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Entrevista ao professor Manfred Hauke, presidente da Sociedade Mariológica Alemã

LUGANO, terça, 30 de maio de 2006 (ZENIT.org).- A Igreja é tão misógina como sustenta Dan Brown na novela «O Código da Vinci»?

A esta pergunta responde nesta entrevista concedida a Zenit Manfred Hauke, sacerdote, professor de Teologia Dogmática da Faculdade de Teologia de Lugano e presidente da Sociedade Mariológica Alemã.


–É verdade que a Igreja demonizou o pentáculo, símbolo de Vênus?

–Manfred Hauke: Este é um típico exemplo da falta de credibilidade histórica da novela, apesar de que o autor sustente: «Todas as descrições de obras de arte e arquitetônicas, de documentos e rituais secretos contidas nesta novela correspondem à verdade». Basta consultar os dicionários adequados para verificar que já os dados básicos não casam em nada com o que ele sustenta sobre o pentáculo [estrela de cinco pontas inscrita em um círculo].

Não parece que se conheça com exatidão o original do sinal, ainda que há testemunho histórico desde 2000 a.C., no Egito. Não parece evidente uma conexão astronômica com o planeta Vênus. Os pitagóricos usavam o pentáculo como sinal salvífico, que relacionavam com a própria «saúde». Partindo desta tradição, o pentáculo se converte, desde o século XVI, em um símbolo dos médicos e é relacionado por Cornélio a Lapide com as cinco feridas de Cristo.

No exército bizantino (portanto já na Igreja do primeiro milênio), os combatentes de vanguarda levavam pequenos escudos com o «pentalpha» (um pentáculo tricolor), como sinal de «salvação». Se a Igreja antiga «dos primeiros séculos» tivesse feito do pentáculo um símbolo demoníaco, tal uso não teria sido possível. Por outro lado, o pentáculo aparece nada menos que como sinal mágico e apotropaico (capaz de afastar os espíritos malignos) na gnose antiga e na cabala judaica da Idade Média. A este contexto se remonta sua relação com o ocultismo moderno.

Portanto, não tem nenhum sério fundamento a idéia sustentada por Brown de que a Igreja teria alterado, com calculada malícia, o símbolo da deusa Vênus no sinal do diabo. O autor reivindica expressamente para si a fantasia, mas, em uma novela que pretende ser histórica, esta não é uma justificação a priori para qualquer extravagância, mas concerne só à criatividade da trama dos fatos, os quais devem ser ao contrário narrados com a mais rigorosa compatibilidade e coerência com o real marco histórico-cultural.

–Mais séria parece contudo a acusação contra a Igreja por causa da caça das bruxas.

–Manfred Hauke: Com efeito, este é o único ponto que goza de algum fundamento histórico. Recordando o «Malleus maleficarum», Langdon sustenta: «Em trezentos anos de caça de bruxas, a Igreja queimou na fogueira o surpreendente número de cinco milhões de mulheres». A culpa da caça às bruxas vem portanto inteiramente atribuída à Igreja (católica), que teria buscado assim destruir «mulheres que pensam livremente».

Nestas afirmações, há um pouco de verdade, mas condimentada com exageros enormes e incorreções de fundo. Para aproximar-se de maneira adequada ao fenômeno, há que partir da realidade obscura da magia que pretende obter efeitos sobre humanos mediante o recurso a poderes ocultos, ligados à intervenção de demônios.

Esta prática, lamentavelmente de novo bastante difundida na atualidade, é objeto de uma explícita e severa condenação já no Antigo Testamento, onde se prevê a pena capital para a bruxaria (a lei mosaica contempla penas gravíssimas também para muitos outros delitos: Cf. Êxodo 22, 17). Este castigo é um daqueles previstos pelo Código de Hamurabi, para 2000 A.C., na antiga Babilônia. Quem segue as pesquisas recentes sobre o fenômeno e conhece as experiências dos exorcistas não pode negar que a bruxaria existe hoje com todos seus efeitos nefastos, que podem ser combatidos eficazmente pelos meios espirituais da Igreja.

Naturalmente há que ter cuidado de não confundir intervenções reais do maligno com a superstição e a credulidade das pessoas, que vêem o rabo do diabo onde na verdade não existe. A deplorada «caça às bruxas» não foi causada simplesmente pela crença na bruxaria, mas por uma histeria coletiva desencadeada ao início da era moderna, e pelos métodos absolutamente inaceitáveis empregados para detectar bruxas e bruxos. A tortura com efeito levava a «confissões» de delitos inventados, sugeridos pelos acusadores. A responsabilidade direta de ter mandado à fogueira supostos maléficos é da autoridade pública. A histeria coletiva (que culmina nos anos 1550-1650), estendia-se sobretudo pelos países germânicos e eslavos e muito menos no âmbito mediterrâneo.

Recentes pesquisas permitiram revisar os números relativos às pessoas julgadas como bruxas: segundo o estudioso Gustav Henningsen, no transcurso de quatro séculos (quando se praticava a perseguição ativa da bruxaria) foram mortas 50.000 pessoas (e não cinco milhões como sustenta Brown), dos quais cerca de 20% eram homens. O número foi inferior em geral nos países católicos, não minados pela reforma protestante. Na Espanha, Itália e Portugal, de meados do século XVI ao final do século XVIII, houve 12.000 processos contra supostas bruxas e bruxos; só 36 pessoas, nestes milhares de processos, foram submetidas à pena capital. Em Roma, morreram menos de cem pessoas pelo delito de bruxaria. O primeiro caso que conhecemos foi em 1426 e o último em 1572. A imensa maioria dos processos da Inquisição Romana encerrou por falta de provas. Durante os processos contra as bruxas se cometeram erros tremendos, mas isto não justifica, no plano histórico, a difusão de uma lenda negra, à maneira de Brown, que vê como única responsável a «Igreja».

