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Por Papa Bento XVI Tradução: Zenit Fonte: Vaticano/Zenit Queridos irmãos e irmãs:

Também hoje, continuando com nosso caminho seguindo os passos dos Padres da Igreja, encontramos uma grande figura: São Cirilo de Alexandria. Ligado à controvérsia cristológica que levou ao Concílio de Éfeso do ano 431, último representante de importância da tradição alexandrina, Cirilo foi definido mais tarde no Oriente como «Custódio da exatidão» – que quer dizer custódio da verdadeira fé – e inclusive como «selo dos Padres». Estas antigas expressões manifestam um dado de fato que é característico de Cirilo, ou seja, a constante referência do bispo de Alexandria aos autores eclesiásticos precedentes (entre estes, sobretudo Atanásio) com o objetivo de mostrar a continuidade da própria teologia com a tradição. Quis integrar-se explicitamente na tradição da Igreja, na qual reconhece a garantia de continuidade com os apóstolos e com o próprio Cristo.

Venerado como santo tanto no Oriente como no Ocidente, em 1882 São Cirilo foi proclamado doutor da Igreja pelo Papa Leão XIII, quem ao mesmo tempo atribuiu o mesmo título a outro importante expoente da patrística grega, São Cirilo de Jerusalém. Revelaram-se assim a atenção e o amor pelas tradições cristãs orientais daquele Papa, que depois quis proclamar também doutor da Igreja São João Damasceno, mostrando que tanto a tradição oriental como a ocidental expressam a doutrina da única Igreja de Cristo.

Chegaram-nos poucas notícias sobre a vida de Cirilo antes de sua eleição à importante sede de Alexandria. Sobrinho de Teófilo, que desde o ano 385 como bispo regeu com mão firme e prestigio a diocese de Alexandria, Cirilo nasceu provavelmente nessa mesma cidade egípcia entre o ano 370 e 380. Depois abraçou a vida eclesiástica e recebeu uma boa educação, tanto cultural como teológica. No ano 403 se encontrava em Constantinopla seguindo seu poderoso tio e lá participou do Sínodo que depôs o bispo da cidade, João (depois conhecido como Crisóstomo), registrando assim o triunfo da sede de Alexandria sobre seu rival tradicional, Constantinopla, onde residia o imperador. Após a morte do seu tio Teófilo, sendo ainda jovem, Cirilo foi eleito no ano 412 como bispo da influente Igreja de Alexandria, governando-a com grande energia durante 32 anos, buscando afirmar sempre o primado em todo o Oriente, fortalecido também pelos laços tradicionais com Roma.

Dois ou três anos depois, no ano 417, o bispo de Alexandria deu provas de realismo ao sanar a ruptura da comunhão com Constantinopla, que acontecia desde o ano 406, após a deposição de Crisóstomo. Mas o antigo contraste com a sede de Constantinopla voltou a estourar dez anos depois, quando no ano 428 foi eleito Nestório, monge severo e de prestígio formado em Antioquia. O novo bispo de Constantinopla suscitou logo oposições, pois em sua pregação preferia para Maria o título de «Mãe de Cristo» («Christotòkos»), ao invés de «Mãe de Deus» (Theotòkos»), já então muito querido pela devoção popular.

O motivo dessa decisão do bispo Nestório era sua adesão à cristologia da tradição de Antioquia que, para salvaguardar a importância da humanidade de Cristo, acabava afirmando sua separação da divindade. Deste modo, já não era uma autêntica união entre Deus e o homem em Cristo e, portanto, já não podia falar-se de «Mãe de Deus».

A reação de Cirilo, então máximo expoente da cristologia de Alexandria, que sublinha intensamente a unidade da pessoa de Cristo, foi imediata e se deslocou com todos os meios já a partir do ano 429, entre outras coisas, enviando algumas cartas ao mesmo Nestório.

Na Segunda Carta (PG 77, 44-49) que Cirilo enviou, em fevereiro de 430, lemos uma clara afirmação do dever dos pastores de preservar a fé do Povo de Deus. Este era seu critério, válido também para hoje: a fé do Povo de Deus é expressão da tradição, é garantia da sã doutrina. Escreve estas linhas a Nestório: «É necessário expor ao povo de Deus o ensinamento e a interpretação da fé de maneira mais irrepreensível e recordar que quem escandaliza ainda que for a um só dos pequenos que crêem em Cristo, sofrerá um castigo intolerável».

