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A mensagem de nossa reflexão de hoje é clara. Quantas vezes nos vimos cansados em meio à caminhada, tentados a desistir da missão de levar o Evangelho a toda criatura? O mundo nos oferece nativas à missão o tempo todo, e o que o mundo nos propõe é realmente atrativo. A satisfação dos sentidos, o prazer, o dinheiro e o luxo. E não são poucos os que param à beira do caminho. Basta olhar ao redor. Todos conhecemos alguém que deixou a Igreja, que abandonou fé. Ou que preferiu uma fé menos comprometida com a doação de si mesmo, procurando uma religião moldada aos seus próprios gostos e aspirações.


Autor: Estevan Gracia Gonçalves. Fonte: Veritatis Media

 
 
 

Por: Greg Oatis Tradução: Carlos Martins Nabeto Fonte: http://www.veritatis.com.br/

Certa gente sustenta que a Igreja Católica não foi fundada por Jesus Cristo, tratando-se muito mais de um culto pagão com laços que a unem com a antiga Babilônia. Esta idéia ganhou ampla difusão através de um livro intitulado “As Duas Babilônias”, publicado na Inglaterra por Alexander Hislop, em 1858, o qual pretendia estabelecer um paralelo entre os ensinamentos e práticas do Catolicismo com a religião mistérica praticada na citada Babilônia. No entanto, a metodologia usada pelo autor do livro, um ministro protestante sem qualquer formação séria, foi descartada e denunciada como falsa a partir do ponto de vista racional e histórico.

“E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo-me: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas; com a qual se prostituíram os reis da terra; e os que habitam na terra se embebedaram com o vinho da sua prostituição. E levou-me em espírito a um deserto, e vi uma mulher assentada sobre uma besta de cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e tinha sete cabeças e dez chifres. E a mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada com ouro, e pedras preciosas e pérolas; e tinha na sua mão um cálice de ouro cheio das abominações e da imundícia da sua prostituição; E na sua testa estava escrito o nome: Mistério, a grande Babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra. E vi que a mulher estava embriagada do sangue dos santos, e do sangue das testemunhas de Jesus. E, vendo-a eu, maravilhei-me com grande admiração. E o anjo me disse: Por que te admiras? Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a traz, a qual tem sete cabeças e dez chifres” (Apocalipse 17,1-7).

Esta passagem bíblica é usada freqüentemente para “provar” que a Igreja Católica é a “prostituta da Babilônia” descrita por São João em sua visão. Tal interpretação não é apenas errônea mas também impossível de ser reconciliada com a História. É óbvio, para quem estuda as Escrituras seriamente, que São João está se referindo a Roma como “a Grande Prostituta”, já que Roma e Babilônia foram as únicas duas potências do mundo a quem Deus permitiu assolar Jerusalém, levando seu povo cativo ao exílio. Tanto escritos judaicos quanto cristãos têm comparado Roma com a antiga Babilônia, já que ambas subjugaram Israel, destruíram o Grande Templo e assolaram Jerusalém.

Um conhecido promotor das interpretações de Hislop, Ralph Woodrow, seguindo o mesmo caminho, chegou a escrever outro livro, chamado “Babilônia: a Religião dos Mistérios”. Anos depois, Woodrow precisou rejeitar o método que havia aprendido de Hislop, quando eruditos de seu próprio grupo protestante lhe apontaram seus graves erros e sua falta de erudição. Em 1997, Woodrow publicou uma retratação, “Conexão Babilônia?”, na qual expõe os pontos de partida essencialmente equivocados das teorias originais do religioso fundamentalista escocês. Para ilustrar o tipo de lógica defeituosa em questão, Woodrow usa os mesmíssimos métodos de Hislop para “demonstrar” uma teoria disparatada: que uma certa cadeia de restaurantes de fast-food tinha sua origem na Babilônia. Citemos:

– “Os arcos dourados” são conhecidos em todo o mundo como o símbolo que identifica o McDonald’s. No entanto, devemos assinalar que o arco foi usado habitualmente pelos antigos babilônios em suas portas e palácios. De fato, nas pinturas realizadas pelos babilônios, vemos que seus reis são representados em marcos na forma de arco! Também sabemos que Nabucodonosor, rei da Babilônia, ordenou aos seus súditos que adorassem uma imagem de ouro (Daniel 3,5-10). E Babilônia era conhecida no mundo antigo como “a cidade dourada”. Finalmente, observe-se que a primeira letra de McDonald’s, o M, é a 13ª letra do alfabeto inglês, um número reconhecido como possuidor de um poder místico, e que atrai má sorte. Poderia isto ser uma simples coincidência? Inclusive, o que mais assinalaria o M de McDonald’s? Certamente Moloc, o deus pagão do fogo que era adorado na Babilônia. O que é empregado pelo McDonald’s moderno para esquentar as comidas? A eletricidade, que muitos associariam a uma forma controlada de fogo! Portanto, quem poderia duvidar que a cadeia de restaurantes McDonald’s, conhecida por seus arcos dourados, seria, na verdade, um culto mistérico relacionado ao deus do fogo adorado pela antiga realeza babilônica?

Por mais ridícula que esta forma absurda de raciocinar possa parecer – sabemos naturalmente que a cadeia McDonald´s não foi criada por um rei babilônico, mas por um homem de negócios norte-americano, Ray Kroc, em 1950 – esta é, exatamente, a mesma técnica de raciocínio usada por Hislop para caluniar a Igreja. Em seu ensaio “Anticatolicismo”, o apologista católico Dave Armstrong explica os erros de Hislop:

“O método [de Hislop] incorre em duas conhecidas falácias lógicas: a falácia “da origem”, em que se ataca a fonte de uma idéia ao invés da idéia em si; e a falácia do “non sequitur”, em que uma simples semelhança ‘prova’ que certa prática provém de outra prática anterior”.

Como esclarecimento, digamos que uma falácia lógica é uma proposição apresentada como verdadeira em uma afirmação, porém, só na aparência. As falácias lógicas são empregadas comumente para justificar argumentos ou posturas que não são justificados pela razão. Costumam mascarar erros, falsidades ou fraudes. Saber reconhecer as falácias lógicas é de valiosa ajuda para não ser enganado. O termo latino “non sequitur” significa textualmente “não se segue”. No caso que estamos analisando, a semelhança de uma prática católica com uma antiga prática babilônica não implica que a primeira provenha da segunda.

Woodrow também assinala que os mesmos argumentos de Hislop poderiam ser usados para “provar” que a própria Bíblia é pagã. Indica muitos elementos presentes na Bíblia que podem ser relacionados com religiões pagãs pré-existentes como, por exemplo, o prostrar-se em terra, o orar levantando as mãos, uma montanha com uma divindade presente nela, leis gravadas sobre pedra, a carruagem de Elias com seus cavalos de fogo… Toda essa fenomenologia bíblica e muito mais pode ser encontrada também no Paganismo.

Logo, se empregarmos a lógica falaciosa de Hislop, nos veremos forçados a concluir que a fé ensinada na Bíblia é, na verdade, uma religião pagã. Visto que sabemos que isso é um absurdo, deveremos concluir, forçosamente, que a técnica de Hislop é essencialmente errônea.

“E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns” (1Coríntios 9,20-22).

Mais do que condenar toda prática dos gentios como pagã, a Igreja Católica procurou sempre inculturar-se. Isto é, respeitou o bom que pudesse haver em outras religiões e culturas para relacioná-lo com a verdade completa no Pai, Filho e Espírito Santo.

“Não tornes tu profano o que Deus purificou” (Atos 10,9-16).

Jesus veio trazer salvação a toda a humanidade. Inclusive aqueles que eram vistos pelos judeus como impuros; não veio salvar apenas alguns poucos eleitos. Em outras palavras, o amor de Deus não é só para os que já praticam a fé cristã; Ele ama todos os homens, aos quais criou à sua imagem e semelhança.

“Homens atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos; Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio” (Atos 17,16-34).

