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Intervenção na audiência geral desta quarta-feira

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 25 de abril de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos a intervenção de Bento XVI na audiência geral desta quarta-feira, em que apresentou a figura do padre apostólico Orígenes.

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Queridos irmãos e irmãs:

Em nossas mediações sobre as grandes personalidades da Igreja antiga, conheceremos hoje uma das mais relevantes. Orígenes de Alexandria é realmente uma das personalidades determinantes para todo o desenvolvimento do pensamento cristão. Ele recolhe a herança de Clemente de Alexandria, sobre quem meditamos na quarta-feira passada, e a relança ao futuro de maneira tão inovadora que imprime um giro irreversível ao desenvolvimento do pensamento cristão. Foi um verdadeiro «mestre», e assim o recordavam com nostalgia e comoção seus discípulos: não só um brilhante teólogo, mas uma testemunha exemplar da doutrina que transmitia. «Ele ensinou», escreve Eusébio de Cesaréia, seu entusiasmo biógrafo, «que a conduta deve corresponder exatamente à palavra, e foi sobretudo por isso que, ajudado pela graça de Deus, induziu muitos a imitá-lo» (Hist. Eccl. 6, 3, 7).

Toda a sua vida esteve envolvida por um incessante anseio de martírio: Tinha dezessete anos quando, no décimo ano do imperador Septímio Severo, desatou-se em Alexandria a perseguição contra os cristãos. Clemente, seu mestre, abandonou a cidade, e o pai de Orígenes, Leônidas, foi preso. Seu filho ansiava ardentemente o martírio, mas não pôde cumprir este desejo. Então escreveu a seu pai, exortando-o a não desistir do supremo testemunho da fé. E quando Leônidas foi decapitado, o pequeno Orígenes sentiu que devia acolher o exemplo de sua vida. Quarenta anos mais tarde, enquanto pregava em Cesaréia, fez esta confissão: «De nada me serve ter tido um pai mártir se não tenho uma boa conduta e não honro a nobreza de minha estirpe, isto é, o martírio de meu pai e o testemunho que o tornou ilustre em Cristo» (Hom. Ez. 4, 8). Em uma homilia sucessiva — quando, graças à extrema tolerância do imperador Felipe o Árabe, parecia já esfumada a eventualidade de um testemunho cruento — Orígenes exclama: «Se Deus me concedesse ser lavado em meu sangue, como para receber o segundo batismo tendo aceitado a morte por Cristo, eu me afastaria seguro deste mundo… Mas são felizes os que merecem essas coisas» (Hom. Iud. 7, 12). Estas expressões revelam toda a nostalgia de Orígenes pelo batismo de sangue. E finalmente este irresistível anseio foi, ao menos em parte, comprazido. Em 250, durante a perseguição de Décio, Orígenes foi preso e torturado cruelmente. Debilitado pelos sofrimentos padecidos, morreu algum tempo depois. Não tinha ainda setenta anos.

Aludimos a esse «giro irreversível» que Orígenes imprimiu à história da teologia e do pensamento cristão. Mas em que consiste este marco histórico, esta novidade tão cheia de conseqüências? Corresponde em substância à fundação da teologia na explicação das Escrituras. Fazer teologia era para ele essencialmente explicar, compreender a Escritura; ou poderíamos inclusive dizer que sua teologia é a perfeita simbiose entre teologia e exegese. Na verdade, a marca própria da doutrina de Orígenes parece residir precisamente no incessante convite a passar da letra ao espírito das Escrituras, para progredir no conhecimento de Deus. E este chamado «alegorismo», escreveu von Baltasar, coincide precisamente «com o desenvolvimento do dogma cristão desenvolvido pelo ensinamento dos doutores da Igreja», os quais, de uma forma ou de outra — acolheram a «lição» de Orígenes. Assim, a tradição e o magistério, fundamento e garantia da investigação teológica, chegam a configurar-se como «Escritura em ato» (cfr. «Origene: il mondo, Cristo e la Chiesa», tr. It., Milano 1972, p. 43). Podemos afirmar por isso que o núcleo central da imensa obra literária de Orígenes consiste em sua «tripla leitura» da Bíblia. Mas antes de ilustrar esta «leitura» convém dar uma olhada geral à produção literária do alexandrino. São Jerônimo, em sua Epístola 33, cita os títulos de 320 livros e de 310 homilias de Orígenes. Lamentavelmente, a maior parte dessa obra se perdeu, mas inclusive o pouco que resta delao lhe converte no autor mais prolífico dos primeiros três séculos cristãos. Seu raio de interesse se estende da exegese ao dogma, à filosofia, à apologética, à ascética e à mística. É uma visão fundamental e global da vida cristã.

