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Terceira meditação do Pe. Cantalamessa diante do Papa e da Cúria Romana

CIDADE DO VATICANO, domingo, 19 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – Publicamos a terceira meditação do Advento do Pe. Raniero Cantalamessa OFM cap, pregador da Casa Pontifícia, pronunciada na sexta-feira passada, diante de Bento XVI e da Cúria Romana.

* * *

Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap.

3ª Pregação do Advento

“ESTAI SEMPRE PRONTOS A DAR A RAZÃO DA VOSSA ESPERANÇA.”

(1 Pe 3,15)

A resposta cristã ao racionalismo

1. A razão usurpadora

O terceiro obstáculo que faz parte da cultura moderna, “refratária” ao Evangelho, é o racionalismo. Sobre isso falaremos nesta última meditação do Advento.

O cardeal e, agora, Beato John Henry Newman, deixou-nos um discurso memorável, proferido em 11 de dezembro de 1831, na Universidade de Oxford, intitulado The Usurpation of Raison, a usurpação ou a prevaricação da razão. Neste título já está a definição do que entendemos como racionalismo1. Numa nota explicativa a este discurso, escrita no prefácio à sua terceira edição, de 1871, o autor explica o que quer dizer com esse termo. Por usurpação da razão – diz – se entende “certo abuso generalizado dessa faculdade quando se fala de religião sem um conhecimento íntimo ou sem o respeito devido aos princípios fundamentais desta. Essa ‘razão’ é chamada ‘sabedoria do mundo’ nas Escrituras é a compreensão de religião dos que têm a mentalidade secularista e se baseiam em máximas do mundo, que lhes são intrinsecamente alheias” 2.

Em outro de seus sermões na universidade, intitulado “Fé e Razão comparadas”, Newman ilustra por que a razão não pode ser o juiz supremo em matéria de religião e de fé, com a analogia da consciência:

“Ninguém – escreve – dirá que a consciência se opõe à razão, ou que seus preceitos não podem ser apresentados em forma de argumento; no entanto, quem, a partir disso, argumentará que a consciência não é um princípio original, mas que, para atuar, precisa atender o resultado de um processo lógico-racional? A razão analisa os fundamentos e os motivos da ação, sem ser ela mesma um destes motivos. Portanto, a consciência é um elemento simples da nossa natureza e, no entanto, suas operações admitem ser justificadas pela razão, sem com isso depender realmente dela […]. Quando se diz que o Evangelho exige uma fé racional, pretende-se dizer somente que a fé concorda com a reta razão em abstrato, mas não que seja realmente seu resultado”3.

Uma segunda analogia é a da arte. “O crítico de arte – escreve – avalia o que ele mesmo não sabe criar, assim também a razão pode dar sua aprovação ao ato da fé, sem por isso ser a fonte da qual a fé emana”4.

A análise de Newman possui recursos novos e originais; destaca a tendência, imperialista, por assim dizer, da razão a submeter todo aspecto da realidade aos próprios princípios. É possível, entretanto, considerar o racionalismo ainda de um outro ponto de vista, intimamente ligado ao anterior. Para ficar na metáfora política empregada por Newman, podemos definir como atitude de isolamento, de fechar-se a essa mesma razão. Isso não consiste tanto em invadir o campo de outros, mas em não reconhecer a existência de outro campo fora do seu próprio. Em outras palavras, na negação de que possa haver verdade fora da que passa através da razão humana.

Desse modo,o racionalismo não nasceu com o iluminismo. É uma tendência contra a qual a fé sempre teve de lidar. Não só a fé cristã, mas também a hebraica e a islâmica, pelo menos na IdadeMédia, conheceram esse desafio.

Contra essa afirmação de absolutismo da razão, levantose em cada época a voz não só de homens de fé, mas também de militantes no campo da razão, filosofia e ciência. “O ato supremo da razão, escreveu Pascal, está em reconhecer que existe uma infinidade de coisas que a sobrepassam.”5 No mesmo instante em que a razão reconhece seu limite, ela o rompe e o supera. É por obra da razão que se produz este reconhecimento que é, por isso, um ato puramente racional. Essa é, literalmente, uma “douta ignorância”6. Um ignorar “com conhecimento de causa”, sabendo que se está ignorando.

Devemos, portanto, dizer que estabelece um limite para a razão e a humilha aquele que não reconhece nela esta capacidade de transcender-se. “Até agora, escreveu Kierkegaard, sempre se falou assim: ‘Dizer que não se pode entender esta coisa ou aquela não satisfaz a ciência que deseja conhecer’. Esse é o erro. É preciso dizer exatamente o oposto: onde a ciência humana não quer reconhecer que há algo que ela não pode compreender ou – ainda mais preciso – qualquer coisa que da qual a ciência, pode entender com clareza ‘que não pode entender’, então tudo estará desordenado. É, portanto, uma tarefa do conhecimento humano compreender que existem essas coisas e quais são essas coisas que ela não pode compreender.”7

2. Fé e sentido do sagrado

Espera-se que este tipo de desafio mútuo entre fé e razão continue no futuro. É inevitável que cada época refaça o o caminho por conta própria, mas nem os racionalistas converterão as pessoas de fé e nem serão convertidos por elas. É preciso encontrar uma maneira de romper com esse círculo e liberar a fé desse gargalo. Em todo esse debate sobre a razão e a fé, é a razão que impõe sua escolha e força a fé, por assim dizer, a jogar fora de casa e na defensiva.

Disso, o cardeal Newman estava bem consciente, e, em outro de seus discursos universitários, adverte contra o risco da mundanização da fé em seu desejo de correr atrás da razão. Ele dizia entender, embora sem poder aceitar plenamente, as razões dos que são tentados a separar completamente a fé da investigação racional, por causa do “antagonismo e das divisões fomentadas da argumentação e debates, a confiança orgulhosa que geralmente acompanha o estudo das provas apologéticas, a frieza, o formalismo, o espírito secularista e carnal, enquanto a Escritura fala da religião como de uma vida divina, radicada no afeto e manifestada na graça espiritual”8.

Em todo trabalho de Newman sobre a relação entre razão e fé, então não menos debatida que hoje, há uma ressalva: não é possível combater um racionalismo com outro, talvez contrário. É necessário encontrar outro caminho que não pretenda substituir a da defesa racional da fé, mas, que, pelo menos, a acompanhe, ainda porque os destinatários do anúncio cristão não são os intelectuais, capazes de envolver-se nesse tipo de confronto, mas a massa de pessoas comuns indiferente a isso e mais sensível a outros argumentos.

Pascal propunha o caminho do coração: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”9; os românticos (Schleiermacher, por exemplo) propunham o do sentimento. Ainda existe, penso, um caminho a percorrer: a da experiência e do testemunho. Não pretendo aqui falar da experiência pessoal, subjetiva, da fé, mas de uma experiência universal e objetiva que podemos, por isso, fazer valer mesmo no confronto com pessoas alheias à fé. Ela não nos leva à fé plena e salvadora, a fé em Jesus Cristo morto e ressuscitado, mas pode ajudar a criar nessas pessoas a base que é a abertura ao mistério, a percepção de algo que está acima do mundo e da razão.

A contribuição mais notável que a moderna fenomenologia da religião ofereceu à fé, principalmente na forma que ela toma na clássica obra de Rudolph Otto, “O Sagrado”10, é ter demonstrado que a afirmação tradicional que de existe algo que não se explica com a razão, não é um pressuposto teórico ou de fé, mas um dado primordial de experiência.

Existe um sentimento que acompanha a humanidade desde seus primórdios até o presente em todas as religiões e culturas: o autor o chama de o sentimento do numinoso. (No intuito de elucidar as características irracionais peculiares do sagrado, o autor cria o neologismo numinoso, derivado do termo latino numen, que significa deidade ou influxo divino. Explica ele que o elemento numinoso pode ser identificado como um princípio ativo presente na totalidade das religiões, portador da ideia do bem absoluto. Quando se refere ao numinoso, esclarece que é “uma categoria especial de interpretação e de avaliação e, da mesma maneira, de um estado de alma numinoso que se manifesta quando esta categoria se aplica, isto é, sempre que um objeto se concebe como numinoso”, N. da T.) 11. Esse é um dado primário, irredutível a qualquer outro sentimento ou experiência humana; toma o homem como uma emoção quando, por qualquer circunstância externa ou interna a ele, se encontra diante da revelação do mistério “tremendo e fascinante” do sobrenatural.

Otto designa o objeto desta experiência com o adjetivo “irracional” (o subtítulo da obra é “Sobre o Irracional na Ideia do Divino e sua Relação com o Irracional”); mas toda a obra demonstra que o sentido que ele dá ao termo “irracional” não é o de “contrário à razão”, mas o de “além da razão”, de não traduzível em termos racionais. O numinoso se manifesta em graus diferentes de pureza: do estado mais bruto, que é a reação mais inquietante suscitada pelas histórias de espíritos e fantasmas, ao estado mais puro, que é a manifestação da santidade de Deus – o Qadosh bíblico – como na célebre cena da vocação de Isaías (Is. 6, 1ss).

Se é assim, a evangelização do mundo secularizado passa também pela recuperação do sentido do sagrado. O terreno de cultura do racionalismo – sua causa e, ao mesmo tempo, seu efeito – é a perda do sentido do sagrado. É necessário, por isso, que a Igreja ajude os homens a subir a montanha e redescobrir a presença e a beleza do sagrado no mundo. Charles Péguy disse que “a assustadora penúria do sagrado é a marca profunda do mundo moderno”. Isso é evidente em cada aspecto da vida, mas especialmente na literatura e na linguagem de todos os dias. Para muitos autores, ser definido como “dessacralizado” não é mais uma ofensa, mas um elogio.

A Bíblia foi acusada por vezes de ter “dessacralizado” o mundo por ter perseguido ninfas e divindades das montanhas, dos mares e dos bosques e ter feito destas simples criaturas a serviço do homem. Isso é verdade, mas foi justamente despojando-lhes desse falso pretexto de divindade que a Escritura pôde restituir-lhes sua genuína natureza de “sinal” do divino. A Bíblia combate a idolatria das criaturas, não sua sacralidade.

