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Para os cristãos a Festa de Pentecostes é a nova Festa da Colheita, é o novo Monte Sinai. Se para os judeus o recebimento da Lei significava um marco na sua história e religião, o mesmo vale para o Pentecostes em relação aos cristãos. Se no Monte Sinai os judeus receberam em tábuas de pedra a Lei que não podia justificá-los mas apenas acusá-los (cf.

Rm 3,20), no cenáculo em Jerusalém os primeiros fiéis receberam em tábuas de carne a Lei da Graça que era capaz de justificá-los. Sobre isso ensinou S.Paulo: “Não há dúvida de que vós sois uma carta de Cristo, redigida por nosso ministério e escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, em vossos corações” (2Cor 3,3).

Especialmente nos últimos quarenta anos a Igreja inteira tem se voltado para este tema, principalmente por causa do crescimento dos movimentos pentecostais tanto fora quanto dentro da Igreja Católica.

Nota-se claramente que tanto fiéis quanto clérigos possuem várias dúvidas quanto à autenticidade das manifestações ocorridas nestes movimentos. Muitos acreditam que os fenômenos lá ocorridos correspondem ao derramamento do Espírito Santo, como acontecera nos primeiros anos da Igreja. Sobre isso o que dizer?

Por faltar-nos autoridade e pelo tema ser bastante complexo, não será objeto deste trabalho emitir qualquer opinião ou julgamento em relação aos movimentos ditos carismáticos ou pentecostais. Afinal, somente a autoridade da Santa Igreja Católica pode emitir qualquer juízo neste sentido; como também é verdade que todo juízo das legítimas autoridades eclesiásticas não pode contradizer o que a Igreja sempre ensinou. Apresentar e defender o ensinamento perene do Sagrado Magistério, além de ser um direito de todo fiel católico é um dever que o nosso batismo e crisma nos impõem. E é neste sentido que oferecemos a presente obra aos nossos leitores e aos pastores de almas.

Cabe lembrar que este trabalho não tem a pretensão de esgotar o assunto que é complexo, mas tão somente colaborar no debate atual “até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo” (Ef 4,13).

 
 
 

Por Papa Bento XVI Tradução: Élison Santos Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:

Continuando nosso caminho entre os padres da Igreja, autênticos astros que brilham de longe, no encontro de hoje nos aproximamos da figura de um Papa que em 1754 foi proclamado doutor da Igreja por Bento XIV: trata-se de São Leão Magno. Como indica o apelativo que depois a tradição lhe atribuiu, ele foi verdadeiramente um dos maiores pontífices que honraram a Sede de Roma, oferecendo uma grande contribuição para reforçar sua autoridade e prestígio. Primeiro bispo de Roma em levar o nome de Leão, adotado depois por outros doze sumos pontífices, é também o primeiro papa do qual nos chegou a pregação, dirigida ao povo que o rodeava durante as celebrações. Vem à mente espontaneamente sua lembrança no contexto das atuais audiências gerais da quarta-feira, encontros que se converteram para o bispo de Roma em uma costumeira forma de encontro com os fiéis e com os visitantes procedentes de todas as partes do mundo.

Leão havia nascido na Tuscia. Foi diácono da Igreja de Roma em torno do ano 430, e com o tempo alcançou nela uma posição de grande importância. Este papel destacado levou, no ano 440, a Gala Placidia, que nesse momento regia o Império do Ocidente, a enviar-lhe à Gália para resolver a difícil situação. Mas no verão daquele ano, o Papa Sixto III, cujo nome está ligado aos magníficos mosaicos da Basílica de Santa Maria a Maior, faleceu e foi eleito como seu sucessor Leão, que recebeu a notícia enquanto desempenhava sua missão de paz em Gália.