O núcleo inspirador desta obra é, como mencionamos, a «tripla leitura» das Escrituras desenvolvida por Orígenes no arco de sua vida. Com esta expressão tentamos aludir às três modalidades mais importantes — entre si não sucessivas, porém mais freqüentemente sobrepostas — com as que Orígenes se dedicou ao estudo das Escrituras. Antes de tudo, ele leu a Bíblia com a intenção de assegurar o melhor texto e de oferecer dela a edição mais fiável. Este, por exemplo, é o primeiro passo: conhecer realmente o que está escrito e conhecer o que esta escritura queria intencional e inicialmente dizer. Realizou um grande estudo com este fim e redigiu uma edição da Bíblia com seis colunas paralelas, de esquerda a direita, com o texto hebreu em caracteres hebreus — ele teve também contatos com os rabinos para compreender bem o texto original hebraico da Bíblia –, depois o texto hebraico transliterado em caracteres gregos e a seguir quatro traduções diferentes em língua grega, que lhe permitiam comparar as diversas possibilidades de tradução. Daí o título de «Hexapla» («seis colunas») atribuído a esta enorme sinopse. Este é o primeiro ponto: conhecer exatamente o que está escrito, o texto como tal. Em segundo lugar, Orígenes leu sistematicamente a Bíblia com seus célebres Comentários. Estes reproduzem fielmente as explicações que o mestre oferecia na escola, em Alexandria e em Cesaréia. Orígenes avança quase versículo a versículo, de forma minuciosa, amplia e aprofunda, com notas de caráter filológico e doutrinal. Ele trabalha com grande exatidão para conhecer bem o que os sagrados autores queriam dizer.

Finalmente, também antes de sua ordenação presbiteral, Orígenes se dedicou muitíssimo à pregação da Bíblia, adaptando-se a um público de composição variada. Adverte-se também em suas Homilias o mestre, totalmente dedicado à interpretação sistemática da perícope em exame, pouco a pouco fracionada nos sucessivos versículos. Também nas Homilias Orígenes aproveita todas as ocasiões para recordar as diversas dimensões do sentido da Sagrada Escritura, que ajudam ou expressam um caminho no crescimento da fé: existe o sentido «literal», mas este oculta profundidades que não aparecem em um primeiro momento; a segunda dimensão é o sentido «moral»: o que devemos fazer vivendo a palavra; e finalmente o sentido «espiritual», ou seja, a unidade da Escritura, que em todo seu desenvolvimento fala de Cristo. É o Espírito Santo que nos faz entender o conteúdo cristológico e, assim, a unidade da Escritura em sua diversidade. Seria interessante mostrar isso. Tentei um pouco, em meu livro «Jesus de Nazaré», assinalar na situação atual estas múltiplas dimensões da Palavra, da Sagrada Escritura, que antes deve ser respeitada justamente no sentido histórico. Mas este sentido nos transcende para Cristo, na luz do Espírito Santo, e nos mostra o caminho, como viver. Encontra-se alusão a isso, por exemplo, na nona Homilia sobre os Números, na qual Orígenes compara a Escritura com as nozes: «Assim é a doutrina da Lei e dos Profetas na escola de Cristo», afirma a homilia; «amarga é a letra, que é como a casca; em segundo lugar atravessas a casca, que é a doutrina moral; em terceiro lugar encontrarás o sentido dos mistérios, do que se nutrem as almas dos santos na vida presente e na futura» (Hom. Num. 9, 7).

Sobretudo por esta via Orígenes chega a promover eficazmente a «leitura cristã» do Antigo Testemunho, replicando brilhantemente o desafio daqueles hereges — sobretudo gnósticos e marcionitas — que opunham entre si os dois Testamentos até rejeitar o Antigo. A respeito disso, na própria Homilia sobre os Números, o alexandrino afirma: «Eu não chamo a Lei de um ‘Antigo Testamento’, se a compreendo no Espírito. A lei se converte em um ‘Antigo Testamento’ só para os que querem compreendê-la carnalmente», isto é, fixando-se na letra do texto. Mas «para nós, que a compreendemos e a aplicamos no Espírito e no sentido do Evangelho, a Lei é sempre nova, e os dois Testamentos são para nós um novo Testamento, não por causa da data temporal, mas da novidade do sentido… Ao contrário, para o pecador e para os que não respeitam a condição da caridade, também os Evangelhos envelhecem» (Hom. Num. 9, 4).

