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02 de abril de 2006 Francisco

Varo Nas terras onde viveu Jesus, no século I, consta que se falavam quatro línguas: arameu, hebreu, grego e latim. Destas, a língua oficial era o latim, que também era a menos usada. Era utilizada praticamente pelos funcionários romanos quando falavam entre eles, e era conhecida por algumas das pessoas mais cultas. Não é provável que Jesus tivesse estudado latim, nem que o empregasse na suas conversações ou pregações.

Quanto ao grego, não deveria surpreender que Jesus o usasse alguma vez, já que os camponeses e os artesãos da Galiléia conheciam esta língua, ou ao menos as palavras necessárias para uma transação comercial simples ou para comunicar-se com os habitantes das cidades, que na sua maioria tinham a cultura helênica. Empregava-se também na Judéia: calcula-se que, dos habitantes de Jerusalém, entre oito e quinze por cento falavam o grego. Contudo não se sabe se Jesus empregou o grego alguma vez, nem se pode deduzi-lo com certeza de algum texto, ainda que esta possibilidade não possa ser de todo rejeitada. É provável, por exemplo, que Jesus tenha falado nessa língua com Pilatos.

A língua hebréia, porém, é possível que Jesus a conhecesse e empregasse algumas vezes, dadas as repetidas referências dos Evangelhos à pregação de Jesus na sinagoga e nas suas conversas com os fariseus sobre os textos das Escrituras.

Ainda que às vezes Jesus usasse o hebreu, parece ser que na conversação e na pregação, Jesus falava normalmente em aramaico, que era a língua normal para o uso diário entre os judeus da Galiléia. Tanto é que no texto grego dos Evangelhos deixam-se em aramaico algumas palavras ou frases soltas colocadas na boca de Jesus: talitha qum (Mc 5,41), corbán (Mc 7,11), effetha (Mc 7,34), geenna (Mc 9,43), abbá (Mc 14,36), Eloí, Eloí, ¿lemá sabactháni? (Mc 15,34), ou dos seus interlocutores: rabbuni (Mc 10,51).

Os estudos lingüísticos dos Evangelhos apontam para as palavras neles recolhidas que originariamente foram pronunciadas na língua semítica: hebreu ou possivelmente em aramaico. Percebe-se a textura peculiar do grego que foi usado nos Evangelhos traduzidos de uma matriz de sintática aramaica. Mas também é possível deduzir o fato de que as palavras que os Evangelhos colocam na boca de Jesus adquirem uma força expressiva quando traduzidas ao aramaico, e no qual é possível usar palavras com uma carga semântica diferente da mesma palavra em grego, derivada do uso semítico. Em algumas ocasiões, ao traduzir os Evangelhos para uma linguagem semítica percebem-se neles alguns jogos de palavras que estão ocultos no original grego.

BIBLIOGRAFIA

Joseph A. FITZMYER, “The Languages of Palestine in the First Century A. D.”, Catholic Biblical Quartely 32 (1970) pp. 501-531; Stanley E. PORTER, “Jesus and the Use of Greek in Galilee” in Bruce CHILTON – Craig A. EVANS (ed.), Studying the Historical Jesus. Evaluation of the State of Current Research, Brill, Leiden-New York-Köln 1994, pp. 123-154; Pinchas LAPIDE, “Insights from Qumran into the Languages of Jesus”, Revue de Qumran 8, 4 (n. 32) 1975, pp. 483-501; Chaim RABIN, “Hebrew and Aramaic in the First Century” in Shemuel SAFRAI – Menahem STERN (ed.), The Jewish people in the first century: historical geography, political history, social, cultural and religious life and institutions, Van Gorcum, Assen – Amsterdam 1976, pp. 1007-1039; Francisco VARO, Rabí Jesús de Nazaret, BAC, Madrid 2005, pp. 66-70.

