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Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

SÃO PAULO, quinta-feira, 23 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à liturgia do Natal do Senhor – Leituras: Noite: Is 9,1-6; Tt  2,11-14; Lc 2,1-14; Aurora: Is 62, 11-12; Tt 3, 4-7; Lc 2, 15-20; Dia: Is 52, 7-10; Hb 1, 1-6; Jo 1, 1-18 – redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes – São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os comentários à liturgia dominical, sempre às quintas-feiras, na edição em língua portuguesa da Agência ZENIT.

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NATAL DO SENHOR

“Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo Senhor!”

Leituras: Noite: Is 9,1-6; Tt  2,11-14; Lc 2,1-14

“A festa de hoje renova para nós os primeiros instantes da vida sagrada de Jesus, nascido da Virgem Maria. E enquanto adoramos o nascimento do nosso Salvador, celebramos também o nosso nascimento. Efetivamente, a geração de Cristo é a origem do povo cristão. O natal da cabeça é também o natal do corpo” (São Leão Magno, LH, dia 31 de Dez).

Será que nos surpreendem essas afirmações tão categóricas sobre a participação de todo o povo cristão e de cada fiel no mistério do nascimento de Cristo em força do batismo e do dom do Espírito Santo?

Talvez sim… E de certo modo, a responsabilidade é nossa…

Pois talvez estejamos de fato bem longe do horizonte de Deus por causa de uma visão redutiva das festas litúrgicas, consideradas como simples memória devota e emocional dos acontecimentos da vida de Jesus que elas celebram. Se reduzidas a esta limitada compreensão, as celebrações litúrgicas podem até ser capazes de suscitar nossa admiração, nossa devota compaixão em relação à solidariedade de Jesus para conosco, do pobre amparo de Belém até à generosa e cruel morte na cruz. Mas esses eventos estariam inevitavelmente relegados ao tempo passado. Seriam apenas fatos de ontem.

Pelo contrário as palavras do grande bispo e papa de Roma do século V, afirmam que o nascimento de Jesus é também o nosso nascimento para a vida nova em Deus. Que aquele evento é o nosso, hoje! Que nós estamos ainda nascendo com ele e ele em nós, pela potência do mesmo Espírito Santo que o gerou no seio da virgem Maria.

Papa Leão nos proporciona o centro da boa nova evangélica, da fé e da experiência cristã. Cabe destacar que quando ele propunha dessa forma os alicerces da nossa identidade cristã e da nossa esperança, não estava falando apenas para um grupo escolhido de estudantes de faculdade de teologia, mas partilhando sua fé e alegria de pastor com o povo simples de Roma, enquanto estava oferecendo sua homilia na solenidade do Natal!

Esta é a boa nova cantada pelos anjos na noite luminosa de Belém ao anunciar o nascimento de Jesus aos pobres pastores. Este é o âmago do Evangelho, anunciado pelo próprio Jesus, pregado pelos apóstolos e com tanto destaque evidenciado por Paulo nas suas cartas, proclamado e celebrado na liturgia deste santo tempo de Natal. Em Jesus, pelo dom do Espírito Santo derramado em nós pelo batismo, todos recebemos novamente a condição de filhos e filhas do Pai, e nos tornamos partícipes da sua mesma vida!

Hoje Jesus Cristo nasceu, apareceu o Salvador!”.

Esta profissão de fé e este grito de alegria destacam a perene atualidade do evento da Encarnação do Verbo/Palavra de Deus, e atravessam como um refrão de fundo toda a liturgia eucarística e a liturgia das horas do tempo de Natal até a solenidade da Epifania.

“Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade! – acrescenta o mesmo papa Leão – E já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Lembra-te de que Cabeça e de que corpo és membro…. Pelo sacramento do batismo te tornaste templo do Espírito Santo. Não expulses com más ações tão grande hóspede” (São Leão  Magno, LH, Natal do Senhor).

O Natal de Jesus é o início do processo do nosso nascimento. É como a gestação que vai formando o corpo inteiro de Cristo, que é a Igreja, Ele que é a cabeça e o coração da mesma, segundo a mística visão de Paulo. Este corpo está formando-se e crescendo em nós até alcançar sua maturidade no fim dos tempos. Até àquela misteriosa meta que somente o Pai conhece, continuaremos sofrendo as dores do parto, na espera do nascimento da nova criatura, e ao mesmo tempo, gozando da alegria do seu próximo aparecer na cena da história (cf. Rm 8, 22-25). Este processo que vai formando em nós a nova personalidade segundo o Espírito de Deus, acompanha a nossa progressiva conformação a Cristo, através da experiência transformadora da sua páscoa (cf. 2 Cor 5, 17).

