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Entrevista ao professor de Novo Testamento Bernardo Estrada

Por Mirko TestaROMA, quarta-feira, 9 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).- A consistência histórica dos Evangelhos está em sua própria gênese, na continuidade entre a pregação de Jesus, a pregação apostólica e sua redação, afirma nesta entrevista concedida à Zenit o Pe. Bernardo Estrada, professor de Novo Testamento da Faculdade de Teologia da Universidade da Santa Cruz de Roma, que cita alguns testemunhos alheios à Bíblia, que enriquecem o conteúdo dos Evangelhos.

O senhor pode nos explicar como aconteceu o processo de redação dos Evangelhos?

–Padre Estrada: Podemos dizer que os Evangelhos se iniciam com a pregação de Jesus, que não escreveu de punho e letra praticamente nada, senão aquelas poucas palavras traçadas na terra quando lhe levaram a uma mulher surpreendida em adultério. De Jesus Cristo sabe-se, sobretudo, que pregava. Deve-se sublinhar a este respeito que a exigência de pregar e ensinar de memória era um costume constante da época, porque a escritura era impraticável em condições normais.

Contudo, depois da paixão e morte de Jesus, a pregação da Igreja se fundou justamente no acontecimento pascoal. É este o fundamento de toda a nossa fé, não só porque Paulo o diz ao final da Carta aos Coríntios, mas porque precisamente o kerigma, o anúncio fundamental da Igreja após Pentecostes, foi «Jesus Cristo crucificado e ressuscitado». O Evangelho como tal era, como afirma São Paulo, proclamação da «gozosa mensagem»: Deus nos salvou da morte eterna com a morte e ressurreição de seu Filho Jesus.

Só na segunda metade do século II, São Justino, ao escrever no ano 160 sua «Apologia», afirma que as memórias dos Apóstolos são denominadas «Evangelhos». É o primeiro testemunho no qual se passa do Evangelho como anúncio pregado ao Evangelho como texto. Após esta declaração apostólica, podemos dizer que os autores sagrados, ou seja, os evangelistas dos quais ao menos dois eram apóstolos, chegam à redação dos livros.

Por isso pode-se dizer que os Evangelhos têm uma consistência histórica, porque refletem estes três estágios em sua formação, dando-se sempre uma continuidade. Uma continuidade que une a pregação de Jesus, a pregação apostólica e a redação do Evangelho.

Os Evangelhos «canônicos», ou seja, os aceitos pela Igreja por sua origem «apostólica» e por sua «conformidade com a norma da fé» das primitivas comunidades cristãs e as maiores Igrejas de origem apostólica, foram compostos entre 60 e 100. Quais são os critérios que testificam sua historicidade?

–Padre Estrada: Os expoentes mais radicais da crítica histórica consideravam que havia uma distância tal entre a redação dos Evangelhos e a vida de Jesus que toda uma geração de testemunhas oculares havia desaparecido. Mas isso não é verdade. O primeiro Evangelho, que se sabe que foi escrito por Marcos, remonta-se ao ano 64, ou seja, 34 anos após a data provável da morte de Jesus. Naqueles anos o que se fez? Essencialmente, pregou-se o Evangelho em diversos lugares, refletiu-se sobre esse anúncio, dando-lhe uma sistematização teológica, que é o que Paulo fez. De fato, os Evangelhos se escreveram depois de que Paulo elaborasse praticamente toda a sua teologia. Em torno do ano 64, todas as Cartas haviam sido escritas, inclusive as pastorais, se é que ele foi seu autor. Podemos dizer que, naqueles anos, os Evangelhos sofreram uma evolução mais teológica que biográfica, porque os fatos e palavras da vida de Jesus já estavam comprovados.

Então, quais são os critérios para poder separar com certa segurança o que é histórico do que não é?

–Padre Estrada: Na segunda metade do século XX, desenvolvem-se diversos critérios históricos, entre eles o da «descontinuidade», que se concentra naquelas palavras ou aqueles fatos de Jesus que não podem derivar nem do judaísmo do tempo de Jesus, nem da Igreja primitiva depois d’Ele. Por exemplo, no Evangelho de Mateus, Jesus enfrenta de maneira crítica as escrituras e Moisés, como nenhum rabino jamais fez, revelando a superioridade da nova lei proclamada por Ele, que não se fundamenta no estilo exterior dos fariseus, mas se assenta na intimidade do coração.

Outro critério é o que se chama da «dificuldade», segundo a qual a Igreja não teria nunca comunicado um fato que pudesse humilhar Jesus, como por exemplo a cruz, que é o caso mais emblemático e paradigmático. O batismo por obra de João, se não tivesse acontecido realmente, não teria podido ser imaginado por nenhum autor. Assim como a aparição às mulheres, porque naquele tempo as mulheres não eram testemunhas qualificadas em Israel.

As notáveis afinidades entre os textos de Mateus e Lucas levaram diversos estudiosos a afirmar a existência de uma fonte comum, fazendo pensar que na realidade recorreram a fontes indiretas e não de primeira mão. O que o senhor pensa a este respeito?

–Padre Estrada: Podemos admitir que os Evangelhos de Mateus e Lucas tiveram uma fonte comum, porque existe uma série de narrações, sobretudo de frases, que não aparecem em Marcos. Mas o que surpreende não é que Mateus e Lucas tiveram uma fonte comum, mas as diferenças. Por exemplo, os dois relatam a infância de Jesus, mas cada um o faz através de eventos que o outro sequer conhece. Em Mateus, o protagonista da infância de Jesus é José, enquanto que em Lucas é Maria. Se existissem muitas afinidades, isso teria podido levar a supor que houve um acordo entre os dois. Evidentemente, cada evangelista tinha uma fonte própria à qual recorrer e outra compartilhada.

Há fontes históricas independentes dos Evangelhos canônicos que enriquecem seu conteúdo?

–Padre Estrada: A historicidade dos Evangelhos só é garantida pelos próprios Evangelhos, mediante seu processo de formação. Mas há, contudo, testemunhos alheios à Bíblia que não se devem desprezar. O primeiro é o de Plínio o Jovem, que foi pró-cônsul de Bitínia entre os anos 111 e 113, e que em uma das cartas enviadas ao imperador Trajano escreve que os cristãos «costumavam reunir-se antes do amanhecer e entoar a coros alternos um hino a Cristo como se fosse um deus». Portanto, afirma que estão convencidos da divindade de Cristo.