Fonte: Opus Dei

 
 
 

Como a verdade é única e imutável, assim como ninguém pode apagar a história, afim de desmentir aqueles que negam a vida do Santo Apóstolo Pedro em Roma, seu episcopado e martírio nesta cidade, vale a pena sempre recordar a memória cristã afim de combater o erro.

São Pedro pregou em Roma

“Lancemos os olhos sobre os excelentes apóstolos: Pedro foi para a glória que lhe era devida; e foi em razão da inveja e da discórdia que Paulo mostrou o preço da paciência: depois de ter ensinado a justiça ao mundo inteiro e ter atingido os confins do Ocidente, deu testemunho perante aqueles que governavam e, desta forma, deixou o mundo e foi para o lugar santo. A esses homens […] juntou-se grande multidão de eleitos que, em conseqüência da inveja, padeceram muitos ultrajes e torturas, deixando entre nós magnífico exemplo.” (São Clemente Bispo de Roma, ano 96, Carta aos Coríntios, 5,3-7; 6,1). Clemente o 3º Bispo de Roma após Pedro, dá testemunho do belíssimo exemplo que o Apóstolo deixou entre os cidadãos Romanos.

“Não é como Pedro e Paulo que eu vos dou ordens; eles foram apóstolos, eu não sou senão um condenado” (Santo Inácio Bispo de Antioquia – Carta aos Romanos 4,3 – 107 d.C). Se Pedro não esteve em Roma, qual é o sentido destas palavras de Inácio de Antioquia?

“Assim, Mateus publicou entre os hebreus, na língua deles, o escrito dos Evangelhos, quando Pedro e Paulo evangelizavam em Roma e aí fundavam a Igreja.” (Santo Ireneu Bispo de Lião – Contra as Heresias,III,1,1 – 180 d.C)

“Logo depois, o supracitado mágico [Simão], com os olhos do espírito impressionados por uma luz divina e extraordinária, após ter sido convencido de suas insídias [cf. At 8,18-23] pelo apóstolo Pedro, na Judéia, empreendeu uma longa viagem além-mar. Fugiu do Oriente para o Ocidente, julgando que, somente ali, poderia viver de acordo com suas convicções. Veio para Roma, onde fo bastante coadjuvado pela potëncia ali bem estabelecida [cf. Ap 17], e em pouco tempo sua iniciativas tiveram êxito, pois foi honrado como um deus pelo povo da região, com a ereção de uma estátua. Mas estas coisas pouco duraram. Imediatamente depois, ainda no começo do império de Cláudio, a Providência universal, boníssima e cheia de amor aos homens, conduziu mão a Roma, qual adversário deste destruidor da vida, o valoroso e grande apóstolo Pedro, o primeiro dentre todos pela virtude. Autêntico general de Deus, munido de armas divinas [cf. Ef 6,14-17; 1Ts 5,8], trazia do Oriente ao Ocidente a preciosa mercadoria da luz inteligível, e anunciava, como a própria luz [cf. Jo 1,9] e palavra da salvação para as almas, a boa nova do reino dos céus” (Eusébio de Cesaréia – HE,III,14,4-6 – 317 d.C)

“Sob Cláudio [Imperador], Fílon [quande estoriador judeu] em Roma relacionou-se com Pedro, que então pregava aos seus habitantes.” (Eusébio de Cesaréia – HE II,17,1 – 317 d.C)

São Pedro foi Bispo de Roma

Eusébio de Cesaréia, narrando sobre a primeira sucessão Apostólica em Roma escreve: “Depois do martírio de Pedro e Paulo, o primeiro a obter o episcopado na Igreja de Roma foi Lino. Paulo, ao escrever de Roma a Timóteo, cita-o na saudação final da carta [cf. 2Tm 4,21].” (Eusébio Bispo de Cesaréia – HE,III,2 – 317 d.C).

