de mortos? E também disso as Sagradas Escrituras dão testemunho, quando se narra o episódio do cadáver lançado na sepultura do profeta Eliseu: “Logo que o cadáver tocou os ossos de Eliseu, o homem ressuscitou e levantou-se sobre os seus pés” (2Rs 13,21).

Todavia, se devemos honrar e venerar os santos e anjos como fiéis servidores do Senhor, é gravíssimo pecado colocá-los no lugar de Deus, prestando-lhes culto de adoração. Este abuso é estranho a verdadeira doutrina católica.

Quanto às imagens, é verdade que o Antigo Testamento proibia que fossem feitas: “Não farás para ti imagem alguma do que há em cima no céu, e do que há embaixo na terra, nem do que há nas águas debaixo da terra” (Ex 20,4). Todavia, precisamos compreender a razão desta proibição.

Os hebreus viviam no meio de povos idólatras, cujos deuses eram concebidos como tendo formas visíveis, muitas vezes com figura de animais. Para ressaltar a transcendência e a espiritualidade do Deus verdadeiro, este preceito proibia que os israelitas representassem a divindade com imagens. Com efeito, Deus em si mesmo não está ao alcance da nossa vista: é um ser puramente espiritual, não tem corpo, não cabe nos limites do espaço, nem pode ser representado por nenhuma figura. “Não vistes figura alguma no dia em que o Senhor vos falou sobre o Horeb do meio do fogo” (Dt 4,15).

Todavia, a encarnação do Filho de Deus superou a proibição de se fazer imagens. Isso porque, quando “o Verbo se fez carne, / e habitou entre nós” (Jo 1,14), Ele se tornou visível a nós como homem. Invisível em sua divindade, Deus se tornou visível na humanidade de nossa carne. Como diz o Prefácio do Natal do Senhor, “reconhecendo a Jesus como Deus visível a nossos olhos, aprendemos a amar nele a divindade que não vemos”.

A diferença do cristianismo com todas as outras as religiões é que o nosso Deus se fez homem. O centro da Fé cristã é o mistério de Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro. Perfeitamente homem, sem deixar de ser Deus. Mesmo depois da Ressurreição, o Cristo manteve a sua natureza humana na sua integridade e perfeição, como fez questão de sublinhar aos Apóstolos: “Olhai para as minhas mãos e pés, porque sou eu mesmo; apalpai, e vede, porque um espírito não tem carne, nem ossos, como vós vedes que eu tenho” (Lc 24,39). Até hoje, no Céu, dentro do peito de Jesus bate incessantemente um coração de carne, em suas veias corre sangue verdadeiramente humano.

Jesus Cristo é “a imagem visível de Deus invisível” (cf. Col 1,15). Se antes eu não podia fazer imagens de Deus, pois enquanto tal Ele é invisível; após a Encarnação do Verbo eu não apenas posso como devo fazer imagens, para atestar que Deus se fez visível aos olhos dos homens. Ensina São João Damasceno: “Quando virmos aquele que não tem corpo tornar-se homem por nossa causa, então poderemos executar a representação de seu aspecto humano. Quando o Invisível, revestido de carne, torna-se visível, então representa a imagem daquele que apareceu…”

Assim sendo, toda vez que honramos uma imagem sagrada, damos testemunho da nossa Fé no mistério da Encarnação do Filho de Deus. Portanto, quem renega as imagens, de certo modo atenta contra a fé nesse mistério. Este foi o critério que São João propôs para discernir o anticristo: “Todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio na carne, é de Deus; todo espírito que divide Jesus, não é de Deus, mas é um anticristo, do qual vós ouvistes que vem, e agora está já no mundo” (1Jo 4,2-3).

Rejeitar as imagens sagradas é voltar à Antiga Lei, quando Deus ainda não tinha se feito homem. Quem defende isso, para ser coerente, deve também praticar a circuncisão e guardar o sábado, como é prescrito na Lei de Moisés. Para essas pessoas, o Cristo não veio ainda.

Portanto, beijar uma imagem ou acender diante dela uma vela não são práticas idolátricas, mas atos de piedade. Somente pessoas ignorantes, que não compreendem os dogmas da Fé em seu verdadeiro sentido, podem ter a audácia de chamar de idolatria essas práticas.

Quem venera uma imagem, venera a pessoa que nela está representada. Aquilo que a Bíblia nos ensina com palavras, as imagens nos anunciam com figuras visíveis. A imagem re+presenta, ou seja, torna presente a pessoa simbolizada. Por isso podemos rezar diante das imagens como se estivéssemos diante das personagens que elas representam. Todavia, não podemos confundir essa presença, que é meramente uma presença simbólica, com a presença real de Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Na imagem Jesus está presente como em um símbolo, na Eucaristia como realidade substancial. Por isso, diante do Santíssimo Sacramento fazemos genuflexão, diante de uma imagem fazemos o sinal-da-cruz ou uma simples reverência de cabeça.