Eu vos convido — e assim concluo — a acolher em vosso coração o ensinamento desse grande mestre na fé. Ele nos recorda com íntimo entusiasmo que, na leitura orante da Escritura e no coerente compromisso da vida, a Igreja sempre se renova e rejuvenesce. A Palavra de Deus, que não envelhece jamais, nem se esgota nunca, é meio privilegiado para tal fim. É, com efeito, a Palavra de Deus que, por obra do Espírito Santo, nos guia sempre de novo à verdade completa (cf. Bento XVI, «Ai partecipanti al Congresso Internazionale per il XL anniversario della Costituzione dogmática ‘Dei Verbum’», in: «Insegnamenti», vol. I, 2005, pp. 552-553). E peçamos ao Senhor que nos dê hoje pensadores, teólogos, exegetas que encontrem esta multidimensionalidade, esta atualidade permanente da Sagrada Escritura, para alimentar-nos realmente do verdadeiro pão da vida, de sua Palavra.

[Tradução realizada por Zenit. Ao final da audiência o Santo Padre saudou os peregrinos em língua portuguesa:]

Saúdo os peregrinos de língua portuguesa, especialmente os portugueses da Paróquia de Santo António do Estoril, e um grupo de visitantes brasileiros. Possam a vossas obras e orações elevarem-se diariamente ao Pai pela santificação e unidade da grande família humana em Jesus Cristo. Sirva-vos de apelo e encorajamento a Bênção que de bom grão vos concedo, extensiva aos vossos familiares e conterrâneos.

[© Copyright 2007 – Libreria Editrice Vaticana]

 
 
 

Intervenção na audiência geral desta quarta-feira

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 18 de abril de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos a intervenção de Bento XVI na audiência geral desta quarta-feira, dedicada a apresentar a figura do padre apostólico Clemente de Alexandria.

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Queridos irmãos e irmãs:

Depois do tempo das festas, voltemos às catequeses normais, apesar de que visivelmente a praça está ainda em festa. Com as catequeses voltemos, como dizia, ao tema começado antes. Havíamos falado dos doze apóstolos, depois dos discípulos dos apóstolos, agora das grandes personalidades da Igreja nascente, da Igreja antiga. Da última vez havíamos falado de Santo Irineu de Lyon, hoje falaremos de Clemente de Alexandria, um grande teólogo que nasce provavelmente em Atenas, em torno da metade do século II. De Atenas herdou um agudo interesse pela filosofia, que faria dele um dos pioneiros do diálogo entre fé e razão na tradição cristã. Quando ainda era jovem, chegou a Alexandria, a «cidade símbolo» desse fecundo cruzamento entre diferentes culturas que caracterizou a idade helenista. Foi discípulo de Pateno, até sucedê-lo na direção da escola catequética. Numerosas fontes testificam que foi ordenado presbítero. Durante a perseguição de 202-203, abandonou Alexandria para refugiar-se em Cesaréia, na Capadócia, onde faleceu no ano 215.

As obras mais importantes que nos restam dele são três: o «Protréptico», o «Pedagogo», e os «Stromata». Ainda que parece que não era a intenção originária do autor, estes escritos constituem uma autêntica trilogia, destinada a acompanhar eficazmente a maturação espiritual do cristão.O «Protréptico», como a própria palavra indica, é uma «exortação» dirigida a quem começa e busca o caminho da fé. Mais ainda, o «Protréptico» coincide com uma Pessoa: o Filho de Deus, Jesus Cristo, que se converte em «exortador» dos homens para que empreendam com decisão o caminho da Verdade. O próprio Jesus Cristo se converte depois em «Pedagogo», ou seja, em «educador» daqueles que, em virtude do Batismo, converteram-se em filhos de Deus. O próprio Jesus Cristo, por último, é também «didascalo», ou seja, «mestre», que propõe os ensinamentos mais profundos. Estes se recolhem na terceira obra de Clemente, os «Stromata», palavra grega que significa: «tapeçarias». Trata-se de uma composição que não é sistemática, mas trata de diferentes argumentos, fruto direto do ensinamento habitual de Clemente.

Em seu conjunto, a catequese de Clemente acompanha passo a passo o caminho do catecúmeno e do batizado para que, com as duas «asas» da fé e da razão, chegue a um conhecimento da Verdade, que é Jesus Cristo, o Verbo de Deus. Só o conhecimento da pessoa que é a verdade é a «autêntica gnoses», a expressão grega que quer dizer «conhecimento», «inteligência». É o edifício construído pela razão sob o impulso de um princípio sobrenatural. A própria fé constitui a autêntica filosofia, ou seja, a autêntica conversão ao caminho que se deve tomar na vida. Portanto, a autêntica «gnose» é um desenvolvimento da fé, suscitado por Jesus Cristo na alma unida a Ele. Clemente define depois dois níveis da vida cristã.