“[…]quanto a Lino, cuja presença junto dele [do Apóstolo Paulo] em Roma foi registrada na 2ª carta a Timóteo [cf. 2Tm 4,21], depois de Pedro foi o primeiro a obter ali o episcopado, conforme mencionamos mais acima.” (Eusébio Bispo de Cesaréia – HE,IV,8 – 317 d.C).

“[…]Alexandre recebeu o episcopado em Roma, sendo o quinto na sucessão de Pedro e Paulo” (Eusébio Bispo de Cesaréia – HE,IV,1 – 317 d.C).

São Pedro sofreu o martírio em Roma

“Tendo vindo ambos a Corinto, os dois apóstolos Pedro e Paulo nos formaram na doutrina evangélica. A seguir, indo para a Itália, eles vos transmitiram os mesmos ensinamentos e, por fim, sofreram o martírio simultaneamente” (Dionísio de Corinto, ano 170, extrato de uma de suas cartas aos Romanos conforme fragmento conservado na HE II,25,8).

“Eu, porém, posso mostrar o troféu dos Apóstolos [Pedro e Paulo]. Se, pois, quereis ir ao Vaticano ou à Via Ostiense, encontrarás os troféus dos fundadores desta Igreja” (Discurso contra Probo – Caio presbítero de Roma, + ou – 199 d.C). Eusébio também trata deste escrito em HE II,25,7.

“Pedro, finalmente tendo ido para Roma, lá foi crucificado de cabeça para baixo” (Orígenes, +253, conforme fragmento conservado na HE, III,1).

“Quando Nero viu consolidado seu poder, começou a empreender ações ímpias e muniu-se contra o culto do Deus do universo. […] Foi também ele, o primeiro de todos os figadais inimigos de Deus, que teve a presunção de matar os apóstolos. Com efeito, conta-se que sob seu reinado Paulo foi decapitado em Roma. E ali igualmente Pedro foi crucificado [cf. Jo 21,18-19; 2Pd 1,14]. Confirmam tal asserção os nomes de Pedro e de Paulo, até hoje atribuídos aos cemitérios da cidade.” Eusébio Bispo de Cesaréia – HE,II,25,1-5 – 317 d.C).

“Pedro, contudo, parece ter pregado aos judeus da Diáspora, no Ponto, na Galácia, na Bitínia, na Capadócia e na Ásia [cf. 1Pd 1,1), e finalmente foi para Roma, onde foi crucificado de cabeça para baixo, conforme ele mesmo desejara sofrer.” (Eusébio Bispo de Cesaréia – HE III,2 – 317 d.C)

Conclusão

Como podemos ver na grande maioria das vezes, é a falta de memória cristã o grande nascedouro das heresias cristãs. Pedro não só esteve em Roma, como foi Bispo daquela cidade e lá juntamente com São Paulo recebe a coroa do martírio. E é de Roma que ele escreve sua primeira epístola (cf. 1Pd 5,13), onde Babilônia é o codinome para a cidade de Roma, devido à grande semelhança entre as duas cidades quanto à idolatria e perversão.

Autor: Alessandro Ricardo Lima Fonte: www.veritatis.com.br

 
 
 

Entrevista com Dom Odilo Pedro Scherer, bispo auxiliar de São Paulo e secretário-geral da CNBB

BRASÍLIA, segunda-feira, 29 de maio de 2006 (ZENIT.org).- «Podemos dizer que ?O Código Da Vinci? é um escrito apócrifo que, 2000 anos depois de Jesus, escreve uma história fantasiada sobre Jesus e o início da Igreja, em total contraste com os fatos históricos», afirma o secretário-geral da Conferência episcopal brasileira.

Segundo Dom Odilo Pedro Scherer, a «pregação dos apóstolos, no Novo Testamento, é para nós a única referência de fé sobre Jesus Cristo. Ou será que uma história inventada pela fantasia, 2000 anos depois dos fatos, merece mais crédito?»