Após regressar a Roma, o novo Papa foi consagrado em 29 de setembro do ano 440. Iniciava deste modo seu pontificado, que durou mais de 21 anos e que foi sem dúvida um dos mais importantes na história da Igreja. Ao morrer, em 10 de novembro do ano 461, o Papa foi sepultado junto ao túmulo de São Pedro. Suas relíquias continuam custodiadas em um dos altares da Basílica Vaticana.

O Papa Leão viveu em tempos sumamente difíceis: as repetidas invasões bárbaras, o progressivo enfraquecimento no Ocidente da autoridade imperial, e uma longa crise social haviam obrigado o bispo de Roma – como sucederia com mais clareza ainda um século e meio depois, durante o pontificado de Gregório Magno – a assumir um papel destacado inclusive nas vicissitudes civis e políticas. Isto não impediu que aumentasse a importância e o prestígio da Sé Romana. É famoso um episódio da vida de Leão. Remonta-se ao ano 452, quando o Papa em Mantua, junto a uma delegação romana, saiu ao passo de Atila, o chefe dos hunos, para convencer-lhe de que não continuasse a guerra de invasão com a qual havia devastado as regiões do nordeste da Itália. Deste modo salvou o resto da península.

Este importante acontecimento depois se tornou memorável e permanece como um sinal emblemático da ação de paz desempenhada pelo pontífice. Não foi tão positivo, infelizmente, três anos depois, o resultado de outra iniciativa do Papa, que de todos modos manifestou uma valentia que ainda hoje surpreende: na primavera do ano 455, Leão não conseguiu impedir que os vândalos de Genserico, ao chegar às portas de Roma, invadiram a cidade indefesa, que foi saqueada durante duas semanas. Contudo, o gesto do Papa, que inerme e rodeado de seu clero, saiu ao passo do invasor para pedir-lhe que se detivesse, impediu ao menos que Roma fosse incendiada e conseguiu que não fossem saqueadas as basílicas de São Pedro, de São Paulo e de São João, nas quais se refugiou parte da população aterrorizada.

Conhecemos bem a ação do Papa Leão graças a seus maravilhosos sermões – conservaram-se quase cem em um latim esplêndido e claro – e a suas cartas, cerca de 150. Nestes textos, o pontífice se apresenta em toda a sua grandeza, dedicado ao serviço da verdade na caridade, através de um exercício assíduo da palavra, como teólogo e pastor. Leão Magno, constantemente requerido por seus fiéis e pelo povo de Roma, assim como pela comunhão entre as diferentes Igrejas e por suas necessidades, apoiou e promoveu incansavelmente o primado romano, apresentando-se como um autêntico herdeiro do apóstolo Pedro: os numerosos bispos, em boa parte orientais, reunidos no Concílio de Calcedônia, demonstraram que eram sumamente conscientes disso.

Celebrado em 451, com 350 bispos participantes, este Concílio se converteu na assembléia mais importante celebrada até então na historia da Igreja. Calcedônia representa a meta segura da cristologia dos três concílios ecumênicos precedentes: o de Nicéia, do ano 325, o de Constantinopla, do ano 381 e o de Éfeso, do ano 431. Já no século VI estes quatro concílios, que resumem a fé da Igreja antiga, foram comparados aos quatro Evangelhos: e o afirma Gregório Magno em uma famosa carta (I, 24), na qual declara que se deve «acolher e venerar, como os quatro livros do Santo Evangelho, os quatro concílios», porque, como continua explicando Gregório, sobre eles «se edifica a estrutura da santa fé, como sobre uma pedra quadrada». O Concílio de Calcedônia, ao rejeitar a heresia de Eutiques, que negava a autêntica natureza humana do Filho de Deus, afirmou a união em sua única Pessoa, sem confusão nem separação, das duas naturezas, humana e divina.