Primeiro nível: os cristãos crentes que vivem a fé de uma maneira comum, ainda que esteja sempre aberta aos horizontes da santidade. Depois está o segundo nível: os «gnósticos», ou seja, os que já levam uma vida de perfeição espiritual; em todo caso, o cristão tem de começar pela base comum da fé e através de um caminho de busca, deve deixar-se guiar por Cristo e deste modo chegar ao conhecimento da Verdade e das verdades que conformam o conteúdo da fé. Este conhecimento, diz-nos Clemente, converte-se para a alma em uma realidade viva: não é só uma teoria, é uma força de vida, é uma união de amor transformante. O conhecimento de Cristo não é só pensamento, mas é amor que abre os olhos, transforma o homem e cria comunhão com o «Logos», com o Verbo divino que é verdade e vida. Nesta comunhão, que é o perfeito conhecimento e é amor, o perfeito cristão alcança a contemplação, a unificação com Deus.

Clemente retoma finalmente a doutrina, segundo a qual, o fim último do homem consiste em ser semelhante a Deus. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, mas isso é também um desafio, um caminho; de fato, o objetivo da vida, o destino último consiste verdadeiramente em tornar-se semelhante a Deus. Isso é possível graças à co-naturalidade com Ele, que o homem recebeu no momento da criação, motivo pelo qual por si já é imagem de Deus. Esta co-naturalidade permite conhecer as realidades divinas às que o homem adere antes de tudo pela fé e, através da vivência da fé, da prática das virtudes, pode crescer até chegar à contemplação de Deus. Deste modo, no caminho da perfeição, Clemente dá a mesma importância ao requisito moral que ao intelectual. Os dois estão unidos, porque não é possível conhecer sem viver e não se pode viver sem conhecer. Não é possível assemelhar-se a Deus e contemplá-lo simplesmente com o conhecimento racional: para conseguir este objetivo é necessária uma vida segundo o «Logos», uma vida segundo a verdade. E, portanto, as boas obras têm de acompanhar o conhecimento intelectual, como a sombra acompanha o corpo.

Há duas virtudes que adornam particularmente a alma do «autêntico gnóstico». A primeira é a liberdade das paixões («apátheia»); a outra, é o amor, a verdadeira paixão, que assegura a união íntima com Deus. O amor dá a paz perfeita, e faz com que o «autêntico gnóstico» seja capaz de enfrentar os sacrifícios maiores, inclusive o sacrifício supremo no seguimento de Cristo, e o faz subir de nível até chegar ao cume das virtudes. Deste modo, o ideal ético da filosofia antiga, ou seja, a libertação das paixões, volta a ser redefinido por Clemente e conjugado com o amor, no processo incessante que leva a assemelhar-se a Deus.

Desta maneira, o pensador de Alexandria propiciou a segunda grande oportunidade de diálogo entre o anúncio cristão e a filosofia grega. Sabemos que São Paulo no Areópago de Atenas, onde Clemente nasceu, havia feito a primeira tentativa de diálogo com a filosofia grega, e em boa parte havia fracassado, pois lhe disseram: «Outra vez te escutaremos». Agora Clemente, retoma este diálogo, e o enobrece ao máximo na tradição filosófica grega. Como escreveu meu venerado predecessor João Paulo II na encíclica «Fides et ratio», Clemente de Alexandria chega a interpretar a filosofia como «uma instrução propedêutica à fé cristã (n. 38). E, de fato, Clemente chegou a afirmar que Deus teria dado a filosofia aos gregos «como um Testamento próprio para eles» («Stromata», 6, 8, 67, 1). Para ele, a tradição filosófica grega, quase como acontece com a Lei para os judeus, é o âmbito de «revelação», são duas correntes que em definitivo se dirigem ao mesmo «Logos». Clemente continua marcando com decisão o caminho de quem quer «dar razão» de sua fé em Jesus Cristo. Pode servir de exemplo aos cristãos, aos catequistas e aos teólogos de nosso tempo, aos que João Paulo II, na mesma encíclica, exortava «a recuperar e sublinhar mais a dimensão metafísica da verdade para entrar assim em diálogo crítico e exigente com o pensamento filosófico contemporâneo».