Assim, “secularizado”, o criado tem agora mais poder de provocar a experiência do numinos e do divino. De uma experiência desse gênero carrega o sinal, em minha opinião, a célebre declaração de Kant, o representante mais ilustre do racionalismo filosófico:

“Duas coisas enchem o coração de admiração e veneração, sempre novas e sempre crescentes, à medida que a reflexão se dirige e se consagra a elas: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim (…) o primeiro espetáculo, de uma inumerável multidão de mundos, aniquila, por assim dizer, a minha importância, por ser eu uma criatura animal que deve voltar à matéria de que é formado o planeta (um simples ponto no Universo) depois de (não se sabe como) ter sido dotada de força vital durante curto espaço de tempo. O segundo espetáculo, ao contrário, eleva infinitamente o meu valor, como o de uma inteligência por minha personalidade, na qual a lei moral me manifesta uma vida independente da animalidade e até mesmo de todo o mundo sensível (1994, p.102).”12

Um cientista vivo, Francis Collins, há pouco nomeado acadêmico pontifício, em seu livro “A Linguagem de Deus”, descreve assim o momento de sua volta à fé: “Numa bela manhã de outono, enquanto, pela primeira vez, passeando pela montanha, fui empurrado para o oeste do Mississipi, a majestosidade e beleza da criação venceram minha resistência. Entendi que a busca tinha chegado ao fim. Na manhã seguinte, quando o sol surgiu, ajoelhei-me sobre na grama molhada e me rendi a Jesus Cristo.”13

As mesmas descobertas maravilhosas da ciência e da tecnologia, ao invés de levarem ao desencantamento, podem chegar a ser ocasiões de admiração e de experiência do divino. O momento final da descoberta do genoma humano é descrito pelo próprio Francis Collins, que foi o chefe da equipe que chegou a tal descoberta, “uma experiência de exaltação científica e ao mesmo tempo de adoração religiosa”. Entre as maravilhas da criação, nada é mais maravilhoso que o homem e, no homem, sua inteligência criada por Deus.

A ciência se desespera agora para tocar um limite extremo na exploração do infinitamente grandioso que é o universo e na exploração do infinitamente pequeno que são as partículas sub-atômicas. Alguns fazem desta “desproporção” um argumento a favor da inexistência de um Criador e da insignificância do homem. Para os crentes, esses são o sinal por excelência não só da existência, mas também dos atributos de Deus: a vastidão do universo é sinal de sua infinita grandeza e transcendência; a pequenez do átomo, da sua imanência e da humildade da sua encarnação, que o levou a fazer-se criança no seio de uma mãe e minúsculo pedaço de pão nas mãos do sacerdote.

Mesmo na vida humana, não faltam ocasiões nas quais é possível fazer a experiência de uma “outra” dimensão: a paixão, o nascimento do primeiro filho, uma grande alegria. É preciso ajudar as pessoas a abrir os olhos e reencontrar a capacidade de surpreender-se. “Quem se surpreende, reinará”, afirma um ditado atribuído a Jesus fora dos Evangelhos14. No romance “Os Irmãos Karamazov”, Dostoiévski refere as palavras que o starets Zózimo, ainda um oficial do exército, fala aos presentes, no momento em que, tocado pela graça, renuncia a duelar com o adversário: “Senhores, olhai em volta os dons de Deus: este céu límpido, este ar puro, essa grama terna, estes passarinhos; a natureza é tão bela e inocente, enquanto nós, só nós, estamos longe de Deus e somos estúpidos e não compreendemos que a vida é um paraíso, uma vez que seria suficiente que quiséssemos compreender e, imediatamente aquilo se instauraria com toda sua beleza e nós nos abraçaríamos e romperíamos em lágrimas”15. Este é o verdadeiro sentido da sacralidade do mundo e da vida!

3. Necessidade de testemunhas

Quando a experiência do sagrado e do divino chega súbita e inesperada de fora de nós e é acolhida e cultivada, torna-se experiência subjetiva vivida. Temos assim as “testemunhas” de Deus que são santos e, de modo especial, uma categoria destes, os místicos.

Os místicos, segundo uma definição célebre de Dionísio o Areopagita, são aqueles que “padeceram Deus”16, isto é, participaram e viveram o divino. São, para o restante da humanidade, como exploradores que entraram primeiro, secretamente, na Terra Prometida e depois voltaram para contar o que tinham visto – “uma terra que mana leite e mel” – e exortar todo o povo a atravessar o Jordão (cf Num 14,6-9). Por meio deles, chegam a nós, nesta vida, os primeiros raios da vida eterna.

Quando lemos seus escritos, parecem distantes e até ingênuos os mais sutis argumentos dos ateus e racionalistas! Nasce, na relação com estes últimos, um sentido de surpresa e até de lástima como diante de alguém que fala de coisas que não conhece. Como alguém que acreditasse ter descoberto contínuos erros de gramática num interlocutor e não se desse conta que este está simplesmente falando uma outra língua que ele não conhece. Mas não há nenhuma vontade de confronto, mesmo as palavras em defesa de Deus parecem, naquele momento, vazias e fora de lugar.

Os místicos são, por excelência, aqueles que descobriram que Deus “existe”, e mais ainda, que não somente existe realmente como infinitamente mais real que aquilo que chamamos realidade. Foi precisamente de um destes encontros que uma discípula do filósofo Husserl, judia e ateia convicta, uma noite descobriu o Deus vivo. Falo de Edith Stein, depois Santa Teresa Benedita da Cruz. Hospedada por amigos cristãos, quando estes precisaram ausentar-se uma noite, sozinha na casa e sem saber o que fazer, tomou um livro da biblioteca dos amigos e começou a ler. Era a autobiografia de Santa Teresa de Ávila. Atravessou a noite lendo. Chegada ao final, exclamou simplesmente: “Esta é a verdade!” No início da manhã, foi à cidade para comprar um catecismo católico e um missal e, depois de tê-los estudado, dirigiu-se a uma igreja próxima e solicitou o Batismo ao sacerdote.

Eu também fiz uma pequena experiência do poder que os místicos têm de fazer-nos tocar o sobrenatural. Era o ano em que se discutia muito o livro de um teólogo intitulado “Existe Deus? (“Existiert Gott?”); mas, terminada a leitura, poucos estavam preparados para trocar o ponto de interrogação do livro para o de exclamação. Indo a um congresso, tinha levado comigo o livro dos escritos da Beata Angela de Foligno, que eu ainda não conhecia. Fiquei literalmente deslumbrado; levava o livro comigo nas conferências, abria-o a cada intervalo e, no final, eu o fechei dizendo a mim mesmo: “Se Deus existe? Não só existe, mas é realmente fogo devorador!”

Infelizmente, certa moda literária conseguiu neutralizar até a “prova” viva da existência de Deus que são os místicos. E o fizeram com um método único: não reduzindo seu número, mas aumentando-o; não restringindo o fenômeno, mas expandindo-o dramaticamente. Me refiro àqueles que, numa resenha sobre místicos, em antologias de seus escritos ou numa história da mística colocam lado a lado, como parte do mesmo gênero de fenômenos, São João da Cruz e Nostradamus; santos e excêntricos; mística cristã e cabala medieval; hermetismo, teosofismo, formas de panteísmo e até alquimia. Os verdadeiros místicos são outra coisa e a Igreja tem razão de ser rigorosa no juízo sobre eles.

O teólogo Karl Rahner, tomando, ao parecer, uma frase de Raimondo Pannikar, afirmou: “O cristão de amanhã, ou será um místico, ou não será”. Tentava dizer que, no futuro, manter viva a fé dependerá do testemunho de pessoas que possuem uma profunda experiência de Deus, mais que a demonstração de sua plausibilidade racional. Paulo VI dizia, no fundo, a mesma coisa quando afirmava, na Evangelii nuntiandi (n.41): “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, dizíamos ainda recentemente a um grupo de leigos, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas”.

Quando o apóstolo Pedro recomendava aos cristãos a estar “prontos a dar razão da vossa esperança” (1 Pe 3,15), é certo, no contexto, que ele não falava da razão especulativa ou dialética, mas da razão prática, ou seja, da sua experiência de Cristo, unida ao testemunho apostólico que a garantia. Num comentário a este texto, o cardeal Newman fala de “razões implícitas” que são, para os crentes, mais intimamente persuasivas que as razões explícitas e argumentativas17.

4. Um salto de fé no Natal

Chegamos, assim, à conclusão prática que mais nos interessa numa meditação como esta. Da irrupção imprevista do sobrenatural na vida não precisam só os que não creem e os racionalistas; necessitamos também nós, crentes, para reanimar a nossa fé. O maior perigo que correm as pessoas religiosas é de reduzir a fé a uma sequência de ritos e de fórmulas, repetidas, mesmo que com cuidado, mecanicamente e sem a íntima participação de todo o ser. “Esse povo me procura só de palavra, honra-me apenas com a boca, enquanto o coração está longe de mim. Seu temor para comigo é feito de obrigações tradicionais e rotineiras” (Is 29, 13).

O Natal pode ser uma ocasião privilegiada para ter esse salto de fé. Isso é a suprema “teofania” de Deus, a mais alta “manifestação do Sagrado”. Infelizmente, o fenômeno do secularismo está despojando esta festa de seu caráter de “mistério tremendo” – isto é, que induz ao santo temor e à adoração – para reduzi-lo somente ao aspecto de “mistério fascinante”. Fascinante, o que é pior, somente no sentido natural, não sobrenatural: uma festa dos valores familiares, do inverno, da árvore, das renas e do Papai Noel. Existe, em alguns países, a intenção de trocar o nome de “Natal” por “festa da luze”. Em poucos casos a secularização é tão visível como no Natal.

Para mim, o caráter “numinoso” do Natal está ligado a uma memória. Assisti, um ano, à Missa do Galo, presidida por João Paulo II, em São Pedro. Chegou o momento do canto da Kalenda, ou seja, a solene proclamação do nascimento do Salvador, presente no antigo Martirológio e reintroduzida na liturgia natalina depois do Vaticano II:

“Tendo transcorridos muitos séculos desde a criação do mundo

Treze séculos depois da saída de Israel do Egito

Na centésima nonagésima quarta Olimpíada

No ano 752 da fundação de Roma

No quadragésimo segundo ano do Império de César Augusto

Jesus Cristo, Deus eterno e Filho eterno do Pai, tendo sido concebido por obra do Espírito Santo, tendo transcorrido nove meses, nasce em Belém da Judeia, da Virgem Maria, feito homem.”

Chegados a estas últimas palavras, senti aquilo que se chama “unção da fé”: uma repentina clareza interior, pela qual me lembro de dizer a mim mesmo: “É verdade! É tudo verdade isto que se canta! Não são somente palavras. O eterno entra no tempo. O último evento da série rompeu a série; criou um “antes” e um “depois” irreversível (olimpíada número tal, reinado de tal…); agora tudo ocorre em relação a um único evento”. Uma súbita comoção atravessou toda a minha pessoa, enquanto só podia dizer: “Obrigado, Santíssima Trindade; e obrigado também a Vós, Santa Mãe de Deus!”.

Ajuda muito a tornar o Natal a ocasião para um salto de fé, encontrar espaços de silêncio. A liturgia envolve o nascimento de Jesus no silêncio: “Dum medium silentium tenerent omnia“, enquanto tudo em volta era silêncio. “Stille Nacht“, noite de silêncio, é chamado o Natal num dos mas populares e amados cantos natalinos. No Natal, devemos sentir como dirigido a nós o convite do Salmo: “Parai! Sabei que eu sou Deus, excelso entre as nações, excelso sobre a terra” (Sal 46,11).