Esta fé em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, era afirmada pelo Papa em um importante texto doutrinal dirigido ao bispo de Constantinopla, o assim chamado «Tomo a Flaviano», que ao ser lido em Calcedônia, foi acolhido pelos bispos presentes com uma aclamação eloqüente, registrada nas atas do Concílio: «Pedro falou pela boca de Leão», exclamaram unidos os padres conciliares. A partir daquela intervenção e de outras pronunciadas durante a controvérsia cristológica daqueles anos, torna-se evidente que o Papa experimentava com particular urgência as responsabilidades do sucessor de Pedro, cujo papel é único na Igreja, pois «a um só apostolado se confia o que a todos os apóstolos se comunica», como afirma Leão em um de seus sermões por ocasião da festa dos santos Pedro e Paulo (83,2). E o pontífice soube exercer estas responsabilidades, tanto no Ocidente como no Oriente, intervindo em diferentes circunstâncias com prudência, firmeza e lucidez, através de seus escritos e de seus legados. Mostrava deste modo como o exercício do primado romano era necessário então, como o é hoje, para servir eficazmente a comunhão, característica da única Igreja de Cristo.

Consciente do momento histórico no qual vivia e da transição que acontecia, em um período de profunda crise, da Roma pagã à cristã, Leão Magno soube estar perto do povo e dos fiéis com a ação pastoral e a pregação. Alentou a caridade em uma Roma afetada pelas carestias, pela chegada de refugiados, pelas injustiças e pela pobreza. Enfrentou as superstições pagãs e a ação dos grupos maniqueístas. Ligou a liturgia à vida cotidiana dos cristãos: por exemplo, unindo a prática do jejum com a caridade e com a esmola, sobretudo com motivo das Quattro tempora, que caracterizam no transcurso do ano a mudança das estações. Em particular, Leão Magno ensinou a seus fiéis – e suas palavras continuam sendo válidas para nós – que a liturgia cristã não é a lembrança de acontecimentos passados, mas a atualização de realidades invisíveis que atuam na vida de cada um. Ele a sublinha em um sermão (64, 1-2) falando da Páscoa, que deve ser celebrada em todo tempo do ano, «não como algo do passado, mas como um acontecimento do presente». Tudo isso se enquadra em um projeto preciso, insiste o pontífice: assim como o Criador animou com o sopro da vida racional o homem feito no barro da terra, do mesmo modo, após o pecado original, enviou seu Filho ao mundo para restituir ao homem a dignidade perdida e destruir o domínio do diabo através da nova vida da graça.

Este é o mistério cristológico ao qual São Leão Magno, com sua carta ao Concílio de Éfeso, ofereceu uma contribuição eficaz e essencial, confirmando para todos os tempos, através desse Concílio, o que disse São Pedro em Cesaréia de Filipo. Com Pedro e como Pedro confessou: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo». Por este motivo, ao ser Deus e Homem ao mesmo tempo, «não é alheio ao gênero humano, mas é alheio ao pecado» (cf. Sermão 64). Na força desta fé cristológica, foi uma grande mensagem de paz e de amor. Desta maneira nos mostra o caminho: na fé aprendemos a caridade. Aprendamos, portanto, com São Leão Magno a crer em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, e a viver esta fé cada dia na ação pela paz e no amor ao próximo.

 
 
 

Segundo informa da Comissão teológica católica-ortodoxa

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 15 de novembro de 2007 (ZENIT.org).- Segundo a história e a tradição eclesial, o bispo de Roma é considerado como o «primeiro» entre os patriarcas, tanto nas Igrejas do oriente como nas do ocidente, conclui um histórico documento assinado por representantes católicos e ortodoxos.

No entanto, suas prerrogativas e as funções que derivam deste primado devem ser estudadas melhor para poderem ser compartilhadas por estas duas tradições cristãs.

O documento, publicado esta quinta-feira em Roma, Atenas, Istambul e Chipre, foi redigido na reunião da Comissão Mista Internacional para o diálogo teológico entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa em conjunto, que se celebrou de 8 a 14 de outubro em Ravena (Itália).

A assembléia foi presidida pelo cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, e por Dom Ioannis, metropolita de Pérgamo (do patriarcado ecumênico de Constantinopla).