Suetônio, no entanto, em sua obra «Vida dos doze césares», referindo um fato acontecido em torno do ano 50, afirma que Cláudio «expulsou de Roma os judeus que por instigação de Cresto eram contínua causa de desordem» (Vita Claudi XXIII, 4). Suetônio escreveu «Chrestus» ao invés de «Chrestòs, que era um nome grego muito comum, e Christòs, que queria dizer o «ungido», o «Messias». Portanto, existiam em Roma judeus-cristãos e – diria – judeus não-convertidos que discutiam entre si sobre Cristo e que podiam aparecer aos olhos da autoridade romana como causa de desordem pública.

E depois está o testemunho do historiador romano Tácito que, nos «Anais», narra o incêndio que aconteceu em Roma no ano 64, pelo qual foi acusado o imperador Nero, que fez de tudo «para fazer cessar tal rumor», e por isso «inventou culpados e submeteu a penas refinadas a quem a plebe chamava de cristãos, detestando-os por seus atos abomináveis». Tácito afirma também que «a origem deste nome era Cristo, o qual, sob o império de Tibério, foi condenado ao suplício pelo procurador Pôncio Pilatos; e esta superstição, momentaneamente adormecida, difundia-se de novo, não só na Judéia, ponto central daquele mal, mas também em Roma, onde confluiu de todas as partes e foi considerado honorável tudo o que há nele de torpe e vergonhoso» («Anais» XV, 44).

O elenco completo dos 27 livros do Novo Testamento é fixado pela primeira vez no tempo de Atanásio de Alexandria, em 367 d.C. Como se chega a escolher estes quatro Evangelhos no cânon das Escrituras?

–Padre Estrada: Já antes do final do século II, Santo Irineu, bispo de Lyon e mártir, afirma em uma célebre passagem que «visto que o mundo tem quatro regiões e são quatro os ventos principais (…), o Verbo criador de cada coisa (…), revelando-se aos homens, deu-nos um Evangelho quádruplo, mas unificado por um único Espírito» («Contra as heresias», III 11, 8).

A Igreja havia já definido então os quatro textos que se usavam na liturgia. Vinte anos antes do Irineu, também Justino fala dos quatro Evangelhos ou da memória dos Apóstolos, que eram mencionados ou lidos durante as celebrações eucarísticas. Então como se chegou a esta seleção? Na realidade, chegou-se através de um processo no qual o Espírito Santo se introduziu de forma natural e espontânea. Quando se difundia um texto que afirmava algo estranho, os próprios fiéis, unidos a seu pastor, o rejeitavam. Portanto, não haviam sido preparados por ninguém, ainda que já no século II existia a consciência de que o Evangelho era quádruplo: ou seja, um só, porque uma só é a pregação sobre a vida, as obras e as palavras de Jesus, mas com quatro imagens diversas, cada uma das quais oferece um toque pessoal.

A outra questão que surge agora é como a tradição apostólica chegou a incluir entre os Evangelhos canônicos também o Evangelho de João, o mais diferente com relação aos outros quanto a conteúdo e exposição, tecido com freqüência de reflexões espirituais e teológicas. Também alguns estudiosos atribuem a paternidade deste escrito a discípulos pertencentes a diversas «escolas de João», como se pode notar nesta passagem: «Este é o discípulo que dá testemunho sobre estes fatos e os escreveu; e nós sabemos que seu testemunho é verdadeiro» (João 21, 20).

–Padre Estrada: O fato de que seus autores não sejam necessariamente os quatro que são mencionados nos títulos não desmerece a historicidade dos Evangelhos. Eu gostaria de dizer também que nem sequer há motivo para duvidar se não há razões sérias. Pelo que se refere ao Evangelho de João, é certo que um núcleo se remonta ao apóstolo, mas também houve discípulos que refletiram sobre as palavras de Jesus e encontraram outras fontes e redigiram um Evangelho que se afasta um pouco dos demais. De fato, é o Evangelho mais espiritual, onde não se fala nunca da crucifixão e do sofrimento, porque para o evangelista João, a hora da paixão se identifica com a glorificação e a suprema «elevação» de Jesus.

João já apresenta a missão do Cristo a partir da Ressurreição. É um Cristo que triunfou e venceu a morte. Por outra parte, é impossível explicar o relato tão detalhado e cru da Paixão senão à luz da plena convicção que os evangelistas tinham da Ressurreição. Do contrário, teria sido simplesmente masoquismo! O sofrimento serviu para a nossa salvação.

João relata muitíssimos diálogos de Jesus com o Pai, como se não tocasse a terra, mas que estivesse constantemente imerso na contemplação do rosto de Deus e já glorificado, enquanto nos outros Evangelhos Jesus é um homem com todas as suas características e seus limites humanos. O fato de que o Evangelho de João tenha sido retocado por uma comunidade de discípulos que se encontrava provavelmente em Éfeso, e ampliado ou talvez articulado de outro modo, comprova-se na passagem que você citou, e que é considerada um apêndice, um anexo posterior por parte de um discípulo que faz de João um testemunho veraz. Quando se lê o capítulo 20, compreende-se que estamos ante um final: «Estas coisas foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e para que, crendo, tenhais vida em seu nome» (João 20, 31).

Lucas, em seu Evangelho, composto por volta dos anos 80 do século I, alude aos «muitos outros» que escreveram sobre os acontecimentos de Jesus, quase testificando a existência de uma multiplicidade de Evangelho, aqueles mesmos Evangelhos que depois foram considerados apócrifos…

–Padre Estrada: Na verdade, quando Lucas inicia o prólogo do Evangelho e diz «porque muitos se puseram a escrever um relato sobre os acontecimentos que sucederam entre nós», não se está referindo a livros, mas aos testemunhos de muitas pessoas que receberam a pregação apostólica e que escreveram os fatos e as palavras de Jesus.

Certamente, essas são as fontes às quais os evangelistas também recorrem. Mas disso não devemos deduzir necessariamente que se tratasse de verdadeiros livros. Talvez Lucas, que tinha presente o Evangelho de Marcos, tenha percebido que outros tentaram redigir ou ordenar os fatos ligados à vida de Jesus. Mas isso não quer dizer que no século II se tivessem difundido os Evangelhos apócrifos. O fragmento mais antigo do «Evangelho de Tomé» se remonta ao final do século II, que provavelmente é a data de composição daquele Evangelho. Não antes. Mas nós sabemos que muitos Evangelhos são datados no século I inclusive nas citações contidas na Primeira Carta de Clemente, um texto atribuído ao Papa Clemente I (88-97) escrito em grego para finais do século I.