Os textos litúrgicos do tempo natalino destacam a vinda do Senhor que “vem com potência”, e ao mesmo tempo com humildade e simplicidade. É o paradoxo do amor de Deus, que em extrema solidariedade para conosco, assume com o Verbo Encarnado toda nossa fraqueza, carregando sobre si nossos pecados, renovando até a raiz nossa inconsistência de criaturas pecadoras e nos doando sua própria vida.

Com grande estupor e alegria a Igreja canta esta extraordinária reviravolta da situação humana em Cristo: “Admirável intercâmbio! O criador da humanidade, assumindo corpo e alma, quis nascer de uma Virgem. Feito homem, nos doou sua própria divindade” (Oitava de Natal – Vésperas e Prefácio 3 de Natal).

A partir da contemplação deste centro do Mistério da Encarnação, a liturgia deste tempo faz emergir muitos aspectos da fé da Igreja, da sua esperança, do seu amor esponsal por Cristo, assim como de seu materno carinho e preocupação para com todas as pessoas humanas. Esses mesmos aspectos emergem e tornam a encontrar-se com ricas variações, como temas de fundo de uma grande sinfonia. As modalidades de expressar a fé (lex credendi) e as modalidades de celebrar o mistério de Cristo (lex orandi), se iluminam e se alimentam reciprocamente.

Natal é o tempo de nos aproximar-nos e ficarmos contemplando em silêncio o amor do Pai revelado no menino de Belém. Nele vislumbramos a antecipação profética de Jesus, cheio de compaixão pelos pobres e pecadores, e de Jesus que na cruz, com a última gota do seu sangue, derrama o Espírito renovador do universo.

A Páscoa com seu drama de amor sacrificado, de despojamento de toda glória divina até a descida nas profundezas da morte, e de vida nova pelo poder do Espírito, atua e revela plenamente o mistério do Natal.

A Igreja, como sábia mãe e mestra de vida, nos convida a mergulharmos neste mistério central da história da salvação. Em maneira excepcional nos proporciona a oportunidade de celebrar três vezes a eucaristia na noite-dia de Natal e de ficar contemplando o mistério do nascimento de Jesus por oito dias, quase como para saborear aos poucos o dom de Deus, gota à gota. O número oito, no simbolismo bíblico e litúrgico, diz plenitude. O dom de Deus em Cristo é total e inesgotável, porém nossa experiência dele é sempre parcial e incipiente. Os dias “normais” que seguem à festa guardam em si mesmos o dinamismo da plenitude, e transmitem à vida cristã de cada dia o sabor da festa autêntica, na espera da definitiva.

Para alimentar em profundidade o caminho espiritual pessoal e dar consistência e eficácia espiritual ao ministério pastoral, seria importante cultivar uma meditação atenta, de conjunto da liturgia eucarística – assim como da liturgia das horas – do inteiro ciclo da manifestação do Senhor, de Natal até a Epifania. O olhar da Igreja é essencialmente contemplativo, enquanto mira a transformação interior da pessoa e do mundo através da ação, do testemunho e do desenvolvimento da missão, que caracterizam toda verdadeira experiência da fé.

Redescobrir, através do mistério do Natal, a centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja e na própria vida pessoal significa também redescobrir o sentido do recolhimento e da tranquilidade interior, do silêncio que guarda o mistério de Deus, como Maria que “guardava esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lc 2,16; missa da aurora).

O clima de festa destes dias nas assembleias litúrgicas e nas famílias poderá ser autêntico se porventura faltar a doce companhia do silêncio interior que o torne fecundo?

Advento destacou a aliança de Deus com Israel, acompanhada pelas promessas e a espera do Messias. Igualmente destacou o caminho na história do novo povo de Deus que é a Igreja de Cristo, a qual vive em comunhão com ele, enquanto espera sua vinda definitiva.

Natal celebra o cumprimento das promessas de Deus e a participação de todas as criaturas humanas em Cristo à vida divina, como filhos e filhas.

Epifania, com a narração simbólica da visita e da adoração dos reis magos vindos do oriente, destaca que o dom de Deus em Cristo é estendido a todos os povos, culturas e pessoas.