O encontro respondeu a esta pergunta: existe uma figura que desempenhe o primeiro lugar tanto para católicos como para ortodoxos, respeitando a «igualdade sacramental» e a «mesma dignidade» própria do bispo»?

A resposta que o documento oferece, texto dividido em 46 pontos, de dez páginas, pode resumir-se assim: católicos e ortodoxos concordam com o fato de que o bispo de Roma, quer dizer o Papa para os católicos, é considerado o «protos», ou seja, o primeiro entre os patriarcas de todo o mundo, pois Roma, segundo a expressão de Santo Inácio de Antioquia, é a «Igreja que preside na caridade».

No entanto, segundo se desprende do documento, católicos e ortodoxos ainda não concordam nas «prerrogativas» deste primado, dado que, segundo afirma o documento, «existem diferenças na compreensão tanto da maneira na qual deveria ser exercido, como em seus fundamentos segundo as Escrituras e a teologia».

O documento constitui um passo para superar o «grande cisma» que separou as Igrejas ortodoxas de Roma no ano 1054.

Na reunião se chegou a esta conclusão, refletindo sobre as «Conseqüências eclesiológicas e canônicas da natureza sacramental da Igreja. Comunhão eclesial, conciliaridade e autoridade».

Os primeiros responsáveis pela conciliaridade são os bispos, unidos em comunhão, explicam os especialistas da Comissão.

Os bispos não só «deveriam estar unidos entre si na fé, na caridade, na missão, na reconciliação», mas que «têm em comum as mesmas responsabilidades e o mesmo serviço à Igreja».

A autoridade vem de Cristo, «fundamenta-se sobre a Palavra de Deus», e através dos apóstolos é «transmitida aos bispos e a seus sucessores». Seu serviço, afirma o documento, é um «serviço de amor», pois «para os cristãos, governar é o mesmo que servir».

Após esses pressupostos, o documento de Ravena analisa sua aplicação nos diferentes níveis.

No primeiro nível, o «local», a Igreja existe como «comunidade reunida pela Eucaristia» e é presidida direta ou indiretamente por um bispo.

«Esta comunhão é o marco no qual se exerce toda autoridade eclesial», indica. Neste nível, o bispo é o «protos», o primeiro, o chefe da comunidade.

O segundo nível é o «regional», no qual tem lugar a comunhão com as demais Igrejas que professam a mesma fé apostólica e que compartilham a mesma estrutura eclesial».

O ponto 24 do documento cita um cânon, aceito tanto no ocidente como no oriente, que estabelece como «os bispos de cada nação têm que reconhecem aquele que é o primeiro entre eles e considerá-lo seu líder», salvaguardando assim a «concórdia».

Logo está o nível «universal» da comunhão entre as Igrejas de todo lugar e tempo. A expressão desta comunhão são os concílios ecumênicos, desde as origens da Igreja, nos quais os bispos das cinco sedes apostólicas – Roma, Constantinopla, Alexandria Antioquia e Jerusalém – enfrentavam questões de primordial importância.

E aqui, nos concílios ecumênicos, reconhece-se o «papel ativo» exercido pelo bispo de Roma, como a personalidade mais ilustre entre os bispos das sedes maiores.

No entanto, algumas das dificuldades entre católicos e ortodoxos surgiram na definição de concílios «ecumênicos» dada pela Igreja Católica a concílios celebrados após o grande cisma.

Portanto, conclui a Comissão, «fica por estudar de maneira mais profunda a questão do papel do bispo de Roma na comunhão de todas as Igrejas».

Quer dizer, há que analisar «a função específica do bispo da ‘primeira sede’ segundo uma eclesiologia de ‘koinonia’, ou seja, de comunhão.

Ao mesmo tempo fica por estudar conjuntamente «o ensino sobre o primado universal dos Concílios Vaticano I e Vaticano II», para que possa ser compreendido e vivido à luz da prática eclesial do primeiro milênio», quando a Igreja não estava separada.

 
 
 
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