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Primeira pregação da Quaresma ao Papa e à Cúria

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 9 de março de 2007 (ZENIT.org).- «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus — As bem-aventuranças evangélicas» é o tema da primeira pregação da Quaresma que, ante Bento XVI e a Cúria, pronunciou nesta sexta-feira o Pe. Raniero Cantalamessa O.F.M. Cap, pregador da Casa Pontifícia.

Oferecemos na íntegra o texto da pregação.

* * *

Pe. Raniero Cantalamessa

“BEM-AVENTURADOS OS PUROS DE CORAÇÃO, PORQUE VERÃO A DEUS” Primeira pregação da Quaresma

1.Da pureza ritual à pureza de coração

Continuando com a nossa reflexão sobre as bem-aventuranças evangélicas iniciada no Advento, nesta primeira meditação de Quaresma queremos refletir sobre a bem-aventurança dos limpos de coração. Qualquer um que lê ou ouve proclamar hoje: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus», pensa instintivamente na virtude da pureza, a bem-aventurança é quase o equivalente positivo e interiorizado do sexto mandamento: «Não cometerás atos impuros». Esta interpretação, proposta esporadicamente no curso da história da espiritualidade cristã, se fez predominante a partir do século XIX.

Na verdade, a pureza de coração não indica, no pensamento de Cristo, uma virtude particular, mas uma qualidade que deve acompanhar todas as virtudes, a fim de que elas sejam de verdade virtudes e não, ao contrário, «esplêndidos vícios». Seu contrário mais direto não é a impureza, mas a hipocrisia. Um pouco de exegese e de história nos ajudará a compreender melhor.

O que Jesus entende por «pureza de coração» se deduz claramente do contexto do Sermão da Montanha. Segundo o Evangelho, o que decide a pureza ou impureza de uma ação — seja esta a esmola, o jejum ou a oração — é a intenção: isto é, se realizada para ser vistos pelos homens ou por agradar a Deus:

«Quando dês esmola, não vai tocando trompete adiante como fazem os hipócritas nas sinagogas e pelas ruas, com o fim de ser honrado pelos homens; em verdade vos digo que já recebem seu pagamento. Tu, ao contrário, quando dês esmola, que não saiba tua mão esquerda o que faz tua direita, assim tua esmola ficará em segredo; e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará.» (Mt 6, 2-6)

A hipocrisia é o pecado denunciado com mais força por Deus ao longo de toda a Bíblia e o motivo é claro. Com ela o homem rebaixa Deus, coloca-o no segundo lugar, situando no primeiro as criaturas, o público. «O homem olha a aparência, o Senhor vê o coração» (1 Salmo 16, 7): cultivar a aparência mais que o coração significa dar mais importância ao homem que a Deus.

A hipocrisia é, portanto, essencialmente, falta de fé; mas é também falta de caridade para com o próximo, no sentido de que tende a reduzir as pessoas a admiradores. Não lhes reconhece uma dignidade própria, mas as vê só em função da própria imagem.

O juízo de Cristo sobre a hipocrisia não tem volta de folha: Receperunt mercedem suam: já receberam sua recompensa! Uma recompensa, também, ilusória até no plano humano, porque a glória, sabemos, foge de quem a segue e segue a quem foge dela.

Ajudam a entender o sentido da bem-aventurança dos limpos de coração também as palavras que Jesus pronuncia com relação aos escribas e fariseus, todas centradas na oposição entre «o de dentro» e «o de fora», o interior e o exterior do homem:

«Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, pois sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem bonitos mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda imundice! Assim também vós, por fora pareceis justos ante os homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e iniqüidade» (Mt 23, 27-28).

A revolução levada a cabo neste campo por Jesus é de um alcance incalculável. Antes d’Ele, exceto alguma rara alusão nos profetas e nos salmos (Salmo 24, 3: «Quem subirá ao monte do Senhor? Quem tem mãos inocentes e coração puro»), a pureza se entendia em sentido ritual e cultural; consistia em manter-se afastado de coisas, animais, pessoas ou lugares considerados capazes de contagiar negativamente e de separar da santidade de Deus. Sobretudo aquilo que está ligado ao nascimento, à morte, à alimentação e à sexualidade entra neste âmbito. Em formas ou com pressupostos diferentes, o mesmo ocorria em outras religiões, fora da Bíblia.