As três etapas deste tempo litúrgico constituem um verdadeiro caminho espiritual, pessoal e comunitário, e destacam as atitudes espirituais que é preciso cultivar ao longo da vida.

Percorrendo este caminho com a Igreja e contemplando no presépio o menino Jesus, descobriremos, à luz da Palavra de Deus e da fé, que a manjedoura é algo mais significativo do que uma comovente reconstrução cênica do nascimento de Jesus na pobreza. É o lugar da presença permanente de Deus no meio de nós, e o lugar do nosso nascimento para a vida e para o estilo de Deus, como indivíduos e como comunidade: vida de amor e estilo de humildade, de nudez e de paz.

Os textos evangélicos de Lucas (missas da noite e da aurora), as leituras do profeta Isaías (missas da noite, da aurora e do dia), e as cartas de Paulo (missas da noite, da aurora e do dia), compõem na maior parte a Liturgia da Palavra das missas do Natal. Nos introduzem na contemplação, com um movimento progressivo, à presença cuidadosa e fiel de Deus na história para seus filhos e filhas. Mostram como ele realiza seu desígnio de amor até o cumprimento pleno em Cristo de maneira unitária, progressiva, e sempre surpreendente, além das expectativas dos homens e das mulheres.

O Novo Testamento, afirmava Santo Agostinho, está escondido no Antigo, e o Antigo se torna claro plenamente no Novo”. Este é o critério hermenêutico, iluminado pela fé, segundo o qual os textos dos profetas acompanham, com maravilhosa sintonia, as leituras dos Evangelhos e as cartas do apóstolo na liturgia do Natal. Em nós “acontece” ainda esta palavra de vida e encontra seu cumprimento. Pois, afirma São Gregório Magno, “A Palavra de Deus cresce com quem a lê”.

O Evangelho de João, proclamado na missa do dia, nos faz subir até o mistério da comunhão íntima do Verbo divino com o Pai, e nos faz vislumbrar quanto próximo a nós se tornou o mesmo Verbo de Deus, ao assumir nossa condição humana e nos doar sua própria vida divina. “A Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).

Esta mesma Palavra, que é o próprio Jesus, Verbo de Deus encarnado, nos revela o coração do Pai e nos introduz na vida dele pelo dom do seu Espírito. “A todos que a receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus … E nós contemplamos a sua glória, glória que recebe do Pai como Filho unigénito, cheio de graça e de verdade… Da sua plenitude todos nós recebemos graça por graça” (Jo, 1, 12; 14; 16).

Natal, tempo da manifestação do Senhor na fraqueza humana, tempo de contemplação e de estupor frente a este mistério de amor, tempo de louvor e agradecimento, tempo de empenho, de testemunho e de serviço no estilo potente e humilde de Deus.

“Ó Deus, que admiravelmente criastes o ser humano e mais admiravelmente restabelecestes a sua dignidade, dai-nos participar da divindade do vosso filho, que se dignou assumir a nossa humanidade” (Oração da missa do dia)

 
 
 

Como os católicos hoje, os cristãos dos primeiros séculos eram acusados de idolatria por venerarem os Santos. Mas, em vez dos grupos heréticos (que tanto se difundiram após o século XVI), quem propagava esta mentira era o rabinismo judaico, isto é, os judeus que não abraçaram a fé cristã.

Talvez o primeiro texto que dá testemunho da veneração dos santos como ainda nós católicos praticamos hoje, com honra, homenagem, celebração dos heróis e modelos da fé, seja a Carta que a Igreja de Esmirna enviou à Igreja de Filomélio, narrando o Martírio de São Policarpo (Bispo de Esmirna e discípulo do Apóstolo São João). Este documento de meados do segundo século é o texto hagiográfico mais antigo que se tem notícia.

A Carta nos dá testemunho que após o martírio de São Policarpo, os cristãos de Esmirna tentaram conseguir a posse de seu corpo, para dar ao mártir um sepultamento adequado. Mas, foram impedidos pelas autoridades que eram influenciadas pelos judeus rabínicos, que diziam que os cristãos queriam o corpo de São Policarpo para adorá-lo como faziam com Cristo.