Na mesma carta a Nestório, carta que mais tarde, no ano 451, teria sido aprovada pelo Concilio de Calcedônia, quarto concilio ecumênico, Cirilo descreve com clareza sua fé cristológica: «São diversas as naturezas que se uniram em uma verdadeira unidade, mas de ambas resultou um só Cristo e Filho, não porque por causa da unidade se tenha eliminado a diferença das naturezas humana e divina, mas porque humanidade e divindade reunidas de forma inefável produziram o único Senhor, Cristo, o Filho de Deus».

Isso é importante: realmente a verdadeira humanidade e a verdadeira divindade se unem em uma só Pessoa, nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, continua dizendo o bispo de Alexandria, «professamos um só Cristo e Senhor, não só no sentido de que adoramos o homem junto com o ‘Logos’, para não insinuar a idéia da separação dizendo ‘junto’, mas no sentido de que adoramos um só, pois seu corpo não é algo alheio ao ‘Logos’, com o qual está sentado à destra do Pai. Não estão sentados a seu lado dois filhos, mas um só, unido com a própria carne».

Rapidamente, o bispo de Alexandria, graças a agudas alianças, conseguiu que Nestório fosse condenado repetidamente: por parte da sede romana com uma série de doze anátemas redigidos por ele mesmo e, finalmente, pelo Concílio de Éfeso, no ano 431, o terceiro concílio ecumênico.

A assembléia, que se desenvolveu com vicissitudes tumultuosas, concluiu com o primeiro grande triunfo da devoção a Maria e com o exílio do bispo de Constantinopla, que não queria reconhecer à Virgem o título de «Mãe de Deus», por causa de uma cristologia equivocada, que criava divisão no próprio Cristo. Depois de ter prevalecido deste modo sobre o rival e sua doutrina, Cirilo soube alcançar já no ano 433 uma fórmula teológica de compromisso e de reconciliação com os de Antioquia. E isso também é significativo: por uma parte se dá a clareza da doutrina da fé, mas por outra, a intensa busca da unidade da reconciliação. Nos anos seguintes, ele se dedicou com todos os meios a defender e esclarecer sua posição teológica até a morte, ocorrida em 27 de junho do ano 444.

Os escritos de Cirilo, verdadeiramente muito numerosos e difundidos amplamente, inclusive em diferentes traduções latinas e orientais já em sua vida, prova de seu êxito imediato, são de importância primária para a história do cristianismo. São importantes seus comentários a muitos livros do Antigo e do Novo Testamento, entre os quais se destaca todo o Pentateuco, Isaías, os Salmos e os Evangelhos de João e de Lucas. São de grande importância também muitas obras doutrinais, nas quais aparece continuamente a defesa da fé trinitária contra as teses arianas e contra as de Nestório. A base do ensino de Cirilo é a tradição eclesiástica e, em particular, como mencionei, os escritos de Atanásio, seu grande predecessor na sede de Alexandria. Entre os outros escritos de Cirilo, é preciso recordar por último os livros «Contra Juliano», última grande resposta às polêmicas anti-cristãs, ditado pelo bispo de Alexandria provavelmente nos últimos anos de vida para refutar a obra «Contra os Galileus», composta muitos anos antes, em 363, pelo imperador que foi chamado de «o Apóstata» por ter abandonado o cristianismo no qual havia sido educado.

A fé cristã é antes de tudo um encontro com Jesus, «uma pessoa que dá à vida um novo horizonte» (encíclica «Deus caritas est», 1). De Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado, São Cirilo de Alexandria foi uma incansável e firme testemunha, sublinhando sobretudo a unidade, como repete no ano 433, na primeira carta (PG 77, 228-237) ao bispo Sucenso: «Um só é o Filho, um só o Senhor Jesus Cristo, seja antes da encarnação ou depois da encarnação. De fato, não se trata de um filho, o ‘Logos’, nascido de Deus Pai, e de outro, nascido da santa Virgem, mas cremos que precisamente Aquele que está antes dos tempos nasceu também segundo a carne de uma mulher». Esta afirmação, muito além de seu significado doutrinal, mostra que a fé em Jesus, «Logos», nascido do Pai, está também sumamente arraigada na história, pois, como afirma São Cirilo, este mesmo Jesus entrou no tempo com o nascimento de Maria, a «Theotòkos», e estará sempre conosco, segundo sua promessa, e isso é importante: Deus é eterno, nasceu de uma mulher e continua conosco cada dia. Nesta confiança vivemos, nesta confiança encontramos o caminho de nossa vida.

 
 
 

Por Papa Bento XVI Tradução: Zenit Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs!