Na «Didaquê» ou «Doutrina dos doze Apóstolos», que pode ser considerada como o catecismo cristão mais antigo, tendo sido escrita algumas décadas depois da morte de Cristo, cita-se o «Pai Nosso» exatamente como o recitamos hoje.

Também sabemos que o fragmento mais antigo do Novo Testamento está dentro do papiro Rylands (P. 52), que contém partes do Evangelho de João e se remonta a cerca de 125 d.C., e é portanto uma cópia escrita a menos de 30 anos de distância do original.

Ainda que descartados porque não contêm verdades divinas reveladas, alguns Evangelhos apócrifos chegaram até nós em longos fragmentos, como o «Evangelho copto de Tomé» ou o «Evangelho de Pedro», sendo inclusive utilizados entre os monges cristãos da Síria e da Ásia Menor. Que valor têm? Acrescentam informações úteis ao relato dos quatro evangelistas?

–Padre Estrada: Sobretudo, é necessário dizer que entre os Evangelhos apócrifos há alguns que, ao apresentar a figura de Jesus ou ao renovar o ensinamento, inspiram-se no gnosticismo, que é a teoria filosófico-religiosa dos primeiros séculos do cristianismo (I-IV), e que se contrapôs violentamente à Igreja Católica. Em 1945, na aldeia de Nag Hammdi, no Alto Egito, descobriu-se uma antiga biblioteca copta que custodiava 13 códices, todos escritos no século IV, alguns dos quais continham frases de Jesus, para expressar contudo conceitos não-cristãos.

Todos os estudiosos concordam, por exemplo, em afirmar que o «Evangelho de Tomé» – o que suscitou maior interesse – é um Evangelho gnóstico que contém as doutrinas e as orientações de uma comunidade, nascida como heresia dentro do cristianismo, e que pretendia atribuir a Jesus seu conceito da salvação e todos os princípios da fé segundo seu ponto de vista. Por exemplo, não reconhecem a morte de cruz porque a única salvação viria da «gnose», ou seja, do conhecimento. E que a matéria é sempre causa de pecado ou está ligada ao demônio. O «Evangelho de Tomé», como os outros Evangelhos gnósticos, limita-se a notificar frases de Jesus sem inseri-los na narração do que fez. É uma espécie de «Confúcio cristão» do século II.

Então, podemos perguntar-nos se os Evangelhos apócrifos contêm alguma verdade. Certamente. Por exemplo, os protoevangelhos nos contam os primeiros anos de vida de Jesus. Neste sentido, o mais famoso é o «Proto-evangelho de São Tiago», filho de José, que o teria tido, junto com outros três irmãos e duas irmãs, em um matrimônio anterior ao seu com Maria. Este texto teve certa influência na tradição e na iconografia, tanto que a presença do boi e do burro na gruta do Nascimento e o nome dos pais de Maria, Joaquim e Ana, nos chegam justamente desta fonte.

Certamente, o conteúdo dos Evangelhos apócrifos pode diferir. Alguns contêm verdades e amplificações fantasiosas com relação aos Evangelhos canônicos, assim como um gosto teatral próprio de um cristianismo popular, ainda permanecendo no fundamental da ortodoxia, enquanto muitos outros, sobretudo aqueles de orientação gnóstica, contêm falsidades porque querem convencer da validez de sua heresia.

Sob o perfil histórico, não nos dizem nada além do que já sabemos pelos Evangelhos segundo Mateus e Lucas, dos quais eles dependem. Sua intenção não é histórica, querem fazer obra de edificação. Frente à sobriedade dos Evangelhos, que relatam também realidades sobrenaturais de maneira «natural» e sóbria, sem acrescentar circunstâncias desnecessárias, escolhe-se responder ao desejo do povo cristão acrescentando de maneira mais ampla e colorida detalhes para sublinhar aspectos e fatos da infância e da adolescência de Jesus e Maria. Mas na verdade, dessa forma dão uma imagem de Jesus não conforme a realidade, como acontece no «Evangelho da Infância», de Tomé, onde é descrito como uma criança que já é capaz de fazer milagres.

Portanto, pode-se dizer que se não tivessem ainda que fosse uma pequena parte de verdade, ninguém os teria aceitado. Sua importância está no fato de fazer ver uma época, um desenvolvimento do cristianismo, uma confluência de várias correntes teológicas e religiosas. Sua utilidade está em conseguir mostrar a evolução do cristianismo.

 
 
 

Por Robert A. Sungenis Tradução: Carlos Martins Nabeto Fonte: http://www.catholicintl.com/

Os pesquisadores críticos costumam a afirmar que Jesus provavelmente nasceu no ano 6 a.C. ou talvez até antes. Tal afirmação se baseia na informação fornecida por Flávio Josefo, de que Herodes morreu no ano 4 a.C. Considerando que Herodes teria ordenado matar as criancinhas de até dois anos de idade, isto levaria alguém a conjecturar que o nascimento de Cristo se deu entre os anos 5 e 6 a.C.

As obras de Josefo que nos interessam aqui são “A Guerra Judaica” e “Antiguidades Judaicas”, as quais compreendem o período que vai de 170 a.C a 70 d.C. Embora muitos pesquisadores confiem totalmente em Josefo, suas obras contêm muitos erros e discrepâncias, que podem ser atribuídas ao próprio Josefo, ou ainda pelo fato de que na Idade Média existiaram dúzias de manuscritos das suas obras, cada uma diferenciando significativamente das demais. De fato, um artigo sobre Josefo na “Grande Encyclopédie” de Ladmirault (publicada em Paris, em 1893) afirmava que ele era “orgulhoso, arrogante e pretencioso; alguém que falsificava a história em vantagem própria e que tratava os eventos muitas vezes de forma inadequada”. Várias edições críticas das obras de Josefo foram publicadas a partir de então (p.ex.: Niese, 1881; Reinach 1902-1932). Reinach chega a acrescentar comentários nos relatos de Josefo tais como “isto é um erro” ou “em outro livro…as coisas são diferentes…”[1]

Graças ao trabalho de Hughes de Nateuil, descobrimos que os críticos modernos estão equivocados. Pouco conhecido (ou divulgado) pelos pesquisadores modernos é que Josefo usou duas formas diferentes para datar a morte de Herodes e a interpretação da fonte que aponta o ano 4 a.C. é extremamente discutível. Em outra obra, ele chega a afirmar que Herodes morreu em 7 ou 8 a.C.