–Dan Brown acusa também a Igreja de ter provocado a passagem do «matriarcado» ao «patriarcado». Há algo de verdade nisto?

–Manfred Hauke: Segundo a revelação bíblica, a relação original harmoniosa existente entre o homem e a mulher foi destruída pelo pecado original. A confiança recíproca corre o risco então de ceder a um antagonismo dentro do casal, que vai com freqüência em detrimento da mulher (Cf. Gênesis 3, 16). A opressão da mulher, feito seguramente vituperável, não há que confundi-la com a especial responsabilidade que corresponde ao marido, o qual, segundo o apóstolo Paulo, é «cabeça» da família (cf 1 Coríntios 11, 3; Efésios 5, 21-33). Esta tarefa, na explicação que dá dela o apóstolo, deriva da criação e deve conceber-se a partir do amor de Cristo, que se sacrificou por sua Igreja. O indicado nas fontes bíblicas encontra correspondência no dado incontrovertível de que as mais diversas funções de guia, em toda a história humana, foram confiadas com mais freqüência a homens que a mulheres. Isto vale inclusive para os países marxistas que tentavam anular a diferença social entre homem e mulher. Um matriarcado, entendido no sentido de uma guia de toda a sociedade como prerrogativa das mulheres, não existiu nunca de fato. É portanto incorreto falar de uma passagem do «matriarcado» ao «patriarcado» e imputá-la ao cristianismo, como sustenta Brown.

–Em que sentido Dan Brown segue as correntes feministas?

–Manfred Hauke: No feminismo radical, encontramos correntes diversas, com freqüência contrapostas. Há um enfoque que minimiza a diferença entre homem e mulher, propugnando um ideal andrógino: é o feminismo igualitário. A outra tendência exaspera a distinção entre os sexos, declarando contudo superior a mulher. No âmbito religioso, este feminismo «ginocêntrico» se manifesta na veneração a uma «deusa», colocando na origem da história humana um matriarcado. Ambos feminismos não concordam com uma sã antropologia: o feminismo igualitário não respeita a diferença entre homem e mulher, ainda reivindicando sua igual dignidade, enquanto que o feminismo «ginocêntrico» nega justo o igual valor dos sexos, ainda exaltando sua diferença. O aspecto que resulta deficitário em ambos enfoques é a concomitância entre igual dignidade e complementaridade, típica da antropologia cristã.

–Mas não pensa que também na Igreja houve injustas discriminações das mulheres?

–Manfred Hauke: A relação entre homem e mulher se funda na criação, que é coisa boa, mas está continuamente ameaçada pelas conseqüências do pecado. Por esta razão, também na Igreja houve (e às vezes há ainda) injustas discriminações com respeito às mulheres. Falou disso João Paulo II, em sua «Carta às Mulheres»: «Infelizmente somos herdeiros de uma história de enormes condicionamentos que, em todos os tempos e em cada lugar, fizeram difícil o caminho da mulher, desprezada em sua dignidade, esquecida em suas prerrogativas, marginalizada freqüentemente e inclusive reduzida à escravidão. Isto lhe impediu ser profundamente ela mesma e empobreceu a humanidade inteira de autênticas riquezas espirituais. Não seria certamente fácil assinalar responsabilidades precisas, considerando a força das sedimentações culturais que, ao longo dos séculos, plasmaram mentalidades e instituições. Mas se nisto não faltaram, especialmente em determinados contextos históricos, responsabilidades objetivas inclusive em não poucos filhos da Igreja, sinto sinceramente. Que este sentimento se converta para toda a Igreja em um compromisso de renovada fidelidade à inspiração evangélica, que precisamente sobre o tema da libertação da mulher de toda forma de abuso e de domínio tem uma mensagem de perene atualidade, que brota da própria atitude de abertura, de respeito, de acolhida e de ternura. Deste modo honrava na mulher a dignidade que tem desde sempre, no projeto e no amor de Deus» (Carta às Mulheres, no 3).

–Não tem contudo a impressão de que a imagem bíblica de Deus fica representava preferencialmente com símbolos «masculinos»?

–Manfred Hauke: Diria que sim, ainda que se encontram também marcas «femininas» quando, por exemplo, a ação de Deus se compara à ternura de uma mãe (Cf… Isaías 49, 15): «Pode a mãe esquecer-se de seu filho, até o ponto de não se comover pelo filho de suas entranhas? Ainda que estas mulheres se esquecessem, eu jamais te esquecerei». O acento «masculino» dado à imagem de Deus se funda, para o cristianismo, na revelação de Jesus que fala de nosso «Pai nos céus» (e não de «nossa Mãe na terra»). O Filho de Deus se encarnou no sexo masculino, um fato destinado a permanecer também na corporeidade transfigurada. O Espírito Santo ao contrário leva em si algumas marcas que, desde o ponto de vista simbólico, poderiam ser aproximadas a aspectos femininos, ainda que estes não possam ser exagerados em uma representação «feminina», desviada, do Espírito Santo.

 
 
 

Entrevista com Dom Odilo Pedro Scherer, bispo auxiliar de São Paulo e secretário-geral da CNBB

BRASÍLIA, segunda-feira, 29 de maio de 2006 (ZENIT.org).- «Podemos dizer que ?O Código Da Vinci? é um escrito apócrifo que, 2000 anos depois de Jesus, escreve uma história fantasiada sobre Jesus e o início da Igreja, em total contraste com os fatos históricos», afirma o secretário-geral da Conferência episcopal brasileira.

Segundo Dom Odilo Pedro Scherer, a «pregação dos apóstolos, no Novo Testamento, é para nós a única referência de fé sobre Jesus Cristo. Ou será que uma história inventada pela fantasia, 2000 anos depois dos fatos, merece mais crédito?»

Nesta entrevista à assessoria de imprensa da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), difundida esta segunda-feira, o secretário-geral do organismo episcopal orienta sobre o filme e o livro «O Código Da Vinci».