Este ano se completa o décimo sexto centenário da morte de São João Crisóstomo (407-2007). João de Antioquia, chamado Crisóstomo, isto é, «Boca de ouro» por sua eloqüência, pode dizer-se que segue vivo hoje, também por suas obras. Um anônimo copista deixou escrito que estas «atravessam todo o orbe como raios fulminantes». Seus escritos também permitem a nós, como aos fiéis de seu tempo, que repetidamente se viram privados dele por causa de seus exílios, viver com seus livros, apesar de sua ausência. É tudo que ele mesmo sugeria desde o exílio em uma carta (cf. A Olimpiade, Carta 8, 45).

Nascido em torno do ano 349, em Antioquia da Síria (atualmente Antakya, no sul da Turquia), desenvolveu lá o ministério presbiteral durante cerca de onze anos, até o ano 397, quando, nomeado bispo de Constantinopla, exerceu na capital do Império o ministério episcopal antes dos dois exílios, seguidos em breve distância um do outro, entre o ano 403 e 407. Nós nos limitamos hoje a considerar os anos de Crisóstomo na Antioquia.

Órfão de pai em terna idade, viveu com sua mãe, Antusa, que lhe transmitiu uma profunda sensibilidade humana e uma profunda fé cristã. Freqüentados os estudos inferiores e superiores, coroados pelos cursos de filosofia e de retórica, teve como mestre Libânio, pagão, o mais célebre reitor do tempo. Em sua escola, João se converteu no maior orador da antiguidade tardia grega. Batizado no ano 368 e formado na vida eclesiástica pelo bispo Melécio, foi por ele instituído leitor em 371, o Asceterio, um tipo de seminário de Antioquia, junto a um grupo de jovens, alguns dos quais foram depois bispos, sob a guia do famoso exegeta Diodoro de Tarso, que encaminhou João à exegese histórico-literal, característica da tradição de Antioquia.

Ele se retirou depois durante quatro anos entre os eremitas do próximo monte Silpio. Prosseguiu aquele retiro por outros dois anos que viveu sozinho em uma gruta sob a guia de um «ancião». Nesse período se dedicou totalmente a meditar «As leis de Cristo», os Evangelhos e especialmente as Cartas de Paulo. Enfermando-se, ele se encontrou na impossibilidade de cuidar de si mesmo e por isso teve de regressar à comunidade cristã de Antioquia (cf. Palladio, Vita, 5). O Senhor – explica o biógrafo – interveio com a enfermidade no momento justo para permitir a João seguir sua verdadeira vocação. Com efeito, escreverá ele mesmo que, posto na alternativa de escolher entre o governo da Igreja e a tranqüilidade da vida monástica, teria preferido mil vezes o serviço pastoral (cf. Sobre o sacerdócio, 6, 7): precisamente a este se sentia chamado o Crisóstomo. E aqui se realizou o giro decisivo de sua história vocacional: pastor de almas a tempo integral! A intimidade com a Palavra de Deus, cultivada durante os anos da vida eremítica, havia amadurecido nele a urgência de pregar o Evangelho, de dar aos demais o que ele havia recebido nos anos de meditação. O ideal missionário o lançou assim, alma de fogo, à atenção pastoral.

Entre o ano 378 e 379, ele regressou à sua cidade. Diácono em 381 e presbítero em 386, converteu-se em célebre pregador nas igrejas de sua cidade. Pronunciou homilias contra os arianos, seguidas daquelas comemorativas dos mártires de Antioquia e de outras sobre as principais festividades litúrgicas: trata-se de um grande ensinamento da fé de Cristo, também à luz de seus Santos. O ano 387 foi o «ano heróico» de João, o da chamada «revolta das estátuas». O povo derrubou as estátuas imperiais em sinal de protesto contra o aumento dos impostos. Naqueles dias de Quaresma e de angústia por ocasião dos eminentes castigos por parte do imperador, pronunciou suas vinte e duas vibrantes Homilias das estátuas, orientadas à penitência e à conversão. Seguiu-lhe o período de serena atenção pastoral (387-397).