Por outro lado, no ano 532 o monge Dionísio, o Exíguo, declarou que Cristo havia nascido em 25 de dezembro do ano 1 a.C. Ele também estabeleceu que o ano 1 d.C. correspondia ao ano 754 da fundação de Roma.

Para compreendermos este sistema de datação, precisaremos retornar para a era pré-cristã. Nessa época existiam dois sistemas de datação:

1) O sistema de datação baseado nas datas do monarca reinante. Aqui a data inicial é 753 a.C., que corresponde à data de fundação de Roma sob o patrocínio de Rômulo. Os romanos denominaram esta data inicial como “urbe condita” (=”a partir da fundação da cidade”). O ano começava em 21 de abril e continha 355 dias no calendário. A adoção deste calendário impreciso forçou o [imperador] Júlio César, no ano 46 a.C., após consultar o astrônomo grego Sisógenes, a aumentar o número de dias desse ano para 445 e, a partir de então (ou seja, do ano 45 a.C. em diante) passou a haver 365,25 dias no ano, devendo ele agora começar em 1º de janeiro.

2) O sistema de datação baseado nas datas de eventos importantes. Aqui a data inicial é 776 a.C., que corresponde à data da primeira celebração dos Jogos Olímpicos. A cada quatro anos, os gregos recordariam a data dos jogos ou “Olimpíadas”, abreviando o evento como “OL”. Conforme declarava Santo Agostinho: “Qualquer coisa, então, que aprendemos em História sobre a cronologia dos tempos passados ajuda-nos muito na compreensão das Escrituras, mesmo que seja sem o auxílio da Igreja como matéria de instrução filial. Por isso frequentemente procuramos informação sobre uma variedade de matérias usando as Olimpíadas e os nomes dos cônsules. A ignorância sobre aquele consulado em que nosso Senhor nasceu e também daquele em que Ele sofreu [a crucificação] tem levado alguns ao erro de supor que ele tinha 46 anos de idade quando sofreu [a crucificação], por ser o número de anos que os judeus disseram a Ele que teria o templo demorado para ser edificado (e que Ele usou como um símbolo de Seu corpo). Mas nós sabemos, pela autoridade do Evangelista, que Ele tinha cerca de 30 anos de idade quando foi batizado; mas o número de anos que Ele viveu depois disto, só poderemos saber reunindo os Seus atos, e não há dúvidas de que poderão ser deduzidas de maneira mais clara e mais precisa comparando a história profana com o Evangelho” (Da Doutrina Cristã 2,28,42). Cada espaço de 4 anos tinha início na primeira lua-cheia de verão.

Podemos encontrar outros Padres da Igreja usando o calendário olímpico [2]. Cirilo de Jerusalém, por exemplo, em suas “Leituras Catequéticas 12,19, data a profecia de Daniel 9,24-27 segundo o calendário olímpico. (…)

Quanto ao sistema romano, embora esteja ligado mais intimamente ao nosso calendário atual, Júlio César não empregava os numerais de 1 a 31 para apontar os dias do mês. Ao contrário, ele usava os antigos nomes romanos “calendas, nonas e idos”. Neste sistema, as calendas eram o primeiro dia do mês; as nonas, o décimo-quinto; e os idos, o trigésimo (exceto em março, maio, julho e outubro, quando as nonas caíam no sétimo dia e os idos, no décimo-quinto). Os dias existentes entre esses nomes eram apontados conforme se aproximavam mais para as calendas, as nonas ou os idos. O número colocado antes do nome do calendário deveria ser subtraído da data do calendário; por exemplo, o “oitavo dia das calendas” deveria subtrair 8 dias a partir de 1º da janeiro, ou seja, equivaleria ao nosso 25 de dezembro. É daí que provém a célebra expressão irlandesa: “Nos idos de março”…

No entanto, tudo isso é ainda um pouco mais complicado. Na verdade, havia duas formas de se datar no calendário baseado no monarca reinante.

Os anos podiam ser expressos em números ordinais (p.ex.: primeiro, segundo, terceiro, quarto…). Quando os números ordinais eram usados, refletiam o ano em que certo monarca tinha sido nomeado ou ascendido ao trono. Seu ano de ascensão seria o primeiro ano e o ano seguinte seria o segundo ano.

Mas os anos também podiam ser expressos em números cardinais (p.ex.: um, dois, três, quatro…). Neste caso, o ano 1 seria um ano após o monarca ter ascendido ao trono.

Os antigos judeus usaram um sistema similar, de dupla marcação, para apontar os reinados dos reis de Israel e Judá, distinguindo entre o ano da ascensão do rei em oposição ao seu ano seguinte de reinado (v. “The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings”, de Edwin Thiele).

E nós fazemos o mesmo ao computar várias datas. Atualmente, vivemos no 21º século, mas a data atual não começa, p.ex., em 2104, mas em 2004. De maneira análoga, podemos dizer que “João está em seu 31º ano” ou que “João possui 30 anos de idade”.

Essas diferenças são importantes, já que é sabido que todos os historiadores gregos e latinos apontaram datas baseando-se em algum dos sistemas mencionados acima. Com efeito, eles encontravam disponíveis para eles próprios datas que usavam como referência:

1) A Olimpíada (ou OL) 2) A “urbe condita” (ou UC) 3) Os anos do monarca 4) Os anos do calendário juliano

Como resultado, um mesmo evento poderia ser citado conforme diferentes datações, dependendo do sistema empregado. Por exemplo, quando Lucas 3,1 menciona: “No 15º ano do reinado de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era o governador da Judéia e Herodes o tetrarca da Galiléia”, o “15º ano” poderia significar 15 anos a partir da data em que ascendeu ao trono (que nós sabemos ser agosto de 14 d.C.) ou 16 anos a partir da data de sua ascensão. E mais: o mês de início de seu reinado poderia tanto ser janeiro quanto agosto.

Para complicar ainda mais as coisas, já quase no fim do Império Romano, sob o reinado de Constantino, um outro sistema de datação foi estabelecido, baseando-se na taxação territorial que se fazia a cada 15 anos, conhecido como “indicções”. Este ciclo de 15 anos teve origem no reinado de Diocleciano, mas foi implementado especificamente como calendário por Constantino.