Concluamos com uma das expressões da famosa «oração a Cristo ‘Logos’», com a qual Clemente conclui seu «Pedagogo». Sua súplica diz assim: «Mostrai-vos propício a vossos filhos»; «concedei-nos viver em vossa paz, mudar-nos para a vossa cidade, atravessar sem ficar submergidos nas correntes do pecado, ser transportados com serenidade pelo Espírito Santo pela Sabedoria inefável: nós, que de dia e de noite, até o último dia elevamos um canto de ação de graças ao único Pai, ao Filho pedagogo e mestre, junto ao Espírito Santo. Amém!» (Pedagogo 3, 12, 101).

[Tradução realizada por Zenit. Ao final da audiência o Papa saudou os peregrinos em língua portuguesa. Essas foram suas palavras:]

Saúdo com amizade e gratidão o grupo de Belo Horizonte e demais peregrinos de língua portuguesa aqui presentes: Que Deus vos seja propício e Se compraza nesta vossa romagem até à Sé de Pedro. Há quatrocentos anos, o Papa Paulo V tudo predispunha para uma digna recepção da embaixada do Reino do Congo – hoje Angola – guiada pelo primo do rei Álvaro II, Dom António Emanuel ne Vunda, que as crónicas romanas cognominaram o «Negrita», o primeiro Embaixador negro de um reino cristão de África. O desejado encontro teve lugar na noite de 5 de Janeiro de 1608, nos palácios do Vaticano, com o meu Predecessor que não hesitou em vir pessoalmente confortá-lo, detendo-Se à cabeceira do leito onde jazia, gravemente doente, este nobre filho cristão do Congo, cuja vida e reino encomendou à protecção do Sucessor de Pedro.

Na linha desta significativa e emblemática ocorrência, em que o povo de Angola se espelha, invoco a benevolência de Deus sobre a Nação inteira para que cada um contribua para consolidar a paz assinada há cinco anos com a promessa de dar a voz ao povo e assim instaurar uma autêntica vida em democracia. A todos peço perseverança na obra de reconciliação dos corações que ainda sangram com as feridas da guerra; alegro-me com a obra de reconstrução em acto e recordo às autoridades religiosas e civis a obrigação que têm de privilegiar os pobres. Deus abençoe Angola!

[© Copyright 2007 – Libreria Editrice Vaticana]

 
 
 

Os protestantes que se dizem voltar ao cristianismo primitivo, que se dizem conhecedores da Palavra de Deus e seus fiéis seguidores, renegam duas parcelas importantíssimas da Palavra de Deus: A Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério.

O escopo de nosso artigo está na Sagrada Tradição, em outra oportunidade trataremos do Sagrado Magistério.

A Ordem Apostólica

Os adeptos da “Sola Scriptura” (Somente as Escrituras), na verdade são adeptos da “Sola alguns versículos da Scriptura”. Negam verdades bem explícitas da Sagrada Escritura como a real presença do Senhor no pão e no vinho da Eucaristia (cf. Jo 6,51-56), negam também que a autoridade apostólica não se encerrou com a geração dos apóstolos, mas se perpetuou em seus legítimos sucessores (cf. At 1,15-26; 1Tm 5,1.19-20; Tt 1,5; 2,9-10.15), negam o preço que o Senhor e São Paulo possuiam pelos celibatários (cf.Mt 19,12; 1Cor 7,1.26-27) e entre outras coisas. Mas se tratando da Sagrada Tradição, fecham seus olhos para a seguinte instrução de São Paulo:“Assim, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavra, seja por carta nossa” (2Tes 2,15).

Verter por escrito a Revelação era uma preocupação secundária

Vejam que São Paulo nos manda guardar toda doutrina apostólica, seja ela oral ou escrita. A Sagrada Tradição é maior que a Escritura, pois foi ela que deu origem à Escritura. A ordem do Senhor foi: “Ide, e pregai o Evangelho a toda criatura” (cf. Mt 28,19-20) e não “Ide e imprimi as Escrituras”.

A preocupação da Igreja era anunciar o Evangelho. E fizeram isto de viva voz. Somente em circunstância especiais é que os apóstolos se viram obrigados a colocar algo por escrito. Mas de forma alguma se preocuparam em colocar tudo por escrito (cf. Jo 21,25; 1Cor 11,12; 2Jo 1,12; 3; 3Jo 1,13-14).