O Crisóstomo se situa entre os Padres mais prolíficos: dele nos chegaram 17 tratados, mais de 700 homilias autênticas, os comentários a Mateus e a Paulo (Cartas aos Romanos, aos Coríntios, aos Efésios e aos Hebreus) e 241 cartas. Não foi um teólogo especulativo. Transmitiu, ao contrário, a doutrina tradicional e segura da Igreja em uma época de controversas teológicas suscitadas sobretudo pelo arianismo, isto é, pela negação da divindade de Cristo. É, portanto, um testemunho fiável do desenvolvimento dogmático alcançado pela Igreja no século IV-V. Sua teologia é maravilhosamente pastoral; nela é constante a preocupação da coerência entre o pensamento expresso pela palavra e a vivência existencial. É este, em particular, o fio condutor das esplêndidas catequeses com as quais preparava os catecúmenos para receber o Batismo. Próximo da morte, escreveu que o valor do homem está no «conhecimento exato da verdade e na retidão na vida» (Carta desde o exílio). As duas coisas, conhecimento exato da verdade e retidão na vida, vão juntas: o conhecimento deve traduzir-se em vida. Toda intervenção sua se orientou sempre a desenvolver nos fiéis o exercício da inteligência, da verdadeira razão, para compreender e traduzir na prática as exigências morais e espirituais da fé.

João Crisóstomo se preocupa por acompanhar com seus escritos o desenvolvimento integral da pessoa, nas dimensões físicas, intelectual e religiosa. As diversas etapas do crescimento são comparadas a outros tantos mares de um imenso oceano: «O primeiro destes mares é a infância» (Homilia 81, 5 sobre o Evangelho de Mateus). Com efeito, «precisamente nesta primeira idade se manifestam as inclinações ao vício e à virtude». Por isso, a lei de Deus deve ser desde o princípio impressa na alma «como em um bloco de cera» (Homilia 3, 1 sobre o Evangelho de João): de fato, é esta a idade mais importante. Devemos ter presente quão fundamental é que nesta primeira fase da vida entrem realmente no homem as grandes orientações que dão a perspectiva justa à existência. Crisóstomo por isso recomenda: «Desde a mais terna idade abastecei as crianças de armas espirituais e ensinai-as a persignar-se» (Homilia 12, 7 sobre a Primeira Carta aos Coríntios). Chegam depois a adolescência e a juventude: «À infância segue o mar da adolescência, onde os ventos sopram violentos…, porque em nós cresce… a concupiscência» (Homilia 81, 5 sobre o Evangelho de Mateus). Chegam finalmente o noivado e o matrimônio: «À juventude sucede a idade da pessoa madura, na qual sobrevêm os compromissos de família: é o tempo de buscar esposa» (Ibid). Do matrimônio ele recorda os fins, enriquecendo-os – com a alusão à virtude da temperança – de uma rica trama de relações personalizadas. Os esposos bem preparados cortam assim o caminho do divórcio: tudo se desenvolve com alegria e se podem educar aos filhos na virtude. Quando nasce o primeiro filho, este é «como uma ponte; os três se convertem em uma só carne, dado que o filho reúne as duas partes» (Homilia 12, 5 sobre a Carta aos Colossenses), e os três constituem «uma família, pequena Igreja» (Homilia 20, 6 sobre a Carta aos Efésios).

A pregação do Crisóstomo acontecia habitualmente no curso da liturgia, «lugar» no qual a comunidade se constrói com a Palavra e a Eucaristia. Aqui a assembléia reunida expressa a única Igreja (Homilia 8, 7 sobre a Carta aos Romanos), a mesma palavra se dirige em todo lugar a todos (Homilia 24, 2 sobre a Primeira Carta aos Coríntios) e a comunhão eucarística se faz sinal eficaz de unidade (Homilia 32,7 sobre o Evangelho de Mateus). Seu projeto pastoral se inseria na vida da Igreja, na qual os fiéis leigos com o Batismo assumem o ofício sacerdotal, real e profético. Ao fiel leigo ele diz: «Também a ti o Batismo te faz rei, sacerdote e profeta» (Homilia 3, 5 sobre a Segunda Carta aos Coríntios). Surge daqui o dever fundamental da missão, porque cada um em alguma medida é responsável pela salvação dos demais: «Este é o princípio de nossa vida social… não interessar-nos só por nós!» (). Tudo se desenvolve entre dois pólos: a grande Igreja e a «pequena Igreja», a família, em recíproca relação.

Como podeis ver, queridos irmãos e irmãs, esta lição do Crisóstomo sobre a presença autenticamente cristã dos fiéis leigos na família e na sociedade, é hoje mais atual que nunca. Roguemos ao Senhor para que nos torne dóceis aos ensinamentos deste grande mestre da fé.