Um outro complicador é que os gregos, além de usar o calendário olímpico, celebravam o nascimento de Jesus em 6 de janeiro enquanto que os latinos celebravam em 25 de dezembro. Aqui não há apenas uma diferença de 12 dias, mas sim uma diferença de quase 1 ano no calendário, já que janeiro corresponde ao início de um novo ano no calendário.

E é aqui que entra Dionísio, o Exíguo (apelidado “Exíguo” em razão da sua humildade). Embora armênio de nascimento, estabeleceu-se eventualmente em Roma. Ele começou seu trabalho traduzindo textos do grego para o latim, observando que os gregos e os latinos não celebravam o Natal e a Páscoa nas mesmas datas. Baseando-se nos testemunhos de Justino Mártir, Tertuliano, Eusébio de Cesaréia, Jerônimo e também em historiadores como Júlio Africano e Orósio, calculou que Cristo havia nascido precisamente 532 anos antes da data em que ele, Dionísio, teria iniciado o seu trabalho.

Por exemplo, Júlio Africano fez um extensivo estudo dos calendários grego e hebraico e tentou fazer uma correspondência cuidadosa entre os dois. Ele escreve:

“Até o tempo das Olimpíadas, não havia história precisa entre os gregos. Todas as coisas anteriores a essa data são confusas e não são consistentes umas com as outras. Mas como essas Olimpíadas foram perfeitamente investigadas por muitos, então os gregos passaram a registrar sua história não de acordo com longos espaços, mas em períodos de quatro anos. Por essa razão eu irei selecionar as narrativas míticas mais memoráveis, anteriores ao tempo da primeira Olimpíada, e percorrê-las rapidamente. Mas aquelas [narrativas] que são posteriores a esse período, pelo menos aquelas que são notáveis, eu as reunirei citando eventos hebraicos em conexão com [os eventos] gregos, conforme a datação destes, examinando cuidadosamente as ocupações dos hebreus e mencionando superficialmente as [ocupações] dos gregos. O meu plano é este: citar alguns eventos singulares da história hebraica e colocá-los em sintonia com outros da história grega. E considerando isto como matéria principal, subtrairei ou adicionarei [os eventos] conforme pareçam necessários para a narrativa; farei constar o que os gregos ou os persas registraram, ou qualquer personagem memorável de qualquer outra nacionalidade surgido na data do evento na história hebraica. Talvez assim eu possa me ater ao objetivo que proponho para mim mesmo” (Fragmento restante 3,1).

Um exemplo do seu elaborado cálculo pode ser visto abaixo:

“Além disso, a partir de Artaxerxes 70 semanas são computadas até o tempo de Cristo, conforme a numeraçao dos judeus. Portanto, de Neemias, que foi enviado por Artaxerxes ao povo de Jerusalém, por volta do 120º ano do Império Persa e do 20º ano do próprio Artaxerxes; e no 4º ano da 83ª Olimpíada até esse tempo, que é o 2º ano da 202ª Olimpíada e o 16º ano do reinado de Tibério César, passaram-se 475 anos, correspondentes a 490 anos hebraicos, já que eles medem o ano pelo mês lunar de 29,5 dias, como pode ser facilmente explicado, sendo que o período anual segundo o sol consiste de 365,25 dias, de forma que o período lunar de 12 meses possui 11,25 dias a menos. Por essa razão, os gregos e os judeus inserem três meses intercalados a cada oito anos. Assim obtêm 3 meses por 8 vezes 11,25 dias. Logo, os 475 anos contêm 59 períodos de 8 anos e 3 meses, pois sendo acrescentados os 3 meses intercalados a cada 8 anos, obtemos 15 anos e estes, juntamente com os 475 anos, perfazem 70 semanas. Agora, que ninguém pense que estamos só considerando os cálculos da astronomia quando fixamos o número de dias em 365,25. Não se trata de ignorar a Verdade, mas isto é fruto de um estudo preciso e, assim, declaramos essa nossa opinião tão brevemente. Permitam que o que se segue também seja apresentado sumariamente para aqueles que se esforçam por investigar cuidadosamente todas as coisas” (Fragmentos restantes 18,2) [2]

Obs.: 202ª Olimpíada menos 83ª Olimpíada = 119 Olimpíadas. 119 x 4 anos = 476 anos. Deduzindo-se 1 ano – já que não existiu o ano 0 (zero) -, restam 475 anos.

Quando comparamos os anos lunares com os anos solares, temos:

– 475 anos x 365,25 dias = 173,493 dias – 490 anos x 354 dias (isto é, 12 meses de 29,5 dias) = 173.460 dias (havendo, assim, uma diferença de apenas 33 dias!)

Dionísio então afirmou que o ano 1 da vida de Cristo correspondia ao ano romano de 754 UC (da fundação de Roma), com ambos começando no dia 1º de janeiro. Observe-se aqui que Dionísio situou o nascimento de Cristo no 8º dia anterior às calendas de Janeiro (ou seja: 1º de janeiro do ano 1 d.C menos 8 dias = 25 de dezembro do ano 1 a.C.). Incidentalmente, o dia 1º de janeiro do ano 1 d.C coincide com o quarto ano da 194ª Olimpíada, no mínimo até a primeira lua cheia de julho, quando então muda para o primeiro ano da 195ª Olimpíada.

Após o cuidadoso trabalho de Dionísio, todos os historiadores aceitaram seu sistema de datação. Então, aqueles que desejassem retornar na história para apontar datas anteriores ao nascimento de Cristo passariam a empregar anos negativos. Por outro lado, aqueles que desejassem datar um evento ocorrido após Cristo, o expressariam como “Anno Domini” (isto é, “o ano de Nosso Senhor”) [abreviado como AD ou, popularmente, d.C.]. Com efeito, é seguro afirmar que o Calendário de Dionísio foi aceito por todo o mundo ocidental e continua a ser usado até os nossos dias.

Podemos agora usar os vários calendários e coordenar várias datas para eventos específicos da vida de Cristo:

– 8 dias após o nascimento de Cristo = 195ª OL ou 754 UC ou 1 AD [d.C.]. – Jesus no Templo de Jerusalém aos 12 anos de idade (cf. Luc. 2,42) = 198ª OL ou 766 UC ou 13 AD [d.C.]. – Batismo de Jesus = 202ª OL ou 782 UC ou 29 AD [d.C.]. – Crucificação de Jesus = 203ª OL ou 786 UC ou 33 [d.C.].