Jesus elimina todos estes tabus. Antes de tudo, com os gestos que realiza: come com os pecadores, toca aos leprosos, freqüenta os pagãos: todas coisas consideradas altamente contaminadoras: depois, com os ensinamentos que ministra. A solenidade com a qual introduz seu discurso sobre o puro e o impuro permite entender quão consciente Ele era mesmo da novidade de seu ensinamento.

«Chamou outra vez as pessoas e lhes disse: ‘Ouvi-me todos e entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, possa contaminá-lo; mas o que sai do homem, isso é o que contamina o homem… Porque de dentro do coração dos homens saem as intenções más: fornicações, roubos, assassinatos, adultérios, avarezas, maldades, fraude, libertinagem, inveja, injúria, insolência, insensatez. Todas estas perversidades saem de dentro e contaminam o homem”» (Mc 7, 14-15. 21-23).

«Assim declarava puros todos os alimentos», observa quase com estupor o evangelista (Mc 7, 19). Contra a tentativa de alguns judeu-cristãos de restabelecer a distinção entre puro e impuro nos alimentos e em outros setores da vida, a Igreja apostólica afirmará com força: «Tudo é puro para quem é puro», omnia munda mundis (Tt 1, 15; Rm 14, 20).

A pureza, entendida no sentido de continência e castidade, não está ausente da bem-aventurança evangélica (entre as coisas que contaminam o coração Jesus situa também, ouvimos, «fornicações, adultérios, libertinagem»); mas ocupa um posto limitado e por assim dizer «secundário». É um âmbito junto a outros nos quais se põe de relevância o lugar decisivo que ocupa o «coração», como quando diz que «quem olha a uma mulher com desejo, já cometeu adultério com ela em seu coração» (Mt 5, 28).

Na realidade, os termos «puro» e «pureza» (katharos, katharotes) nunca se utilizam no Novo Testamento para indicar o que com eles entendemos nós hoje, isto é, a ausência de pecados da carne. Para isso se usam outros termos domínio de si (enkrateia), temperança (sophrosyne), castidade (hagneia).

Por quanto se disse, parece claro que o puro de coração por excelência é o próprio Jesus. D’Ele seus próprios adversários se vêem obrigados a dizer: «Sabemos que és veraz e que não te importas por ninguém, porque não olhas a condição das pessoas, mas ensinas com franqueza o caminho de Deus» (Mc 12, 14). Jesus podia dizer de si: «Eu não busco minha glória» (Jo 8, 50).

2. Um olhar à história

Na exegese dos Padres, vemos delinear-se logo as três direções fundamentais nas quais a bem-aventurança dos puros de coração será recebida e interpretada na história da espiritualidade cristã: a moral, a mística e a ascética. A interpretação moral põe o acento na retidão de intenção, a interpretação mística, na visão de Deus, a ascética, na luta contra as paixões da carne. Nós as vemos exemplificadas, respectivamente, em Agostinho, Gregório de Nisa e João Crisóstomo.

Atendendo-se fielmente ao contexto evangélico, Agostinho interpreta a bem-aventurança em chave moral, como rejeição a «praticar a justiça ante os homens para ser por eles admirados» (Mt 6, 1), portanto como simplicidade e fraqueza que se opõe à hipocrisia «Tem o coração simples, puro — escreve — só quem supera os louvores humanos e ao viver está atento e busca ser agradável só àquele que é o único que escruta a consciência» [1].

O fator que decide a pureza ou não do coração é aqui a intenção. «Todas as nossas ações são honestas e agradáveis na presença de Deus se as realizamos com o coração sincero, ou seja, com a intenção voltada para o alto na finalidade do amor… Portanto, não se deve considerar tanto a ação que se realiza, quanto a intenção com que se realiza» [2]. Este modelo interpretativo que fala sobre a intenção permanecerá ativo em toda a tradição espiritual posterior, especialmente inaciana [3].

A interpretação mística, que tem em Gregório de Nisa seu iniciador, explica a bem-aventurança em função da contemplação. É preciso purificar o próprio coração de todo vínculo com o mundo e com o mal; deste modo, o coração do homem voltará a ser aquela pura e límpida imagem de Deus que era o princípio e na própria alma, como em um espelho, a criatura poderá «ver Deus». «Se, com um teor de vida diligente e atenta, lavas as fealdades que se depositaram em teu coração, resplandecerá em ti a divina beleza… Contemplando-te a ti mesmo, verás em ti àquele que é o desejo de teu coração e serás santo» [4].