–O que é O Código Da Vinci?

–D. Odilo P. Scherer: É um romance escrito por Dan Brown, um autor norte-americano. Do livro foi feito um filme. Falou-se muito do livro e agora, também do filme, pois ambos trazem afirmações errôneas sobre Jesus Cristo, e Igreja e instituições ligadas à Igreja. É importante não esquecer que se trata de uma obra de ficção e as afirmações nela contidas devem ser tidas como fantasia, e não como argumentos de história. –O que pode confundir os leitores ou quem assistir ao filme?

–D. Odilo P. Scherer: Quem pensar que o filme está retratando a história já está confundindo as coisas desde o início. O livro é ficção e o filme também é uma história inventada. Embora retrate personagens reais e faça alusões a fatos e instituições reais, a obra faz afirmações a respeito de fatos, pessoas e instituições que não têm base na história e não são verdadeiras. Mas, justamente, aqui é que está o veneno, pois Jesus e outros personagens do romance são reais; fatos e instituições que aparecem também são reais e, por vezes, fica difícil distinguir entre afirmação histórica e ficção; as pessoas são induzidas a colocar em dúvida a honestidade da Igreja na transmissão dos seus ensinamentos. É importante manter bem clara distinção entre os fatos, personagens e instituições reais e as afirmações feitas sobre eles, que são pura fantasia, sem base na história.

–Onde podemos encontrar a verdade sobre Jesus e o início da Igreja?

–D. Odilo P. Scherer: Aquilo que sabemos sobre Jesus está contido nos quatro Evangelhos e nos demais escritos do Novo Testamento, na Bíblia. Outros ?evangelhos? também foram escritos, até mesmo séculos depois da morte de Cristo; esses, desde logo, não foram tidos por verdadeiros, porque não estavam de acordo com aquilo que chamamos ?tradição apostólica? e, claramente, eram reinterpretações fantasiadas e tendenciosas dos fatos ligados à vida de Jesus. Esses ?evangelhos? foram chamados apócrifos e suas afirmações não são merecedoras de fé. O critério foi sempre o da pregação dos apóstolos sobre Jesus, pois eles conheceram pessoalmente o Mestre e foram testemunhas oculares dos fatos. Escritos apócrifos sempre existiram e não foram escondidos pela Igreja. Alguns foram redescobertos recentemente. Eles não têm a mesma validade dos quatro Evangelhos canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João e dos demais escritos do Novo Testamento. Podemos dizer que o Código da Vinci é um escrito apócrifo que, 2000 anos depois de Jesus, escreve uma história fantasiada sobre Jesus e o início da Igreja, em total contraste com os fatos históricos. Sobre as origens do Cristianismo e da Igreja, há farto material histórico, que pode ser pesquisado e lido.

–E o que dizer da afirmação que ?Jesus só se tornou divino? a partir do Concílio de Nicéia, em 325 d.C?

–D. Odilo P. Scherer: Essa afirmação aparece no filme. Ela não é verdadeira. O concílio de Nicéia, em 325 d.C., de fato, fez a afirmação solene da divindade de Jesus Cristo, proclamando-a como dogma, ou seja, ?verdade de fé? a ser aceita pelos cristãos. Mas esta verdade já era professada desde o começo pelos apóstolos e pelos primeiros cristãos. É só ler os Evangelhos e os demais escritos do Novo Testamento, que retratam o ensinamento de Jesus e a pregação apostólica. Os apóstolos tinham a firme convicção de que Jesus era o Filho de Deus e estavam dispostos a dar a vida por esta verdade. Eles não a inventaram, mas era algo que se lhes impunha com tanta força, que eles não a puderam negar. Portanto, os apóstolos e, com eles a primeira comunidade cristã, tinham a clara convicção de que Jesus era o Filho de Deus. Algum tempo depois apareceram grupos que negavam essa verdade. Começaram as heresias, que estavam em contraste com a pregação dos apóstolos. Por isso foi necessário reunir os responsáveis pela Igreja para discernir sobre a questão e o concílio de Nicéia fez a afirmação solene: ?É verdade central da fé da Igreja que Jesus é o Filho de Deus. Foi assim que os apóstolos testemunharam e ensinaram?. Essa verdade não foi inventada pelo Concílio de Nicéia, como se afirma no filme. Isso não condiz com os documentos históricos. Os cristãos não devem se deixar enganar.

–Em relação à afirmação dogmática da Divindade de Jesus, como argumentar teologicamente?

–D. Odilo P. Scherer – A verdade sobre a divindade de Jesus Cristo é fundamental para a Igreja, que tem consciência de que isso não significa pouca coisa e deixa em crise a lógica dos raciocínios humanos. Ele não é apenas um grande profeta ou o fundador de uma religião. A profissão de fé na divindade de Jesus Cristo vem dos apóstolos, aos quais Jesus mesmo se manifestou como Filho de Deus ao longo de sua e após sua ressurreição dos mortos. A Igreja professa que Jesus Cristo é o Filho de Deus feito homem; sem deixar sua natureza divina, viveu no mundo como verdadeiro homem, sem o esplendor da divindade. Veio ao mundo para se tornar solidário com cada ser humano e manifestar a todos o amor misericordioso de Deus; ele reconciliou a humanidade com Deus e abriu o caminho para Deus a todos os que crêem nele e o seguem. A afirmação da divindade de Jesus é central para a fé da Igreja.

–Quais seriam os principais critérios de orientação para a pessoa que assiste ao “Código Da Vinci”?