O livro apócrifo “Evangelho de Nicodemos”, em sua parte I (=Atos de Pilatos), declara:

“No 15º ano do governo de Tibério César, imperador dos romanos, sendo Herodes o rei da Galiléia, no 19º ano de seu governo, no oitavo dia antes das calendas de abril, que é o 25º de março, no consulado de Rufo e Rubélio, no 4º ano da 202ª Olimpíada, sendo José Caifás o sumo-sacerdote dos judeus” [3].

Tudo isso coincide precisamente com as informações que temos, pois:

O 15º ano de Tibério César = 19º ano de Herodes = 4º ano da 202ª Olimpíada = 8º dia das calendas de abril = 25 de março de 33 AD [d.C.]! [Com isto em mente, sabemos que] os [primitivos] Padres [da Igreja] testemunharam a data precisa do nascimento de Cristo:

a) Eusébio de Cesaréia (+345 d.C.), em suas “Crônicas” (PG 19, col. 530ss) registra que:

– Cristo nasceu no 4º ano da 194ª Olimpíada. – no 3º ano de Cristo (quando ele tinha 2 anos de idade, antes de completar o seu 3º aniversário), Herodes ordenou a matança dos inocentes. – Herodes morreu no ano 5 AD [d.C.], corroído por vermes. – a Paixão de Cristo (33 AD) ocorreu no 1º ano da 203ª olimpíada, no 18º ano de Tibério.

b) O mesmo autor, em sua “História Eclesiástica” (PG 19, col. 287), registra que:

– César Augusto reinou por 56 anos e 4 meses. Tendo ascendido ao trono em 43 a.C., o 42º ano de seu reinado pode ter se encerrado entre 1º de abril de 1 a.C e 1º de abril de 1 d.C. Lucas 2,1 declara: “Naqueles dias um decreto de César Augusto ordenou um censo em toda a terra habitada” (a significância do 42º ano será vista mais abaixo).

c) São Jerônimo (+420), em sua “Interpretação das Crônicas de Eusébio Panfílio” (PL 27, col. 559ss), registra que:

– Herodes foi reconhecido como rei dos judeus no ano 2 de César Augusto e que reinou 37 anos, apontado a morte de Herodes no ano 6 de Cristo ou 6 d.C. Ele escreve: “Jesus Cristo, o Filho de Deus, nasceu em Belém de Judá e a partir desse ano começou a salvação dos cristãos. No ano 3 d.C., Herodes matou todas as crianças de sexo masculino em Belém e, no ano 6 d.C., ele teve uma morte terrível, mas merecida: seu corpo foi perfurado por vermes” (cf. tradução inglesa de J. S. Daly e F. Egregyi). – Cristo nasceu no ano 32 de Herodes ou também no ano 42 de Augusto. – o batismo de Cristo ocorreu em 30 d.C. – a Paixão de Cristo ocorreu em 33 d.C. – o martírio de Estêvão e a conversão de Paulo se deram em 34 d.C. – Mateus escreveu seu evangelho em 41 d.C.

d) São Justino Mártir (+163), em sua “Apologia” (PL 6, col. 383ss), registra que:

– a Paixão de Cristo ocorreu no 17º ano de Tibério, que teve início entre agosto de 32 e agosto de 33 d.C.

e) Tertuliano (+222), em seu “Contra os Judeus” (PL 2, col. 614), registra que:

– o nascimento de Jesus ocorreu no ano 41 de César Augusto. Embora isto seja 1 ano antes daquele declarado por São Jerônimo, isto se deve ao fato de que Tertuliano seguia estritamente a datação latina (a qual, como vimos anteriormente, apontava o Natal no calendário um ano antes do calendário grego, já que 25 de dezembro tem um ano a menos que 6 de janeiro) enquanto que São Jerônimo, embora latino, usava fontes gregas enquanto residia na Palestina. – na crucificação de Cristo, o sol parou de brilhar ao meio-dia (isto consta na sua obra “Apologético” 1,21): “Ele (=Deus) teria várias maravilhas apropriadas para tal morte. Com efeito, no momento em que o sol atingiu o meio da sua órbita, o dia foi repentinamente privado do seu brilho e aqueles que não sabiam que esse prodígio foi preparado para a morte de Cristo não compreenderam a razão desse fato. Posteriormente, eles passaram a negar que isso ocorrera, mas vocês podem encontrar [o registro] desse evento mundial guardado nos seus arquivos”. O texto de um historiador secular conhecido como Phlegon, ex-escravo do imperador Adriano (117-138 d.C.), corrobora: “…no 4º ano da 202ª Olimpíada ocorreu um eclipse que tornou-se notável porque nada comparável ocorrera antes. Na sexta hora do dia [meio-dia] as trevas eram tais que qualquer um conseguia ver as estrelas” (Fragmenta Historicum Graecorum, Didot. Paris 1849, vol. 3, Phlegon, livro 13, cap. 14, conforme citado em “The Controversy Concerning the Dates of the Birth and Death of Jesus Christ”, de J. S. Daly).

Obs.: este fenômeno não poderia ter sido um eclipse causado pela lua, já que as trevas de um eclipse total ocorreriam apenas em áreas específicas da terra e, em todo caso, não durariam muito tempo; mas os Evangelhos registram que o sol parou de brilhar por três horas. Orígenes (+254), em seu “Contra Celso” 2,33, confirma o testemunho de Phlegon: “O eclipse que ocorreu no tempo de Tibério, durante aquele reinado em que Cristo foi crucificado, e o grande terremoto simultâneo, foi registrado por Phlegon em seus livros 13 e 14”.