A Mãe de Deus é o modelo insuperável deste silêncio natalino: “Maria, porém, guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração (Lc 2, 19). O silêncio de Maria no Natal é mais que um simples calar-se; é maravilha, é adoração, é um “religioso silêncio”, um ser “oprimido pela realidade”. A interpretação mais real do silêncio de Maria é aquela encontrada nos antigos ícones bizantinos, onde a Mãe de Deus aparece imóvel, com o olhar fixo, os olhos arregalados, como quem viu algo que as palavras não podem expressar. Maria, antes de todos, elevou a Deus o que São Gregório Nazianzeno chama “um hino de silêncio”18.

Vive realmente o Natal quem é capaz de fazer hoje, depois de tantos séculos, o que teria feito se estivesse presente naquele dia. Quem faz o que Maria ensinou: ajoelhar-se, adorar e calar!

1 J.H. Newman, Oxford University Sermons, London 1900, pp.54-74; trad. Ital. di L. Chitarin, Bologna, Edizioni Studio Domenicano, 2004, pp. 465-481.

2 Ib.p. XV (trad. ital. Cit. p.726).

3 Ib., p. 183 (trad. ital. Cit. p.575).

4 Ibidem.

5 B.Pascal, Pensieri 267 Br.

6 S. Agostino, Epist. 130,28 (PL 33, 505).

7 S. Kierkegaard, Diario VIII A 11.

8 Newman, op. cit., p. 262 (trad. ital. cit., p. 640 s).

9 B. Pascal, Pensieri, n.146 (ed. Br. N. 277).

10Otto, Rudolf (1992) O Sagrado. Sobre o Irracional na Ideia do Divino e sua Relação com o Irracional. Lisboa: Edições 70.

11Bay, Dora (2004) Fascínio e Terror: O Sagrado. Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas, número 61, Universidade Federal de Santa Catarina.

12 E. Kant, Textos seletos. Introdução de Emmanuel Carneiro Leão. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 2005.

13 F. Collins, The Language of God. A Scientist Presents Evidence for Belief, Free Press 2006, pp. 219 e 255.

14 In Clemente Alessandrino, Stromati, 2, 9).

15 F. Dostoevskij, I Fratelli Karamazov, parte II, VI,

16 Dionigi Areopagita, Nomi divini II,9 (PG 3, 648) (“pati divina”).

17 Cf. Newman, “Implicit and Explicit Reason”, in University Sermons, XIII, cit., pp. 251-277

18 S. Gregorio Nazianzeno, Carmi, XXIX (PG 37, 507).

 
 
 

Índice

  1. 1. Branqueamento da responsabilidade por falsas profecias

  2. 1.1 Exemplo 1: A falsa profecia de 1914

  3. 1.2 Exemplo 2: A falsa interpretação das “autoridades superiores”

  4. 1.3 Exemplo 3: Um tempo de “provas e purificação”

  5. 1.4 Exemplo 4: A falsa profecia de 1925

  6. 1.5 Exemplo 5: A falsa profecia de 1975: ‘A culpa foi vossa’

  7. 1.6 Exemplo 6: O uso da terceira pessoa

  8. 1.7 Exemplo 7: A “libertação de Babilônia” em 1919 e as “impurezas”:

  9. 1.7.1 Autoridades superiores

  10. 1.7.2 Desenvolvimento do caráter

  11. 1.7.3 Feriados pagãos

  12. 1.7.4 Cruz

  13. 1.7.5 Uso do nome Jeová

  14. 1.7.6 Democracia

  15. 2. Publicações antigas e “verdades estabelecidas” que deixaram de o ser

  16. 2.1 Estudos das Escrituras

  17. 2.2 O Mistério Consumado

  18. 2.2.1 Falsas previsões

  19. 2.2.2 Interpretações pitorescas

  20. 2.2.3 Beemote = máquina a vapor

  21. 2.2.4 Leviatã = locomotiva a vapor

  22. 2.2.5 Miguel e anjos = Papa e Bispos

  23. 2.2.6 O profeta Naum e o comboio

  24. 2.3 Outras “verdades” que caducaram

  25. 2.4 O acesso às publicações antigas

  26. 2.5 ‘Os cristãos primitivos também cometiam erros’

  27. 3. Apenas a “organização” sobreviverá à ‘grande tribulação’

  28. 4. Ideias e atitudes “independentes”

  29. 5. Bibliografia

Adaptado de uma mensagem enviada por Odracir para a mailing list testemunhas em 1999-12-02. Nas citações que aparecem nesta página, parte do texto foi colocado em letra maiúscula para ênfase. Algumas edições de A Sentinela citadas aqui, especialmente as mais antigas, foram publicadas inicialmente em lingua inglesa, podendo não haver a exata correspondência com a data da edição em português. Sobre o tema piramidologia, abordado neste artigo, recomendamos a leitura de A Sentinela de 1/1/2000, onde a Sociedade VIU-SE OBRIGADA a fazer um reconhecimento mais explícito e pormenorizado do assunto, após o mesmo vir a conhecimento público.

1. Branqueamento da responsabilidade por falsas profecias

1.1 Exemplo 1: A falsa profecia de 1914

No ano de 1889, no livro “The Time Is At Hand”, páginas 98 e 99, Charles Taze Russell declara:

“Na verdade, é esperar grandes coisas AFIRMAR, COMO O FAZEMOS, que dentro dos próximos 26 anos [1914/1915], TODOS os atuais governos serão DERRUBADOS e dissolvidos; porém, estamos vivendo em um tempo especial e peculiar, o “Dia de Jeová”, no qual os assuntos chegarão a uma conclusão RÁPIDA…. Em vista da forte evidência bíblica concernente aos Tempos dos Gentios, consideramos uma VERDADE ESTABELECIDA que o FINAL DEFINITIVO dos reinos deste mundo e o pleno estabelecimento do Reino de Deus se realize pelo fim de 1914 A.D.” (o maiúsculo é meu)

Tais afirmações referiam-se às previsões sobre os anos de 1874, 1878 e 1914, iniciando-se a ‘parousia’ de Cristo na primeira data (sua ‘posse’ como Rei na segunda data). É importante frisar que tais cálculos cabalísticos começaram com o inglês John Acquila Brown, no ano de 1823 — 29 anos antes do nascimento de Russell, 47 anos antes da formação do grupo dele e mais de meio século (54 anos) antes da publicação do livro que ele financiou, “Os Tres Mundos”. Diversas outras obras da organização reafirmaram tais cálculos como algo além de simples opinião, chamando-os de “datas de Deus” e, em alguns casos, questionando a fé ou a vigilância de quem deles duvidava — “Thy Kingdom Come” (1891), “Watchtower” de 15/1/1892, de 1/7/1894 e de 1/10/1907.

Em 1916, dois anos após o fracasso daquelas previsões e do desapontamento — desnecessário, diga-se de passagem — de Russell e de seus seguidores, os quais ficaram expostos ao escárnio público, o que afirmou ele sobre seu erro, agora impossível de ser negado? Deixemos que o próprio Russell fale:

“Este foi um erro natural no qual se pode cair, mas O SENHOR O INVALIDOU para a bênção de Seu povo. O pensamento de que a igreja seria ajuntada em glória antes de Outubro de 1914, TEVE CERTAMENTE UM EFEITO MUITO ESTIMULANTE E SANTIFICADOR sobre milhares, todos os quais podem consequentemente louvar o Senhor — ATÉ PELO ERRO.” (Prefácio de “The Time is At Hand”, 1916, página iv)

Note o leitor que, após envolver até o próprio Deus em seus erros, “invalidando-os” — na verdade, minimizando-os — encontrou o pastor Russell uma alternativa bastante conveniente a ter que encarar o fato de que suas predições nada tinham de “datas de Deus”. Chegou ele ao cúmulo de elogiar o erro, sim, de promover o erro como meio válido pelo qual Jeová guia seu povo. Isto deu margem, mais tarde, a novas predições, hábito este bastante comum entre os líderes das TJ até os nossos dias, bastante “fiéis” às suas origens, diga-se. Parece isto simples “explicação”, como quer o nosso companheiro H., ou clara JUSTIFICAÇÃO? Precisa Deus dos nossos erros?

Este caso não constitui exceção no “currículo” da Watchtower ou tampouco expressa a simples opinião de um membro da sociedade, à parte do que os outros pensavam e dissonante da postura histórica desta entidade no que se refere aos seus falhanços doutrinais. O próximo exemplo ilustra outra situação em que ela GLORIFICA, como organização, seus erros ao invés de se desculpar por eles — na verdade, subentende que eles foram SUPERIORES à verdade, em razão dos seus efeitos “protetores”. Vamos a ele:

1.2 Exemplo 2: A falsa interpretação das “autoridades superiores”

Até 1929, a Watchtower ensinava que as “autoridades superiores” mencionadas no capítulo 13 de Romanos correspondiam às autoridades governamentais seculares. A partir daquele ano, mudou seu “entendimento” do texto e passou a ensinar que o texto referia-se apenas a Deus e Jesus Cristo. Esta doutrina perdurou por mais de 30 anos, até que, em 1962, uma “nova luz” remeteu a sociedade DE VOLTA ao entendimento anteriormente abandonado — o que, por si só, desfere um golpe mortal na tese da “luz progressiva”. Este assunto é considerado em “A Sentinela” de 1/5/1996. Sobre a mudança doutrinária, o artigo, na pág. 14, diz:

“Olhando para trás, precisa-se dizer que esta maneira de encarar as coisas, que enaltecia a supremacia de Jeová e de seu Cristo, AJUDOU o povo de Deus a manter uma intransigente posição neutra durante este período difícil (isto é, desde a 2ª Guerra Mundial até a ‘guerra fria’)”. (o maiúsculo é meu)

Sobre isto, Ray Franz, com muita propriedade, diz:

“Quer dizer que, para todos os efeitos, ter tido o entendimento CORRETO, o entendimento que o apóstolo Paulo tinha em mente quando escreveu seu conselho, NÃO TERIA SIDO NEM TÃO SUFICIENTE PARA ORIENTAR, NEM TÃO EFICAZ PARA PROTEGER contra a ação não-cristã, quanto o conceito ERRÔNEO ensinado pela organização Torre de Vigia. Não há nada que mostre que Deus guie seu povo por meio do erro. Ele o fortalece com a verdade, NÃO COM O ERRO, em época de crise.” 1 João 1:5 (o maiúsculo é meu) — “Crise de Consciência”, pág. 497.

Alguém da lista concordaria, como quer o nosso companheiro H., que, neste caso, o corpo governante APENAS EXPLICOU, SEM DEFENDER?

1.3 Exemplo 3: Um tempo de “provas e purificação”

No Anuário de 1983, pág. 120, quase 70 anos depois do fracasso de 1914, a Watchtower insiste em minimizar seus erros ou, pelo menos, dar-lhes uma conotação piedosa. Após o relato sobre a inocultável frustração que envolveu a expectativa criada por Russell sobre o arrebatamento da igreja e o fim do mundo em 1914 — com o tropeço na fé de muitos — ela dirige a atenção do leitor para o fato de que aquele período era um tempo de “provas e purificação” — por meio do ERRO, naturalmente — e, a seguir, desvia-a para um comentário de um dos desapontados seguidores de Russell, o qual teria dito: “Em vez da esperada coroa da glória, recebemos um resistente par de botas para realizar a obra de pregação”. O assunto é concluído por aí mesmo, sem qualquer assumimento direto da responsabilidade por falsas previsões e suas consequências ou por um cândido pedido de desculpas, como seria de se esperar de humildes cristãos tementes a Deus.