São Paulo não pregou uma brutal condenação aos gregos por sua adoração pagã. Preferiu usar as crenças deles como ferramenta pela qual lhes revelaria a verdade completa que se encontra no Cristianismo. A Igreja Católica sempre agiu desta maneira. Note-se também que no versículo 28 se encontra uma referência de São Paulo a dois poetas pagãos, Epimênides (“Nele vivemos, nos movemos e existimos”) e Aratos (“Porque somos também de sua linhagem”). Significaria isto que São Paulo estava pregando uma religião pagã? Usando o “Método Hislop” de provar as coisas, chegaríamos a esta ridícula conclusão. No entanto, é claro pelo contexto que São Paulo está usando a técnica adequada para o debate: a empatia. Simplesmente usa, para a sua mensagem, termos que encontram sentido para a sua platéia.

“E, quando o estavam atando com correias, disse Paulo ao centurião que ali estava: É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?” (Atos 22,25-28).

Aqui, vemos São Paulo afirmar repetidamente sua cidadania romana – isto é, sua cidadania em um império pagão – ao debater com as autoridades do Templo. Com certeza ele não via isto como uma profanação.

Às vezes, certos fundamentalistas parecem mais preocupados em preservar a irreal natureza de um cristianismo ideal, conservando-a em uma espécie de âmbar teológico, do que seguir o exemplo de São Paulo, o qual usa de toda destreza, arte e idéias próprias no esforço de salvar almas, que são amadas por Deus. Paulo estava menos preocupado em manter a pureza de suas práticas religiosas tradicionais – como a circuncisão e as leis de alimentação judaicais – do que buscar a transmissão da fé, ao que se dedicava com coragem e, sempre que necessário, fazia uso de formas pouco convencionais. Portanto, não há razão para temer quando nossa fé é questionada – inclusive atacada – na arena do mundo das idéias. A verdade essencial do Evangelho é a sua proteção.

 
 
 

Cardeal Pio

Sermão pregado na Catedral de Chartres (excertos); 1841.

Meus irmãos (…),

Nosso século clama: “tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza, e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Mas antes de entrar no mérito, distinguindo as coisas, convenhamos sobre o sentido das palavras para bem nos entendermos. Assim não nos confundiremos.

A tolerância pode ser civil ou teológica. A primeira não nos diz respeito, e não darei senão uma pequena palavra sobre ela: se a lei tolerante quer dizer que a sociedade permite todas as religiões porque, a seus olhos, elas são todas igualmente boas ou porque as autoridades se consideram incompetentes para tomar partido neste assunto, tal lei é ímpia e atéia. Ela exprime não a tolerância civil como a seguir indicaremos, mas a tolerância dogmática que, por uma neutralidade criminosa, justifica nos indivíduos a mais absoluta indiferença religiosa. Ao contrário, se, reconhecendo que uma só religião é boa, a lei suporta e permite que as demais possam exercer-se por amor à tranqüilidade pública, esta lei poderá ser sábia e necessária se assim o pedirem as circunstâncias, como outros observaram antes de mim (…).

Deixo porém este campo cheio de dificuldades, e volto-me para a questão propriamente religiosa e teológica, em que exponho estes dois princípios: primeiro, a religião que vem do céu é verdade, e é intolerante com relação às doutrinas errôneas; segundo, a religião que vem do céu é caridade, e é cheia de tolerância quanto às pessoas.

Roguemos a Nossa Senhora vir em nossa ajuda e invocar para nós o Espírito de verdade e de caridade: Spiritum veritatis et pacis. Ave Maria.