Continuemos, agora com outros historiadores da Igreja:

f) João Malalas (+578), em sua “Cronografia” (PG 97, col. 351ss), registra que:

– “No 4º mês do 42º ano de Augusto, no 8º [dia] das calendas de janeiro [isto é, em 25 de dezembro], na 7ª hora do dia, Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu em Belém”. – “Ele foi batizado no [rio] Jordão no 6º dia do mês de Audynae [=janeiro]”. – “No ano 18 do reinado de Tibério, no 7º mês, Nosso Senhor Jesus Cristo foi traído por Judas, seu discípulo. No 23º [dia] de março, o 3º dia da lua, o 5º dia da semana, na 5ª hora da noite [=23:00], Ele foi levado perante Caifás (…) No dia seguinte, foi levado a Pilatos (…) Ele foi crucificado no 14º dia da lua… Nesse momento, o sol foi privado da sua luz e as trevas cobriram toda a terra”.

g) Diácono Paulo, em sua “História Diversa” (PL 95, col. 858-864), registra que:

– “No 12º ano do reinado de Tibério, em Fidenae, um anfiteatro ruiu soterrando 20 mil pessoas. 7 anos depois, no tempo em que Nosso Senhor sofreu a Sua Paixão, ocorreu um imenso terremoto e pedras rolaram das montanhas. No mesmo dia, o sol escureceu da 6ª à 9ª hora; as trevas cobriram toda a terra e as estrelas apareceram [no céu]”.

h) Júlio Africano, nos fragmentos de suas obras que chegaram até nós (PG 10, col. 90), registra que:

– “No ano 5.533 da terra, que é o 33º de Cristo, denominado o 1º ano da 203ª Olimpíada, no momento em que Cristo sofreu Sua Paixão, trevas terríveis cobriram o mundo e rochas se quebraram em razão de um terremoto”.

i) Orósio (+418), em sua “História contra os Pagãos” (PL 31, col. 1.059, livro 7), registra que:

– Cristo nasceu em dezembro do ano 1 a.C. – no ano 3 de Cristo, Herodes assassinou os inocentes. – no ano 6 d.C., Herodes morreu, consumido por vermes. – no ano 28, Tibério enviou Pilatos como governador da Judéia. – no ano 33, a Paixão ocorreu no 8º dia das calendas de abril (=25 de março).

j) Cassiodoro (+580), em sua “Crônica” (PL 69, col. 1.228), registra que:

– a Paixão de Cristo ocorreu no ano 18 de Tibério, no 8º [dia] das calendas de abril, durante um eclipse do sol. – ele também escreve: “Jesus Cristo, o Filho de Deus, nasceu em Belém no ano 41 do reinado de Augusto”.

k) Sulpício Severo (+420), em sua “História Sagrada” (PL 20, col. 144), registra que:

– Cristo nasceu no ano 33 de Herodes, no 8º dia das calendas de janeiro (=25 de dezembro), e Herodes morreu 4 anos mais tarde. – Cristo foi crucificado no 24º ano de Herodes, o Jovem (isto é, Herodes Antipas).

l) Epifânio (+403), em suas obras “Do Ano do Natal de Cristo” e “Do Ano da Paixão de Cristo” (PG 13, cols. 902 e 978), registra que:

– Cristo nasceu no ano 45 do calendário juliano (=ano 1 a.C. de nosso atual calendário), no 4º ano da 194ª Olimpíada. – que a Sua Paixão ocorreu no 18º ano de Tibério, em 25 de março, e a ressurreição, em 27 [de março].

Obs.: como é fácil de perceber, eventuais discrepâncias são quase sempre explicadas pelas diferenças de emprego dos números cardinais e ordinais dos diversos sistemas de datação.

—– Notas: [1] Alguns exemplos de erros nas obras de Josefo: – Esdras 6,15 diz: “Este templo foi concluído no 3º dia do mês de Adar; era o 6º ano do reinado do rei Dario”; mas Josefo diz: “Tudo ficou completo no 9º mês do 28º ano de Xerxes” (Antiguidades, livro 11, v.179), ou seja, uma diferença de 45 anos! – 1Macabeus 6,30 diz: “O número de suas forças era de 100 mil soldados a pé; 20 mil a cavalo; e 32 elefantes acostumados à guerra”; mas em “Guerra Judaica” (livro 1, v.41), [Josefo] diz que eram 50 mil soldados, 5 mil cavaleiros e 80 elefantes, embora em “Antiguidades” (livro 12, cap. 9, v.366) cite 1Macabeus 6,30! – Em “Guerra Judaica” (livro 1, cap. 2, v.68), [Josefo] afirma que Hircano reinou por 33 anos, mas em “Antiguidades” (livro 12, v.299), diz que foram por 32 anos e, depois, no livro 22, por 30 anos. – Em “Guerra Judaica” (livro 1, cap. 3, v.70) é dito que Aristóbulo colocou a diadema sobre sua fronte 471 anos após o retorno do exílio, mas em “Antiguidades” (livro 13, v.301), afirma-se que foi 480 anos. Ambas as datas estão erradas, pois se deu após 490 anos! – Em “Guerra Judaica” (livro 1, cap. 4, v.105), ele diz que Alexandre capturou Gamala e expulsou o governador, mas em “Antiguidades” (livro 13, v.394), diz que Alexandre o matou. – Em “Antiguidades” (livro 15, cap. 11, v.1), ele diz que “Herodes assumiu a restauração do Templo [de Jerusalém] no 18º ano de seu reinado”, mas em “Guerra Judaica” (livro 1, cap. 21, v.401), afirma que “foi no 15º ano”. [2] “The Early Church Fathers and Other Works”, originalmente publicada em inglês pela Wm. B. Eerdmans Pub. Co. em Edimburgo (Escócia), no início de 1867 (Ante Nicene Fathers 6, Roberts e Donaldson). [3] Outras menções às Olimpíadas encontramos em: – Clemente de Alexandria (40ª, 50ª, 46ª e 62ª Olimpíadas): “O discípulo de Crates foi Zeno de Cítia, fundador da seita estóica. Ele foi sucedido por Cleantes e, depois, por Crísipo e outros após este. Xenófanes de Colofon foi o fundador da escola eleática que, segundo Timeu, viveu na época de Hiero, senhor da Sicília, e Epicarmo, o poeta. E Apolodoro diz que ele nasceu na 40ª Olimpíada e chegou até o tempo de Dario e Ciro”; (…) “Heródoto, em seu primeiro livro, concorda com ele. A data é próxima da 50ª Olimpíada. Pitágoras certamente viveu nos dias de Polícrates, o tirano, por volta da 62ª Olimpíada. Mnesífilo é citado como discípulo de Sólon e foi contemporâneo de Temístocles; Sólon surgiu por volta da 46ª Olimpíada” (Stromata 1,14). – Hipólito de Roma (88ª Olimpíada): “Este filósofo [Anaxágoras] floresceu no 1º ano da 88ª Olimpíada, na mesma época em que eles afirmam também que Platão nasceu”. – Sócrates Escolástico (271ª e 300ª Olimpíadas): “Na Bretanha, contudo, Constantino foi proclamado imperador, no lugar de seu pai, Constâncio, que morreu no 1º ano da 271ª Olimpíada, no 25º [dia] de julho (…) O imperador Constantino viveu 65 anos e reinou 31. Ele faleceu durante o consulado de Feliciano e Tartão, no 22º [dia] de maio, no 2º ano da 278ª Olimpíada. Este livro, portanto, abrange um período de 31 anos” (História Eclesiástica, livro 1, caps. 2 e 40). “E assim terminou essa guerra empreendida em razão dos cristãos que sofriam [perseguição] na Pérsia, sob o consulado dos dois Augustos, sendo o 13º de Honório e o 10º de Teodósio, no 4º ano da 300ª Olimpiada. E então acabou a perseguição que se levantara na Pérsia contra os cristãos” (História Eclesiástica, livro 7, cap. 20). – Teófilo de Antioquia (7ª e 62ª Olimpíadas): “Então, quando Ciro já reinava por 29 anos e foi assassinado por Tomiris na terra dos massagetas, na 62ª Olimpíada, os romanos começaram a crescer em poder, pois Deus os fortaleceu. Roma foi estabelecida por Rômulo, tido por filho de Marte e Ília, na 7ª Olimpíada, no dia 21 de abril, quando o ano era consistido de 10 meses. Ciro, então, tendo morrido, como já dissemos, na 62ª Olimpíada, faz-nos com esta data corresponda a 220 anos, quando Tarquínio, apelidado o Soberbo, reinou sobre os romanos” (A Autólico 3,27).