Isto até que soaria comovente, caso não fosse hilariante! Parece isto mais com “explicação”, como quer o nosso companheiro H., ou com “justificação”?

1.4 Exemplo 4: A falsa profecia de 1925

No livro “Testemunhas de Jeová — Proclamadores do Reino de Deus” (1993), pág. 78, faz-se uma tentativa de justificação da falsa profecia de 1925, advogada pelo sucessor de Russell, J. F. Rutherford, por afirmar o seguinte:

“O ano de 1925 chegou e passou. Alguns abandonaram sua esperança. Mas a vasta maioria dos Estudantes da Bíblia permaneceu fiel. ‘Nossa família’, explicou Herald Toutjian, cujos avós se tornaram Estudantes da Bíblia no início do século, “chegou a reconhecer que esperanças não realizadas não são exclusividade dos nossos dias. Os próprios apóstolos tiveram semelhantes expectativas indevidas… Jeová é digno de serviço leal e de louvor COM OU SEM a recompensa final.”

O que, na verdade, isto quer dizer é COM OU SEM FALSAS PREVISÕES. Aquele argumento não procede, visto que não é a existência de uma recompensa que está em jogo — pois a Bíblia assegura a recompensa final aos servos leais de Deus — mas são as FALSAS EXPECTATIVAS criadas por uma organização, em função de uma data específica. A Watchtower, aqui, mais uma vez, passa ao lado da questão central, a saber, seus fracassos doutrinários. Queira notar o leitor que, tanto neste como no caso anterior, ela deixa que terceiros — membros dela, naturalmente — falem por ela. Dos que tropeçaram em razão das falsas profecias dela — nem uma palavra. Mesmo sabendo que muitos largaram seus empregos, venderam seus bens, abandonaram carreiras e até fazendeiros deixaram de colher suas safras, a Watchtower não lamenta aquele triste episódio. Mesmo sabendo que ele minou a fé de muitos, não só na organização, mas NA PRÓPRIA BÍBLIA. Mais uma vez ela não faz qualquer reconhecimento direto de que profetizou em vão. E, além disso, deixa de esclarecer ao leitor que, quando os apóstolos tinham expectativas quanto ao cumprimento de profecias em seus dias, eles estavam INDAGANDO a Cristo e NÃO ENSINANDO a milhões de “outras ovelhas”, no papel de ÚNICO CANAL ENTRE DEUS E OS SERES HUMANOS. A propósito, quanto a isto, Jesus respondeu aos discípulos: “NÃO VOS CABE OBTER CONHECIMENTO DOS TEMPOS OU DAS ÉPOCAS QUE O PAI TEM COLOCADO SOB SUA PRÓPRIA JURISDIÇÃO.” (Atos 1:7) Quão a sério tem o “escravo fiel e discreto” levado estas palavras nos últimos cem anos? Tem sido a estrita adesão a estas palavras de Cristo que tem motivado o conselho supremo da Torre de Vigia a especular sobre datas específicas para “o fim” ou terá sido o interesse em intensificar o ritmo de atividades de proselitismo dos adeptos, “alavancando” assim os chamados “AUGES” organizacionais tão propalados em sua literatura? Devemos louvar a Deus ou louvar números?

Mais uma vez, pergunto: parece isto com simples “explicação”, como quer o nosso companheiro H., ou clara “justificação”?

1.5 Exemplo 5: A falsa profecia de 1975: ‘A culpa foi vossa’

Em Toronto, Ontário, Canadá, na primavera de 1975, ao proferir discurso a uma vasta audiência, Fred Franz, então vice-presidente da Watchtower, declarou que ele e seus associados (o corpo governante) estavam ‘olhando com ansiedade particular’ para aquilo que o outono daquele ano traria. Contudo, um ano mais tarde, falando a uma audiência similar, ele falou em tom de retórica: “VOCÊS SABEM POR QUE NADA ACONTECEU EM 1975?” Daí, apontando para a platéia, ele falou em alto volume: “FOI POR QUE VOCÊS ESTAVAM ESPERANDO QUE ALGO ACONTECESSE!” Em outras palavras, desde que Jesus predisse que ninguém saberia “o dia ou a hora” de sua vinda para julgar a humanidade, as Testemunhas não deveriam ter acreditado que poderiam saber que ela ocorreria em 1975. Incrível como possa parecer, Franz pôs a culpa pelo fiasco inteiro na comunidade de Testemunhas e agiu virtualmente como se ele não tivesse qualquer responsabilidade na matéria. Fonte: “Apocalypse Delayed” (1985) — M. J. Penton

Embora o nosso companheiro H. prefira, nestes casos, desacreditar a fonte, ao invés de investigar os fatos ou de contestar embasadamente os relatos com contra-provas, eu publico este trecho neste fórum para que os demais tomem conhecimento dele e percebam que, a menos que Franz estivesse a mentir, o corpo governante, por meio de seu “oráculo” — nada menos que o vice-presidente e autor de muitas obras da organização — chegou ao ponto de remover a responsabilidade por fracassos doutrinários de seus próprios ombros e lançá-la sobre os lombos do seu próprio rebanho. E não disse isto em particular ao autor, mas em público, diante de uma vasta assistência. Será tudo mentira? Calúnia? Não houve tal fato? Em caso afirmativo, porque nenhum processo por calúnia, injúria ou difamação forçou uma retratação ou a retirada desta matéria de edição desde que foi lançada, há mais de uma década?

Isto é mais do que “explicação”, como quer o nosso colega H.. Tampouco é apenas “justificação”. Trata-se, na verdade, de pura desonestidade!

Tampouco é este um caso isolado. Vejamos como a Torre de Vigia justifica a mudança doutrinária sobre a geração de 1914, a qual ela sustentou por décadas e, quando se tornou insustentável, alterou, com consequências até sobre a contracapa das revistas “Despertai!” (a partir de 8/11/1995):

1.6 Exemplo 6: O uso da terceira pessoa

“Os estudantes da Bíblia, conhecidos desde 1931 como testemunhas de Jeová, esperavam também que o ano de 1925 traria o cumprimento de maravilhosas profecias bíblicas. ELES PRESUMIRAM que naquele tempo começaria a ressurreição terrestre, que traria de volta homens fiéis do passado, como Abraão, Davi e Daniel. Mais recentemente, MUITAS TESTEMUNHAS ACHAVAM que eventos relacionados com o começo do Reinado Milenar de Cristo poderiam começar a ocorrer em 1975. Sua expectativa baseava-se no entendimento de que o sétimo milênio da história humana começaria então.” — “Despertai!” de 22/6/1995 (o maiúsculo é meu)
“O POVO DE JEOVÁ, ansioso de ver o fim deste sistema iníquo, ÀS VEZES TEM ESPECULADO sobre quando irromperia a “grande tribulação”, até mesmo relacionando isso com cálculos sobre a duração da vida duma geração desde 1914.” — “A Sentinela” de 1995 (o maiúsculo é meu)

Queira o leitor notar aqui a tática habitual de falar NA TERCEIRA PESSOA, removendo a responsabilidade pelos erros doutrinários dos ombros do corpo governante e transferindo-a para as Testemunhas, como se elas tivessem chegado SOZINHAS àquelas conclusões, como se fossem elas a FONTE de alterações doutrinárias, como se não tivesse sido a própria sociedade que alimentou tais expectativas já a partir de 1969 (“Despertai!” de 22/4/69, “A Sentinela” de 15/2/69 e 15/9/75, bem como o “Ministério do Reino” de 7/74). Na verdade, as Testemunhas são as VÍTIMAS DE TAIS MUDANÇAS!

1.7 Exemplo 7: A “libertação de Babilônia” em 1919 e as “impurezas”

No afã de dar coerência à sua história e de se “purificar” de suas impurezas, a Watchtower vai bem além de “justificar”. Ela, às vezes, insulta a inteligência do leitor ou apóia-se em sua ignorância dos fatos, especialmente quando tais fatos já se dissiparam na corrente do tempo, envoltos na neblina do passado. Referindo-se às práticas e crenças advogadas pela organização no período de sua seleção por Jesus Cisto, ou seja, de 1914-1918, ela diz, em “A Sentinela” de 15/11/1980, o seguinte:

“Como os Israelitas dos dias de Isaías, os israelitas espirituais [Testemunhas de Jeová] venderam-se por causa de práticas errôneas e vieram a ligar-se ao império mundial de religião falsa, isto é, Babilônia, a Grande….”

Em “A Sentinela” de 15/7/1960, páginas 435 e 436, ela acrescenta:

“Eles tinham muitas práticas, características e crenças similares às das seitas da cristandade. Assim, de 1914 a 1918, um período de ardente teste veio sobre eles, não diferente do antigo período de captura dos Judeus por Babilônia lá em 607-537 AEC.” “Jeová e Jesus Cristo permitiram que estas Testemunhas fôssem reprovadas, perseguidas, banidas e seus membros fôssem aprisionados pelas nações deste velho mundo.”

O episódio em questão refere-se à condenação e encarceramento de Rutherford e seus diretores, após julgamento sob a acusação de ‘espionagem’ por uma corte norte-americana, em 1919. Cumprir eventos portentosos e profecias de longo alcance da bíblia em um punhado de homens nos EUA em nosso século, sem provas para apoiar tais asserções, constitui um triste exemplo da presunção e arrogância típicas das seitas.

Note o leitor que, mais uma vez, a Watchtower fala na TERCEIRA PESSOA, e não na primeira. Pois bem, que práticas e crenças eram estas a que a sociedade se referia? O livro “As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino”, na pág. 91, lista algumas destas “impurezas”: .

  1. 1.7.1 “A crença de que as autoridades terrestres constituem as “altas potestades” ou “autoridades superiores” descritas em romanos 13:1, com resultante temor dos homens”.Comentário: Conforme já falei antes, tal pensamento perdurou até 1929, DEZ ANOS após a libertação dos assim chamados “israelitas espirituais” do seu cativeiro babilônico. Como se não bastasse, após 33 anos deste “avanço”, a sociedade retorna ao pensamento de antes de 1929, O MESMO QUE RESULTOU EM SEU APRISIONAMENTO POR “BABILÔNIA, A GRANDE”. Que sentido fez sua libertação, se uns dos motivos do encarceramento prolongou-se por mais uma década e retornou 43 anos depois?

  2. 1.7.2 Dar ênfase ao “desenvolvimento do caráter”.Comentário: a sociedade continuou a dar ênfase às “obras” cristãs, ao invés de dar primazia à fé (o que vem primeiro, antecedendo as obras) e a benignidade imerecida de Deus em suas publicações, só que agora sob um novo pretexto, o “revestir-se da nova personalidade” (Efésios 4:24), no lugar do “desenvolvimento do caráter cristão”, embora seja difícil entender a diferença entre estas duas coisas. Há uma farta quantidade de matéria publicada neste sentido, em nada diferindo das publicações antigas, anteriores a 1919, o ano da pretensa “purificação”.