–D. Odilo P. Scherer: Quem quiser ler o livro ou assistir ao filme deve fazer um discernimento criterioso e manter clara a distinção entre verdade histórica e fantasia. E não deveria deixar de ler também os Evangelhos e os demais escritos do Novo Testamento. Se tiver a possibilidade, procure se informar com quem pode esclarecer alguma dúvida. Veja o que a Igreja ensina sobre Jesus no Catecismo. Seria até um exercício interessante confrontar as afirmações do Código da Vinci, com as dos Evangelhos, para se dar conta das diferenças. A pregação dos apóstolos, no Novo Testamento, é para nós a única referência de fé sobre Jesus Cristo. Ou será que uma história inventada pela fantasia, 2000 anos depois dos fatos, merece mais crédito? Não é pensável que alguém possa ?descobrir? a verdade sobre Jesus somente agora. Tantas pessoas ilustres, gente simples e sincera, grandes pensadores, escritores e santos sempre creram como os apóstolos pregaram e a Igreja transmitiu! Ninguém se deixe enganar, achando que a Igreja escondeu a verdade. Pelo contrário, o que a Igreja mais gostaria é que todos chegassem a conhecer bem a verdade sobre Jesus Cristo.

–Existe fundamento bíblico para afirmar uma relação de marido e mulher entre Jesus e Maria Madalena?

–D. Odilo P. Scherer: O Código da Vinci traz essa afirmação e também que Jesus teve filhos com Madalena; que a descendência de Jesus teria continuado ao longo da história e ainda hoje existiria. Isso é pura fantasia, sem nenhum fundamento bíblico e histórico. Maria Madalena foi uma discípula de Jesus, como outras mulheres também. É sobretudo no Evangelho de São João que ela aparece em várias passagens. Existe uma Maria, da qual Jesus expulsou sete demônios e alguns estudiosos acham que esta poderia ser Maria Madalena. Ela também é identificada com a pecadora bem conhecida na cidade, que perfuma os pés de Jesus e os enxuga com seus cabelos durante um banquete. Maria Madalena aparece claramente no contexto da Ressurreição, quando ela vai ao túmulo para ungir o corpo de Jesus, no terceiro dia após sua morte na cruz. Jesus se manifesta vivo a ela e lhe pede que vá anunciar aos discípulos que ele ressuscitou. O personagem Maria Madalena e também sua relação com Jesus sempre despertaram a curiosidade e a fantasia ao longo da história; e também foram explorados de maneira ideológica e indevida. A afirmação de que ela tenha sido mulher de Jesus não tem base nenhuma nos Evangelhos. Ela foi discípula de Jesus, como outras mulheres que o seguiam e das quais os Evangelhos também falam.

–O filme cita um certo ?Evangelho de Filipe?, que fala do amor especial de Jesus por Madalena. Fala que ?a palavra perfeita concebe e dá nascimento por meio de um beijo?. O que é o ?Evangelho de Filipe? e o que dizer dessa interpretação da relação mestre-discípula como se fosse a relação marido-mulher?

–D. Odilo P. Scherer: O ?Evangelho de Filipe? também é um apócrifo e não retrata a pregação e o testemunho dos apóstolos sobre Jesus. A Igreja nunca deu crédito aos apócrifos, não considerou verdadeiras as suas afirmações sobre Jesus e as origens cristãs. Era necessário estabelecer um critério para saber quais escritos podiam ser levados a sério e quais não, pois nos primeiros séculos apareciam muitas histórias sobre Jesus. Aliás, ainda hoje, como o próprio Código Da Vinci. O critério é a pregação e o ensinamento dos apóstolos, que conheceram Jesus de perto e foram as testemunhas oculares de sua pessoa e de suas obras. Seu testemunho está relatado nos 4 Evangelhos canônicos e nos demais escritos do Novo Testamento. A relação de Jesus com Madalena, como aparece no ?Evangelho de Filipe?, não concorda com a dos Evangelhos canônicos.

–O Código Da Vinci fala do Santo Graal. Existe alguma sustentação histórica para isso?

–D. Odilo P. Scherer: De fato, a trama do Código da Vinci tem no Santo Graal um elemento central. Ninguém se iluda, o Santo Graal nunca existiu. É uma lenda medieval, que aparece reciclada de vez em quando em romances e vive na fantasia popular. O Santo Graal não existiu. É uma lenda.

–Que esclarecimentos poderiam ajudar as pessoas a conhecerem realmente o Opus Dei hoje?

–D. Odilo P. Scherer: O Opus Dei (Obra de Deus) aparece no Código da Vinci como uma organização malvada e sem escrúpulos, que faz de tudo para manter o segredo em torno da verdadeira identidade de Jesus, isto é, que ele nunca foi o Filho de Deus, que casou com Madalena e teve descendentes com ela, que vivem ainda hoje. Isso é pura fantasia. O Opus Dei é uma Associação de católicos recente, que pode ser conhecida através dos escritos do seu fundador, São José Maria Escrivá, ou através das pessoas que aderem a essa Associação reconhecida pela Igreja, à qual aderem muitos leigos, padres, religiosos e bispos. Eles estão presentes em muitos âmbitos da sociedade, com a motivação da santificação pessoal e do mundo através da vida santa no trabalho e nas coisas de cada dia. Não vamos dar crédito a fantasias maldosas e carregadas de veneno. É impressionante como certas fantasias passam para o domínio público como se fossem verdadeiras. A imagem que o Código Da Vinci passa sobre o Opus Dei é maldosa e muito injusta.

–O filme fala do ?sagrado feminino?. O que vem a ser isso?