Na carta é interessante o comentário que os cristãos de Esmirna fazem por causa da ignorância que os judeus tinham sobre a diferença da adoração que os cristãos prestavam somente a Nosso Senhor Jesus Cristo e a veneração prestada aos Santos. Semelhantes a nós católicos dos últimos séculos, os católicos do passado escreveram:

Ignoravam eles que não poderíamos jamais abandonar Cristo, que sofreu pela salvação de todos aqueles que são salvos no mundo, como inocente em favor dos pecadores, nem prestamos culto a outro. Nós o adoramos porque é o Filho de Deus. Quanto aos mártires, nós os amamos justamente como discípulos e imitadores do Senhor, por causa da incomparável devoção que tinham para com seu rei e mestre. Pudéssemos nós também ser seus companheiros e condiscípulos!” (Martírio de Policarpo 17:2 +- 160 D.C).

E mais adiante esta importantíssima prova da fé primitiva, dá testemunho do costume que a Igreja tinha em guardar uma data, para celebrar a memória dos Santos, como Ela faz até hoje:

Vendo a rixa suscitada pelos judeus, o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era costume. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos [de Policarpo], mais preciosos do que pedras preciosas e mais valiosos do que o ouro, para colocá-lo em lugar conveniente. Quando possível, é aí que o Senhor nos permitirá reunir-nos, na alegria e contentamento, para celebrar o aniversário de seu martírio, em memória daqueles que combateram antes de nós, e para exercitar e preparar aqueles que deverão combater no futuro.” (Martírio de Policarpo 18 +- 160 D.C)

Portanto, a Veneração dos Santos, não é idolatria e sim uma legítima e piedosa doutrina cristã que tem berço na Tradição da Igreja nascente.

 
 
 

LA VALLETTA, domingo, 18 de abril de 2010 (ZENIT.org).- Encontrar Jesus supõe “uma grande experiência de amor” que muda a vida, afirmou o Papa Bento XVI na tarde deste domingo aos jovens de Malta e Gozo, com quem celebrou um encontro no porto de La Valletta.

Esse amor expulsa o temor, afirmou o Papa. “Por isso, digo a todos: não tenham medo!”. “Não tenham medo de ser amigos íntimos de Cristo!”, exclamou em maltês.

“Certamente encontrarão oposição à mensagem do Evangelho” – prosseguiu –, constatando que “a cultura atual, como toda cultura, promove ideias e valores que talvez sejam contrários aos vividos e pregador por nosso Senhor”.

“Frequentemente se apresentam com um grande poder de persuasão, reforçados pelos meios de comunicação e a pressão social.”

“Por isso digo a vocês: não tenham medo, mas se alegrem de Seu amor por vocês, confiem n’Ele, respondam a Seu convite a ser discípulos, encontrem alimento e ajuda espiritual nos sacramentos da Igreja”, disse aos jovens.

A voz dos jovens

O pontífice chegou pelo mar no catamarã “São Paulo”, acompanhado por uma delegação de jovens. A embarcação entrou no porto escoltada por uma frota de pequenos barcos típicos das ilhas maltesas.

Após a leitura evangélica da passagem do jovem rico (Mc 10, 17-22), intervieram sete jovens, que pediram ao Papa conselho sobre como viver ante situações atuais difíceis.

Eles perguntaram sobre o desejo de “buscar e viver a verdade”, sobre a marginalização juvenil, a vocação conjugal e sobre a vida religiosa.

A força do amor

Em sua intervenção, o Papa quis recordar aos presentes a vida de São Paulo, de quem neste ano se celebra o 1950° aniversário do naufrágio no arquipélago maltês.

“Em uma época, ele era inimigo da Igreja e fez de tudo para destruí-la –observou. Enquanto estava de viagem para Damasco, com a intenção de eliminar cada cristão que encontrasse, o Senhor lhe apareceu em uma visão”.

“Toda sua vida se transformou. Converteu-se em um discípulo, até ser um grande apóstolo e missionário”.

“Cada encontro pessoal com Jesus é uma grande experiência de amor”, disse o Papa. “Deus nos ama a cada um, com uma profundidade e uma intensidade que não podemos sequer imaginar. Ele nos conhece intimamente, conhece cada uma de nossas capacidades e cada um de nossos erros”.

“Posto que nos ama tanto, deseja purificar-nos de nossas falhas e fortalecer nossas virtudes de maneira que possamos ter vida em abundância. Ainda que nos chame a atenção quando há algo em nossa vida que lhe desagrada, não nos rejeita, mas nos pede para mudar e ser mais perfeitos”.

Por isso, exortou, “aos que desejam seguir a Cristo, como esposos, padres, sacerdotes, religiosos ou fieis leigos que levam a mensagem do Evangelho ao mundo, digo: não tenham medo”.

(Roberta Sciamplicotti)

 
 
 
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