  3. 1.7.3 “A celebração de feriados pagãos, como o Natal”.Comentário: o Natal CONTINUOU A SER CELEBRADO pela Watchtower até, pelo menos, 1926, havendo, inclusive, uma foto de Betel, com Rutherford à testa da mesa em meio a uma sala cheia de adornos natalinos e presentes — SETE ANOS, portanto, APÓS a pretensa “purificação”.

  4. 1.7.4 “O uso do símbolo da cruz”.Comentário: Não só a cruz CONTINUOU A SER USADA, como também o símbolo da maçonaria (o elmo da armadura dos “Cavaleiros Templares”), até, pelo menos, 1931, do modo como se vê na capa da revista “The Watchtower” de 15/7/1930 — 11 ANOS APÓS a pretensa “purificação”.

  5. 1.7.5 “Não usar o nome Jeová tão frequentemente quanto seria feito em tempos posteriores”.Comentário: em 1927, Rutherford lançou o livro “Creation” (“Criação”), onde se diz, na pág. 10:

“A Bíblia mostra que O NOME de Quem exerce poder supremo na criação e em todas as coisas, É DEUS. ELE TEM TAMBÉM OUTROS NOMES que se encontram na Bíblia, TODOS OS QUAIS têm um significado profundo acerca de seu propósito para com suas criaturas.” (o maiúsculo é meu)

Parece haver aqui — 8 ANOS APÓS a pretensa purificação” — alguma ênfase especial ao nome “Jeová”?

  1. 1.7.6 “Tendo uma forma democrática de administração congregacional”.Comentário: o assim chamado sistema “democrático” (por meio da eleição dos anciãos) PERDUROU ATÉ 1932 — 13 ANOS APÓS a pretensa “purificação” — quando Rutherford centralizou o poder decisório na pessoa do presidente da Watchtower, no caso, ELE PRÓPRIO, o que deu início uma virtual ditadura individual, a qual, só em 1976 foi substituída pelo arranjo de um Corpo Governante, resultando no sistema autoritário grupal que hoje conhecemos. O sistema é “democrático” até nos detalhes, como, por exemplo, a votação por maioria absoluta (2/3) nas reuniões do Corpo Governante, igual à câmara dos deputados e o senado, em Brasília. Também, neste caso, a sociedade “avançou” e depois “recuou” naquilo que constituía um dos motivos para seu encarceramento às mãos de “Babilônia, a Grande”.

Diante de tudo isto, fazem-se algumas perguntas: que sentido houve em haver um encarceramento “purificador” de práticas e crenças errôneas, se, após a libertação, tais coisas PERSISTIRAM por até mais de uma década, sendo que se RETORNOU a algumas delas, como fruto de “novas luzes”, as quais são bem conhecidas na atualidade? Não é o mesmo que um delinquente ser preso por diversos crimes e, após sua libertação, CONTINUAR A PRATICAR, por anos, todos eles ou até RETORNANDO a eles após um período de recuperação, SEM SER NOVAMENTE PUNIDO, ou até, ao contrário, considerando-se que o aprisionamento, de fato, resultou numa “purificação” que justificaria sua soltura? Não faz parecer que Deus e Cristo equivocaram-se ao permitir a libertação daquele grupo numa época em que continuavam a ter vínculos com as práticas de “Babilônia”? Acredita você nisto, H.? O Corpo Governante quer que você acredite…

Muitos outros exemplos eu poderia mencionar. Posso acrescentar vários outros, com a necessária documentação, caso você ache que estes não são suficientes, H.. Todavia, creio que isto só agravaria mais a situação. Em breve, lançarei artigo, provando que, quando necessário, a Watchtower, em sua defesa, lança mão até de injúria, difamação e revisionismo histórico. É mister lembrar que alguns dos erros doutrinários sequer mereceram uma justificativa. A mudança foi feita sem se mencionar a posição anterior (como, por exemplo, a mudança doutrinária quanto aos transplantes nos anos 1962,1968 e 1980). Contudo, creio que estes já são suficientes para demonstrar meu ponto: defender a organização “no geral” DE MODO ALGUM SIGNIFICA EXPLICAR ERROS PASSADOS SEM JUSTIFICÁ-LOS (ou defendê-los). Se esta é a sua atitude, H., certamente NÃO É A ATITUDE “FREQUENTE” DO CORPO GOVERNANTE. Os exemplos acima demonstram isto.

Assim sendo, em nome da lógica, mantenho meu entendimento anterior do assunto, no sentido de que a sua postura quanto ao primeiro ponto difere, sim, daquela manifesta pelo corpo governante. Se você quiser estar em fina sintonia com o “escravo fiel e discreto”, terá de aprender a omitir, “justificar”, “branquear” ou até louvar os erros passados, mentindo, se necessário….

2. Publicações antigas e “verdades estabelecidas” que deixaram de o ser

Quanto ao acesso a publicações antigas e já obsoletas vejamos o que diz o “Ministério do Reino” de Dezembro deste ano na seção de ‘anúncios’, conforme e-mail recebido da Espanha:

“De vez em quando, nos salões do Reino ou pessoalmente, se recebem ofertas de particulares que animam a adquirir publicações da Sociedade QUE JÁ NÃO SE REIMPRIMEM POR DIVERSAS RAZÕES. Oferecem-se fotocópias ou CD-ROM e quem assim procede o faz SEM AUTORIZAÇÃO DA SOCIEDADE. OS MEMBROS DA CONGREGAÇÃO RECONHECEM QUE TEM TUDO O QUE NECESSITAM ATRAVÉS DO “ESCRAVO FIEL E DISCRETO”, o qual supre ‘o alimento [de que necessitamos] no tempo apropriado’, por causas teocráticas estabelecidas (Mateus 24:45-47) (o maiúsculo é meu)

Note o leitor que a própria sociedade admite que diversas publicações suas “não se reimprimem por DIVERSAS RAZÕES”. Naturalmente, ela prefere, aqui, não entrar no mérito de QUE RAZÕES SÃO ESTAS. Seria, deveras, muito embaraçoso analisar tais razões pormenorizadamente. Se fosse solicitada a falar destas “diversas razões”, não seria surpresa que a resposta fôsse: “O povo de Deus (3ª pessoa) teve de fazer “ajustes” quanto ao que esta literatura ensinava…” — resposta bem típica da Watchtower. Antes que alguém diga que se trata de mera proteção de direitos autorais, releia o texto e note que NÃO é este o motivo alegado pela sociedade neste anúncio. Ela não deixa aqui espaço para a aquisição de publicações expiradas sob qualquer que seja o pretexto, não abrindo exceção mesmo que a publicação de tais obras não tenha fins lucrativos, coisa que a lei de direitos autorais não proíbe. Mais adiante, a própria organização mostra O MOTIVO: os seus adeptos “reconhecem que têm tudo o que necessitam”, deixando implícito que AQUELES QUE ADQUIREM TAIS PUBLICAÇÕES VÃO ALÉM DAQUILO DE QUE PRECISAM. Diante disto, pergunta-se: O que há de tão inconveniente em tais publicações, de modo que a Torre de Vigia prefira mantê-las fora do alcance de seus membros? Por que ela desestimula seus adeptos a consultá-las, ao passo que os estimula a CONTENTAREM-SE com o que é provido como “verdade atual” pelo “escravo fiel e discreto”? Por que não abre espaço a que um cristão, ainda que sob o pretexto de pesquisa pessoal e melhor familiarização com os primórdios da organização, passe a examinar o conteúdo de obras expiradas há décadas atrás? Não lhe daria isto uma visão mais abrangente do desenvolvimento da “Organização de Deus”? Ou, ao contrário, PORIA EM RISCO sua fé? Há algo a se esconder? O que veremos a seguir mostra que há.

“Quem se esquece do passado, condena-se a repetí-lo…”

Passo agora a apresentar algumas “amostras” daquilo que a Watchtower quer que continue bem longe das mentes de suas vítimas e que outrora foi “verdade estabelecida” em publicações hoje “caducas”. Vamos a algumas delas:

2.1 “Estudos das Escrituras”

The Divine Plan of the Ages (1886)

The Divine Plan of the Ages as Shown in the Great Pyramid (1915)

“Studies in the Scriptures” (“Estudos das Escrituras”) — C. T. Russell — Obra composta de 6 volumes ao todo, inicialmente com o nome “Millennial Dawn” (“Aurora do Milênio”), o maior legado do “Pastor” Russell a seus seguidores. Em 1886 foi escrito o primeiro de seus volumes — “The Divine Plan of the Ages” (“O Plano Divino das Eras”). Em 1915 foi publicada pela organização uma obra de 438 páginas, quase homônima — “The Divine Plan of Ages as Shown in the Great Pyramid” (“O Plano Divino das Eras Como Mostrado na GRANDE PIRÂMIDE”) — provavelmente de autoria de Morton Edgar — uma edição de visual mais atraente do que o primeiro volume de Russell. Na capa, o título é subdividido em dois — no alto, em “layout” praticamente idêntico ao livro de Russell, temos o título “The Divine Plan of the Ages”, no centro, ao invés da gravura do “anel alado” egípcio, comum em diversas publicações da Watchtower — inclusive na capa de TODOS os volumes de “Studies in the Scriptures” –, vemos a gravura da Pirâmide de Gizé e, abaixo, o complemento do título “As Shown in the Great Pyramid”. Queira o leitor examinar as gravuras abaixo. Repare bem no aspecto das letras do título no alto em ambas as capas. Não parece se tratar de edições diferentes de UMA MESMA obra? Não é difícil deduzir que tal livro (o da direita) nada mais é do que uma confirmação dos cálculos de Russell baseados em piramidologia, os quais são apresentados no terceiro volume do “Studies in the Scriptures”, entitulado “Thy Kingdom Come” (“Venha o Teu Reino”). A Watchtower jamais menciona as DUAS obras JUNTAS, apesar da estreita relação entre elas, até na aparência das letras. Por exemplo, no Anuário de 1976, páginas 40 e 41, ela cita o livro “The Divine Plan of the Ages” (o da esquerda) e, a exemplo de outras retrospectivas, omite completamente a existência daquela outra obra publicada (a da direita) na mesma linha de ensino pela organização. Até hoje me pergunto se o redator do Anuário de 1976 alguma vez ouviu falar do livro de 1915. Havia alguma razão para omití-lo?