–D. Odilo P. Scherer: O sagrado feminino é um mito presente na história das religiões e na cultura dos povos. Em poucas palavras, esse mito afirma que o ser feminino, especialmente a mulher, tem algo de sagrado, de divino. Por isso, em muitas religiões são cultuadas deusas e o feminino aparece divinizado. Nesse mito, não tudo está errado. Mas, por que falar somente do sagrado feminino e não também do masculino? Na verdade, segundo a fé bíblica e a antropologia cristã, tanto o homem como a mulher são ?imagem e semelhança de Deus?. Não só o masculino, nem só o feminino. Não se trata, porém, da divinização do ser humano, mas de afirmar que homem e mulher são criaturas maravilhosas e têm algo em comum com Deus. Por isso também são capazes de acolher o divino e de entrar em relação com ele. O ser humano não está fechado para Deus, nem impossibilitado de se comunicar com Ele; nem Deus está impossibilitado de se comunicar com o ser humano. Deus não vive isolado, distante e incomunicável com o ser humano e o mundo. Toda pessoa tem a possibilidade de encontrar e acolher Deus em sua vida e de entrar em diálogo com ele. Mas não se trata da divinização do ser humano. Deus não precisa anular o que é humano para estabelecer contato com sua criatura, mas valoriza o ser humano ao tal ponto, que se lhe manifesta na condição dele. É justamente isso que afirmamos com a fé no ?mistério da encarnação? do Filho de Deus, que aparece humano na pessoa de Jesus Cristo. O humano continua humano, mas é transfigurado, transformado e enriquecido pelo divino, que vem ao seu encontro. Deus valoriza o homem enquanto homem e a mulher, enquanto mulher.

–Quem são os templários citados por Dan Brown?

–D. Odilo P. Scherer: Foram uma Ordem militar na Idade Média, que tinha inicialmente a missão de defender os lugares santos para assegurar o direito de peregrinação e veneração aos cristãos. Eram religiosos e faziam os votos de pobreza, obediência e castidade. Mais tarde foram extintos sob acusações falsas de praticarem a feitiçaria e a heresia. O rei da França estava interessado nas riquezas que a Ordem tinha acumulado ao longo dos séculos. Sobre eles, pode-se ler nos manuais de história e nas enciclopédias. O que o Código Da Vinci afirma sobre os templários é pura fantasia.

–Poderíamos dizer que o filme está apoiado numa grande campanha de marketing e suas afirmações não têm valor histórico? Trata-se apenas de uma obra de entretenimento?

–D. Odilo P. Scherer: De fato, ninguém queira encontrar no Código Da Vinci verdades históricas. Trata-se de um romance e o autor soube reunir habilmente uma série de questões e ?mistérios?, que aguçam a fantasia e a curiosidade das pessoas. Pena que a obra mexe, de maneira desrespeitosa, com tanta coisa séria e deixa no ar a suspeita de que a Igreja seja falsificadora da verdade e enganadora do povo. Isso é injusto! De resto, para os vendedores de ilusões, quanto mais polêmica, melhor. Isso vende mais! É uma questão de marketing. Mas é o caso de perguntar: Para fazer dinheiro, qualquer expediente pode ser usado? Isso é honesto?

–A Igreja considera os Meios de Comunicação Social de maneira positiva, como maravilhas da técnica, e insiste que sejam empregados em favor da verdade, justiça, solidariedade e paz.

–D. Odilo P. Scherer: Os Meios de Comunicação são maravilhosos. Mas não passam de meios, que dependem das intenções de quem faz uso deles. O seu uso também deve obedecer a critérios éticos, como qualquer atividade humana. A mídia pode ser usada para ?criar verdades?, de maneira distorcida e artificial, de acordo com interesses determinados. Por isso, os receptores devem manter vivo o senso crítico, denunciando o mau uso desses meios e a comunicação distorcida da verdade. Todos precisamos estar atentos para não nos deixar ?fazer a cabeça? pela mídia. E não se deve esquecer que a primeira e mais importante comunicação continua a ser aquela da relação humana direta, do encontro de pessoas, do diálogo, da partilha de sentimentos, afetos, idéias e exemplos. A comunicação que mais atinge seus objetivos é aquela que coloca em sintonia corações, inteligências e vontades.

 
 
 

Resumidamente, podemos dizer que Nossa Senhora é Mãe de Deus e não da divindade. Ou seja, Ela é Mãe de Deus por ser Mãe de Nosso Senhor, pois as duas naturezas (a divina e a humana) estão unidas em Nosso Senhor Jesus Cristo.

A heresia de negar a maternidade divina de Nossa Senhora é muito anterior aos protestantes. Ela nasceu com Nestório, então bispo de Constantinopla. Os protestantes retomaram a heresia que havia sido sepultada pela Igreja de Cristo.

Mas, afinal, por que Nossa Senhora é Mãe de Deus?

Vamos provar pela razão, pela Sagrada Escritura e pela Tradição que Nossa Senhora é Mãe de Deus.


A pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo

Se perguntarmos a alguém se ele é filho de sua mãe, se esta verdadeiramente for a mãe dele, de certo nos lançará um olhar de espanto. E teria razão.

O homem, como sabemos, é composto de corpo e alma, sendo esta a parte principal do seu ser, pois comunica ao corpo a vida e o movimento.

A nossa mãe terrena, todavia, não nos comunica a alma, mas apenas o nosso corpo. A alma é criada diretamente por Deus. A mãe gera apenas a parte material deste composto, que é o seu ser. E como é que alguém pode, então, afirmar que a pessoa que nos dá à luz é nossa mãe?

Se fizéssemos essa pergunta a um protestante sincero e instruído, ele mesmo responderia com tranqüilidade: “é certo, a minha mãe gera apenas o meu corpo e não a minha alma, mas a união da alma e do corpo forma este todo que é a minha pessoa; e a minha mãe é mãe de minha pessoa. Sendo ela mãe de minha pessoa, composta de corpo e alma, é realmente a minha mãe.”

Apliquemos, agora, estas noções de bom senso ao caso da Maternidade divina de Maria Santíssima.

Há em Jesus Cristo “duas naturezas”: a natureza divina e a natureza humana. Reunida, constituem elas uma única pessoa, a pessoa de Jesus Cristo.