Faz parte da essência de toda a verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, podem-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas, logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária, e por conseguinte ela é una e intolerante: in necessariis, unitas. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa, é preciso defendê-la, sob pena de logo se ver despojado dela.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda a parte, porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 mais 2 fazem 4? Se vierdes dizer-me que 2 mais 2 fazem 3 ou fazem 5, eu vos respondo que 2 mais 2 fazem 4…

Nada é tão exclusivo quanto a unidade. Ora, ouvi a palavra de São Paulo: “Unus Dominus, una fides, unum baptisma”. Há, no céu, um só Senhor: unus Dominus. Esse Deus, cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: una fides. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: unum baptisma. Assim, a unidade divina que esplende por todos os séculos na glória de Deus produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: um Deus, uma fé, uma Igreja: unus Dominus, una fides, unum baptisma.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo, e certo filósofo de Genebra disse, falando do Salvador dos homens: “Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo, se alguém se recusa a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu reino. Confesso que nisso não há sutilezas; há intolerância, há exclusão, a mais positiva, a mais franca. E mais: Jesus Cristo enviou seus Apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E, prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina iria incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada, e para acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão: Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma (…).

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo. O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses, e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o da sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. O mais das vezes, em virtude de um Senatus-Consulto, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria, e o Olimpo nacional crescia como o Império.

Quando aparece o Cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de valor com relação ao assunto presente), quando o Cristianismo surge pela primeira vez, não foi repelido imediatamente. O paganismo perguntou-se se, em vez de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judéia tinha-se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo, como a Abraão, entre as divindades de seu oratório, assim como se viu mais tarde outro César propor prestar-lhe homenagens solenes. Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros ser colocados ao lado deles, com a chegada do deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranqüila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie ejus. Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, cujo culto se havia admitido, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, foi então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos. Eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião senão a deles. “Eu não tinha dúvidas”, diz Plínio, o Jovem, “apesar de seu dogma, de que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível”: pervicaciam et inflexibilem obstinationem. “Não são criminosos”, diz Tácito, “mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos”: apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium. Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis”, dizia este sofista, “nisto não os censuro; só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas, se os judeus ou os cristãos querem só dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: aí está o porquê da perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi obra de intolerância dogmática. Toda a história da Igreja não é senão a história dessa intolerância. Que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professar o erro. Que são os símbolos? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. Que é o Papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé. Por que os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma, anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; disto fazemos profissão; orgulhamo-nos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e conseqüentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo à terra, apresentou os títulos de sua origem; ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: Eu sou a verdade: Ego sum veritas, é necessário, por uma conseqüência inevitável, que a Igreja Cristã conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que repila, que exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina, é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos com o que ouvimos dizer sobre todas estas questões até por pessoas sensatas. Falta-lhes a lógica, desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, preparam para si uma moral fácil. Diz-se com justeza perfeita: é antes o decálogo que o símbolo o que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que se equivalem todas; se todas são verdadeiras, é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E, se se pode aí chegar, já não sobra nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranqüilas no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques [Rousseau] foi entre nós o apologista e o propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal desse catecismo, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas. Isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins (…).

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais por toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética, e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem conciliar-se; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em julgar-se possuidores exclusivos de toda a verdade, quando cada um deles só tem dela um elo e quando, da reunião de todos esses elos, se deve formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas são todas incompletas umas sem as outras. A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo, que não conhece nenhum; o panteísmo, que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo, que crê na alma, e o materialismo, que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas, que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista, que a rejeita; o Cristianismo, que crê no Messias que veio, e o judaísmo, que o espera ainda; o Catolicismo, que obedece ao Papa, o protestantismo, que olha o Papa como o Anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina que qualificais de absurda não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousam os destinos da França. — A que ponto de loucura chegamos então? — Chegamos ao ponto a que deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma, e por conseqüência intolerante, apartada de toda a doutrina que não é a sua. E, para resumir em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu vos direi: Procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem fazer-se concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que têm um pai comum: vos ex patre diabolo estis. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é objeto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la. Pedi que vos dêem uma espada, fingi cortar, e examinai as caras que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: Essas não são as mães! Há uma cara, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade me pertence, e devo conservá-la inteira, jamais tolerarei que seja diminuída, partida. Dizei: Esta aqui é a verdadeira mãe!

Sim, Santa Igreja Católica, Vós tendes a verdade, porque tendes a unidade, e porque sois intolerante; não deixais decompor esta unidade.

 
 
 
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