Aqui o peso está todo na apódose, no fruto prometido à bem-aventurança; ter o coração limpo é o meio; o fim é «ver Deus». Nota-se, no contexto da linguagem, uma influência da especulação de Plotino, que se faz ainda mais descoberta em São Basílio [5].

Também esta linha interpretativa terá continuidade em toda a história sucessiva da espiritualidade cristã que passa por São Bernardo, São Boaventura e os místicos renanos [6]. Em alguns ambientes monásticos se acrescenta, no entanto, uma idéia nova e interessante: a da pureza como unificação interior que se obtém desejando uma coisa só, quando esta «coisa» é Deus. Escreve São Bernardo: «Bem-aventurados os puros de coração porque verão Deus. Como se dissesse: purifica o coração, separa-te de tudo, sê monge, só, busca uma coisa só do Senhor e persegue-a (Salmo 27, 4), liberta-te de tudo e verás Deus (Salmo 46, 11)» [7].

Bastante isolada está, no entanto, nos Padres e nos autores medievais, a interpretação ascética em função da castidade que se converterá em predominante, dizia, desde o século XIX em diante. Crisóstomo dá o exemplo mais claro [8]. Situando-se nesta mesma linha, o místico Ruusbroec distingue uma castidade do espírito, uma castidade do coração e uma castidade do corpo. A bem-aventurança evangélica se refere à castidade do coração. Ela — escreve — «mantém reunidos e reforça os sentidos externos, enquanto, no interior, freia e domina os instintos brutais… Fecha o coração às coisas terrenas e às ilusões falazes, enquanto que o abre às coisas celestiais e à verdade» [9].

Com graus diversos de fidelidade, todas estas interpretações ortodoxas permanecem dentro do horizonte novo da revolução aperada por Jesus, que reconduz todo discurso moral ao coração. Paradoxalmente, os que traíram a bem-aventurança evangélica dos puros (katharoi) de coração são precisamente os que tomaram o nome dela: os cátaros com todos os movimentos afins que lhes precederam e seguiram na história do cristianismo. Estes caem na categoria dos que fazem a pureza consistir em estar separados, ritual e socialmente, de pessoas e coisas julgadas em si mesmas impuras, em uma pureza mais exterior que interior. São os herdeiros do radicalismo sectário dos fariseus e dos essênios, mais que do Evangelho de Cristo.

3. A hipocrisia leiga

Freqüentemente se destaca o alcance social e cultural de algumas bem-aventuranças. Não é estranho ler «Bem-aventurados os que trabalham pela paz» nos cartazes que acompanham as manifestações dos pacifistas, e a bem-aventurança dos mansos que possuirão a terra é justamente invocada a favor do princípio da não-violência, isso sem falar depois da bem-aventurança dos pobres e dos perseguidos pela justiça. No entanto, jamais se fala da relevância social da bem-aventurança dos puros de coração, que parece estar reservada exclusivamente ao âmbito pessoal. Estou certo, no entanto, de que esta bem-aventurança pode exercer hoje uma função crítica entre as mais necessárias em nossa sociedade.

Vimos que no pensamento de Cristo, a pureza de coração não se opõe primariamente à impureza, mas à hipocrisia, e a hipocrisia é o vício humano talvez mais difundido e menos confessado. Existem hipocrisias individuais e hipocrisias coletivas.

O homem — escreveu Pascal — tem duas vidas: uma é a vida autêntica, a outra é a vida imaginária que vive na opinião, sua ou das pessoas. Trabalhamos sem descanso para enfeitar e conservar nosso ser imaginário e descuidamos o verdadeiro. Se possuímos alguma virtude ou mérito, corremos para dá-lo a conhecer, de uma forma ou de outra, para enriquecer de tal virtude o nosso ser imaginário, dispostos até a tirá-lo de nós, para acrescentar algo a ele, até consentir, às vezes, em ser covardes, com tal de parecer valentes e dar até a vida, para que as pessoas falem disso [10].

A tendência evidenciada por Pascal cresceu enormemente na cultura atual, dominada pelos meios de comunicação massivos, cinema, televisão e mundo do espetáculo em geral. Descartes disse: «Cogito, ergo sum», penso, logo existo; mas hoje se tende a substituí-lo com «aparento, logo existo».