Nossa Senhora é Mãe deste única pessoa que possui ao mesmo tempo a natureza divina e a natureza humana, como a nossa mãe é a mãe de nossa pessoa. Ela deu a Jesus Cristo a natureza humana; não lhe deu, porém, a natureza divina, que vem unicamente do Padre Eterno.

Maria deu, pois, à Pessoa de Jesus Cristo a parte inferior – a natureza humana, como a nossa mãe nos deu a parte inferior de nossa pessoa, o corpo.

Apesar disso, nossa mãe é, certamente, a mãe da nossa pessoa, e Maria é a Mãe da pessoa de Jesus Cristo.

Notemos que em Jesus Cristo há uma só pessoa, a pessoa divina, infinita, eterna, a pessoa do Verbo, do Filho de Deus, em tudo igual ao Padre Eterno e ao Espírito Santo. E Maria Santíssima é a Mãe desta pessoa divina. Logo, ela é a Mãe de Jesus, a Mãe do Verbo Eterno, a Mãe do Filho de Deus, a Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a Mãe de Deus, pois tudo é a mesma e única pessoa, nascida do seu seio virginal.

A alma de Jesus Cristo, criada por Deus, é realmente a alma da pessoa do Filho de Deus. A humanidade de Jesus Cristo, composta de corpo e alma, é realmente a humanidade do Filho de Deus. E a Virgem Maria é verdadeiramente a Mãe deste Deus, revestido desta humanidade; é a Mãe de Deus feito homem.

Ela é a Mãe de Deus – “Maria de qua natus est Jesus”: “Maria de quem nasceu Jesus” (Mt 1, 16).

Note-se que Ela não é a Mãe da divindade, como nossa mãe não é mãe de nossa alma; mas é a Mãe da pessoa de Jesus Cristo, como a nossa mãe é mãe de nossa pessoa.

A pessoa de Nosso Senhor é divina, é a pessoa do Filho de Deus. Logo, por uma lógica irretorquível, Ela é a Mãe de Deus.

A conseqüência da negação da maternidade divina é a negação da Redenção

Agora, qual é o fundo do problema dessa heresia? Analisemos alguns pormenores e algumas conseqüências de se negar a maternidade divina de Nossa Senhora.

Não foram os protestantes os primeiros a rejeitar o título de “Mãe de Deus” à Nossa Senhora.

Foi Nestório, o indigno sucessor de S. João Crisóstomo, na sede de Constantinopla, o inventor da absurda negação.

A subtilidade grega havia suscitado vários erros a respeito da pessoa de Jesus Cristo!

Sabélio pretendeu aniquilar a personalidade do Verbo. Ario procurou arrebatar a esta personalidade a áureola divinal; negaram os docetas a realidade do corpo de Jesus Cristo e os Apolinaristas, a alma humana de Cristo.

Tudo fora atacado pela heresia, na pessoa de Nosso Senhor; mas a cada heresia que surgia a Igreja infalível, sob a direção do Papa de Roma, saia em defesa da única e imperecível verdade: da pessoa do Verbo divino contra Sabélio; da divindade desta pessoa, contra Ário; da realidade do corpo humano de Jesus, contra os Apolinaristas.

Bastava apenas um ponto central para suportar o ataque da parte dos hereges: era a união das duas naturezas, divina e humana, em Jesus Cristo.

Caberia a Nestório levantar esta heresia, e aos filhos de Lutero continuarem a defender este erro grotesco.

Foi em 428 que o indigno Patriarca Nestório começou a pregar que havia em Jesus Cristo duas pessoas: uma divina, como filho de Deus; outra humana, como filho de Maria.

Por isso conclui o heresiarca, Maria não pode ser chamada Mãe de Deus, mas simplesmente Mãe de Cristo ou do homem.

Concebe-se o alcance de uma tal negação. Se as duas naturezas, a divina e a humana, não são hipostaticamente unidas em Nosso Senhor Jesus Cristo, de modo a formar uma única pessoa, desaparece a Encarnação e a Redenção, porquanto o Filho de Deus, não se tendo revestido de nossa natureza, não pode ser o nosso Redentor. Somente o homem Jesus sofreu. Ora, o homem, como ser finito, só pode fazer obras finitas. Logo, a Redenção não é mais de um valor infinito; Jesus Cristo não pode mais ser adorado, pois é apenas um homem; o Salvador não é mais o Homem-Deus. Tal é o erro grotesco que Nestório, predecessor de Lutero, não temeu lançar ao mundo.

Ora, os protestantes não querem levar às últimas conseqüências a negação da maternidade divina de Nossa Senhora. Admitem em Jesus Cristo duas naturezas e uma pessoa, mas lhes repugna a união pessoal (hipostática) das duas naturezas na única pessoa de Jesus Cristo.

Basta um pequeno raciocínio para reconhecer como necessária a maternidade Divina da Santíssima Virgem: Nosso Senhor morreu como homem na Cruz (pois Deus não morre), mas nos redimiu como Deus, pelos seus méritos infinitos. Ora, a natureza humana de Nosso Senhor e a natureza divina não podem ser separadas, pois a Redenção não existiria se Nosso Senhor tivesse morrido apenas como homem. Logo, Nossa Senhora, Mãe de Nosso Senhor, mesmo não sendo mãe da divindade, é Mãe de Deus, pois Nosso Senhor é Deus. Se negarmos a maternidade de Nossa Senhora, negaremos a redenção do gênero humano ou cairíamos no absurdo de dizer que Deus é mortal!

Os protestantes, admitindo que Jesus Cristo nasceu de Maria – e não podem negá-lo, pois está no Evangelho (Mt 1, 16) -, devem admitir: que a pessoa deste Jesus é divina; que Nossa Senhora é a Mãe desta pessoa; que ela é, portanto, Mãe de Deus! É um dilema sem saída do ponto de vista racional.