Veja o testemunho de Eusébio, Bispo de Cesaréia e historiador da Igreja nos tempos primitivos:“[Os Apóstolos] Anunciaram o reino dos céus a todo orbe habitado, sem a menor preocupação de escrever livros.Assim procediam porque lhes cabia prestar um serviço maior e sobre-humano. Até Paulo, o mais potente de todos na preparação dos discursos, o mais dotado relativamente aos conceitos, só transmitiu por escrito breves cartas, apesar de ter realidades inúmeras e inefáveis a contar […] Outros seguidores de nosso Salvador, os primeiros apóstolos, os setenta discípulos e mil outros mais não eram inexperientes das mesmas realidades. Entretanto, dentre eles todos, somente Mateus e João deixaram memória dos entretenimentos do Salvador. E a Tradição refere que estes escreveram forçados pela necessidade. […] Quanto a João [o Apóstolo], diz-se que sempre utilizava o anúncio oral. Por fim, também ele pôs-se a escrever pelo seguinte motivo. Quando os três evangelhos precedentes já se haviam propagado entre todos os fiéis e chegaram até ele, recebeu-os, atestando sua veracidade. Somente careciam da história das primeiras ações de Cristo e do anúncio primordial da palavra. E trata-se de verdadeiro motivo.” (História Eclesiástica Livro III, 24,3-7. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C)

Pois o Cristianismo não é baseado num manual de instruções, mas sim no Magistério Vivo da Igreja. E é disto que as Sagradas Escrituras (cf. 2Cor 3,6) e os antigos deram testemunho.


Motivos que os protestantes alegam para abandonar a Sagrada Tradição

Os protestantes normalmente apresentam 3 motivos para justificar seu abandono à Sagrada Tradição:

1) O que está na Bíblia é suficiente

Normalmente citam 2Tm 3,16. Mas o referido versículo não diz que a Escritura é suficiente, diz apenas que é útil, para ensinar, e redargüir o homem para toda boa obra. Isto é claro pois na Sagrada Escritura só existe Verdade, mas nem toda Verdade está na Sagrada Escritura.

2) Que Jesus condenou o uso da Tradição

Alguns protestantes alegam que as palavras do Senhor registradas em Mc 7,9 justificam o abandono à Sagrada Tradição. Se isto fosse verdade São Paulo não nos deixaria a ordem que também guardar o ensino oral dos apóstolos. O problema que é os Fariseus ensinavam informalmente sua própria tradição em vez da Tradição que foi comunicada desde Abraão até os Profetas. É isso mesmo que o leitor leu, ensinavam informalmente sua doutrina, pois ensino formal, isto é, o ministério da Palavra era feito nas Sinagogas aos Sábados. Se os Fariseus ensinassem sua doutrina formalmente, o Senhor não teria dito ao povo que os ouvisse quando estes estivessem ensinando da Cadeira de Moisés, isto é, ensinando formalmente como legítimos sucessores de Moisés (cf. Mt 23,2).

É por isto que todo católico deve observar apenas o que a Igreja ensina oficialmente. A opinião do Padre Zezinho, do Frei Beto, do Padre Marcelo, ou até mesmo do Santo Padre João Paulo segundo, de forma alguma é norma de fé e prática para católico.

3) A Tradição pode ser muito bem deturpada com o tempo como a brincadeira do telefone-sem-fio

Outro motivo apresentado pelos protestantes para negarem a Tradição Apostólica, é de que o ensino oral pode ser deturpado com o tempo. Se São Paulo não confiasse na fidelidade da Igreja em guardar toda doutrina apostólica, seja oral ou escrita, não teria dito a Timóteo: “E o que de mim, através de muitas testemunhas ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros.” (2 Tm 2,2). São Paulo disse isto porque sabia que a Igreja é a Coluna e o Fundamento da Verdade (cf. 1Tm 3,15) e que ela guardaria fielmente a doutrina revelada (cf. Mt 16,18-19)

Fora este fato, não só protestantes, mas o que muitos católicos também não sabem, é que a Sagrada Tradição não foi conservada pela Igreja apenas oralmente, mas também foi sendo vertida por escrito pelas gerações que sucederam os santos apóstolos.

Mesmo durante a era apostólica, muitos já queriam se separar da Igreja, pregando um Evangelho diferente. Mas todas estas heresias caíram por terra, por causa do testemunho vivo dos Apóstolos. Coma morte dos Apóstolos, seus legítimos sucessores se preocuparam em escrever aquilo que os Apóstolos não deixaram por Escrito, para combater heresias nascentes, e para deixar para a posteridade a memória cristã.

Vejam os testemunhos primitivos:“Em primeiro lugar [Inácio de Antioquia], acautelava-se a conservar firmemente a tradição dos apóstolos que, por segurança, julgou necessário fixar ainda por escrito. Estava já prestes a ser martirizado.” (História Eclesiástica Livro III, 36,4. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).“Em teu favor, não hesitarei em aditar às minhas explanações que aprendi outrora dos presbíteros e cuja lembrança guardei fielmente, a fim de corroborar a manifestação da verdade.” (Pápias Bispo de Hierápolis, – ou – 120 d.C).