Originariamente, o termo «hipocrisia» estava reservado à arte teatral. Significava simplesmente recitar, representar no cenário. Santo Agostinho o recorda em seu comentário sobre a bem-aventurança dos puros de coração: «os hipócritas — escreve — são agentes de ficção, do mesmo estilo dos que apresentam a personalidade de outros nas representações teatrais» [11].

A origem do termo nos dá as dicas para descobrir a natureza da hipocrisia. É fazer da vida um teatro, no qual se recita para um público; é usar uma máscara, deixar de ser pessoa e passar a ser personagem. Eu li em algum lugar esta caracterização das duas coisas: «O personagem não é senão a corrupção da pessoa. A pessoa é um rosto, o personagem, uma careta. A pessoa é a nudez radical, o personagem é todo roupagem. A pessoa ama a autenticidade e a essencialidade, o personagem vive de ficção e de artifícios. A pessoa obedece às próprias convicções, o personagem obedece a um roteiro. A pessoa é humilde e suave, o personagem é pesado e ostentoso».

Mas a ficção teatral é uma hipocrisia inocente porque mantém sempre a diferença entre o cenário e a vida. Ninguém que assiste a representação de Agamenon (é o exemplo citado por Agostinho) pensa que o ator seja de verdade Agamenon. O fato novo e inquietante de hoje é que se tende a anular também esta distância, transformando a própria vida em um espetáculo. É o que pretendem os chamados «reality show» que inundam já redes televisivas de todo o mundo.

Segundo o filósofo francês Jean Baudrillard, falecido há três dias, tornou-se difícil distinguir os acontecimentos reais (11-S, ou a guerra do Golfo) de sua representação pelos meios. Realidade e virtualidade se confundem.

O chamado à interioridade que caracteriza nossa bem-aventurança e todo o Sermão da Montanha é um convite a não se deixar enrolar por esta tendência que tende a esvaziar a pessoa, reduzindo-a a imagem, ou pior (segundo o termo usado por Baudrillard) a simulacro.

Kierkegaard evidenciou a alienação que resulta de viver de pura exterioridade, sempre e só em presença dos homens, e nunca só em presença de Deus e do próprio eu. Um pastor — observa — pode ser um «eu» frente a suas vacas, se vivendo sempre com elas não tem mais que essas com as quais medir-se. Um rei pode ser um eu de frente aos súditos e se sentirá um «eu» importante. A criança se percebe como um «eu» em relação com os pais, um cidadão ante o Estado… Mas será sempre um «eu» imperfeito, porque falta a medida. «Que realidade infinita adquire ao contrário meu «eu», quando toma consciência de existir ante Deus, convertendo-se em um «eu» humano cuja medida é Deus… Que acento infinito cai sobre o «eu» no momento em que obtém Deus como medida!».

Parece um comentário à fala de São Francisco de Assis: «O que o homem é ante Deus, isso é, e nada mais» [12].

4. A hipocrisia religiosa

A pior coisa que se pode fazer, falando de hipocrisia, é utiliza-la somente para julgar os outros, a sociedade, a cultura, o mundo. É justamente a esses a quem Jesus aplica o título de hipócritas: «Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão» (Mt 7, 5).

Como crentes, devemos recordar a fala de um rabino judeu do tempo de Cristo, segundo o qual 90% da hipocrisia do mundo se encontrava então em Jerusalém [13]. O mártir Santo Inácio de Antioquia sentia a necessidade de prevenir seus irmãos na fé, escrevendo: «É melhor ser cristãos sem dizê-lo, que dizê-lo sem sê-lo».

A hipocrisia afeta sobretudo as pessoas piedosas e religiosas; o motivo é simples: onde mais forte é a estima dos valores do espírito, da piedade e da virtude (ou da ortodoxia!), aí também é mais forte a tentação de ostentá-los para não parecer que se está faltando a isso. Às vezes, é a própria função que desempenhamos o que nos empurra a fazê-lo.