PAI DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA

Continuamos nossa reflexão sobre São João Crisóstomo. Após o período passado em Antioquia, no ano 397, foi nomeado bispo de Constantinopla, capital do Império romano do Oriente. Desde o início, João projetou a reforma de sua Igreja: a austeridade do palácio episcopal tinha de ser um exemplo para todos: clero, viúvas, monges, pessoas da corte e ricos.

Infelizmente, não poucos deles, tocados por seus juízos, se afastaram dele. Solícito com os pobres, João foi chamado também de «o esmoleiro». Como administrador atento, conseguiu criar instituições caritativas muito apreciadas. Sua capacidade empreendedora nos diferentes campos fez que alguns o vissem como um perigoso rival. Contudo, como autêntico pastor, tratava todos de maneira cordial e paterna. Em particular, sempre tinha gestos de ternura especial pela mulher e dedicava uma atenção particular ao matrimônio e à família. Convidava os fiéis a participar da vida litúrgica, que tornou esplêndida e atrativa com uma criatividade genial.

Apesar de sua bondade, não teve uma vida tranqüila. Pastor da capital do Império, ele se viu envolvido com freqüência nas intrigas políticas por suas contínuas relações com as autoridades e as instituições civis. No âmbito nível eclesiástico, dado que havia deposto na Ásia, no ano 401, seis bispos indignamente eleitos, foi acusado de ter superado os limites de sua jurisdição, convertendo-se em alvo de acusações fáceis. Outro pretexto de ataques contra ele foi a presença de alguns monges egípcios, excomungados pelo patriarca Teófilo de Alexandria, que se refugiaram em Constantinopla. Depois se criou uma forte polêmica causada pelas críticas de Crisóstomo à imperatriz Eudóxia e a suas cortesãs, que reagiram desacreditando-o e insultando-o. Deste modo, foi deposto, no sínodo organizado pelo próprio patriarca Teófilo, no ano 403, e condenado a um primeiro exílio breve. Após regressar, a hostilidade que suscitou por causa de seus protestos contra as festas em honra da imperatriz, que o bispo considerava como festas pagãs, luxuosas, e a expulsão dos presbíteros encarregados dos batismos na Vigília Pascoal do ano 404 marcaram o início da perseguição contra João Crisóstomo e seus seguidores, chamados «joanistas».

Então, João denunciou com uma carta os fatos ao bispo de Roma, Inocêncio I. Mas já era tarde demais. No ano 406 foi exilado novamente, esta vez em Cucusa, Armênia. O Papa estava certo de sua inocência, mas não tinha poder para ajudá-lo. Não se pôde celebrar um concílio, promovido por Roma para conseguir a pacificação entre as duas partes do Império e entre suas Igrejas. A dura viagem de Cucusa a Pitionte, destino ao qual nunca chegou, devia impedir as visitas dos fiéis e romper a resistência do prelado esgotado: a condenação ao exílio foi uma autêntica condenação à morte! São comovedoras as numerosas cartas do exílio, nas quais João manifesta suas preocupações pastorais com tons de dor pelas perseguições contra os seus. A marcha para a morte se deteve em Comana Pontica. Lá, João foi levado à capela do mártir São Basilisco, onde entregou o espírito a Deus e foi sepultado, como mártir junto ao mártir (Paládio, «Vida» 119). Era o dia 14 de setembro de 407, festa da Exaltação da Santa Cruz. A reabilitação aconteceu no ano 438, com Teodósio II. As relíquias do santo bispo, colocadas na igreja dos Apóstolos, em Constantinopla, foram transportadas no ano 1204 a Roma, na primitiva Basílica de Constantino, e jazem agora na capela do Coro dos Canônicos da Basílica de São Pedro.

Em 24 de agosto de 2004, uma parte importante da mesma foi entregue pelo Papa João Paulo II ao patriarca Bartolomeu I de Constantinopla. A memória litúrgica do santo se celebra em 13 de setembro. O beato João XXIII o proclamou padroeiro do Concílio Vaticano II.

De João Crisóstomo se disse que, quando se sentou no trono da Nova Roma, ou seja, Constantinopla, Deus fez ver nele um segundo Paulo, um doutor do universo. Na realidade, em Crisóstomo se dá uma unidade essencial de pensamento e de ação, tanto em Antioquia como em Constantinopla. Só mudam seu papel e as situações. Ao meditar nas oito obras realizadas por Deus na seqüência dos seis dias, no comentário do Gênesis, João Crisóstomo quer fazer que os fiéis se remontem da criação ao Criador: «É de grande ajuda saber o que é a criatura e o que é o Criador», diz. Ele nos mostra a beleza da criação e a transparência de Deus em sua criação, que se converte deste modo em uma espécie de «escada» para ascender a Deus, para conhecê-lo.