Para citar este artigo:SUNGENIS, Robert A. Apostolado Veritatis Splendor: BOAS NOVAS – JESUS CRISTO NASCEU MESMO EM 25 DE DEZEMBRO DO ANO 1 A.C.. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4688. Desde 24/12/2007.

 
 
 

Segundo informa da Comissão teológica católica-ortodoxa

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 15 de novembro de 2007 (ZENIT.org).- Segundo a história e a tradição eclesial, o bispo de Roma é considerado como o «primeiro» entre os patriarcas, tanto nas Igrejas do oriente como nas do ocidente, conclui um histórico documento assinado por representantes católicos e ortodoxos.

No entanto, suas prerrogativas e as funções que derivam deste primado devem ser estudadas melhor para poderem ser compartilhadas por estas duas tradições cristãs.

O documento, publicado esta quinta-feira em Roma, Atenas, Istambul e Chipre, foi redigido na reunião da Comissão Mista Internacional para o diálogo teológico entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa em conjunto, que se celebrou de 8 a 14 de outubro em Ravena (Itália).

A assembléia foi presidida pelo cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, e por Dom Ioannis, metropolita de Pérgamo (do patriarcado ecumênico de Constantinopla).

O encontro respondeu a esta pergunta: existe uma figura que desempenhe o primeiro lugar tanto para católicos como para ortodoxos, respeitando a «igualdade sacramental» e a «mesma dignidade» própria do bispo»?

A resposta que o documento oferece, texto dividido em 46 pontos, de dez páginas, pode resumir-se assim: católicos e ortodoxos concordam com o fato de que o bispo de Roma, quer dizer o Papa para os católicos, é considerado o «protos», ou seja, o primeiro entre os patriarcas de todo o mundo, pois Roma, segundo a expressão de Santo Inácio de Antioquia, é a «Igreja que preside na caridade».

No entanto, segundo se desprende do documento, católicos e ortodoxos ainda não concordam nas «prerrogativas» deste primado, dado que, segundo afirma o documento, «existem diferenças na compreensão tanto da maneira na qual deveria ser exercido, como em seus fundamentos segundo as Escrituras e a teologia».

O documento constitui um passo para superar o «grande cisma» que separou as Igrejas ortodoxas de Roma no ano 1054.

Na reunião se chegou a esta conclusão, refletindo sobre as «Conseqüências eclesiológicas e canônicas da natureza sacramental da Igreja. Comunhão eclesial, conciliaridade e autoridade».

Os primeiros responsáveis pela conciliaridade são os bispos, unidos em comunhão, explicam os especialistas da Comissão.

Os bispos não só «deveriam estar unidos entre si na fé, na caridade, na missão, na reconciliação», mas que «têm em comum as mesmas responsabilidades e o mesmo serviço à Igreja».

A autoridade vem de Cristo, «fundamenta-se sobre a Palavra de Deus», e através dos apóstolos é «transmitida aos bispos e a seus sucessores». Seu serviço, afirma o documento, é um «serviço de amor», pois «para os cristãos, governar é o mesmo que servir».

Após esses pressupostos, o documento de Ravena analisa sua aplicação nos diferentes níveis.

No primeiro nível, o «local», a Igreja existe como «comunidade reunida pela Eucaristia» e é presidida direta ou indiretamente por um bispo.

«Esta comunhão é o marco no qual se exerce toda autoridade eclesial», indica. Neste nível, o bispo é o «protos», o primeiro, o chefe da comunidade.

O segundo nível é o «regional», no qual tem lugar a comunhão com as demais Igrejas que professam a mesma fé apostólica e que compartilham a mesma estrutura eclesial».

O ponto 24 do documento cita um cânon, aceito tanto no ocidente como no oriente, que estabelece como «os bispos de cada nação têm que reconhecem aquele que é o primeiro entre eles e considerá-lo seu líder», salvaguardando assim a «concórdia».

Logo está o nível «universal» da comunhão entre as Igrejas de todo lugar e tempo. A expressão desta comunhão são os concílios ecumênicos, desde as origens da Igreja, nos quais os bispos das cinco sedes apostólicas – Roma, Constantinopla, Alexandria Antioquia e Jerusalém – enfrentavam questões de primordial importância.

E aqui, nos concílios ecumênicos, reconhece-se o «papel ativo» exercido pelo bispo de Roma, como a personalidade mais ilustre entre os bispos das sedes maiores.

No entanto, algumas das dificuldades entre católicos e ortodoxos surgiram na definição de concílios «ecumênicos» dada pela Igreja Católica a concílios celebrados após o grande cisma.

Portanto, conclui a Comissão, «fica por estudar de maneira mais profunda a questão do papel do bispo de Roma na comunhão de todas as Igrejas».

Quer dizer, há que analisar «a função específica do bispo da ‘primeira sede’ segundo uma eclesiologia de ‘koinonia’, ou seja, de comunhão.

Ao mesmo tempo fica por estudar conjuntamente «o ensino sobre o primado universal dos Concílios Vaticano I e Vaticano II», para que possa ser compreendido e vivido à luz da prática eclesial do primeiro milênio», quando a Igreja não estava separada.

 
 
 
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