No capítulo 10 do Volume III de “Studies in the Scriptures” (“Estudos das Escrituras”), lemos:

“O testemunho divino da Testemunha e Profeta de Pedra” — A GRANDE PIRÂMIDE DO EGITO “Naquele dia haverá um altar a Jeová em meio à terra do Egito, e uma coluna a Jeová ao lado de seu limite, e tem que resultar ser para sinal e para testemunho a Jeová dos Exércitos na terra do Egito.” Isaías 19:19, 20 (Página 313)

Após fazer uma descrição geral da pirâmide, diz-se a seguir:

“…[a pirâmide] converteu-se em objeto de interesse crescente PARA CADA CRISTÃO MADURO no estudo da palavra de Deus; pois ela parece dar-nos de uma maneira notável, e de acordo com todos os profetas, UM ESQUEMA DO PLANO DE DEUS PARA O PASSADO, PRESENTE E FUTURO.” (Página 314)

Mais adiante, o livro acrescenta as seguintes expressões sobre a pirâmide egípcia:

“…seu testemunho está EM PERFEITA HARMONIA COM A BÍBLIA….. é uma poderosa TESTEMUNHA corroborativa do plano de Deus…. a harmonia de seu testemunho com a Palavra escrita…. a construção da grande pirâmide foi projetada e construída pela mesma sabedoria divina, sendo realmente a ‘coluna’ de testemunho da qual falou o profeta [Isaías].” (Páginas 314-315)

Alguém sabe quem primeiro recebeu o título “Testemunha de Jeová”, desde a criação da Watchtower? O livro responde:

“…quando se lançou a idéia segundo a qual a grande pirâmide é a ‘Testemunha’ de Jeová, cujo testemunho é de igual importância tanto para a verdade divina quanto para a ciência pura…” (Página 320)

Russell chega a comparar a pirâmide à Bíblia:

“E, ainda, vemos que este repositório de conhecimento, TAL COMO A MAIOR PARTE DO CONHECIMENTO DA BÍBLIA, foi propositadamente mantido selado até que o seu testemunho fosse necessário e apreciado.” (Página 320)

Referindo-se a Jeová, o livro diz:

“Será que isto significa que o seu grande Arquiteto sabia que viria um tempo em que o seu testemunho seria necessário? […] Parece que sim.” (Páginas 320-321)

A partir daí todo um diagrama é traçado, relacionando as medidas, símbolos e passagens da grande pirâmide egípcia com o plano de Deus, a vinda de Cristo, a data de 1914 e assim por diante, fazendo um paralelo entre a Bíblia e os segredos ocultos nesta construção erigida por reis pagãos, adoradores de animais e escravizadores dos hebreus.

A simples leitura deste capítulo nos dias atuais permite-nos formar um esboço das idéias místicas, esotéricas e cabalísticas do senhor Charles T. Russell, ao lançar os alicerces daquela que seria a entidade que um dia controlaria a vida de 6 milhões de seres humanos. Seria, de fato, muito embaraçoso expor tal conteúdo a uma TJ em nossos dias. Seria uma ameaça real e imediata à fé dela na Torre de Vigia. Naquela época, para aqueles que ousassem questionar tais ensinos — pesadas críticas e o questionamento da fé da pessoa. Hoje em dia, Russell seria DESASSOCIADO por tais idéias “apóstatas”…

E pensar que era a obras como esta que a Watchtower referia-se ao publicar os seguintes comentários:

“Se os seis volumes de “Studies in the Scriptures” são de modo prático a Bíblia topicamente arranjada, COM PROVAS TEXTUAIS BÍBLICAS, podemos de modo próprio denominar os volumes — A BÍBLIA NUMA FORMA ARRANJADA.” “Além do mais, não só achamos que as pessoas não podem visualizar o plano divino ao estudar a Bíblia em si mesma, mas entendemos outrossim que se alguém PÕE DE LADO o “Studies in the Scriptures”, mesmo depois de os ter usado, depois de ter se familiarizado com eles, depois de os ter lido por dez anos — se então os põe de lado e ignora E VAI PARA A BÍBLIA SOZINHO, embora já entenda a Bíblia há dez anos, nossa experiência demonstra que ELE VAI PARA AS TREVAS DENTRO DE DOIS ANOS. Por outro lado, se ele tivesse simplesmente lido o “Studies in the Scriptures”com suas referências, E NÃO TIVESSE LIDO UMA PÁGINA DA BÍBLIA, semelhantemente, ESTARIA NA LUZ ao término de dois anos, porque teria a luz das escrituras.” “Watchtower”de 1/9/1910, pág. 298 (o maiúsculo é meu)

Um simples exame nos trechos que trancrevi há pouco mostra quão presunçosas, vazias, antibíblicas e ridículas são tais conclusões!

O que não pensaria hoje o “Pastor” Russell ao ver que NENHUM de seus livros — os quais supostamente protegeriam os cristãos contra as “trevas” espirituais — é hoje publicado pela Sociedade Torre de Vigia, tendo a sua última edição se esgotado há mais de 70 anos?!

2.2 “O Mistério Consumado”

The Finished Mistery (1917)

“The Finished Mistery” (“O Mistério Consumado”) — publicado em 1917 pela Watchtower durante a presidência de J. F, Rutherford, em continuação a “Studies in the Scriptures” (sétimo volume), como obra póstuma de Russell, apesar de incluir outros dois autores. Foi à publicação deste livro que se atribuiu falsamente o “cisma” de 1917. De fato, se tivessem lido seu conteúdo, conforme veremos, talvez os membros da diretoria (expulsos por Rutherford) se opusessem à sua publicação, no todo ou em parte. Já na capa, encontramos O MESMO símbolo pagão egípcio dos volumes de “Studies in the Scriptures” analisados no ítem anterior, a saber, o “anel alado”. Trata-se de uma obra de conteúdo grotesco, repleto de sandices, interpretações pitorescas — quase psicodélicas — e falsas previsões. Foi exatamente este livro que minou a fé de Peter Gregerson, ancião por anos e amigo pessoal de Ray Franz. O que teria ele encontrado de tão grave ao ponto de se desligar da Watchtower após esta leitura? Vamos a algumas “preciosidades” (queira o leitor ter em mente que este livro foi um marco na história da organização, em uma época em que, dizia-se, Cristo estava a examinar todas as religiões e a rejeitá-las em favor da Watchtower):

OBS: sugiro ao leitor que acompanhe em sua Bíblia as citações, à medida em que surgirem.

2.2.1 Falsas Previsões

“Revelação 16:20 — ‘Também toda ilha fugiu’ — ATÉ AS REPÚBLICAS DESAPARECERÃO NA CHEGADA DE 1920. [Página 258] ‘…e os montes não foram encontrados.’ — TODOS OS REINOS DA TERRA PASSARÃO, SERÃO TRAGADOS EM ANARQUIA.” [Página 258] “Ezequiel 24:24 — ‘E Ezequiel tornou-se para vós um portento. Fareis segundo tudo o que ele fez. Quando vier, então tereis de saber que eu sou o Senhor Deus.’ — ENTÃO A SILENCIOSA TRISTEZA NO CORAÇÃO DO PASTOR RUSSELL SE TORNARIA UM SINAL PARA A CRISTANDADE. AS PENOSAS EXPERIÊNCIAS DO PASTOR RUSSELL NESTE RESPEITO SERÃO AQUELAS DE TODA A CRISTANDADE. [Página 485] 24:25, 26 — ‘E quanto a ti, ó filho do homem, não será no dia em que eu tirar deles seu baluarte, o belo objeto de sua exultação, a coisa desejável a seus olhos e o anseio da sual alma, seus filhos e suas filhas, que nesse dia virá a ti o fugitivo para fazer os ouvidos ouvir?’ — TAMBÉM, NO ANO DE 1918, QUANDO DEUS DESTRUIR AS IGREJAS POR COMPLETO E OS MEMBROS DAS IGREJAS AOS MILHÕES, TERÁ DE SER QUE, QUALQUER UM QUE ESCAPE, SE CHEGARÁ À OBRA DO PASTOR RUSSELL PARA APRENDER O SIGNIFICADO DA QUEDA DO ‘CRISTIANISMO’.” [Página 485] “…Nenhum vestígio dela [a cristandade] sobreviverá às devastações da abrangente anarquia mundial, na chegada de 1920.” [Página 542]

2.2.2 Interpretações Pitorescas

Revelação 14:20 — ‘E o lagar foi pisado fora da cidade, e saiu sangue do lagar, até à altura dos freios dos cavalos, a uma distância de 1600 estádios.’

Utilizando a versão de Rotherham, a qual diz ‘1200 estádios’, ao invés de ‘1600 estádios’, o livro revela sua “interpretação” do texto bíblico. Vejamos [página 230]:

“Isto não pode ser interpretado como referindo-se à linha de batalha de 2100 milhas da guerra mundial. Um oitavo de milha ou estádio não é uma milha e é fora da cidade, enquanto a linha de combate é dentro da cidade. Veja a tradução de Rotherham. Um estádio é 603,75 pés ingleses; 1200 estádios são 137,9 milhas. O trabalho neste volume foi realizado em Scranton, Pennsylvania. Tão logo foi concluído, foi enviado a Betel. Metade do trabalho foi feito a uma distância comum de 5 quadras da estação de Lackawanna, e a outra metade a uma distância de 25 quadras. Quadras em Scranton são 10 por milha. Logo, a distância comum à estação é de 15 quadras, ou 1,5 milhas A milhagem de Scranton ao terminal de Hoboken é mostrado em tabelas de tempo como sendo de 143,8 e esta é a milhagem cobrada dos passageiros, mas em 1911, ao custo de 12.000.000 de dólares, a ferrovia de Lackawanna completou seu famoso atalho, reduzindo em 11 milhas a distância. Desde o dia em que o atalho foi concluído, os ferroviários têm à sua disposição 11 milhas a menos do que a tabela mostra, ou uma distância líquida de 132,8 milhas Do ‘Ferry-boat’ de Hoboken ao ‘Ferry-boat’ da Rua Barclay, Nova Iorqu e, temos 2,0 milhas Do ‘Ferry-boat’ da Rua Barclay ao ‘Ferry-boat’ de Fulton, Nova Iorque, temos 4800 pés ou 0,9 milhas Do ‘Ferry-boat’de Fulton, Nova Iorque, ao ‘Ferry-boat’ de Fulton, Brooklyn temos 2,000 pés ou 0,4 milhas Do ‘Ferry-boat’ de Brooklyn a Betel temos 1,485 pés ou 0,3 milhas A menor distância desde o lugar onde o lagar foi pisado pelos pés dos membros do Senhor, Cuja orientação, apenas, tornou possível a produção deste volume (João 6:60, 61; Mateus 20:11) é 137,9 milhas”

2.2.3 Beemote = Máquina a Vapor

O animal que Jó menciona no capítulo 40 de seu livro, de nome “beemote” (entendido atualmente como referindo-se ao hipopótamo) é representado em “The Finished Mistery” [páginas 84-86] — parte por parte — como referindo-se a uma MÁQUINA A VAPOR ESTACIONÁRIA, como se Jó estivesse a descrever seus diversos componentes, tais como caldeira (as “ancas” do animal), grades (os “ossos” do animal), pistões (os “tendões” do animal), combustível, no caso, carvão (a “palha” de que se alimenta o animal) etc.