Mas a este primeiro passo segue outro: esse Deus criador é também o Deus da condescendência («synkatabasis»). Nós somos fracos para «ascender», nossos olhos são fracos. Deste modo, Deus se converte no Deus da condescendência, que envia ao homem caído e estrangeiro uma carta, a Sagrada Escritura. Deste modo, a criação e a escritura se completam. À luz da Escritura, da carta que Deus nos deu, podemos decifrar a criação. Deus é chamado «pai terno» («philostorgios») (ibidem), médico das almas (Homilia, 40, 3 sobre o Gênesis), mãe (ibidem) e amigo carinhoso («Sobre a Providência» 8, 11-12).

Mas ao primeiro passo da criação como «escada» para Deus, e ao segundo da condescendência de Deus, através da carta que nos deu, a Sagrada Escritura, é acrescentado um terceiro passo: Deus não só nos transmite uma carta; em definitivo, Ele mesmo desce, encarna-se, converte-se realmente em «Deus conosco», nosso irmão até a morte na Cruz.

E com estes três passos – Deus que se torna visível na criação, Deus que nos envia uma carta, Deus que desce e se converte em um de nós – chega-se finalmente a um quarto passo: na vida e ação do cristão, o princípio vital e dinâmico é o Espírito Santo («Pneuma»), que transforma a realidade do mundo. Deus entra em nossa própria existência através do Espírito Santo e nos transforma desde dentro de nosso coração.

Com este pano de fundo, precisamente em Constantinopla, João, ao comentar os Atos dos Apóstolos, propõe o modelo da Igreja primitiva (Atos 4, 32-37) como modelo para a sociedade, desenvolvendo uma «utopia» social (como uma «cidade ideal»). Tratava-se, de fato, de dar uma alma e um rosto cristão à cidade. Em outras palavras, Crisóstomo compreendeu que não é suficiente dar esmola, ajudar os pobres de vez em quando, mas é necessário criar uma nova estrutura, um novo modelo de sociedade; um modelo baseado na perspectiva do Novo Testamento. É a nova sociedade que se revela na Igreja nascente. Portanto, João Crisóstomo se converte deste modo em um dos grandes pais da Doutrina Social da Igreja: a velha idéia da «pólis» grega é substituída por uma nova idéia de cidade inspirada na fé cristã. Crisóstomo defendeu, como Paulo (cf. 1 Coríntios 8, 11), o primado de cada cristão, da pessoa enquanto tal, inclusive do escravo e do pobre. Seu projeto corrige deste modo a tradicional visão da «pólis» grega, da cidade, enquanto na cidade cristã todos são irmãos e irmãs com os mesmos direitos. O primado da pessoa é também a conseqüência do fato de que, baseando-se nela se constrói a cidade, enquanto na «pólis» grega a pátria era colocada acima do indivíduo, que ficava totalmente subordinado à cidade em seu conjunto. Deste modo, com Crisóstomo começa a visão de uma sociedade construída com a consciência cristã. Ele nos diz que nossa «pólis» é outra, «nossa pátria está nos céus» (Filipenses 3, 20) e esta nossa pátria, inclusive nesta terra, torna todos iguais, irmãos e irmãs, e nos obriga à solidariedade.

Ao final de sua vida, desde o exílio nas fronteiras de Armênia, «o lugar mais remoto do mundo», João, enlaçando com sua primeira pregação do ano 386, retomou o tema que tanto gostava do plano que Deus tem para a humanidade: é um plano «inefável e incompreensível», mas certamente guiado por Ele com amor (cf. «Sobre a providência» 2, 6). Esta é a nossa certeza. Ainda que não possamos decifrar os detalhes da história pessoal e coletiva, sabemos que o plano de Deus está sempre inspirado por seu amor. Deste modo, apesar de seus sofrimentos, João Crisóstomo reafirmava a descoberta de que Deus ama cada um de nós com um amor infinito, e por este motivo quer a salvação de todos. Por sua parte, o santo bispo cooperou com esta salvação com generosidade, sem poupar esforços, durante toda a sua vida. De fato, considerava como último fim de sua existência essa glória de Deus; já moribundo, deixou como último testamento: «Glória a Deus por tudo!» (Paládio, «Vida» 11).