“Pápias, de quem nos ocupamos agora, reconhece ter recebido as palavras dos apóstolos por meio dos que com eles conviveram; declara, além disso, ter sido ele mesmo ouvinte de Aristion e do presbítero João. De fato, cita-os com freqüência nominalmente em seus escritos, referindo as palavras que transmitiram.Não foi ocioso ter dito tais coisas. É justo acrescentar às palavras supramencionadas de Pápias umas narrações ainda de fatos extraordinários e outras que chegaram até ele por meio da tradição.” (História Eclesiástica Livro III, 39,7-8. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).

“Floresciam nesta época na Igreja [tempo do Imperador Vero, por volta de 140 d.C], Hegesipo, já conhecido pelas narrações precedentes; Dionísio, bispo de Corinto; Pintos, bispo de Creta. Além disso, Filipe, Apolinário, Melitão, Musano e Modesto, e sobretudo Ireneu. Através de todos eles, chegou até nós por escrito a ortodoxia da tradição apostólica, a verdadeira fé.” (História Eclesiástica Livro IV, 21. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).

“Ora, sob [o episcopado de] Clemente, grave divergência surgiu entre os irmãos de Corinto. A Igreja de Roma enviou aos coríntios importante carta, exortando-os à paz e procurando reavivar-lhes a fé, assim como a tradição que, há pouco tempo, ela havia recebido dos apóstolos.” (História Eclesiástica Livro IV, 6,3. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).

“Esses mestres [Policarpo, Ireneu, Pápias, Justino, Clemente de Roma, Clemente de Alexandria, entre outros pois a lista é grande], que guardaram a verdadeira tradição da feliz doutrina recebida, como que transmitida de pai a filho, oriunda imediatamente dos santos Apóstolos Pedro e Tiago, João e Paulo (poucos são, contudo os filhos semelhantes aos pais), chegaram até nossos dias, por dom de Deus, a fim de lançar as sementes de seus antepassados e dos apóstolos em nossos corações” (História Eclesiástica Livro V, 11,5. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).

“Impossível enumerar nominalmente todos os que então, desde a primeira sucessão dos Apóstolos, tornaram-se pastores ou evangelistas nas Igrejas pelo mundo. Nominalmente confiamos a um escrito apenas a lembrança daqueles cujas obras ainda agora representam a tradição da doutrina apostólica” (História Eclesiástica Livro III, 37,4. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).

Onde a verdadeira Tradição dos Apóstolos pode ser encontrada

Eusébio não só é testemunha que os sucessores dos apóstolos deixaram por escrito a legítima Tradição Apostólica, como dá testemunho que a genuína Tradição Apostólica só pode ser encontrada na Igreja Apostólica, isto é, na Igreja que possui sua origem na legítima sucessão dos bispos.

Para combater o erro de ontem e de hoje, os antigos sempre apontavam para as Igrejas Apostólicas, isto é, para aquelas que tinham bispos legitimamente instituídos pelos Apóstolos e seus sucessores, pois segundo eles eram elas que guardavam a legítima Tradição Cristã. Para eles somente na Igreja Apostólica é se pode encontrar a Verdade.

Da mesma forma como a pregação paulina foi confiada a Timóteo (cf 2 Tm 1,13-14) e este confiou a seus sucessores, da mesma forma Tradição Apostólica foi conservada pela Igreja, através da legítima sucessão dos bispos.

Veja os testemunhos primitivos:“Mas a Igreja de Éfeso, fundada por Paulo e onde João permaneceu até o tempo de Trajano, é também testemunha genuína da tradição dos apóstolos” (Contra as Heresias, Santo Ireneu Bispo de Lião, + ou – 202 d.C).“Nesta ocasião [tempo do Imperador Vero. Meados do segundo século e início do terceiro], muitos homens da Igreja lutaram em prol da verdade com eloqüência e defenderam as proposições apostólicas e eclesiásticas. Alguns até, com seus escritos, deixaram aos pósteros uma profilaxia contra as heresias que acabamos de citar” (História Eclesiástica Livro IV, 7,5. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).