Nesta entrevista à assessoria de imprensa da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), difundida esta segunda-feira, o secretário-geral do organismo episcopal orienta sobre o filme e o livro «O Código Da Vinci».

–O que é O Código Da Vinci?

–D. Odilo P. Scherer: É um romance escrito por Dan Brown, um autor norte-americano. Do livro foi feito um filme. Falou-se muito do livro e agora, também do filme, pois ambos trazem afirmações errôneas sobre Jesus Cristo, e Igreja e instituições ligadas à Igreja. É importante não esquecer que se trata de uma obra de ficção e as afirmações nela contidas devem ser tidas como fantasia, e não como argumentos de história. –O que pode confundir os leitores ou quem assistir ao filme?

–D. Odilo P. Scherer: Quem pensar que o filme está retratando a história já está confundindo as coisas desde o início. O livro é ficção e o filme também é uma história inventada. Embora retrate personagens reais e faça alusões a fatos e instituições reais, a obra faz afirmações a respeito de fatos, pessoas e instituições que não têm base na história e não são verdadeiras. Mas, justamente, aqui é que está o veneno, pois Jesus e outros personagens do romance são reais; fatos e instituições que aparecem também são reais e, por vezes, fica difícil distinguir entre afirmação histórica e ficção; as pessoas são induzidas a colocar em dúvida a honestidade da Igreja na transmissão dos seus ensinamentos. É importante manter bem clara distinção entre os fatos, personagens e instituições reais e as afirmações feitas sobre eles, que são pura fantasia, sem base na história.

–Onde podemos encontrar a verdade sobre Jesus e o início da Igreja?

–D. Odilo P. Scherer: Aquilo que sabemos sobre Jesus está contido nos quatro Evangelhos e nos demais escritos do Novo Testamento, na Bíblia. Outros ?evangelhos? também foram escritos, até mesmo séculos depois da morte de Cristo; esses, desde logo, não foram tidos por verdadeiros, porque não estavam de acordo com aquilo que chamamos ?tradição apostólica? e, claramente, eram reinterpretações fantasiadas e tendenciosas dos fatos ligados à vida de Jesus. Esses ?evangelhos? foram chamados apócrifos e suas afirmações não são merecedoras de fé. O critério foi sempre o da pregação dos apóstolos sobre Jesus, pois eles conheceram pessoalmente o Mestre e foram testemunhas oculares dos fatos. Escritos apócrifos sempre existiram e não foram escondidos pela Igreja. Alguns foram redescobertos recentemente. Eles não têm a mesma validade dos quatro Evangelhos canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João e dos demais escritos do Novo Testamento. Podemos dizer que o Código da Vinci é um escrito apócrifo que, 2000 anos depois de Jesus, escreve uma história fantasiada sobre Jesus e o início da Igreja, em total contraste com os fatos históricos. Sobre as origens do Cristianismo e da Igreja, há farto material histórico, que pode ser pesquisado e lido.

–E o que dizer da afirmação que ?Jesus só se tornou divino? a partir do Concílio de Nicéia, em 325 d.C?

–D. Odilo P. Scherer: Essa afirmação aparece no filme. Ela não é verdadeira. O concílio de Nicéia, em 325 d.C., de fato, fez a afirmação solene da divindade de Jesus Cristo, proclamando-a como dogma, ou seja, ?verdade de fé? a ser aceita pelos cristãos. Mas esta verdade já era professada desde o começo pelos apóstolos e pelos primeiros cristãos. É só ler os Evangelhos e os demais escritos do Novo Testamento, que retratam o ensinamento de Jesus e a pregação apostólica. Os apóstolos tinham a firme convicção de que Jesus era o Filho de Deus e estavam dispostos a dar a vida por esta verdade. Eles não a inventaram, mas era algo que se lhes impunha com tanta força, que eles não a puderam negar. Portanto, os apóstolos e, com eles a primeira comunidade cristã, tinham a clara convicção de que Jesus era o Filho de Deus. Algum tempo depois apareceram grupos que negavam essa verdade. Começaram as heresias, que estavam em contraste com a pregação dos apóstolos. Por isso foi necessário reunir os responsáveis pela Igreja para discernir sobre a questão e o concílio de Nicéia fez a afirmação solene: ?É verdade central da fé da Igreja que Jesus é o Filho de Deus. Foi assim que os apóstolos testemunharam e ensinaram?. Essa verdade não foi inventada pelo Concílio de Nicéia, como se afirma no filme. Isso não condiz com os documentos históricos. Os cristãos não devem se deixar enganar.