O Concílio de Éfeso:

Quando o heresiarca Ário divulgou o seu erro, negando a divindade da pessoa de Jesus Cristo, a Providência Divina fez aparecer o intrépido Santo Atanásio para confundi-lo, assim como fez surgir Santo Agostinho a suplantar o herege Pelágio, e S. Cirilo de Alexandria para refutar os erros de Nestório, que haviam semeado a perturbação e a indignação no Oriente.

Em 430, o Papa São Celestino I, num concílio de Roma, examinou a doutrina de Nestório que lhe fora apresentada por S. Cirílo e condenou-a como errônea, anti-católica, herética.

S. Cirilo formulou a condenação em doze proposições, chamadas os doze anátemas, em que resumia toda a doutrina católica a este respeito.

Pode-se resumi-las em três pontos:

1) Em Jesus Cristo, o Filho do homem não é pessoalmente distinto do Filho de Deus;

2) A Virgem Santíssima é verdadeiramente a Mãe de Deus, por ser a Mãe de Jesus Cristo, que é Deus;

3) Em virtude da união hipostática, há comunicações de idiomas, isto é: denominações, propriedades e ações das duas naturezas em Jesus Cristo, que podem ser atribuídas à sua pessoa, de modo que se pode dizer: Deus morreu por nós, Deus salvou o mundo, Deus ressuscitou.

Para exterminar completamente o erro, e restringir a unidade de doutrina ao mundo, o Papa resolveu reunir o concílio de Éfeso (na Ásia Menor), em 431, convidando todos os bispos do mundo.

Perto de 200 bispos, vindos de todas as partes do orbe, reuniram-se em Éfeso. S. Cirilo presidiu a assembléia em nome do Papa. Nestório recusou comparecer perante os bispos reunidos.

Desde a primeira sessão a heresia foi condenada. Sobre um trono, no centro da assembléia, os bispos colocaram o santo Evangelho, para representar a assistência de Jesus Cristo, que prometera estar com a sua Igreja até a consumação dos séculos, espetáculo santo e imponente que desde então foi adotado em todos os concílios.

Os bispos cercando o Evangelho e o representante do Papa, pronunciaram unânime e simultaneamente a definição proclamando que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus. Nestório deixou de ser, desde então, bispo de Constantinopla.

Quando a multidão ansiosa que rodeava a Igreja de Santa Maria Maior, onde se reunia o concílio, soube da definição que proclamava Maria “Mãe de Deus”, num imenso brado ecoou a exclamação: “Viva Maria, Mãe de Deus! Foi vencido o inimigo da Virgem! Viva a grande, a augusta, a gloriosa Mãe de Deus!”

Em memória desta solene definição, o concílio juntou à saudação angélica estas palavras simples e expressivas: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte”.

Provas da Santa Escritura

Para iluminar com um raio divino esta verdade tão bela e fundamental, recorramos à Sagrada Escritura, mostrando como ali tudo proclama este título da Virgem Imaculada.

Maria é verdadeiramente Mãe de Deus.

Ela gerou um homem hipostaticamente unido à divindade; Deus nasceu verdadeiramente dela, revestido de um corpo mortal, formado do seu virginal e puríssimo sangue.

Embora, no Evangelho, Ela não seja chamada expressamente “Mãe de Cristo” ou “Mãe de Deus”, esta dignidade deduz-se, com todo o rigor, do texto sagrado.

O Arcanjo Gabriel, dizendo à Maria: “O santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35), exprime claramente que ela será Mãe de Deus.

O Arcanjo diz que o Santo que nascerá de Maria será chamado o Filho de Deus. Se o Filho de Maria é o Filho de Deus, é absolutamente certo que Maria é a Mãe de Deus.

Repleta do Espírito Santo, Santa Isabel exclama: “Donde me vem a dita que a Mãe de meu Senhor venha visitar-me?” (Lc 1, 43).

Que quer dizer isso senão que Maria é a Mãe de Deus? Mãe do Senhor ou “Mãe de Deus” são expressões idênticas.

S. Paulo diz que Deus enviou seu Filho, feito da mulher, feito sob a lei (Galat. 4, 4).

O profeta Isaías predisse que a Virgem conceberia e daria à luz um Filho que seria chamado Emanuel ou Deus conosco (Is 7, 14). Qual é este Deus? É necessariamente Aquele que, segundo o testemunho de S. Pedro, não é nem Jeremias, nem Elias, nem qualquer outro profeta, mas, sim, o Cristo, o Filho de Deus vivo.

É aquele que, conforme a confissão dos demônios, é: o Santo de Deus.

Tal é o Cristo que Maria deu à luz.

Ela gerou, pois, um Deus-homem. Logo, é Mãe de Deus por ser Mãe de um homem que é Deus e que, sendo Deus, Redimiu o gênero humano.

A Doutrina dos Santos Padres, a Tradição:

Tal é a doutrina claramente expressa no Evangelho, e sempre seguida na Igreja Católica.

Os Santos Padres, desde os tempos Apostólicos até hoje, foram sempre unânimes a respeito desta questão; seria uma página sublime se pudéssemos reproduzir as numerosas sentenças que eles nos legaram.

Citemos pelo menos uns textos dos principais Apóstolos, tirados de suas “liturgias” e transmitidas por escritores dos primeiros séculos.

Santo André diz: “Maria é Mãe de Deus, resplandecente de tanta pureza, e radiante de tanta beleza, que, abaixo de Deus, é impossível imaginar maior, na terra ou no céu.” (Sto Andreas Apost. in transitu B. V., apud Amad.).

São João diz: “Maria é verdadeiramente Mãe de Deus, pois concebeu e gerou um verdadeiro Deus, deu à luz, não um simples homem como as outras mães, mas Deus unido à carne humana.” (S. João Apost. Ibid).