 
 
 

Por Papa Bento XVI Tradução: Zenit Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Continuando nossa passagem pelos grandes mestres da Igreja antiga, queremos dirigir hoje nossa atenção a Santo Atanásio de Alexandria. Este autêntico protagonista da tradição cristã, já poucos anos antes de sua morte, era aclamado como «a coluna da Igreja» pelo grande teólogo e bispo de Constantinopla Gregório Nazianzeno («Discurso» 21, 26), e sempre foi considerado como um modelo de ortodoxia, tanto no Oriente como no Ocidente.

Não é casualidade, portanto, que Gian Lorenzo Bernini tenha colocado sua estátua entre as dos quatro santos doutores da Igreja oriental e ocidental –Ambrósio, João Crisóstomo e Agostinho–, que na maravilhosa abside da Basílica vaticana rodeiam a Cátedra de São Pedro.

Atanásio foi, sem dúvida, um dos Padres da Igreja antiga mais importantes e venerados. Mas, sobretudo, este grande santo é o apaixonado teólogo da encarnação do «Logos», o Verbo de Deus que, como diz o prólogo do quarto Evangelho, «se fez carne e pôs sua morada entre nós» (João 1, 14).

Precisamente por este motivo, Atanásio foi também o mais importante e tenaz adversário da heresia ariana, que então era uma ameaça para a fé em Cristo, reduzido a uma criatura «intermédia» entre Deus e o homem, segundo uma tendência que se repete na história e que também hoje constatamos de diferentes maneiras.

Nascido provavelmente em Alexandria, no Egito, por volta do ano 300, Atanásio recebeu uma boa educação antes de converter-se em diácono e secretário do bispo da metrópole egípcia, Alexandro.

Próximo colaborador de seu bispo, o jovem eclesiástico participou com ele do Concílio de Nicéia, o primeiro de caráter ecumênico, convocado pelo imperador Constantino em maio do ano 325 para assegurar a unidade da Igreja. Os Padres de Nicéia puderam deste modo discutir várias questões, principalmente o problema originado alguns anos antes pela pregação do presbítero de Alexandria, Ário.

Este, com sua teoria, ameaçava a autêntica fé em Cristo, declarando que o «Logos» não era verdadeiro Deus, mas um Deus criado, um ser «intermédio» entre Deus e o homem e deste modo o verdadeiro Deus sempre permanecia inacessível para nós. Os bispos, reunidos em Nicéia, responderam redigindo o «Símbolo da fé», que completado mais tarde pelo primeiro Concílio de Constantinopla, permaneceu na tradição das diferentes confissões cristãs e na liturgia como o «Credo niceno-constantinopolitano».

Neste texto fundamental, que expressa a fé da Igreja sem divisão, e que ainda recitamos hoje, todo domingo, na celebração eucarística, aparece o termo grego «homooúsios», em latim «consubstantialis»: indica que o Filho, o «Logos», é «da mesma natureza» do Pai, é Deus de Deus, é sua natureza, e deste modo se sublinha a plena divindade do Filho, que era negada pelos arianos.

Ao morrer o bispo Alexandro, Atanásio se converteu no ano 328 em seu sucessor como bispo de Alexandria, e imediatamente rejeitou com decisão todo compromisso com as teorias arianas condenadas pelo Concílio de Nicéia. Sua intransigência, tenaz e às vezes muito dura, ainda que necessária, contra quem se havia oposto a sua eleição episcopal e sobretudo contra os adversários do Símbolo de Nicéia, lhe provocou a implacável hostilidade dos arianos e dos filo-arianos.

Apesar do resultado inequívoco do Concílio, que havia afirmado com clareza que o Filho é da mesma natureza do Pai, pouco depois estas idéias equivocadas voltaram a prevalecer — inclusive Ário foi reabilitado — e foram apoiadas por motivos políticos pelo próprio imperador Constantino e depois por seu filho Constancio II. Este, que não se preocupava tanto com a verdade teológica, mas com a unidade do Império e de seus problemas políticos, queria politizar a fé, fazendo-a mais acessível, segundo seu ponto de vista, a todos os súditos do Império.

A crise ariana, que parecia ter sido solucionada em Nicéia, continuou durante décadas com vicissitudes difíceis, e divisões dolorosas na Igreja. E em cinco ocasiões, durante 30 anos, entre 336 e 366, Atanásio se viu obrigado a abandonar sua cidade, passando 17 anos em exílio e sofrendo pela fé.

Mas durante suas ausências forçadas de Alexandria, o bispo teve a possibilidade de sustentar e difundir no Ocidente, primeiro em Tréveris e depois em Roma, a fé de Nicéia assim como os ideais do monaquismo, abraçados no Egito pelo grande eremita, Antonio, com uma opção de vida pela qual Atanásio sempre se sentiu próximo.