«Certos compromissos do consórcio humano — escreve Santo Agostinho nas Confissões — nos obrigam a fazer-nos amar e temer pelos homens; portanto, o adversário de nossa verdadeira felicidade persegue e dissemina por todas as partes os laços do ‘Bravo, bravo’, para prender-nos por trás enquanto os recolhemos com avidez, a fim de separar nossa alegria de vossa verdade e uni-la à mentira dos homens, para fazer-nos saborear o amor e o temor não obtidos em vosso nome, mas em vosso lugar.» [15]

A hipocrisia mais perniciosa é esconder… a própria hipocrisia. Em nenhum esquema de exame de consciência eu me lembro de ter encontrado a pergunta: «Fui hipócrita? Preocupei-me pelo olhar dos homens sobre mim, mais que pelo olhar de Deus?». Em certo momento da vida, eu tive de introduzir por minha própria conta essas perguntas em meu exame de consciência, e raramente pude passar incólume à pergunta seguinte…

Um dia, a leitura do Evangelho da Missa era a parábola dos talentos. Escutando-o, entendi imediatamente uma coisa. Entre fazer render os talentos ou não, existe uma terceira possibilidade: a de colocá-los para renderem, sim, mas não por si mesmos, não pelo dono, mas pela própria glória ou pelo proveito pessoal, e isso é um pecado talvez maior que enterrá-los. Aquele dia, no momento da comunhão, tive de fazer como certos ladrões flagrados no momento do roubo, que, cheios de vergonha, esvaziam os bolsos e colocam nos pés do proprietário o que lhe haviam roubado.

Jesus nos deixou um meio simples e insuperável para retificar várias vezes no dia as nossas intenções, as primeiras três petições do Pai Nosso: «Santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso Reino. Seja feita a vossa vontade». Elas podem ser recitadas como orações, mas também como declaração de intenções: tudo o que faço, quero fazê-lo para que o vosso nome seja santificado, para que venha o vosso Reino e para que vossa vontade seja feita.

Seria uma belíssima contribuição para a sociedade e para a comunidade cristã se a bem-aventurança dos puros de coração nos ajudasse a manter desperta em nós a nostalgia de um mundo limpo, verdadeiro, sincero, sem hipocrisia, nem religiosa nem leiga; um mundo em que as ações correspondessem às palavras, as palavras aos pensamentos, e os pensamentos do homem aos de Deus. Isso não acontecerá plenamente senão na Jerusalém celeste, toda de cristal, mas devemos pelo menos tender a isso.

Uma escritora de fábulas redigiu «O país de cristal». Fala de uma jovem que termina, por magia, em um país todo de cristal: casas de cristal, pássaros de cristal, árvores de cristal, pessoas que se movem como delicadas estatuetas de cristal. Apesar de tudo, ninguém ainda havia se quebrado, porque todos aprenderam a mover-se no país com delicadeza para não causar danos. As pessoas, ao encontrar-se, respondem às perguntas antes de que estas sejam formuladas, porque até os pensamentos se tornaram abertos e transparentes; ninguém já busca mentir, sabendo que todos podem ler o que se tem na cabeça [16].

Dá arrepio só de pensar o que aconteceria se isso acontecesse entre nós; mas é sadio pelo menos tender a tal ideal. É o caminho que leva à bem-aventurança que tentamos comentar: «bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus».

———————————————————– [1] S. Agostinho, De sermone Domini in monte, II, 1,1 (CC 35, 92) [2] Ib. II, 13, 45-46. [3] Jean-François de Reims, La vraie perfection de cette vie, 2ª parte, Paris 1651, Instr. 4, p.160 s). [4] Gregório de Nisa, De beatitudinibus, 6 (PG 44, 1272). [5] S. Basílio, Sullo Spirito Santo, IX,23; XXII,53 (PG 32, 109.168). [6] Cf. Michel Dupuy, Pureté, purification, in DSpir. 12, coll,2637-2645. [7] S. Bernardo de Claraval, Sententiae, III, 2 (S. Bernardi Opera, ed. J. Leclerq – H. M. Rochais). [8] S. João Crisóstomo, Homiliae in Mattheum, 15,4. [9] Giovanni Ruusboec, Lo splendore delle nozze spirituali, Roma, Città Nuova 1992, pp.72 s. [10] Cf. B. Pascal, Pensieri, 147 Br. [11] S. Agostinho, De sermone Domini in monte, 2,5 (CC 35, p. 95). [12] S. Francisco de Assis, Ammonizioni, 19 (Fonti Francescane, n.169). [13] Cf. Strack-Billerbeck, I, 718. [14] S. Igácio de Antioquia, Efesini 15,1 («È meglio non dire ed essere che dire e non essere»: «É melhor não dizer e ser, que dizer e não ser») y Magnesiani, 4 («Bisogna non solo dirsi cristiani, ma esserlo»: «É necessário não somente dizer-se cristãos, mas sê-lo»). [15] Cf. S. Agostinho, Confessioni, X, 36, 59. [16] Lauretta, Il bosco dei lillà, Ancora, Milão, 2° ed. 1994, pp. 90 ss.