Depois Eusébio nos remete a uma imensa lista de autores e seus respectivos livros, pelos quais deixaram para a memória cristã a autêntica pregação Apostólica.“A Clemente [3º sucessor de São Pedro na Cáthedra de Roma] sucedeu Evaristo; a Evaristo, Alexandre, depois, em sexto lugar desde os apóstolos, foi estabelecido Xisto; logo, Telésforo, que prestou glorioso testemunho; em seguida, Higino; após este, Pio, e depois, Aniceto. Tendo sido Sotero o sucessor de Aniceto, agora detém o múnus espiscopal Eleutério, que ocupa o duodécimo lugar na sucessão apostólica. Em idêntica ordem e idêntico ensinamento na Igreja, a tradição proveniente dos apóstolos e o anúncio da verdade chegaram até nós.” (História Eclesiástica Livro V, 6,4-5. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).“E quando, por nossa vez, os levamos [os hereges] à Tradição que vem dos apóstolos e que é conservada nas várias igrejas, pela sucessão dos presbíteros, então se opõe à Tradição, dizendo que, sendo eles mais sábios do que os presbíteros, não somente, mas até dos apóstolos, foram os únicos capazes de encontrar a pura verdade.” (Contra as Heresias, III,2,1, Santo Ireneu Bispo de Lião, + ou – 202 d.C)

“Portanto, a tradição dos apóstolos, que foi manifestada no mundo inteiro, pode ser descoberta e toda igreja por todos os que queiram ver a verdade. Poderíamos enumerar aqui os bispos que foram estabelecidos nas igrejas pelos apóstolos e seus sucessores até nós; e eles nunca ensinaram nem conheceram nada que se parecesse com o que essa gente [os hereges] vai delirando. […] Mas visto que seria coisa bastante longa elencar numa obrar como esta, as sucessões de todas as igrejas, limitar-nos-emos à maior e mais antiga e conhecida por todos, à igreja fundada e constituída em Roma, pelos dois gloriosíssimos apóstolos, Pedro e Paulo, e, indicando a sua tradição recebida dos apóstolos e a fé anunciada aos homens, que chegou até nós pelas sucessões dos bispos, refutaremos todos os que de alguma forma, quer por enfatuação ou vanglória, que por cegueira ou por doutrina errada, se reúnem prescindindo de qualquer legitimidade. Com efeito, deve necessariamente estar de acordo com ela, por causa da sua origem mais excelente, toda a igreja, isto é, os fiéis de todos os lugares, porque nela sempre foi conservada, de maneira especial, a tradição que deriva dos apóstolos.” (Contra as Heresias, III,3,1-2, Santo Ireneu Bispo de Lião, + ou – 202 d.C)

Acho também interessante citar a observância de Eusébio quanto à degeneração doutrinária das seitas, assim como acontece no Protestantismo:“Extinguiram-se, pois rapidamente as maquinações dos inimigos, confundidas pela atuação da Verdade. As heresias, uma após outras, apresentavam inovações; as mais antigas continuamente desvaneciam e desvirtuavam-se, de diferentes modos, para dar lugar a idéias diversas e variadas. Ao invés, ia aumentando e crescendo o brilho da única verdadeira Igreja católica, sempre com a mesma identidade, e irradiando sobre gregos e bárbaros o que há de respeitável, puro, livre, sábio, casto em sua divina conduta e filosofia. […] Além do mais, na época de que tratamos, a verdade podia apresentar numerosos defensores, em luta contra as heresias atéias, não somente através de refutações orais, mas também por meio de demonstrações escritas.” (História Eclesiástica Livro IV, 7,13.15. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).

Conclusão

Pois é esta mesma memória cristã que nós Católicos Romanos, Gregos, Russos, Orientais, Coptas, Nestorianos e Maronitas, guardamos. E é por causa dela é que apesar de separados por um cisma de 1000 anos (com exceção dos Católicos Maronitas que até hoje estão em plena comunhão com a Igreja Católica Romana), possuímos praticamente a mesma fé e doutrina. Divergimos mais em questões disciplinares. E é esta mesma memória que um dia colocou por terra as heresias do passado, é que nós que congregamos nas legítimas Igrejas Apostólicas (aquelas que guardam a legítima sucessão dos bispos), trazemos à luz para combater as heresias de hoje também.

E como se pode ver o Protestantismo ao se ao abandonar a Tradição Apostólica, berço das Sagradas Escrituras, comete o mesmo erro as primeiras seitas, e identificamos nele o mesmo diagnóstico delas. Acabam pregando sua própria tradição em vez da Tradição Divina, erro que Jesus condenou dos Fariseus.

Com qual o quê você vai ficar? Com a Tradição dos Apóstolos ou com a tradição de Lutero, Calvino, John Knox, Ellen White, Tasse Russel, Edir Macedo, David Miranda, etc?

Autor: Prof. Alessandro Lima Fonte: Veritatis Splendor

 
 
 
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