Santo Antonio, com sua força espiritual, era a pessoa mais importante que apoiava a fé de Atanásio. Ao voltar a tomar posse definitivamente de sua sede, o bispo de Alexandria pôde dedicar-se à pacificação religiosa e à reorganização das comunidades cristãs. Morreu em 2 de maio do ano 373, dia no qual celebramos sua memória litúrgica.

A obra doutrinal mais famosa do santo bispo de Alexandria é o tratado sobre «A encarnação do Verbo», o «Logos» divino que se fez carne, como nós, por nossa salvação. Nesta obra, Atanásio afirma com uma frase que se fez justamente célebre, que o Verbo de Deus «se fez homem para que nós nos tornássemos Deus; fez-se visível corporalmente para que tivéssemos uma idéia do Pai invisível e suportou a violência dos homens para que herdássemos a incorruptibilidade» (54, 3). Com sua ressurreição, o Senhor fez desaparecer a morte como se fosse «palha entre o fogo» (8, 4). A idéia fundamental de toda a luta teológica de Santo Atanásio era precisamente a de que Deus é acessível. Não é um Deus secundário, é o verdadeiro Deus, e através de nossa comunhão com Cristo, podemos unir-nos realmente a Deus. Ele se fez realmente «Deus conosco».

Entre as demais obras deste grande Padre da Igreja, que em boa parte estão ligadas às vicissitudes da crise ariana, recordamos também as quatro cartas que dirigiu ao amigo Serapião, bispo de Thmuis, sobre a divindade do Espírito Santo, nas quais é afirmada com clareza, e umas trinta cartas «festivas», dirigidas ao início de cada ano às Igrejas e aos mosteiros do Egito para indicar a data da festa de Páscoa, mas sobretudo para intensificar os vínculos entre os fiéis, reforçando a fé e preparando-os para esta grande solenidade.

Por último, Atanásio é também autor de textos meditativos sobre os Salmos, muito difundidos, e sobretudo de uma obra que constitui o «best seller» da antiga literatura cristã, a «Vida de Antonio», ou seja, a biografia de Antonio abade, escrita pouco depois da morte desse santo, precisamente enquanto o bispo de Alexandria, no exílio, vivia com os monges do deserto egípcio. Atanásio foi amigo do grande eremita até o ponto de receber uma das duas peles de ovelha deixadas por Antonio como herança sua, junto ao manto que o próprio bispo de Alexandria lhe havia dado.

Após fazer-se logo sumamente popular e traduzida imediatamente duas vezes em latim e em várias línguas orientais, a biografia exemplar desta figura muito querida pela tradição cristã contribuiu decisivamente à difusão do monaquismo, no Oriente e no Ocidente. A leitura deste texto, em Tréveris, forma parte central de uma emocionante narração da conversão de dois funcionários imperiais que Agostinho apresenta nas «Confissões» (VIII, 6, 15) como premissa para sua própria conversão.

De fato, o próprio Atanásio demonstra que tinha clara consciência da influência que poderia exercer sobre o povo cristão a figura exemplar de Antonio. Escreve na conclusão desta obra: «O fato de que chegou a ser famoso em todas as partes, de que encontrou admiração universal e de que sua perda foi sentida ainda por gente que nunca o viu, sublinha sua virtude e o amor que Deus lhe tinha. Antonio ganhou renome não por seus escritos nem pela sabedoria de palavras nem por nenhuma outra coisa, mas só por seu serviço a Deus. E ninguém pode negar que isto é dom de Deus. Como explicar, com efeito, que este homem, que viveu escondido na montanha, fosse conhecido na Espanha e Gália, em Roma e na África, senão por obra de Deus, que em todas partes faz conhecidos os seus, que, mais ainda, havia dito isto nos começos? Pois ainda que façam suas obras em segredo e desejem permanecer na obscuridade, o Senhor os mostra publicamente como lâmpadas todos os homens, e assim, os que ouvem falar deles, podem dar-se conta de que os mandamentos levam à perfeição, e então cobram valor pelo caminho que conduz à virtude» («Vida de Antonio» 93, 5-6).

Sim, irmãos e irmãs! Temos muitos motivos para dar graças a Santo Atanásio. Sua vida, como a de Antonio e a de outros inumeráveis santos, nos mostra que «quem vai para Deus, não se afasta dos homens, mas se faz realmente próximo a eles» («Deus caritas est», 42).

 
 
 
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