 
 
 

VATICANO, 01 Jan. 07 (ACI) .- Esta manhã o Papa BentoXVI celebrou a Santa Missa na Basílica de São Pedro na solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, e dirigiu-se aos representantes das nações para que na busca da paz lembrem que os direitos de toda pessoa devem se fundamentar na própria natureza do homem e sua inalienável dignidade de pessoa criada por Deus.

“Um acordo de paz, para que seja duradouro, deve apoiar-se no respeito da dignidade e dos direitos de toda pessoa… é necessário que o fundamento de tais direitos seja reconhecido não em simples acordos humanos, mas sim na própria natureza do homem e na sua inalienável dignidade de pessoa criada por Deus” foram as palavras com as que o Papa se dirigiu aos representantes das nações que participaram da Eucaristia.

A celebração coincidiu com a 40 Jornada Mundial pela Paz, sob o tema: “A pessoa humana, coração da paz”. O Santo Padre lembrou que “respeitando à pessoa se promove a paz e construindo a paz ficam as premissas para um autêntico humanismo integral”.

Adicionou que se trata de “um compromisso que corresponde em modo peculiar ao cristão, chamado a ser infatigável operador de paz e constante defensor da dignidade da pessoa humana e de seus inalienáveis direitos”.

Meditando sobre Maria, Bento XVI destacou que a liturgia de hoje “engrandece a figura de Maria, verdadeira Mãe de Jesus, Homem-Deus” celebrando assim “um mistério e um evento histórico: Jesus Cristo, pessoa divina, nasceu de Maria Virgem, a qual é, no sentido mais verdadeiro, sua mãe”.

Mais adiante ressaltou que além da maternidade, fica evidente a virgindade de Maria” e que “descuidar um aspecto ou outro significa não compreender plenamente o mistério da Mãe”.

“Mãe de Cristo, Maria é também Mãe da Igreja” assim como “Mãe espiritual da inteira humanidade, porque por todos Jesus deu seu sangue na cruz, e a todos da cruz confiou a seus maternais cuidados”.

 
 
 

Segundo o bispo Crepaldi, secretário do Pontifício Conselho «Justiça e Paz»

SALAMANCA, domingo, 26 de novembro de 2006 (ZENIT.org).- Dom Giampaolo Crepaldi, secretário do Pontifício Conselho «Justiça e Paz», afirmou em conferência no final de outubro que «a democracia é um regime político que defende os direitos da pessoa e promove seus deveres» e que, compreendida dessa maneira, pode «servir à dimensão da família humana universal».

Com uma conferência titulada «Unidade da família humana e democracia: uma visão trinitária», o prelado participou na jornada conclusiva do XLII Simpósio de Teologia Trinitária, que aconteceu em Salamanca, no final de outubro.

Dom Crepaldi, segundo recolhe a agência Veritas, questionou se a democracia pode «favorecer a comunhão dentro da família humana» e considerou que tem essa potencialidade quando não é considerada «só uma técnica para contar as mãos levantadas em uma assembléia».

«A democracia é um instrumento a serviço da comunhão entre as pessoas e, para poder exercer esse papel, deve relacionar-se com algo distinto de si mesma», afirmou. O prelado considerou dois dos elementos que caracterizam a democracia, a saber, «o acesso às eleições livres» e o «debate público», porém os julgou, todavia, insuficientes, porque inclusive quando se garantem «o diálogo público não manipulado e a participação no debate sobre as questões políticas», mantém-se o valor da democracia reduzida ao processual.

«A respeito do debate público e dando voz a todos, as democracias podem realizar violações significativas dos direitos humanos. A história nos fala de políticas eugênicas, extermínios e genocídios, de assassinatos de seres humanos mediante a legalização do aborto, acobertados em regimes de democracia comunicativa e de debate público transparente», precisou.

Dom Crepaldi considerou que a definição da democracia como «regime político que defende os direitos da pessoa e promove seus deveres» leva em consideração «o critério de inclusão», englobando o resto de elementos que caracterizam essa forma de governo.

«A democracia verdadeiramente útil para o amadurecimento de uma comunidade universalmente humana é, portanto, a que se entende não somente como liberdade política e eleitoral, não somente como igualdade no debate público, mas também e sobretudo como tutela e desenvolvimento da pessoa», sintetizou.