S. Tiago: “Maria é a Santíssima, a Imaculada, a gloriosíssima Mãe de Deus” (S. Jac. in Liturgia).

S. Dionísio Areopagita: “Maria é feita Mãe de Deus, para a salvação dos infelizes.” (S. Dion. in revel. S. Brigit.)

Orígenes (Sec. II) escreve: “Maria é Mãe de Deus, unigênito do Rei e criador de tudo o que existe” (Orig. Hom. I, in divers.)

Santo Atanásio diz: “Maria é Mãe de Deus, completamente intacta e impoluta.” (Sto. Ath. Or. in pur. B.V.).

Santo Efrém: “Maria é Mãe de Deus sem culpa” (S. Ephre. in Thren. B.V.).

S. Jerônimo: “Maria é verdadeiramente Mãe de Deus”. (S. Jerôn. in Serm. Ass. B. V.).

Santo Agostinho: “Maria é Mãe de Deus, feita pela mão de Deus”. (S. Agost. in orat. ad heres.).

E assim por diante.

Todos os Santos Padres rivalizaram em amor e veneração, proclamando Maria: Santa e Imaculada Mãe de Deus.

Terminemos estas citações, que podíamos prolongar por páginas afora, pela citação do argumento com que S. Cirilo refutou Nestório:

“Maria Santíssima, diz o grande polemista, é Mãe de Cristo e Mãe de Deus. A carne de Cristo não foi primeiro concebida, depois animada, e enfim assumida pelo Verbo; mas no mesmo momento foi concebida e unida à alma do Verbo. Não houve, pois, intervalo de tempo entre o instante da Conceição da carne, que permitiria chamar Maria “Mãe de um homem”, e a vinda da majestade divina. No mesmo instante a carne de Cristo foi concebida e unida à alma e ao Verbo”.

Vê-se, através destas citações, que nenhuma dúvida, nenhuma hesitação existe sobre este ponto no espírito dos Santos Padres. É uma verdade Evangélica, tradicional, universal, que todos aceitam e professam.

Conclusão: Dever de culto à Mãe de Deus

Maria é Mãe de Deus… é absolutamente certo. Esta dignidade supera todas as demais dignidades, pois representa o grau último a que pode ser elevada uma criatura.

Oro, toda dignidade supõe um direito; e não há direito numa pessoa, sem que haja dever noutra.

Se Deus elevou tão alto a sua Mãe, é porque Ele quer que ela seja por nós honrada e exaltada.

Não estamos bastante convencidos desta verdade, porque, comparando Maria Santíssima com as outras mães, representamo-nos a qualidade de Mãe de Deus sob seu aspecto exterior e acidental, enquanto na realidade a base de sua excelência ela a possui em seu “próprio ser moral”, que influi em seu “ser físico”.

Maria concebeu o Verbo divino em seu seio, porém esta Conceição foi efeito de uma plenitude de graças e de uma operação do Espírito Santo em sua alma.

Pode-se dizer que a mãe não se torna mais recomendável por ter dado à luz um grande homem, pois isto não lhe traz nenhum aumento de virtude ou de perfeição; mas a dignidade de Mãe de Deus, em Maria Santíssima, é a obra de sua santificação, da graça que a eleva acima dos próprios anjos, da graça a que ela foi predestinada, e na qual foi concebida, para alcançar este fim sublime de ser “Mãe de Deus”: é a sua própria pessoa.

Diante de tal maravilha, única no mundo e no céu, eu pergunto aos pobres protestantes: não é lógico, não é necessário, não é imperioso que os homens louvem e exaltem àquela que Deus louvou e exaltou acima de todas as criaturas?

Se fosse proibido cultuar à Santíssima Virgem, como querem os protestantes, o primeiro violador foi o próprio Deus, que mandou saudar à Virgem Maria, pelo arcanjo S. Gabriel: “Ave, cheia de graça!” (Lc 1, 28).

Santa Isabel: “Bendita sois vós entre as mulheres” (Lc 1, 42)

Igualmente, a própria Nossa Senhora nos diz: “Doravante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada…” (Lc 1, 48).

Todos esses atos indicam o culto à Nossa Senhora, a honra que lhe é devida.

O Arcanjo é culpado, Santa Isabel é culpada, os evangelistas são culpados, os santos são culpados e 19 séculos de cristianismo também… Só os protestantes não…

Desde os primórdios do Cristianismo, como já vimos, era comum o culto à Maria Santíssima.

Em 340, S. Atanásio, resumindo os dizeres de seus antecessores nos primeiros séculos, S. Justino, S. Irineu, Tertuliano, e Orígenes, exclama: “Todas as hierarquias do céu vos exaltam, ó Maria, e nós, que somos vossos filhos da terra, ousamos invocar-vos e dizer-vos: Ó vós, que sois cheia de graça, ó Maria, rogai por nós!”

Nas catacumbas encontram-se, em toda parte, imagens e estátuas da Virgem Maria.

O culto de Nossa Senhora não é um adorno da religião, mas uma peça constitutiva, parte integral, e indissoluvelmente ligada a todas as verdades e mistérios evangélicos. Querer isolá-lo do conjunto da doutrina de Jesus Cristo é vibrar golpe mortal na religião inteira, fazê-la cair, e nada mais compreender da grandeza em que Deus vem unir-se às criaturas.

Nossa Senhora é Mãe de Deus: “Maria de qua natus est Jesus!”

Tudo está compendiado nesta frase. Maria, simples criatura; Jesus, Deus eterno; e a encarnação “de qua natus est”; afinal, a união indissolúvel que produz o nascimento, entre o Filho e a Mãe, a grande e incomparável obra-prima de Deus.

Ele pode fazer mundos mais vastos, um céu mais esplêndido, mas não pode fazer uma Mãe maior que a Mãe de Deus! (S. Bernardo Spec. B.V. c 10). Aqui Ele se esgotou. É a última palavra de seu poder e de seu amor!

 
 
 
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Esta obra é inteiramente dedicada à Santíssima Virgem Maria!

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