–Em relação à afirmação dogmática da Divindade de Jesus, como argumentar teologicamente?

–D. Odilo P. Scherer – A verdade sobre a divindade de Jesus Cristo é fundamental para a Igreja, que tem consciência de que isso não significa pouca coisa e deixa em crise a lógica dos raciocínios humanos. Ele não é apenas um grande profeta ou o fundador de uma religião. A profissão de fé na divindade de Jesus Cristo vem dos apóstolos, aos quais Jesus mesmo se manifestou como Filho de Deus ao longo de sua e após sua ressurreição dos mortos. A Igreja professa que Jesus Cristo é o Filho de Deus feito homem; sem deixar sua natureza divina, viveu no mundo como verdadeiro homem, sem o esplendor da divindade. Veio ao mundo para se tornar solidário com cada ser humano e manifestar a todos o amor misericordioso de Deus; ele reconciliou a humanidade com Deus e abriu o caminho para Deus a todos os que crêem nele e o seguem. A afirmação da divindade de Jesus é central para a fé da Igreja.

–Quais seriam os principais critérios de orientação para a pessoa que assiste ao “Código Da Vinci”?

–D. Odilo P. Scherer: Quem quiser ler o livro ou assistir ao filme deve fazer um discernimento criterioso e manter clara a distinção entre verdade histórica e fantasia. E não deveria deixar de ler também os Evangelhos e os demais escritos do Novo Testamento. Se tiver a possibilidade, procure se informar com quem pode esclarecer alguma dúvida. Veja o que a Igreja ensina sobre Jesus no Catecismo. Seria até um exercício interessante confrontar as afirmações do Código da Vinci, com as dos Evangelhos, para se dar conta das diferenças. A pregação dos apóstolos, no Novo Testamento, é para nós a única referência de fé sobre Jesus Cristo. Ou será que uma história inventada pela fantasia, 2000 anos depois dos fatos, merece mais crédito? Não é pensável que alguém possa ?descobrir? a verdade sobre Jesus somente agora. Tantas pessoas ilustres, gente simples e sincera, grandes pensadores, escritores e santos sempre creram como os apóstolos pregaram e a Igreja transmitiu! Ninguém se deixe enganar, achando que a Igreja escondeu a verdade. Pelo contrário, o que a Igreja mais gostaria é que todos chegassem a conhecer bem a verdade sobre Jesus Cristo.

–Existe fundamento bíblico para afirmar uma relação de marido e mulher entre Jesus e Maria Madalena?

–D. Odilo P. Scherer: O Código da Vinci traz essa afirmação e também que Jesus teve filhos com Madalena; que a descendência de Jesus teria continuado ao longo da história e ainda hoje existiria. Isso é pura fantasia, sem nenhum fundamento bíblico e histórico. Maria Madalena foi uma discípula de Jesus, como outras mulheres também. É sobretudo no Evangelho de São João que ela aparece em várias passagens. Existe uma Maria, da qual Jesus expulsou sete demônios e alguns estudiosos acham que esta poderia ser Maria Madalena. Ela também é identificada com a pecadora bem conhecida na cidade, que perfuma os pés de Jesus e os enxuga com seus cabelos durante um banquete. Maria Madalena aparece claramente no contexto da Ressurreição, quando ela vai ao túmulo para ungir o corpo de Jesus, no terceiro dia após sua morte na cruz. Jesus se manifesta vivo a ela e lhe pede que vá anunciar aos discípulos que ele ressuscitou. O personagem Maria Madalena e também sua relação com Jesus sempre despertaram a curiosidade e a fantasia ao longo da história; e também foram explorados de maneira ideológica e indevida. A afirmação de que ela tenha sido mulher de Jesus não tem base nenhuma nos Evangelhos. Ela foi discípula de Jesus, como outras mulheres que o seguiam e das quais os Evangelhos também falam.