2.2.4 Leviatã = Locomotiva a Vapor

O “leviatã” descrito por Jó no capítulo 41 de seu livro (entendido atualmente como referindo-se ao crocodilo) é igualmente representado em “The Finished Mistery” [páginas 84-86], peça por peça, como correspondendo à descrição — pasme o leitor — de UMA LOCOMOTIVA A VAPOR, como se Jó estivesse a descrever componentes, tais como cabine (a “cabana” de um pescador), cilindros (as “narinas” do animal), engate (a “língua” do animal), caldeira (as “placas” do animal), parafusos (“espinhos” na pele do animal), farol (os “olhos” do animal), porta da caldeira (a “boca” do animal), rebites (os “dentes” do animal) e até a referir-se ao seu uso, como transportar pessoas a um piquenique ou convenção….

2.2.5 Miguel e Anjos = Papa e Bispos

De acordo com “The Finished Mistery” [páginas 188 e 189], “Miguel e seus anjos”, descritos em Revelação 12:7, correspondem AO PAPA EM ROMA E SEUS BISPOS… (hoje a Watchtower diz que são Jesus Cristo e seus anjos)

2.2.6 O Profeta Naum e o Comboio

De acordo com “The Finished Mistery” (página 93), o profeta Naum, em seu livro, cap. 2, versículos 3 a 6, descreve UM TREM EM MOVIMENTO (e não um automóvel, como alguns pensavam), com seus componentes detalhados — o farol (o “escudo”), o pessoal da caldeira (os “homens de valor”), vagões (as “carruagens”), estação (a “barricada”) e até os carregadores de bagagem, ônibus do hotel, passageiros e amigos aguardando a chegada da locomotiva no terminal….

O exame de tais passagens, por si só, deixa-me perplexo com aquilo que um dia, foi servido à mesa de Jeová, como ÚNICO “ALIMENTO ESPIRITUAL NO TEMPO APROPRIADO” disponível para seu povo àquele período. Tais alegorias, fruto de uma mente (ou mentes) fantasiosa, oscilam — em minha opinião — entre o ridículo e o patético, levando-me a questionar até a sanidade mental dos autores de tais disparates. Alimentar-se-ia você àquela época desta mesa, H.? Infelizmente, creio que sim….

Uma pergunta: o que aconteceria a um membro da Watchtower que questionasse ou simplesmente insinuasse que tais ensinos poderiam estar errados? Resposta: a perda de “privilégios” ou até a “exclusão” da organização e, consequentemente, a destruição no Armagedon, então, “às portas”!

Como descreve na atualidade a Torre de Vigia tal obra? Reconhece ela tais absurdos ou tenta “justificá-los”? Em 1988, a publicação “Revelação — Seu Grande Clímax Está Próximo!”, na página 165, descreve “The Finished Mistery” — pasme o leitor — como “UM PODEROSO COMENTÁRIO SOBRE APOCALIPSE E EZEQUIEL”! (de fato, “poderoso” o suficiente para destruir a fé de Peter Gregerson)

Tal versão dos fatos, parece-me, só poderia se basear em duas coisas: ou a ignorância do autor desta publicação de 1988 sobre o conteúdo do livro “The Finished Mistery” ou a CERTEZA DE QUE TAL LIVRO NÃO ESTARIA DISPONÍVEL ÀS TESTEMUNHAS ATUAIS para um exame minuncioso sobre quão “poderoso” era tal “comentário”. A segunda hipótese me parece mais provável. Mesmo que uma TJ hoje em dia consiga o acesso a tal livro, publicado há mais de 80 anos, o que certamente não é fácil, conseguirá ela expor tais coisas aos outros 6 milhões delas espalhadas pelo mundo? Não, pois seria desassociada antes de tentar qualquer coisa entre os seus próprios. O que aconteceria se tal conteúdo “nonsense” fosse mostrado às pessoas com quem se dirigem estudos bíblicos domiciliares na atualidade? Mostraria você tais coisas aos seus estudantes, H.? Se assim o fizesse, poria em risco o “progresso” deles e certamente cairia na desaprovação da Torre de Vigia. Não acha você que TODA Testemunha de Jeová no mundo TINHA O DIREITO de conhecer tais fatos ANTES DE SE BATIZAR? Acha você que isto NÃO INFLUIRIA na decisão delas ? No meu caso, certamente influiria e, creio, no caso de cada um aqui. Se influiria, então era meu direito saber. Todavia, após mais de 14 anos como membro da organização, só agora vim a conhecer tais coisas, pois nem meu instrutor sabia delas. E certamente nem o instrutor dele…

Isto me faz lembrar as palavras da própria Watchtower, no livro “É esta vida tudo o que há?”, pág. 46, onde ela pergunta: DESEJARIA ASSOCIAR-SE A UMA RELIGIÃO QUE NÃO O TRATOU COM HONESTIDADE? Minha resposta: NÃO. Foi exatamente porisso que deixei a Torre de Vigia…

2.3 Outras “verdades” que caducaram

Diversas outras obras poderiam ser mencionadas, tais como:

  1. O folheto “Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão” — 1920 (a falsa profecia de 1925 e a “campanha dos milhões”),

  2. “A Harpa de Deus” — 1921 (confirmando 1799, e não, 1914 como o início do “tempo do fim” [páginas 236, 229 e 230]),

  3. “Filhos” — 1941 (onde os casais eram incentivados a adiar seu casamento e a não terem filhos [páginas 312, 313 e 366]),

  4. “Watchtower” de 15/9/41, página 288 (onde se dizia que o Armagedon estava “poucos meses” à frente),

  5. os livros sobre as profecias do “Rei do Norte” e “Rei do Sul”, que simplesmente sumiram depois da queda da URSS e muitas, muitas outras publicações.

Creio que estes exemplos já bastam. Não é à toa que muitos entre os que deixam a Torre de Vigia, perdem toda sua fé em Deus. Dizer que Deus dirigia tais assuntos só pode resultar em uma coisa — vitupério ao Seu Nome! Há mais de um século que a Watchtower lança desonra sobre Deus e Jesus Cristo!

2.4 O acesso às publicações antigas

Quanto ao material contido na biblioteca de Betel estar à disposição de QUALQUER TJ para consulta, nada posso provar, embora eu, pessoalmente, duvide que seja assim, especialmente em face do anúncio no “Ministério do Reino”, o qual mencionei anteriormente. Que tal enviar uma correspondência a Cesário Lange, solicitando uma fotocópia dos livros “O Plano Divino das Eras”, o “Mistério Consumado” ou “Milhões que Agora Vivem Nunca Morrerão” para estudo pessoal e pesquisa ou com o inocente fim de formar uma biblioteca pessoal da literatura da Torre de Vigia? Que resposta você acha que receberia, H.? Gostaria de tentar? Convido-o a fazê-lo e nos informar da resposta. Todavia, acho que seria de seu interesse saber que, ATÉ PARA OS MEMBROS DO CORPO GOVERNANTE, houve restrições. Ray Franz, na pág. 332 de seu livro “Crise de Consciência”, relata um incidente ocorrido em uma das reuniões fechadas do CG, quando foi interrogado sobre a leitura que supostamente tinha feito de comentários bíblicos. Ray respondeu:

“Começei a usá-los mais extensamente em resultado das recomendações de meu tio, durante o projeto do livro ‘Ajuda ao Entendimento da Bíblia’. Se a opinião é de que não devo usá-los, então, há seções inteiras na biblioteca de Betel que deveriam ser esvaziadas, pois há dúzias de coleções de tais comentários lá.”

O fato é que, por um lado, desestimulando seus adeptos a pesquisar literaturas expiradas e, por outro, não reimprimindo um trecho sequer de tais obras, a Watchtower está, de fato, a obstruir o acesso das Testemunhas de Jeová da atualidade a tais publicações. Isto chama-se CONTROLE DE INFORMAÇÃO. É uma prática comum aos sistemas totalitários…

2.5 ‘Os cristãos primitivos também cometiam erros’

No que se refere à sua tentativa de justificar os erros doutrinários da Watchtower, comparando-os a erros de textos extra-bíblicos do primeiro século, fico a me perguntar se a congregação cristã primitiva respondia ou não pelas consequências daquilo que você chama de “conceitos esdrúxulos” extra-bíblicos. Pergunto-me se ela procurava ocultar de seus membros tais erros, “branqueá-los” ou se procurava até “louvar” tais erros — como faz a Watchtower — fazendo-os parecer úteis à causa de Jesus Cristo ou como “proteção” ao povo de Deus. Principalmente quando, de tais “conceitos esdrúxulos” resultam perdas de vidas humanas, como a proibição às vacinas, aos transplantes ou ao recebimento de “frações” do sangue, sem que a sociedade assuma culpa de sangue por estes erros. Isto sem falar nos prejuízos pessoais daqueles que se desfizeram de seus bens, abdicaram de carreiras ou de constituir família em razão das falsas expectativas criadas pela literatura da sociedade. Ou daqueles que desperdiçaram os melhores anos de sua juventude atrás das grades por rejeitarem o serviço militar alternativo, hoje liberado. Ou dos que viram seus entes amados lhe virarem o rosto, renegando-os como apóstatas e odiadores de Deus, sob o beneplácito e incentivo dos “conceitos esdrúxulos” publicados em “A Sentinela” e “Despertai!”.

Acha mesmo válida tal analogia entre os primitivos cristãos e a Torre de Vigia, H.? Por que absolver a Watchtower por seus “conceitos esdrúxulos” altamente danosos e, ao mesmo tempo, condenar outras denominações religiosas pelos seus próprios “conceitos esdrúxulos” (em alguns casos, menos prejudiciais do que os de Brooklyn), os quais elas poderão rever e modificar no futuro, assim como você alega que a Torre de Vigia tem feito? Acaso Deus é parcial? Se você absolve a Torre de Vigia e condena as outras religiões (o que suas palavras parecem indicar), certamente está sendo parcial. Se, por outro lado, não desaprova outras religiões, está sendo ecumênico, coisa que o “escravo fiel e discreto” condena. De que lado ficará você? Do lado de Deus? Pode-se estar ao lado de Deus, ao passo que se discorda, em parte, dos ensinos do “único canal” entre Ele e a humanidade?

3. Apenas a “organização” sobreviverá à ‘grande tribulação’

Alegra-me que você considere que o julgamento divino se dá em base individual e não necessariamente POR SE ESTAR LIGADO a uma denominação religiosa ou “redil jurídico”, como você chama. Também vejo desta forma. Todavia, O “ESCRAVO FIEL E DISCRETO” NÃO PENSA ASSIM. Você suscita a questão sobre a identidade daquilo que se denomina a “arca” figurativa para os nossos dias, como se ela pudesse ser outra coisa que não a organização ou “redil jurídico” Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. Vejamos o que diz o livro “Poderá Viver para Sempre no Paraíso na Terra”, pág. 195:

“A ORGANIZAÇÃO VISÍVEL de Deus hoje também recebe ORIENTAÇÃO E DIREÇÃO teocráticas. NA SEDE DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ EM BROOKLYN, New York, existe um corpo de anciãos cristãos de várias partes da terra que dão A NECESSÁRIA SUPERVISÃO às atividades mundiais do POVO DE DEUS. Este corpo governante é composto de membros do ‘escravo fiel e discreto’. Serve qual porta-voz do ‘escravo’ fiel.” (o maiúsculo é meu)

Há alguma dúvida sobre o “redil jurídico” a que se refere este texto — mencionado por nome e endereço — ao qual toda pessoa necessariamente tem que estar ligada para obter a aprovação de Deus?