Prefácio dos Santos, I (Missal Romano)

Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso.

Na assembléia dos santos vós sois glorificado e, coroando seus méritos, exaltai vossos próprios dons. Nos vossos santos ofereceis

um exemplo para a nossa vida, a comunhão que nos une, a intercessão que nos ajuda. Assistidos por tão grandes testemunhas, possamos correr, com perseverança, no certame que nos é proposto e receber com eles a coroa imperecível, por Cristo, Senhor Nosso.

Enquanto esperamos a glória eterna, com os anjos e todos os santos, nós vos aclamamos, cantando a uma só voz:

Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo. O céu e a terra proclamam a vossa glória. Hosana nas alturas! Bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!

Autor: Dr. Rodrigo Pedroso

 
 
 

Intenções da oração para o mês de março

ROMA, quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007 (ZENIT.org).- Bento XVI pede oração para que «a Palavra de Deus seja cada vez mais escutada, contemplada, amada e vivida».

Assim se desprende da intenção geral para o mês de março, contida na carta pontifícia, junto a todas as demais intenções que o Santo Padre confiou ao «Apostolado da oração» para este ano.

O «Apostolado da oração» (AdP, http://www.adp.it) é uma iniciativa seguida por cerca de 50 milhões de pessoas dos cinco continentes.

Graças a ela, leigos, religiosos, sacerdotes e bispos de todo o mundo oferecem suas orações e sacrifícios pelas intenções que o Papa, indicadas cada mês no mundo inteiro.

Ao fazer da vivência da Palavra de Deus o eixo da oração do próximo mês, Bento XVI afirma novamente a importância que tem o tema, sobre o qual convocou o próximo Sínodo.

Há um mês, ao receber os membros do Conselho Ordinário da Secretaria Geral do Sínodo dos bispos reunidos pela primeira vez para preparar essa assembléia de bispos do mundo, o Santo Padre sublinhou sua esperança de que tal encontro sirva para redescobrir «a importância da Palavra de Deus na vida de cada cristão».

Acrescentou outro «desejo de coração»: que a assembléia episcopal ajude também a redescobrir «o dinamismo missionário que é intrínseco à Palavra de Deus».

De 5 a 26 de outubro de 2008, bispos de todo o mundo participarão do Sínodo, que se celebrará no Vaticano sobre o tema escolhido por Bento XVI: «A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja».

A intenção missionária de oração para o mês de março é a seguinte «Para que os responsáveis das Igrejas jovens se preocupem pela formação dos catequistas, dos animadores e dos leigos entregues ao serviço do Evangelho».

Por Igrejas jovens nos territórios de missão se entendem «as dioceses ou vicariatos apostólicos de recente criação e outras realidades similares, ou lugares nos quais a evangelização ainda se encontra em uma fase incipiente», explica a Congregação vaticana para a Evangelização dos Povos — Dom Jerry Bitoon, oficial deste dicastério.

É o caso das Igrejas em países da Ásia, como Mongólia, Nepal, Butão, ou do Oriente Médio, como Arábia Saudita, Irã, Iraque ou do interior da África, da América do Sul, do sudeste asiático, da Oceania ou do subcontinente indiano.

«Em todos estes lugares, há uma grande escassez de sacerdotes locais, às vezes uma ausência total»; em outros, sim, há missionários preparados, mas as leis específicas de algumas nações «proíbem ou tornam extremamente difícil» a evangelização, ou se registra a «resistência, às vezes violenta» e «ameaças de morte, por parte de alguns fiéis extremistas, fanáticos ou fundamentalistas», recorda Dom Bitoon.

«As jovens Igrejas estão em primeira linha na evangelização», e é aí precisamente onde «o Senhor da grande messe chama inumeráveis catequistas e animadores, especialmente animadores missionários leigos, a colaborar com a Igreja local», constata.

E «qual é o segredo de sua incansável dedicação à evangelização?»: «os bispos das jovens Igrejas respondem rapidamente que é a formação contínua desses catequistas e animadores leigos — não missionários; o segredo escondido de sua eficácia e dedicação ao mandato de Cristo de proclamar sua Boa Nova a todos, a todo custo, inclusive arriscando a própria vida!», confirma o oficial do dicastério vaticano.

Daí a importância — adverte — de que os católicos de todo o mundo rezem «para que os responsáveis das jovens Igrejas possam ser constantemente conscientes da necessidade de formar bem seus catequistas e animadores missionários leigos».

 
 
 
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