–O filme cita um certo ?Evangelho de Filipe?, que fala do amor especial de Jesus por Madalena. Fala que ?a palavra perfeita concebe e dá nascimento por meio de um beijo?. O que é o ?Evangelho de Filipe? e o que dizer dessa interpretação da relação mestre-discípula como se fosse a relação marido-mulher?

–D. Odilo P. Scherer: O ?Evangelho de Filipe? também é um apócrifo e não retrata a pregação e o testemunho dos apóstolos sobre Jesus. A Igreja nunca deu crédito aos apócrifos, não considerou verdadeiras as suas afirmações sobre Jesus e as origens cristãs. Era necessário estabelecer um critério para saber quais escritos podiam ser levados a sério e quais não, pois nos primeiros séculos apareciam muitas histórias sobre Jesus. Aliás, ainda hoje, como o próprio Código Da Vinci. O critério é a pregação e o ensinamento dos apóstolos, que conheceram Jesus de perto e foram as testemunhas oculares de sua pessoa e de suas obras. Seu testemunho está relatado nos 4 Evangelhos canônicos e nos demais escritos do Novo Testamento. A relação de Jesus com Madalena, como aparece no ?Evangelho de Filipe?, não concorda com a dos Evangelhos canônicos.

–O Código Da Vinci fala do Santo Graal. Existe alguma sustentação histórica para isso?

–D. Odilo P. Scherer: De fato, a trama do Código da Vinci tem no Santo Graal um elemento central. Ninguém se iluda, o Santo Graal nunca existiu. É uma lenda medieval, que aparece reciclada de vez em quando em romances e vive na fantasia popular. O Santo Graal não existiu. É uma lenda.

–Que esclarecimentos poderiam ajudar as pessoas a conhecerem realmente o Opus Dei hoje?

–D. Odilo P. Scherer: O Opus Dei (Obra de Deus) aparece no Código da Vinci como uma organização malvada e sem escrúpulos, que faz de tudo para manter o segredo em torno da verdadeira identidade de Jesus, isto é, que ele nunca foi o Filho de Deus, que casou com Madalena e teve descendentes com ela, que vivem ainda hoje. Isso é pura fantasia. O Opus Dei é uma Associação de católicos recente, que pode ser conhecida através dos escritos do seu fundador, São José Maria Escrivá, ou através das pessoas que aderem a essa Associação reconhecida pela Igreja, à qual aderem muitos leigos, padres, religiosos e bispos. Eles estão presentes em muitos âmbitos da sociedade, com a motivação da santificação pessoal e do mundo através da vida santa no trabalho e nas coisas de cada dia. Não vamos dar crédito a fantasias maldosas e carregadas de veneno. É impressionante como certas fantasias passam para o domínio público como se fossem verdadeiras. A imagem que o Código Da Vinci passa sobre o Opus Dei é maldosa e muito injusta.

–O filme fala do ?sagrado feminino?. O que vem a ser isso?