E se a pessoa INDIVIDUALMENTE quer servir a Deus, sem a intermediação da Watchtower? Pode ela encontrar a aprovação divina? Ser-lhe-á isto contado como mérito? Deixemos que o “escravo fiel e discreto” responda:

“Alguns que se chamam cristãos e anunciam Deus como seu Pai gabam-se de andar com Deus apenas, que Ele lhes dirige os passos pessoalmente. Tais pessoas não só abandonam o ensino ou lei da MÃE, mas eles literalmente LANÇAM A “ESPOSA” DE DEUS [a organização] NAS RUAS.” (“Watchtower” de 1/5/57, pág. 274. O maiúsculo é meu.)

O livro “Qualificados para ser ministros” — 1967, pág. 156, chega ao cúmulo de dizer:

“Se temos amor por Jeová e pela organização de Seu povo não seremos suspeitosos, mas, como a Bíblia diz, ‘acreditaremos em todas as coisas’, TODAS AS COISAS QUE A ‘WATCHTOWER’ PUBLICAR…”

Adicionalmente, o livro “Poderá viver…”, na pág. 255, diz:

“Foi apenas aquela única arca que sobreviveu ao dilúvio e não um sem-número de embarcações. E HAVERÁ APENAS UMA ORGANIZAÇÃO — a organização visível de Deus — que sobreviverá à ‘grande tribulação’ que rapidamente se aproxima. Simplesmente NÃO É VERDADE QUE TODAS AS RELIGIÕES CONDUZEM A UM MESMO FIM. VOCÊ PRECISA PERTENCER À ORGANIZAÇÃO DE JEOVÁ, a fim de receber Sua bênção de vida eterna.”

A “organização visível de Deus” a que o livro se refere aqui não é outra senão a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados.

Assim, não posso deixar de notar, novamente, uma discrepância entre o seu pensamento, H., e o pensamento do corpo governante, ao qual deveria estar completamente submisso. Concorda que tem de estar submisso? Em “A Sentinela” de 1/10/1967, páginas 587-592, lemos:

“Aquele que reconhece a organização teocrática visível de Jeová, portanto, TEM DE RECONHECER E ACEITAR esta designação do “escravo fiel e discreto” e SER SUBMISSO A ELA.” (o maiúsculo é meu)

Pode-se ser parcialmente submisso e ainda assim, obter a aprovação divina? Não é isto o que o corpo governante ensina.

4. Ideias e atitudes “independentes”

No tópico “independência”, infelizmente, seu conceito, H., novamente difere do conceito do corpo governante. Não pretendo polemizar. Vou apenas provar documentalmente o que agora afirmo. Comecemos pelo que diz “A Sentinela” de 15/7/1983, sob o tópico “Evite Idéias Independentes”:

“Como se manifestam tais idéias independentes? Um modo comum é questionar o conselho provido pela organização de Deus.”

Mas talvez você afirme: “Eu não questiono tais conselhos!”

Uma maneira de questionar é por não cumprir à risca um de tais conselhos, não acha? Vamos a um exemplo? “A Sentinela” de 15/12/1981″, sob o tópico “Deve-se falar com o desassociado ou o dissociado?”, diz:

“….O apóstolo Paulo que deu este aviso sábio era íntimo de Jesus e sabia muito bem o que Cristo dissera sobre cumprimentar outros. Ele sabia também que a saudação costumeira daquele tempo era: “Paz”. Diferente de algum inimigo pessoal ou dum homem de autoridade do mundo, que se opõe aos cristãos, o desassociado ou dissociado que procura promover ou justificar seu pensamento apóstata, ou que continua no seu proceder ímpio, certamente não é alguém a quem se deseja “Paz”. E todos sabemos de experiência no decorrer dos anos que UM SIMPLES “Oi” dito a alguém pode ser o primeiro passo para uma conversa ou mesmo para uma amizade. QUEREMOS DAR ESTE PRIMEIRO PASSO COM ALGUÉM DESASSOCIADO?”

O conselho da Watchtower aqui parece claro, não? Felizmente você adotou uma atitude “independente” neste respeito, H.. Principalmente pelo fato de a sociedade, em artigos mais recentes, ter aconselhado seus membros a “odiar no sentido bíblico” os classificados por ela como apóstatas — “A Sentinela” de 1/10/1993. É elogiável que você também não tenha seguido mais este conselho. Sinceramente espero que você continue assim — independente!

5. Bibliografia

  1. Raymond Franz, Crise de Consciência (Brasil, Fortaleza/CE: Primeira Edição, 1999) ISBN 85-901057-1-7.

  2. M. James Penton, Apocalypse Delayed. The Story of Jehovah’s Witnesses (Toronto, Buffalo, London: University of Toronto Press, 1985) ISBN 0-8020-6721-2.

  3. Raymond Franz, In Search of Christian Freedom (Atlanta: Commentary Press, 1991) ISBN 0-914675-16-8.

  4. Esequias Soares da Silva, Provas Documentais (Brasil, São Paulo: Editora e Distribuidora Candeia, 1.ª edição, 1997).

 
 
 

O Batismo é apenas para os crentes? Não pode ser ministrado às crianças?

Eis uma resposta complicada. Primeiramente, as Escrituras não endossam nem condenam explicitamente o Batismo das crianças. A Igreja histórica sempre acreditou no Batismo das crianças. Os Reformadores Lutero e Calvino também acreditaram ser apropriado batizar crianças. Os Anabatistas foram alguns dos primeiros após a Reforma a condenarem o Batismo das crianças (embora existissem algumas poucas seitas antes da Reforma que não o praticavam).

Os argumentos contra o Batismo das crianças são que as pessoas mencionadas como tendo sido batizadas por João Batista eram adultos arrependidos. No seu sermão de Pentecostes Pedro disse: “Arrependei-vos e batizai-vos”. Quem sustenta que o Batismo é apenas para os crentes, diz que não podendo as crianças se arrependerem, não lhes é apropriado o Batismo.

Aqueles que defendem o Batismo das crianças citam passagens dos Atos dos Apóstolos, onde famílias inteiras, como a de Cornélio e a de Lídia, eram batizadas, o que supostamente inclui as crianças. Um outro argumento a favor do batismo das crianças vem da comparação do Batismo com a circuncisão:

“Nele também fostes circuncidados com circuncisão não feita por mão de homem, mas com a circuncisão de Cristo, que consiste no despojamento do vosso ser carnal. Sepultados com ele no Batismo, com ele também ressuscitastes por vossa fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos” (Col 2,11-12).

Na Antiga Lei, no oitavo dia as crianças do sexo masculino eram recebidas e lhes era dado o sinal da circuncisão da Antiga Lei. Já que o Novo Testamento é uma Lei mais abrangente do que a Antiga, incluindo homens e mulheres, judeus e gentios, o Batismo das crianças é mais apropriado a dar às crianças o Signo da Nova Lei (o Batismo). Com efeito, Jesus disse:

“Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas” (Lc 18,16).

O “se parecem com elas” de que Jesus falou eram criancinhas que o povo trazia para ele abençoá-las. Assim, os Pedobatistas vêem nas palavras de Jesus um argumento a seu favor.

Registros históricos confirmam que a prática do Batismo das crianças era geralmente a norma. No segundo século, Irineu escreveu a primeira declaração sobre a prática na Igreja do Batismo das crianças:

“Ele (Jesus) veio para salvar a todos através dele mesmo, isto é, a todos que através dele são renascidos em Deus: bebês, crianças, jovens e adultos. Portanto, ele passa através de toda idade, torna-se um bebê para um bebê, santificando os bebês; uma criança para as crianças, santificando-as nessa idade…(e assim por diante); ele pode ser o mestre perfeito em todas as coisas, perfeito não somente manifestando a verdade, perfeito também com respeito a cada idade” (Contra Heresias II,22,4 (ano 189)).

Irineu declarou que as crianças cristãs renascem. Como podem renascer se não têm a capacidade (pelo que sabemos) para exercer a fé? Previamente já vimos que isso acontecia pelo Batismo. Irineu mesmo nasceu numa família cristã, por volta do ano 140, em Esmirna, uma das Igrejas mencionadas no Apocalipse (Ap 2,8). Os historiadores pensam que Irineu foi provavelmente batizado por Policarpo, que foi o bispo de Esmirna. Policarpo foi mártir e discípulo pessoal de João, o Apóstolo. Parece-nos improvável que ele tivesse batizado crianças se fosse impróprio e se tivesse ouvido de João instrução diferente. No ano 215, Hipólito escreveu:

“Onde não há escassez de água, a água corrente deve passar pela fonte batismal ou ser derramada por cima; mas se a água é escassa, seja em situação constante, seja em determinadas ocasiões, então se use qualquer água disponível. Dispa-se-lhes de suas roupas, batize-se primeiro as crianças, e se elas podem falar, deixe-as falar. Se não, que seus pais ou outros parentes falem por elas” (Tradição Apostólica 21,16).

Diz-se que Hipólito instruiu às crianças que tivessem capacidade falarem por elas mesmas. Isso parece muito com as crianças levadas a Jesus, em Lucas 16,15. Finalmente, Orígenes fez uma firme declaração com respeito a origem apostólica do batismo das crianças:

“A Igreja recebeu dos apóstolos a tradição de dar Batismo mesmo às crianças. Os apóstolos, aos quais foi dado os segredos dos divinos sacramentos sabiam que havia em cada pessoa inclinações inatas do pecado (original), que deviam ser lavadas pela água e pelo Espírito” (Comentários sobre a Epístola aos Romanos 5,9 (ano 248)).

Finalmente, eis uma interessante citação do eminente Teólogo Protestante Dr. R.C. Sproul, em “Verdades Essenciais da Fé Cristã”, com relação ao batismo das crianças:

“A primeira menção direta ao Batismo das crianças se vê por volta do meio do segundo século. O que é digno de nota sobre esta menção é que concorda que o Batismo das crianças era uma prática universal da Igreja. Se o Batismo das crianças não estivesse em prática no primeiro século da Igreja, como e por que começou como doutrina ortodoxa tão cedo e tão generalizadamente? Não somente foi uma rápida e universal disseminação, mas a literatura sobrevivente daquele tempo não demonstra nenhuma controvérsia a respeito desse costume”.

Concordando pelo batismo das crianças, Dr. Sproul usa como argumento final a palavra tradição com “T” maiúsculo. Em seu sumário, nas palavras finais se lê:

“A história da Igreja sustenta o testemunho da prática universal e não controvertida do Batismo das crianças no segundo século”.

Por que você negaria as bênçãos do Batismo para as suas crianças quando a Bíblia não o proíbe, e é prática universalmente aceita pela Igreja histórica e até mesmo pelos Reformadores Lutero e Calvino?

Fonte: Site “Glory to Jesus Christ!”. Tradução: José Fernandes Vidal.

 
 
 
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