O secretário do Pontifício Conselho «Justiça e Paz» reconheceu que hoje existem «várias visões da pessoa», e expressou a possibilidade de «estabelecer uma hierarquia, utilizando o critério da inclusão: se uma visão de pessoa responde às exigências das outras e, todavia, mais que as outras, esta é principalmente inclusiva».

Como exemplo para esclarecer essa idéia «é o choque entre mundo católico e mundo leigo acerca da procriação assistida», que «põe em evidência duas visões da pessoa considerada em relação com sua liberdade».

«A primeira sustenta que a liberdade de consciência e de investigação se fundam sobre algo distinto de si mesmas: a dignidade da pessoa humana, que é seu fundamento e, portanto, também seu limite. A segunda, ao contrário, sustenta que liberdade de consciência e a de investigação tenham uma dignidade em si mesmas, que sejam estas a dar fundamento à dignidade da pessoa humana, de maneira que toda limitação que se lhes imponha é uma ferida causada no homem. Como é evidente, a primeira tese é mais inclusiva que a segunda. Enquanto aquela reconhece dignidade humana também a quem não tem consciência explícita, esta limita a liberdade unicamente em presença da consciência», explicou.

Finalmente questionou se «o Ocidente faz coincidir a pessoa e a democracia com o niilismo da técnica, ou com a ditadura do relativismo, propõe uma concepção de pessoa e de democracia pouco inclusivas, e compatível somente com uma globalização reduzida a globalismo e com uma família humana próxima, porém não unida» ou se, pelo contrário, «permanecendo fiel a sua história, que funde suas raízes em Jerusalém, Atenas e Roma, o Ocidente saberá propor uma visão “incondicionada” da pessoa sobre a qual construir uma democracia como instrumento para a tutela e a promoção das pessoas».

Dom Crepaldi disse que o Ocidente poderá realizar essa missão se levar em consideração a visão cristã da pessoa, que «se deriva da essência trinitária» e reconhece a capacidade de abertura do ser humano.

A justificativa teológica Dom Crepaldi chegou a essas idéias da democracia a partir de uma síntese das bases teológicas da família humana segundo a fé cristã e justificou «a unidade do gênero humano» a partir do conceito de «relação» que na Santíssima Trindade se estabelece de modo «essencial», dando um giro à concepção da filosofia antiga, que considerava a essa categoria um mero «acidente».

Baseando-se em idéias expressadas pelo Cardeal Joseph Ratzinger em sua obra «Introdução ao Cristianismo», Dom Crepaldi disse que «a idéia de relação é o núcleo central do conceito de pessoa, que é diverso e mais elevado que o conceito de indivíduo».

«A nova importância assumida pela relação no dogma trinitário consiste no fato de que a pessoa “é” relação, enquanto que anteriormente se podia crer que a pessoa é e, portanto, se relaciona. A relação se volta para a pessoa um elemento absoluto e não relativo», precisou.

Neste contexto, afirmou também que «a fé cristã não inspira forma alguma de coletivismo» mas que «leva a tomar consciência do fato de que a unidade e a comunhão autênticas estão fundadas no espírito, na liberdade e que, por este motivo, não têm necessidade de anular as pessoas singulares, mas, pelo contrário, de avaliar ao máximo».

«Também o encontro pessoal com Deus –encontro de pessoa a Pessoa– não comporta alguma anulação de si mesmo em uma indistinção vazia, mas em uma valorização máxima da categoria do encontro pessoal», acrescentou.

O prelado considerou que «esta chave de leitura» permite liberar a «a interdependência criada pela globalização» do «niilismo da técnica» e dar-lhe um novo sentido.

«A técnica não pode criar comunidade, e o niilismo da técnica pode sem dúvida corroer a comunhão e impedir um encontro real entre pessoas e povos. A técnica pode fazer-nos mais próximos, porém não mais unidos. Por isso disse ao início que a técnica corre o perigo também de esconder e até de anular o significado profundo, autenticamente humano, da dimensão universal da família humana», precisou.

O Simpósio de Teologia Trinitária é organizado há mais de 40 anos pelo Editorial Secretariado Trinitário. Em colaboração com a Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia de Salamanca (UPSA), as reflexões do Simpósio giraram em torno do lema «A Santíssima Trindade e a Paz».

 
 
 
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