–D. Odilo P. Scherer: O sagrado feminino é um mito presente na história das religiões e na cultura dos povos. Em poucas palavras, esse mito afirma que o ser feminino, especialmente a mulher, tem algo de sagrado, de divino. Por isso, em muitas religiões são cultuadas deusas e o feminino aparece divinizado. Nesse mito, não tudo está errado. Mas, por que falar somente do sagrado feminino e não também do masculino? Na verdade, segundo a fé bíblica e a antropologia cristã, tanto o homem como a mulher são ?imagem e semelhança de Deus?. Não só o masculino, nem só o feminino. Não se trata, porém, da divinização do ser humano, mas de afirmar que homem e mulher são criaturas maravilhosas e têm algo em comum com Deus. Por isso também são capazes de acolher o divino e de entrar em relação com ele. O ser humano não está fechado para Deus, nem impossibilitado de se comunicar com Ele; nem Deus está impossibilitado de se comunicar com o ser humano. Deus não vive isolado, distante e incomunicável com o ser humano e o mundo. Toda pessoa tem a possibilidade de encontrar e acolher Deus em sua vida e de entrar em diálogo com ele. Mas não se trata da divinização do ser humano. Deus não precisa anular o que é humano para estabelecer contato com sua criatura, mas valoriza o ser humano ao tal ponto, que se lhe manifesta na condição dele. É justamente isso que afirmamos com a fé no ?mistério da encarnação? do Filho de Deus, que aparece humano na pessoa de Jesus Cristo. O humano continua humano, mas é transfigurado, transformado e enriquecido pelo divino, que vem ao seu encontro. Deus valoriza o homem enquanto homem e a mulher, enquanto mulher.

–Quem são os templários citados por Dan Brown?

–D. Odilo P. Scherer: Foram uma Ordem militar na Idade Média, que tinha inicialmente a missão de defender os lugares santos para assegurar o direito de peregrinação e veneração aos cristãos. Eram religiosos e faziam os votos de pobreza, obediência e castidade. Mais tarde foram extintos sob acusações falsas de praticarem a feitiçaria e a heresia. O rei da França estava interessado nas riquezas que a Ordem tinha acumulado ao longo dos séculos. Sobre eles, pode-se ler nos manuais de história e nas enciclopédias. O que o Código Da Vinci afirma sobre os templários é pura fantasia.

–Poderíamos dizer que o filme está apoiado numa grande campanha de marketing e suas afirmações não têm valor histórico? Trata-se apenas de uma obra de entretenimento?

–D. Odilo P. Scherer: De fato, ninguém queira encontrar no Código Da Vinci verdades históricas. Trata-se de um romance e o autor soube reunir habilmente uma série de questões e ?mistérios?, que aguçam a fantasia e a curiosidade das pessoas. Pena que a obra mexe, de maneira desrespeitosa, com tanta coisa séria e deixa no ar a suspeita de que a Igreja seja falsificadora da verdade e enganadora do povo. Isso é injusto! De resto, para os vendedores de ilusões, quanto mais polêmica, melhor. Isso vende mais! É uma questão de marketing. Mas é o caso de perguntar: Para fazer dinheiro, qualquer expediente pode ser usado? Isso é honesto?

–A Igreja considera os Meios de Comunicação Social de maneira positiva, como maravilhas da técnica, e insiste que sejam empregados em favor da verdade, justiça, solidariedade e paz.

–D. Odilo P. Scherer: Os Meios de Comunicação são maravilhosos. Mas não passam de meios, que dependem das intenções de quem faz uso deles. O seu uso também deve obedecer a critérios éticos, como qualquer atividade humana. A mídia pode ser usada para ?criar verdades?, de maneira distorcida e artificial, de acordo com interesses determinados. Por isso, os receptores devem manter vivo o senso crítico, denunciando o mau uso desses meios e a comunicação distorcida da verdade. Todos precisamos estar atentos para não nos deixar ?fazer a cabeça? pela mídia. E não se deve esquecer que a primeira e mais importante comunicação continua a ser aquela da relação humana direta, do encontro de pessoas, do diálogo, da partilha de sentimentos, afetos, idéias e exemplos. A comunicação que mais atinge seus objetivos é aquela que coloca em sintonia corações, inteligências e vontades.

 
 
 
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